A Montanha Mágica
Capítulo VI
“Operationes spirituales”
.
Isso se deu durante a grande controvérsia sobre a saúde e a doença, que certo dia, já nas
proximidades do Natal, surgiu dessas divergências, no curso de um passeio de ida e volta a
Davos-Platz, através da neve. Todos eles participaram dela, Settembrini, Naphta, Hans Castorp,
Ferge e Wehsal – todos ligeiramente febris, aturdidos e ao mesmo tempo excitados pela
caminhada e pela discussão no frio glacial das alturas, e sem exceção sujeitos a calafrios. E fosse o
seu papel preponderantemente ativo, como o de Naphta ou Settembrini, ou sobretudo receptivo,
limitado a breves apartes, sentiam-se todos tomados de tão intenso zelo que, esquecidos de tudo,
estacavam aqui e ali, formando um grupo absorto, gesticulante, de pessoas que falavam
simultaneamente e obstruíam o caminho, sem se importar com os demais transeuntes, os quais
tinham de contorná-los, a não ser que se detivessem também, aguçando o ouvido e escutando,
pasmados, aquelas digressões extravagantes.
O ponto de partida da disputa era no fundo Karen Karstedt, a pobre Karen, com as
pontas dos dedos corroídas, que acabava de falecer. Hans Castorp nada soubera da repentina
piora e do exitus; do contrário não teria deixado de assistir, como bom camarada, ao seu enterro,
tanto mais que gostava de funerais. Mas, devido à costumeira discrição, inteirara-se demasiado
tarde do passamento de Karen, quando esta já se adaptara definitivamente à existência horizontal
no jardim do anjinho de pedra, com o oblíquo boné de neve. Requiem aetemam... Hans Castorp
dedicou à sua memória algumas palavras amistosas, o que induziu o Sr. Settembrini a zombar das
atividades caritativas de Hans e das visitas que fizera a Leila Gerngross, ao comerciante Rotbein,
à abarrotada Srª. Zimmermann, ao filho fanfarrão de Tous-les-deux e à torturada Natalie von
Mallinckrodt. Retrospectivamente caçoou das flores caras com que o engenheiro homenageara
essa ridícula e miserável cambada. Hans Castorp observou que os beneficiários das suas atenções,
exceção feita, provavelmente, à Srª. von Mallinckrodt e ao adolescente Teddy, estavam
efetivamente mortos, ao que Settembrini retrucou perguntando se esse fato, porventura, os fazia
mais respeitáveis. – Mas existe uma coisa – tornou Hans Castorp – que se chama reverência cristã
diante do infortúnio. – E antes que Settembrini tivesse ocasião de corrigi-lo, começou Naphta a
falar de piedosos excessos de caridade que a Idade Média presenciara, de casos assombrosos de
fanatismo e fervor, a que haviam conduzido os cuidados prestados aos doentes; filhas de reis
tinham beijado as fedorentas chagas de lázaros, expondo-se voluntariamente ao contágio da lepra
e chamando de rosas as úlceras assim contraídas; haviam bebido a água na qual acabavam de
banhar enfermos purulentos, e declarado que nada no mundo lhes sabia melhor.
Settembrini fez menção de vomitar. Alegou que o estômago se lhe revolvia, menos por
causa do asco físico que provocavam essas imagens e visões do que devido à loucura monstruosa
que se documentava em tal concepção de filantropia ativa. Aprumando-se, voltou à sua antiga
dignidade alegre, ao falar das formas modernas e progressistas da caridade humanitária e da
repressão triunfal das epidemias. Aquelas atrocidades opôs a higiene, a reforma social e os
grandes feitos da ciência médica.
– Esses produtos da probidade burguesa – replicou Naphta – teriam sido de pouca
utilidade para os séculos a que o senhor se refere. Nenhuma das partes interessadas poderia ter
lucrado com eles, nem os enfermos e os míseros, nem tampouco os felizes que se mostravam
caridosos, não por compaixão, mas em prol da salvação da própria alma. Ora, uma reforma social
coroada de êxito teria privado os afortunados do meio mais importante de que dispunham para
justificar-se, e os outros, do seu estado sagrado. A manutenção constante da pobreza e da
enfermidade realizou-se portanto no interesse de ambos os partidos, e esse conceito continuará
sustentável enquanto for possível defender o ponto de vista puramente religioso.
