Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Prelúdio
Canto I
Assembleia dos Deuses, Conselhos de Atena a Telêmaco e Festa dos Pretendentes
“A assembleia dos deuses se reúne acerca do envio de Odisseu para Ítaca desde a ilha de Calipso. Então, Atena vai para Ítaca, se apresenta a Telêmaco, se fazendo semelhante a Mentes, rei dos Tófios.
Ocorre então uma conversa. Atena aconselha Telêmaco a ir procurar seu pai primeiro em Pilo, cidade de Nestor, depois em Esparta, cidade de Menelau. Ela parte dando sinais de que é deusa.
Acontece, entrementes, a festa dos pretendentes.” (Scholie MPV)
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado,
os pretendentes a outros prazeres inclinam as mentes,
canto com música e dança, ornamento de todo banquete.
Uma belíssima cítara traz logo o arauto e a coloca
na mão de Fêmio, que, contra a vontade, os festins alegrava.
Preludiando na cítara, ao canto dá aquele princípio.
À de olhos glaucos, Atena, Telêmaco disse o seguinte,
quase a falar-lhe no ouvido, porque ninguém mais o sentisse:
“Caro estrangeiro, não vais agastar-te com minhas palavras?
Estes aqui só se ocupam com canto e com música: apenas;
coisa bem fácil, porque só consomem alheia fazenda,
de quem a ossada, jazendo na praia, apodrece na chuva,
ou, porventura, é jogada no mar pelo embalo das ondas.
Mas, se de novo voltasse e, de súbito, em Ítaca o vissem,
todos, por certo, mais rápidos pés pediriam aos deuses,
do que viver em tamanha opulência de vestes e de ouro.
Mas, como disse, caiu sob um fado impiedoso, e esperança
já não me resta da volta, ainda mesmo que o afirme um
dos muitos
dos moradores da terra. A manhã do retorno não surge.
Vamos! Agora me fala e responde conforme a verdade:
Em que navio chegaste e de como os seus homens puderam
pôr-te nesta ilha? Revela-me o nome de que se envaidecem,
pois não presumo que tenhas chegado por via terrestre.
“Conta-me tudo de acordo com os fatos, a fim de que o saiba,
se é a vez primeira que vens até cá, ou se acaso já foste
hóspede aqui de meu pai, porque muitos a casa nos vêm,
visto ser grande o convívio que sempre manteve com os homens.”
A de olhos glaucos, Atena, lhe disse o seguinte, em resposta:
“Sem o menor subterfúgio pretendo contar-te a verdade.
Mentes me chamo e me orgulho de ser descendente de Anquíalo
justo; dirijo o destino dos Táfios amantes do remo.
Eu, mais os sócios, aqui vimos ter, pelo mar cintilante,
ora no rumo de Témesa, de moradores de língua
que diferente nos soa. Por bronze pretendo dar ferro.
Perto do campo o navio deixei, bem distante das casas,
no porto Reitro, que fica na base do Neio selvoso.
Nossas famílias se orgulham da hospitalidade que entre elas
houve, de início. Pergunta-o ao velho guerreiro Laertes,
que, dizem todos, não mais a cidade procura e frequenta,
mas em trabalhos os dias consome no campo distante,
com uma velha criada, que, a ponto, lhe dá os alimentos,
como bebida, ao sentir o cansaço nos membros, quando anda
pelo montuoso terreno em que tem sua vinha plantada.
Mas me disseram que já se encontrava teu pai de retorno.
Por isso vim; certamente os eternos a volta lhe impedem.
Não, não morreu sobre a terra o divino Odisseu, mas ainda
vive e talvez ora se ache detido no largo oceano,
em qualquer ilha por ondas cercada, onde seres malvados
e sem polícia por força o retêm, muito contra a vontade.
Ora desejo prever-te o futuro, tal como os eternos
na alma mo dizem e como há de dar-se com toda a certeza,
conquanto insciente no voo dos pássaros e profecias.
Por muito tempo não há de ficar afastado da pátria,
mesmo que em volta dos membros tivesse cadeias de ferro.
Pensa na fuga, no modo exequível, por ser ardiloso.
Vamos, agora me fala e responde conforme a verdade:
Crescido assim, como estás, do valente Odisseu tu descendes?
Muito com ele pareces, nas belas feições, na cabeça,
pois com bastante frequência trocávamos sempre visitas,
antes que para as planícies de Troia embarcasse, aonde foram
em naus velozes, também, os Argivos mais nobres e fortes.
Desde esse tempo nem mais eu o vi, nem me viu Odisseu.”
O ajuizado Telêmaco desta maneira lhe fala:
“Tudo direi, estrangeiro, de acordo com a pura verdade.
Diz minha mãe que sou dele, de fato, gerado; contudo,
eu próprio o ignoro; ninguém tem consciência da própria linhagem.
Bem preferira se de outra pessoa pudesse ser filho,
que, mais feliz, à velhice chegasse com suas riquezas.
