sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Hannah Arendt - Origens do Totalitarismo: Parte II Imperialismo (1.3 - A Aliança entre a Ralé e o Capital)

Origens do Totalitarismo

Hannah Arendt

Parte II 
IMPERIALISMO

Se eu pudesse, anexaria os planetas. 
Cecil Rhodes 

1. A Emancipação Política da Burguesia

     1.3 - A Aliança entre a Ralé e o Capital
          Quando o imperialismo ocupou o cenário político a partir do início da corrida para a África, nos anos 80 do século XIX, foi promovido por comerciantes, combatido vigorosamente por governos, e aclamado, por uma parte surpreendentemente grande das classes educadas.[40] A esses últimos parecia ser uma cura abençoada para todos os males, uma panaceia fácil para todos os conflitos. E a verdade é que o imperialismo, de certo modo, não deixou de corresponder a essas esperanças. Deu vida nova a estruturas políticas e sociais que estavam obviamente ameaçadas por novas forças sociais e políticas e que, em outras circunstâncias, sem a intervenção dos acontecimentos imperialistas, dificilmente teriam precisado de duas guerras para desaparecer.
     Do modo como se desenrolava a história, o imperialismo parecia levar à solução de todos os problemas, produzindo aquele falso sentido de segurança, tão universal na Europa de antes da guerra, e que só deixou de enganar os espíritos mais sensíveis. Péguy na França e Chesterton na Inglaterra sabiam instintivamente que viviam num mundo de faz-de-conta, e que a sua estabilidade era apenas fingida. Mas, até que tudo começasse a ruir, a estabilidade de estruturas políticas evidentemente obsoletas parecia ser um fato, e sua teimosia e indiferente longevidade pareciam desmentir aqueles que sentiam o solo tremer aos seus pés. A solução da charada era o imperialismo. A resposta à pergunta decisiva — por que a irmandade de nações europeias permitiu que esse mal se espalhasse até que tudo viesse a ser destruído, o bom junto com o mau — é simples: todos os governos sabiam muito bem que seus países estavam se desintegrando ocultamente, que o corpo político estava sendo destruído por dentro, que estavam apenas ganhando tempo antes de morrer.
     De modo bastante inocente, a expansão afigurava-se inicialmente como a válvula de escape para a produção excessiva de capital e oferecia um remédio: a exportação de capital.[41] A riqueza tremendamente ampliada, resultante da produção capitalista num sistema social baseado na má distribuição, havia resultado num "excesso de poupança" — isto é, no acúmulo de um capital que estava condenado à ociosidade dentro da capacidade nacional existente de produção e consumo. Esse dinheiro era realmente supérfluo; ninguém necessitava dele, embora pertencesse a uma classe crescente. As crises e depressões que sobrevieram nas décadas que precederam a era do imperialismo [42] haviam convencido os capitalistas de que todo o seu sistema econômico de produção dependia de uma oferta e procura que, de agora em diante, tinha de vir de "fora da sociedade capitalista".[43] Essa oferta e essa procura vinham de dentro da nação enquanto o sistema capitalista não controlasse todas as classes juntamente com toda a sua capacidade produtiva. Mas, quando o capitalismo havia permeado toda a estrutura econômica, e todas as camadas sociais haviam entrado na órbita do seu sistema de produção e consumo, os capitalistas tinham claramente de decidir entre assistir ao colapso de todo o sistema ou procurar novos mercados, isto é, penetrar em outros países que ainda não estivessem sujeitos ao capitalismo e, portanto, pudessem proporcionar uma nova oferta-e-procura de características não-capitalistas.
     As depressões dos anos 60 e 80, que deram início à era do imperialismo, forçaram a burguesia a compreender pela primeira vez que o pecado original do roubo, que séculos antes tornara possível o "original acúmulo de capital" (Marx) e gerara todas as acumulações posteriores, teria eventualmente de ser repetido, a fim de evitar que o motor da acumulação parasse de súbito.[44]  Diante de tal perigo, que ameaçava a nação inteira com um colapso catastrófico da produção, os produtores capitalistas compreenderam que as formas e leis do seu sistema de produção "haviam desde o início sido previstas para toda a terra".[45]
     A primeira reação a um mercado doméstico saturado, à falta de matérias-primas e a crises crescentes foi a exportação de capital. Os donos de riqueza supérflua tentaram primeiro o investimento sem expansão e sem controle político, que resultou numa orgia sem precedentes de falcatruas, escândalos financeiros e especulações no mercado de ações, alarmantes na medida em que os investimentos no exterior cresciam muito mais depressa que os investimentos domésticos.[46] O dinheiro graúdo, resultante do excesso de poupança, abriu o caminho para o dinheiro miúdo, que era o produto do trabalho dos pequeninos. As empresas domésticas, para acompanhar o ritmo dos altos lucros do investimento estrangeiro, recorreram também a métodos fraudulentos e atraíram um número crescente de pessoas que, na esperança de ganhos miraculosos, jogaram dinheiro fora. O escândalo do Panamá na França e o Gründungsschwindel na Alemanha e na Áustria tornaram-se exemplos clássicos. Os donos do dinheiro miúdo perderam tanto tão depressa que logo os donos do capital supérfluo ocupavam sozinhos o que era, de certa forma, um campo de batalha. Não tendo conseguido transformar toda a sociedade em uma comunidade de jogadores, voltaram a ser supérfluos, excluídos dos processos normais de produção para os quais, depois de algum tumulto, todas as outras classes voltaram mansamente, se bem que algo mais pobres e mais rancorosas.[47]
     A exportação de dinheiro e o investimento no exterior não constituem, por si, o imperialismo e não levam necessariamente à expansão como mecanismo político. Ao se contentar em investir "grande parte de sua propriedade em terras estrangeiras", mesmo que essa tendência fosse "contra todas as tradições passadas do nacionalismo",[48] os donos do capital supérfluo apenas confirmavam a sua alienação do corpo nacional, onde, de qualquer modo, eram parasitas. Só tornaram a fazer parte da vida da nação quando exigiram que o governo protegesse seus investimentos (depois que a fase inicial de falcatruas lhes abriu os olhos para o possível uso da política contra o risco do jogo). Nessa exigência, contudo, seguiram as tradições estabelecidas da sociedade burguesa de sempre considerar as instituições políticas exclusivamente como instrumento de proteção da propriedade individual.[49] Só a afortunada coincidência do surgimento de uma nova classe de proprietários concomitantemente com a Revolução Industrial transformara a burguesia em produtores e estimuladores da produção. Enquanto exercia essa função básica na sociedade moderna, que é, essencialmente, uma comunidade de produtores, sua riqueza desempenhava uma função importante para a nação como um todo. Os donos do capital supérfluo foram o primeiro segmento dessa classe a desejar lucros sem exercer qualquer função social verdadeira — mesmo que se tratasse da função de um produtor que explorasse os outros — e, consequentemente, nenhuma polícia poderia jamais tê-los salvo da ira do povo. A expansão, portanto, não foi apenas uma fuga para o capital supérfluo. O mais importante é que protegia os seus donos contra a ameaçadora perspectiva de permanecerem inteiramente supérfluos e parasitários. Salvou a burguesia das consequências da má distribuição e revitalizou o seu conceito de propriedade numa época em que a riqueza já não podia ser usada como fator produtivo dentro do âmbito nacional, entrando em conflito com o ideal de produção da comunidade vista como um todo.
     Mais antigo que o capital supérfluo era outro subproduto da produção capitalista: o lixo humano, que cada crise, seguindo-se invariavelmente a cada período de crescimento industrial, eliminava permanentemente da sociedade produtiva. Os elementos tornados permanentemente ociosos eram tão supérfluos para a comunidade como os donos do capital supérfluo. Durante todo o século XIX, reconheceu-se que ameaçavam a sociedade de tal modo que sua "exportação" foi promovida, ajudando, aliás, a povoar os domínios do Canadá e da Austrália, bem como os Estados Unidos. O fato novo da era imperialista foi que essas duas forças supérfluas — o capital supérfluo e a mão-de-obra supérflua — uniram-se e, juntos, abandonaram seus países. O conceito de expansão, a exportação da força do governo e a anexação de todo território em que cidadãos tivessem investido a sua riqueza ou seu trabalho, parecia a única alternativa para as crescentes perdas econômicas e demográficas. O imperialismo e a sua ideia de expansão ilimitada pareciam oferecer um remédio permanente para um mal permanente.[50]
     É bastante irônico que o primeiro país em que se conjugaram a riqueza supérflua e homens supérfluos estava também se tornando supérfluo. Os britânicos apoderaram-se da África do Sul ainda no começo do século XIX, porque ela garantia um caminho marítimo para a índia. A abertura do canal de Suez, porém, e a subsequente conquista administrativa do Egito diminuíram a importância do velho entreposto marítimo da Cidade do Cabo. Tudo indicava que os ingleses se teriam retirado da África, tal como outras nações europeias fizeram antes, sempre que perdiam suas possessões e interesses comerciais na Índia.
     A particular ironia e, de certo modo, a circunstância simbólica que inesperadamente transformaram a África do Sul no "campo de cultura do imperialismo" [51] residem na própria natureza de sua súbita atração, quando havia perdido todo o valor para o Império propriamente dito: nos anos 70 descobriram-se jazidas de diamantes, e ricas minas de ouro nos anos 80. O novo desejo de lucro a qualquer preço coincidiu pela primeira vez com a velha caça afortuna. Garimpeiros, aventureiros e a escória das grandes cidades emigraram para o Continente Negro, juntamente com o capital dos países industrialmente desenvolvidos. De agora em diante, a ralé, gerada pela monstruosa acumulação de capital, acompanhava sua genitora ideológica nessas viagens de descoberta, nas quais nada era descoberto a não ser novas possibilidades de investimento. Os donos de capital supérfluo eram os únicos que podiam usar os homens supérfluos vindos dos quatro cantos do mundo. Juntos, estabeleceram o primeiro paraíso de parasitas, cujo sangue vital era o ouro. O imperialismo, produto de dinheiro supérfluo e de gente supérflua, iniciou sua surpreendente carreira produzindo bens dos mais supérfluos e irreais.
     É duvidoso que a panaceia da expansão pudesse constituir uma tentação tão grande para os não imperialistas, se a perigosa solução que apresentava se aplicasse apenas àquelas forças supérfluas que, de qualquer modo, já estavam fora do corpo da nação. A cumplicidade de todos os partidos parlamentares nos programas imperialistas é conhecida e registrada. A história do Partido Trabalhista britânico constitui, a esse respeito, uma série quase ininterrupta de justificativas da antiga predição de Cecil Rhodes: "Os operários veem que, embora os americanos gostem muito deles, dedicando-lhes os sentimentos mais fraternos, barram, não obstante, a entrada dos seus produtos. Veem que a Rússia, a França e a Alemanha também estão fazendo o mesmo em escala local, e que, se não tomarem cuidado, não lhes restará lugar algum no mundo onde possam comerciar [com o que produzem]. E assim os operários estão se tornando imperialistas, e o Partido Liberal segue a reboque".[52] Na Alemanha, foram os liberais (e não o Partido Conservador) que promoveram aquela famosa política naval que tanto contribuiu para a deflagração da Primeira Guerra Mundial.[53] O Partido Socialista vacilava entre o apoio ativo à política naval imperialista (tendo aprovado fundos para a construção de uma Marinha alemã, depois de 1906) e o completo desdém por todas as questões de política estrangeira. Advertências ocasionais contra o Lumpenproletariat e o possível suborno de segmentos da classe trabalhista com migalhas da mesa imperialista não contribuíam para ser compreendida a atração que os programas imperialistas exerciam sobre as fileiras inferiores do partido. Em termos marxistas, o novo fenômeno da aliança entre a ralé e o capital parecia tão artificial, tão obviamente em conflito com a doutrina da luta entre as classes, que foram completamente esquecidos os verdadeiros perigos da tentativa imperialista de dividir a humanidade em raças dominantes e raças escravas, em raças inferiores e superiores, em homens negros e homens brancos, como meio de unificar o povo à base da ralé. Nem mesmo o colapso da solidariedade internacional no início da Primeira Guerra Mundial perturbou a complacência dos socialistas e a sua fé no proletariado. Os socialistas ainda pesquisavam as leis econômicas do imperialismo muito depois de os imperialistas terem cessado de obedecê-las, sacrificando-as nos países de ultramar ao "fator imperial" ou ao "fator racial", e quando apenas alguns venerandos cavalheiros das altas finanças ainda acreditavam nos direitos inalienáveis da taxa de lucros.
     A curiosa fraqueza da oposição popular ao imperialismo e as numerosas inconsistências e promessas, descaradamente quebradas, dos estadistas liberais, frequentemente atribuídas ao oportunismo e ao suborno, têm causas mais profundas. Nem oportunismo nem suborno poderiam ter persuadido homens como Gladstone a quebrar a promessa, feita quando líder do Partido Liberal, de evacuar o Egito quando se tornasse primeiro-ministro. De modo semiconsciente e raramente declarado, esses homens compartilhavam, junto com o povo, a convicção de que o corpo nacional estava tão dividido em classes, e que a luta de classes caracterizava tão universalmente a vida política moderna, que a própria coesão do país estava em perigo. Novamente a expansão surgia como a tábua de salvação, se e enquanto pudesse proporcionar um interesse comum para a nação como um todo, e foi principalmente por esse motivo que se permitiu que os imperialistas se tornassem "parasitas do patriotismo".[54]
     Naturalmente, essas esperanças ainda eram, em parte, afins da antiga prática daninha de "curar" conflitos nacionais com aventuras estrangeiras. Mas havia uma diferença. Por sua própria natureza, as aventuras são limitadas no tempo e no espaço; podem temporariamente resolver conflitos, mas geralmente falham e tendem mesmo a agravá-los. Desde o começo, a aventura do imperialismo — a expansão — pareceu uma solução eterna, porque a expansão era concebida como fenômeno ilimitado. Além disso, o imperialismo não era uma aventura no sentido comum, porque dependia menos de lemas nacionalistas que da base aparentemente mais sólida dos interesses econômicos. Numa sociedade de interesses em conflito, onde o bem comum era identificado com a soma total dos interesses individuais, a expansão como tal tinha a aparência de possível interesse comum da nação como um todo. Como as classes proprietárias e dominantes haviam persuadido a todos que o interesse econômico e a paixão pela propriedade formam uma base firme para o corpo político, até mesmo estadistas não-imperialistas eram facilmente persuadidos quando se divisava no horizonte um interesse econômico comum.
