Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
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CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
Muitos defeitos que lhes censuram — mediocridade, pequenez, timidez, mesquinharia, preguiça, frivolidade, servilismo —
exprimem simplesmente o fato de que o horizonte lhes está barrado. A mulher é, dizem, sensual, chafurda na imanência; mas
antes de mais nada aí a encerraram. A escrava presa no harém
não experimenta nenhuma paixão mórbida pela geleia de rosas,
pelos banhos perfumados: precisa passar o tempo; na medida em
que sufoca em um morno gineceu — bordel ou lar burguês — a
mulher se refugiará no conforto e no bem-estar; demais, se busca
avidamente a volúpia é muitas vezes porque dela se acha frustrada; sexualmente insatisfeita, votada à gana do macho, "condenada às feiuras masculinas", consola-se com molhos cremosos,
vinhos capitosos, veludos, carícias da água, do sol, de uma amiga,
de um jovem amante. Se se apresenta ao homem como um ser
"tão físico", é porque sua condição a incita a dar extrema importância à própria animalidade. A carne não grita mais forte nela
do que no homem: mas fica atenta aos seus mais insignificantes
murmúrios e os amplia; a volúpia, como a dor do sofrimento, é
o fulminante triunfo do imediato; pela violência do instante, o
futuro e o universo são negados: fora da centelha carnal, o que
existe não é nada; durante essa breve apoteose ela não é mutilada nem frustrada. Mas, digamo-lo mais uma vez, ela só em
presta tão grande valor a esses triunfos porque a imanência é seu
quinhão. Sua frivolidade tem a mesma causa que seu "materialismo sórdido"; ela dá importância às pequenas coisas por não
ter acesso às grandes: além disso, as futilidades que lhe enchem
os dias são, muitas vezes, das mais sérias; à sua toilette, à sua
beleza, deve seu encanto e possibilidades. Mostra-se frequente
mente indolente, preguiçosa, mas as ocupações que a ela se pro
põem são tão vãs quanto o simples escoar do tempo; se é tagarela, escrevinhadora, é para obviar a ociosidade: substitui palavras a atos impossíveis. O fato é que, quando se empenha numa
empresa digna de um ser humano, a mulher sabe mostrar-se tão
ativa, eficiente, silenciosa, ascética como um homem. Acusam-na
de ser servil. Está sempre disposta, dizem, a deitar-se aos pés
do senhor e a beijar a mão que a bateu; é verdade que carece
geralmente de verdadeiro orgulho; os conselhos que os "consultórios sentimentais" dispensam às mulheres enganadas, às amantes
abandonadas são inspirados em um espírito de abjeta submissão;
a mulher esgota-se em cenas arrogantes e acaba colhendo as migalhas que o macho consente em deixar-lhe. Mas que pode fazer
sem apoio masculino uma mulher para quem o homem é ao mesmo tempo o único meio e a única razão de viver? Bem que ela
é obrigada a aceitar todas as humilhações; a escrava não pode
ter o senso da dignidade humana; basta-lhe que dê um jeito.
Enfim, se é "terra-a-terra", caseira, baixamente utilitária, é porque lhe impõem consagrar sua existência a preparar alimentos e
limpar sujeiras: não é disso que pode tirar o sentido da grandeza.
Ela deve assegurar a monótona repetição da vida em sua contingência e sua facticidade: é natural que ela própria repita, recomece, sem jamais inventar, que o tempo lhe pareça girar sobre si
mesmo sem conduzir a nenhum lugar; ocupa-se sem nunca
fazer nada; aliena-se pois no que tem; essa dependência em
relação às coisas, consequências da dependência em relação
aos homens, explica sua prudente economia, sua avareza. Sua
vida não é mais dirigida para fins; absorve-se em produzir ou
manter coisas que nunca passam de meios: alimento, roupas,
residência; são intermediários inessenciais entre a vida animal
e a livre existência; o único valor ligado ao meio inessencial e
a utilidade; é no nível do útil que vive a dona-de-casa e ela só
se vangloria de ser útil a seus parentes. Mas nenhum existente
poderia satisfazer-se com um papel inessencial: logo transforma
os meios em fins — como se verifica entre os políticos — e o
valor dos meios torna-se a seus olhos valor absoluto. Assim a
utilidade reina no céu da dona-de-casa mais alto do que a verdade,
a beleza, a liberdade e é nessa perspectiva, que é a sua, que ela encara todo o universo; e é porque adota a moral aristotélica do justo meio-termo da mediocridade. Como encontraria em si audácia, ardor, desapego, grandeza? Tais qualidades só aparecem
no caso em que uma liberdade se lança através de um futuro
aberto emergindo além de todo o dado. Fecham a mulher numa
cozinha ou num camarim e se espantam de que seu horizonte
seja limitado; cortam suas asas e lamentam que não saiba voar.
