domingo, 4 de janeiro de 2026

Massa e Poder - As Entranhas do Poder: Sobre a Psicologia do Comer

Elias Canetti

AS ENTRANHAS DO PODER

     Sobre a psicologia do Comer

      Tudo o que se come é objeto do poder. O faminto preenche um espaço vazio dentro de si próprio. O desconforto que tal vazio interior lhe provoca, ele o supera enchendo-se de comida. Quanto mais cheio estiver, tanto melhor se sentirá. Pesado e satisfeitíssimo jaz aquele que é capaz de comer mais: o comedor-mor. Existem agrupamentos humanos que têm num tal comedor-mor o seu chefe. O apetite sempre saciado deste parece-lhes uma garantia de que eles próprios jamais passarão fome por muito tempo Confiam em sua barriga cheia, como se ele a tivesse enchido por eles todos. Manifesta-se claramente aí a relação entre digestão e poder.
     Em outras formas de dominação, o respeito à constituição física do comedor-mor recua um pouco para um segundo plano. Não é mais necessário que ele seja um barril mais gordo que os outros. Mas ele come e bebe na companhia dos escolhidos que o rodeiam, e o que manda servir-lhes pertence a ele. Se já não é ele próprio o que mais come, pelo menos suas provisões têm de ser as mais abundantes; dele é a maioria do gado e do trigo. Se quisesse, poderia ser sempre o comedor mor. Mas transfere o conforto da repleção para sua corte, para todos os que se sentam com ele à mesa, reservando-se tão somente o direito de ser o primeiro a servir-se de tudo. A gura do rei que come muito jamais desapareceu por completo. Sempre houve um rei a representá-la, para o deleite de seus súditos. Mesmo grupos dominantes inteiros entregaram-se com prazer à gula; proverbial é o que se conta dos romanos a esse respeito. Todo poder familiar solidamente estabelecido exibe-se dessa forma, sendo posteriormente imitado e sobrepujado pelos recém-chegados ao poder.
     Em algumas sociedades, a possibilidade do desperdício, e a força para tanto, intensificou-se até o desenvolvimento de orgias formais, ritualmente estabelecidas, de destruição. A mais famosa tornou-se o potlatch dos índios do Noroeste americano, consistindo em grandes e festivas reuniões de toda a comunidade, as quais culminam em competições de destruição entre os chefes. Cada um deles gaba-se do tanto de sua propriedade que está disposto a destruir; o vencedor é aquele que efetivamente manda destruir mais, desfrutando assim da glória suprema perante todos. O comer mais pressupõe já, em si, a destruição da vida animal pertencente àquele que assim procede. A impressão que se tem é a de que, no potlatch, essa destruição transferiu se para a porção não comestível da propriedade. Desse modo, o chefe pode jactar-se muito mais do que se tivesse de comer tudo, poupando-se ainda dos desconfortos físicos.
     Talvez seja proveitoso lançar aqui um olhar sobre os comensais de um modo geral, independentemente da posição hierárquica que ocupam. Um certo respeito dos que comem juntos, uns em relação aos outros, é inequívoco. Ele se expressa já no fato de estarem partilhando sua refeição. A comida que têm diante de si em tigelas comuns pertence ao conjunto de todos. Dela, todos consomem um tanto, e veem que os demais se serviram também. As pessoas dão-se ao trabalho de serem justas e não favorecer quem quer que seja. O vínculo existente entre os comensais reveste-se do máximo vigor quando desfrutam todos de um único animal, de um corpo que conheceram ainda vivo e uno, ou de um único pedaço de pão. Somente isso, contudo, não explica a ligeira solenidade de sua postura: seu respeito significa também que não comerão um ao outro. É certo que, entre homens que vivem juntos num grupo, sempre existe a garantia de que tal não ocorrerá; mas é apenas quando estão comendo que essa garantia se exprime de forma convincente. As pessoas sentam-se juntas, desnudam seus dentes, comem e nem mesmo nesse momento crítico alguém é tomado de apetite pelo outro. Cada um se respeita a si próprio por essa razão, e respeita também aos outros pela contenção semelhante à sua.
     O homem contribui para a família com sua porção de alimento, e a mulher prepara-lhe a comida. O fato de ele comer regularmente da comida que ela prepara constitui o vínculo mais forte entre eles. A vida em família atinge sua máxima intimidade quando seus membros comem juntos com frequência. A imagem que se forma diante dos olhos quando se pensa na família é a dos pais e filhos reunidos em torno de uma mesa. Tudo parece constituir uma preparação para esse momento; quanto maior a frequência e a regularidade com que ele se repete, tanto mais sentir-se-ão como uma família aqueles que comem juntos. Na prática, a acolhida nessa mesa equivale à acolhida no seio da família.
     Talvez seja esta a melhor oportunidade para dizer algo a respeito daquela que constitui o cerne, o coração dessa instituição: a mãe. Mãe é aquela que dá de comer do seu próprio corpo. De início, ela alimenta a criança dentro de si; depois, oferece-lhe o seu leite. Sob forma mais branda, essa tendência estende-se por muitos anos; seus pensamentos, na medida em que ela é mãe, giram em torno da alimentação de que necessita a criança a crescer. Não é necessário que essa criança seja seu próprio filho; pode-se confiar a ela uma criança estranha, ou ela própria pode adotar um filho. Sua paixão é dar de comer; cuidar para que a criança coma, para que nesta a comida transforme-se em algo. Sua meta imutável é o crescimento e o aumento do peso da criança. Sua conduta parece altruísta, e o é de fato, se se contempla a mãe como uma unidade à parte, como um ser humano em si. Na realidade, porém, seu estômago duplicou-se, e ela mantém o controle sobre ambos esses estômagos. De início, interessa-se mais pelo novo estômago e pelo novo corpo, ainda não desenvolvido, do que pelo seu próprio; exterioriza-se aí, simplesmente, o que ocorreu ao longo da gravidez. Também ao caso da mãe aplica-se a concepção defendida aqui da digestão como um fenômeno central do poder; a mãe, porém, distribui esse fenômeno por mais de um corpo, e o fato de o novo corpo, cuja alimentação ela provê, estar apartado do dela torna tal fenômeno, como um todo, mais nítido e mais consciente. O poder da mãe sobre a criança, nos primeiros estágios desta, é absoluto; e o é não apenas porque sua vida depende dela, mas porque a própria mãe sente a mais vigorosa necessidade de exercer incessantemente esse poder. A concentração de seus anseios de dominação sobre um ser tão pequeno dá a ela um sentimento de superpoder dificilmente superável por qualquer outro relacionamento normal entre seres humanos.
     A continuidade dessa dominação da qual a mãe se ocupa noite e dia, o gigantesco número de detalhes que a compõem, confere-lhe uma perfeição e plenitude que nenhum outro tipo de dominação possui. A mãe não se limita à transmissão de ordens, as quais, nesse estágio inicial, nem sequer poderiam ser entendidas. Sua dominação significa que se pode manter cativa uma criatura, ainda que, nesse caso, realmente para o seu próprio bem; significa que — sem compreender o que está fazendo — ela pode passar adiante aquilo que lhe foi imposto décadas antes e que ela reteve em si como um aguilhão indestrutível; e significa também que o fazer crescer é possível, algo que um governante somente logra produzir mediante as promoções artificiais que confere. Para a mãe, a criança reúne em si as propriedades das plantas e dos animais. Ela permite à mãe gozar concomitantemente de direitos de soberania que, de um modo geral, o homem somente exerce em separado: sobre as plantas, provocando-lhes o crescimento que deseja para elas; e sobre os animais que mantém cativos e cujos movimentos controla. Nas mãos da mãe, a criança cresce como o trigo, e, qual um animal doméstico, executa apenas os movimentos que ela lhe permite. A criança retira da mãe algo da antiga carga de ordens que pesa sobre toda criatura civilizada e, além do mais, torna-se um ser humano, um ser novo e pleno, uma contribuição pela qual o grupo a que a mãe pertence ter lhe-á para sempre uma dívida de gratidão. Não há forma mais intensa de poder. Que habitualmente não se veja o papel da mãe dessa maneira é algo que se explica por duas razões: todo homem carrega consigo na lembrança sobretudo a época do esmorecimento desse poder; e a todos afiguram-se mais importantes os evidentes mas não tão essenciais direitos de soberania do pai.
     Dura e rija a família se torna quando veda a outros sua comida; aqueles dos quais se tem de cuidar oferecem um pretexto natural para a exclusão dos demais. A vacuidade desse pretexto faz-se visível nas famílias que, embora não possuindo filhos, não tomam a menor iniciativa no sentido de repartir sua comida com os outros: a família composta de duas pessoas é a formação mais desprezível que a humanidade já produziu. Mesmo onde há crianças, porém, sente-se frequentemente o quanto elas servem como mera propaganda do egoísmo mais deslavado. As pessoas economizam “por seus filhos”, deixando que outros passem fome. Na realidade, porém, o que ocorre é que, assim procedendo, ficam com tudo para si pela vida toda.
     O homem moderno gosta de comer em restaurantes, isolado em sua mesa e na companhia de seu pequeno grupo, para o qual, então, paga a comida. Como os demais presentes fazem a mesma coisa, apraz-lhe, durante a refeição, a ilusão de que todas as pessoas têm o que comer. Mesmo naturezas mais sensíveis não necessitam dessa ilusão por um tempo maior; uma vez saciadas, podem já, tranquilamente, tropeçar nos famintos.
     Aquele que come aumenta de peso; sente-se mais pesado. Há aí uma fanfarronice: ele não pode mais crescer, mas engordar pode, ali mesmo, ante os olhos dos outros. Também por isso aprecia comer na companhia deles; é como uma competição para ver quem é capaz de encher-se mais. O conforto da repleção, quando já não se é capaz de comer mais, é um ponto extremo que se gosta de alcançar. Originalmente, ninguém se envergonhava disso: uma grande presa tinha de ser comida logo; comia se tanto quanto possível, carregando-se as provisões no próprio corpo.
     Quem come sozinho renuncia ao prestígio que tal procedimento lhe confere junto aos outros. O desnudamento dos dentes somente para a comida, quando não há mais ninguém presente, não impressiona ninguém. Na companhia de outras pessoas, pode-se ver cada uma delas abrindo a boca, e, enquanto se trabalha com os próprios dentes, divisam-se os dos outros. É desprezível não ter nenhum; há algo de ascético em não se exibir os que se têm. A oportunidade natural para mostrá-los apresenta-se na refeição conjunta. A educação moderna demanda que se coma com a boca fechada. Reduz-se, pois, a um mínimo precisamente a ameaça velada que havia no ato ingênuo de abrir a boca. Mas não nos tornamos tão mais inofensivos assim. Come se com garfo e faca — dois instrumentos que poderiam facilmente servir ao ataque. Cada um tem seu garfo e sua faca diante de si e, sob determinadas circunstâncias, carrega-os consigo. Contudo, a pequena porção de comida que se corta e se enfia na boca o mais contidamente possível chama-se, também nas línguas modernas, bocado ou mordida.
     A risada foi já reprovada como algo vulgar porque, quando se ri, abre se bem a boca, desnudando os dentes. É certo que, em sua origem, o riso encerra a alegria pela presa ou comida que parece segura. Ao cair, o homem lembra o animal ao qual caçava e abatia. Todo tombo que provoca o riso lembra o desamparo daquele que tombou; se se quisesse, poder-se-ia tratá-lo como uma presa. Não se haveria de rir se, avançando-se nessa sequência de acontecimentos, efetivamente se incorporasse aquele que caiu. Ri-se em vez de comê-lo. É a comida que nos escapa que estimula o riso — esse súbito sentimento de superioridade, como já afirmou Hobbes. Deixou de acrescentar, porém, que tal sentimento só se intensifica até o riso quando a consequência dessa superioridade não se verifica. A concepção do riso de Hobbes fica a meio caminho da verdade; ele não avançou até sua origem verdadeiramente “animal”, talvez porque os animais não riem. Mas os animais tampouco renunciam a qualquer comida que esteja ao seu alcance, se de fato a desejam. Somente o homem aprendeu a substituir o processo completo da incorporação por um ato simbólico. Aparentemente, os movimentos que têm no diafragma seu ponto de partida e são característicos do riso substituem resumidamente uma série de movimentos internos do corpo que servem à deglutição.
     Dentre os animais, apenas a hiena emite um som que realmente se aproxima do nosso riso. Pode-se produzi-lo artificialmente dando-se a uma hiena cativa algo para comer, mas recolhendo-o velozmente, antes que ela tenha tempo de apanhá-lo. Não é supérfluo lembrar que, quando em liberdade, a hiena alimenta-se de cadáveres; pode-se imaginar com que frequência muito do que ela desejou lhe foi, diante dos olhos, arrebatado por outros.

continua página 331...
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

Thomas Mann - A Montanha Mágica: Abundância de harmonia - [b]

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
Abundância de harmonia

continuando...

     Em primeiro lugar havia uma discussão entre Radamés e Amnéris. A filha do rei mandara conduzir à sua presença o homem acorrentado, a quem amava e desejava ardentemente salvar, se bem que ele tivesse renegado a pátria e a honra por amor à escrava bárbara. (Verdade é que o próprio Radamés afirmava que “puro se conservara o seu pensamento e intata a sua honra”.) Mas essa integridade íntima, sem embargo da gravidade da sua culpa, pouco lhe adiantava. Em virtude do seu crime evidente, ele estava sujeito à jurisdição dos sacerdotes, que eram inexoráveis quanto às fraquezas humanas. Parecia certo que não fariam cerimônias, se no último instante não alterasse a sua atitude e renunciasse à escrava, para lançar-se nos braços do majestoso contralto com a mudança de timbre, que, do ponto de vista acústico, merecia isso plenamente. Amnéris fazia os mais fervorosos esforços em prol do tenor harmonioso, o qual, porém, tragicamente obcecado e avesso à vida, se limitava a cantar “Não posso” ou “Em vão”, cada vez que lhe implorava, com súplicas desesperadas, que abandonasse a escrava, porque a sua vida estava em jogo. “Não posso.” “Rogo-te mais uma vez: renuncia a ela!” “Em vão!” A cegueira desejosa de morrer e o mais ardente pesar de amor reuniam-se num diálogo, que era extraordinariamente belo, mas não deixava nenhuma esperança. A seguir, Amnéris acompanhava com seus gritos de dor as medonhas fórmulas das réplicas do tribunal religioso, cujos sons surdos subiam das profundezas, e às quais o infausto Radamés absolutamente não reagia. 

“Radamés, Radamés!”, cantava com insistência o Sumo Sacerdote, e de uma forma muito sutil lhe fazia ver o crime de traição. 
“Desculpa-te!”, exigia o coro dos sacerdotes.

     E como o Sumo Sacerdote verificava que Radamés permanecia mudo, todos, com cavernosa unanimidade, declaravam-no culpado de traição. 

“Radamés, Radamés!”, recomeçava o presidente, “desertaste do acampamento na véspera da batalha.” 
“Desculpa-te!”, cantava novamente o coro. “Ele se cala”, constatava pela segunda vez o presidente muito mal impressionado, e em consequência disso, todos os votos dos juízes tornavam a reunir-se na sentença: “Traição!” 
“Radamés, Radamés!”, ouvia-se pela terceira vez a voz do implacável acusador. “Violaste o juramento à pátria, à honra e ao rei.” “Desculpa-te!”, ressoava novamente o coro. E “Traição!” era o veredicto definitivo que o grêmio dos sacerdotes pronunciava com horror, depois de sua atenção ter sido chamada para o fato de Radamés calar-se teimosamente. Destarte era impossível evitar o inevitável. O coro, cujas vozes nem sequer se haviam retirado para deliberar, promulgava a sentença, segundo a qual a sorte do criminoso estava decidida. Teria ele de morrer a morte dos malditos; entraria vivo na tumba, sob o templo da divindade irada. A indignação que Amnéris manifestava diante dessa crueldade clerical era coisa que o ouvinte devia imaginar o melhor que pudesse; pois a reprodução interrompia-se nesse ponto. Hans Castorp teve que mudar o disco, o que fez com movimentos silenciosos, precisos, e, por assim dizer, com os olhos baixos. Quando voltou a instalar-se na poltrona para escutar, já se desenrolava a última cena do melodrama, o dueto final entre Aída e Radamés, cantado na profundeza da sua sepultura subterrânea, enquanto por cima das suas cabeças os sacerdotes fanáticos, desapiedados, celebravam o seu culto no templo e, com as mãos espalmadas, proferiam surdas ladainhas... “Tu, in questa tomba?”, clamava entre espanto e delícia a voz de Radamés, essa voz incrivelmente insinuante, meiga e ao mesmo tempo heroica. Sim, ela se juntara a ele, a bem-amada, pela qual sacrificara a vida e a honra; esperara-o nesse lugar; deixara-se enterrar com ele, para morrer a seu lado. Os cantos em que os amantes comentavam esse fato, ora dialogando, ora unindo as suas vozes, esses cantos interrompidos de quando em quando pelo ruído surdo do cerimonial, que vinha do pavimento superior – eram eles em última análise o que enfeitiçara até o fundo da alma o ouvinte solitário e noturno, devido tanto às circunstâncias como à expressão musical. Falava-se do céu nesse dueto, mas ele mesmo era celeste, e cantavam-no divinamente. A linha melódica que as vozes de Radamés e Aída, isoladas ou reunidas, não cessavam de traçar, essa curva singela e feliz em torno da tônica e da dominante, que subia desde a nota fundamental até a prolongação em marcato, a um semitom da oitava, e depois de um contato fugidio com esta se voltava para a quinta –, essa linha afigurava-se ao ouvinte mais pura, mais maravilhosa do que tudo o que já lhe ocorrera. No entanto, Hans Castorp teria demonstrado muito menos entusiasmo pelos meros sons, não existisse a situação que os inspirava, e que tornava o seu espírito sensível para a doçura que dela se desprendia. Era tão belo o fato de Aída se ter juntado ao condenado Radamés, a fim de partilhar com ele, para toda a eternidade, o destino sepulcral! Com razão protestava o sentenciado contra a imolação de uma vida tão graciosa. Mas, através do seu grito terno e desesperado “No, no! troppo sei bella!” transparecia o encanto que experimentava ante a definitiva união com Aída, que pensara nunca mais ver. Hans Castorp não precisava forçar a sua imaginação para participar desse encanto e dessa gratidão. Mas, o que sentia, compreendia e gozava antes de mais nada, enquanto, com as mãos postas, olhava a portinhola negra de cujas fasquias partia toda essa beleza, era o alto e idealístico voo da música, da arte, da alma humana, o sublime e irrefutável embelezamento que esse idealismo outorgava aos horrores vulgares das coisas reais. Bastava visionar com os olhos da razão o que se passava nessa cena. Duas pessoas enterradas vivas, com os pulmões cheios de gases mefíticos, pereceriam juntas, ou, o que seria ainda pior, uma depois da outra, torcendo-se de fome; a seguir, a putrefação exerceria sobre os corpos os seus indescritíveis efeitos, até que no fundo da tumba repousassem dois esqueletos, cada um dos quais ficaria completamente indiferente e insensível à questão de saber se jazia ali sozinho ou acompanhado. Este era o aspecto realista e objetivo das coisas – um aspecto e uma coisa à parte, que o idealismo do coração nem sequer levava em conta, e que o espírito da beleza e da música ofuscava triunfalmente. Para as almas operísticas de Radamés e Aída não existia a realidade que os ameaçava. Suas vozes elevavam-se em uníssono até aquela jubilosa appoggiatura à oitava, afirmando que nesse momento se abria o céu, e que suas almas errantes voavam ao encontro dos raios do dia eterno. O poder consolador desse paliativo fazia bem ao ouvinte e contribuía muito para que esse número do seu programa predileto se lhe tornasse especialmente caro.

     Costumava ele descansar desses sustos e êxtases, escutando uma outra peça breve, mas cheia de concentrada magia, peça de conteúdo muito mais plácido do que o da primeira, um idílio, porém um idílio refinadíssimo, ideado e colorido com o aproveitamento dos meios parcos e ao mesmo tempo complexos da arte contemporânea. Era uma peça puramente orquestral, sem canto, um prelúdio sinfônico de origem francesa, composta com uma instrumentação relativamente reduzida para a nossa época, mas com o mais perfeito conhecimento da polifonia moderna, e habilmente elaborada para envolver a alma numa teia de sonhos.
     O sonho a que Hans Castorp se entregava ao tocar esse disco era o seguinte: achava-se ele deitado de costas num prado banhado pelo sol e semeado das estrelas variegadas de um sem número de flores. Tinha por baixo da cabeça um montículo de terra. Estava com as pernas encolhidas, uma cruzada por cima da outra. Mas deve-se observar que essas pernas eram pernas de bode. Só para o seu próprio prazer – pois a solidão do prado era completa – suas mãos dedilhavam um pequeno instrumento de sopro, que mantinha diante da boca, clarineta ou charamela, da qual extraía sons pacatos e fanhosos, um após outro, assim como lhe ocorriam, e todavia numa sequência agradável. E esses balidos despreocupados subiam ao céu intensamente azul, sob o qual fremia ao sol a delicada folhagem de isolados freixos e bétulas, que uma leve aragem agitava. Mas esta musiqueta contemplativa, inconsciente, semimelodiosa, estava longe de ser a única voz que ressoava pela solidão. Os zumbidos dos insetos no ar quente do verão, por cima do capim; a própria luz do sol, a suave brisa, a agitação das copas das árvores, a cintilação das folhas – todo o movimento brando da paz estival que reinava em redor transformava-se numa mescla de sons que dava ao singelo toque da charamela um sentido harmônico, sempre renovado e sempre cheio de surpresas. De vez em quando recuava ou emudecia o acompanhamento sinfônico; mas Hans, com suas pernas de bode, continuava a soprar no seu instrumento, e a monotonia ingênua da sua música despertava novamente a magia sonora, de requintado colorido, da natureza; essa magia que, depois de uma nova interrupção, voltava finalmente, superando-se a si mesma. Juntavam-se-lhe instrumentos novos, mais agudos, atacando em rápida sucessão. Por um momento fugaz, cuja plenitude deliciosa, perfeita, encerrava, todavia, a eternidade, era-lhe dada a exuberância de que a orquestra dispunha e que lhe negara até então. O jovem fauno sentia-se muito feliz no seu prado, nesse dia de verão. Ali não havia ninguém que exigisse: “Desculpa-te!”, não havia responsabilidades, não havia sacerdotes reunidos num tribunal de guerra, julgando um homem que se esquecera da honra e estava perdido para o mundo. Nesse lugar reinava o próprio esquecimento, a bem-aventurada imobilidade, o estado inocente da ausência de tempo. Era o relaxamento praticado com a melhor das consciências, a miragem apoteótica de todo tipo de negação do imperativo ocidental da ação, e a sensação de calma que esse disco inspirava conferia-lhe valor especial aos olhos do nosso músico noturno.
     Existia uma terceira peça... Na realidade eram outra vez diversas peças, três ou quatro, formando um grupo e revezando-se entre si. A ária do tenor, que fazia parte do conjunto, enchia sozinha uma face do disco. Novamente se tratava de música francesa, trechos de uma ópera que Hans Castorp conhecia bem, que ouvira e vira diversas vezes no teatro, e a cujo enredo até aludira de passagem num colóquio, e num colóquio de importância decisiva... A cena passava-se no meio do segundo ato, numa taverna espanhola, baiuca espaçosa, enfeitada de panos. O edifício de estilo mourisco já estava um tanto danificado. A voz de Carmem, cálida, levemente rouca mas atraente pelo timbre peculiar à sua raça, declarava que queria dançar em homenagem ao sargento, e já se ouvia o tatalar das suas castanholas. No mesmo instante, porém, ressoavam a alguma distância trombetas, clairons, um sinal militar que se repetia e fazia o rapaz sobressaltar-se violentamente. “Espera um pouco. Só um momento!”, gritava ele, aguçando os ouvidos qual um cavalo. E quando Carmem perguntava: “Por quê? Que é que há?”, exclamava o sargento: “Não ouves?”, todo surpreendido porque a clarinada não a impressionava tanto como a ele. E explicava que esse sinal era dado pelas trombetas do quartel. “Do regresso se aproxima a hora”, dizia em estilo operístico. Mas a cigana era incapaz de compreender aquilo, e também não queria fazê-lo. Tanto melhor, argumentava ela, entre tola e insolente, nesse caso não havia necessidade de castanholas; o próprio céu lhes mandava música para dançar: “tá-rá-tá-rá...” O rapaz estava fora de si. A mágoa que lhe causava a decepção eclipsava-se diante do esforço de explicar a ela de que se tratava e que nenhuma paixão do mundo podia resistir a esse sinal. Como era possível que ela não compreendesse uma coisa tão fundamental e tão absoluta? “É preciso que eu volte já ao quartel, para a revista”, clamava ele, desesperado diante da ignorância da mulher, que lhe tornava o coração ainda mais triste do que normalmente. E imaginem o que Carmem lhe respondia a isso! Estava furiosa, indignada até o fundo da alma. Era em cada nota a personificação do amor enganado e ofendido; ou, ao menos, fingia sê-lo. “Ao quartel? Para a revista?” e o seu coração? Seu coração meigo e carinhoso que, na sua fraqueza – sim, ela não o negava: na sua fraqueza! – se dispusera a diverti-lo com danças e cantos? “Tá-rá-tá-rá!” Com um gesto de escárnio selvagem conduzia à boca a mão em funil, para arremedar o clarim. “Tá-rá-tá-rá!” Mais não era necessário para que o imbecil se levantasse de um pulo e fizesse menção de sair correndo. Pois então, que se fosse! E lhe estendia o capacete, o sabre, o cinturão. Que não perdesse tempo, que se apressasse para voltar ao quartel!... E ele pedindo misericórdia. Mas a mulher prosseguia com o seu sarcasmo cáustico, representando o papel dele, que perdera a pouca razão que tinha ao ouvir as clarinadas. “Tá-rá-tá-rá, para a revista!” Deus do Céu! chegaria tarde. Depressa, chamavam-no para a revista, e por isso era natural sobressaltar-se feito um louco, no momento em que Carmem queria dançar para ele. Ora, se aquilo era o amor que sentia por ela!...
     Que situação angustiosa! Ela não o compreendia. Essa mulher, essa cigana não podia nem queria compreender. Não queria, pois isso era indubitável: na sua fúria e no seu sarcasmo havia algo que ia além dos fatos atuais e particulares, um ódio, uma inimizade primitiva contra o princípio que se servia desses clairons franceses – ou dessas trompas espanholas – para chamar o soldadinho apaixonado. Triunfar sobre esse princípio era a sua ambição suprema, inata, ultra pessoal. Para esse fim fazia uso de um recurso muito simples: afirmava que, se ele ia embora, era porque não a amava. Era precisamente isso o que José, lá no interior da arca, não podia suportar. Conjurava-a a que o deixasse falar. Ela não queria. Então obrigava-a a escutá-lo. Era um momento infernalmente sério. Sons trágicos desprendiam-se da orquestra, um motivo sombrio, cheio de ameaça, que, como Hans Castorp sabia, se alastrava através de toda a ópera, até a catástrofe final, e também constituía a introdução da ária do soldadinho, num outro disco que se seguia a este.