– Um ponto de vista sórdido – declarou Settembrini e um conceito cuja imbecilidade
quase não vale a pena combater. Pois a ideia do “estado sagrado”, bem como aquilo que o
engenheiro, sem pensar independentemente, disse a respeito da “reverência cristã diante do
infortúnio”, são mentiras, baseadas numa ilusão, numa simpatia errônea, num engano
psicológico. A compaixão que uma pessoa sadia manifesta a um enfermo, levando-a até a
veneração simplesmente por ser incapaz de imaginar como ela mesma suportaria tais sofrimentos – essa compaixão é exagerada. O enfermo não tem direito a ela, que surge de um erro de
raciocínio ou de imaginação, uma vez que o homem são atribui ao doente a sua própria maneira
de experimentar emoções, ideando que este seja, de certo modo, uma pessoa sadia que tenha de
suportar os tormentos de um enfermo – o que é um equívoco crasso. O enfermo é justamente
um enfermo, com a natureza particular e o modo de sentir modificado que a doença acarreta.
Esta prepara a sua vítima com o fim de adaptá-la a si própria. Há diminuições de sensibilidade,
desfalecimentos, narcoses providenciais, medidas da natureza, no sentido do ajustamento e alívio
morais e espirituais, fenômenos que o homem são, na sua ingenuidade, se esquece de levar em
conta. O melhor exemplo, oferece-o toda essa súcia de tuberculosos aqui de cima, com a sua
luxúria, sua estupidez, sua leviandade e sua falta de vontade de curar-se. Numa palavra, basta o
compassivo e reverente homem sadio adoecer, para que note que a enfermidade o põe realmente
num estado à parte, mas não num estado honroso, e que ele costuma levá-la excessivamente a
sério.
A essa altura da controvérsia, Anton Karlowitch Ferge indignou-se, tomando a defesa do
choque pleural contra aquela difamação e falta de respeito. Mas como? Seu choque pleural era
levado excessivamente a sério? Impossível! O enorme pomo-de-adão e o jovial bigode subiam e
desciam, enquanto ele se revoltava contra qualquer menosprezo dos sofrimentos por que passara
naquela ocasião. Declarou ser apenas um homem simples, viajante de uma companhia de seguros,
alheio a todas as coisas sublimes. A própria conversa de que estava participando ultrapassava de
muito o seu horizonte. Mas, se Settembrini tencionava incluir o choque pleural no que acabava de
dizer – esse inferno de cócegas, com o fedor de enxofre e as três síncopes de cores diferentes –,
via-se na obrigação de protestar com toda a cortesia e humildade. Pois nesse caso não cabia falar
de diminuições de sensibilidade, de narcoses providenciais e de erros de imaginação. Tratava-se,
sim, da maior e mais horrível infâmia que existia sob o sol, e sem a ter experimentado não se
podia imaginar a atrocidade que...
