Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Primeira Parte
V
continuando...Embaixo, não encontraram ninguém. Estrelas vermelhas passavam ao longe, num cotovelo da galeria. Puseram-se a caminho, ela na frente, ele atrás, arrastando os pés de cansaço, sem mais vontade de fazer gracejos. As lâmpadas fumegavam; ele mal podia vê-la, envolta numa espécie de neblina de fumaça. A ideia de que ela era uma moça o deixava inquieto; sentia-se estúpido por não a beijar, mas a lembrança do outro o impedia. Certamente ela tinha mentido: o outro era seu amante, dormiam juntos em todos os leitos de pedras que encontravam, ela já rebolava como uma prostituta... Sem motivo, sentiu-se despeitado, como se a moça o tivesse enganado. E no entanto ela, a cada momento, voltava-se, prevenia-o sobre algum obstáculo, parecia convidá-lo a ser amável. Estavam tão sós, bem que podiam rir como dois bons amigos! Finalmente desembocaram na galeria de trânsito; foi um alívio para ele, ali não poderia fazer mais nada, nem que quisesse. Ela olhou-o pela última vez com um olhar triste, como saudosa de uma ventura para sempre perdida.
Agora, em torno deles, a vida subterrânea estrondeava com as
contínuas andanças dos contramestres, o vaivém dos comboios de
vagonetes puxados pelo trote dos cavalos. Só as lâmpadas punham estrelas
naquela noite. Eles tinham de se encostar na rocha, dar passagem às
sombras de homens e de animais e receber seu hálito no rosto. Jeanlin,
correndo descalço atrás dos seus vagonetes, gritou-lhes um impropério que
não entenderam, devido ao ribombar das rodas.
Continuavam caminhando; ela agora silenciosa, ele não
reconhecendo as encruzilhadas e galerias por onde passara de manhã,
imaginando que ela o afundava cada vez mais na terra. O que mais sentia
era o frio; um frio sempre maior, que começara na saída do veio e o fazia
tiritar violentamente à medida que se aproximavam do poço.
A corrente de ar soprava novamente como uma tempestade entre as
muralhas estreitas. Ele pensava que nunca mais chegaria quando, de
repente, atingiram a embocadura da galeria.
Chaval lançou-lhes um olhar atravessado, a boca franzida de
desconfiança. Os outros também estavam lá, suando no ar gelado, mudos
como ele, engolindo o ódio. Haviam chegado cedo demais, recusavam-se a
subi-los antes de meia hora, ainda mais que estavam fazendo manobras
complicadas para descer um cavalo. Os carregadores ainda faziam correr os
carros com um ruído ensurdecedor de ferragem sacudida; os elevadores
subiam, desaparecendo na chuva torrencial que caía do buraco negro;
embaixo, o desaguadouro, com uma boca de dez metros de diâmetro, fluía
sem descanso, exalando a sua umidade lodosa. Em volta do poço havia
homens que trabalhavam infatigavelmente puxando as cordas dos sinais,
pendurando-se nos braços das alavancas em meio àquela garoa que lhes
encharcava as roupas. A claridade avermelhada das três lâmpadas de chama
livre, recortando grandes sombras móveis, dava a essa sala subterrânea um
aspecto de covil, de toca de bandidos próxima de uma torrente.
Maheu fez um último esforço. Aproximou-se de Pierron, que
pegara no serviço às seis horas.
— Como é? tu bem que podias deixar-nos subir.
Mas o carregador, belo rapaz de rosto meigo e membros fortes,
recusou com um gesto de medo.
— Impossível, pede ao contramestre. Eles me multariam se eu
deixasse.
Novos grunhidos de cólera foram abafados. Catherine, inclinando
se, disse ao ouvido de Etienne:
— Vamos então à cavalariça, vais ver como é agradável. Tiveram
de escapar sem ser vistos, porque era proibido ir lá.
A cavalariça encontrava-se à esquerda, no fim de uma pequena
galeria. Talhada na rocha e abobadada de tijolos, com vinte e cinco metros
de comprimento e quatro de altura, podia conter vinte cavalos. Realmente
era agradável ali, com um bom calor de animais vivos, um cheiro bom de
palha fresca e sempre limpa. A única lâmpada existente espalhava uma luz
calma de lamparina. Os cavalos, descansando, viraram a cabeça para olhá-los com seus grandes olhos infantis, para em seguida voltarem à sua aveia,
sem pressa, como trabalhadores bem alimentados e saudáveis, apreciados
por todos.
Catherine começou a ler em voz alta os nomes escritos em placas de
zinco por cima das manjedouras; de repente deu um pequeno grito, vendo
um corpo erguer-se diante dela: era a filha de Mouque, que, sobressaltada,
saía de um monte de palha, onde estivera dormindo. Às segundas-feiras,
quando estava realmente cansada das farras de domingo, dava-se um
violento soco no nariz, deixava seu veio com o pretexto de ir em busca de
água e vinha esconder-se ali, na palha quente, com os animais. Seu pai, que
a amava muito, tolerava tudo isso, correndo o risco de ter aborrecimentos.
Justamente nesse momento entrou o velho Mouque, baixo, careca,
uma ruína, mas apesar de tudo gordo, o que era raro num mineiro de
cinquenta anos. Depois que fora transferido para a cavalariça, mascava
tanto tabaco que as gengivas sangravam na boca negra. Vendo os dois com
a filha, resolveu zangar-se.
— Que é que vocês todos estão fazendo aqui? Vamos, fora! E essas
malandras ainda me trazem um homem... É muito bonito virem fazer suas
sem-vergonhices em cima da palha!
A filha achou engraçado e começou a rir, apertando a barriga.
Etienne, encabulado, foi embora, e Catherine lhe sorriu.
Os três chegaram à plataforma do poço com Bébert e Jeanlin, que
traziam um comboio de vagonetes. Houve uma parada para a manobra dos
elevadores, e a moça aproximou-se do cavalo deles, acariciou-o e falou dele
a Etienne. Era o Batalha, um animal branco que tinha dez anos de serviços
prestados no fundo da mina, o mais antigo de todos os cavalos que
trabalhavam ali; havia dez anos que ele vivia enfurnado, ocupando o
mesmo canto da estrebaria, fazendo a mesma tarefa ao longo das galerias
negras, sem jamais ter revisto a luz do dia. Muito gordo, de pelo luzidio e ar
bonachão, parecia levar ali embaixo uma existência de sábio, ao abrigo dos
dissabores lá de cima; de tanto viver nas trevas, transformara-se num
espertalhão; a via onde trabalhava era-lhe agora tão familiar que empurrava
com a cabeça as portas de ventilação e curvava-se nos lugares mais baixos
para não bater. Decerto ele contava suas viagens, porque, depois de ter feito
o seu número regulamentar, recusava-se a continuar e tinha de ser
reconduzido à manjedoura. Agora, que estava ficando velho, seus olhos de
gato costumavam encher-se de melancolia; talvez estivesse revendo, no
fundo de seus sonhos obscuros, o moinho onde nascera, perto de
Marchiennes — um moinho construído às margens do Scarpe, rodeado de
muito verde, sempre batido pelo vento. Alguma coisa ardia no ar, um
lampião enorme, cuja forma exata escapava à sua memória de animal. E
assim ele ficava, cabeça baixa, trêmulo sobre as pernas velhas, fazendo
esforços inúteis para se lembrar do sol.
Enquanto isso, as manobras continuavam no poço; o martelo dos
sinais dera quatro pancadas, já iam descer o cavalo. Isso era sempre motivo
de emoção, já que muitas vezes o animal, presa de tal horror, desembarcava
morto. Em cima, enrolado numa rede, ele se debatia, enlouquecido; depois,
logo que sentia faltar-lhe o chão, ficava como que petrificado, e assim
afundava no poço, sem um frêmito na pele, os olhos arregalados e fixos.
Este, como era muito grande para poder passar entre as guias,
tiveram de amarrá-lo por baixo do elevador e encolhê-lo ligando a cabeça à
ilharga. A descida durou cerca de três minutos: haviam diminuído a
velocidade da máquina, por precaução. Embaixo, a emoção era cada vez
maior. Que estaria acontecendo? Será que iam deixá-lo assim, pendurado no
escuro, no meio do caminho? Afinal, ele apareceu, com sua imobilidade de
pedra, olhar fixo, dilatado de terror. Era um cavalo baio, com apenas três
anos, chamado Trombeta.
— Cuidado! — gritou o velho Mouque, que estava encarregado de
recebê-lo. — Ponham-no aqui, mas sem desamarrá-lo.
Dentro em pouco, Trombeta estava deitado sobre as lajes de ferro
fundido, como um fardo. Continuava sem movimento, parecia ainda dentro
do pesadelo daquele buraco escuro, infinito, daquela peça profunda, cheia
de barulho. Começavam a desamarrá-lo quando Batalha, já desatrelado,
aproximou-se espichando o pescoço para farejar esse companheiro que
vinha da terra. Os operários abriram a roda, gracejando: que cheiro bom
estaria sentindo? Mas Batalha, surdo às zombarias, excitava-se. Sim, estava
descobrindo o cheiro bom do ar livre, o perfume esquecido do sol nos
campos. E subitamente deu um relincho sonoro, que era uma música de
alegria onde parecia haver a tristeza do soluço. Eram as boas-vindas, a
exultação daquelas coisas antigas das quais recebia o hálito, a tristeza por
aquele prisioneiro a mais que só voltaria a subir depois de morto.
— Mas que animal esse Batalha! — gritavam os operários,
divertidos com as patuscadas do seu favorito. — Agora está conversando
com o companheiro.
Trombeta, desamarrado, continuava sem movimento. Permanecia
de lado, como se ainda estivesse com a rede a apertá-lo, garroteado pelo
medo. Por fim ficou em pé, depois de uma chicotada, atordoado, os
membros sacudidos por tremores. O velho Mouque levou os dois animais,
que confraternizavam.
— Como é, chegou a nossa vez? — perguntou Maheu. Primeiro era
preciso desimpedir os elevadores, e ainda faltavam dez minutos para a hora
da subida.
Pouco a pouco, o trabalho ia parando, os mineiros desembocavam
de todas as galerias. Já havia cerca de cinquenta homens esperando, todos
molhados e tiritando, sob a ameaça da pneumonia que poderia vir de
qualquer lado.
Pierron, apesar do seu jeito delicado, deu um bofetão na filha,
Lydie, por esta ter deixado o trabalho antes da hora. Zacharie esfregava-se
na filha de Mouque, a pretexto de se aquecer. E o descontentamento ia
crescendo; Chaval e Levaque contaram que o engenheiro os tinha
ameaçado, que o preço do carro baixaria e o revestimento ia ser pago à
parte; diversas exclamações acolheram este projeto; germinava uma
rebelião naquele buraco estreito, a aproximadamente seiscentos metros
abaixo do solo. Em dado momento, as vozes começaram a subir; esses
homens, imundos de carvão, gelados pela espera, acusaram a companhia de
matar no fundo da mina a metade dos seus operários e de fazer a outra
metade morrer de fome. Etienne escutou tudo isso com um frêmito.
— Vamos, mais depressa, mais depressa! — gritava aos
carregadores o contramestre Richomme.
Apressava a manobra para a subida, não querendo usar de
severidade, fingindo não escutar. Mas os murmúrios já estavam tão altos
que ele se viu obrigado a entrar na história. Por trás dele gritava-se que
como estava não podia durar muito e um belo dia aquilo tudo ia pelos ares.
— Tu, que és sensato — disse ele a Maheu —, faze que se calem.
Quando não se é o mais forte, deve-se ter paciência.
Mas Maheu, que se acalmava e começava a inquietar-se, não teve
que intervir. De repente, as vozes calaram. Négrel e Dansaert, voltando da
inspeção, desembocavam, banhados em suor, de uma galeria. O hábito da
disciplina fez que todos os homens formassem filas, enquanto o engenheiro
atravessava o grupo sem dizer palavra; entrou num vagonete e o capataz
noutro. O sinal foi puxado cinco vezes, sinal de "carne graúda", como
diziam os operários, e o elevador subiu, em meio a um silêncio soturno.
continua na página 50...
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Primeira Parte - (V.b) não encontraram ninguém
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando — se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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