terça-feira, 21 de julho de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (2)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO VI
SITUAÇÃO E CARÁTER DA MULHER
 

     Muitos defeitos que lhes censuram — mediocridade, pequenez, timidez, mesquinharia, preguiça, frivolidade, servilismo — exprimem simplesmente o fato de que o horizonte lhes está barrado. A mulher é, dizem, sensual, chafurda na imanência; mas antes de mais nada aí a encerraram. A escrava presa no harém não experimenta nenhuma paixão mórbida pela geleia de rosas, pelos banhos perfumados: precisa passar o tempo; na medida em que sufoca em um morno gineceu — bordel ou lar burguês — a mulher se refugiará no conforto e no bem-estar; demais, se busca avidamente a volúpia é muitas vezes porque dela se acha frustrada; sexualmente insatisfeita, votada à gana do macho, "condenada às feiuras masculinas", consola-se com molhos cremosos, vinhos capitosos, veludos, carícias da água, do sol, de uma amiga, de um jovem amante. Se se apresenta ao homem como um ser "tão físico", é porque sua condição a incita a dar extrema importância à própria animalidade. A carne não grita mais forte nela do que no homem: mas fica atenta aos seus mais insignificantes murmúrios e os amplia; a volúpia, como a dor do sofrimento, é o fulminante triunfo do imediato; pela violência do instante, o futuro e o universo são negados: fora da centelha carnal, o que existe não é nada; durante essa breve apoteose ela não é mutilada nem frustrada. Mas, digamo-lo mais uma vez, ela só em presta tão grande valor a esses triunfos porque a imanência é seu quinhão. Sua frivolidade tem a mesma causa que seu "materialismo sórdido"; ela dá importância às pequenas coisas por não ter acesso às grandes: além disso, as futilidades que lhe enchem os dias são, muitas vezes, das mais sérias; à sua toilette, à sua beleza, deve seu encanto e possibilidades. Mostra-se frequente mente indolente, preguiçosa, mas as ocupações que a ela se pro põem são tão vãs quanto o simples escoar do tempo; se é tagarela, escrevinhadora, é para obviar a ociosidade: substitui palavras a atos impossíveis. O fato é que, quando se empenha numa empresa digna de um ser humano, a mulher sabe mostrar-se tão ativa, eficiente, silenciosa, ascética como um homem. Acusam-na de ser servil. Está sempre disposta, dizem, a deitar-se aos pés do senhor e a beijar a mão que a bateu; é verdade que carece geralmente de verdadeiro orgulho; os conselhos que os "consultórios sentimentais" dispensam às mulheres enganadas, às amantes abandonadas são inspirados em um espírito de abjeta submissão; a mulher esgota-se em cenas arrogantes e acaba colhendo as migalhas que o macho consente em deixar-lhe. Mas que pode fazer sem apoio masculino uma mulher para quem o homem é ao mesmo tempo o único meio e a única razão de viver? Bem que ela é obrigada a aceitar todas as humilhações; a escrava não pode ter o senso da dignidade humana; basta-lhe que dê um jeito. Enfim, se é "terra-a-terra", caseira, baixamente utilitária, é porque lhe impõem consagrar sua existência a preparar alimentos e limpar sujeiras: não é disso que pode tirar o sentido da grandeza. Ela deve assegurar a monótona repetição da vida em sua contingência e sua facticidade: é natural que ela própria repita, recomece, sem jamais inventar, que o tempo lhe pareça girar sobre si mesmo sem conduzir a nenhum lugar; ocupa-se sem nunca fazer nada; aliena-se pois no que tem; essa dependência em relação às coisas, consequências da dependência em relação aos homens, explica sua prudente economia, sua avareza. Sua vida não é mais dirigida para fins; absorve-se em produzir ou manter coisas que nunca passam de meios: alimento, roupas, residência; são intermediários inessenciais entre a vida animal e a livre existência; o único valor ligado ao meio inessencial e a utilidade; é no nível do útil que vive a dona-de-casa e ela só se vangloria de ser útil a seus parentes. Mas nenhum existente poderia satisfazer-se com um papel inessencial: logo transforma os meios em fins — como se verifica entre os políticos — e o valor dos meios torna-se a seus olhos valor absoluto. Assim a utilidade reina no céu da dona-de-casa mais alto do que a verdade, a beleza, a liberdade e é nessa perspectiva, que é a sua, que ela encara todo o universo; e é porque adota a moral aristotélica do justo meio-termo da mediocridade. Como encontraria em si audácia, ardor, desapego, grandeza? Tais qualidades só aparecem no caso em que uma liberdade se lança através de um futuro aberto emergindo além de todo o dado. Fecham a mulher numa cozinha ou num camarim e se espantam de que seu horizonte seja limitado; cortam suas asas e lamentam que não saiba voar. Que lhe abram o futuro e ela não será mais obrigada a instalar-se no presente.
     Dão prova da mesma inconsequência quando, fechando-a dentro dos limites de seu eu ou do lar, censuram-lhe o narcisismo, o egoísmo com seu cortejo: vaidade, suscetibilidade, maldade etc.; tiram-lhe toda possibilidade concreta de comunicação com outrem; ela não sente em sua experiência o apelo nem os benefícios da solidariedade, porquanto está inteiramente consagrada à sua própria família, separada; não se pode, por tanto, esperar que se supere em prol do interesse geral. Confina-se obstinadamente no único terreno que lhe é familiar, em que ela pode exercer um domínio sobre as coisas e no seio do qual reencontra uma soberania precária.
     Entretanto, por mais que feche as portas e as janelas, a mulher não encontra, em seu lar, uma segurança absoluta; esse universo masculino que ela respeita de longe, sem ousar aventurar-se nele bloqueia-a; e justamente porque é incapaz de apreendê-lo através de técnicas, de uma lógica segura, de conhecimentos articulados, ela se sente como a criança e o primitivo cercada de mistérios perigosos. Neles projeta sua concepção mágica da realidade: o curso das coisas parece-lhe fatal e, no entanto, tudo pode acontecer; ela mal distingue o possível do impossível; está disposta a acreditar em qualquer coisa; acolhe e propaga todos os rumores, provoca pânicos. Mesmo nos períodos de calma vive preocupada; à noite, na sonolência, o jacente inerte assusta-se com figuras de pesadelo que a realidade reveste; assim, para a mulher condenada à passividade, o futuro opaco é povoado pelos fantasmas da guerra, da revolução, da fome, da miséria; não podendo agir, ela se inquieta. O marido, o filho, quando são arrastados por um acontecimento, assumem seus riscos por sua própria conta: seus projetos, as normas a que obedecem traçam na obscuridade um caminho seguro; mas a mulher debate-se numa noite confusa; ela preocupa-se porque não faz nada; na imaginação, todos os possíveis têm a mesma realidade: o trem pode descarrilar, a operação pode falhar, o negócio malograr; o que ela tenta em vão conjurar, em suas longas ruminações melancólicas, é o espectro de sua própria impotência.
     A preocupação traduz a desconfiança em relação ao mundo dado; se ele se lhe afigura carregado de ameaças, prestes a soçobrar em obscuras catástrofes, é porque ela não se sente feliz. Na maior parte do tempo ela não se resigna em se resignar; sabe muito bem o que suporta, ela suporta contra sua vontade; é mulher sem ter sido consultada; não ousa revoltar-se; é irritada que se submete; sua atitude é uma recriminação constante. Todos os que recebem as confidencias das mulheres — médicos, padres, assistentes sociais — sabem que a maneira mais comum é a queixa; entre amigas, geme cada uma sobre seus próprios males e todas juntas sobre a injustiça da sorte, o mundo e os homens em geral. Um indivíduo livre somente a si censura seus malogros, assume-os, mas é através de outrem que tudo acontece à mulher, é outro que é responsável por suas desgraças. Seu desespero furioso recusa todos os remédios; propor soluções a uma mulher resolvida a queixar-se não arranja coisa alguma: nenhuma lhe parece aceitável. Ela quer viver sua situação precisamente como a vive: numa cólera impotente. Que lhe proponham uma mudança, ergue os braços ao céu: "Não faltava mais nada!" Sabe que seu mal-estar é mais profundo do que os pretextos que dá, e que não basta um expediente para libertá-la: ressente-se contra o mundo inteiro, porque foi edificado sem ela e contra ela; desde a adolescência, desde a infância, protesta contra sua condição; prometeram-lhe compensações, asseguraram-lhe que, se abdicasse suas possibilidades nas mãos de um homem, elas lhe seriam de volvidas centuplicadas e considera-se mistificada; acusa todo o universo masculino; o rancor é o reverso da dependência: quando se dá tudo, nunca se recebe bastante de volta. Entretanto, ela também tem necessidade de respeitar o universo masculino; sentir-se-ia em perigo sem um teto em cima da cabeça, se o contestasse em seu todo: ela adota a atitude maniqueísta que também lhe é sugerida pela sua experiência caseira. 0 indivíduo que age reconhece-se responsável do mesmo modo que os outros pelo mal e pelo bem, sabe que lhe cabe definir os fins e fazer com que triunfem; sente na ação a ambiguidade de toda solução; justiça e injustiça, lucros e perdas acham-se inextricavelmente mistura dos. Mas quem é passivo coloca-se fora do jogo e recusa-se a colocar, ainda que em pensamento, os problemas éticos: o bem deve ser realizado e, se não o é, há uma falta cujos culpados de vem ser punidos. Como a criança, a mulher representa o bem e o mal em simples imagens de Epinal; o maniqueísmo tranquiliza o espírito, suprimindo a angústia da escolha; escolher entre uma praga e outra menor, entre um benefício presente e um futuro maior, ter que definir o que é derrota, o que é vitória, é assumir riscos terríveis; para o maniqueísta, o trigo bom está claramente separado do joio e basta arrancar este último; a poeira condena-se a si própria e a limpeza é a perfeita ausência de sujeira; limpar é expulsar detritos e lama. Assim a mulher pensa que "tudo é culpa dos judeus" ou dos maçons, ou dos bolcheviques, ou do governo; ela é sempre contra alguém ou alguma coisa; entre os anti-dreyfusistas, as mulheres eram mais encarniçadas ainda do que os homens; elas nem sempre sabem onde reside o princípio maligno, mas o que esperam de um bom governo é que êle o expulse, como se expulsa a poeira da casa. Para as gaullistas fervorosas, De Gaulle se apresenta como o rei dos varredores; de espanadores e trapos nas mãos, elas o imaginam limpando e fazendo brilhar uma França "limpa".
     Mas essas esperanças situam-se sempre num futuro incerto; enquanto se espera, o mal continua a roer o bem; e como não tem à mão os judeus, os maçons, os bolcheviques, a mulher procura um responsável contra quem possa concretamente indignar-se: o marido é a vítima predileta. É nele que se encarna o universo masculino, é através dele que a sociedade masculina assumiu o encargo da mulher e a mistificou; ele suporta o peso do mundo e, se as coisas vão mal, é culpa dele. Quando volta, à noite, ela se queixa dos filhos, dos fornecedores, do lar, do custo de vida, de seu reumatismo, do tempo que faz: e quer que o esposo se sinta culpado. Muitas vezes alimenta em relação a ele ressentimentos particulares; mas o marido é culpado antes de tudo de ser um homem; também pode ter suas doenças, suas preocupações: "Não é a mesma coisa"; ele detém um privilégio que ela sente constantemente como uma injustiça. É de notar que a hostilidade que ela experimenta em relação ao marido, ao amante, a prenda a eles ao invés de a afastar; um homem que se pôs a detestar a mulher ou a amante procura fugir dela: mas ela quer ter na mão o homem que odeia, para fazê-lo pagar. Escolher recriminar, não é escolher desembaraçar-se de seus males e sim chafurdar neles; seu supremo consolo é apresentar-se como mártir. A vida, os homens venceram-na: ela fará dessa derrota uma vitória. Eis porque, como em sua infância, ela se entregará tão displicentemente ao frenesi das lágrimas e das cenas.
     É sem dúvida porque sua vida se constrói sobre um fundo de revolta impotente que a mulher chora tão facilmente; por certo tem ela fisiologicamente um menor controle do sistema nervoso e simpático do que o homem; sua educação ensinou-lhe a entregar-se: as normas de conduta desempenham aqui um grande papel: Diderot, Benjamin Constant vertiam dilúvios de lágrimas; mas os homens deixaram de chorar, desde que o costume o proibiu. Mas a mulher está sempre disposta a adotar em relação ao mundo uma conduta de malogro, porque nunca o enfrentou francamente. O homem aceita o mundo; a própria desgraça não mudará sua atitude, ele a enfrentará, não se deixará vencer; ao passo que basta uma contrariedade para pôr novamente a descoberto, para a mulher, a hostilidade do universo e a injustiça de sua sorte; então ela se precipita em seu mais seguro refúgio: ela mesma; essa esteira quente em suas faces, essa queimadura em suas órbitas é a presença sensível de sua alma dolorosa; doces na pele, ligeiramente salgadas na língua, as lágrimas são também uma terna e amarga carícia; o rosto queima sob um derrame de água clemente; as lágrimas são ao mesmo tempo queixa e consolo, febre e calmante frescor. São também um supremo álibi; bruscas como a borrasca, caindo intermitentes, ciclone, aguaceiro, chuvisco, metamorfoseiam a mulher numa fonte queixosa, num céu atormentado; seus olhos não veem mais, vela-os uma cerração; não são mais sequer um olhar, fundem-se em chuva. Cega, a mulher retorna à passividade das coisas naturais. Querem-na vencida: ela soçobra na derrota; vai a pique, afoga-se, escapa ao homem que a contempla, impotente como diante de uma cata rata, Ele julga o processo desleal: mas ela considera que a luta é desleal porque não lhe deram nenhuma arma eficaz, Ela recorre uma vez a uma conjuração mágica. E o fato de seus soluços exasperarem o homem fornece-lhe uma razão a mais para utilizá-los.

continua página 374...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo VI - Situação e caráter da mulher (2)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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