sábado, 16 de agosto de 2025

Thomas Mann - A Montanha Mágica: “Operationes spirituales”(b)

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VI

“Operationes spirituales” 
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     Isso se deu durante a grande controvérsia sobre a saúde e a doença, que certo dia, já nas proximidades do Natal, surgiu dessas divergências, no curso de um passeio de ida e volta a Davos-Platz, através da neve. Todos eles participaram dela, Settembrini, Naphta, Hans Castorp, Ferge e Wehsal – todos ligeiramente febris, aturdidos e ao mesmo tempo excitados pela caminhada e pela discussão no frio glacial das alturas, e sem exceção sujeitos a calafrios. E fosse o seu papel preponderantemente ativo, como o de Naphta ou Settembrini, ou sobretudo receptivo, limitado a breves apartes, sentiam-se todos tomados de tão intenso zelo que, esquecidos de tudo, estacavam aqui e ali, formando um grupo absorto, gesticulante, de pessoas que falavam simultaneamente e obstruíam o caminho, sem se importar com os demais transeuntes, os quais tinham de contorná-los, a não ser que se detivessem também, aguçando o ouvido e escutando, pasmados, aquelas digressões extravagantes. 
     O ponto de partida da disputa era no fundo Karen Karstedt, a pobre Karen, com as pontas dos dedos corroídas, que acabava de falecer. Hans Castorp nada soubera da repentina piora e do exitus; do contrário não teria deixado de assistir, como bom camarada, ao seu enterro, tanto mais que gostava de funerais. Mas, devido à costumeira discrição, inteirara-se demasiado tarde do passamento de Karen, quando esta já se adaptara definitivamente à existência horizontal no jardim do anjinho de pedra, com o oblíquo boné de neve. Requiem aetemam... Hans Castorp dedicou à sua memória algumas palavras amistosas, o que induziu o Sr. Settembrini a zombar das atividades caritativas de Hans e das visitas que fizera a Leila Gerngross, ao comerciante Rotbein, à abarrotada Srª. Zimmermann, ao filho fanfarrão de Tous-les-deux e à torturada Natalie von Mallinckrodt. Retrospectivamente caçoou das flores caras com que o engenheiro homenageara essa ridícula e miserável cambada. Hans Castorp observou que os beneficiários das suas atenções, exceção feita, provavelmente, à Srª. von Mallinckrodt e ao adolescente Teddy, estavam efetivamente mortos, ao que Settembrini retrucou perguntando se esse fato, porventura, os fazia mais respeitáveis. – Mas existe uma coisa – tornou Hans Castorp – que se chama reverência cristã diante do infortúnio. – E antes que Settembrini tivesse ocasião de corrigi-lo, começou Naphta a falar de piedosos excessos de caridade que a Idade Média presenciara, de casos assombrosos de fanatismo e fervor, a que haviam conduzido os cuidados prestados aos doentes; filhas de reis tinham beijado as fedorentas chagas de lázaros, expondo-se voluntariamente ao contágio da lepra e chamando de rosas as úlceras assim contraídas; haviam bebido a água na qual acabavam de banhar enfermos purulentos, e declarado que nada no mundo lhes sabia melhor.  
     Settembrini fez menção de vomitar. Alegou que o estômago se lhe revolvia, menos por causa do asco físico que provocavam essas imagens e visões do que devido à loucura monstruosa que se documentava em tal concepção de filantropia ativa. Aprumando-se, voltou à sua antiga dignidade alegre, ao falar das formas modernas e progressistas da caridade humanitária e da repressão triunfal das epidemias. Aquelas atrocidades opôs a higiene, a reforma social e os grandes feitos da ciência médica. 

– Esses produtos da probidade burguesa – replicou Naphta – teriam sido de pouca utilidade para os séculos a que o senhor se refere. Nenhuma das partes interessadas poderia ter lucrado com eles, nem os enfermos e os míseros, nem tampouco os felizes que se mostravam caridosos, não por compaixão, mas em prol da salvação da própria alma. Ora, uma reforma social coroada de êxito teria privado os afortunados do meio mais importante de que dispunham para justificar-se, e os outros, do seu estado sagrado. A manutenção constante da pobreza e da enfermidade realizou-se portanto no interesse de ambos os partidos, e esse conceito continuará sustentável enquanto for possível defender o ponto de vista puramente religioso. 
– Um ponto de vista sórdido – declarou Settembrini e um conceito cuja imbecilidade quase não vale a pena combater. Pois a ideia do “estado sagrado”, bem como aquilo que o engenheiro, sem pensar independentemente, disse a respeito da “reverência cristã diante do infortúnio”, são mentiras, baseadas numa ilusão, numa simpatia errônea, num engano psicológico. A compaixão que uma pessoa sadia manifesta a um enfermo, levando-a até a veneração simplesmente por ser incapaz de imaginar como ela mesma suportaria tais sofrimentos – essa compaixão é exagerada. O enfermo não tem direito a ela, que surge de um erro de raciocínio ou de imaginação, uma vez que o homem são atribui ao doente a sua própria maneira de experimentar emoções, ideando que este seja, de certo modo, uma pessoa sadia que tenha de suportar os tormentos de um enfermo – o que é um equívoco crasso. O enfermo é justamente um enfermo, com a natureza particular e o modo de sentir modificado que a doença acarreta. Esta prepara a sua vítima com o fim de adaptá-la a si própria. Há diminuições de sensibilidade, desfalecimentos, narcoses providenciais, medidas da natureza, no sentido do ajustamento e alívio morais e espirituais, fenômenos que o homem são, na sua ingenuidade, se esquece de levar em conta. O melhor exemplo, oferece-o toda essa súcia de tuberculosos aqui de cima, com a sua luxúria, sua estupidez, sua leviandade e sua falta de vontade de curar-se. Numa palavra, basta o compassivo e reverente homem sadio adoecer, para que note que a enfermidade o põe realmente num estado à parte, mas não num estado honroso, e que ele costuma levá-la excessivamente a sério.

     A essa altura da controvérsia, Anton Karlowitch Ferge indignou-se, tomando a defesa do choque pleural contra aquela difamação e falta de respeito. Mas como? Seu choque pleural era levado excessivamente a sério? Impossível! O enorme pomo-de-adão e o jovial bigode subiam e desciam, enquanto ele se revoltava contra qualquer menosprezo dos sofrimentos por que passara naquela ocasião. Declarou ser apenas um homem simples, viajante de uma companhia de seguros, alheio a todas as coisas sublimes. A própria conversa de que estava participando ultrapassava de muito o seu horizonte. Mas, se Settembrini tencionava incluir o choque pleural no que acabava de dizer – esse inferno de cócegas, com o fedor de enxofre e as três síncopes de cores diferentes –, via-se na obrigação de protestar com toda a cortesia e humildade. Pois nesse caso não cabia falar de diminuições de sensibilidade, de narcoses providenciais e de erros de imaginação. Tratava-se, sim, da maior e mais horrível infâmia que existia sob o sol, e sem a ter experimentado não se podia imaginar a atrocidade que... 

– Ora, ora, ora! – disse Settembrini. O colapso do Sr. Ferge ia ficando cada vez mais grandioso à proporção que o tempo passava. Chegava aos poucos a ser usado em torno da cabeça como uma auréola. Quanto a ele, Settembrini, fazia pouco-caso de enfermos que exigiam ser admirados. Ele próprio estava doente, e bastante; mas, sem a menor afetação, sentia-se antes inclinado a envergonhar-se disso. De resto, falava de um modo impessoal, filosófico, e o que acabava de observar sobre as diferenças entre o homem sadio e o enfermo, no que se referia à sua natureza e sua maneira de sentir, não era coisa sem pé nem cabeça. Que eles se lembrassem das doenças mentais, das alucinações, por exemplo. Se um dos seus interlocutores – o engenheiro ou o Sr. Wehsal – descobrisse essa noite, à hora do crepúsculo, num canto do quarto o seu falecido pai, que o olhasse e lhe dirigisse a palavra, seria isso, para a pessoa em apreço, uma experiência muitíssimo emocionante e perturbadora, que a faria duvidar dos seus sentidos e da sua razão e a induziria a sair imediatamente do quarto e a consultar um psiquiatra. Não era verdade? Mas o engraçado consistia precisamente no fato de essas coisas não poderem acontecer a nenhum deles, porque tinham o espírito são. Se, porventura, lhes ocorresse, já não estariam sãos, mas doentes, e não reagiriam como um homem sadio, quer dizer, espantando-se e fugindo, senão que aceitariam o fenômeno como se fosse perfeitamente normal, entabulando uma conversa com o espectro, como os alucinados costumavam fazer. E acreditar que a alucinação constituía para estes um motivo de espanto saudável era justamente o erro de imaginação que cometiam aqueles que não estavam enfermos.

     O Sr. Settembrini falava de forma cômica e plástica do pai defunto no canto do aposento. Ninguém pôde evitar o riso, nem sequer Ferge, apesar de sentir-se melindrado pelo desdém com que o humanista encarara a sua aventura infernal. Este, por sua vez, aproveitou-se da animação reinante para expor e defender pormenorizadamente a não-respeitabilidade dos alucinados e dos pazzi em geral. Essa gente disse – permitia-se, sem motivo justificável, muita coisa, e freqüentemente seria bem capaz de refrear a sua demência, como ele mesmo pudera verificar por ocasião de visitas que fizera a asilos de lunáticos. Quando um médico ou uma pessoa estranha aparecia no limiar da cela, o alucinado, na maioria das vezes, reprimia as suas caretas, seu falatório e sua gesticulação, e conduzia-se decentemente, durante todo o tempo que se sentia observado, para logo depois relaxar de novo. Pois, em muitos casos, a loucura representava um relaxamento, uma vez que servia de refúgio a naturezas débeis e de medida de proteção contra golpes excessivamente graves do destino, que tais pessoas não se atreviam a suportar com lucidez. Mas todo mundo poderia alegar o mesmo, e ele, Settembrini, guiara à razão, pelo menos passageiramente, numerosos loucos, pela simples força do seu olhar, opondo a suas divagações uma atitude de lógica inexorável...
     Naphta deu uma risada sardônica, ao passo que Hans Castorp afirmou crer literalmente em tudo quanto o Sr. Settembrini acabava de dizer. Imaginava como este, esboçando um sorriso sob o bigode, fitara o débil mental com intransigente lógica, e compreendia então perfeitamente por que o pobre-diabo se via forçado a conter-se e a fazer honra à lucidez, embora, provavelmente, considerasse a chegada do Sr. Settembrini uma importunação sobremodo desagradável... Mas também Naphta visitara hospícios de alienados. Recordava-se de ter passado pelo pavilhão dos “furiosos”, onde havia deparado com cenas e quadros perante os quais – Deus Nosso Senhor! – o olhar razoável e a influência corretiva do Sr. Settembrini dificilmente teriam logrado êxito. Cenas dantescas, quadros grotescos, cheios de horror e de tormento: os loucos desnudos, acocorados no banho contínuo, em todas as posições do terror de espírito e do estupor apavorado, alguns gritando de tanta desolação, outros com os braços erguidos e as bocas escancaradas, soltando gargalhadas nas quais se misturavam todos os ingredientes do inferno... 

– Pois é! – disse o Sr. Ferge, tomando a liberdade de relembrar-lhes aquela risada que lhe escapara antes do colapso.

     Numa palavra, a pedagogia inexorável do Sr. Settembrini teria falhado por completo em face das visões do pavilhão dos “furiosos”. O espanto brotado da reverência religiosa seria nesse caso uma reação mais humana do que aqueles raciocínios arrogantes e moralistas que o nosso iluminadíssimo cavaleiro Rosacruz e vigário de Salomão se comprazia em opor à insânia.
     Hans Castorp não teve tempo de refletir sobre os títulos que Naphta acabava de conferir a Settembrini. Apressadamente decidiu informar-se a esse respeito na primeira ocasião que se oferecesse. No momento, porém, o curso da conversa monopolizava-lhe a atenção, porque Naphta estava examinando com acrimônia as tendências gerais que determinavam o humanista a tributar, por princípio, todas as honras à saúde e a fazer o possível para aviltar e menosprezar a doença – ponto de vista que, na verdade, manifestava extraordinária e quase admirável renegação de si mesmo, uma vez que o próprio Sr. Settembrini estava enfermo. Mas a sua atitude que, apesar da dignidade impressionante, não deixava de ser redondamente errada, resultava de uma estima e de uma deferência em face do corpo que não se podiam justificar senão quando este ainda se encontrava no seu estado primordial, próximo de Deus, e não no da degradação, in statu degradationis. Criado imortal, tornara-se ele presa da perversidade e da corrupção, devido à depravação da natureza e por causa do pecado original; era mortal e putrescível e só podia ser considerado um cárcere ou calabouço, útil, quando muito, para despertar o senso do pudor e da confusão, pudoris et confusionis sensum, como dizia Santo Inácio.
     Hans Castorp intrometeu-se dizendo que também o humanista Plotino dera expressão a esse mesmo senso. Mas o Sr. Settembrini, levantando a mão por cima da cabeça, pediu-lhe que não confundisse os conceitos e se limitasse a um papel receptivo.
     Continuando nas suas deduções, Naphta derivou o respeito que a Idade Média cristã devotava à miséria do corpo da aprovação religiosa que demonstrava ante o aspecto do sofrimento da carne. Pois as chagas do corpo não somente tornavam manifesta a queda que lhe acontecera, mas também correspondiam, de modo edificante e religiosamente satisfatório, à perversidade venenosa da alma, enquanto a formosura do corpo era um fenômeno falaz, ofensivo à consciência, que era conveniente rejeitar mediante a mais profunda humilhação diante da enfermidade. Quis me liberabit de corpore mortis hujus? Quem me libertará do corpo desta morte? Nessas palavras expressava-se a voz do espírito, que era para todos os tempos, a voz da verdadeira humanidade.
     Nunca! Era uma voz das trevas, segundo a opinião que o Sr. Settembrini adiantou em palavras emocionadas; a voz de um mundo para o qual ainda não nascera o sol da razão e da humanidade. Sim, embora a sua própria pessoa física se achasse cheia de tóxicos, mantivera o seu espírito bastante sadio e livre de pestilência para enfrentar garbosamente o papista Naphta em matéria de corpo, e para expor a alma ao ridículo. Chegou até a glorificar o corpo humano como autêntico templo de Deus. A isso Naphta retrucou que esse tecido não era outra coisa senão o véu estendido entre nós e a eternidade; o que teve por consequência que Settembrini lhe proibiu de uma vez por todas servir-se da palavra “humanidade”; e assim por diante...
     Com os rostos transidos de frio, sem chapéus, os pés protegidos por galochas, pisavam a superfície endurecida, rangente, polvilhada de cinzas, da camada de neve que aumentava a altura da calçada, ou abriam caminho através das massas porosas que enchiam a sarjeta; Settembrini estava abrigado num jaquetão de inverno, cuja gola e punhos de castor, puídos devido ao uso, pareciam como que sarnentos, mais que vestia com elegância; Naphta trajava um sobretudo preto, completamente fechado, que lhe ia até os pés e estava forrado de peles, das quais, porém, nada se via na parte exterior. Assim caminhavam, discutindo com apaixonado ardor todos aqueles princípios. Acontecia frequentemente que, em vez de se dirigirem um ao outro, interpelavam Hans Castorp; cada qual lhe expunha e submetia o seu ponto de vista, limitando-se a designar o adversário com a cabeça ou o polegar. O jovem ia entre eles e voltava a cabeça para o respectivo interlocutor, aprovando ora este, ora aquele; às vezes estacava, com o corpo inclinado para trás, gesticulando com a mão agasalhada por uma luva de pelica forrada, e proferia uma opinião particular, naturalmente pouco valiosa. Enquanto isso, Ferge e Wehsal giravam em torno dos três, quer se mantendo à sua frente, quer ficando atrás, ou também avançando na mesma fila, até o tráfego interromper o alinhamento.
     Sob a influência de apartes destes últimos, a conversa começou a ocupar-se de assuntos mais concretos. Em rápida seqüência, e sob crescente interesse de todos, foram tratados os problemas da incineração dos mortos, do castigo corporal, da tortura e da pena de morte. Foi Wehsal quem trouxe à baila o açoitamento e Hans Castorp achou que esse tema condizia com a índole do rapaz de Mannheim. Ninguém se surpreendeu quando o Sr. Settembrini, em palavras esmeradas, invocando a dignidade humana, investiu contra o emprego desse método brutal na pedagogia e além disso no direito penal. Tampouco causou surpresa o fato de Naphta falar a favor das bastonadas, e apenas a sinistra audácia com que o fazia provocou um leve espanto. Segundo ele, era absurdo proferir, nesse caso, disparates acerca da dignidade humana, já que a nossa verdadeira dignidade se baseava no espírito e não na carne; e como a alma humana estivesse por demais inclinada a tirar do corpo toda a sua alegria de viver, os sofrimentos infligidos a este representavam um meio altamente recomendável para estragar o prazer que na alma despertavam as coisas sensuais; para separá-la da carne e reconduzi-la ao espírito, que dessa forma voltaria a dominar. Era pura tolice considerar o castigo corporal como particularmente humilhante. Santa Isabel foi fustigada, até sangrar, pelo seu confessor, Conrado de Marburgo, e como conta a lenda, isso “arrebatou-lhe a alma até o terceiro coro”; ela mesma vergastou uma pobre velha que estava muito sonolenta para se confessar. Era possível que alguém seriamente se atrevesse a qualificar de inumanas e bárbaras as flagelações a que se sujeitavam os membros de certas ordens ou seitas, e de um modo geral as pessoas de sentimentos mais profundos, a fim de fortalecer dentro de si o princípio do espírito? Ver um progresso real na abolição do açoitamento pelos países que se julgavam adiantados era uma opinião que apenas se tornava mais cômica pela inabalável firmeza com que costumava ser defendida. 

– Bem, em todo caso deve-se admitir – opinou Hans Castorp – que, no antagonismo entre a carne e o espírito, é sem dúvida alguma a carne quem encarna (a carne encarna; ah, ah, essa é boa!) o princípio mau e diabólico. Pois o corpo pertence naturalmente à natureza (Que acham desta?), e a natureza, em oposição ao espírito e à razão, é intrinsecamente má, misticamente má, como eu poderia dizer, se quisesse ostentar minha cultura e meus conhecimentos. Partindo desse ponto de vista, é apenas lógico tratar o corpo de acordo com ele, quer dizer, aplicar-lhe meios de castigo que também merecem ser designados como, misticamente maus. Se o Sr. Settembrini tivesse tido a seu lado Santa Isabel, quando a fraqueza do corpo o impediu de participar do congresso progressista em Barcelona, quem sabe...

     Todos se riram, e como o humanista fizesse menção de protestar, Hans Castorp apressou-se a contar das sovas que ele mesmo levava em outros tempos. 

– Nos primeiros anos do ginásio ainda existia o costume de ministrar esse castigo; havia palmatória, e embora os professores, por certas considerações sociais, se abstivessem de me pôr as mãos, apanhei certa vez uma surra de um condiscípulo mais forte, um rapagão robusto, que me bateu com uma vara flexível nas nádegas e nas barrigas das pernas, que estavam cobertas somente pelas meias. Aquilo doeu de maneira infame, pavorosa, inesquecível, realmente mística. Entre soluços convulsivos, cheios de vergonha íntima, brotaram-me lágrimas de raiva, de humilhação e de desespero. – E Hans Castorp acrescentou ter lido que nas prisões os mais rudes assassinos choramingavam que nem criancinhas quando eram açoitados.

     Enquanto o Sr. Settembrini escondia o rosto nas mãos revestidas de luvas de couro muito gasto, Naphta, com o sangue-frio de um estadista, perguntou como poderiam ser iluminados criminosos renitentes a não ser por meio do cavalete e do bastão, que eram perfeitamente adequados ao ambiente de uma casa de correção. Um cárcere humano era um meio-termo estético, um compromisso, e o Sr. Settembrini, apesar da sua bela eloquência, no fundo nada entendia de beleza. No que dizia respeito à pedagogia, o conceito da dignidade humana defendido por aqueles que queriam excluir os castigos corporais tinha, segundo Naphta, a sua raiz no individualismo liberal da época burguesa e humanitária, no absolutismo esclarecido do Eu, que estava a ponto de extinguir-se e de dar lugar a ideias sociais menos efeminadas, que já se achavam iminentes, ideias de disciplina e de docilidade, de coação e de obediência, às quais era inerente uma sagrada crueldade, e que modificariam novamente a concepção da escarnação do nosso cadáver. 

– Vem daí a célebre frase “Perinde ac cadaver” – chacoteou Settembrini. A isso, Naphta objetou que não era um crime de lesa-majestade administrar uma sova ao mesmo corpo que Deus destinara à horrorosa ignomínia da putrefação, para punir o nosso pecado. E assim começaram a falar da incineração dos mortos.

     Settembrini fez o elogio desse processo: – Essa ignomínia pode ser remediada – disse alegremente. Considerações práticas e motivos idealistas determinavam a humanidade a acabar com ela. E o italiano declarou ter participado dos preparos de um congresso internacional para a cremação, que se reuniria provavelmente na Suécia. Projetava-se expor um crematório modelo, junto com um columbário, ambos construídos em conformidade com as experiências feitas até essa época. Era de prever que tal apresentação originaria sugestões e estímulos de vasto alcance. Que método mais antiquado e obsoleto, esse de enterrar os mortos, dadas as condições da vida moderna! A extensão das cidades! A transferência dos chamados campos-santos para a periferia, em vista do espaço que exigiam! Os preços dos terrenos! O caráter prosaico que assumiam os funerais, devido à necessidade de se usarem os meios modernos de transporte! Sobre todas essas coisas, o Sr. Settembrini conseguiu fazer observações sensatas e incisivas. Motejou da figura do viúvo inconsolável que realizava todos os dias uma peregrinação à sepultura da saudosa defunta, para palestrar com ela no próprio local. Era necessário que um homem com essa mentalidade idílica dispusesse em abundância inexplicável do mais precioso bem da nossa vida, a saber: do tempo. Além disso, o intenso movimento que reinava nos cemitérios centrais das cidades modernas decerto o curaria desse sentimentalismo atávico. A destruição do cadáver pelo fogo – quanto mais limpa, mais higiênica, mais digna e mesmo mais heroica não era essa visão, em confronto com o costume de abandoná-lo à lamentável decomposição e à assimilação executada por organismos inferiores! O próprio sentimento se conformava mais facilmente com esse processo novo que correspondia à necessidade de permanência, peculiar aos homens. O que sucumbia à ação do fogo eram as partes inconstantes do corpo, que já em vida estavam sujeitas ao metabolismo, ao passo que as outras, que menos participavam desse fenômeno e acompanhavam o homem quase sem modificação, através da sua existência de adulto, eram também as que resistiam ao fogo e formavam as cinzas, com as quais os sobreviventes recolhiam aquilo que o falecido possuíra de imperecível. 

– Que maravilha! – disse Naphta. Ah, essa era muito, mas muito boa! As cinzas como a parte imperecível do homem! 
– Claro! – retorquiu o italiano. Naphta pretendia manter a humanidade na sua atitude irracional diante dos fatos biológicos. Persistia naquela fase de religião primitiva, para a qual a morte representava um bicho-papão, rodeado de tão misterioso terror que era impossível dirigir sobre ele o claro olhar da razão. Que barbárie! O espanto em face da morte remontava a épocas de um nível cultural extremamente baixo, nas quais a morte violenta fora a regra, e o cunho horripilante que a revestia por muito tempo se associara, no sentimento do homem, à ideia da morte em geral. Graças ao desenvolvimento da higiene e da consolidação da segurança pessoal, porém, a morte natural tornava-se comum, e ao trabalhador moderno a visão do repouso eterno, após o esgotamento normal das suas forças, absolutamente não se afigurava medonha, senão esperada e desejável. Não, a morte nada tinha de fantasma nem de mistério; era, sim, fenômeno inequívoco, racional, fisiologicamente necessário e simpático. Perder um tempo excessivo com a sua contemplação seria roubar à vida o que lhe cabe. Por isso tencionava-se combinar com aquele crematório modelo e o columbário, que era o “recinto da morte”, um “recinto da vida”, no qual se aliariam a arquitetura, a pintura, a escultura, a música e a poesia, no sentido de afastar o espírito dos sobreviventes do espetáculo da morte, do luto obtuso e da lamentação inativa, e de encaminhá-lo para os bens que a vida oferecia... 
– O mais depressa possível – zombou Naphta. – Para que não se exceda no culto da morte e não vá demasiado longe na reverência tributada a um fato tão simples. Verdade é que sem esse fato não haveria arquitetura, nem pintura, nem escultura, nem música, nem poesia. 
– Ele foge para as fileiras do exército – murmurou Hans Castorp, como que num sonho. 
– A obscuridade da sua observação, meu caro engenheiro – respondeu-lhe Settembrini –, deixa transparecer o seu caráter censurável. É preciso que a experiência da morte seja, em última análise, a experiência da vida; do contrário, não passa de um espantalho. 
– Serão empregados símbolos obscenos no “recinto da vida”, assim como se encontram em alguns sarcófagos antigos? – perguntou Hans Castorp seriamente. 
– Em todo caso haverá alimentos fartos para os sentidos – declarou Naphta. – Esculpido em mármore e pintado a óleo, o corpo será exibido pelo gosto clássico; esse corpo pecaminoso que subtraem à podridão. Isso não pode surpreender, uma vez que, de tanto carinho, nem sequer se permite que o castiguem...

     A essa altura da conversa, Wehsal interveio mencionando a tortura. Esse tema parecia exercer sobre ele uma atração particular. Que pensavam os amigos da confissão arrancada por meio de tormentos? Ele, Ferdinand, sempre gostara de aproveitar, por ocasião das suas viagens comerciais, as oportunidades para visitar, nos centros de cultura antiga, aqueles recantos quietos onde outrora se realizara esse tipo de exploração da consciência. Conhecia as câmaras de tortura de Nuremberg e de Ratisbona, que estudara de perto no interesse da sua formação intelectual. Com efeito, por amor à alma o corpo fora ali submetido a um tratamento pouco delicado, empregando-se nisso processos muito engenhosos. E nem sequer houvera gritarias. A pera, a famosa “pera”, que não era nenhuma guloseima, costumava ser fincada na boca aberta, e logo reinava um silêncio absoluto, apesar da mais intensa atividade...

Porcheria! – resmungou Settembrini. 

continua pág 292...
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Leia também:

Capítulo I
A Chegada
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
“Operationes spirituales”(b)
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

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