Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
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CAPÍTULO V
DA MATURIDADE À VELHICE
continuando...
Normalmente a avó domina sua hostilidade; por vezes obstina-se em ver no recém-nascido o filho de seu filho, e ama-o
tiranicamente; mas geralmente a jovem mãe e a mãe desta o
reivindicam; ciumenta, a avó nutre, pelo bebê uma dessas afeições ambíguas em que a inimizade se dissimula sob a figura da
ansiedade.
A atitude da mãe em relação à filha adulta é muito ambivalente: no filho é um deus que procura; na filha encontra um
duplo. O "duplo" é um personagem ambíguo: assassina aquele
de quem emana, como se vê nos contos de Poë, no Retrato de
Dorian Grey, na história que conta Marecel Schwob. Assim a
filha, tornando-se mulher, condena a mãe à morte; e, no entanto,
permite-lhe sobreviver a si mesma. As condutas da mãe são muito diferentes segundo apreende, no desenvolvimento do filho,
uma promessa de ruína ou de ressurreição.
Muitas mães retesam-se na hostilidade; não aceitam ser
suplantadas pela ingrata que lhes deve a vida; sublinhou-se o
ciúme da coquete pela adolescente que lhe denuncia os artifícios: quem detesta uma rival em toda mulher, detestará a rival
até em sua filha; afasta-se dela ou a sequestra, ou se empenha
em lhe recusar quaisquer possibilidades. Quem se glorificava
de ser, de maneira exemplar e única, a Esposa, a Mãe, não recusa
menos ferozmente deixar-se destronar; continua a afirmar que
a filha é uma criança, considera os empreendimentos dela como
um jogo pueril; é jovem demais para se casar, frágil demais
para procriar; se se obstina em querer um marido, um lar, filhos,
é simplesmente por afetação; incansavelmente, a mãe critica,
zomba, ou vaticina desgraças. Se lhe permitem, condena a filha
a uma eterna infância; se não lhe permitem, tenta arruinar essa
vida adulta que a outra se arroga. Vimos que amiúde o consegue: muitas jovens mulheres permanecem estéreis. Abortam,
mostram-se incapazes de amamentar e educar os filhos, de dirigir a casa por causa dessa influência maléfica. Sua vida conjugal revela-se impossível. Infelizes, isoladas, só encontram refúgio nos braços soberanos da mãe. Se lhe resistem, um conflito perpétuo as oporá uma a outra; a mãe frustrada transporta
em grande parte para o genro a irritação que provoca nela a
insolente independência da filha.
A mãe que se identifica apaixonadamente com a filha não
é menos tirânica; o que quer é, munida de sua experiência madura, recomeçar a juventude; assim salvará seu passado em se
salvando dele; escolherá ela própria um genro de acordo com o
marido sonhado que não teve; coquete, meiga, imaginará de
bom grado que é a ela que, em alguma região secreta do coração, ele desposa; através da filha satisfará seus velhos desejos de riqueza, de êxito, de glória. Foram muitas vezes descritas essas
mulheres que "empurram" fogosamente as filhas pelos caminhos
da galanteria, do cinema, do teatro; a pretexto de vigiá-las, apropriam-se de sua vida: citaram-me algumas que chegam a enfiar
em suas camas os pretendentes à jovem. Mas é raro que esta suporte indefinidamente tal tutela; no dia em que tiver encontrado
marido ou protetor sério, rebelar-se-á. A sogra que começara
por adorar o genro torna-se então hostil a ele; geme sobre a ingratidão humana, apresenta-se como vítima; torna-se por sua vez
uma mãe inimiga. Pressentindo essas decepções, muitas mulheres encerram-se na indiferença quando veem os filhos crescer,
mas disso tiram então pouca alegria. É preciso à mãe uma
mistura rara de generosidade e de desapego para encontrar na
vida dos filhos um enriquecimento, sem se tornar tirana nem
os transformar em carrascos. Os sentimentos da avó em relação aos netos prolongam os
que ela dedica à filha: frequentemente transfere para eles sua
hostilidade. Não é somente por preocupação com a opinião pública que tantas mulheres obrigam a filha seduzida a abortar, a
abandonar o filho, a suprimi-lo: são muito felizes por proibir--lhes a maternidade; obstinam-se em querer deter para si mesmas
esse privilégio.