– Ora, ora, ora! – disse Settembrini. O colapso do Sr. Ferge ia ficando cada vez mais
grandioso à proporção que o tempo passava. Chegava aos poucos a ser usado em torno da cabeça
como uma auréola. Quanto a ele, Settembrini, fazia pouco-caso de enfermos que exigiam ser
admirados. Ele próprio estava doente, e bastante; mas, sem a menor afetação, sentia-se antes
inclinado a envergonhar-se disso. De resto, falava de um modo impessoal, filosófico, e o que
acabava de observar sobre as diferenças entre o homem sadio e o enfermo, no que se referia à
sua natureza e sua maneira de sentir, não era coisa sem pé nem cabeça. Que eles se lembrassem
das doenças mentais, das alucinações, por exemplo. Se um dos seus interlocutores – o engenheiro
ou o Sr. Wehsal – descobrisse essa noite, à hora do crepúsculo, num canto do quarto o seu
falecido pai, que o olhasse e lhe dirigisse a palavra, seria isso, para a pessoa em apreço, uma
experiência muitíssimo emocionante e perturbadora, que a faria duvidar dos seus sentidos e da
sua razão e a induziria a sair imediatamente do quarto e a consultar um psiquiatra. Não era
verdade? Mas o engraçado consistia precisamente no fato de essas coisas não poderem acontecer
a nenhum deles, porque tinham o espírito são. Se, porventura, lhes ocorresse, já não estariam
sãos, mas doentes, e não reagiriam como um homem sadio, quer dizer, espantando-se e fugindo,
senão que aceitariam o fenômeno como se fosse perfeitamente normal, entabulando uma
conversa com o espectro, como os alucinados costumavam fazer. E acreditar que a alucinação
constituía para estes um motivo de espanto saudável era justamente o erro de imaginação que
cometiam aqueles que não estavam enfermos.
O Sr. Settembrini falava de forma cômica e plástica do pai defunto no canto do aposento.
Ninguém pôde evitar o riso, nem sequer Ferge, apesar de sentir-se melindrado pelo desdém com
que o humanista encarara a sua aventura infernal. Este, por sua vez, aproveitou-se da animação
reinante para expor e defender pormenorizadamente a não-respeitabilidade dos alucinados e dos
pazzi em geral. Essa gente disse – permitia-se, sem motivo justificável, muita coisa, e
freqüentemente seria bem capaz de refrear a sua demência, como ele mesmo pudera verificar por
ocasião de visitas que fizera a asilos de lunáticos. Quando um médico ou uma pessoa estranha
aparecia no limiar da cela, o alucinado, na maioria das vezes, reprimia as suas caretas, seu falatório
e sua gesticulação, e conduzia-se decentemente, durante todo o tempo que se sentia observado,
para logo depois relaxar de novo. Pois, em muitos casos, a loucura representava um relaxamento,
uma vez que servia de refúgio a naturezas débeis e de medida de proteção contra golpes
excessivamente graves do destino, que tais pessoas não se atreviam a suportar com lucidez. Mas
todo mundo poderia alegar o mesmo, e ele, Settembrini, guiara à razão, pelo menos
passageiramente, numerosos loucos, pela simples força do seu olhar, opondo a suas divagações
uma atitude de lógica inexorável...
Naphta deu uma risada sardônica, ao passo que Hans Castorp afirmou crer literalmente
em tudo quanto o Sr. Settembrini acabava de dizer. Imaginava como este, esboçando um sorriso
sob o bigode, fitara o débil mental com intransigente lógica, e compreendia então perfeitamente
por que o pobre-diabo se via forçado a conter-se e a fazer honra à lucidez, embora,
provavelmente, considerasse a chegada do Sr. Settembrini uma importunação sobremodo
desagradável... Mas também Naphta visitara hospícios de alienados. Recordava-se de ter passado
pelo pavilhão dos “furiosos”, onde havia deparado com cenas e quadros perante os quais – Deus
Nosso Senhor! – o olhar razoável e a influência corretiva do Sr. Settembrini dificilmente teriam
logrado êxito. Cenas dantescas, quadros grotescos, cheios de horror e de tormento: os loucos
desnudos, acocorados no banho contínuo, em todas as posições do terror de espírito e do
estupor apavorado, alguns gritando de tanta desolação, outros com os braços erguidos e as bocas
escancaradas, soltando gargalhadas nas quais se misturavam todos os ingredientes do inferno...
– Pois é! – disse o Sr. Ferge, tomando a liberdade de relembrar-lhes aquela risada que lhe
escapara antes do colapso.
Numa palavra, a pedagogia inexorável do Sr. Settembrini teria falhado por completo em
face das visões do pavilhão dos “furiosos”. O espanto brotado da reverência religiosa seria nesse
caso uma reação mais humana do que aqueles raciocínios arrogantes e moralistas que o nosso
iluminadíssimo cavaleiro Rosacruz e vigário de Salomão se comprazia em opor à insânia.
