segunda-feira, 30 de março de 2026

Curta: O psicólogo

Andrés Barreto



Se me for dado fazer um pedido... quero lembrar tudo!






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Tras la pielO psicólogo /      

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - Excelência do Infortúnio / VI — O substituto

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Quinto — Excelência do Infortúnio

     VI — O substituto

             Quis o acaso que o regimento de que Teodulo era tenente, viesse destacado para Paris, o que deu ocasião a uma segunda ideia da tia Gillenormand.
     Da primeira vez lembrara-lhe mandar espiar Mário por Teodulo; da segunda resolveu fazer suceder Teodulo a Mário.
     No caso em que o avô viesse a sentir uma vaga necessidade de um rosto jovem em casa, pois às ruínas são às vezes agradáveis estes raios de aurora, era necessário tratar de arranjar outro Mário. Seja, disse ela consigo, é uma simples errata, como as que se veem nos livros. Em vez de Mário, lê-se Teodulo.
     Um sobrinho é quase um neto; na falta de um advogado, serve mesmo um lanceiro.
     Um dia de manhã, indo Gillenormand a principiar a ler a Quotidiana, ou coisa semelhante, entrou sua filha e disse-lhe com o tom de voz mais meigo que pôde, pois tratava-se do seu favorito: 

— Meu pai, Teodulo vem hoje apresentar-lhe os seus respeitos. 
— Quem é Teodulo? 
— É o seu sobrinho. 
— Ah! — exclamou o avô.

     E continuou a ler, sem se tornar a lembrar de tal sobrinho, que era para aí um Teodulo qualquer, e não tardou a agastar-se seriamente, o que lhe sucedia todas as vezes que lia. É que «a folha» que ele tinha na mão, realista já se vê anunciava para o outro dia sem reserva nenhuma um dos acontecimentos quotidianos do Paris de então: «Que os estudantes da Faculdade de Direito e de Medicina deviam reunir-se na praça do Panteon ao meio-dia para deliberarem. Tratava-se de uma das questões da ocasião: da artilharia da guarda nacional, e de um conflito entre a guarda nacional e «a milícia cívica», por causa de umas peças assestadas no pátio do Louvre». Os estudantes, pois, deviam deliberar a esse respeito. Não era preciso tanto para exaltar o senhor Gillenormand.
     Lembrou-se de Mário, que era estudante, e que provavelmente iria como os outros «deliberar ao meio-dia na praça do Panteon».
     Quando ele estava nesta cogitação dolorosa, entrou Teodulo, vestido à paisana, discretamente introduzido pela filha de Gillenormand.
     O lanceiro fizera o seguinte cálculo: «O druida não tem tudo em rendas vitalícias. Por isso vale a pena disfarçar-me em paisano de tempos a tempos». 

— Aqui tem seu sobrinho Teodulo — disse a filha de Gillenormand a seu pai em voz alta.

     E acrescentava em voz baixa para o tenente: 

— Aprova tudo.

     E retirou-se.
     O tenente, pouco acostumado a entrevistas tão veneráveis, balbuciou com alguma timidez: 

— Bons dias, meu tio — e fez uma cortesia mista, composta do esboço involuntário e maquinal da continência militar, terminada por uma saudação burguesa. 
— Ah, és tu! Está bem, senta-te — disse o avô.

     Dito isto, esqueceu-se completamente do lanceiro.
     Teodulo sentou-se e Gillenormand levantou-se e pôs-se a passear de um lado para o outro, com as mãos nos bolsos, falando em voz alta e apertando nos dedos hirtos os dois relógios de algibeira que costumava trazer consigo. 

— Corja de fedelhos! Convocarem-se para a praça do Panteon! Só com uma tranca! Criançalhos que ainda têm os cueiros atrás da porta! Se lhes apertassem o nariz ainda deitavam leite! E vão deliberar amanhã ao meio-dia! A que tempos chegamos! A que tempos chegamos! Está bem de ver que caminhamos para o abismo! Foi para onde nos conduziram os descamisados! Artilharia cívica! Deliberar sobre a artilharia cívica! Irem fazer de meninos bonitos por causa das surriadas da guarda nacional! E com quem eles vão misturar-se! Vejam até onde pode levar o jacobinismo! Aposto tudo quanto quiserem, um milhão contra um real, que não hão de encontrar lá outra gente senão homens que já estiveram presos ou nas galés. Republicanos e forçados é tudo gente da mesma estofa, e por isso se dão perfeitamente. Carnot dizia: «Para onde queres que eu vá, traidor?» E Fouché respondia: «Para onde quiseres, pedaço de asno!» Aí está o que são os republicanos. 
— É exato — disse Teodulo.

     Gillenormand voltou a cabeça um quase nada, viu Teodulo e continuou: 

— Quando me lembro que aquele tratante teve a pouca vergonha de se fazer carbonário! Para que saíste de minha casa? Para te ires fazer republicano. Puh! Primeiro, o povo não quer lá saber da tua república, não quer nada com ela, porque tem juízo, porque sabe que sempre tem havido reis, porque sabe que o povo, afinal de contas, é sempre o povo, e por isso está-se nas tintas para a tua república; ouves, pacóvio! Há maior descaramento? Namoriscar-se do Père Duchêne, fazer fosquinhas à guilhotina, cantar romanzas e tocar guitarra debaixo das janelas de 93, dá mesmo vontade de cuspir na cara a estes rapazelhos, por serem tão pedaços de asnos! E então são-no todos. Não escapa um só. Basta respirar o ar que passa na rua para se tornarem insensatos. O século dezenove é um veneno. Qualquer velhaco que deixe crescer a barba de bode julga-se um tratante de marca e manda tratar das bombas os parentes velhos. É republicano, é romântico. Que vem a ser isto de romântico? Fazem favor de me dizer o que isto é? Todas as tolices possíveis. Há um ano andava tudo à Hernâni. Sabem-me dizer o que vem cá a ser Hernâni! Antíteses! Coisas abomináveis que nem em francês se acham escritas. E ainda por cima ralham de mandarem pôr peças no pátio do Louvre! É para ver como são os salteadores do tempo de agora. 
— Tem razão, meu tio — disse Teodulo.

     Gillenormand continuou: 

— Peças no pátio do Museu! Para quê? Que me queres tu, canhão? Querem metralhar o Apoio de Belveder? Que têm que ver os cartuxos com a Vénus de Medíeis? Oh! Estes rapazes de agora são tudo uma corja de patifes! E esse borra-botas desse Benjamin Constant, que eles trazem nas palminhas? E os que não são celerados são uns patetas. Fazem tudo o que podem para se tornarem feios; andam mal trajados, têm medo das mulheres, quando se juntam com elas têm uns modos de pelintras que fazem estourar de riso as raparigas; palavra de honra que se lhes podia chamar os pobres envergonhados do amor! São disformes e estúpidos. Repetem os equívocos de Tiercelin e de Potier, trazem casacas-sacos, coletes de lacaio, camisas de pano grosseiro, calças de pano grosso, botas grossas, e a ramagem parece-se com a plumagem. Usam de uma algaraviada tão baixa como quem a emprega. E todos estes criançalhos têm opiniões políticas! Para bem, havia de ser severamente punido ter opiniões políticas. Fabricam sistemas, refazem a sociedade, destroem a monarquia, derrubam todas as leis, põem o celeiro no lugar da adega e o meu porteiro no lugar do rei, remexem a Europa toda, reedificam o mundo e têm por grande fortuna ver as pernas às lavadeiras ao subirem para os carros! Ah, Mário, grande maroto! Ir vociferar para o meio de uma praça pública! Discutir, debater, tomar medidas! Eles chamam a isto tomar medidas! Santo nome de Deus! A desordem cada vez se agourenta mais e se torna mais tola! Já vi o caos, agora vejo mas é um esterquilínio. Estudantes a deliberarem sobre a guarda nacional! Isto nem entre os Ogibbewas ou os Cadodachos! Os selvagens que andam completamente nus, com a cabeça enfeitada como um volante de vaqueta e de clava na mão, são menos brutos do que estes bacharéis. Uma súcia de pobretões sem eira nem beira... de onde saem os sábios! E deliberam e raciocinam! Está o mundo a acabar! Somos chegados com toda a certeza ao fim deste miserável globo terráqueo. Faltava um soluço final; dá-o a França. Deliberai, meus tratantes! Isto há de dar-se enquanto eles forem ler os jornais para debaixo das arcadas do Odeon. Custa-lhes tal leitura um soldo, e nela sacrificam o seu bom-senso, a sua inteligência e o seu espírito. Todos os jornais trazem a peste consigo, todos, sem mesmo exceptuar a Bandeira Branca! No fundo, Martainville era um jacobino. Ah, justo céu! Podes-te gabar de que fizeste afligir bem teu avô! 
— Isso é evidente — atalhou Teodulo.

