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quarta-feira, 24 de abril de 2024

Makarenko - Poema Pedagógico Livro 1(b): Operações de caráter interno

Poema Pedagógico


Antón S. Makarenko


Livro Um

Capítulo 4

Operações de caráter interno

    Eu até fiquei contente com essa circunstância. Esperava que pronto, agora começará a falar o interesse geral, coletivo, e obrigará a todos a se interessarem pelo caso dos roubos com zelo maior. Com efeito, todos os rapazes ficaram tristes, mas zelo não apareceu nenhum, e quando passou a impressão, o interesse esportivo tomou conta novamente de todos: quem seria esse que trabalhava tão agilmente?
   Mais alguns dias, sumiu da cavalariça o arreio do Malích, e nós não podíamos sequer ir até a cidade. Tivemos de andar pela aldeia vizinha e pedir uma emprestada para os primeiros dias.
   Os furtos já aconteciam todos os dias. De manhã se descobria que neste ou naquele lugar faltava alguma coisa: machados, serrotes, vasilhames, lençóis, arreios, gêneros. Tentei não dormir à noite, andava pelo pátio com o revólver, mas mais do que duas, três noites, é claro, não consegui aguentar. Pedi a Óssipov que ficasse de plantão por uma noite, Mas ele ficou tão apavorado que não falei mais nisso.
   Entre os rapazes, eu suspeitava de muitos, incluindo também Gud e Taranêts. Prova, entretanto, eu não tinha nenhuma, e tive de conservar minhas suspeitas em segredo.
   Zadoróv ria às gargalhadas e brincava:

- O que é que o senhor pensava, Anton Semiónovitch: isto aqui é uma colônia de trabalho – trabalhe, trabalhe, e nada de divertimento? Espere só, isto ainda vai piorar bem! E o que o senhor vai fazer com aquele que for apanhado?

- Vou pô-lo na cadeia.

- Bem, Isso ainda não é nada. Pensei que o senhor IA bater nele.

Certa vez, alguém saiu para o pátio de noite, todo vestido:

- Vou andar um pouco com o senhor.

- Cuidado para que os ladrões não se encarnicem contra você.

- Não, eles bem sabem que o senhor está de guarda, hoje eles não vão roubar, de qualquer jeito. E daí, o que é que tem isso?

- Mas confesse, Zadórov, Que você tem medo deles.

- De quem? Dos ladrões? Claro que tenho medo. Mas não se trata de eu ter medo, o senhor tem de concordar, Anton Semiónovitch: o caso é que de certa forma não fica bem delatar.

- Mas se é de vocês mesmos que eles roubam.

- De mim, o quê? Não há nada de meu por aqui.

- Mas vocês todos vivem aqui.

- Que vida é essa, Anton Simiónovitch? Isso então é vida? Não vai dar em nada esta sua colônia. O senhor se debate à toa. Vai ver só, eles vão roubar tudo e se mandar. O senhor faria melhor se contratasse alguns guardas e lhes desse alguns fuzis.

- Isso não, não vou contratar guardas nem lhes darei fuzis.

- Mas por quê? - espantou-se Zadórov.

- Os guardas têm de ser pagos, e nós já somos pobres demais. E o mais importante é que vocês mesmos têm de ser os donos.

   A ideia de que era preciso contratar guardas era compartilhada por muitos colunistas. No dormitório teve lugar um autêntico debate sobre o assunto.
   Anton Brátchenko, o melhor representante do segundo grupo de colunistas, argumentava:

- Quando há um guarda de plantão, ninguém vai sair para roubar. E se sair, apesar de tudo, é caso de aplicar lhe uma descarga de sal naquela parte. Quando ele andar salgadinho durante um mês, vai perder a vontade de roubar.

   Respondia lhe Kóstia Vietkóvski, um garoto bonito cuja especialidade “em liberdade” era realizar buscas e apreensões com ordens falsificadas. Durante essas buscas, desempenhava papéis secundários, os papéis principais pertenciam aos adultos. O próprio Kóstia - isso ficou registrado no seu dossiê - nunca roubou nada, ele se empolgava exclusivamente com o lado estético da operação. E sempre se referia aos ladrões com desprezo. Fazia bastante tempo que eu já reparava na índole sutil desse menino. O que mais me espantava era facilidade com que ele se relacionava com os rapazes mais truculentos e era autoridade amplamente reconhecida em questões políticas. Kóstia argumentava:

- Anton Semiónovitch tem razão. Nada de guardas! Por enquanto ainda não compreendemos, mas logo compreenderemos todos que não se pode roubar dentro da colônia. Mesmo agora, muitos já estão compreendendo. Nós vamos logo montar guarda nós mesmos. Certo, Burún? – dirigiu-se inesperadamente a Burún.

   Em fevereiro, a nossa despenseira deixou o seu emprego na colônia - eu conseguir a sua transferência para um hospital qualquer. Num certo domingo, o Malích foi levada até sua porta e todos os seus amiguinhos e participantes de chás filosóficos puseram-se ativamente a colocar dentro do trenó as suas numerosas sacolas e valises. A boa velhinha, balançando-se pacificamente no alto das suas riquezas, partiu ao encontro da sua nova vida à mesma velocidade de dois km por hora.
   Malích voltou tarde, mas junto com ele voltou a velhinha e se precipitou aos gritos e soluços no meu quarto: fora roubada até o último filme. Seus amigos e ajudantes carregaram todas as suas sacolas, valises e maletas não só para o trenó, mas também para outros lugares - foi um assalto declarado. Acordei imediatamente Kaliná Ivánovitch, Zadórov e Taranêts, e realizamos uma busca geral em toda a colônia. Foi roubada tanta coisa, que não deu tempo de esconder bem tudo. Entre os arbustos, no sótãos dos armazéns, sob os degraus da porta de entrada, e mesmo debaixo das camas e atrás dos armários foram encontrados todos os tesouros da despenseira. A velhinha era rica de verdade: encontramos cerca de uma dúzia de toalhas de mesa novas, muitos lençóis e toalhas de rosto, colheres de prata, vasinhos, uma pulseira, brincos e muitas miudezas de toda espécie.
   A velhinha chorava no meu quarto, e o quarto ai aos poucos se enchendo de detidos - seus ex-amigos e simpatizantes.
   No começo, eles negaram tudo, nossa eu dei uns berros com eles e os horizontes clarearam. Verificou-se que os principais assaltantes não eram os amigos da velhinha. Estes se limitaram algumas lembranças, como um guardanapo de chá ou um açucareiro. Ficou esclarecido que o ativista principal em todo esse episódio fora Burún. Essa descoberta espantou a muitos, e a mim principalmente. Burún, desde o primeiro dia, parecia o mais equilibrado de todos, estava sempre sério, era contidamente social, e na escola era o que estudava melhor, com a mais tensa atenção e interesse. O que me deixou estupefato foi o ímpeto e a competência das suas ações: ele escondera fardos inteiros dos bens da velha. Não restava dúvida de que todos os roubos anteriores na colônia foram obras das suas mãos. 
  Finalmente eu chegar à fonte do mal! Coloquei Burún diante do tribunal popular, o primeiro julgamento na história da nossa colônia.


Operações de caráter interno (b)

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Makarenko - Poema Pedagógico Livro 1(a): Operações de caráter interno

Poema Pedagógico


Antón S. Makarenko


Livro Um

Capítulo 4

Operações de caráter interno

   Em fevereiro, desapareceu da minha gaveta um maço inteiro de dinheiro - aproximadamente seis meses do meu ordenado.
   No meu quarto, naquele tempo, localizavam-se o escritório, a sala dos professores, a contadoria e o caixa, pois eu acumulava, na minha pessoa, todos esses cargos. O maço de notinhas novinhas sumiu da gaveta trancada sem sinal de qualquer arrombamento.
   À noite, contei isso aos rapazes e pedi que devolvessem o dinheiro. Eu não podia provar o furto, e era possível facilmente me acusar de desvio de fundos. os rapazes escutaram taciturnos, e se dispersaram. Depois da reunião, quando eu ia para minha ala, no pátio escuro fui abordado por dois rapazes: Taranêts e Gud. 
   Gud era um moço miúdo e ágil.

- Nós sabemos quem pegou o dinheiro - sussurrou Taranêts -, só que não pode falar na frente de todos: não sabemos onde ele escondeu. E, se contarmos, ele se manda e leva o dinheiro.

- Quem pegou?

- Foi um aí...

   Gud olhava para Tara de soslaio, ao que parecia não aprovando inteiramente a sua política. Ele resmungou:

- Precisava era quebrar-lhe as fuças... que conversa fiada é essa?