Mesmo à mãe legítima, aconselharão de bom
grado a abortarem, a não amamentarem, a afastarem-no. Com
sua indiferença, negarão essa pequena existência impudente; ou
então estarão incessantemente ocupadas em ralhar com a criança,
castigá-la e até maltratá-la. Ao contrário, a mãe que se identifica com a filha acolhe muitas vezes os filhos desta com maior
ansiedade do que a jovem mulher: esta está desnorteada com a
chegada do pequeno desconhecido; a avó reconhece-o: recua
vinte anos no tempo, torna a ser uma jovem parturiente; todas
as alegrias da posse e do domínio, que de há muito seus filhos
não lhe davam mais, são-lhe devolvidas, todos os desejos de maternidade a que renunciara no momento da menopausa são milagrosamente satisfeitos; é ela a verdadeira mãe, assume o encargo do bebê com autoridade e, se lhe entregarem, a ele se dedicará com paixão. Infelizmente para a avó, a jovem mãe faz questão de afirmar seus direitos: a avó é tão somente autorizada a
desempenhar o papel de assistente que outrora as mais velhas desempenharam junto dela; sente-se destronada; e depois é preciso contar com a mãe do genro de quem, naturalmente, tem ciúmes. O despeito perverte muitas vezes o amor espontâneo que
a princípio devotava à criança. A ansiedade que amiúde se
observa nas avós traduz a ambivalência de seus sentimentos: adoram o bebê na medida em que lhes pertence, são hostis ao pequeno que também é estranho a elas, têm vergonha dessa inimizade. Entretanto se, renunciando a possuí-los inteiramente, a
avó conserva pelos netos uma verdadeira afeição, pode desempenhar na vida deles um papel privilegiado de divindade tutelar:
não se reconhecendo nem direitos nem responsabilidades, ama-os
comi uma generosidade pura; não acarinha sonhos narcisistas
através deles, não lhes pede nada, não os sacrifica a um futuro
a que não estará presente; o que adora são os pequenos seres de carne e osso que hoje se acham à sua frente, em sua contingência
e em sua gratuidade; não é uma educadora; não encarna a
justiça abstrata, a lei.
Daí é que virão os conflitos que por
vezes a opõem aos pais.
Em certos casos a mulher não tem descendentes ou não se
interessa pela posteridade; na ausência de laços naturais com
filhos ou netos, ela tenta algumas vezes criar artificialmente homólogos. Propõe aos jovens uma ternura maternal; quer sua
afeição permaneça platônica ou não, não é somente por hipocrisia que declara amar seu jovem protegido "como um filho":
os sentimentos maternos, inversamente, são amorosos. É verdade que os êmulos de Mme de Warens se comprazem em satisfazer,
em ajudar, em formar um homem com generosidade: querem ser
fonte, condição necessária, fundamento de uma existência que as
ultrapassa; fazem-se mães e buscam-se em seu amante muito mais
sob esse aspecto do que sob o aspecto de uma amante. Também
constantemente são as filhas que a mulher maternal adota: ainda
assim suas relações revestem formas mais ou menos sexuais; mas,
platônica ou carnalmente, o que ela procura em suas protegidas
é um duplo milagrosamente rejuvenescido. A atriz, a dançarina,
a cantora tornam-se pedagogas: formam alunas; a intelectual
— como Mme de Charrière na solidão de Colombier — doutrina discípulos; a devota reúne filhas espirituais em torno de si.
A mulher galante torna-se alcoviteira. Se emprestam a seu proselitismo tão ardoroso zelo, nunca é por simples interesse: procuram apaixonadamente reencarnar-se. Sua generosidade tirânica
engendra mais ou menos os mesmos conflitos que entre a mãe
e as filhas unidas pelos laços do sangue. É possível também
adotar netos: as tias-avós, as madrinhas desempenham de bom
grado um papel análogo ao das avós. Mas é, em todo caso,
muito raro que a mulher encontre em sua posteridade — natural
ou eleita — uma justificação para sua vida declinante: malogra
em fazer sua a empresa de uma dessas jovens existências. Ou
se obstina em seu esforço por anexá-la, ou se consome em lutas
e dramas que a deixam desiludida, quebrada; ou se resigna a
uma participação modesta. É o caso mais comum. A mãe envelhecida, a avó, reprimem seus desejos dominadores, dissimulam
seus rancores; contentam-se com o que os filhos consentem em
dar-lhes. Mas então não encontram mais socorro neles. Continuam disponíveis diante do deserto do futuro, presas da solidão,
da saudade, do tédio.
Abordamos aqui a lamentável tragédia da mulher idosa: ela
sabe-se inútil; durante toda a sua vida, a mulher burguesa teve
amiúde que resolver o problema irrisório: como matar o tempo?
Mas, uma vez educados os filhos, o marido instalado na vida,
os dias não acabam mais. Os "trabalhos femininos" foram inventados a fim de dissimular essa horrível ociosidade; as mãos bordam, fazem tricô, mexem; não se trata de um trabalho de verdade porque o objeto produzido não é o fim visado; tem pouca
importância e muitas vezes é um problema saber a que destiná-lo:
livram-se dele dando-o a uma amiga, a uma organização de caridade, atopetando lareiras e cômodas; não é tampouco um
jogo que revela, em sua gratuidade, a pura alegria de existir;
e é apenas um álibi, porquanto o espírito permanece desocupado:
é o divertimento absurdo tal qual o descreve Pascal; com a agulha ou o crochê, a mulher tece tristemente o próprio vazio de
seus dias. A aquarela, a música, a leitura têm quase o mesmo
papel; a mulher desocupada não tenta, entregando-se a isso, adquirir um domínio sobre o mundo, busca apenas desentediar-se;
uma atividade que não se abre para o futuro recai na vaidade
da imanência; a ociosa abre um livro, larga-o, abre o piano,
fecha-o, volta a seu bordado, boceja e acaba por ligar o telefone.
Com efeito, é na vida mundana que ela prefere procurar socorro;
sai, faz visitas, atribui — como Mrs. Dalloway — enorme importância a essas recepções; assiste a todos os casamentos, a todos
os enterros; não tendo mais existência própria, nutre-se das
presenças de outrem; de coquete, passa a comadre: observa, comenta; compensa sua inação dispersando em torno de si críticas
e conselhos. Põe sua experiência a serviço de todos os que não
lhe pedem. Se tem meios organiza um salão: espera assim apropriar-se das empresas e êxitos estranhos; sabe-se com que despotismo Mme du Deffand, Mme Verdurin governavam seus súditos. Ser um centro de atração, uma encruzilhada, uma inspiradora, criar um "ambiente" já é um sucedâneo da ação. Há
outras maneiras discretas de intervir no mundo; na França
existem "obras" e algumas "associações" mas é principalmente na
América do Norte que as mulheres se reúnem em clubes onde jogam bridge, distribuem prêmios literários e meditam sobre melhoramentos sociais. O que nos dois continentes caracteriza a maior
parte dessas associações é que elas são, em si, sua própria razão
de ser: os objetivos que pretendem visar são apenas pretextos.
As coisas passam-se exatamente como no apólogo de Kafka (As
Armas da Cidade): ninguém se preocupa com edificar a torre de Babel; em torno de sua localização ideal constrói-se uma
vasta aglomeração que consome todas as forças em se administrar, em se ampliar, em resolver questões intestinas.
Assim
vivem as senhoras que se ocupam de obras, organizando a maior
parte do tempo sua organização; elegem uma diretoria, elaboram
estatutos, discutem entre si e rivalizam com uma associação similar; é preciso que não lhes roubem seus pobres, seus doentes,
seus feridos, seus órfãos; preferirão deixá-los que morram a
cedê-los aos vizinhos. E estão muito longe de desejar um regime que, suprimindo as injustiças e os abusos, tornaria inútil
sua dedicação; abençoam as guerras, as fomes que as transformam em benfeitoras da humanidade. É claro que, a seus olhos,
xales e pacotes de presentes não se destinam aos soldados, nem
aos esfaimados; estes é que são feitos de propósito para receber
tricôs e pacotes.
Apesar de tudo, alguns desses grupos alcançam resultados
positivos. Nos Estados Unidos, a influência das Moms veneradas
é poderosa; explica-se pelos lazeres que lhes proporciona uma
existência parasitária: por isso é nefasta. "Não conhecendo nada
de medicina, arte, ciência, religião, direito, saúde, higiene. .., diz
Philipp Wyllie (Generation of Vipers), falando da Mom norte--americana, interessa-se raramente pelo que faz como membro de
uma dessas inúmeras organizações: basta-lhe que seja alguma coisa." Seu esforço não se integra em um plano coerente e construtivo, não visa fins objetivos: tende apenas a manifestar seus gostos, preconceitos ou a servir seus interesses. No terreno cultural,
por exemplo, desempenham um papel considerável: são elas que
consomem maior número de livros; mas os leem como jogam uma
paciência; a literatura assume seu sentido e dignidade quando
se endereça a indivíduos empenhados em projetos, quando os ajuda a se ultrapassarem para horizontes mais amplos; cumpre que
ela seja integrada no movimento da transcendência humana; ao
passo que a mulher degrada livros e obras de arte abismando-os em
sua imanência; o quadro torna-se bibelô, a música refrão vulgar,
o romance um devaneio tão vão quanto uma coifa de crochê. São
as americanas as responsáveis pelo aviltamento dos best-sellers:
estes não somente pretendem agradar, como ainda agradar a ociosas ávidas de evasão. Quanto ao conjunto de suas atividades,
Philipp Wyllie assim as define:
Aterrorizam os políticos até os levarem a um servilismo choroso e terrificam os pastores; aborrecem os presidentes de bancos e pulverizam os diretores de escolas. A Mom multiplica as organizações cujo fim real é reduzir seus próximos a uma abjeta complacência para com seus desejos egoístas... expulsa da cidade e, se possível, do Estado, as jovens prostitutas... consegue que o ônibus passe por onde lhe seja prático, 'mais do que ao operário... organiza quermesses e festas de caridade prodigiosas entregando a renda ao porteiro para que compre cerveja, a fim de tratar da ressaca dos membros da diretoria no dia seguinte... Os clubes fornecem à Mom oportunidades incalculáveis de enfiar o nariz nos negócios dos outros.
Há muita verdade nesta sátira agressiva. Não sendo especializadas nem em política, nem em economia, nem em qualquer
disciplina técnica, as velhas senhoras não têm nenhuma influência concreta na sociedade; ignoram os problemas que a ação
coloca; são incapazes de elaborar algum programa construtivo.
Sua moral é abstrata e formal como os imperativos de Kant;
decretam proibições ao invés de procurar descobrir os caminhos
do progresso; não tentam criar positivamente situações novas;
atacam as que já existem a fim de eliminar o mal que comportam; é o que explica que sempre se coliguem contra alguma
coisa: contra o álcool, a prostituição, a pornografia; não compreendem que um esforço puramente negativo é destinado ao malogro como o provou na América o malogro da "lei seca" e na
França a lei que Marthe Richard fez votar. Enquanto a mulher
permanecer parasita, não poderá eficientemente participar da
elaboração de um mundo melhor.
Pode acontecer, apesar de tudo, que certas mulheres se empenhem de corpo e alma numa empresa e tornem-se realmente ativas; então não procuram mais ocupar-se tão somente, visam certos fins; produtoras autônomas, evadem-se da categoria parasitária que aqui consideramos: mas essa conversão é rara. A maioria das mulheres, em suas atividades privadas ou públicas, visa não a um resultado a atingir e sim a se ocupar; e toda ocupação é vã quando é apenas um passatempo. Muitas delas sofrem com isso; tendo atrás de si uma vida já acabada, conhecem o mesmo desnorteamento que os adolescentes cuja vida não se abriu ainda; nada as solicita, em torno de ambos é o deserto; em face de todas as ações murmuram: para quê? Mas o adolescente, queira ou não, e arrastado para uma vida de homem que lhe desvenda responsabilidades, objetivos, valores; é jogado no mundo, toma partido, empenha-se. A mulher idosa, se lhe sugerem que parta novamente para o futuro, responde: tarde demais. Não porque o tempo seja agora medido: uma mulher é aposentada muito cedo; mas falta-lhe o entusiasmo, a confiança, a esperança, a cólera que lhe permitiriam descobrir novos objetivos ao redor de si. Ela se refugia na rotina que sempre constituiu seu quinhão; faz da repetição um sistema, entrega-se a manias caseiras; afunda cada vez mais profundamente na devoção; encerra-se no estoicismo como Mme de Charrière. Torna-se seca, indiferente, egoísta.