     Por esses motivos, portanto, o nacionalismo descambou tão nitidamente para o imperialismo, apesar da contradição inerente aos dois princípios.[55] Quanto menos adequadas eram as estruturas das nações para a incorporação de povos estrangeiros (o que, aliás, contradiria a constituição de seu próprio corpo político), mais se viam tentadas a oprimi-los. Teoricamente, existe um abismo entre o nacionalismo e o imperialismo; na prática, esse abismo já foi transposto pelo nacionalismo tribal e pelo racismo desenfreado, pois desde o início os imperialistas de toda parte diziam-se "acima de todos os partidos" e ufanavam-se disso, julgando-se os únicos que podiam falar em nome da nação como um todo. Isso foi especialmente verdadeiro nos países da Europa oriental e central, que tinham poucas possessões — ou nenhuma — no além-mar; a aliança entre a ralé e o capital, nesses países, ocorreu dentro de casa, revelou seu ressentimento com maior amargura e atacou com maior violência as instituições nacionais e todos os partidos nacionais.[56]
     Contudo, a desdenhosa indiferença dos políticos imperialistas em relação às questões domésticas era acentuada em toda parte, especialmente na Inglaterra. Enquanto "partidos acima de partidos", como a Liga da Primavera, tiveram influência secundária, o imperialismo foi o principal motivo pelo qual o sistema bipartidário degenerou no sistema da Bancada de Frente, que levou à "diminuição do poder da oposição" no Parlamento e ao aumento do "poder do Gabinete em relação à Câmara dos Comuns".[57]  Naturalmente, isso foi realizado como política de lutas partidárias e interesses particulares, e por homens que diziam falar em nome da nação como um todo. Esse tipo de linguagem fatalmente atraía e iludia exatamente aqueles que ainda retinham uma centelha de idealismo político. O apelo à unidade assemelhava-se exatamente aos gritos de alerta que sempre haviam levado os povos à guerra; e, no entanto, ninguém — exceto Marx — percebeu que aquele instrumento universal e permanente de unidade escondia o germe da guerra permanente e universal.
     Mais do que qualquer outro grupo, foram as autoridades governamentais que adotaram ativamente o imperialismo nacionalista, tornando-se assim responsáveis pela confusão que surgia entre o imperialismo e o nacionalismo. Os Estados-nações haviam criado serviços civis sob a forma de grupos permanentes de funcionários; servindo independentemente de interesses de classe e de mudanças de governo, os Estados dependiam deles. A integridade profissional e o amor-próprio desse grupo — especialmente na Inglaterra e na Alemanha — deviam-se exatamente ao fato de servirem ao país como um todo. Era esse o único grupo diretamente interessado em apoiar o Estado na sua alegação de não depender de classes nem de facções. Em nosso tempo, torna-se óbvio que a autoridade do próprio Estado-nação depende em grande parte da independência econômica e neutralidade política dos seus servidores públicos; o declínio das nações é gerado invariavelmente pela corrupção da sua administração permanente e pela convicção geral de que os servidores públicos estão a soldo das classes proprietárias e não do Estado. No fim do século XIX, as classes proprietárias eram de tal forma dominantes que era quase ridículo a um funcionário do Estado fingir que servia ao país. A divisão do país em classes deixava os funcionários públicos alienados do corpo político e forçava-os a formar o seu próprio círculo. Servindo nas colônias, escapavam à desintegração do corpo nacional. Dominando povos estrangeiros em países distantes, podiam muito melhor passar por heroicos servidores da nação que "com seus serviços glorificavam a raça"[58] do que se permanecessem no país de origem. As colônias já não eram simplesmente "um vasto sistema de recreio ao ar livre para as classes superiores", como James Mill ainda as descrevia: transformavam-se em espinha dorsal do nacionalismo britânico, que descobriu no domínio de países distantes e de povos estranhos a única forma de servir a interesses exclusivamente britânicos. Os serviços coloniais realmente acreditavam que "nada indicava mais claramente o gênio peculiar de uma nação do que o seu sistema de lidar com as raças dominadas".[59]
     Na verdade, somente longe de casa um cidadão da Inglaterra, da Alemanha ou da França podia ser apenas inglês, alemão ou francês. Em seu país, enredava-se de tal forma em interesses econômicos ou lealdades sociais que se sentia mais como um membro de sua classe num país estranho do que um homem de outra classe em seu próprio país. A expansão deu nova vida ao nacionalismo e, portanto, foi aceita como instrumento de política nacional. Os membros das associações colonialistas e ligas imperialistas sentiam-se "bem distantes das lutas partidárias" e, quanto mais se afastavam da pátria, mais acreditavam "representar apenas o propósito nacional".[60] Isso mostra quão desesperada era a situação das nações europeias antes do imperialismo, quão frágeis se haviam tornado as suas instituições e quão obsoleto o seu sistema social em face da crescente capacidade produtiva do homem. Os meios de sobrevivência eram também desesperados e, no fim, pior do que a doença foi o próprio remédio, que, por sinal, nada curou.
     A aliança entre a ralé e o capital está na gênese de toda política imperia-lista. Em alguns países, particularmente na Grã-Bretanha, essa nova aliança entre os demasiado ricos e os demasiado pobres limitou-se às possessões de ul-tramar. A hipocrisia da política britânica resultava do bom senso de estadistas ingleses, que traçaram uma linha divisória bem definida entre os métodos coloniais e a política doméstica normal, evitando assim, com bastante sucesso, o temido efeito de bumerangue do imperialismo em seu torrão natal. Em outros países, particularmente na Alemanha e na Áustria, essa aliança realizou-se em casa sob a forma dos movimentos de unificação,* enquanto na França ela se refletia na chamada política colonial. O objetivo desses movimentos era, por assim dizer, "imperializar" toda a nação (e não apenas a sua parte "supérflua"), concatenar a política doméstica com a política externa de modo a organizar o país para a pilhagem de territórios alheios e a degradação permanente de povos estrangeiros.
     O surgimento da ralé na organização capitalista foi observado desde cedo, e o seu crescimento foi notado por todos os grandes historiadores do século XIX. O pessimismo histórico, de Burckhardt a Spengler, deve-se essencialmente a essa observação. Mas o que os historiadores, tristemente preocupados com o fenômeno em si, deixaram de perceber é que a ralé não podia ser identificada com o crescimento da classe trabalhista industrial, e certamente não com o povo como um todo, composta que era do refugo de todas as classes. Essa composição fazia parecer que a ralé e seus representantes haviam abolido as diferenças de classe e que aqueles que se haviam alienado da nação dividida em classes eram o próprio povo (a Volksgemeinschaft, como a chamariam os nazistas) e não a sua distorção e caricatura. Os pessimistas históricos compreenderam a irresponsabilidade fundamental dessa nova camada social, e previram corretamente também a possibilidade de converter-se a democracia num despotismo, cujos tiranos surgiriam da ralé e dependeriam do seu apoio. O que eles não compreenderam é que a ralé não é apenas o refugo mas também o subproduto da sociedade burguesa, gerado por ela diretamente e, portanto, nunca separável dela completamente. E por isso deixaram de notar a admiração cada vez maior da alta sociedade pelo submundo (que tão bem se percebe no século XIX), seu recuo gradual e contínuo em todas as questões de moral e seu crescente gosto pelo cinismo anárquico, característico dos rebentos da ralé gerados pela sociedade. No começo do século XX, o Caso Dreyfus demonstrou que o submundo e a alta sociedade na França estavam tão intimamente ligados que era difícil situar quaisquer dós "heroicos" adversários de Dreyfus em uma dessas duas categorias.
     Esse sentimento de parentesco, essa junção entre os genitores e a prole, já expressa de modo clássico nas novelas de Balzac, antecede a todas as considerações práticas de caráter econômico, político ou social, e faz lembrar aqueles traços psicológicos fundamentais do novo tipo de homem ocidental que Hobbes esboçou há trezentos anos. Mas foi principalmente devido à experiência adquirida pela burguesia durante as crises e depressões anteriores ao imperialismo que a alta sociedade finalmente confessou estar pronta a aceitar a mudança revolucionária de padrões morais sugeridas pelo "realismo" de Hobbes, ora novamente propostas pela ralé e por seus líderes. O fato de que o "pecado original" do "acúmulo original de capital" requeria novos pecados para manter o sistema em funcionamento foi mais eficaz, para persuadir a burguesia a abandonar as coibições da tradição ocidental, do que o seu filósofo ou o seu submundo. Foi esse fato que finalmente levou a burguesia alemã a arrancar a máscara da hipocrisia e a confessar abertamente seu parentesco com a escória, recorrendo expressamente a ela para defender os seus interesses de proprietários.
     É significativo que isso tenha acontecido na Alemanha. Na Inglaterra e na Holanda, o crescimento da sociedade burguesa ocorrera de modo relativamente calmo, e a burguesia desses países gozou, durante séculos, de segurança isenta do medo. Na França, sua ascensão foi interrompida por uma revolução popular, cujas consequências interferiram no crescimento de sua supremacia. Na Alemanha, porém, onde a burguesia não atingiu o seu completo desenvolvimento até a última metade do século XIX, sua ascensão foi acompanhada desde o início pelo crescimento de um movimento revolucionário da classe trabalhadora, cuja tradição era quase tão antiga quanto a sua. Era natural que, quanto menos segura se sentisse a classe burguesa, mais fosse tentada a esconder seus alvos na hipocrisia. A afinidade da alta sociedade com a escória veio à luz na França mais cedo que na Alemanha, mas, no fim, era igualmente forte em ambos os países. A França, contudo, devido à sua tradição revolucionária e à relativa falta de industrialização, produziu uma escória numericamente pequena, de sorte que a burguesia francesa foi finalmente forçada a procurar auxílio além de suas fronteiras e a aliar-se à Alemanha de Hitler.
     Qualquer que tenha sido a natureza precisa da longa evolução histórica da burguesia nos vários países europeus, os princípios políticos da ralé, tal como os vemos nas ideologias imperialistas e nos movimentos totalitários, denunciam uma afinidade surpreendentemente forte com as atitudes políticas da sociedade burguesa, uma vez expurgadas da hipocrisia e das concessões à tradição cristã. O fato de as atitudes niilistas da ralé terem atração intelectual tão grande para a burguesia demonstra um relacionamento de princípios que vai muito além do próprio nascimento da ralé.
     Em outras palavras, a disparidade entre a causa e o efeito que caracteriza o surgimento do imperialismo tem suas razões. A conjuntura — riqueza supérflua criada por acúmulo excessivo, que precisou do auxílio da ralé para encontrar um investimento lucrativo e seguro — pôs em ação uma força que sempre havia estado latente na estrutura básica da sociedade burguesa, embora oculta pelas tradições mais nobres e por aquela abençoada hipocrisia que La Roche foucauld qualificou de homenagem que o vício presta à virtude. Ao mesmo tempo, uma política de força completamente destituída de princípios não podia ser exercida antes que existisse uma massa igualmente isenta de princípios e numericamente tão grande que o Estado e a sociedade já não pudessem controlá-la. O fato de que essa ralé pudesse ser manuseada somente por políticos imperialistas e inspirada apenas por doutrinas raciais fez crer que somente o imperialismo podia resolver os graves problemas domésticos, sociais e econômicos dos tempos modernos.
     E verdade que a filosofia de Hobbes nada contém das modernas doutrinas raciais, que não apenas incitam as massas mas, em sua forma totalitária, definem claramente o tipo de organização através da qual a humanidade pode levar o processo incessante de acúmulo de capital e de poder a seu fim lógico de autodestruição. Mas Hobbes pelo menos forneceu ao pensamento político o pré-requisito de todas as doutrinas raciais, isto é, a exclusão em princípio da ideia de humanidade como o único conceito regulador da lei internacional. Com a suposição de que a política estrangeira é necessariamente excluída do contrato humano, empenhada na guerra perpétua de todos contra todos, conforme a lei do "estado natural", Hobbes propicia o melhor fundamento teórico possível para todas as ideologias naturalistas, que veem nas nações meras tribos, separadas umas das outras por natureza, sem qualquer tipo de conexão, ignorantes da solidariedade humana e tendo em comum apenas o instinto de auto conservação, como os animais. Se a ideia de humanidade, cujo símbolo mais convincente é a origem comum da espécie humana, já não é válida, então nada é mais plausível que uma teoria que afirme que as raças vermelha, amarela e negra descendem de macacos diferentes dos que originaram a raça branca, e que todas as raças foram predestinadas pela natureza a guerrearem umas contra outras até que desapareçam da face da terra.
     Se for verdade que somos dominados pelo processo de Hobbes de infindável acúmulo de poder, então a organização da ralé levará inevitavelmente à transformação de nações em raças, pois nas condições da sociedade acumuladora não existe outro elo de ligação entre indivíduos, já que, no próprio processo de acúmulo de poder e expansão, os homens estão perdendo todas as demais conexões com os seus semelhantes. 