Que lhe abram o futuro e ela não será mais obrigada a instalar-se
no presente.
Dão prova da mesma inconsequência quando, fechando-a
dentro dos limites de seu eu ou do lar, censuram-lhe o narcisismo, o egoísmo com seu cortejo: vaidade, suscetibilidade,
maldade etc.; tiram-lhe toda possibilidade concreta de comunicação com outrem; ela não sente em sua experiência o apelo
nem os benefícios da solidariedade, porquanto está inteiramente
consagrada à sua própria família, separada; não se pode, por
tanto, esperar que se supere em prol do interesse geral. Confina-se obstinadamente no único terreno que lhe é familiar, em
que ela pode exercer um domínio sobre as coisas e no seio do
qual reencontra uma soberania precária.
Entretanto, por mais que feche as portas e as janelas, a
mulher não encontra, em seu lar, uma segurança absoluta; esse
universo masculino que ela respeita de longe, sem ousar aventurar-se nele bloqueia-a; e justamente porque é incapaz de apreendê-lo através de técnicas, de uma lógica segura, de conhecimentos
articulados, ela se sente como a criança e o primitivo cercada de
mistérios perigosos. Neles projeta sua concepção mágica da realidade: o curso das coisas parece-lhe fatal e, no entanto, tudo
pode acontecer; ela mal distingue o possível do impossível; está
disposta a acreditar em qualquer coisa; acolhe e propaga todos
os rumores, provoca pânicos. Mesmo nos períodos de calma vive
preocupada; à noite, na sonolência, o jacente inerte assusta-se
com figuras de pesadelo que a realidade reveste; assim, para a
mulher condenada à passividade, o futuro opaco é povoado pelos
fantasmas da guerra, da revolução, da fome, da miséria; não
podendo agir, ela se inquieta. O marido, o filho, quando são
arrastados por um acontecimento, assumem seus riscos por sua
própria conta: seus projetos, as normas a que obedecem traçam
na obscuridade um caminho seguro; mas a mulher debate-se numa
noite confusa; ela preocupa-se porque não faz nada; na imaginação, todos os possíveis têm a mesma realidade: o trem pode descarrilar, a operação pode falhar, o negócio malograr; o que ela tenta em vão conjurar, em suas longas ruminações melancólicas,
é o espectro de sua própria impotência.
A preocupação traduz a desconfiança em relação ao mundo
dado; se ele se lhe afigura carregado de ameaças, prestes a soçobrar em obscuras catástrofes, é porque ela não se sente feliz.
Na maior parte do tempo ela não se resigna em se resignar;
sabe muito bem o que suporta, ela suporta contra sua vontade; é
mulher sem ter sido consultada; não ousa revoltar-se; é irritada
que se submete; sua atitude é uma recriminação constante. Todos
os que recebem as confidencias das mulheres — médicos, padres,
assistentes sociais — sabem que a maneira mais comum é a queixa; entre amigas, geme cada uma sobre seus próprios males e todas
juntas sobre a injustiça da sorte, o mundo e os homens em geral.
Um indivíduo livre somente a si censura seus malogros, assume-os,
mas é através de outrem que tudo acontece à mulher, é outro
que é responsável por suas desgraças. Seu desespero furioso recusa todos os remédios; propor soluções a uma mulher resolvida a queixar-se não arranja coisa alguma: nenhuma lhe parece
aceitável. Ela quer viver sua situação precisamente como a vive:
numa cólera impotente. Que lhe proponham uma mudança, ergue os braços ao céu: "Não faltava mais nada!" Sabe que seu
mal-estar é mais profundo do que os pretextos que dá, e que
não basta um expediente para libertá-la: ressente-se contra o
mundo inteiro, porque foi edificado sem ela e contra ela; desde
a adolescência, desde a infância, protesta contra sua condição;
prometeram-lhe compensações, asseguraram-lhe que, se abdicasse
suas possibilidades nas mãos de um homem, elas lhe seriam de
volvidas centuplicadas e considera-se mistificada; acusa todo o
universo masculino; o rancor é o reverso da dependência: quando
se dá tudo, nunca se recebe bastante de volta. Entretanto, ela
também tem necessidade de respeitar o universo masculino; sentir-se-ia em perigo sem um teto em cima da cabeça, se o contestasse em seu todo: ela adota a atitude maniqueísta que também
lhe é sugerida pela sua experiência caseira. 0 indivíduo que
age reconhece-se responsável do mesmo modo que os outros pelo
mal e pelo bem, sabe que lhe cabe definir os fins e fazer com que
triunfem; sente na ação a ambiguidade de toda solução; justiça
e injustiça, lucros e perdas acham-se inextricavelmente mistura
dos. Mas quem é passivo coloca-se fora do jogo e recusa-se a
colocar, ainda que em pensamento, os problemas éticos: o bem
deve ser realizado e, se não o é, há uma falta cujos culpados de
vem ser punidos. Como a criança, a mulher representa o bem e o mal em simples imagens de Epinal; o maniqueísmo tranquiliza
o espírito, suprimindo a angústia da escolha; escolher entre uma
praga e outra menor, entre um benefício presente e um futuro
maior, ter que definir o que é derrota, o que é vitória, é assumir
riscos terríveis; para o maniqueísta, o trigo bom está claramente
separado do joio e basta arrancar este último; a poeira condena-se
a si própria e a limpeza é a perfeita ausência de sujeira; limpar é
expulsar detritos e lama. Assim a mulher pensa que "tudo é
culpa dos judeus" ou dos maçons, ou dos bolcheviques, ou do
governo; ela é sempre contra alguém ou alguma coisa; entre os
anti-dreyfusistas, as mulheres eram mais encarniçadas ainda do
que os homens; elas nem sempre sabem onde reside o princípio
maligno, mas o que esperam de um bom governo é que êle o
expulse, como se expulsa a poeira da casa. Para as gaullistas
fervorosas, De Gaulle se apresenta como o rei dos varredores; de
espanadores e trapos nas mãos, elas o imaginam limpando e fazendo brilhar uma França "limpa".