Já que o desejas saber, dir-te-ei: venho, sim, do guerreiro
mais infeliz do que quantos partilham da vida terrena.”
A de olhos glaucos, Atena, lhe disse, em resposta, o seguinte:
“Não resolveram os deuses ficasse sem nome a linhagem
a que pertences, porque de Penélope foste gerado.
Mas vamos, ora me fala e responde conforme a verdade:
Qual é esta festa? Que gente? Até onde te importa isso tudo?
É casamento ou banquete? Pois não me parece de escote.
São, a meu ver, por demais arrogantes na festa que fazem
em tua casa. Qualquer indivíduo dotado de siso
se indignaria, ao se ver testemunha de tanta impudência.”
O ajuizado Telêmaco desta maneira lhe fala:
O ajuizado Telêmaco desta maneira lhe fala:
“Hóspede, visto que acerca de tudo interrogas e inquires,
de intemerata e opulenta ufanou-se esta casa no tempo
já decorrido, em que aquele varão se encontrava na pátria.
Ora outra coisa decretam os deuses, que males meditam,
que resolveram tirá-lo da vista de todos os homens.
Menos penoso seria saber que, de fato, morrera,
se sucumbisse entre os seus companheiros nos campos de Troia,
ou entre os braços de amigos, depois de acabada a campanha.
Túmulo os povos Aqueus com certeza haveriam fazer-lhe,
e, no porvir, a seu filho deixara renome perene.
e, no porvir, a seu filho deixara renome perene.
Mas, desse modo, as Harpias sem fama nenhuma o arrastaram.
Dele já não há notícia, sumiu, só me havendo deixado
pranto e aflições. Mas não é só por ele que tanto me aflijo;
por mim também, pois a mim outros males os deuses reservam.
Quantos senhores dominam possantes nas ilhas de em torno,
não só em Samo, também em Dulíquio e em Zacinto selvosa,
ou mesmo em Ítaca o mando repartem, de chão pedregoso,
todos a mãe me requestam e os bens, sem cessar, dilapidam.
Ela, nem sabe, de vez, recusar essas núpcias odientas,
nem, de uma vez, aceitar. E, com isso, eles gastam sem pausa
nem, de uma vez, aceitar. E, com isso, eles gastam sem pausa
minha fazenda. A mim próprio, por certo, bem cedo consomem.”
Palas Atena, indignada, lhe diz deste modo, em resposta:
“Vejo que falta mui grande ora tens do afastado Odisseu,
para que a mão vingadora baixasse sobre estes intrusos.
Fosse possível chegar hoje mesmo, de pé junto à porta,
de elmo e de escudo provido, e nas mãos duas lanças potentes,
e o visse, agora, tal como o encontrei na primeira visita
a nossa casa, conquanto a tão só beber e divertir-se,
de Éfire vindo, onde esteve qual hóspede de Ilo Mermérida!
Fora Odisseu até lá transportado por nave ligeira,
Fora Odisseu até lá transportado por nave ligeira,
para buscar um veneno homicida de que precisava,
com o fim de untar suas flechas de bronze. Mas Ilo escusou-se
por tudo a dar-lho, porque tinha medo dos deuses eternos.
Meu pai, porém, lho cedeu, pois lhe tinha afeição extremada.
Oh! se o divino Odisseu, tal como é, entre os moços surgisse!
Todos na curta distância veriam as núpcias lugentes.
Mas isso tudo ainda se acha assentado nos joelhos dos deuses,
se de tornada virá para casa, a tirar a vingança,
ou se há de inulto ficar. Mas agora a pensar te aconselho
como consigas tocar do palácio esse bando de gente.
Vamos, escuta o que digo e reflete nas minhas palavras.
Logo amanhã chamarás à assembleia os heroicos Aquivos
e a todos eles expõe teu pensar, invocando os eternos.
Os pretendentes intima, depois, para que se dispersem.
Quanto a tua mãe, se, de fato, deseja casar novamente,
para o palácio retorne do pai, de poder não somenos,
que cuidará dessas núpcias, bem como do dote vultoso,
como costumam fazer sempre os pais com suas filhas queridas.
Ora um conselho sensato pretendo expender, se mo aceitas:
Nau aparelha, a melhor que encontrares, com vinte remeiros,
Nau aparelha, a melhor que encontrares, com vinte remeiros,
para notícias buscar de teu pai, que de há muito está ausente,
quer to refira um mortal, quer a voz que de Zeus se origina,
que, sobretudo entre os homens renome preexcelso concede.
Vai até Pilo, primeiro, e o divino Nestor interroga;
a Menelau, em seguida, o de louros cabelos, de Esparta,
o derradeiro a chegar dos Aqueus de couraça de bronze.
Caso te digam que ainda está vivo e que pensa na volta,
mesmo que muito te aflija, suporta a demora de um ano.
Mas, se te vier a notícia de que não mais vive, que é morto,
continua página 658...
__________________
Prelúdio
Canto I.a / Canto I.b /
__________________
Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário