segunda-feira, 6 de julho de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: Leonizando

Edgar Allan Poe - Contos


Leonizando
Todo mundo ficou 
na ponta dos pés, em exaltada admiração. 
Bispo Hall, Satires

     Sou — quer dizer, fui — um grande homem; mas não sou nem o autor de Junius, nem o homem da máscara, pois meu nome é John Smith, e nasci em algum lugar da cidade de Fum-Fudge. O primeiro ato de minha vida foi segurar meu nariz com as duas mãos. Minha mãe presenciou isso e chamou-me gênio; meu pai chorou de alegria, e comprou-me um tratado de Nosologia. Antes de usar calças compridas eu não só dominava o tratado como também coligira num caderno de apontamentos e citações tudo quanto é dito a respeito do tema por Plínio, Aristóteles, Alexander Ross, Minutius Felix, Hermanus Pictorius, Del Rio, Villarêt, Bartholinus e Sir Thomas Browne.
     Então comecei tateante a trilhar o caminho da ciência, e logo vim a compreender que, dado que um homem tivesse o nariz suϐicientemente grande, ele poderia, meramente o seguindo, alcançar a leonicidade. Mas minha atenção não permaneceu restrita a teorias somente; todas as manhãs eu entornava um ou dois tragos e dava em minha probóscide um bom par de puxões. Quando cheguei à idade adulta, meu pai solicitou, certo dia, que o acompanhasse ao seu gabinete.

“Meu filho”, disse ele, quando estávamos sentados, “qual é a principal finalidade da tua existência?” 
“Pai”, disse eu, “é o estudo da Nosologia.” 
“E o que, John”, prosseguiu, “vem a ser Nosologia?” 
“Meu senhor”, repliquei, “é a Ciência dos Narizes.” 
“E sabes me dizer”, perguntou, “qual o significado de um nariz?” 
“Um nariz, meu pai”, disse eu, “foi das mais variadas formas definido por cerca de mil autores diferentes. (Nisso, puxei meu relógio.) Agora é meio-dia, ou pouco mais ou menos; — creio que dispomos de tempo suficiente para passar por todos eles antes da meia-noite. Comecemos, pois. O nariz, segundo Bartholinus, é essa protuberância, esse inchamento, essa excrescência, ess—” 
“Isso basta, John”, disse o velho cavalheiro. “Estou abismado com a extensão de teus conhecimentos. Estou, positivamente — por minha alma. Vem aqui! (Nisso fechou os olhos e pôs a mão sobre o coração.) Vem aqui! (Nisso tomou-me pelo braço.) Tua educação ainda não pode ser dada por encerrada, e já está mais do que na hora de lutares por ti mesmo — e melhor não podes fazer do que meramente seguir teu nariz — então — então — então — (Nisso chutou-me pela escada abaixo e pela porta afora.) — então sai já da minha casa, e que Deus te abençoe!” 

     Como sentia dentro de mim o afflatus divino, considerei esse incidente antes afortunado do que outra coisa. Resolvi me deixar guiar pelo aconselhamento paterno. Determinei-me a seguir meu nariz. Apliquei-lhe um ou dois puxões sem mais delongas e redigi incontinente um opúsculo acerca da Nosologia.
     Toda Fum-Fudge ficou em polvorosa.

“Gênio prodigioso!”, disse a Quarterly. 
“Fisiologista soberbo!”, disse o Westminster. 
“Sujeito sabido!”, disse o Foreign. 
“Ótimo escritor!”, disse o Edinburgh. 
Pensador profundo!”, disse o Dublin. 
“Grande homem!”, disse Bentley. 
“Alma divina!”, disse Fraser. 
“Um de nós!”, disse Blackwood. 
“Quem pode ser?”, disse a sra. Bas-Bleu. 
“O que pode ser?”, disse a srta. Bas-Bleu, a grande. 
“Onde pode ser?”, disse a srta. Bas-Bleu, a pequena. — Mas não dei a menor atenção a essas pessoas — apenas fui para o ateliê de um artista.

     A Duquesa de Bless-My-Soul posava para um retrato; o Marquês de Soand-So segurava o poodle da duquesa; o Conde de This-and-That flertava com os sais dela; e Sua Alteza Real de Touch-me-Not reclinava contra o espaldar de sua poltrona.
     Aproximei-me do artista e empinei o nariz.

