sábado, 25 de julho de 2026

Odisseia: Prelúdio (Canto I.a)

Odisseia

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Por Que Todo Mundo Cita ESTE Livro... 
E Quase Ninguém o Lê





Prelúdio
Canto I

Assembleia dos Deuses, Conselhos de Atena a Telêmaco e Festa dos Pretendentes


     “A assembleia dos deuses se reúne acerca do envio de Odisseu para Ítaca desde a ilha de Calipso. Então, Atena vai para Ítaca, se apresenta a Telêmaco, se fazendo semelhante a Mentes, rei dos Tófios.
     Ocorre então uma conversa. Atena aconselha Telêmaco a ir procurar seu pai primeiro em Pilo, cidade de Nestor, depois em Esparta, cidade de Menelau. Ela parte dando sinais de que é deusa.
     Acontece, entrementes, a festa dos pretendentes.” (Scholie MPV)


Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito 
peregrinou, dês que esfez as muralhas sagradas de Troia; 
muitas cidades dos homens viajou, conheceu seus costumes, 
como no mar padeceu sofrimentos inúmeros na alma, 
para que a vida salvasse e de seus companheiros a volta. 
Os companheiros, porém, não salvou, muito embora o tentasse, 
pois pereceram por culpa das próprias ações insensatas. 
Loucos! que as vacas sagradas do Sol hiperiônio comeram. 
Ele, por isso, do dia feliz os privou do retorno. 

Deusa nascida de Zeus, de algum ponto nos conta o que queiras. 
Todos os que conseguiram fugir da precípite Morte 
já se encontravam na pátria, da guerra e do mar, enfim, salvos, 
menos um só, que, da esposa saudoso e do dia da volta, 
a veneranda Calipso detinha na côncava gruta, 
deusa entre as deusas, que ardia em desejos de o ter por marido. 
Mas depois que, no transcurso do tempo, foi o ano chegado, 
que os próprios deuses teceram, de a pátria alcançar finalmente, 
Ítaca, nem mesmo assim conseguira fugir aos trabalhos, 
té no regaço dos seus. Lastimavam-no todos os deuses,

com exceção de Posido, que em cólera ainda se inflama 
contra o deiforme Odisseu, té que à pátria não fosse chegado. 
Mas o deus, agora, se achava em visita aos longínquos Etíopes, 
últimos homens, que vivem cindidos nos termos da terra, 
uns, onde o Sol se levanta, outros, onde no ocaso se deita, 
para que fosse presente à hecatombe de bois e de ovelhas. 
Muito se alegra, presente ao convívio. Os mais deuses, no entanto, 
já no palácio de Zeus Olímpico se achavam reunidos. 
Foi o primeiro a falar o dos deuses autor e dos homens, 
que se lembrou em sua alma de Egisto, de formas perfeitas,

que de Agamémnone o filho, o notável Orestes, matara. 
Dessa ocorrência lembrado, voltou-se aos eternos e disse: 
“Caso curioso, que os homens nos culpem dos males que sofrem! 
Pois, dizem eles, de nós lhes vão todos os danos, conquanto 
contra o Destino, por próprias loucuras, as dores provoquem, 
bem como Egisto que, contra o Destino, à legítima esposa 
do próprio Atrida se uniu, imolando-o no dia da volta, 
certo do fim que o esperava sinistro, pois antes lhe enviamos 
Hermes de tudo a avisar, o brilhante e certeiro vigia, 
que nem se unisse à mulher, nem, tampouco, o marido matasse,

pois a vingança do filho de Atreu lhe viria de Orestes, 
quando crescesse e saudades sentisse da terra nativa. 
Hermes assim o avisou; mas Egisto não quis convencer-se 
dos bons conselhos de então. Ora paga por junto os seus crimes.” 
A de olhos glaucos, Atena, lhe disse o seguinte, em resposta: 
“Crônida, pai de nós todos, senhor poderoso e supremo! 
Mui merecida é a desgraça que sobre o insensato caiu. 
Possam, assim, perecer quantos outros tal coisa fizerem: 
Mas por motivo do sábio Odisseu sinto o peito excruciado, 
desse infeliz que, há bem tempo, distante dos seus vem sofrendo

 preso numa ilha por ondas cercada, que é o umbigo do oceano, 
arborizada e mui fresca, onde mora uma deusa preclara, 
filha de Atlante, o de espírito mau, que os arcanos conhece 
todos do mar, e que duas colunas muito altas defende, 
sozinho, as quais entre a terra e o alto céu se levantam. Sua filha 
vem procurando reter o infeliz, que, constante, se aflige, 
sempre com termos melífluos e vozes de força suasória, 
a enfeitiçá-lo, com o fim de que de Ítaca venha a esquecer-se. 
Mas Odisseu se consome, só tendo um desejo: a fumaça 
ver que se evola do solo da pátria, ou então morrer agora.

Não te comoves, Olímpico? Nunca Odisseu te foi caro 
junto das naus dos Argivos na extensa planície de Troia, 
oferecendo oblações? Por que, então, tanta cólera, Zeus?” 
Disse-lhe, então, em resposta, Zeus grande que as nuvens cumula: 
“Filha, por que tais palavras do encerro da boca soltaste? 
Como do divo Odisseu é possível que venha a esquecer-me, 
que se distingue de todos os homens e, mais do que todos, 
fez sacrifícios aos deuses eternos, do céu moradores? 
Mas de ter-lhe ódio não cessa Posido, que a terra sacode, 
pelo motivo de haver o Ciclope privado da vista,

sim, Polifemo, a um deus semelhante, de força enormíssima, 
entre os Ciclopes, gerado que foi pela ninfa Toosa, 
filha de Forco, senhor do oceano que nunca dá frutos, 
que numa gruta de forma escavada se uniu a Posido. 
Por essa causa Posido, que a terra violento sacode, 
quer, não matá-lo, mas tê-lo constante alongado da pátria. 
Ora, uma vez que aqui estamos reunidos, tratemos de sua v
olta e de como retorne. Contenha-se, entanto, Posido, 
pois impossível ser-lhe-á dar ensanchas ao ódio, sozinho, 
se se opuserem, concordes, os deuses eternos do Olimpo.”

A de olhos glaucos, Atena, lhe disse o seguinte, em resposta: 
“Crônida, pai de nós todos, senhor poderoso e supremo! 
Pois se assim é, e do agrado dos deuses bem-aventurados 
que a seu palácio retorne Odisseu, o de grande inventiva, 
Hermes, então, sem demora enviemos, o guia brilhante, à 
ilha de Ogígia, porque, sem mais perda de tempo, anuncie 
à veneranda Calipso de tranças bem-feitas, a nossa 
resolução de mandar o prudente Odisseu para a pátria. 
Enquanto a mim, irei logo para Ítaca, porque seu filho 
possa incitar e inspirar-lhe a coragem precisa no peito,

para chamar ao congresso os Acaios de longos cabelos 
e aos pretendentes dizer que se mudem, que todos os dias 
muitas ovelhas abatem e bois que se arrastam tardonhos. 
Quero mandá-lo até Esparta, e até Pilo de solo arenoso, 
para da volta do pai alcançar fidedignas notícias, 
como, também, conquistar entre os homens um nome preclaro.” 
Disse; e calçou, sem demora, nos pés as bonitas sandálias 
de ouro e divinas, que por sobre as águas, sem mais, a conduzem, 
como, também, pela terra infinita, qual sopro do vento; 
pega da lança potente, munida de ponta de bronze,

grande, pesada e robusta, com que derrubar costumava 
filas de heróis, ao zangar-se a nascida do pai poderoso. 
Célere baixa, passando por cima dos cumes do Olimpo, 
e ante o portal de Odisseu se detém, na cidade de Ítaca, 
bem na soleira do pátio, nas mãos tendo a lança de bronze, 
sob a figura de Mentes, que os Táfios comanda, estrangeiro. 
Os pretendentes imediatamente percebe, que estavam 
a jogar pedra, alegrando os espíritos, junto da porta, 
todos sentados em couros de bois, que eles próprios mataram. 
Servos atentos, assim como arautos, de todos cuidavam.

Estes, o vinho de jeito misturam nos copos, enquanto 
outros esfregam nas mesas esponjas de inúmeros furos, 
põem-nas logo de pé e os assados em postas retalham. 
Viu-a primeiro que todos Telêmaco, a um deus semelhante, 
que pesaroso se achava no meio dos moços soberbos, 
vendo no espírito a imagem do pai valoroso, se acaso 
logo viesse, a expulsar do seu próprio palácio os intrusos 
e conquistar nome excelso, qual dono dos próprios haveres. 
Ao revolver tais conceitos no meio dos moços, percebe 
Palas Atena. Foi logo ao portal, no imo peito agastado,

porque o estrangeiro estivesse de pé. Aproxima-se dela, 
a mão direita lhe aperta e, tirando-lhe a lança de bronze, 
pondo-se logo a saudá-la, lhe diz as palavras aladas: 
“Salve, estrangeiro! Entre nós hás de ter agasalho condigno. 
Pós o apetite acalmares, dirás o de que necessitas.” 
Tendo assim dito, adiantou-se, seguido por Palas Atena. 
Quando chegaram à sala da casa de teto elevado, 
vai logo a lança de bronze depor na hastaria polida, 
que se encontrava encostada em uma alta coluna, onde lanças 
inumeráveis do sábio Odisseu bem-dispostas estavam.

Uma poltrona de fino lavor lhe oferece, onde estende 
pano de linho. Escabelo por baixo dos pés acomoda. 
Simples cadeira lavrada puxou para si, afastada 
dos pretendentes; não fosse o barulho turbar o estrangeiro, 
nem lhe soubesse a comida, ao se ver entre aqueles soberbos, 
como também sobre o pai inquiri-lo, que ausente se achava. 
Água lustral lhes ministra a criada em gomil primoroso, 
de ouro, deixando-a cair sobre as mãos em bacia de prata, 
pondo diante dos dois, a seguir, uma mesa polida. 
A despenseira zelosa aparece, que pão lhes reparte,

como, também, provisões abundantes, que dá prazerosa. 
Vem, a seguir, o trinchante, trazendo nas mãos a travessa com muita 
carne, e de todos ao lado áureos copos coloca. 
Sem descuidar-se, um arauto escanção lhes renova o bom vinho. 
Os pretendentes altivos já, nesse momento, avançavam; 
sentam-se em ordem, assim nas cadeiras bem como nos tronos. 
Fazem vir água; por cima das mãos os arautos a deitam. 
Em canistréis transbordantes o pão é servido por servas; 
té pelas bordas escravos as taças enchiam de vinho. 
Todos as mãos estendiam, visando a alcançar as viandas.

continua página 653...
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Prelúdio
Canto I.a / Canto I.b /   
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes. 

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