- E quem é que lhe vai às fuças? - retrucou Taranêts - Será você? Se ele te pega de jeito...

- Não, assim não dá.

   Taranêts insistia na conspiração. Dei de ombros:

- Está bem. como queiram.

   E fui dormir.
   De manhã Gud encontrou o dinheiro na cavalariça. Alguém o jogara pela janela estreita da cavalariça e as notas voaram e se espalharam por todo o lugar. Gud, tremendo de tanta alegria, veio a mim correndo com as mãos cheias de notas amarrotadas.
   Gud dançava pela colônia de tanta alegria, todos os garotos estavam radiantes e vinham correndo para o meu quarto olhar para mim. Só Taranêts andava de cabeça orgulhosamente empinada. Não interroguei nem a ele nem a Gud sobre os acontecimentos que se seguiram à nossa conversa.
   Dois dias depois, alguém arrancou os cadeados do portão e surrupiou algumas libras de banha - toda a nossa riqueza em gorduras. Levou também o cadeado. E no dia seguinte arrancaram a janela da despensa - e sumiram as balas preparadas para os festejos da Revolução de Fevereiro e algumas latas de graxa para as rodas, que nos eram tão preciosas quanto dinheiro vivo.
   Kaliná Ivánovitch até emagreceu durante aqueles dias. Ele aproximava o rosto empalidecido de cada colonista, soprava-lhe nos olhos a fumaça da sua makhórka e insistia:

- Mas julguem vocês próprios! Pois se é tudo para vocês, seus filhos duma cadela, vocês roubam de si mesmos, parasitas!

   Taranêts sabia mais do que todos, mas se mantinha reservado, por alguma razão não entrava nos seus cálculos esclarecer esse assunto. Os colonistas se expressavam à vontade, mas entre eles prevalecia um interesse puramente esportivo. De maneira alguma eles queriam aceitar o ponto de vista de que os roubados eram justamente eles próprios.
   No dormitório eu gritava irado:

- Vocês o que é que são? São gente ou...

- Somos larápios - ouviu-se de um catre distante.

- Somos bandidos!

- Mentira! Que espécie de bandidos são vocês? Vocês não passam de ladrõezinhos pés-de-chinelo que furtam de si mesmos. Fiquem agora sem banha, o diabo que os carregue! E nas festas, sem balas. Ninguém vai nos dar mais nada. Danem-se!

- Mas o que é que podemos fazer, Anton Semiónovitch? Nós não sabemos quem roubou. Nem o senhor sabe nem nós sabemos.

   Aliás, eu mesmo compreendia desde o começo que as minhas conversas eram inúteis. O ladrão era um dos mais velhos, que todos temiam.
   No dia seguinte, acompanhado de dois rapazes, fui fazer gestões para arranjar uma nova ração de banha. Deram-nos também uma partida de balas, embora nos xingassem bastante por não termos conseguido conservar as outras. À noite relatávamos com minúcias as nossas andanças. Finalmente, a banha foi trazida para a colônia e guardada no porão. Logo na primeira noite a banha foi roubada.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Makarenko - Poema Pedagógico Livro 1(d): Característica das necessidades primordiais

Poema Pedagógico


Antón S. Makarenko


Livro Um

Capítulo 3

Característica das necessidades primordiais
continuando...

   Foi Taranêts. Ele tinha dezesseis anos, descendia de uma antiga família de ladrões, era esguio e cheio de marcas de varíola, alegre, engenhoso, magnífico organizador e homem empreendedor. Mas não sabia respeitar interesses coletivos. Um dia ele roubou diversas redes da margem do rio - iáteri - e as trouxe para a colônia. Atrás dele vieram os donos das redes e o assunto acabou em grande escândalo. Depois disso os aldeões vizinhos começaram a montar guarda aos iáteri e os nossos caçadores muito raramente conseguiam pegar alguma coisa. Mas, algum tempo depois, Taranêts e outros colonos assumiram o controle de seus próprios redes, cedidas por 'um conhecido da cidade'. Graças a estas redes próprias, a pesca começou a desenvolver-se rapidamente. No início, o peixe era consumido por um pequeno círculo de pessoas, mas, no final do inverno, Taranêts decidiu, sem qualquer prudência, incluir-me também no círculo.

   Ele levou um prato de peixe frito para o meu quarto.

- Isto é peixe para o senhor.

- Estou vendo, só que não vou aceitar.

- Por quê?

- Porque não está certo. O peixe deve ser dado a todos os colonistas.

- A troco de quê? - ruborizou-se Taranêts, ofendido - A troco de quê? Eu consegui as redes, eu pesco, me molho todo no riacho, e devo dar para todos?

- Pois então fique com o peixe. Eu não consegui nada nem me molhei no riacho.

- Mas isso é um presente nosso para o senhor...

- Não, eu não estou de acordo, tudo isso não me agrada. E não está direito.

- Mas o que é que não está direito?

- Isto: você não comprou as redes, certo? ganhou-as de presente?

- Foi de presente.

- Presente para quem? Para você? Ou para toda a colônia?

- Por que 'para toda a colônia'? Foi para mim.

- Pois eu acho que foi para mim e para todos. E as frigideiras, de quem são? suas? São de todos. E o óleo de girassol que vocês pedem à cozinheira - de quem é o óleo? - É de todos. E a lenha, o fogão, os baldes? Então, o que me diz? Eu posso tirar as redes de você, e ponto final. E o pior é a falta de companheirismo. E daí que as redes são suas? Mas você faça uma para os companheiros também. Todos podem pescar, não é mesmo?

- Tudo bem - disse Taranêts - Que seja. mas o senhor aceite o peixe assim mesmo.

   Aceitei o peixe. Desde aquele dia, a pesca tornou-se tarefa geral que se fazia em turnos e a produção era entregue na cozinha.

   O segundo método de obtenção privada de gêneros alimentícios eram as viagens para a feira, na cidade. todos os dias Kaliná Ivánovitch atrelava o Malích - o cavalo guirguiz - e se punha a caminho atrás dos produtos ou pelos departamentos. Dois ou três colonistas costumavam aproveitar a viagem, quando sentiam necessidade de ir à cidade para uma consulta no hospital, um depoimento em alguma comissão ou para ajudar Kaliná Ivánovitch a segurar o Malích. Todos esses felizardos costumavam voltar da cidade fartamente alimentados e trazendo alguma coisa para os companheiros. Não houve um só caso de um deles ser 'apanhado' na feira. Os produtos resultantes dessas incursões tinham aspecto legal: 'uma mulher me deu', 'encontrei um conhecido'. Eu me esforçava para não ofender o colonista com suspeitas maldosas e sempre acreditava naquelas explicações. E a que poderia levar a minha desconfiança? Os sujos e famintos colonistas, fuçando à procura de comida, não me pareciam objetos apropriados para a pregação de qualquer tipo de moral relacionada a motivos fúteis como o furto, na feira, de algumas rosquinhas ou um par de solas.

   Na nossa inenarrável pobreza havia também um lado bom, que mais tarde nunca mais tivemos. Éramos igualmente famintos e pobres também nós, os educadores. naquele tempo, não ganhávamos quase nada, nos satisfazíamos com o nosso condiór e andávamos envoltos em quase idênticos farrapos. No decorrer de todo o inverno, eu andei de botas sem solas, com um pedaço de trapos que serviam de meias sempre pendurado para fora. Somente Ieketerína Grigórievna ostentava seus vestidos limpos, compostos e bem passados.

continua na página 22(34)...
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Leia também:

Livro Um
Capítulo 2
Capítulo 3
Característica das necessidades primordiais (d)

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Makarenko - Poema Pedagógico Livro 1(c): Característica das necessidades primordiais

Poema Pedagógico


Antón S. Makarenko


Livro Um

Capítulo 3

Característica das necessidades primordiais
continuando...

Na própria colônia não usávamos termos como delinquentes, e a nossa colônia nunca foi chamada assim. Naquela época éramos chamados de moralmente defeituosos. No entanto, para o mundo exterior o nome era inapropriado, pois cheirava excessivamente a um negócio do Departamento de Educação. 

Eu fiquei com pedaço de papel em algum lugar no corredor do departamento correspondente, junto à porta do gabinete. Através desta porta passava uma enorme quantidade de gente. Às vezes reuniam-se no gabinete tantos visitantes, que qualquer um podia entrar. Então você tinha que ir até a autoridade através dos visitantes e deslizar silenciosamente o papel sob sua mão.