     O racismo pode destruir não só o mundo ocidental mas toda a civilização humana. Quando os russos se tornaram eslavos, quando os franceses assumiram o papel de comandantes da mão-de obra negra, quando os ingleses viraram "homens brancos" do mesmo modo como, durante certo período, todos os alemães viraram arianos, então essas mudanças significaram o fim do homem ocidental. Pois, não importa o que digam os cientistas, a raça é, do ponto de vista político, não o começo da humanidade mas o seu fim, não a origem dos povos mas o seu declínio, não o nascimento natural do homem mas a sua morte antinatural.

Parte II Imperialismo (1.3 - A Aliança entre a Ralé e o Capital)
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[40] "Os Serviços Coloniais proporcionam o apoio mais perfeito e mais natural a uma política externa agressiva; da expansão do império emana uma forte atração sobre a aristocracia e as classes profissionais porque oferece novos campos, mais amplos, para o emprego honrado e lucrativo dos seus filhos" (J. A. Hobson, "Capitalism and imperialism in South África", op. cit.). Foram principalmente "professores e publicistas patriotas, independentemente de afiliação política e sem olhar o interesse econômico pessoal", que patrocinaram "as investidas imperialistas dos anos 70 e 80" (Hayes, op. cit., p. 220).
[41] A esse respeito e ao que se segue, ver J. A. Hobson, Imperialism, que já em 1905 fez uma magistral análise das forças e motivos econômicos que levaram à expansão, bem como de algumas de suas implicações políticas. Quando, em 1938, seu antigo estudo foi republicado, Hobson pôde dizer, com razão, na introdução do texto inalterado, que o seu livro era a verdadeira prova de "que os principais perigos e distúrbios (...) de hoje (...) estavam todos latentes e visíveis no mundo uma geração antes".
[42] A óbvia conexão entre as graves crises do século XIX que ocorreram nos anos 60 na Inglaterra e nos anos 70 no continente europeu e, do outro lado, o imperialismo é mencionada por Hayes, op. cit., em apenas uma nota de pé de página (na p. 219), e por Schuyler, op. cit., o qual acredita que "um renovado interesse pela emigração foi um fator importante no começo do movimento imperialista", e que esse interesse tinha sido causado por "uma séria depressão no comércio e na indústria da Inglaterra" no fim "da década de 60" [do século XIX] (p. 280). Schuyler descreve ainda em certo detalhe o forte "sentimento antiimperial em meados da era vitoriana". Infelizmente, Schuyler não diferencia entre o Commonwealth e o império propriamente dito, embora a discussão de assuntos pré-imperialistas pudesse facilmente sugerir essa diferenciação.
[43] Rosa Luxemburg, Die Akkumulation des Kapitals, Berlim, 1923, p. 273.
[44] Rudolf Hilferding, Das Finanzkapital, Viena, 1910, p. 401, menciona — mas não analisa — o fato de que o imperialismo "de súbito emprega novamente os métodos do acúmulo original da riqueza capitalista".
[45] De acordo com o brilhante estudo de Rosa Luxemburg sobre a estrutura política do imperialismo (op. cit., pp. 273 ss.), "o processo histórico do acúmulo de capital depende, em todos os seus aspectos, da existência de camadas sociais não-capitalistas", de modo que "o imperialismo é a expressão política do acúmulo de capital em sua competição pela posse dos restos do mundo não capitalista". Essa dependência fundamental do capitalismo em relação a um mundo não-capitalista está na base de todos os outros aspectos da super poupança e da má distribuição (Hobson, op. cit.), como resultado da superprodução e da consequente necessidade de novos mercados (Lênin, Imperialismo, o último estágio do capitalismo, 1917), como resultado de baixa oferta de matérias-primas (Hayes, op. cit.), ou como exportação de capital para a uniformização da taxa de lucros nacional (Hilferding, op. cit.).
[46] De acordo com Hilferding, op. cit., p. 409, nota, entre 1865 e 1898 a renda britânica proveniente de investimentos estrangeiros aumentou nove vezes, enquanto a renda nacional apenas dobrava. O autor presume que tenha havido aumento semelhante, embora provavelmente menor, no caso dos investimentos alemães e franceses.
[47] No caso da França, ver George Lachapelle, Les finances de Ia Troisième Republique, Paris, 1937, e D. W. Brogan, The development of Modem France, Nova York, 1941. Para o que sucedeu na Alemanha, comparar os interessantes testemunhos contemporâneos, como o de Max Wirth, Geschichte der Handelskrisen [História das crises comerciais], 1873, capítulo 15, e A. Schaeffle, "Der 'grosse Boersenkrach' des Jahres 1873" [A grande quebra da bolsa no ano 1873], em ZeitschriftfürdiegesamteStaatswissenschaft, 1874, vol. 30.
[48] J. A. Hobson, "Capitalism and imperialism", op. cit.