“Ah, lindo!”, suspirou sua Graça. 
“Minha nossa!”, ceceou o Marquês. 
“Oh, chocante!”, gemeu o Conde. 
“Oh, abominável!”, resmungou Sua Alteza Real. 
“Quanto quer por ele?”, perguntou o artista. 
“Por seu nariz!”, gritou Sua Graça. 
“Mil libras”, disse eu, sentando-me. 
“Mil libras?”, perguntou o artista, refletindo. 
“Mil libras”, disse eu. 
“Lindo!”, disse ele, enlevado. 
“Mil libras”, disse eu. 
“Dá-me garantia?”, perguntou ele, virando o nariz sob a luz. 
“Dou”, disse eu, assoando-o bem. 
“É totalmente original?”, inquiriu ele, tocando-o com reverência. 
“Humpf!”, disse eu, virando-o para o lado. 
Nenhuma cópia ainda foi feita?”, quis saber ele, examinando-o ao microscópio. 
“Nenhuminha”, disse eu, empinando-o. 
Admirável!”, ele exclamou, pegando-se completamente desprevenido com a beleza da manobra. 
“Mil libras”, disse eu. 
“Mil libras?”, disse ele. 
“Precisamente”, disse eu. 
“Mil libras?”, disse ele. 
“Nem mais, nem menos”, disse eu. 
“Tu as terás”, disse ele. “Que refinada obra de arte!” Assim, preencheu um cheque ali mesmo, e fez um esboço de meu nariz. Arranjei aposentos na Jermyn Street e enviei para Sua Majestade a nonagésima nona edição da Nosologia, com um retrato da probóscide. — Aquele libertinozinho desprezível, o Príncipe de Gales, convidou-me para um jantar.

     Éramos todos leões e recherchés.
     Havia um neoplatônico. Ele citou Porfírio, Jâmblico, Plotino, Proclo, Hiérocles, Máximo de Tiro e Siriano.
     Havia um estudioso da perfectibilidade humana. Ele citou Turgot, Price, Priestly, Condorcet, De Stäel e o Ambitious Student in Ill Health.
     Havia Sir Positive Paradox. Observou ele que todos os tolos eram filósofos, e que todos os filósofos eram tolos.
     Havia Æstheticus Ethix. Ele falou sobre fogo, unidade e átomos; alma biparte e alma preexistente; afinidade e discordância; inteligência primitiva e homeomeria.
     Havia Theologos Theology. Ele falou de Eusébio e de Ário; de heresia e do Concílio de Niceia; do puseyismo e do consubstancialismo; de homoousios e de homoouioisios.
     Havia Fricassée, do Au Rocher de Cancale. Ele mencionou a língua à l'écarlate; a couve-flor ao molho velouté; a vitela à la Sainte-Menehould; a marinada à la Saint-Florentin; e as geleias de laranja en mosaïques.
     Havia Bibulus O'Bumper. Ele comentou sobre o Latour e o Markbrünnen; sobre o Mousseaux e o Chambertin; sobre o Richebourg e o Saint-Georges; sobre o Haut-brion, o Léoville e o Médoc; sobre o Barsac e o Preignac; sobre o Graves, sobre o Sauterne, sobre o Lafitte e sobre o SaintPéray. Abanou a cabeça para o Clos de Vougeot e explicou, com os olhos fechados, a diferença entre xerez e amontillado.
     Havia o Signor Tintontintino, de Florença. Ele discorreu a respeito de Cimabue, D'Arpino, Carpaccio e Agostino — a respeito das sombras em Caravaggio, da amenidade de Albano, das cores em Ticiano, das bacantes de Rubens e das alegres cenas de Jan Steen.
     Havia o reitor da Universidade de Fum-Fudge. Ele era da opinião que a lua se chamava Bendis na Trácia, Bubastis no Egito, Diana em Roma e Ártemis na Grécia.
     Havia o Grão-Turco de Istambul. Ele não conseguia deixar de pensar que os anjos eram cavalos, galos e touros; que alguém no sexto paraíso tinha setenta mil cabeças; e que a Terra era suportada por uma vaca azul celeste com número incalculável de chifres verdes.
     Havia Delphinus Polyglott. Contou-nos o que se passara com as oitenta e três tragédias perdidas de Ésquilo; com os cinquenta e quatro discursos de Iseu; com os trezentos e noventa e um discursos de Lísias; com os cento e oitenta tratados de Teofrasto; com o oitavo livro das seções cônicas de Apolônio; com os hinos e ditirambos de Píndaro; e com quarenta e tantas tragédias de Homero Júnior.
     Havia Ferdinand Fiz-Fossilius Feltspar. Ele nos falou sobre fogos internos e formações terciárias; sobre aeriformes, ϐluidiformes e solidiformes; sobre quartzo e marga; sobre xisto e turmalina; sobre gipsita e basalto; sobre talco e calcário; sobre blenda e hornblenda; sobre malacacheta e conglomerado; sobre cianita e lepidolita; sobre hematita e tremolita; sobre antimônio e calcedônio; sobre manganês e o que mais quiseres.
     Havia eu mesmo. Falei de mim mesmo; — de mim, de mim, de mim; — de Nosologia, de meu opúsculo e de mim mesmo.

“Que homem maravilhosamente inteligente!”, disse o Príncipe. 
“Soberbo!”, disseram seus convidados: — e na manhã seguinte, Sua Graça de Bless-my-Soul me fez uma visita. 
“Gostarias de comparecer ao Almack's, linda criatura?”, disse ela, dando um soquinho em meu queixo. 
“Será uma honra”, disse eu. 
“Com nariz e tudo?”, perguntou ela. 
“Certamente”, repliquei. 
“Eis aqui então um convite, minha vida. Posso contar mesmo com tua presença?” 
“Querida Duquesa, irei de todo coração.” 
“Ora bolas, não! — virás com todo teu nariz?” 
“Cada pedacinho dele, meu amor”, disse eu: — então lhe apliquei uma ou duas torceduras, e vi-me no Almack's.

     Os salões estavam lotados ao ponto da sufocação.

“Aí vem ele!”, disse alguém na escadaria. 
“Aí vem ele!”, disse alguém mais no alto. 
“Aí vem ele!”, disse alguém ainda mais alto. 
“Ele veio!”, exclamou a Duquesa. “Ele veio, o amorzinho!” — e, tomando-me firmemente pelas duas mãos, beijou-me três vezes no nariz.

     Uma notável comoção se sucedeu imediatamente.

Diavolo!”, gritou o Conde Capricornutti. 
Dios Guarda!”, murmurou Don Stiletto. 
Mille tonnerres!”, exclamou o Príncipe de Grenouille. 
Tousand Teufel!”, resmungou o Eleitor de Bluddennuff.

     Aquilo era insuportável. Fiquei furioso. Virei abruptamente para Bluddennuff.

“Senhor!”, disse-lhe, “és um babuíno.” 
“Senhor”, replicou ele, após uma pausa, “Donner und Blitzen!”

     Isso era tudo quanto se poderia desejar. Trocamos cartões. Em ChalkFarm, na manhã seguinte, alvejei-lhe o nariz — e depois procurei meus amigos.

Bête!”, disse o primeiro. 
“Tolo!”, disse o segundo. 
“Pateta!”, disse o terceiro. 
“Asno!”, disse o quarto. 
“Idiota!”, disse o quinto. 
“Estúpido!”, disse o sexto. 
“Some daqui!”, disse o sétimo.

     Diante disso tudo, fiquei mortificado, e assim fui à procura de meu pai.

“Meu filho”, replicou ele, “isso ainda é o estudo da Nosologia; mas ao acertar o nariz do Reitor, erraste o alvo. Tens um belo nariz, é verdade; mas agora Bluddennuff não tem nenhum. Estás condenado, e ele se tornou o herói do dia. Garanto que em Fum-Fudge a grandeza de um leão é proporcional ao tamanho de sua probóscide — mas, bom Deus! não se pode competir com um leão que não tem probóscide alguma.”
____________________

* Os autores aqui nomeados de fato trataram todos, em alguma extensão, do nariz. (N. do A.)
   
____________________

Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
__________________

Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário