A ORDEM
A ordem: fuga e aguilhão
"Uma ordem é uma ordem": o caráter definitivo e indiscutível que é próprio da ordem pode também ter contribuído para
que tão pouco se tenha refletido a respeito dela. Ela é aceita
como algo que sempre existiu assim; parece ser tão natural
quanto indispensável. Desde pequeno se está acostumado às
ordens; elas formam uma boa parte daquilo que chamamos
educação; toda a vida adulta também está repleta delas, seja
nas esferas do trabalho, da luta ou da fé. Praticamente ninguém
se perguntou o que é exatamente uma ordem; se ela realmente
é tão simples quanto parece ser; se, apesar da rapidez e da
lisura com a qual provoca o previsto, não deixa outros vestígios mais profundos, talvez até mesmo hostis, no homem que
obedece.
A ordem é mais antiga do que a fala, caso contrário os
cães não a poderiam entender. O adestramento dos animais
baseia-se justamente em que eles, sem conhecer a fala, aprendem a compreender o que se espera deles. Por meio de ordens
breves e muito claras, que em princípio não diferem das que
são dadas aos homens, lhes é comunicada a vontade do domador. Eles obedecem a esta vontade, da mesma forma como
acatam as proibições. Tem-se portanto todo o direito de buscar
raízes mais antigas da ordem; pelo menos está mais do que
claro que alguma forma de ordem existe também fora da sociedade humana.
A forma mais antiga do efeito da ordem é a fuga. Ela é
ditada ao animal por alguém mais forte, por uma criatura fora
dele. A fuga é espontânea somente na aparência; o perigo sempre tem uma forma; e sem supor esta forma, animal algum
fugiria. A ordem de fuga é tão forte e direta quanto o olhar.
Desde o começo pertence à essência da fuga a diversidade
de ambas as criaturas que desta maneira entram em relacionamento uma com a outra. Uma delas apenas dá a entender que
quer devorar a outra: daí a seriedade mortal da fuga. A "ordem" obriga o animal mais fraco a se colocar em movimento,
independentemente de ele ser perseguido logo em seguida ou
não. Importa apenas a intensidade da ameaça: a intensidade da
voz, do olhar, da forma que impõe o terror.
A ordem é derivada, portanto, da ordem de fuga: em sua
forma mais primitiva, ela ocorre entre animais de diferentes
espécies, dos quais um ameaça o outro. A grande diferença de
poder entre ambos, o fato de que um deles — poderíamos
dizer — está acostumado a servir de presa ao outro, o inabalável desta relação que parece estar estabelecida desde sempre,
tudo isto confere algo de absoluto e de irrevogável ao acontecimento. A fuga é a última instância à qual se pode apelar
contra esta sentença de morte. O rugir de um leão que sai à
caça realmente é uma sentença de morte: trata-se de um som
de sua fala que todas as suas vítimas entendem; e é possível que
esta ameaça seja a única coisa em comum entre elas, que são
tão distintas entre si. A ordem mais antiga — dada muito
antes de os homens existirem — é uma sentença de morte e
obriga a vítima à fuga. Será bom lembrar isso quando abordarmos a questão da ordem entre os homens. A sentença de morte
e o seu terror desapiedado transparecem por trás de toda ordem.
O sistema das ordens entre os homens está constituído de tal
forma que geralmente as pessoas escapam da morte; mas o
terror em relação a ela, a ameaça, está sempre contido na ordem; além disso, a manutenção e a execução de verdadeiras
sentenças de morte mantêm desperto o terror diante de cada
ordem, diante das ordens de maneira geral.
Mas agora esqueçamos por um momento o que já descobrimos a respeito da origem da ordem e vamos contemplá-la
sem preconceitos, como se o fizéssemos pela primeira vez.
A primeira coisa que chama a atenção numa ordem é o
fato de ela provocar uma ação. Um dedo estendido apontando
numa determinada direção pode ter o efeito de uma ordem:
todos os olhos que percebem esse dedo viram-se na direção
indicada. Parece portanto que a ação provocada, cuja direção
está determinada, é tudo o que importa na ordem. Sua difusão
numa direção é particularmente importante; sua reversão é tão
imprópria quanto sua modificação. É próprio da ordem não admitir réplica. Ela não deve ser
explicada, discutida ou colocada em dúvida. É clara e concisa,
já que deve ser entendida imediatamente. Um atraso na recepção prejudica sua força. Em cada repetição que não for seguida de execução, a ordem perde um pouco de sua vida; após
algum tempo ficará esgotada ou impotente, prostrada no solo;
e nestas circunstâncias é melhor não tentar reavivá-la. Porque
a ação que a ordem provoca está ligada ao seu instante. Ela
também pode ser fixada para mais tarde, mas deve estar determinada,
seja de forma expressa, seja de maneira claramente manifesta pela sua própria natureza.
A ação que é executada em virtude de uma ordem é distinta de todas as demais ações. É considerada como algo estranho; sua lembrança tem algo de passageiro. Alguma coisa diferente passa junto à pessoa como um vento fugaz. A rapidez de
execução que uma ordem exige talvez contribua para que ela
seja vista como algo estranho; mas só isso não é suficiente para
explicá-la. Para a ordem é importante que ela venha de fora.
Sozinho, ninguém teria tido tal ideia. Ela pertence aos elementos da vida que são impostos; ninguém os desenvolve dentro
de si mesmo. Mesmo quando aparecem repentinamente homens
solitários com uma massa monstruosa de ordens tentando fundar uma nova fé, renovando uma fé antiga, a aparência de uma
carga alheia, imposta, é estritamente mantida. Estas pessoas
jamais falarão em seu próprio nome. O que elas exigem dos
outros lhes foi ordenado; e, por mais que mintam em algumas
coisas, neste ponto sempre são sinceros: acreditam ter sido
enviados.
A origem da ordem, que é algo estranho, também deve
ser considerada como algo mais forte. Obedece-se porque não
seria possível combater com perspectivas de êxito; quem vencesse, mandaria. O poder da ordem não deve ser colocado em
dúvida; caso este poder tenha diminuído, ele deve estar disposto a reafirmar-se por meio de lutas. Na maior parte das
vezes este poder é reconhecido durante muito tempo. É surpreendente notar quão poucas vezes se exigem novas decisões;
os efeitos das decisões antigas perduram. Lutas vitoriosas continuam vivendo nas ordens; em cada ordem obedecida renova-se uma vitória antiga.
Visto de fora, o poder de quem manda cresce de forma incessante. A menor ordem consegue acrescentar-lhe algo. Ela não é dada habitualmente apenas para ser útil a quem se utiliza dela; existe também na natureza da própria ordem, no reconhecimento que encontra, no espaço que atravessa, na sua pontualidade peremptória, algo que garante ao poder uma maior segurança e um crescimento de seu âmbito. O poder emite ordens como uma nuvem de flechas mágicas: as vítimas que são atingidas por elas se oferecem ao todo-poderoso, chamadas, tocadas e conduzidas por essas flechas.
No entanto a simplicidade e a unidade da ordem que à primeira vista parecem ser absolutas e incontestáveis, quando examinadas com maior atenção revelam-se aparentes. A ordem pode ser decomposta. É necessário decompô-la, caso contrário jamais conseguiremos compreendê-la realmente.
Visto de fora, o poder de quem manda cresce de forma incessante. A menor ordem consegue acrescentar-lhe algo. Ela não é dada habitualmente apenas para ser útil a quem se utiliza dela; existe também na natureza da própria ordem, no reconhecimento que encontra, no espaço que atravessa, na sua pontualidade peremptória, algo que garante ao poder uma maior segurança e um crescimento de seu âmbito. O poder emite ordens como uma nuvem de flechas mágicas: as vítimas que são atingidas por elas se oferecem ao todo-poderoso, chamadas, tocadas e conduzidas por essas flechas.
No entanto a simplicidade e a unidade da ordem que à primeira vista parecem ser absolutas e incontestáveis, quando examinadas com maior atenção revelam-se aparentes. A ordem pode ser decomposta. É necessário decompô-la, caso contrário jamais conseguiremos compreendê-la realmente.
Toda ordem consta de um impulso e de um aguilhão. O
impulso força o receptor à execução, de um modo adequado
ao conteúdo da ordem. O aguilhão permanece dentro de quem
executa a ordem. Quando as ordens funcionam normalmente,
como se espera delas, nada se vê deste aguilhão. Ele é secreto,
não se suspeita de sua existência; talvez se manifeste, levemente perceptível, numa pequena resistência antes de a ordem
ser obedecida.
Mas o aguilhão penetra fundo no homem que cumpriu
uma ordem e permanece lá dentro, inalterável. Entre todas as
configurações psíquicas não existe, qualquer outra coisa que seja
menos mutável. O conteúdo da ordem mantém-se conservado
no aguilhão; sua força, seu alcance, suas limitações, tudo foi
prefigurado para sempre no momento em que a ordem foi dada.
Podem-se passar anos ou décadas sem que esta parte aprofundada e armazenada da ordem (sua réplica em ponto pequeno)
apareça novamente. Mas é importante saber que ordem alguma
se perde; ela nunca se acaba realmente com sua execução —
ela é armazenada para sempre.
Os receptores de ordens mais afetados são as crianças. Parece um milagre que elas não sucumbam debaixo do peso de tantas ordens, que elas consigam sobreviver aos mandos e desmandos de seus educadores. O fato de elas, com a mesma crueldade de seus educadores, transmitirem posteriormente tudo isso aos seus próprios filhos é algo tão natural quanto mastigar e falar. Mas o que sempre causará surpresa é que elas tenham mantido intactas as ordens desde a mais tenra infância; estas ordens estão à disposição assim que a próxima geração ofereça suas vítimas. Nenhuma ordem foi modificada no menor detalhe sequer; ela poderia ter sido dada uma hora atrás apenas, mas na verdade ela foi dada há vinte, trinta ou mais anos. A força com que a criança recebe ordens, a tenacidade e fidelidade com que as guarda dentro de si não são um mérito individual. Inteligência ou talento especial nada têm a ver com isso. Toda a criança, até mesmo a mais comum, não perde nem perdoa nenhuma das ordens com as quais foi maltratada.
É mais fácil que se modifique o aspecto de um homem, as características pelas quais os outros o reconhecem — a postura da cabeça, a expressão da boca, o modo de olhar —, do que a imagem da ordem que permaneceu dentro dele como um aguilhão e que foi armazenada de maneira inalterável. Inalterada, a ordem volta a ser expulsa, mas para isto é preciso que haja uma oportunidade; a nova situação na qual esta ordem se desprende deve assemelhar-se à situação antiga na qual foi recebida. A reconstrução destas situações primordiais, mas de maneira inversa, é uma das grandes fontes de energia psíquica do homem. O incentivo, a "espora", como se diz, para conseguir alcançar isto ou aquilo é o impulso mais profundo para desfazer-se de ordens recebidas no passado.
Os receptores de ordens mais afetados são as crianças. Parece um milagre que elas não sucumbam debaixo do peso de tantas ordens, que elas consigam sobreviver aos mandos e desmandos de seus educadores. O fato de elas, com a mesma crueldade de seus educadores, transmitirem posteriormente tudo isso aos seus próprios filhos é algo tão natural quanto mastigar e falar. Mas o que sempre causará surpresa é que elas tenham mantido intactas as ordens desde a mais tenra infância; estas ordens estão à disposição assim que a próxima geração ofereça suas vítimas. Nenhuma ordem foi modificada no menor detalhe sequer; ela poderia ter sido dada uma hora atrás apenas, mas na verdade ela foi dada há vinte, trinta ou mais anos. A força com que a criança recebe ordens, a tenacidade e fidelidade com que as guarda dentro de si não são um mérito individual. Inteligência ou talento especial nada têm a ver com isso. Toda a criança, até mesmo a mais comum, não perde nem perdoa nenhuma das ordens com as quais foi maltratada.
É mais fácil que se modifique o aspecto de um homem, as características pelas quais os outros o reconhecem — a postura da cabeça, a expressão da boca, o modo de olhar —, do que a imagem da ordem que permaneceu dentro dele como um aguilhão e que foi armazenada de maneira inalterável. Inalterada, a ordem volta a ser expulsa, mas para isto é preciso que haja uma oportunidade; a nova situação na qual esta ordem se desprende deve assemelhar-se à situação antiga na qual foi recebida. A reconstrução destas situações primordiais, mas de maneira inversa, é uma das grandes fontes de energia psíquica do homem. O incentivo, a "espora", como se diz, para conseguir alcançar isto ou aquilo é o impulso mais profundo para desfazer-se de ordens recebidas no passado.
Somente a ordem executada é que deixa o seu aguilhão
cravado em quem a cumpriu. Quem evita as ordens também
não precisa armazená-las. O homem "livre" é somente aquele
que aprendeu a se desviar das ordens, e não aquele que somente mais tarde consegue se libertar delas, Mas quem necessita
de mais tempo para esta libertação, ou quem não é capaz disso,
sem dúvida alguma é a pessoa mais carente de liberdade.
Nenhum homem imparcial considera como uma carência
de liberdade obedecer a seus próprios impulsos. Mesmo quando estes impulsos se tornam mais fortes e sua satisfação leva
às mais perigosas complicações, o indivíduo tem a impressão
de que está agindo a partir de si mesmo. Mas, quando ele se
opõe dentro de si à ordem que lhe foi dada de fora para dentro
e que ele foi obrigado a executar, então fala-se de pressão, e
a pessoa se reserva o direito de reversão ou de rebelião.
continua página 455...
____________________
Leia também:
Massa e Poder - A Ordem: Fuga e Aguilhão
____________________
ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
_______________________
Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht
"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."
__________________
e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
__________________
e perguntas sem resposta te incomodam?
Nenhum comentário:
Postar um comentário