A autoridade dos departamentos de abastecimento entendia bem pouco das sutilezas classificatórias da pedagogia, e nem sempre passava pela sua cabeça que os "delinquentes juvenis" tinham alguma relação com a instrução. mas a tintura emocional da expressão "delinquente juvenil" era bastante impressionante. Por isso, eram raras as vezes em que a autoridade nos encarava severamente e dizia:

- Então, por que veio aqui? Dirija-se ao seu Departamento de Educação Pública.

A autoridade dizia com mais frequência após reflexão:

- Quem é que os abastece? O Departamento das Prisões?

- Não, veja bem, o Departamento das Prisões não abastece, porque afinal de contas se trata de criança...

- Então quem é que os abastece?

- Pois é, acontece que até agora isto ainda não foi esclarecido...

- Como assim, não foi esclarecido? Que coisa estranha!

A autoridade anotava algo no seu bloco e sugeria que voltássemos dali a uma semana.

- Neste caso, libere-nos por enquanto pelo menos vinte puds.

- Vinte eu não posso dar, receba por ora cinco puds, e depois eu verifico isso.

Cinco puds era pouco, e ademais a conversa encetada não correspondia aos nossos planos, nos quais, evidentemente, não se previam quaisquer verificações.

O único resultado aceitável para a Colônia Gorki era quando a autoridade não fazia quaisquer perguntas, mas recebia o nosso papelzinho calada e escrevia no canto: "Entregue-se'.

Em tal caso eu voava para a colônia em corrida desabalada:

- Kaliná Ivánovitch! Uma ordem! Cem puds! Depressa, arranje uns ajudantes e vá buscar tudo, senão eles lá acabam investigando...

Kaliná Ivánovitch curvava-se sobre o papelucho, todo contente:

- Cem puds! Não me diga! E de onde vem isso?

- Então não está vendo? Da Comissão do Abastecimento Provincial da Seção Jurídica da Província...

- E vá alguém entendê-los! Mas para nós tanto faz; que venha do próprio diabo, desde que venha! He, he, he!...

A primeira necessidade do homem é o alimento. Por isso a situação com as roupas não nos deprimia tanto quanto a situação com o alimento. nossos educandos estavam constantemente famintos e isso dificultava sensivelmente o problema da reeducação moral. Apenas um certa parte, e pequena, do seu apetite, os colonistas conseguiam satisfazer por meio dos seus próprios recursos.

Uma das modalidades básicas da nossa indústria alimentícia privada era a pesca. No inverno isso era muito difícil. O método mais fácil era a pilhagem, o esvaziamento dos iáteri, redes em forma de pirâmides, que era colocadas num riacho próximo e no nosso lago pelos habitantes da aldeia vizinha. o instinto de conservação e o bom senso econômico inerente ao ser humano impediam a nossa rapaziada de roubar as próprias redes, mas entre os nossos colonistas encontrou-se um que violou esta regra de ouro.

continua na página 32...
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Leia também:

Livro Um
Capítulo 2
Capítulo 3
Característica das necessidades primordiais (c)

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Makarenko - Poema Pedagógico Livro 1(b): Característica das necessidades primordiais

Poema Pedagógico


Antón S. Makarenko


Livro Um

Capítulo 3

Característica das necessidades primordiais

continuando...

Mas nós não tínhamos muito tempo para ficar pensativos. Uma semana depois, em fevereiro de 1921, eu trouxe quinze meninos verdadeiramente abandonados e esfarrapados, numa carroça de carregar mobília. Nós vimos obrigados a trabalhar muito para lavá-los, vesti-los de alguma forma, curar a sarna. Em março tivemos colônia para cerca de trinta meninos. A maioria deles estava muito abandonada, em estado selvagem e absolutamente inadequados para a realização do sonho da educação socialista. No momento não havia neles capacidade a peculiar de criação, que, dizem, assemelha o modo de raciocínio das crianças ao dos homens sábios.

Na colônia também aumentou o número de educadores. Em março já tínhamos um verdadeiro Conselho Pedagógico. O casal Ivan Ivánovitch e Natália Márkovna e Óssipov trouxe, para espanto de toda a colônia, um enxoval bastante considerável: divãs, cadeiras, guarda-roupas, grande quantidade de roupas e louças de todo tipo. Nossos colonistas, carentes até do mais essencial, contemplavam com extraordinário interesse como toda aquela riqueza era descarregada das carroças na porta da residência dos Óssipov.

O interesse dos colonistas pelos bens dos Óssipov não era de forma alguma um interesse acadêmico, e fiquei muito assustado com a ideia de todo aquele transporte magnífico fazer a viagem de volta as feiras da cidade. Uma semana depois, quando a superintendente chegou, o interesse especial pelas riquezas dos Osipov diluiu-se um pouco. A superintendente era uma velhinha muito bondosa, falante e tola. Sua riqueza, embora muito inferior a dos Óssipov, era composta de coisas muito apetitosas. Havia muito farinha, potes de geleia e não sei mais o que, muitos sacos cuidadosamente amarrados e numerosos sacos de jornada, através da qual o olhar dos colonistas discerniu diversos objetos de valor.

A superintendente arrumou seu quarto com o gosto e o conforto de uma pessoa idosa: arrumou suas caixas e demais pertences em despensas, cantos e espaços, dispostos para isso pelo natureza e estabeleceu amizades rápidas com dois ou três rapazes. Esta amizade baseava-se em princípios semelhantes aos de um tratado: eles lhe trariam lenha e acenderiam seu samovar e ela, como pagamento, lhes serviria chá e conversas sobre coisas da vida. Na verdade, a superintendente não tinha nada para fazer na colônia, e me perguntava admirado por que ela fora nomeada. A colônia não precisava de superintendente nenhuma: nós éramos incrivelmente pobres.

Além de algumas salas destinadas ao pessoal - de todas as dependências da colônia - só conseguimos consertar apenas um amplo quarto com duas estufas de ferro. Nesse cômodo havia trinta camas dobráveis ​​e três mesas grandes, onde os rapazes comiam e escreviam. Outro grande dormitório e  refeitório, duas salas de aula e o escritório aguardavam o momento da reforma futura.

Tínhamos um conjunto e meio de lençóis e faltavam-nos completamente outros tipos de roupa. Nossa atitude em relação com o problema do vestuário se expressava quase que exclusivamente nas diversas reivindicações dirigidas ao Departamento de Educação Pública e outras instituições.

O delegado da Instrução Pública que tão energicamente inaugurou a colônia estava agora em outra parte, não se sabe onde, para um trabalho novo, e o seu substituto pouco se interessava pela colônia, tinha assuntos mais importantes para cuidar.

A atmosfera prevalecente no Departamento Provincial de Educação Pública não favoreceu em nada os nossos esforços. de enriquecimento. Naquele tempo, o Departamento Provincial de Educação Pública era um conglomerado de muitas salas, grandes e pequenas e com muita gente, mas as verdadeiras expressões da criatividade pedagógica não foram aqui nem as salas ou as pessoas, mas as mesinhas. Cambaias e deterioradas, seja escrivaninha, penteadeira ou de jogo, outrora pretas ou vermelhas, estas mesinhas, rodeadas de cadeiras semelhantes, simbolizavam as diferentes seções, como evidenciado pelas placas penduradas nas paredes acima de cada mesinha. Uma grande maioria mesas estavam sempre vazias, porque a unidade complementar - o homem - não era essencialmente tanto responsável pela seção como contador do distribuidor provincial. Quando acontecia de repente uma das mesinhas aparecer ocupada pela figura de uma pessoa, os visitantes vinham correndo de todos os lados e se precipitavam sobre ela. Em tais casos, a conversa se resumia no essa, e se era a essa mesma seção que o visitante devia se dirigir, ou devia se dirigir , e se fosse outra, então por, disse que era justamente esta aqui? Após solucionar todas essas questões, o titular da seção alçava âncora e sumia em velocidade cósmica. 

Nossos passos inexperientes em torno das mesinhas não levaram a nenhum resultado positivo. Por isso, no inverno de 1923, a colônia pouco se assemelhava a uma instituição de educacional. Os casacos esfarrapados mais mereciam o nome de mulambos, se adequavam muito melhor, segundo a gíria dos bandidos, mal-e-mal cobriam a pele humana; muito raramente apareciam restos de uma camisa sob o mulambo que caía em pedaços. Nossos primeiros educandos, que chegaram bem vestidos, não se destacaram por muito tempo da massa geral: o rachar lenha, o trabalho na cozinha e na lavanderia faziam o seu trabalho, ainda que pedagógico, mas destrutivo no que se refere a roupa. Por volta de março todos os nossos colonistas estavam vestidos de tal maneira que pudessem dar inveja a qualquer artista que tenha desempenhado o papel de moleiro na ópera Sereia (1). Muito poucos pés de colonistas tinham botinas, a maioria enrolava os pés em trapos e os amarrava com cordas. Mas mesmo com esse tipo de calçado sofríamos crises contínuas.

Nossa comida, um mingau ralo de painço, se chamava condiór, sopa aguada de milho. O resto da comida era puramente casual. Naquele tempo, havia um grande número de normas alimentares: havia normas comuns, normas mais rigorosas, normas para os fracos e para os fortes, normas para os deficientes mentais, para os sanatórios, para os hospitais. Com auxílio de elaborada diplomacia, conseguíamos às vezes convencer as autoridades, implorar, enganar, ganhar simpatia por nossa aparência lamentável, intimidamos acenando com a ameaça de uma rebelião dos colonistas, e então éramos transferidos para as normas de sanatório. No racionamento do sanatório havia leite, gorduras em abundância e pão branco. É claro que não recebíamos isso, mas recebemos em grandes quantidades alguns elementos de condiór e pão de centeio. Depois de um mês ou dois, experimentávamos a derrota da diplomacia e novamente descemos à categoria de meros mortais, e novamente começamos a colocar em prática a linha cautelosa e oblíqua da diplomacia ora secreta, ora aberta. Às vezes, conseguíamos exercer um pressão tão intensa que até conseguíamos carne, defumados e balas, mas a nossa existência ainda era mais triste quando foi demonstrado que os moralmente defeituosos não tinham direito a esse luxo, mas apenas os deficientes intelectuais.

De tempos em tempos, conseguíamos fazer incursões da esfera estritamente pedagógica para algumas esferas vizinhas, como, por exemplo, a Comissão de Produtos Alimentícios da Província ou a Comissão Especial de Abastecimento do Primeiro Exército de Reserva, ou para o Setor de Abastecimento de algum outro departamento adequado. O departamento de Educação Pública proibia terminantemente semelhante atos de guerrilha, é por isso que tivemos de realizar estes ataques em segredo.

Para isso, foi fundamental sair armado de um pedaço de papel, onde apareciam estas palavras simples e expressivas:

"A Colônia de Delinquentes Juvenis solicita a liberação de cem puds de farinha para a alimentação dos educandos."


continua na página 19...
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(1) - Ópera de Alexander Dargomijski (1813 - 1869), em que o personagem do moleiro é um louco maltrapilho. (N. da E.)
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Leia também:

Livro Um
Capítulo 2
Capítulo 3
Característica das necessidades primordiais (b)

sexta-feira, 28 de julho de 2023

Makarenko - Poema Pedagógico Livro 1(a): Característica das necessidades primordiais

Poema Pedagógico


Antón S. Makarenko


Livro Um

Capítulo 3

Característica das necessidades primordiais

No dia seguinte eu disse aos educandos:

- O dormitório tem que estar limpo! vocês precisam ter monitores de plantão no dormitório. e quanto a ir para a cidade, só com a minha licença. E quem sair sem ordem minha não precisa voltar, porque não o receberei.

- Oh oh! disse Vólokhov. Quem sabe dá pra ser menos severo?

- Escolham, rapazes, o que mais lhes convier. Não pode ser de outro jeito. Na colônia deve haver disciplina. Se não lhes agrada, cada um de vocês vai para onde quiser. Mas quem continuar vivendo na colônia, terá de manter a disciplina. Como quiserem. Não haverá covil de ladrões aqui.

Zadórov estendeu-me a mão:

- Toque aqui. Tem razão! Você, Vólokhov, cale a boca. Nessas coisas você ainda é bobo. É melhor estarmos aqui. Ou você quer ir para a prisão preventiva?

- Mas como, vamos ser obrigados a ir pra escola também? - perguntou Vólokhov.

- Sim.

- E se eu não quiser estudar? Pra que eu preciso disso?

- A escola é indispensável, obrigatória. Quer você queira ou não, tanto faz. Está vendo, o Zadórov acabou de dizer que você é bobo. Isso significa que você precisa estudar, ficar esperto.

Vólokhov balançou a cabeça zombeteiramente, e disse, repetindo as palavras de uma piada ucraniana:

- Quem dançou, dançou mesmo!

No terreno da disciplina, o incidente com Zadórov marcou uma virada. E, com toda a honestidade, eu não fui atormentado por nenhuma dor de consciência. Sim, eu havia surrado um educando. Vivi toda a incoerência pedagógica, toda a ilegalidade jurídica daquele incidente, mas ao mesmo tempo entendi que a limpeza de minhas mãos pedagógicas era uma questão secundária em comparação com a tarefa colocada diante de mim. E decidi determinado a ser um ditador, se não conseguisse avançar com qualquer outro método. Depois de um tempo, tive um sério conflito com Vólokhov, que, estando de plantão, não havia arrumado o dormitório e se recusou a fazê-lo após minha advertência. Olhei para ele com ar zangado e disse:

- Não me faça perder a paciência! Arrume, senão....

- Senão, o quê? Vai fazer o quê, me quebrar a cara? O senhor não tem direito!

Agarrei-o pelo colarinho e, puxando-o para perto de mim, sibilei bem perto de seu rosto com absoluta sinceridade:

- Escute! É meu último aviso; não vou te quebrar a cara, mas vou deixá-lo aleijado! Pode fazer queixa de mim depois, vou para a cadeia e não é da sua conta!

Vólokhov se livrou de minhas mãos e me disse com lágrimas nos olhos:

- Não vale a pena ir para a cadeia por uma bobagem dessas. Eu arrumo o quarto, com os diabos!

Eu trovejei para ele:

- Que jeito de falar é esse?

- Como você quer que eu fale com o senhor?... Vá para o...!

- Como é? Vamos, xingue-me!

Vólokhov riu e fez um gesto evasivo com a mão.

- Está bem, homem, tudo bem... Vou arrumar o dormitório, vou arrumar, não grite!

No entanto, deve-se ressaltar que não pensei por um minuto que tivesse encontrado na violência um meio poderoso de pedagogia. O incidente com Zádorov me custou mais caro do que ao próprio Zadórov. Eu estava com medo de seguir o caminho do menor esforço. Lídia Pietróvna foi quem me condenou com mais franqueza e insistência entre os educadores. Na noite desse mesmo dia, com o rosto apoiado em seus pequenos punhos fechados, ela me disse persistentemente:

- Então, você já encontrou o método? Como no seminário, não é?

- Deixe-me em paz, Lídochka!

- Não, o senhor me diga: vamos quebrar caras? E eu também posso? Ou só o senhor?

- Lídochka, eu te respondo mais tarde. Por enquanto não nem eu mesmo sei. Espere um pouquinho.

- Muito bem, vou esperar.

Iekaterína Grigórievna andou passou vários dias com a testa franzida e, ao falar comigo, assumiu uma postura educadamente oficial. Apenas cinco dias depois, ele me perguntou com um sorriso sério:

- Então, como se sente?

- Igual. Eu me sinto muito bem.

- Mas o senhor sabe qual é a parte mais triste de toda essa história?

- O mais triste?

- Sim. O mais desagradável é que os rapazes se referem à sua façanha com admiração e entusiasmo. Estão até dispostos a ficar apaixonados pelo senhor, com o Zadórov o primeiro de todos. Como explicar? Não compreendo. Será que é o hábito da escravidão?

Depois de refletir um pouco, respondi a Iekaterína Grigórievna:

- Não, aqui não se trata de escravidão. Aqui é uma coisa diferente. Analise com cuidado: o Zadórov, mais mais forte do que eu, ele poderia ter me aleijado com um só golpe, mas não reagiu. Considere também que ele não tem medo de nada, Tampouco Burún e os outros têm medo. Em toda essa história eles não veem uma surra, estão vendo tão-somente a ira, uma explosão humana. Eles entendem muito bem que ele poderia muito bem não ter batido nele, que poderia tê-lo devolvido como incorrigível à comissão (1), o que poderia causar-lhes muitos problemas sérios. Mas eu não fiz isso, preferindo tomar uma atitude, procedendo de uma forma que foi perigosa para mim, embora humana e não formal. E ao que parece a colônia lhes é necessária, apesar de tudo. A coisa aqui é bem complexa. Além disso, eles veem que nós trabalhamos muito duro por eles. Apesar de tudo, eles também são gente. E isso é um fato de suma importância.

"Talvez", Iekaterna Grigórievna me respondeu pensativamente.


continua na página 17...
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(1) - Refere-se à comissão que estava a cargo dos delinquentes juvenis.
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Leia também:

Livro Um
Capítulo 2
Capítulo 3
Característica das necessidades primordiais (a)

terça-feira, 27 de junho de 2023

Makarenko - Poema Pedagógico Livro 1: O inglório começo da Colônia Gorki (c)

Poema Pedagógico


Antón S. Makarenko


Livro Um

Capítulo 2

O inglório começo da Colônia Gorki

continuando...

Saí do dormitório, transformando minha raiva em uma espécie de pedra pesada dentro do meu peito. Mas as trilhas tinham que ser limpas e a raiva petrificada exigia ação. Fui em busca de Kaliná Ivánovitch:

- Vamos remover a neve.

- O que você está dizendo? Será que vim aqui para traabalhos braçais? E os bandidos-rouxinóis? disse ele, apontando para os quartos.

- Eles não querem.

- ¡Ah, parasitas! Está bem, vamos!

Kaliná Ivánovitch e eu estávamos terminando de abrir o primeiro caminho quando Vólokhov e Taranêts apareceram nele, indo, como sempre, para a cidade.

- Assim é queé bom! - disse alegremente Taranêts.

- Eles deveriam ter feito isso há muito tempo - argumentou Vólokhov.

Kálina Ivánovitch fechou-lhes o caminho:

- O que é isso de "bom"? Seu canalha, você se recusou a trabalhar e acha que vou fazer isso por você? Você não passa por aqui, parasita. Entre na neve, senão te acerto com a pá...

Kálina Ivánovitch levantou a pá, mas um segundo depois sua pá voou para um monte de neve distante, seu cachimbo acabou em outro lugar, e o atônito Kálina Ivánovitch só pôde olhar para os jovens e ouvi-los gritando com ele, de longe:

- Vai ter que se enviar sozinho na neve, atrás da pá!...

E eles se foram para a cidade, rindo.

- Vou para o inferno! Eu não trabalho aqui! exclamou Kálina Ivánovitch, e foi para seu quarto, deixando sua pá no monte de neve.

Nossa vida tornou-se triste e apreensiva. Gritos podiam ser ouvidos todas as noites na grande estrada para Khárkov:

- Socorro!

Os aldeões roubados vieram até nós e com vozes trágicas imploraram nossa ajuda.

Consegui arranjar com o Zavgubnarobraz um revólver para a defesa contra os cavaleiros-salteadores de estrada, mas escondi dele a situação na colônia. Eu ainda não havia perdido a esperança de encontrar uma maneira de me entender com os educandos.

Para mim e meus companheiros, os primeiros meses de nossa colônia não foram apenas meses de desespero e esforço impotente: foram também meses de busca pela verdade. Em toda a minha vida eu não li tanta literatura pedagógica quanto naquele inverno de 1920.

Isso foi na época de Wrangel e da guerra contra a Polônia. Wrangel estava por perto, perto de Novomírgorod; muito perto de nós, em Tcherkássi, os poloneses lutavam; toda a Ucrânia estava infestada de bátkos, chefes dos bandos "brancos", e muita gente em volta de nós se encontrava sob o feitiço da bandeira de Petliúra (1). Mas nós, na nossa floresta, com a cabeça nas mãos, procurávamos esquecer o barulho dos grandes acontecimentos e líamos livros pedagógicos.

O principal fruto que obtive da minha leitura foi a firme e profunda convicção de que não possuía nenhuma ciência nem nenhuma teoria, de que era preciso deduzir a teoria de todo o conjunto de fenômenos reais que se desenrolavam diante de meus olhos. No começo eu nem sequer compreendi, mas simplesmente vi que não precisava de fórmulas livrescas, que, de qualquer forma, não poderia aplicar ao meu trabalho, mas de análise imediata e ação não menos urgente.

Com todo o meu ser, senti que tinha que me apressar, que não podia esperar esperar nem mais um dia. A colônia estava assumindo cada vez mais o caráter de um covil de bandidos. Na atitude dos educandos para com os educadores, o tom permanente de zombaria e malícia aumentava cada vez mais. Já haviam começado a contar anedotas obscenas na presença dos educadores, exigindo rudemente que lhes servissem as refeições, jogando os pratos para o alto, brincando ostensivamente com seus punhais finlandeses e perguntando zombeteiros sobre as posses cada um de nós.

- Sempre pode ser útil... numa hora de aperto!

Eles se recusaram resolutamente a cortar lenha para as estufas e um dia quebraram o teto de madeira do galpão na presença de Kálina Ivánovitch. Eles fizeram isso entre risos e piadas:

- Esta lenha vai bastar para o resto de nossa vida!

Kálina Ivánovitch soltou milhões de faíscas de seu cachimbo e só encolhia os ombros:

- O que se pode dizer a esses parasitas? Tipos indecentes! E de onde eles aprenderam isso de destruir as construções? Seus pais deveriam ser presos por algo assim, os parasitas!

E aconteceu: não consegui ficar mais tempo na corda bamba pedagógica.

Numa manhã de inverno, pedi a Zadorov que cortasse lenha para a cozinha. E ouvi a habitual resposta atrevida e alegre:

- Vá cortar você mesmo: há muitos de vocês aqui!

Era a primeira vez que ele me tratava por "você".

Encolerizado e ofendido, levado ao desespero e ao frenesi por todos os meses anteriores, corri para Zadórov e dei-lhe um bofetão no rosto. Dei-lhe um tapa tão forte que ele vacilou e caiu sobre a estufa. Bati nele uma segunda vez e, agarrando-o pelo colarinho e levantando-o, bati nele mais uma vez.

De repente, vi que ele estava terrivelmente assustado. Pálido, com as mãos trêmulas, pôs apressadamente o boné, tirou-o e voltou a colocá-lo. E provavelmente eu teria continuado a bater nele, mas ele gaguejou num gemido lamentoso:

- Desculpe, Antón Semiónovtich...

Minha fúria era tão selvagem e desmedida que percebi que se alguém dissesse uma única palavra contra mim, eu me jogaria em cima de todos para matar, para exterminar aquela multidão de bandidos. Um atiçador de ferro apareceu em minhas mãos. Os cinco educandos permaneceram imóveis ao lado de suas camas. Burún tentava arrumar qualquer coisa na sua roupa.

Virei-me para eles e os ameacei, batendo com o atiçador no encosto de uma cama:

- Ou vão todos imediatamente para o mato rachar lenha ou desapareçam da colônia para o diabo que os carregue!

E sai do dormitório.

No galpão onde guardávamos nossas ferramentas, levantei um machado e observei, franzindo a testa, como os educando escolhiam machados e serrotes. Passou pela minha cabeça que era melhor não ir para a floresta naquele dia, não colocar os machados nas mãos dos educandos, mas já era tarde: todas as ferramentas estavam distribuídas. Isso não importava. Eu me sentia pronto para tudo: havia resolvido não desistir de minha vida de graça. Além disso, ainda tinha o revólver no bolso.

Nós fomos para a floresta. Kálina Ivánovitch me alcançou e, terrivelmente agitado, sussurrou:

- O que está acontecendo? Diga-me, por favor, por que é que eles estão tão mansos?

Olhei distraído para os olhos azuis de pan e respondi:

- As coisas estão ruins, meu irmão... Pela primeira vez na vida eu bati em uma pessoa.

- Que horror, homem! - Kálina Ivánovitch ficou surpreso. - E se eles fizerem queixa?

- Bem, isso ainda não seria tão mau...

Para minha surpresa, tudo correu bem. Trabalhei com os rapazes até a hora do almoço. Cortamos pinheiros tortos. Em geral, os rapazes permaneceram enfezados, mas o ar puro e gelado, a bela floresta, adornada com enormes capas de neve, o trabalho harmonioso do machado e do serrote fizeram sua parte.

Parados, fumamos confusos da minha reserva de makhórka (2), e Zadórov, soprando a fumaça para o topo dos pinheiros, de repente caiu na gargalhada:

- Mas essa é boa! Ha, ha, ha!

Foi bom ver seu rosto rosado, que tremia de tanto rir, e eu não conseguia parar de sorrir:

- O que é que é uma boa? O trabalho?

- O trabalho também... O que eu quero dizer, é o jeito como os enhor me deu aquela sova!

Era natural que Zadórov, um jovem grande e robusto, risse. Eu mesmo fiquei surpreso por ter ousado tocar em tal gigante.

Ele riu de novo, e ainda rindo, pegou o machado e foi em direção a uma árvore.

- Mas que história, ha, ha, ha!

Almoçamos juntos, brincando, mas não fizemos mais nenhuma referência ao incidente da manhã. Eu, porém, senti-me embaraçado, embora determinado a não baixar o tom e continuei a dar ordens com a mesma firmeza após a refeição. Vólokhov estava sorrindo, mas Zádorov se aproximou de mim com uma expressão muito séria:

- Não somos tão ruins, Anton Semiónovitch! Tudo sairá bem. Nós compreendemos...


continua na página 25...
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(1) Referência às guerras enfrentadas pelos bolcheviques na Ucrânia após a Revolução de 1917. Piotr Nicolaiévitch Wrangel (1878-1928) foi o comandante, a partir de 1920, do exército branco ucraniano, contrarrevolucionário. A guerra polonesa foi a invasão da Ucrânia oriental pela Polônia em maio de 1920. Simon Vassiliévitch Petliúra (1879-1929) foi um general ucraniano separatista, adversário tanto dos brancos como dos bolcheviques, que chegou a assumir a presidência de um governo independente em Kiev em 1919. (N. da E.)
(2) Tipo de fumo barato.
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Leia também:

Livro Um

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Makarenko - Poema Pedagógico Livro 1: O inglório começo da Colônia Gorki (b)

Poema Pedagógico


Antón S. Makarenko


Livro Um

Capítulo 2

O inglório começo da Colônia Gorki

continuando...

No dia 4 de dezembro, os primeiros seis educandos chegaram à colônia e me entregaram um envelope fabuloso, lacrado com cinco lacres enormes... Este envelope continha seus dossiês. Quatro foram enviados à colônia por assalto à mão armada em uma casa e tinham dezoito anos; os outros dois, mais novos, foram acusados ​​de furto. Nossos educandos estavam esplendidamente vestidos: culotes de montar, botas elegantes. Seus penteados estavam na última moda. Não havia absolutamente nenhuma criança abandonada neles. Os sobrenomes desses primeiros alunos eram Zadórov, Burún, Vólokhov, Bendiuk, Gud e Taranêts.

Nós os recebemos cordialmente. Desde a manhã uma refeição particularmente saborosa estava sendo preparada. A cozinheira resplandecia com sua touca branca imaculada. No dormitório, mesas ornamentadas ocupavam o espaço livre entre as camas. Não tínhamos toalhas de mesa, mas lençóis novos nos serviam bem. Aqui se reuniram todos os participantes da nascente colônia. Veio também Kaliná Ivánovitch, que, por ocasião da solenidade, havia trocado o casaco cinza sujo que usava todos os dias por um casaco de veludo verde.

Fiz um discurso sobre a nova vida de trabalho, sobre a necessidade de esquecer o passado e marchar em frente e para a frente. Os educandos ouviram meu discurso com pouca atenção, cochichando entre si, olhando com sorrisos sarcásticos e desdenhosos para as camas dobráveis, "camas de campanha", cobertas com os novos cobertores de algodão, e para as janelas e portas sem pintura. No meio de meu discurso, Zadórov disse de repente em voz alta a um de seus companheiros:

- Por tua causa nos metemos nessa confusão!

Passamos o resto do dia planejando nossa vida futura. Mas os educandos ouviram com descaso cortês minhas propostas: eles só queriam se livrar de mim o mais rápido possível.

De manhã, Lídia Pietróvna, toda agitada, veio ao meu quarto e disse:

- Não sei como falar com eles... Digo-lhes que temos de ir ao lago buscar água, e um deles, com o cabelo todo alisado, que estava a calçar os sapatos, de repente traz uma bota na minha cara e diz: "Está vendo, o sapateiro me fez umas botas muito apertadas!"

Nos primeiros dias nem sequer nos ofenderam: simplesmente não notaram a nossa presença. Ao cair da noite, eles saíram silenciosamente da colônia e voltavam pela manhã, ouvindo com um sorriso discreto minhas críticas, inflamadas pelo espírito compenetrado da minha reprimenda sócio-educativa. Uma semana depois, Bendiuk foi preso na colônia por um agente do Departamento de Investigação provincial: ele foi acusado de assassinato e roubo noturno. Lídochka, morrendo de medo desse acontecimento, chorou em seu quarto e só saiu para perguntar a todos nós:

- Mas o que é isso? Como ele poderia matar? Ele saiu assim e matou?

Iekaterína Grigórievna, sorrindo seriamente, franziu a testa:

- Não sei, Anton Semiónovitch; Eu realmente não sei... Talvez eu deva apenas ir embora daqui... Eu não sei que tom usar aqui...

A floresta solitária ao redor de nossa colônia, as caixas vazias das nossas casas, os dez catres dobráveis ​​em vez de camas, o machado e a pá como ferramentas e a meia dúzia de educandos que recusavam categoricamente não apenas nossa pedagogia, mas toda e qualquer cultura humana. tudo isso, para dizer a verdade, não correspondia em nada à nossa experiência escolar anterior.

Nas longas noites de inverno, a colônia era angustiante, dava arrepios. Duas únicas lâmpadas a iluminavam, uma no dormitório e outra no meu quarto. As duas educadoras e Kaliná Ivánovitch tinham simples lamparinas flutuante, uma invenção da época de Kii, Schek e Joriv, dos tempos antediluvianos. O vidro da minha lamparina estava quebrado em cima e o resto todo fuliginoso, porque Kaliná Ivánovitch, ao acender o cachimbo, recorria frequentemente ao fogo da minha lamparina, enfiando para isso metade do jornal no vidro.

Naquele ano, as nevascas começaram cedo e todo o pátio da colônia estava cheio de pilhas de neve. Não tínhamos ninguém para limpar as trilhas. Pedi aos educandos que fizessem sozinhos e Zadórov me respondeu:

- Até podemos limpar os caminhos, mas só quando passar o inverno: senão a gente remove a neve, e ela cai de novo. Está entendendo?

Ele sorriu gentilmente e caminhou em direção a um companheiro, esquecendo-se da minha existência. Zadórov veio de uma família de intelectuais: você poderia dizer imediatamente. Falava bem, seu rosto se distinguia por aquele olhar lustroso que só as crianças bem alimentadas têm. Vólokhov era um tipo de outra espécie; boca larga, nariz achatado, olhos muito afastados, tudo isso, ao lado de uma peculiar mobilidade de traços, compunha uma cara de bandido. Vólokhov sempre mantinha as mãos nos bolsos dos culotes e agora se aproximava de mim com esta mesma pose:

- Então, já lhe explicaram...


continua na página 20...
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Leia também:

Livro Um
O inglório começo da Colônia Gorki (b)

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Makarenko - Poema Pedagógico Livro 1: O inglório começo da Colônia Gorki (a)

Poema Pedagógico


Antón S. Makarenko


Livro Um

Capítulo 2

O inglório começo da Colônia Gorki


A seis quilômetros de Poltava, pelas encostas arenosas, uma floresta de pinheiros se estendia por cerca de duzentos hectares, e ao longo da orla da floresta corria a estrada de Khárkov, na qual brilhavam seixos de pedras bem cuidadas de brilho monótono.

Na floresta havia uma clareira de cerca de quarenta hectares. Em um de seus cantos havia cinco caixas de tijolos, geometricamente corretos, que juntas formavam um quadrado perfeito. Esta é a nova colônia para menores infratores da lei.

O pátio arenoso descia para uma vasta clareira na floresta, até os juncos de um pequeno lago, em cuja margem oposta ficavam as cercas e valetas de uma fazenda kuláks (1). Além da casa da fazenda, uma fileira de velhas bétulas e dois ou três telhados de palha assomavam no céu. E é só.

Antes da Revolução, aqui havia uma colônia para menores delinquentes. Em 1917 a colônia se dissolve, deixando poucos vestígios pedagógicos. A julgar por essas impressões, preservadas em alguns velhos e rasgados cadernos-diário, os principais pedagogos eram velhos militares, provavelmente suboficiais aposentados, cujas funções consistiam em vigiar cada passo de seus alunos, tanto no trabalho quanto no recreio, e dormir durante as noites com eles no quarto ao lado. Pelo que contaram os camponeses do bairro, deduziu-se que a pedagogia desses guardas não brilhava por complicações especiais. Externamente, ele se expressava por meio de um instrumento tão simples quanto uma bengala.

Os vestígios materiais da ex-colônia eram ainda mais insignificantes. Os vizinhos mais próximos da colônia haviam transferido e levado para seus próprios armazéns tudo o que podia ter qualquer valor material: as oficinas, os armazéns, os móveis. Entre outros valores, levaram até o pomar inteiro de árvores frutíferas. No entanto, nada em toda essa história lembrava os vândalos. O pomar não havia sido derrubado, mas desenterrado e replantado em outro lugar; As janelas das casas também não foram quebradas, mas retiradas com cautela; as portas, intocadas por qualquer machado raivoso, foram cuidadosamente arrancadas de suas dobradiças e os fornos derrubados tijolo por tijolo. Apenas o aparador, na antiga residência do diretor, permaneceu em seu lugar.