Mas essas esperanças situam-se sempre num futuro incerto;
enquanto se espera, o mal continua a roer o bem; e como não
tem à mão os judeus, os maçons, os bolcheviques, a mulher procura um responsável contra quem possa concretamente indignar-se: o marido é a vítima predileta. É nele que se encarna o universo masculino, é através dele que a sociedade masculina assumiu o encargo da mulher e a mistificou; ele suporta o peso do
mundo e, se as coisas vão mal, é culpa dele. Quando volta, à
noite, ela se queixa dos filhos, dos fornecedores, do lar, do custo
de vida, de seu reumatismo, do tempo que faz: e quer que o
esposo se sinta culpado. Muitas vezes alimenta em relação a ele
ressentimentos particulares; mas o marido é culpado antes de
tudo de ser um homem; também pode ter suas doenças, suas
preocupações: "Não é a mesma coisa"; ele detém um privilégio
que ela sente constantemente como uma injustiça. É de notar
que a hostilidade que ela experimenta em relação ao marido,
ao amante, a prenda a eles ao invés de a afastar; um homem
que se pôs a detestar a mulher ou a amante procura fugir dela:
mas ela quer ter na mão o homem que odeia, para fazê-lo pagar. Escolher recriminar, não é escolher desembaraçar-se de seus
males e sim chafurdar neles; seu supremo consolo é apresentar-se
como mártir. A vida, os homens venceram-na: ela fará dessa
derrota uma vitória. Eis porque, como em sua infância, ela se
entregará tão displicentemente ao frenesi das lágrimas e das cenas.
É sem dúvida porque sua vida se constrói sobre um fundo
de revolta impotente que a mulher chora tão facilmente; por certo
tem ela fisiologicamente um menor controle do sistema nervoso
e simpático do que o homem; sua educação ensinou-lhe a entregar-se: as normas de conduta desempenham aqui um grande papel: Diderot, Benjamin Constant vertiam dilúvios de lágrimas;
mas os homens deixaram de chorar, desde que o costume o proibiu. Mas a mulher está sempre disposta a adotar em relação ao
mundo uma conduta de malogro, porque nunca o enfrentou francamente. O homem aceita o mundo; a própria desgraça não mudará sua atitude, ele a enfrentará, não se deixará vencer; ao
passo que basta uma contrariedade para pôr novamente a descoberto, para a mulher, a hostilidade do universo e a injustiça de
sua sorte; então ela se precipita em seu mais seguro refúgio: ela
mesma; essa esteira quente em suas faces, essa queimadura em
suas órbitas é a presença sensível de sua alma dolorosa; doces
na pele, ligeiramente salgadas na língua, as lágrimas são também
uma terna e amarga carícia; o rosto queima sob um derrame de
água clemente; as lágrimas são ao mesmo tempo queixa e consolo, febre e calmante frescor. São também um supremo álibi;
bruscas como a borrasca, caindo intermitentes, ciclone, aguaceiro, chuvisco, metamorfoseiam a mulher numa fonte queixosa, num
céu atormentado; seus olhos não veem mais, vela-os uma cerração; não são mais sequer um olhar, fundem-se em chuva. Cega,
a mulher retorna à passividade das coisas naturais. Querem-na
vencida: ela soçobra na derrota; vai a pique, afoga-se, escapa ao
homem que a contempla, impotente como diante de uma cata
rata, Ele julga o processo desleal: mas ela considera que a luta é
desleal porque não lhe deram nenhuma arma eficaz, Ela recorre
uma vez a uma conjuração mágica. E o fato de seus soluços
exasperarem o homem fornece-lhe uma razão a mais para utilizá-los. continua página 374...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (2)
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Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"
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