Hans Castorp não teve tempo de refletir sobre os títulos que Naphta acabava de conferir
a Settembrini. Apressadamente decidiu informar-se a esse respeito na primeira ocasião que se
oferecesse. No momento, porém, o curso da conversa monopolizava-lhe a atenção, porque
Naphta estava examinando com acrimônia as tendências gerais que determinavam o humanista a
tributar, por princípio, todas as honras à saúde e a fazer o possível para aviltar e menosprezar a
doença – ponto de vista que, na verdade, manifestava extraordinária e quase admirável renegação
de si mesmo, uma vez que o próprio Sr. Settembrini estava enfermo. Mas a sua atitude que,
apesar da dignidade impressionante, não deixava de ser redondamente errada, resultava de uma
estima e de uma deferência em face do corpo que não se podiam justificar senão quando este
ainda se encontrava no seu estado primordial, próximo de Deus, e não no da degradação, in statu
degradationis. Criado imortal, tornara-se ele presa da perversidade e da corrupção, devido à
depravação da natureza e por causa do pecado original; era mortal e putrescível e só podia ser
considerado um cárcere ou calabouço, útil, quando muito, para despertar o senso do pudor e da
confusão, pudoris et confusionis sensum, como dizia Santo Inácio.
Hans Castorp intrometeu-se dizendo que também o humanista Plotino dera expressão a
esse mesmo senso. Mas o Sr. Settembrini, levantando a mão por cima da cabeça, pediu-lhe que
não confundisse os conceitos e se limitasse a um papel receptivo.
Continuando nas suas deduções, Naphta derivou o respeito que a Idade Média cristã
devotava à miséria do corpo da aprovação religiosa que demonstrava ante o aspecto do
sofrimento da carne. Pois as chagas do corpo não somente tornavam manifesta a queda que lhe
acontecera, mas também correspondiam, de modo edificante e religiosamente satisfatório, à
perversidade venenosa da alma, enquanto a formosura do corpo era um fenômeno falaz, ofensivo
à consciência, que era conveniente rejeitar mediante a mais profunda humilhação diante da
enfermidade. Quis me liberabit de corpore mortis hujus? Quem me libertará do corpo desta morte?
Nessas palavras expressava-se a voz do espírito, que era para todos os tempos, a voz da
verdadeira humanidade.
Nunca! Era uma voz das trevas, segundo a opinião que o Sr. Settembrini adiantou em
palavras emocionadas; a voz de um mundo para o qual ainda não nascera o sol da razão e da
humanidade. Sim, embora a sua própria pessoa física se achasse cheia de tóxicos, mantivera o seu
espírito bastante sadio e livre de pestilência para enfrentar garbosamente o papista Naphta em
matéria de corpo, e para expor a alma ao ridículo. Chegou até a glorificar o corpo humano como
autêntico templo de Deus. A isso Naphta retrucou que esse tecido não era outra coisa senão o
véu estendido entre nós e a eternidade; o que teve por consequência que Settembrini lhe proibiu
de uma vez por todas servir-se da palavra “humanidade”; e assim por diante...
Com os rostos transidos de frio, sem chapéus, os pés protegidos por galochas, pisavam a
superfície endurecida, rangente, polvilhada de cinzas, da camada de neve que aumentava a altura
da calçada, ou abriam caminho através das massas porosas que enchiam a sarjeta; Settembrini
estava abrigado num jaquetão de inverno, cuja gola e punhos de castor, puídos devido ao uso,
pareciam como que sarnentos, mais que vestia com elegância; Naphta trajava um sobretudo
preto, completamente fechado, que lhe ia até os pés e estava forrado de peles, das quais, porém,
nada se via na parte exterior. Assim caminhavam, discutindo com apaixonado ardor todos
aqueles princípios. Acontecia frequentemente que, em vez de se dirigirem um ao outro,
interpelavam Hans Castorp; cada qual lhe expunha e submetia o seu ponto de vista, limitando-se
a designar o adversário com a cabeça ou o polegar. O jovem ia entre eles e voltava a cabeça para
o respectivo interlocutor, aprovando ora este, ora aquele; às vezes estacava, com o corpo
inclinado para trás, gesticulando com a mão agasalhada por uma luva de pelica forrada, e proferia
uma opinião particular, naturalmente pouco valiosa. Enquanto isso, Ferge e Wehsal giravam em
torno dos três, quer se mantendo à sua frente, quer ficando atrás, ou também avançando na
mesma fila, até o tráfego interromper o alinhamento.
Sob a influência de apartes destes últimos, a conversa começou a ocupar-se de assuntos
mais concretos. Em rápida seqüência, e sob crescente interesse de todos, foram tratados os
problemas da incineração dos mortos, do castigo corporal, da tortura e da pena de morte. Foi
Wehsal quem trouxe à baila o açoitamento e Hans Castorp achou que esse tema condizia com a
índole do rapaz de Mannheim. Ninguém se surpreendeu quando o Sr. Settembrini, em palavras
esmeradas, invocando a dignidade humana, investiu contra o emprego desse método brutal na
pedagogia e além disso no direito penal. Tampouco causou surpresa o fato de Naphta falar a
favor das bastonadas, e apenas a sinistra audácia com que o fazia provocou um leve espanto.
Segundo ele, era absurdo proferir, nesse caso, disparates acerca da dignidade humana, já que a
nossa verdadeira dignidade se baseava no espírito e não na carne; e como a alma humana
estivesse por demais inclinada a tirar do corpo toda a sua alegria de viver, os sofrimentos
infligidos a este representavam um meio altamente recomendável para estragar o prazer que na
alma despertavam as coisas sensuais; para separá-la da carne e reconduzi-la ao espírito, que dessa
forma voltaria a dominar. Era pura tolice considerar o castigo corporal como particularmente
humilhante. Santa Isabel foi fustigada, até sangrar, pelo seu confessor, Conrado de Marburgo, e
como conta a lenda, isso “arrebatou-lhe a alma até o terceiro coro”; ela mesma vergastou uma
pobre velha que estava muito sonolenta para se confessar. Era possível que alguém seriamente se
atrevesse a qualificar de inumanas e bárbaras as flagelações a que se sujeitavam os membros de
certas ordens ou seitas, e de um modo geral as pessoas de sentimentos mais profundos, a fim de
fortalecer dentro de si o princípio do espírito? Ver um progresso real na abolição do açoitamento
pelos países que se julgavam adiantados era uma opinião que apenas se tornava mais cômica pela
inabalável firmeza com que costumava ser defendida.
– Bem, em todo caso deve-se admitir – opinou Hans Castorp – que, no antagonismo
entre a carne e o espírito, é sem dúvida alguma a carne quem encarna (a carne encarna; ah, ah,
essa é boa!) o princípio mau e diabólico. Pois o corpo pertence naturalmente à natureza (Que
acham desta?), e a natureza, em oposição ao espírito e à razão, é intrinsecamente má,
misticamente má, como eu poderia dizer, se quisesse ostentar minha cultura e meus
conhecimentos. Partindo desse ponto de vista, é apenas lógico tratar o corpo de acordo com ele,
quer dizer, aplicar-lhe meios de castigo que também merecem ser designados como, misticamente
maus. Se o Sr. Settembrini tivesse tido a seu lado Santa Isabel, quando a fraqueza do corpo o
impediu de participar do congresso progressista em Barcelona, quem sabe...
Todos se riram, e como o humanista fizesse menção de protestar, Hans Castorp
apressou-se a contar das sovas que ele mesmo levava em outros tempos.
– Nos primeiros anos do ginásio ainda existia o costume de ministrar esse castigo; havia
palmatória, e embora os professores, por certas considerações sociais, se abstivessem de me pôr
as mãos, apanhei certa vez uma surra de um condiscípulo mais forte, um rapagão robusto, que
me bateu com uma vara flexível nas nádegas e nas barrigas das pernas, que estavam cobertas
somente pelas meias. Aquilo doeu de maneira infame, pavorosa, inesquecível, realmente mística.