     E, aproveitando a ocasião em que Gillenormand tomava a respiração, o lanceiro acrescentou magistralmente: 

— Para bem, não havia de haver mais jornal nenhum senão o Monitor, e um único livro, o Anuário Militar.

     Gillenormand prosseguiu: 

— É como com o tal seu Sieyèa, um regicida que vem a acabar senador! Pois é onde eles vão bater. Andam para aí a atordoar-se com o tu, cidadão isto, cidadão aquilo, para afinal virem a fazer-se tratar por senhor conde. Senhor conde do que eu agora não digo! O filósofo Sieyès! Bem fiz eu ao menos, que nunca dei mais importância às filosofias de todos estes filósofos do que aos óculos do palhaço de Tivoli! Um dia vi passar os senadores pelo cais Malaquias, de mantos de veludo roxo, semeados de abelhas, e com chapéu à Henrique IV. Metiam medo. Pareciam os macacos da corte do tigre. Cidadãos, declaro-vos que o vosso progresso é uma loucura, a vossa humanidade um devaneio, a vossa revolução um crime, a vossa república um monstro, que a vossa nova França donzela sai do lupanar e assevero-vos a todos, quem quer que sejais, publicistas ou economistas, legistas ou mais conhecedores de liberdade, igualdade e fraternidade do que o gume da guilhotina. É o que lhes digo, meus ricos! 

— Lá isso é assim! — exclamou o tenente. — Não há nada mais verdadeiro.

     Gillenormand interrompeu um gesto que ia a fazer, voltou-se, fitou os olhos nos do lanceiro e disse a Teodulo: 

— És um parvo.

continua na página 525...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Quinto - VI — O substituto
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

De quanta terra um homem precisa? - IV

Liev Tolstói

IV

     Logo que chegaram à nova residência, pediu Pahóm que o admitissem na comuna de uma grande aldeia; tratou com os dirigentes e deram-lhe os documentos necessários; depois, concederam-lhe cinco talhões de terra para ele e para o filho, isto é, trezentos e setenta e cinco hectares em campos diferentes, além do direito aos pastos comuns. Pahóm construiu as casas precisas e comprou gado; só de terra da comuna tinha ele três vezes mais do que dantes e toda ela era excelente para trigo; estava incomparavelmente melhor, com terra de cultivo e de pastagem, e podia ter as cabeças de gado que quisesse. 
     A princípio, enquanto durou o trabalho de se estabelecer, tudo satisfazia Pahóm, mas, quando se habituou, começou a pensar que ainda não tinha bastante terra; no primeiro ano, semeou trigo na terra da comuna e obteve boa colheita; queria continuar a semear trigo, mas a terra não chegava e a que já tinha não servia porque, naquela região, era costume semear o trigo em terra virgem, durante um ou dois anos, depois deixar o campo de pouso, até se cobrir de novo de ervas de prado. Havia muitos que desejavam estas terras e não havia bastantes para todos, o que provocava conflitos; os mais ricos queriam-nas para semear trigo e os que eram pobres para as alugar a negociantes, de modo a terem dinheiro para pagar os impostos. Pahóm queria semear mais trigo e tomou uma terra de renda por um ano; semeou muito, teve boa colheita, mas a terra era longe da aldeia e o trigo tinha de ir de carro umas três léguas. Certo tempo depois, notou Pahóm que alguns camponeses viviam em herdades não comunais e enriqueciam; pensou consigo: “Se eu pudesse comprar terra livre e arranjar casa, então é que as coisas me haviam de correr bem”. 
     A questão de comprar terra livre preocupava-o sempre; mas continuou durante três anos a arrendar campos e a cultivar trigo; os anos foram bons, as colheitas excelentes, ele começou a pôr dinheiro de lado. Podia ter continuado a viver assim, mas sentia-se cansado de ter que arrendar terras de outros todos os anos e ainda por cima disputando-as; mal aparecia uma terra boa todos os camponeses se precipitavam para a tomarem, de modo que, ou se andava ligeiro, ou se ficava sem nada. Ao terceiro ano, aconteceu que ele e um negociante arrendaram juntos a uns camponeses uma pastagem: já a tinham amanhado quando se levantou qualquer disputa, os camponeses foram para o tribunal e todo o trabalho se perdeu. “Se fosse terra minha — pensou Pahóm — já eu era independente e não me via metido nestas maçadas”. 
     E começou a procurar terra de compra; encontrou um camponês que tinha adquirido uns quinhentos hectares, mas que, por causa de dificuldades, os queria vender barato; Pahóm regateou com o homem e assentaram por fim num preço de 1 500 rublos, metade a pronto, a outra metade a pagar depois. Tinham arrumado o negócio, quando se deteve em casa de Pahóm um comerciante que queria forragem para os cavalos; tomou chá com Pahóm e travou-se conversa; o comerciante disse que voltava da terra dos Baquires, que era muito longe, e onde tinha comprado cinco mil hectares de terra por cem rublos. Pahóm fez lhe mais perguntas e o negociante respondeu:

“Basta fazer-nos amigos dos chefes. Dei-lhes coisa de cem rublos de vestidos de seda e de tapetes, além duma caixa de chá, e mandei distribuir vinho por quem o quisesse; e arranjei a terra a cinco kopeks (a centésima parte da rublo) o hectares”.

     E, mostrando a Pahóm as escrituras, acrescentou:

“A terra é perto dum rio e toda ela virgem.” Pahóm continuou a interrogá-lo e o homem respondeu:
“Há por lá mais terra do que aquela que se poderia percorrer num ano de marcha; e toda ela pertence aos Baquires. São como cordeirinhos e arranja-se a terra que se quer, quase de graça”. 
“Bem — pensou Pahóm — para que hei de eu, com os meus mil rublos, arranjar para os quinhentos hectares e aguentar ainda por cima com uma dívida? Na outra terra compro dez vezes mais, e pelo mesmo dinheiro”.  

Continua na pág 30...
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De quanta terra um homem precisa? - IV / 
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Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói (em russo: Лев Николаевич Толстой.  Nasceu em 9 de setembro de 1828 – Morreu em 20 de novembro de 1910.
Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.

domingo, 29 de março de 2026

Cinema: Ensaio sobre a cegueira

Saramago e Fernando Meirelles


Muitos chutes no estômago...

"Ensaio sobre a Cegueira" é um filme de 2008 dirigido por Fernando Meirelles, baseado no romance homônimo de José Saramago, que retrata uma epidemia de cegueira que atinge uma cidade moderna, levando ao colapso social.

O filme começa com um motorista que, de repente, perde a visão enquanto dirige, dando início a uma epidemia de "cegueira branca", onde as pessoas afetadas veem apenas uma superfície leitosa. À medida que a doença se espalha, o governo coloca os afetados em quarentena em uma instalação vigiada. A única pessoa que mantém a visão é a esposa de um médico, que finge estar cega para acompanhar o marido em seu confinamento. O filme explora a luta pela sobrevivência e a degradação da sociedade em meio ao caos.