“A flor que me atiraste...”, José cantava às mil maravilhas. Hans Castorp tocava o disco também isoladamente, fora do conjunto familiar, e sempre o ouvia com a mais atenta simpatia. Quanto ao conteúdo, a ária não valia grande coisa, mas o sentimento expressado nessas súplicas era comovente. O soldado falava da flor que Carmem lhe atirara no começo das suas relações, e que significara tudo para ele no cárcere onde fora metido por causa dela. Profundamente emocionado, confessava que em certos momentos amaldiçoara o destino por ter admitido que Carmem cruzasse os seus caminhos. Mas em seguida se arrependera dessa blasfêmia e ajoelhara se para rogar a Deus lhe permitisse revê-la. Pois – e este “pois” era a mesma nota aguda com que imediatamente antes iniciara a frase “Rever-te, Carmem...” – pois... (e agora se desencadeava no acompanhamento toda a magia instrumental apropriada para descrever o pesar, a saudade, a ternura frustrada e o doce desespero do soldadinho) pois bastara que Carmem lhe surgisse ante os olhos, na sua beleza simplesmente fatal, e lançasse um olhar sobre ele (“sobre mim”, com uma appoggiatura breve, soluçante, de tom inteiro, na primeira palavra) para que José sentisse com a mais absoluta clareza que ela se apoderara de todo o seu ser – “para possuíres todo o meu ser”, cantava ele, desolado, numa sequência melódica reiterada, que a orquestra, lamentando-se por sua própria conta, repetia, subindo da tônica dois tons e voltando-se ardorosamente para a quinta inferior. “Meu coração te pertence”, afirmava desnecessariamente o rapaz, com palavras triviais, mas muitíssimo carinhosas, servindo-se mais uma vez dessa figura musical. A seguir galgava a escala até o sexto grau, para acrescentar: “E eu era teu!” Com isso a voz deixava cair dez tons e confessava com a mais profunda emoção: “Carmem, eu te amo!”, retardando dolorosamente o fim dessa frase por um prolongamento com harmonia modulada, antes que a última sílaba da palavra “amo” se fundisse com a primeira no acorde fundamental. 

– Está bem – dizia então Hans Castorp, entre melancólico e agradecido, e punha ainda no aparelho o disco do final, em que todos felicitavam o jovem José por ter-lhe o encontro com o oficial impossibilitado o regresso, de maneira que não podia senão desertar, como Carmem, para o seu maior espanto, já lhe sugerira antes.

“Segue-nos através dos campos, 
Vai conosco às montanhas –”

cantavam em coro. Era fácil entender a letra.

“Como é bela a vida errante; 
O universo por país; tua vontade por lei, 
E sobretudo aquela coisa inebriante 
Que é a liberdade, a liberdade!”  

– Está bem – dizia Hans Castorp novamente e passava para uma quarta peça, que o comovia pela bondade e pelo sentimento. 

continua pág 428...
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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
Abundância de harmonia - [b]
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

Moby Dick: 47 - O Esteireiro

Moby Dick

Herman Melville

47 -  O Esteireiro
      
     Era uma tarde nublada e opressiva; os homens passeavam lentamente pelo convés, ou olhavam distraidamente para as águas plúmbeas. Queequeg e eu estávamos ocupados em tecer tranquilamente o que se chama de esteira-espada, para servir de amarra suplementar para o nosso bote. Tão calma e absorta e ainda de certo modo auspiciosa a cena se apresentava, e pairava tamanho encantamento de sonho no ar, que todo marinheiro, em silêncio, parecia dissolver-se em seu próprio eu invisível.
     Eu era o ajudante ou assistente de Queequeg, ambos ocupados no trabalho da esteira. Enquanto eu passava e repassava a trama ou fio de merlim por entre os longos fios da urdidura, usando minha própria mão como lançadeira, Queequeg, de pé ao lado, de vez em quando deslizava sua enorme espada de carvalho por entre as linhas, e, olhando distraidamente para a água, colocava de modo despreocupado e automático cada fio no seu lugar; repito, uma atmosfera estranha de sonho reinava sobre todo o navio e sobre todo o mar, apenas quebrada pelo barulho intermitente da espada, tanto que isto parecia ser o Tear do Tempo, e eu mesmo uma lançadeira mecanicamente tecendo e sempre tecendo para as Parcas. Assim estavam presos os fios da urdidura, sujeitos a apenas uma única vibração imutável e constante, e aquela vibração era calculada para permitir apenas o cruzamento dos outros fios com o seu. A urdidura parecia a Necessidade; e aqui, pensei, com as minhas próprias mãos guio a lançadeira e teço meu próprio destino nestes fios inalteráveis. Enquanto isso, a espada indiferente e impulsiva de Queequeg às vezes tocava na trama de modo enviesado, ou torto, ou muito forte, ou muito fraco, conforme o caso; e, com essa diferença, o último golpe produzia um contraste correspondente no aspecto final do tecido concluído; a espada desse selvagem, pensei, que dá forma e ajusta, por fim, tanto a urdidura quanto a trama; essa espada indiferente e descuidada deve ser o Acaso – sim, Acaso, Livre-Arbítrio e Necessidade – de modo algum incompatíveis – todos entrelaçadamente trabalhando juntos. A urdidura reta da Necessidade, que não deve ser desviada de seu curso final – todas as suas vibrações alternadas, de fato, levam a isso; o Livre-Arbítrio sempre livre para guiar sua lançadeira por entre os fios estabelecidos; e o Acaso, embora restrito pelas linhas retas da Necessidade, e além do mais tendo os movimentos modificados pelo Livre-Arbítrio, embora seja dessa forma determinado pelos dois, o Acaso a cada vez comanda ambos e dispõe do último golpe no configurar dos acontecimentos.

***
     Estávamos assim tecendo e sempre tecendo, quando fui desperto por um som tão estranho, tão prolongado e musicalmente selvagem e sobrenatural, que o novelo do Livre-Arbítrio caiu de minha mão, e fiquei a olhar para cima, para as nuvens, de onde aquela voz descia como uma asa. No alto, na plataforma da gávea, estava Tashtego, aquele louco de Gay Head. Seu corpo se jogava avidamente para a frente, a mão esticada como uma vara, e com súbitos intervalos rápidos voltava a gritar. Esteja certo de que o mesmo grito talvez tenha sido ouvido naquele momento por toda a extensão dos mares, vindo de todos os gajeiros de navios baleeiros, empoleirados lá em cima; mas de poucos daqueles pulmões o velho e pisado aviso poderia surgir com uma cadência tão maravilhosa quanto a do índio Tashtego.
     Enquanto pairasse sobre você como que suspenso no ar, tão ansiosa e avidamente olhando para o horizonte, você o teria comparado a um profeta ou vidente contemplando as sombras do Destino e anunciando com aqueles gritos selvagens sua chegada.

“Lá soprou! Ali! Ali! Ali! Ela sopra! Ela sopra!” 
“Onde?” 
“A sotavento, umas duas milhas! Um bando!”

     Imediatamente tudo se fez comoção.
     O cachalote sopra como um relógio toca, com a mesma regularidade confiável e constante. Assim os baleeiros distinguem esse peixe das outras tribos de seu gênero.

“Já foram as caudas!”, ouviu-se então Tashtego gritar, e as baleias desapareceram. 
“Depressa, camareiro!”, gritou Ahab. “As horas! As horas!”

     Dough-Boy correu para baixo, olhou no relógio e informou Ahab da hora exata.
     O navio mantinha-se afastado do vento e deslizava calmamente à sua frente. Tashtego tendo anunciado que as baleias mergulhavam a sotavento, esperávamos vê-las emergir diretamente na proa. Pois aquela astúcia singular mostrada às vezes pelo cachalote, quando, imergindo a cabeça numa direção, se move rapidamente na direção oposta, enquanto se esconde sob a superfície – este subterfúgio não podia estar sendo posto em prática naquele momento; pois não havia motivo para supor que o peixe avistado por Tashtego pudesse ter se assustado ou mesmo tomado conhecimento de nossa proximidade. Um dos homens escolhidos para guardar o navio – isto é, um dos que não desciam com os botes, já tinha tomado o lugar do Índio no topo do mastro principal. Os marinheiros dos mastros de proa e de mezena desceram; as bobinas dos cabos foram colocadas em seus lugares; os guindastes foram colocados para fora; a verga principal foi recolhida, e os três botes balançavam sobre o mar como três cestos de salicórnia sobre altos penhascos. Fora da amurada, a tripulação ansiosa, com uma das mãos firmada no balaústre, colocava o pé na amurada. Assim se colocam numa longa fila os marinheiros dos navios de guerra prontos para abordar o navio inimigo.
     Mas neste momento crítico ouviu-se um grito que afastou todos os olhares da baleia. Com um sobressalto, todos se viraram para o soturno Ahab, que estava cercado por cinco fantasmas sombrios, que pareciam recém-criados pelo ar.

Continua na página 211...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
Moby Dick: 46 - Conjecturas / Moby Dick: 47 - O Esteireiro
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{a} Depois que isso foi escrito, a afirmação foi felizmente confirmada por uma circular oficial, emitida pelo Tenente Maury, do Observatório Nacional, de Washington, em 16 de abril de 1851. Segundo a circular, parece que justamente tal carta está em via de ser terminada; e trechos dela são apresentados na circular. “Esta carta divide o oceano em distritos de cinco graus de latitude por cinco graus de longitude; perpendicularmente, através de cada uma dessas regiões há doze colunas para cada um dos doze meses; e horizontalmente, através de cada região há três linhas; uma para mostrar o número dos dias que foram gastos por mês em cada região, e as outras duas para mostrar o número de dias durante os quais baleias, cachalotes ou francas foram vistos.” [N. A.]
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

A Pátria!





A PÁTRIA NÃO SE VENDE!

A TRIA SE DEFENDE!



O Sol é para todos: 2ª Parte (23a)

Harper Lee

O Sol é para todos

Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB

SEGUNDA PARTE

23

— Só gostaria que Bob Ewell não mascasse tabaco — foi o único comentário de Atticus. 

     Segundo a srta. Stephanie Crawford, Atticus estava saindo do correio quando o sr. Ewell se aproximou, xingou-o, cuspiu nele e ameaçou matá-lo. A srta. Stephanie (que na segunda vez que me contou isso estava lá e havia presenciado tudo, pois estava voltando da Jitney Jungle) disse que Atticus nem piscou, apenas pegou o lenço, limpou o rosto e ficou parado ouvindo o sr. Ewell xingá-lo de nomes que ela não ia repetir por nada neste mundo. O sr. Ewell era veterano de uma guerra obscura; isso, somado ao fato de Atticus não reagir à agressão, fez com que perguntasse: “Orgulhoso demais para brigar, seu defensor de pretos maldito?” A srta. Stephanie disse que Atticus respondeu: “Não, apenas velho demais” — enfiou as mãos nos bolsos e saiu andando. Ela disse também que era preciso admitir que às vezes Atticus Finch podia ser bem seco.
     Jem e eu não achamos graça nenhuma. 

— Afinal de contas, ele já foi o tiro mais certeiro do condado. Ele podia… — lembrei. — Você sabe que ele não anda armado, Scout. Nem tem uma arma… — disse Jem. 
— Você sabe que ele não estava armado nem naquela noite na cadeia. Ele me disse que ter uma arma é um convite para levar um tiro. 
— Mas agora é diferente. Podemos pedir para ele pegar uma arma emprestada — sugeri.

     Pedimos e ele disse: 

— Isso é bobagem.

     Dill achava que um apelo ao bom senso de Atticus podia funcionar: afinal de contas, se o sr. Ewell o matasse, nós morreríamos de fome, além de sermos criados apenas por tia Alexandra, e sabíamos muito bem que a primeira coisa que ela ia fazer, antes mesmo de Atticus ser enterrado, seria demitir Calpúrnia. Jem disse que podia funcionar se eu chorasse e tivesse um ataque, já que eu era criança e menina. Mas isso também não funcionou.
     Mas, quando percebeu que estávamos andando cabisbaixos pela vizinhança, não comíamos nem demonstrávamos muito interesse pelas nossas atividades habituais, Atticus descobriu que estávamos apavorados. Uma noite, tentou agradar Jem levando para ele uma revista nova de futebol, e quando o viu folhear a revista e deixá-la de lado, perguntou: 

— Qual é o problema, filho?

     Jem foi direto ao ponto: 

— É o sr. Ewell. 
— O que houve? 
— Nada. Estamos com medo do que pode acontecer com você e achamos que você precisa fazer alguma coisa.

     Atticus deu um sorriso estranho. 

— Fazer o quê? Pedir ao juiz uma medida cautelar contra ele? 
— Quando alguém diz que vai acabar com você, está falando sério. 
— E ele estava mesmo falando sério quando disse isso — concordou Atticus. — Jem, procure se colocar no lugar de Bob Ewell um instante. No julgamento, eu acabei com o pouco de credibilidade que ele ainda tinha, se é que tinha alguma. O sujeito tinha de revidar de alguma maneira, esse tipo de gente é assim. Então, se o fato de ter cuspido no meu rosto e me ameaçado salvou Mayella Ewell de levar mais uma surra, fico contente. Ele tinha de descontar em alguém, e é melhor que tenha sido em mim do que naquelas crianças na casa dele. Entendeu?

     Jem concordou com a cabeça.
     Tia Alexandra entrou na sala no momento em que Atticus dizia: 

— Não precisamos ter medo de Bob Ewell, ele pôs tudo que queria para fora naquela manhã. 
— Eu não teria tanta certeza disso, Atticus — disse ela. — Aquela gente faz qualquer coisa para se vingar. Você sabe como eles são. 
— O que Ewell poderia fazer comigo, irmã? 
— Alguma coisa furtiva. Pode ter certeza — disse a tia. 
— Ninguém consegue fazer nada furtivo em Maycomb — observou Atticus.

     Depois disso, perdemos o medo. O verão estava acabando e aproveitamos ao máximo. Atticus nos garantiu que nada ia acontecer a Tom Robinson até o Tribunal Superior rever o processo e que ele tinha chance de ser libertado ou, pelo menos, ir a novo julgamento. Ele estava no presídio agrícola de Enfield, a uns cem quilômetros de Maycomb, no condado de Chester. Perguntei se a mulher e os filhos dele podiam visitá-lo, e Atticus disse que não. 

— Se o recurso for negado — perguntei, certa noite —, o que vai acontecer com ele? 
— Ele vai para a cadeira elétrica, a menos que o governador comute a pena. Mas ainda não é hora de se preocupar, Scout. Temos muita chance.

     Jem estava esparramado no sofá lendo Popular Mechanics e tirou os olhos da revista. 

— Não está certo. Mesmo que fosse culpado, ele não matou ninguém. Não tirou a vida de ninguém. 
— Você sabe que o estupro é considerado crime capital no Alabama — lembrou Atticus. 
— Eu sei, mas os jurados não precisavam condená-lo a morte… podiam dar uma sentença de vinte anos. 
— É verdade — concordou Atticus. — Mas Tom é negro, Jem. Aqui nesta parte do mundo, nenhum júri vai dizer “consideramos você culpado, mas não muito”, diante de uma acusação como essa. Ou era absolvição direta, ou nada.

     Jem balançava a cabeça, incrédulo. 

— Eu sei que não é justo, mas não consigo descobrir o que está errado… Talvez o estupro não devesse ser crime capital…

     Atticus deixou o jornal cair no chão ao lado da cadeira. Disse que nunca tinha discordado da lei do estupro, mas tinha grandes reservas quando o Estado pedia e o júri concedia uma pena capital com base em provas meramente circunstanciais. Olhou para mim, viu que eu estava ouvindo e explicou: 

— Ou seja, antes de um homem ser condenado à morte por assassinato, deveria haver uma ou duas testemunhas oculares. Alguém que pudesse afirmar: “Sim, eu estava lá e vi quando ele puxou o gatilho.” 
— Mas muita gente foi enforcada com base em provas circunstanciais — lembrou Jem. 
— Eu sei, e muitos decerto mereceram, mas, se não há testemunhas oculares, fica sempre uma dúvida, às vezes apenas a sombra de uma dúvida. A lei fala em “dúvida razoável”, mas eu acho que o condenado tem direito à sombra de uma dúvida. Há sempre a possibilidade, por mais improvável que seja, de ele ser inocente. 
— Então fica tudo nas mãos do júri. Devíamos acabar com os júris — Jem estava irredutível.

     Atticus fez um esforço para ficar sério, não conseguiu. 

— Você está sendo muito duro conosco, filho. Acho que talvez haja uma solução melhor. Mudar a lei. Mudá-la de maneira que só o juiz possa fixar a pena no caso de crimes com pena capital. 
— Então, vá a Montgomery e mude a lei. 
— Você não faz ideia de como é difícil fazer isso. Não vou viver para ver essa lei ser mudada, e se você viver o bastante para isso, já estará velho.

     Jem não se satisfez. 

— Não, senhor, eles têm que acabar com os júris. Para começar, Tom era inocente e o júri decidiu que não era. — Se você fizesse parte daquele júri, filho, e mais onze rapazes como você, Tom seria um homem livre — disse Atticus. — Até agora, nada na sua vida interferiu no seu processo de raciocínio. O júri de Tom era composto de doze homens que são sensatos no dia a dia, mas você viu algo se interpondo entre eles e a razão. Você viu a mesma coisa naquela noite na frente da cadeia. Quando os homens foram embora, não foram por serem sensatos, mas porque nós estávamos lá. Existem coisas no nosso mundo que fazem os homens perderem a cabeça; não conseguiriam ser justos nem se quisessem. Nos nossos tribunais, quando se trata da palavra de um branco contra a de um negro, o branco sempre vence. É horrível, mas é a vida. 
— Continua não sendo justo — disse Jem, irredutível, batendo o punho no joelho. — Não se pode condenar um homem com provas como aquelas… não mesmo. 
Você não poderia, mas eles puderam e condenaram. Quanto mais viver, mais coisas assim você vai ver. O tribunal é o único lugar onde todas as pessoas deveriam ser tratadas como iguais, não importa de qual cor do arco-íris elas sejam, mas as pessoas sempre acabam levando seus ressentimentos para o banco do júri. À medida que for crescendo, vai ver brancos enganando negros todos os dias, mas vou lhe dizer uma coisa e quero que nunca esqueça: sempre que um branco faz esse tipo de coisa com um negro, não importa quem ele seja, quanto dinheiro tenha ou quão distinta seja a família da qual ele vem, esse homem branco não vale nada.

     Atticus falava tão calmamente que a última palavra doeu no nosso ouvido. Olhei para cima e a expressão no rosto dele era de veemência. 

— Para mim não há nada mais repugnante do que um branco de quinta categoria tirar vantagem da ignorância de um negro. Podem ter certeza: essa dívida está aumentando e um dia vamos pagar essa conta. Espero que até lá vocês já tenham morrido.

     Jem coçava a cabeça. De repente, ficou intrigado e arregalou os olhos. 

— Atticus, por que gente como nós e a srta. Maudie nunca participa de júris? Nunca tem um morador de Maycomb, os jurados são sempre do interior — disse Jem.

     Atticus recostou-se na cadeira de balanço. Por alguma razão, ele parecia satisfeito com Jem. 

— Eu estava pensando quando você ia perguntar isso. Por várias razões: primeiro, a srta. Maudie não pode participar de um júri por ser mulher. 
— Quer dizer que as mulheres no Alabama não podem...? — Fiquei indignada. 
— Isso mesmo. Deve ser para proteger nossas delicadas senhoras de ouvir casos sórdidos como o de Tom. Além disso, duvido que conseguíssemos levar um julgamento até o fim. As senhoras não iam parar de fazer perguntas — disse Atticus, rindo.

     Jem e eu rimos. A srta. Maudie num júri seria incrível. Pensei na velha sra. Dubose na cadeira de rodas dizendo ao juiz: “Pare de bater esse martelo, John Taylor, quero perguntar uma coisa a esse homem.” Vai ver que nossos antepassados tinham razão.
     Atticus estava dizendo: 

— Com pessoas como nós… esse é o preço que pagamos. Em geral, temos o júri que merecemos. Em primeiro lugar, os respeitáveis cidadãos de Maycomb não estão interessados. Em segundo, eles têm medo. Além disso, eles… 
— Medo do quê? — perguntou Jem. 
— Bem… e se, por exemplo, o sr. Link Deas tivesse que estipular qual seria a indenização que a srta. Rachel teria de pagar à srta. Maudie por atropelá-la? Link não ia querer perder nenhuma das duas freguesas na loja dele, não é? Por isso, diz ao juiz Taylor que não pode participar do júri porque não tem quem fique na loja enquanto está no tribunal. O juiz Taylor o dispensa. Às vezes, a contragosto. 
— O que faria o sr. Link pensar que perderia as freguesas? — perguntei.

     Jem disse: 

— A srta. Rachel deixaria de ser cliente, a srta. Maudie, não. Mas o voto dos jurados é secreto, Atticus.

     Papai riu. 

— Você ainda tem muito caminho pela frente, filho. O voto dos jurados deveria ser secreto. Mas fazer parte de um júri obriga um homem a decidir e se pronunciar sobre algo. E os homens não gostam de fazer isso. Às vezes, é desagradável. 
— Os júri de Tom decidiu bem rápido — resmungou Jem.

     Atticus pôs a mão no bolso do relógio. 

— Não, não decidiu — ele disse, mais para si mesmo do que para nós. — Foi isso que me fez pensar que, bem, esse poderia ser o começo de alguma coisa. O júri demorou algumas horas. Talvez o veredicto fosse inevitável, mas, em geral, eles levam apenas alguns minutos. Dessa vez… — ele se interrompeu e olhou para nós — vocês vão gostar de saber que um dos jurados custou para ser convencido… a princípio, ele queria a absolvição total. 
— Quem? — Jem estava pasmo.

     Os olhos de Atticus brilharam. 

— Não posso dizer, mas vou dar uma pista. É um dos velhos conhecidos de vocês de Old Sarum… 
— É um Cunningham? — gritou Jem. — Um dos… Não reconheci nenhum deles… Você está brincando. — E olhou de soslaio para Atticus. 
— Um parente deles. Não o recusei porque tive um palpite. Só um palpite. Eu poderia tê-lo recusado, mas não fiz isso. 
— Puxa vida! — exclamou Jem, admirado. — Uma hora eles querem matá-lo, na outra querem soltá-lo… Nunca vou entender aquela gente.

     Atticus disse que bastava conhecê-los. E que os Cunningham nunca tinham tirado nem aceitado nada de ninguém desde que vieram para o Novo Mundo. E disse também que quem conquistava o respeito deles podia contar com eles para qualquer coisa. Atticus contou que teve a impressão, não mais que uma suspeita, que, depois daquela noite em que foram à cadeia, os Cunningham passaram a ter um respeito considerável pelos Finch. Além disso, acrescentou, seria preciso um raio e mais um Cunningham para fazer um deles mudar de ideia. 

— Se tivéssemos mais um Cunningham entre os jurados, o júri chegaria a um impasse.

continua página 159...
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Leia também:

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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

Espumas Flutuantes - O LAÇO DE FITA

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

O LAÇO DE FITA 
 

     Não sabes, criança? ‘Stou louco de amores... 
 Prendi meus afetos, formosa Pepita. 
 Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?! 
 Não rias, prendi-me 
 Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas, 
 Nos negros cabelos da moça bonita, 
 Fingindo a serpente qu’enlaça a folhagem, 
 Formoso enroscava-se 
 O laço de fita. 

Meu ser, que voava nas luzes da festa, 
 Qual pássaro bravo, que os ares agita, 
 Eu vi de repente cativo, submisso 
 Rolar prisioneiro 
 Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia 
 Debalde minh’alma se embate, se irrita... 
 O braço que rompe cadeias de ferro, 
 Não quebra teus elos, 
 Ó laço de fita!

Meu Deus! As falenas têm asas de opala, 
 Os astros se libram na plaga infinita. 
 Os anjos repousam nas penas brilhantes... 
 Mas tu... tens por asas 
 Um laço de fita. 

Há pouco voavas na célere valsa 
 Na valsa que anseia, que estua e palpita. 
 Por que é que tremeste? Não eram meus lábios... 
 Beijava-te apenas... 
 Teu laço de fita. 

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos 
 N’alcova onde a vela ciosa... crepita, 
 Talvez da cadeia libertes as tranças 
 Mas eu... fico preso 
No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale 
 Abrirem-me a cova... formosa Pepita! 
 Ao menos arranca meus louros da fronte, 
 E dá-me por c’roa... 
 Teu laço de fita. 

São Paulo, julho de 1868 


AHASVERUS E O GÊNIO
Ao poeta e amigo J. Felizardo Júnior 

Sabes quem foi Ahasverus?... — o precito, 
 O mísero judeu, que tinha escrito 
 Na fronte o selo atroz! 
 Eterno viajor de eterna senda... 
 Espantado a fugir de tenda em tenda 
 Fugindo embalde à vingadora voz! 

Misérrimo! Correu o mundo inteiro, 
 E no mundo tão grande... o forasteiro 
 Não teve onde... pousar. 
 Co'a mão vazia — viu a terra cheia. 
 O deserto negou-lhe — o grão de areia, 
 A gota d’água — rejeitou-lhe o mar. 

D’Ásia as florestas — lhe negaram sombra 
 A savana sem fim — negou-lhe alfombra 
 O chão negou-lhe o pó!... 
 Tabas, serralhos, tendas e solares... 
 Ninguém lhe abriu a porta de seus lares 
 E o triste seguiu só.

Viu povos de mil climas, viu mil raças, 
 E não pôde entre tantas populaças 
 Beijar uma só mão... 
 Desde a virgem do norte à de Sevilhas 
 Desde a inglesa à crioula das Antilhas 
 Não teve um coração!... 

E caminhou!... E as tribos se afastavam 
 E as mulheres tremendo murmuravam 
 Com respeito e pavor. 
 Ai! Fazia tremer do vale à serra... 
 Ele que só pedia sobre a terra 
 — Silêncio, paz e amor! —  

No entanto à noite, se o Hebreu passava, 
 Um murmúrio de inveja se elevava, 
 Desde a flor da campina ao colibri. 
 “Ele não morre” a multidão dizia... 
 E o precito consigo respondia: 
 — “Ai! mas nunca vivi!” — 

O gênio é como Ahasverus... solitário 
 A marchar, a marchar no itinerário 
 Sem termo de existir. 
 Invejado! A invejar os invejosos. 
 Vendo a sombra dos álamos frondosos... 
 E sempre a caminhar... sempre a seguir... 

Pede u’a mão de amigo — dão-lhe palmas: 
 Pede um beijo de amor — e as outras almas 
 Fogem pasmas de si. 
 E o mísero de glória em glória corre... 
 Mas quando a terra diz: — “Ele não morre” 
 Responde o desgraçado: “Eu não vivi!...” 
 São Paulo, outubro de 1868

continua pag 8...
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Prólogo / Hebreia / Laço de fita / 
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871, Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

Chanson Parisiense Francesa

Uma Jornada Romântica 


Melodias Doces e Emoções Sob o Céu de Paris







Chansons d’Amour Vintage 


Ensaio sobre o entendimento humano: Seção X - Segunda Parte(b)

Ensaio sobre o entendimento humano

David Hume


Seção X

DOS MILAGRES[1*]
PARTE DOIS

     Certamente, não houve jamais maior número de milagres atribuídos a uma só pessoa do que aqueles, diz-se, que foram realizados recentemente na França sobre o túmulo do abade Paris, o célebre jansenista, cuja santidade serviu para ludibriar por muito tempo o povo. A cura das doenças, a restituição da audição aos surdos e da visão aos cegos, eram, no consenso geral, os efeitos habituais deste santo sepulcro. Mas, o que é mais extraordinário, numerosos milagres foram verificados imediatamente no mesmo lugar, ante juízes de integridade indiscutível, certificados por testemunhas de boa reputação e distinção, numa época instruída e no local de maior destaque atualmente no mundo. Além disso, um relatório dos milagres foi publicado e difundido por toda parte; e os jesuítas, embora formassem uma elite instruída, apoiados pelo magistrado cível e inimigos inveterados das opiniões em favor das quais, diz se, os milagres tinham sido realizados, jamais foram capazes de refutá-los ou desmascará-los claramente. [8] Onde encontraremos tal número de circunstâncias concordantes na corroboração de um fato? O que podemos opor a semelhante nuvem de testemunhas senão a absoluta impossibilidade da natureza miraculosa dos eventos que relatam? E isto, certamente, aos olhos de todas as pessoas razoáveis, por si só será considerado como uma refutação suficiente.
     Será correto concluir, verificando-se que o testemunho humano em certos casos é dotado de força e autoridade extremas, ao relatar, por exemplo, a batalha de Filipos ou de Farsália, que toda classe de testemunho, portanto, deve estar dotada em todos os casos de igual força e autoridade? Suponde que uma das facções, a de César e a de Pompeu, houvesse reivindicado a vitória destas batalhas e que os historiadores de cada partido houvessem atribuído uniformemente as vantagens para o seu próprio lado; como poderiam os homens, a esta distância, decidir entre eles? O contraste é igualmente grande entre os milagres narrados por Heródoto ou Plutarco, e os transmitidos por Mariana, Beda ou qualquer outro historiador monástico.
     O sábio concede fé bastante académica a toda narrativa favorável à paixão de quem a relata, quer exaltando seu país, sua família ou a si mesmo, quer, de outro modo, conformando-a com suas inclinações e tendências naturais. Há maior tentação do que assemelhar-se a um missionário, a um profeta, ou a um embaixador do céu? Quem não afrontaria múltiplos perigos e dificuldades para alcançar um caráter tão sublime? Ou se, auxiliada pela vaidade ou por uma ardente imaginação, uma pessoa começa a converter-se a si mesma e penetra seriamente no mundo ilusório, quem terá escrúpulo de utilizar-se de piedosas fraudes, a fim de sustentar causa tão sagrada e meritória?
     A menor centelha aqui pode transformar-se na maior chama, já que os materiais estão sempre preparados para se inflamar. Avidum genus auricularum[9] a população alucinada recebe sofregamente, sem exame, tudo o que adula a superstição e promove o maravilhoso.
     Quantas histórias desta natureza têm sido, em todas as épocas, descobertas e desmascaradas em seu nascedouro? Quantas mais têm sido famosas por algum tempo e depois tombado no esquecimento e na indiferença? Portanto, quando tais relatos se divulgam, a solução do fenômeno é óbvia: julgamos em conformidade com a observação e a experiência e os explicamos mediante os princípios conhecidos e naturais da credulidade e da ilusão. Contudo, antes de recorrermos a uma solução tão natural, suporemos uma miraculosa violação das mais bem fundamentadas leis naturais?
     Não tenho necessidade de mencionar os obstáculos para desmascarar a falsidade de uma história privada ou mesmo pública, na localidade em que, diz-se, ocorreu; e os obstáculos são ainda maiores quando o teatro do evento se acha distanciado de nós, mesmo em se tratando de uma pequena distância. Mesmo no tribunal de justiça, com toda a autoridade, a exatidão e o julgamento que se podem empregar, os juízes encontram-se frequentemente embaraçados para distinguir entre a verdade e a falsidade nas questões mais recentes. Mas se, para resolver o impasse, se confia nos métodos comuns da altercação, debates e boatos, jamais se chega a qualquer conclusão, especialmente se paixões humanas interferem numa ou noutra parte.
     Nos primeiros momentos das novas religiões, os sábios e os doutos geralmente estimam que o assunto não é muito importante para merecer sua atenção ou sua consideração. E quando posteriormente querem de boa vontade revelar a farsa, a fim de esclarecer a multidão iludida, o momento oportuno já passou, e os documentos e as testemunhas que poderiam esclarecer o assunto perderam-se para sempre.
     Não resta nenhum outro meio para desmascarar a fraude, senão aqueles que podem ser tirados do próprio testemunho dos narradores; e estes, embora sejam sempre suficientes às pessoas judiciosas e instruídas, são geralmente muito sutis para que o homem comum os compreenda.
     Em resumo, portanto, parece que jamais qualquer espécie de testemunho a favor de um milagre tem chegado a ser provável, e muitos menos uma prova; e que, mesmo supondo que chegasse a ser uma prova, seria oposta, por outra prova, derivada da própria natureza do fato que tentaria estabelecer. Porquanto apenas a experiência confere autoridade ao testemunho humano, e é ainda a experiência que nos assegura a respeito das leis da natureza. Portanto, quando estas duas espécies de experiência s são contrárias, resta-nos o recurso de subtrair uma da outra e aceitar uma opinião, tendendo para um dos dois lados, com a segurança originada do resto. Mas, de acordo com o princípio aqui explicado, este resto, concernente a todas as religiões populares, equivale a uma completa anulação; e, portanto, podemos estabelecer como princípio que nenhum testemunho humano é dotado de suficiente força para provar um milagre e tomá-lo a base justa de um determinado sistema religioso.
     Peço que se considerem as ressalvas que faço aqui, quando afirmo que nenhum milagre jamais pode ser provado, de modo que seja o fundamento de um sistema religioso. Assevero, por outro lado, que seria possível haver milagres ou violações do curso ordinário da natureza, levando-nos a admitir uma prova derivada do testemunho humano; embora, talvez, seja impossível deparar com semelhante milagre em todos os anais da história. Isto posto, suponde que a totalidade dos autores, abrangendo todos os idiomas, concordassem que a partir de primeiro de janeiro de 1600 houve total obscuridade sobre toda a Terra durante oito dias; que a transmissão deste evento extraordinário seja ainda forte e viva entre os homens; que todos os viajantes regressando de países estrangeiros nos tragam relatos da mesma tradição sem a menor variação ou contradição; desta maneira, é evidente que os filósofos contemporâneos deveriam, em vez de duvidar, considerar o fato como evidente e buscar as causas que poderiam engendrá-lo. Em verdade, a decadência, a corrupção e a dissolução da natureza são eventos supostos prováveis por tantas analogias que qualquer fenômeno tendendo para esta última catástrofe se incorpora ao testemunho humano, especialmente quando este testemunho se acha difundido com bastante uniformidade.
     Supondo agora que todos os historiadores que estudam a Inglaterra concordassem com que em primeiro de janeiro de 1600 a rainha Elizabeth morreu; que ela foi vista antes e depois de sua morte pelos médicos e por toda a Corte, aliás, como é de praxe entre as pessoas de sua estirpe; que o Parlamento reconheceu e proclamou seu sucessor; e que, depois de ter estado sepultada durante um mês, apareceu de novo, voltou a ocupar o trono e governou a Inglaterra por mais três anos. Devo confessar: ficaria surpreso pela confluência de tantas circunstâncias bizarras, mas não teria a menor inclinação para crer num acontecimento tão miraculoso. Não duvidaria de sua pretensa morte e de outras circunstâncias públicas que a seguiram; afirmaria apenas que esta morte foi simulada, que não foi e nem possivelmente poderia ser real. Em vão vós me alegareis a dificuldade e quase impossibilidade de ludibriar a opinião mundial em assunto de tal importância; a sabedoria e o sólido julgamento desta célebre rainha; a escassa ou nenhuma vantagem que se poderia obter de um artifício tão pobre; todos estes fatores poderiam surpreender-me; todavia, replicarei: a velhacaria e a leviandade humanas são fenômenos tão normais, que prefiro acreditar que os eventos mais extraordinários tenham aí sua origem, a admitir uma violação tão marcante das leis da natureza.
     Mas, se este milagre fosse atribuído a um novo sistema religioso, é preciso considerar que os homens, em todas as épocas, têm sido ludibriados por ridículas histórias deste gênero, que precisamente esta circunstância seria uma prova completa da impostura, e suficiente para levar todos os homens de bom senso, não apenas a rejeitar o fato, mas mesmo a rejeitá-lo sem mais exame. Embora o Ser ao qual o milagre é atribuído seja, neste caso, Onipotente, o fato não se torna, por esta razão, nem um pouco mais provável, visto que nos é impossível apreender os atributos e os atos de um tal Ser, senão através da experiência que temos de suas produções no curso ordinário da natureza. Isto nos subjuga às observações passadas e nos obriga a comparar os exemplos de violação da verdade graças aos testemunhos humanos com os da violação das leis da natureza devido aos milagres, a fim de julgarmos qual das duas é mais plausível e mais provável. Como as violações da verdade são mais comuns nos testemunhos concernentes a qualquer outra espécie de fatos, isto deve diminuir bastante a autoridade do primeiro tipo de testemunho e deve nos levar a formular a resolução geral de não lhes prestar nenhuma atenção, mesmo quando protegidos pelos mais plausíveis pretextos.
Lord Bacon parece ter admitido os mesmos princípios de raciocínio. “Devemos”, diz ele, “fazer urna coleção ou história particular de todos os monstros, de todos os nascimentos e produções prodigiosas; e, numa palavra, de todas as coisas novas, raras e extraordinárias da natureza. Mas isto deve ser feito com o mais severo exame, para não nos afastarmos da verdade. Sobretudo, deve ser considerado suspeito todo relato que depende em algum grau da religião, como os prodígios de Tito Lívio; e, do mesmo modo, toda coisa que se encontra nos escritores de magia natural, de alquimia, ou em outros autores, que parecem ter tido um apetite insaciável para a falsidade e a fábula”. [10]
     O método de raciocínio apresentado aqui me agrada bastante, pois, penso eu, poderá servir para confundir os amigos perigosos ou os inimigos disfarçados da religião cristã, que se têm proposto defendê-la mediante os princípios da razão humana. Nossa santíssima religião funda-se na fé, e não na razão; e um método seguro para fazê-la perigar consiste em submetê-la a uma prova para a qual não está de maneira nenhuma preparada para resistir. Visando a esclarecer esta atitude, examinaremos os milagres descritos nas Escrituras, restringindo-nos — devido à extensão do assunto — aos contidos no Pentateuco; e os examinaremos, de acordo com os princípios destes pretensos cristãos, não como a palavra ou o testemunho de Deus mesmo, porém como realizações humanas de um simples escritor ou historia dor. Frisemos de início que o livro nos foi legado por um povo bárbaro e ignorante, escrito numa época em que era ainda mais bárbaro e, segundo toda probabilidade, redigido posteriormente aos fatos relatados, desprovidos assim de qualquer testemunho concordante; assemelhando, ademais, aos relatos fabulosos que cada nação faz de sua origem. As páginas deste livro estão repletas de prodígios e milagres. Descreve-nos o mundo e a natureza humana completamente diferentes do atual; nossa queda deste mundo; a extensão da vida humana atingindo quase mil anos; a destruição do mundo pelo dilúvio; a escolha arbitrária de um povo eleito pelo céu que é, aliás, o mesmo povo descrito pelos seus compatriotas; sua libertação da escravidão mediante os mais surpreendentes e imagináveis prodígios. Desejaria que alguém colocasse sua mão sobre o coração e, depois de séria consideração, declarasse se julga que a falsidade de tal livro, apoiada por semelhante testemunho, seria mais extraordinária e mais miraculosa que todos os milagres que relata; porque isto é, sem dúvida, necessário para que seja aceito, de acordo com as regras da probabilidade estabelecidas anteriormente.
     O que temos tido sobre milagres pode ser aplicado, sem qualquer modificação, às profecias; e, na verdade, todas as profecias são verdadeiros milagres e é apenas como tais que se pode admiti-las como provas de uma revelação. Se não estivesse acima da capacidade da natureza humana predizer eventos futuros, seria absurdo usar qualquer profecia como argumento em favor de uma missão ou autoridade divina procedentes do céu. De modo que, finalmente, podemos concluir que a religião cristã não apenas foi acompanhada de milagres em seus primeiros momentos, mas mesmo em nossos dias nenhum homem racional pode nela acreditar sem um milagre. A mera razão é suficiente para convencer-nos da sua veracidade; quem quer que, movido pela fé, lhe dá o seu assentimento, está consciente de um milagre contínuo em sua própria pessoa, que subverte todos os princípios de seu entendimento e o determina a crer nas coisas mais opostas ao costume e à experiência. [11]

Ensaio sobre o entendimento humano: Seção X(2b)
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Notas:
[8] Este livro foi escrito por M. Montgeron, conselheiro ou juiz no Parlamento de Paris, homem de importância e reputação, que também foi um mártir de sua causa e que está — diz-se — em alguma prisão devido ao seu livro. Há outra obra em três volumes, denominada Recueil des miracles de l’abbé Pâris, que revela vários destes milagres e é precedida por um prefácio muito bem escrito. Sem dúvida, em todo o livro se faz uma ridícula comparação entre os milagres de nosso Salvador e os do abade, na qual se afirma que a evidência dos últimos é igual à dos primeiros: como se o testemunho dos homens pudesse ser comparado com o do próprio Deus, que guiou a pena destes inspirados escritores. Em verdade, se estes escritores fossem apenas considerados como testemunhos humanos, o autor francês é bastante moderado em sua comparação, visto que poderia pretender, com alguma aparente razão, que os milagres jansenistas superam os outros em evidência e autoridade. Os relatos que seguem foram tirados de documentos autênticos, que aparecem no livro já mencionado.
     Muitos dos milagres do abade Paris foram comprovados imediatamente por testemunho ante a oficialidade ou corte episcopal de Paris, sob o controle do cardeal Noailles, cuja reputação de integridade e talento jamais foi posta em dúvida. Inclusive por seus inimigos.
     Seu sucessor no arcebispado era inimigo dos jansenistas e por esta razão foi promovido para a diocese pela Corte. Apesar de vinte e dois reitores ou curés de Paris, com grande seriedade, terem-no pressionado para examinar estes milagres que, afirmavam, são conhecidos de todos e indiscutivelmente certos, o cardeal sabiamente se absteve de examiná-los.
     O partido molinista havia tentado desacreditar estes milagres num caso: o de Mademoiselie Le Franc. Mas, além de que seus procedimentos foram, em vários pontos, os mais irregulares, especialmente por citar apenas alguns dos testemunhos jansenistas, aos quais subornaram — além disso, digo, imediatamente se viram pressionados por uma nuvem de novos testemunhos (mais ou menos cento e vinte), em sua maioria pessoas de crédito e destaque de Paris que juraram pela procedência do milagre. E isto foi acompanhado por uma solenidade e séria apelação ao Parlamento. Mas o Parlamento foi proibido de imiscuir-se neste assunto. Finalmente se observou que, quando os homens estão inflamados pelo ardor e entusiasmo, não há grau de testemunho humano tão poderoso que não possa ser obtido a favor do maior absurdo. E aqueles que fossem tão ingênuos que examinassem o assunto por este meio e buscassem defeitos particulares no testemunho, podem estar quase certos que serão enganados. Devia ser uma pobre impostura, certamente, que não podia prevalecer nesta disputa.
     Todos os que estiveram na França naquela época ouviram falar na reputação de M. Heraut, o Lieutenant de Police, cujo zelo, perspicácia, atividade e elevada inteligência ocasionaram grande admiração. Este magistrado, que pela natureza de seu posto é quase absoluto, estava investido de plenos poderes a fim de suprimir ou desacreditar esses milagres e frequentemente detinha e examinava os testemunhos e as pessoas que tinham relação com os milagres, mas jamais pôde chegar a uma conclusão satisfatória contra eles.
     No episódio de Mademoiseile Thibaut, enviou o célebre De Sylva para que a examinasse. Sua informação é multo curiosa. O médico declara que é impossível que ela tenha estado tão enferma como afirmam os testemunhos, porque, se tivesse estado, não teria podido melhorar tão depressa e gozar de tão perfeita saúde. Como homem de bom senso, raciocinou segundo as causas naturais, mas o partido que lhe opunha afirmou que tudo era miraculoso e que o informe do médico era a melhor prova disso.
     Os molinistas se encontravam num triste dilema. Não se atreviam a afirmar a completa insuficiência do testemunho humano como prova dos milagres. E, de outro lado, eram obrigados a reconhecer que esses milagres tinham sido realizados pelo Diabo e por feiticeiras, embora lhes dissessem que os judeus da Antiguidade já haviam recorrido a este recurso..
     Nenhum jansenista teve dificuldade para explicar a cessação dos milagres quando o cemitério foi fechado por decreto real, O que produzia este s efeitos extraordinários era o mero contato com o túmulo [do abade] e, como ninguém podia aproximar-se do túmulo, não se podiam esperar mais tais efeitos. É verdade que Deus poderia derrubar os muros a qualquer momento, mas Ele é dono de suas próprias graças e obras e não nos cabe explicá-las. Ele não derrubou os muros de todas as cidades, como os de Jericó, ao som das trombetas, nem abriu a prisão dos apóstolos, como fez com a de São Paulo?
     Nada mais nem menos que o duque de Chatillon, duque e par da França, da mais ilustre família e estirpe, dá o testemunho de uma milagrosa cura realizada num de seus servos, que havia vivido vários anos em sua casa com uma palpável e visível enfermidade.
     Concluirei observando que nenhum clero é mais célebre pelo rigor da vida e dos costumes que o clero secular da França, particularmente os reitores ou curés de Paris que testemunham estas imposturas.
     A instrução, o engenho e probidade destes cavalheiros e a autoridade das freiras de Port-Royal os fizeram famosos em toda a Europa. Sem dúvida, todos testemunham o milagre que se produziu na sobrinha do célebre Pascal, cujo talento e vida devota são bem conhecidos. O famoso Racine relata este milagre em sua celebrada História de Port-Royal e o defende com todas as provas fornecidas por uma multidão de freiras, sacerdotes, médicos e homens do mundo, todos de indubitável reputação. Alguns homens de letras, especialmente o bispo de Tournay, creram que este milagre era tão seguro que o usaram para refutar os ateus e os livre-pensadores. A rainha da França, que tinha grandes prevenções contra Port-Royal, enviou seu próprio médico para examinar o milagre, e o médico voltou completamente convertido. Em uma palavra, a cura sobrenatural era tão incontestável que, durante algum tempo, salvou o mosteiro da ruína a que estava ameaçado pelos jesuítas. Se houvesse sido um logro, seguramente teria sido descoberto por tão sagazes e poderosos adversários, e deveriam apressar a ruína de quem o forjou. Nossos teólogos, que podem construir um castelo maravilhoso com materiais tão desprezíveis, que prodigioso edifício poderiam levantar com estas e muitas outras circunstâncias que não mencionei! Quantas vezes teriam ressoado em nossos ouvidos os nomes de Pascal, de Racine, de Arnaud e de Nicole? Mas, se são sábios, seria melhor que adotassem o milagre como mil vezes mais valioso que todo o resto da coleção. Além disso, pode servir-lhes muito mais para sua finalidade. Porque esse milagre se realizou realmente pelo contato de um autêntico espinho sagrado dos sagrados espinhos que compunham a sagrada coroa, a qual etc. (Hume).
[9] Lucrécio (Hume).
[10Novum Organum, Iib. II, aph. 29 (Hume).
[11] A ironia que perpassa nesta passagem tem levantado as mais violentas críticas contra Hume. Em grande parte é citada para exemplificar a maneira zombeteira e irresponsável com que ele discute os mais sagrados tópicos. Smith procura, no entanto, justificar a atitude de Hume, interpretando o texto citado em sua perspectiva histórica. Mostra que, na época da Ilustração, as igrejas Reformadas entendiam que a fé, ou mesmo um estudo compreensivo das Escrituras, era impossível sem o auxilio da graça, conferida pela Divindade, e que a fé operava nos homens de modo puramente miraculoso. Foi deste modelo que Hume decalcou, segundo Smith, a sua conclusão. (N. K. Smith, em sua definitiva edição dos Dialogues Concerning Natural Religion, de Hume, Liberal Arts, 1947, p. 47.) [N. do T.]