Se me for dado fazer um pedido... quero lembrar tudo!
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contos e poesia no butekudu baitasar. a humanidade solidária e amorosa construída com todos incluídos num outro mundo possível, por la vida... siempre! li nas redes sociais: "se tua religião te faz odiar pessoas por qualquer razão, procura frequentar um buteku e paga os mesmos 10% ao garçom!", enfim... "descobri que a seu tempo vão me chorar e esquecer."
Os inimigos vieram e os atacaram. Chegaram à aldeia, que se compunha de cinco casas, e, à noite, incendiaram-na em dois lugares, a m de que, em razão da claridade, os habitantes não pudessem fugir no escuro. Com seus tacapes, mataram muitos deles, no momento mesmo em que pretendiam escapar de suas casas.Um homem chamado Maitchaule deitou-se ileso em meio a um amontoado de mortos e, com o intuito de enganar os inimigos, lambuzou o rosto e o corpo de sangue. Acreditando que estavam todos mortos, eles foram embora. Restou somente aquele homem. Ele se foi, banhou-se e caminhou até uma outra casa, não muito distante. Pensou que houvesse gente ali, mas não achou ninguém. Todos haviam fugido. Encontrou apenas bolo de mandioca e carne assada, e comeu. Pôs-se, então, a refletir; deixou a casa e afastou-se. Sentou-se e seguiu pensando. Pensou no pai e na mãe, que haviam sido mortos pelos inimigos, e que agora não tinha mais ninguém no mundo. Então disse: “Vou me deitar ao lado de meus companheiros, que estão mortos!”. E, com muito medo, retornou à aldeia incendiada. Encontrou nela uma grande quantidade de abutres. Maitchaule era um feiticeiro e havia sonhado com uma linda moça. Espantou os abutres e deitou-se ao lado dos companheiros mortos. Lambuzara-se novamente de sangue. A m de poder usá-las a qualquer momento, manteve as mãos junto à cabeça. Os abutres, então, voltaram e puseram-se a disputar os cadáveres. Em seguida, chegou a filha do rei dos abutres. E o que fez, então, a filha do rei? Pousou sobre o peito de Maitchaule e, quando ia bicar-lhe o corpo, ele a agarrou. Os abutres bateram em retirada. Maitchaule disse à filha do rei dos abutres: “Transforma-te numa mulher! Estou tão sozinho aqui, sem ninguém que me ajude”. E levou-a consigo para a casa abandonada. Lá, cuidou dela como de um pássaro domesticado. Disse-lhe: “Agora vou pescar. Quando voltar, quero encontrar-te transformada numa mulher!”.
As pessoas viviam ali e, de repente, veio uma epidemia. Estavam morrendo. Morriam todas. Puseram-se a vagar, levando a notícia umas às outras. Entre a totalidade dos kutenais reinava a doença. Por toda parte era a mesma coisa. Num determinado lugar não encontraram ninguém. Estavam todos mortos. Restara uma única pessoa. Um dia, essa pessoa que restara se curou. Tratava-se de um homem, e ele estava sozinho. Então, pensou: “Vou vagar pelo mundo para ver se encontro alguém em alguma parte. Se não encontrar ninguém, não vou mais querer regressar. Não há ninguém no mundo, e ninguém jamais virá me visitar”. O homem partiu em sua canoa e chegou ao último acampamento dos kutenais. Chegando lá, onde normalmente se viam pessoas à beira do rio, não encontrou ninguém; e, andando pelas redondezas, viu apenas mortos — nenhum sinal de vida em parte alguma. Tornou a partir em sua canoa e, chegando a uma outra localidade, desembarcou, mais uma vez encontrando apenas mortos. Não havia ninguém ali. Tomou, então, o caminho de volta. Alcançou o último povoado onde os kutenais tinham vivido. Entrou no povoado. Nas tendas, havia tão somente cadáveres amontoados. Vagou, pois, sem parar e viu que todos haviam morrido. Chorava ao caminhar. “Sou o único que restou”, disse para si mesmo; “até mesmo os cães estão mortos.” Ao chegar à aldeia mais longínqua, viu pegadas humanas. Havia uma tenda ali. Em seu interior, não havia cadáveres. Mais adiante cava a aldeia. Soube, então, que duas ou três pessoas ainda estavam vivas. Viu pegadas maiores e menores, e não saberia dizer se eram de três pessoas. Mas alguém se salvara. Seguiu adiante em sua canoa e pensou: “Remarei naquela direção. Os que viviam aqui costumavam remar para lá. Se se trata de um homem, talvez ele se tenha mudado para mais adiante”.Assim, sentado em sua canoa, viu mais acima, a uma certa distância, dois ursos pretos comendo pequenas frutas. Pensou: “Vou atirar neles e, se os acertar, eu os como. Porei sua carne para secar e, então, darei uma olhada por aí, para ver se sobrou alguém vivo. Primeiro, ponho a carne para secar; depois, vou procurar as pessoas. Anal, vi pegadas de gente. Talvez sejam homens ou mulheres famintas. Precisam também de algo para comer”. Caminhou rumo aos ursos. Ao aproximar-se, viu que não eram ursos, mas mulheres. Uma era mais velha; a outra, uma moça. Pensou consigo: “Fico contente de ver seres humanos. Tomarei esta mulher por esposa”. Adiantou-se, pois, e pegou a moça, que disse a sua mãe: “Mãe, estou vendo um homem”. A mãe ergueu os olhos e viu que sua filha estava falando a verdade. Viu um homem pegando sua filha. Então, a mulher, a moça e o jovem homem choraram, pois os kutenais haviam morrido todos. Fitando-se uns aos outros, choraram juntos. A mulher disse: “Não leve minha filha. Ela ainda é pequena. Leve a mim. Você será o meu homem. No futuro, quando minha filha crescer, ela será tua mulher. Então você terá filhos”. O jovem casou se com a mulher mais velha. Não tardou muito até que ela lhe dissesse: “Agora minha filha está adulta. Agora ela pode ser tua mulher. É bom que vocês tenham filhos. O ventre dela agora está forte”. O jovem, então, tomou a moça por esposa, e, daí em diante, os kutenais se multiplicaram.
Após o ano de 1720, a longa resistência que, reunidos sob o comando de um líder valente, os cabres haviam oposto aos caraíbas arruinara os primeiros. Haviam derrotado o inimigo na foz do rio; uma porção de caraíbas foi morta em fuga, entre as corredeiras e uma ilha. Os prisioneiros foram devorados; mas, com aquela refinada astúcia e crueldade que é própria dos povos das Américas do Sul e do Norte, deixaram um único caraíba com vida o qual, afim de testemunhar o bárbaro acontecimento, foi obrigado a subir numa árvore para, imediatamente depois, dar conhecimento aos derrotados do que vira. Contudo, o êxtase vitorioso do chefe dos cabres foi de curta duração. Os caraíbas retornaram em massas tamanhas que dos cabres antropófagos restaram apenas uns míseros resquícios.
Edgar Allan Poe - Contos