Elias Canetti
AS ENTRANHAS DO PODER
Sobre a psicologia do Comer
Tudo o que se come é objeto do poder. O faminto preenche um
espaço vazio dentro de si próprio. O desconforto que tal vazio interior
lhe provoca, ele o supera enchendo-se de comida. Quanto mais cheio
estiver, tanto melhor se sentirá. Pesado e satisfeitíssimo jaz aquele que é
capaz de comer mais: o comedor-mor. Existem agrupamentos humanos
que têm num tal comedor-mor o seu chefe. O apetite sempre saciado
deste parece-lhes uma garantia de que eles próprios jamais passarão
fome por muito tempo Confiam em sua barriga cheia, como se ele a
tivesse enchido por eles todos. Manifesta-se claramente aí a relação
entre digestão e poder.
Em outras formas de dominação, o respeito à constituição física do
comedor-mor recua um pouco para um segundo plano. Não é mais
necessário que ele seja um barril mais gordo que os outros. Mas ele
come e bebe na companhia dos escolhidos que o rodeiam, e o que
manda servir-lhes pertence a ele. Se já não é ele próprio o que mais come,
pelo menos suas provisões têm de ser as mais abundantes; dele é a
maioria do gado e do trigo. Se quisesse, poderia ser sempre o comedor
mor. Mas transfere o conforto da repleção para sua corte, para todos os
que se sentam com ele à mesa, reservando-se tão somente o direito de
ser o primeiro a servir-se de tudo. A gura do rei que come muito
jamais desapareceu por completo. Sempre houve um rei a representá-la,
para o deleite de seus súditos. Mesmo grupos dominantes inteiros
entregaram-se com prazer à gula; proverbial é o que se conta dos
romanos a esse respeito. Todo poder familiar solidamente estabelecido
exibe-se dessa forma, sendo posteriormente imitado e sobrepujado
pelos recém-chegados ao poder.
Em algumas sociedades, a possibilidade do desperdício, e a força para
tanto, intensificou-se até o desenvolvimento de orgias formais,
ritualmente estabelecidas, de destruição. A mais famosa tornou-se o
potlatch dos índios do Noroeste americano, consistindo em grandes e
festivas reuniões de toda a comunidade, as quais culminam em
competições de destruição entre os chefes. Cada um deles gaba-se do
tanto de sua propriedade que está disposto a destruir; o vencedor é
aquele que efetivamente manda destruir mais, desfrutando assim da
glória suprema perante todos. O comer mais pressupõe já, em si, a
destruição da vida animal pertencente àquele que assim procede. A
impressão que se tem é a de que, no potlatch, essa destruição transferiu
se para a porção não comestível da propriedade. Desse modo, o chefe
pode jactar-se muito mais do que se tivesse de comer tudo, poupando-se
ainda dos desconfortos físicos.
Talvez seja proveitoso lançar aqui um olhar sobre os comensais de um
modo geral, independentemente da posição hierárquica que ocupam.
Um certo respeito dos que comem juntos, uns em relação aos outros, é
inequívoco. Ele se expressa já no fato de estarem partilhando sua
refeição. A comida que têm diante de si em tigelas comuns pertence ao
conjunto de todos. Dela, todos consomem um tanto, e veem que os
demais se serviram também. As pessoas dão-se ao trabalho de serem
justas e não favorecer quem quer que seja. O vínculo existente entre os
comensais reveste-se do máximo vigor quando desfrutam todos de um
único animal, de um corpo que conheceram ainda vivo e uno, ou de um
único pedaço de pão. Somente isso, contudo, não explica a ligeira
solenidade de sua postura: seu respeito significa também que não
comerão um ao outro. É certo que, entre homens que vivem juntos num
grupo, sempre existe a garantia de que tal não ocorrerá; mas é apenas
quando estão comendo que essa garantia se exprime de forma
convincente. As pessoas sentam-se juntas, desnudam seus dentes, comem
e nem mesmo nesse momento crítico alguém é tomado de apetite pelo
outro. Cada um se respeita a si próprio por essa razão, e respeita
também aos outros pela contenção semelhante à sua.
O homem contribui para a família com sua porção de alimento, e a
mulher prepara-lhe a comida. O fato de ele comer regularmente da
comida que ela prepara constitui o vínculo mais forte entre eles. A vida
em família atinge sua máxima intimidade quando seus membros comem
juntos com frequência. A imagem que se forma diante dos olhos quando
se pensa na família é a dos pais e filhos reunidos em torno de uma mesa.
Tudo parece constituir uma preparação para esse momento; quanto
maior a frequência e a regularidade com que ele se repete, tanto mais
sentir-se-ão como uma família aqueles que comem juntos. Na prática, a
acolhida nessa mesa equivale à acolhida no seio da família.
Talvez seja esta a melhor oportunidade para dizer algo a respeito
daquela que constitui o cerne, o coração dessa instituição: a mãe. Mãe é
aquela que dá de comer do seu próprio corpo. De início, ela alimenta a
criança dentro de si; depois, oferece-lhe o seu leite. Sob forma mais
branda, essa tendência estende-se por muitos anos; seus pensamentos, na
medida em que ela é mãe, giram em torno da alimentação de que
necessita a criança a crescer. Não é necessário que essa criança seja seu
próprio filho; pode-se confiar a ela uma criança estranha, ou ela própria
pode adotar um filho. Sua paixão é dar de comer; cuidar para que a
criança coma, para que nesta a comida transforme-se em algo. Sua meta
imutável é o crescimento e o aumento do peso da criança. Sua conduta
parece altruísta, e o é de fato, se se contempla a mãe como uma unidade
à parte, como um ser humano em si. Na realidade, porém, seu estômago
duplicou-se, e ela mantém o controle sobre ambos esses estômagos. De
início, interessa-se mais pelo novo estômago e pelo novo corpo, ainda
não desenvolvido, do que pelo seu próprio; exterioriza-se aí,
simplesmente, o que ocorreu ao longo da gravidez. Também ao caso da
mãe aplica-se a concepção defendida aqui da digestão como um
fenômeno central do poder; a mãe, porém, distribui esse fenômeno por
mais de um corpo, e o fato de o novo corpo, cuja alimentação ela provê,
estar apartado do dela torna tal fenômeno, como um todo, mais nítido
e mais consciente. O poder da mãe sobre a criança, nos primeiros
estágios desta, é absoluto; e o é não apenas porque sua vida depende
dela, mas porque a própria mãe sente a mais vigorosa necessidade de
exercer incessantemente esse poder. A concentração de seus anseios de
dominação sobre um ser tão pequeno dá a ela um sentimento de
superpoder dificilmente superável por qualquer outro relacionamento
normal entre seres humanos.
A continuidade dessa dominação da qual a mãe se ocupa noite e dia, o
gigantesco número de detalhes que a compõem, confere-lhe uma
perfeição e plenitude que nenhum outro tipo de dominação possui. A
mãe não se limita à transmissão de ordens, as quais, nesse estágio inicial,
nem sequer poderiam ser entendidas. Sua dominação significa que se
pode manter cativa uma criatura, ainda que, nesse caso, realmente para
o seu próprio bem; significa que — sem compreender o que está
fazendo — ela pode passar adiante aquilo que lhe foi imposto décadas
antes e que ela reteve em si como um aguilhão indestrutível; e significa
também que o fazer crescer é possível, algo que um governante somente
logra produzir mediante as promoções artificiais que confere. Para a
mãe, a criança reúne em si as propriedades das plantas e dos animais.
Ela permite à mãe gozar concomitantemente de direitos de soberania
que, de um modo geral, o homem somente exerce em separado: sobre as
plantas, provocando-lhes o crescimento que deseja para elas; e sobre os
animais que mantém cativos e cujos movimentos controla. Nas mãos da
mãe, a criança cresce como o trigo, e, qual um animal doméstico,
executa apenas os movimentos que ela lhe permite. A criança retira da
mãe algo da antiga carga de ordens que pesa sobre toda criatura
civilizada e, além do mais, torna-se um ser humano, um ser novo e
pleno, uma contribuição pela qual o grupo a que a mãe pertence ter
lhe-á para sempre uma dívida de gratidão. Não há forma mais intensa
de poder. Que habitualmente não se veja o papel da mãe dessa maneira
é algo que se explica por duas razões: todo homem carrega consigo na
lembrança sobretudo a época do esmorecimento desse poder; e a todos
afiguram-se mais importantes os evidentes mas não tão essenciais
direitos de soberania do pai. Dura e rija a família se torna quando veda a outros sua comida;
aqueles dos quais se tem de cuidar oferecem um pretexto natural para a
exclusão dos demais. A vacuidade desse pretexto faz-se visível nas
famílias que, embora não possuindo filhos, não tomam a menor
iniciativa no sentido de repartir sua comida com os outros: a família
composta de duas pessoas é a formação mais desprezível que a
humanidade já produziu. Mesmo onde há crianças, porém, sente-se
frequentemente o quanto elas servem como mera propaganda do
egoísmo mais deslavado. As pessoas economizam “por seus filhos”,
deixando que outros passem fome. Na realidade, porém, o que ocorre é
que, assim procedendo, ficam com tudo para si pela vida toda.
O homem moderno gosta de comer em restaurantes, isolado em sua
mesa e na companhia de seu pequeno grupo, para o qual, então, paga a
comida. Como os demais presentes fazem a mesma coisa, apraz-lhe,
durante a refeição, a ilusão de que todas as pessoas têm o que comer.
Mesmo naturezas mais sensíveis não necessitam dessa ilusão por um
tempo maior; uma vez saciadas, podem já, tranquilamente, tropeçar nos
famintos.
Aquele que come aumenta de peso; sente-se mais pesado. Há aí uma
fanfarronice: ele não pode mais crescer, mas engordar pode, ali mesmo,
ante os olhos dos outros. Também por isso aprecia comer na companhia
deles; é como uma competição para ver quem é capaz de encher-se
mais. O conforto da repleção, quando já não se é capaz de comer mais, é
um ponto extremo que se gosta de alcançar. Originalmente, ninguém se
envergonhava disso: uma grande presa tinha de ser comida logo; comia
se tanto quanto possível, carregando-se as provisões no próprio corpo.
Quem come sozinho renuncia ao prestígio que tal procedimento lhe
confere junto aos outros. O desnudamento dos dentes somente para a
comida, quando não há mais ninguém presente, não impressiona
ninguém. Na companhia de outras pessoas, pode-se ver cada uma delas
abrindo a boca, e, enquanto se trabalha com os próprios dentes,
divisam-se os dos outros. É desprezível não ter nenhum; há algo de
ascético em não se exibir os que se têm. A oportunidade natural para
mostrá-los apresenta-se na refeição conjunta. A educação moderna
demanda que se coma com a boca fechada. Reduz-se, pois, a um
mínimo precisamente a ameaça velada que havia no ato ingênuo de
abrir a boca. Mas não nos tornamos tão mais inofensivos assim. Come
se com garfo e faca — dois instrumentos que poderiam facilmente servir
ao ataque. Cada um tem seu garfo e sua faca diante de si e, sob
determinadas circunstâncias, carrega-os consigo. Contudo, a pequena
porção de comida que se corta e se enfia na boca o mais contidamente
possível chama-se, também nas línguas modernas, bocado ou mordida.
A risada foi já reprovada como algo vulgar porque, quando se ri, abre
se bem a boca, desnudando os dentes. É certo que, em sua origem, o
riso encerra a alegria pela presa ou comida que parece segura. Ao cair, o
homem lembra o animal ao qual caçava e abatia. Todo tombo que
provoca o riso lembra o desamparo daquele que tombou; se se quisesse,
poder-se-ia tratá-lo como uma presa. Não se haveria de rir se,
avançando-se nessa sequência de acontecimentos, efetivamente se
incorporasse aquele que caiu. Ri-se em vez de comê-lo. É a comida que
nos escapa que estimula o riso — esse súbito sentimento de
superioridade, como já afirmou Hobbes. Deixou de acrescentar, porém,
que tal sentimento só se intensifica até o riso quando a consequência
dessa superioridade não se verifica. A concepção do riso de Hobbes fica
a meio caminho da verdade; ele não avançou até sua origem
verdadeiramente “animal”, talvez porque os animais não riem. Mas os
animais tampouco renunciam a qualquer comida que esteja ao seu
alcance, se de fato a desejam. Somente o homem aprendeu a substituir o
processo completo da incorporação por um ato simbólico.
Aparentemente, os movimentos que têm no diafragma seu ponto de
partida e são característicos do riso substituem resumidamente uma
série de movimentos internos do corpo que servem à deglutição.
Dentre os animais, apenas a hiena emite um som que realmente se
aproxima do nosso riso. Pode-se produzi-lo artificialmente dando-se a
uma hiena cativa algo para comer, mas recolhendo-o velozmente, antes
que ela tenha tempo de apanhá-lo. Não é supérfluo lembrar que,
quando em liberdade, a hiena alimenta-se de cadáveres; pode-se
imaginar com que frequência muito do que ela desejou lhe foi, diante
dos olhos, arrebatado por outros.
continua página 331...
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Título original Masse und Macht
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Leia também:
Massa e Poder - As Entranhas do Poder: Sobre a Psicologia do Comer
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."