Entre soluços convulsivos, cheios de vergonha íntima, brotaram-me lágrimas de raiva, de
humilhação e de desespero. – E Hans Castorp acrescentou ter lido que nas prisões os mais rudes
assassinos choramingavam que nem criancinhas quando eram açoitados.
Enquanto o Sr. Settembrini escondia o rosto nas mãos revestidas de luvas de couro muito
gasto, Naphta, com o sangue-frio de um estadista, perguntou como poderiam ser iluminados
criminosos renitentes a não ser por meio do cavalete e do bastão, que eram perfeitamente
adequados ao ambiente de uma casa de correção. Um cárcere humano era um meio-termo
estético, um compromisso, e o Sr. Settembrini, apesar da sua bela eloquência, no fundo nada
entendia de beleza. No que dizia respeito à pedagogia, o conceito da dignidade humana
defendido por aqueles que queriam excluir os castigos corporais tinha, segundo Naphta, a sua raiz
no individualismo liberal da época burguesa e humanitária, no absolutismo esclarecido do Eu,
que estava a ponto de extinguir-se e de dar lugar a ideias sociais menos efeminadas, que já se
achavam iminentes, ideias de disciplina e de docilidade, de coação e de obediência, às quais era
inerente uma sagrada crueldade, e que modificariam novamente a concepção da escarnação do
nosso cadáver.
– Vem daí a célebre frase “Perinde ac cadaver” – chacoteou Settembrini. A isso, Naphta
objetou que não era um crime de lesa-majestade administrar uma sova ao mesmo corpo que
Deus destinara à horrorosa ignomínia da putrefação, para punir o nosso pecado. E assim
começaram a falar da incineração dos mortos.
Settembrini fez o elogio desse processo: – Essa ignomínia pode ser remediada – disse
alegremente. Considerações práticas e motivos idealistas determinavam a humanidade a acabar
com ela. E o italiano declarou ter participado dos preparos de um congresso internacional para a
cremação, que se reuniria provavelmente na Suécia. Projetava-se expor um crematório modelo,
junto com um columbário, ambos construídos em conformidade com as experiências feitas até
essa época. Era de prever que tal apresentação originaria sugestões e estímulos de vasto alcance.
Que método mais antiquado e obsoleto, esse de enterrar os mortos, dadas as condições da vida
moderna! A extensão das cidades! A transferência dos chamados campos-santos para a periferia,
em vista do espaço que exigiam! Os preços dos terrenos! O caráter prosaico que assumiam os
funerais, devido à necessidade de se usarem os meios modernos de transporte! Sobre todas essas
coisas, o Sr. Settembrini conseguiu fazer observações sensatas e incisivas. Motejou da figura do
viúvo inconsolável que realizava todos os dias uma peregrinação à sepultura da saudosa defunta,
para palestrar com ela no próprio local. Era necessário que um homem com essa mentalidade
idílica dispusesse em abundância inexplicável do mais precioso bem da nossa vida, a saber: do
tempo. Além disso, o intenso movimento que reinava nos cemitérios centrais das cidades
modernas decerto o curaria desse sentimentalismo atávico. A destruição do cadáver pelo fogo –
quanto mais limpa, mais higiênica, mais digna e mesmo mais heroica não era essa visão, em
confronto com o costume de abandoná-lo à lamentável decomposição e à assimilação executada
por organismos inferiores! O próprio sentimento se conformava mais facilmente com esse
processo novo que correspondia à necessidade de permanência, peculiar aos homens. O que
sucumbia à ação do fogo eram as partes inconstantes do corpo, que já em vida estavam sujeitas
ao metabolismo, ao passo que as outras, que menos participavam desse fenômeno e
acompanhavam o homem quase sem modificação, através da sua existência de adulto, eram
também as que resistiam ao fogo e formavam as cinzas, com as quais os sobreviventes recolhiam
aquilo que o falecido possuíra de imperecível.
– Que maravilha! – disse Naphta. Ah, essa era muito, mas muito boa! As cinzas como a
parte imperecível do homem!
– Claro! – retorquiu o italiano. Naphta pretendia manter a humanidade na sua atitude
irracional diante dos fatos biológicos. Persistia naquela fase de religião primitiva, para a qual a
morte representava um bicho-papão, rodeado de tão misterioso terror que era impossível dirigir
sobre ele o claro olhar da razão. Que barbárie! O espanto em face da morte remontava a épocas
de um nível cultural extremamente baixo, nas quais a morte violenta fora a regra, e o cunho
horripilante que a revestia por muito tempo se associara, no sentimento do homem, à ideia da
morte em geral. Graças ao desenvolvimento da higiene e da consolidação da segurança pessoal,
porém, a morte natural tornava-se comum, e ao trabalhador moderno a visão do repouso eterno,
após o esgotamento normal das suas forças, absolutamente não se afigurava medonha, senão
esperada e desejável. Não, a morte nada tinha de fantasma nem de mistério; era, sim, fenômeno
inequívoco, racional, fisiologicamente necessário e simpático. Perder um tempo excessivo com a
sua contemplação seria roubar à vida o que lhe cabe. Por isso tencionava-se combinar com aquele
crematório modelo e o columbário, que era o “recinto da morte”, um “recinto da vida”, no qual
se aliariam a arquitetura, a pintura, a escultura, a música e a poesia, no sentido de afastar o espírito
dos sobreviventes do espetáculo da morte, do luto obtuso e da lamentação inativa, e de
encaminhá-lo para os bens que a vida oferecia...
– O mais depressa possível – zombou Naphta. – Para que não se exceda no culto da
morte e não vá demasiado longe na reverência tributada a um fato tão simples. Verdade é que
sem esse fato não haveria arquitetura, nem pintura, nem escultura, nem música, nem poesia.
– Ele foge para as fileiras do exército – murmurou Hans Castorp, como que num sonho.
– A obscuridade da sua observação, meu caro engenheiro – respondeu-lhe Settembrini –,
deixa transparecer o seu caráter censurável. É preciso que a experiência da morte seja, em última
análise, a experiência da vida; do contrário, não passa de um espantalho.
– Serão empregados símbolos obscenos no “recinto da vida”, assim como se encontram
em alguns sarcófagos antigos? – perguntou Hans Castorp seriamente.
– Em todo caso haverá alimentos fartos para os sentidos – declarou Naphta. – Esculpido
em mármore e pintado a óleo, o corpo será exibido pelo gosto clássico; esse corpo pecaminoso
que subtraem à podridão. Isso não pode surpreender, uma vez que, de tanto carinho, nem sequer
se permite que o castiguem...
A essa altura da conversa, Wehsal interveio mencionando a tortura. Esse tema parecia
exercer sobre ele uma atração particular. Que pensavam os amigos da confissão arrancada por
meio de tormentos? Ele, Ferdinand, sempre gostara de aproveitar, por ocasião das suas viagens
comerciais, as oportunidades para visitar, nos centros de cultura antiga, aqueles recantos quietos
onde outrora se realizara esse tipo de exploração da consciência. Conhecia as câmaras de tortura
de Nuremberg e de Ratisbona, que estudara de perto no interesse da sua formação intelectual.
Com efeito, por amor à alma o corpo fora ali submetido a um tratamento pouco delicado,
empregando-se nisso processos muito engenhosos. E nem sequer houvera gritarias. A pera, a
famosa “pera”, que não era nenhuma guloseima, costumava ser fincada na boca aberta, e logo
reinava um silêncio absoluto, apesar da mais intensa atividade...
– Porcheria! – resmungou Settembrini.
continua pág 292...
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Leia também:
Capítulo II
Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Da pia batismal e dos dois aspectos do avô
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
“Operationes spirituales”(b)
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.
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