[49] Ver Hilferding, op. cit., p. 406. "Daí o clamor por um forte poder estatal por parte de todos os capitalistas que têm seus interesses em países estrangeiros. (...) O capital exportado sente-se mais seguro quando o poder estatal de seu próprio país governa completamente o novo domínio. (...) Seus lucros devem ser garantidos pelo Estado, se possível. Assim, a exportação do capital é a favor de uma política imperialista". E a p. 423: "A atitude da burguesia em relação ao Estado sempre sofre completa mudança quando o poder político do Estado torna-se um instrumento competitivo para o capital financeiro no mercado mundial. A burguesia havia sido hostil ao Estado em sua luta contra o mercantilismo econômico e o absolutismo político. (...) Teoricamente pelo menos, a vida econômica devia ser completamente livre da intervenção do Estado; o Estado deveria limitar-se politicamente à salvaguarda da segurança e ao estabelecimento da igualdade civil". Na p. 426: "Contudo, o desejo de uma política expansionista provoca uma mudança revolucionária na mentalidade da burguesia. Esta deixa de ser pacifista e humanista". P. 470: "Socialmente, a expansão é uma condição vital para a preservação da taxa de lucros e para o seu temporário aumento".
[50] Esses motivos foram claramente declarados no imperialismo alemão. As primeiras atividades do Alldeutsche Verband [ Liga Pangermânica] (fundada em 1891) esforçavam-se para evitar que os emigrantes alemães mudassem de cidadania, e o primeiro discurso imperialista de Guilherme II, por ocasião do vigésimo quinto aniversário da fundação do Reich, continha a seguinte passagem, aliás muito típica: "O Império Alemão tornou-se um Império Mundial. Milhares de nossos compatriotas vivem em toda parte, em lugares distantes da terra. (...) Senhores, é vosso dever ajudar-me a unir esse Império Alemão, maior que o nosso país natal". Comparar também a declaração de J. A. Froude na nota 10.
[51] E. H. Damce, The Victorian ilusion, Londres, 1928, p. 164: "A África, que não havia sido incluída no itinerário da 'saxonidade' nem pelos filósofos profissionais da história imperial, tornou-se o campo da cultura do imperialismo britânico".
[52] Citado por Millin, op. cit.
[53] Alfred von Tirpitz, Erinnerungen [Reminiscências], 1919. Ver também Daniel Fry-mann (pseudônimo de Heinrich Class), Wenn ich der Kaiser war [Se eu fosse Kaiser], 1912: "O verdadeiro partido imperialista é o Partido Liberal Nacional". Frymann, um proeminente chauvinista alemão durante a Primeira Guerra Mundial, chega a acrescentar a respeito dos conservadores: "O alheamento dos meios conservadores no tocante às doutrinas raciais é também digno de nota".
[54] Hobson, op. cit., p. 61
[55] Hobson, op. cit., foi o primeiro a reconhecer tanto a oposição fundamental entre imperialismo e nacionalismo quanto a tendência do nacionalismo a se tomar imperialista. Dizia que o imperialismo é uma perversão do nacionalismo "na qual as nações (...) transformam a sadia e estimulante rivalidade dos vários tipos nacionais na luta mortal dos impérios em competição" (p. 9).
[56] Ver capítulo 8.
[57] Hobson, op. cit., pp. 146 ss. "Não pode haver dúvida de que o poder do Gabinete, em contraposição à Câmara dos Comuns, tem aumentado constante e rapidamente, e parece que continua a aumentar", observou Brice em 1901, em Studies in history and jurisprudence, 1901, I, 177. Quanto ao funcionamento da Bancada de Frente, ver também Hilaire Belloc e Cecil Chesterton, Thepartysystem, Londres, 1911.
[58] Lorde Curzon na inauguração da placa em memória a lorde Cromer. Ver Lawrence J. Zetland, Lord Cromer, 1923, p. 362.
[59] Sir Hesketh Bell, op. cit., parte I, p. 300. O mesmo sentimento existia nos serviços coloniais holandeses. "A tarefa mais alta, a tarefa sem precedentes, é aquela que espera o funcionário do Serviço Público das Índias Orientais (...) servir em suas fileiras deve ser considerado a mais alta honra (...) o corpo seleto que cumpre a missão da Holanda no ultramar." Ver De Kat Angelino, Colonial policy, Chicago, 1931, II, 129.
[60] Palavras do presidente do Kolonialverein [Associação Colonial] alemão, Hohenlohe-Langenburg, em 1884. Ver Mary Townsend, Origin of modem German colonialism, 1871-1885, 1921.
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[*] Chamamos aqui movimentos de unificação (linguística, nacional, etnocultural etc, p. ex.: pangermânica, pan-eslava) o que a autora denomina em inglês pan-movements. (N. T.)

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