- Por que deixaram o bufê? - perguntei a um vizinho, Luká Semiónovitch Vekhól, que veio da fazenda para ver os novos donos.

- Bem, porque, como você pode ver, pode-se dizer que este armário é inútil para a nossa gente. Você mesmo julgará que não vale a pena desmontá-lo. E nas nossas casas, ele nem ia passar pelas portas, por causa da altura dele e da largura também...

Pelos cantos dos barracões havia toda sorte de tralha amontoada, mas não havia coisas úteis. Seguindo pistas mais recentes, consegui recuperar alguns objetos de valor, roubados nos últimos dias. Eram uma velha e simples semeadeira, oito bancadas de marceneiro cambaias, quase de pé, um cavalo merino capado de trinta anos, outrora quirguiz, e um sino de bronze.

Ao chegar na colônia, já lá encontrei o chefe do abastecimento Kaliná Ivánovtich, que me saudou com uma pergunta: 

- O senhor é que será o diretor do Departamento Pedagógico?

Logo percebi que Kaliná Ivánovitch falava com sotaque ucraniano, embora por princípio se recusasse a reconhecer o idioma da Ucrãnia. As palavras ucranianas abundavam em seu léxico e ele sempre pronunciava a letra "guê" da maneira sulista, como um "h". Mas não sei por que na palavra "pedagógico" ele acentuava tanto aquele "guê" na pronúncia literária russa, que o seu "guê" saia talvez até duro de mais.

- O senhor é que será o diretor do Departamento Pedagógico?

- Porque? Eu sou o diretor da colônia... 

"Não", ele objetou, tirando o cachimbo da boca. Você ficará a cargo da parte pedagógica e eu o chefe da parte econômica.

Imaginem o pan (2) de Vrubel, já completamente careca, com apenas um rastro de cabelo nas orelhas. Raspem a barba deste pan e aparem-lhe os bigodes à moda episcopal. Coloque um cachimbo entre os dentes, e terão não mais pan, mas Kaliná Ivánovitch Serdiuk. Ele era um homem extraordinariamente complicado para um trabalho tão simples quanto administrar uma colônia infantil. Ele tinha atrás de si pelo menos cinquenta anos de atividades diferentes. Mas apenas duas épocas foram seu orgulho: na juventude, ele havia sido um hussardo no Regimento Keksholm (3) de guarda-costas de Sua Majestade Kexholm e, no ano 18, durante a ofensiva alemã, liderou a evacuação da cidade de Mirgorod.

Kaliná Ivánovitch foi o primeiro objeto da minha atividade pedagógica. Sua abundância nas mais diversas convicções foi para mim uma grande dificuldade. Com o mesmo prazer, ele criticou os burgueses, os bolcheviques, os russos, os judeus, nosso relaxamento e meticulosidade alemã. Mas seus olhos azuis brilhavam com tanto amor pela vida, ele era tão sensível, receptivo e disposto, que não poupei nenhuma energia pedagógica por ele. E comecei a educá-lo desde o primeiro dia, desde a nossa primeira conversa:

- Como é possível, camarada Serdiuk, que a colônia não tenha diretor? Alguém deve responder por tudo.

Kaliná Ivánovitch tirou o cachimbo novamente e curvou-se educadamente no meu rosto:

- Então o senhor quer ser o diretor da colônia? E que sou, de certa forma, seu subordinado?

-Não, isso não é obrigatório. Se quiser, eu serei seu subordinado.

- Não estudei pedagogia e o que não me diz respeito, não me diz respeito. O senhor ainda é jovem e quer que eu, um velho, seja o garoto de recados. Isso também não é bom. Porém, para ser o diretor da colônia me falta cultura, e além disso, que necessidade eu tenho?...

Kaliná Ivánovitch afastou-se de mim com raiva. Ele estava chateado. Ele ficou triste o dia todo, e ao anoitecer apareceu no meu quarto já completamente abatido.

- Aqui coloquei uma cama e uma mesa. O que consegui encontrar...

- Obrigado. 

- Fico pensando no que vamos fazer com essa colônia. E decidi que, claro, é melhor se o senhor for o diretor da colônia e eu for uma espécie de subordinado do senhor.

- Vamos nos entender, Kaliná Ivánovitch. Ficaremos bem.

- Eu também acho. A coisa não é tão difícil e cumpriremos nosso dever. E o senhor, como homem culto, será uma espécie de diretor da colônia.

Pusemos mãos à obra. Com a ajuda de paus conseguimos erguer o rocinante de trinta anos. Kaliná Ivánovitch subiu em algo parecido com uma carroça, gentilmente cedido por um vizinho, e todo essa geringonça se dirigiu para a cidade a uma velocidade de dois quilômetros por hora. O período de organização começou.

Para este período, uma tarefa muito precisa foi definida: a concentração de valores materiais essenciais para a educação do homem novo. Por dois meses, Kaliná Ivánovitch e eu passamos dias inteiros na cidade. Kaliná Ivánovitch estava no veículo e eu a pé. Ele acreditava que andar a pé rebaixava sua dignidade, e era impossível para mim me conformar com o ritmo que o ex-corcel quirguiz poderia proporcionar.

Em dois meses, com a ajuda de técnicos rurais, conseguimos colocar mais ou menos em ordem uma das casernas da velha colônia: montamos janelas, consertamos os fogões, colocamos novas portas. No domínio da política externa obtivemos apenas um sucesso, embora, por outro lado, verdadeiramente notável: por força de pedidos e de tanto insistirmos obtivemos da Comissão de Abastecimento do Primeiro Exército de Reserva 150 puds (4) de farinha de centeio. Mas não tivemos tanta sorte de poder concentrar outros valores materiais.

Comparando tudo isso com meus ideais no campo da cultura material, vi que, mesmo que tivesse cem vezes mais, estaria tão longe de alcançar o ideal quanto estou agora. Como resultado, tive que declarar encerrado o período de organização. Kaliná Ivánovitch concordou com meu ponto de vista:

- E o que é que você vai coletar, se eles, os parasitas, se dedicam a fazer isqueiros? Eles arruinaram o povo, está entendendo, e agora dizem: Organizem-se como puderem. Teremos que fazer o mesmo que Ilyá Muromets (5)...

- O mesmo que Ilyá Muromets?

- Sim. Existiu esse tal... Ilyá Muromets... talvez você saiba, bem, aqueles parasitas declararam que ele era um paladino, um herói. Mas considero que ele não passava de um mendigo e um vagabundo, que andava de trenó em pleno verão.

- Pois bem: seremos como Ilyá Muromets. Afinal, isso não é tão ruim. E onde está o bandido Solovéi (6)?

- Bandidos, amigo, tem quantos você quiser...

Duas educadoras vieram para a colônia: Iekaterína Grigórievna e Lídia Pietróvna. Em minhas buscas por pedagogos, cheguei quase ao completo desespero; ninguém queria se dedicar à educação do homem novo em nossa floresta, porque todos temiam os "vagabundos" e ninguém confiava na sorte final de nosso empreendimento. E só em uma conferência de professores rurais, na qual fui obrigado a falar, encontrei duas pessoas vivas. Fiquei feliz por serem mulheres. Eu acreditava que a enobrecedora influência feminina iria completar nosso sistema de forças.

Lídia Pietróvna ainda era muito jovem, uma garotinha. Ela havia acabado de sair do ensino médio e ainda não havia perdido o hábito dos cuidados maternos. O delegado provincial da Instrução Pública perguntou-me ao assinar a sua nomeação:

- Para que você quer essa garotinha? Se ela não sabe nada... 

- Isso é exatamente o que eu procurava. De vez em quando me ocorre que o conhecimento não é tão importante agora. Essa Lídochka é um ser muito puro, e conto com ela como uma espécie de vacina.

- Você não está querendo ser sabido demais? Está bem, que seja... 

Por outro lado, Iekaterína Grigórievna era um lobo pedagógico experiente. Ela não nasceu muito antes de Lídochka, mas Lídochka se apoiou em seu ombro como uma criança com sua mãe. No rosto sério e bonito de Iekaterína Grigórievna destacavam-se sobrancelhas negras, quase masculinas. Ela sabia usar vestidos com penteados sublinhados que guardava por um verdadeiro milagre, e Kaliná Ivánovitch, ao conhecê-la, expressou-se com propriedade:

- Com uma moça destas é preciso andar com muito cuidado...

E, assim, estava tudo pronto.



continua na página 18...
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(1) Kuláks: camponeses-proprietários, ricos, que exploravam o trabalho de camponeses pobres. (N. do T.)
(2) Pan: senhor ou patrão em ucraniano (N. do T.)
(3) O czar Nicolau II (1868-1918. (N. do T.)
(4) Pud: medida de peso, cerca de 16kh. (N. do T.)
(5) Herói lendário da velha Rússia. (N. do T.)
(6) No original, Solovêi-Razboinik, literalmente, "Rouxinol-Bandido", lendário salteador que teria sido vencido por Ilyá Muromets. (N. do T.)
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Leia também:

Livro Um
O inglório começo da Colônia Gorki (a)

sexta-feira, 10 de março de 2023

Makarenko - Poema Pedagógico Livro 1: Conversa com Zavgubnarobraz

Poema Pedagógico


Antón S. Makarenko


Com devoção e afeto
ao nosso chefe. amigo e mestre
Maxím Gorki



Índice 

primeiro livro

1.   Conversa com o Zavgubnarobraz (delegado provincial da Instrução Pública)
2.   O inglório começo da Colônia Gorki
3.   Característica das necessidades primordiais
4.   Operações de caráter interno
5.   Assuntos de importância estatal
6.   Conquista do tanque de ferro
7.   Não existe pulga ruim
8.   Caráter e cultura
9.   Ainda existem cavaleiros na Ucrânia
10. Heróis da educação socialista
11. A semeadeira triunfal
12. Brátchenko e o comissário regional do Abastecimento
13. Ossádchi
14. Bons vizinhos
15. O nosso é o mais bonito
16. Gabersup
17. Sharin em pé de guerra
18. "Aliança" com o campesinato
19. Jogo de roupas
20. Sobre os vivos e os mortos
21. Alguns velhos nocivos
22. Amputação
23. Sementes de qualidade
24. Calvário de Semion
25. Pedagogia do Comandante
26. Os monstros da segunda colônia
27. A conquista do Komsomol
28. Início da marcha das fanfarras


segundo livro

1.   O jarro de leite
2.   Otchenásh
3.   Os Dominantes
4.   O teatro
5.   Educação de kulák
6.   Flechas do Cupido
7.   Reforços
8.   Os 9º e 10º Destacamentos
9.   O quarto destacamento misto
10. O casamento
11. Lírica
12. Outono
13. Viagens do amor e da poesia
14. Sem lamentos!
15. Gente difícil
16. Zaporójie
17. Como contar
18. Reconhecimento bélico


terceiro livro

1.   Pregos
2.   O Destacamento de Vanguarda Mista
3.   Prosa Kuryazh
4.   Tudo está indo bem
5.   Idílio
6.   Cinco dias
7.   O 373 bis
8.   Hopak
9.   Transfiguração
10. Aos pés do Olimpo
11. O primeiro feixe
12. E a vida continuou
13. Ajudem o menino!
14. Recompensas
15. Epílogo


Livro Um

Capítulo 1

Conversa com o Zavgubnarobraz (delegado provincial da Instrução Pública)


Em setembro de 1920, o delegado provincial para a Instrução Pública me chamou.

- Ouça-me, meu caro, ele me disse, "ouvi dizer que você está gritando por aí... porque eles montaram sua escol de trabalho... nas instalações do Conselho Provincial de Economia.

- Como não gritar? A coisa não é só gritar, é sentar e uivar: que escola de trabalho é aquilo? Tudo fumado, sujo... Parece uma escola? (1)

- Sim... Para o seu gosto, seria necessário construir um novo prédio, colocar novas carteiras, e então você você estaria ensinando. A questão não está, irmão, nos prédios; o importante é educar o homem
novo, mas vocês pedagogos não fazem nada além de sabotar tudo: vocês não gostam do prédio e das mesas eles não são como deveriam ser. Falta-lhe isso... quer saber?... O fogo revolucionário. Janotas, é o que vocês são.

- Eu até que não sou janota.

- Vá lá, você não é... Intelectuais sarnentos! Eu procuro e procuro, temos uma tarefa tão grande pela frente: proliferam esses vagabundos, moleques abandonados - não se pode pela rua! Além disso, eles já entram nas casas. Dizem-me que isto é um assunto nosso, da Educação Pública... O que acha?

- O que pensar?

- É isso aí: eles não querem nem saber, com quem quer que eu fale, só recebo um redondo "não" - Eles vão nos esfaquear, dizem. Naturalmente, você gostaria de ter um pequeno escritório, seus livrinhos... Olhe só para você, até óculos já botou...

Desatei a rir:

- Ora vejam, agora até meus óculos atrapalham!

- O que eu quero dizer é que vocês só querem saber de leitura, mas se lhes puserem pela frente um ser humano vivo, lá vão vocês: o tal ser humano vivo vai me matar! Intelectuais!

O Zavgubnarobraz me espetava com seus olhinhos negros enfezados, e de sob o bigode nietzschiano, emitia impropérios contra toda nossa confraria pedagógica. Só que ele não tinha razão, esse Zavgubnarobraz.

- Mas ouça-me, por favor...

- "Ouça-me, ouça-me..." Ouvir o quê? Para quê?  O que é que você pode me dizer? Vai me dizer, ah, se fosse daquele jeito... como na América! Há pouco eu li um livreco a esse respeito, alguém me empurrou. Reformador... ou, como é mesmo, espere... isso mesmo reformatórios. Pois bem, isso nós ainda não temos.

- Não é isso, o senhor me escute.

- Mesmo antes da Revolução . Isso sinjá se sabia lidar com esses vagabundos. Já existiam as colônias para delinquentes juvenis.

- Isso não nos serve, sabe... O que foi antes da Revolução não serve para nós.

- Certo. Isso significa que temos de criar o homem novo de maneira nova.

- De maneira nova, isso mesmo, nisso você está certo.

- Mas ninguém sabe de que jeito fazer isso.

- Nem você sabe?

- Nem eu sei.

- Pois aqui comigo, sabe,,, eu tenho uns caras aqui mesmo no Departamento de Educação da Província que sabem...

- Mas não querem pôr mãos à obra.

- Não querem os safados, quanto a isso você acertou.

- Mas se eu começar alguma coisa, eles vão infernizar-me a vida, vão acabar comigo. Faça o que fizer, não é nada disso.

- Vão mesmo os desgraçados, nisso você está certo.

- E o senhor vai acreditar neles e não em mim.

- Não vou acreditar neles, vou dizer-lhes: e por que não começaram vocês mesmos?

- Mas se eu de fato meter os pés pelas mãos?

O Zavgubnarobraz deu um murro na mesa:

- Mas que conversa é essa de meter os pés pelas mãos? Meter os pés pelas mãos? Então você vai meter os pés pelas mãos, e daí, ora bolas! O que é que você quer de mim? acha que eu não compreendo nada, ou o quê? Então façaas suas trapalhadas, meta os pés pelas mãos, mas o trabalho tem de ser feito. Faça, e depois veremos. O principal é que, sabe... não se trata de alguma colônia de delinquentes juvenis qualquer, mas, você entende, é a Educação Social... precisamos de um homem novo assim... um que seja nosso! e você trate de construí-lo. De qualquer jeito, todos têm de aprender. Então você vai aprender, também. Até foi bom você me dizer que não sabe. Pois então está resolvido, e tudo bem.

- Mas existe um lugar? Uns prédios sempre são necessários, apesar de tudo.

-  Existe, meu caro. Um lugar e tanto. Exatamente no lugar onde ficava a colônia de deliquentes juvenis. Não é longe - umas seis verstá (2). É gostoso ali: bosques, campos - dá para criar umas vacas...

- E gente?

- Vou já, já tirar gente do bolso, para você. Quem sabe vai querer também um automóvel?

- E dinheiro?

- Dinheiro temos. Aqui, receba.

Ele tirou um pacote de notas da gaveta da escrivaninha.

- Cento e cinquenta milhões. Isto dá para qualquer tipo de despesa de organização e para alguma mobília de que precise...

- E para as vacas?

- As vacas vão ter de esperar; lá não ha nem vidraças. E para o ano você me prepara uma estimativa.

- Mas fica meio esquisito, assim - não seria bom eu dar uma olhada ali, antes?

- Eu já olhei... e daí, acha que vai enxergar mais do que eu? Vá para lá duma vez e pronto!

- Pois muito bem - disse eu, aliviado, porque naquele momento nada me parecia mais assustador do que o recinto do Conselho Econômico da Província.

- Assim é que se fala - disse Zavgubnarobraz. - Vá em frente! A causa é sagrada.


continua na página 14...
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(1) Makarenko se refere ao improvisado edifício da escola na cidade de Poltava, que então dirigia, local que funcionava parte do dia como escritório do Conselho Econômico da Província.
(2) Verstá: milha russa.
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Leia também:

Livro Um
Conversa com Zavgubnarobraz