Pode acontecer, apesar de tudo, que certas mulheres se empenhem de corpo e alma numa empresa e tornem-se realmente ativas; então não procuram mais ocupar-se tão somente, visam certos fins; produtoras autônomas, evadem-se da categoria parasitária que aqui consideramos: mas essa conversão é rara. A maioria das mulheres, em suas atividades privadas ou públicas, visa não a um resultado a atingir e sim a se ocupar; e toda ocupação é vã quando é apenas um passatempo. Muitas delas sofrem com isso; tendo atrás de si uma vida já acabada, conhecem o mesmo desnorteamento que os adolescentes cuja vida não se abriu ainda; nada as solicita, em torno de ambos é o deserto; em face de todas as ações murmuram: para quê? Mas o adolescente, queira ou não, e arrastado para uma vida de homem que lhe desvenda responsabilidades, objetivos, valores; é jogado no mundo, toma partido, empenha-se. A mulher idosa, se lhe sugerem que parta novamente para o futuro, responde: tarde demais. Não porque o tempo seja agora medido: uma mulher é aposentada muito cedo; mas falta-lhe o entusiasmo, a confiança, a esperança, a cólera que lhe permitiriam descobrir novos objetivos ao redor de si. Ela se refugia na rotina que sempre constituiu seu quinhão; faz da repetição um sistema, entrega-se a manias caseiras; afunda cada vez mais profundamente na devoção; encerra-se no estoicismo como Mme de Charrière. Torna-se seca, indiferente, egoísta.
É justamente no fim da vida, quando renunciou à luta, quando a aproximação da morte a liberta da angústia do futuro que
a mulher velha encontra geralmente a serenidade. Amiúde o
marido é mais idoso, ela assiste à sua decadência com silenciosa complacência: é seu revide; se ele morre em primeiro
lugar, ela suporta displicentemente o luto; observou-se mais de
uma vez que os homens ficam muito mais acabrunhados com
uma viuvez tardia, auferem do casamento maiores benefícios do
que as mulheres, principalmente na velhice, porque então o universo se concentrou dentro dos limites do lar; os dias presentes
não transbordam mais sobre o futuro; ela é quem lhes garante o
ritmo monótono e sobre eles reina. Quando perde suas funções
públicas, o homem torna-se totalmente inútil; a mulher conserva
pelo menos a direção da casa; ela é necessária ao marido ao
passo que ele é somente importuno. De sua independência, orgulham-se as mulheres; põem-se afinal a olhar o mundo com os
próprios olhos; dão-se conta de que foram iludidas e mistificadas
durante toda a vida; lúcidas, desconfiadas, atingem frequentemente um cinismo saboroso. Em particular, a mulher que "viveu"
tem um conhecimento dos homens que nenhum homem compartilha; porque ela não viu sua figura pública e sim o indivíduo contingente, que cada qual resolve ser na ausência de seus
semelhantes; ela conhece também as mulheres que só se mostram
em sua espontaneidade a outras mulheres; conhece o inverso do
cenário. Mas, se sua experiência permite-lhe denunciar mistificações e mentiras, não basta porém para lhe revelar a verdade.
Divertida ou amarga, a sabedoria da mulher velha permanece ainda inteiramente negativa: é contestação, acusação, recusa; é estéril.
Em seus pensamentos, como em seus atos, a mais alta forma de
liberdade que a mulher parasita pode conhecer é o desafio estoico ou a ironia cética. Em nenhuma idade de sua vida ela consegue ser ao mesmo tempo eficiente e independente.
As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
continua página 363...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo V - Da Maturidade à Velhice (3)
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Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"
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