Direção;
Fernando Meirelles

Roteiristas:
José Saramago
Don McKellar

Elenco:
Yûsuke Iseya / Primeiro Cego
Julianne Moore / Esposa do Médico
Jason Bermingham / Motorista nº 1
Eduardo Semerjian / Pedestre preocupado nº 1
Danny Glover / Homem com tapa-olho preto
Don McKellar / Ladrão
Ciça Meirelles / Motorista nº 2
Antônio Fragoso / Pedestre preocupado nº 2
Lilian Blanc / Pedestre preocupado nº 3
Douglas Silva / Observador nº 1
Daniel Zettel / Observador nº 2
Yoshino Kimura / Primeira esposa de homem cego
Joe Pingue / Motorista de táxi
Susan Coyne / Recepcionista
Fabiana Gugli / Mãe do menino
Mitchell Nye / Menino
Alice Braga / Mulher com óculos escuros
Mark Ruffalo / Médico
Joe Cobden / Policial
Mpho Koaho / Assistente de Farmácia
Sari Friedland / Mulher no bar
Gael García Bernal / Barman / Rei do Distrito Três
Tom Melissis / Engenheiro
Tracy Wright / Esposa do Ladrão
Amanda Hiebert / Empregada doméstica
Jorge Molina / Guarda de segurança do hotel
Patrick Garrow / Gerente assistente de hotel
Gerry Mendicino / Doutor de Cabelos Prateados
Matt Gordon / Assistente do Ministro
Sandra Oh / Ministro da Saúde
Anthero Montenegro / Policial nº 1
Fernando Patau / Policial nº 2
Otávio Martins / Capitão da Polícia
João Velho / Atendente de ambulância
Marvin Karon / Locutor
Joseph Motiki / Guarda
Johnny Goltz / Soldado
Robert Bidaman / Conselheiro do Ministro
Niv Fichman / Cientista israelense
Oscar Hsu / Oftalmologista de renome
Martha Burns / Mulher com insônia
Scott Anderson / Preso Submisso
Michael Mahonen / Sargento
Joris Jarsky / Hooligan
Billy Otis / Bandido
Maury Chaykin / Contadora
Lin Lyn Lue / Emissário da Ala Dois
Toni Ellwand / Mulher da Ala Um
Mariah Inger / Mulher da Ala Um
Nadia Litz / Mulher da Ala Um
Isai Rivera Blas / Homem da Ala Três
Rick Demas / Homem da Ala Três
Kelly Fiddick / Homem da Ala Três
Matt Fitzgerald / Homem da Ala Três
Mike G. Yohannes / Homem da Ala Três
Norman Owen / Homem da Ala Três
Jackie Brown / Mulher da Ala Dois
Victoria Fodor / Mulher da Ala Dois
Agi Gallus / Mulher da Ala Dois
Bathsheba Garnett / Mulher da Ala Dois
Alice Poon / Mulher da Ala Dois
Plínio Soares / Catador Enorme
Rodrigo Arijon / Catador
Mel Ciocolato / Catador
Heraldo Firmino / Catador
Carol Hubner / Catador
Fernando Macário / Catador
Eduardo Parisi / Catador
Rodrigo Pessin / Catador
Domingos Antonio / Pregador
Barnie / Cão das Lágrimas
Jim / Cão das Lágrimas
Bia Borinn / Mulher cega (não creditado)
Katherine East / Interno (não creditado)
John Fort / Homem Cego (não creditado)
Adriana Guerra / Mulher (não creditado)
Paulino Nunes / Locutor de rádio português (narração) (não creditado)


Ensaio sobre a cegueira (José Saramago)
 - Tatiana Feltrin e sua resenha do livro de Saramago





Roda Viva | José Saramago 
| 13/10/2003





José Saramago após assistir Ensaio Sobre a Cegueira 
(2008)





O Assalto do Trem Pagador / Interlúdio / O Espírito da Colmeia / A Onda / Nouvelle Vague / Ensaio sobre a cegueira /   

Tratado Geral sobre a Fofoca⁴

José Angelo Gaiarsa


     Gaiarsa, José Angelo, 1920 - 2010
     Tratado geral sobre a fofoca : uma análise da desconfiança humana / José Angelo Gaiarsa. - 15. ed. - São Paulo : Ágora, 2015

A MULTIDÃO DE DENTRO
(página 33 até a página 41)

A fim de avaliar todo o poder da fofoca sobre as pessoas, precisamos compreender bem que somos habitados interiormente por uma multidão tão numerosa e heterogênea quanto a que nos cerca por fora.

Falar é natural, ora.
Pensar é natural, ora.
Mas ninguém diz que pensar é falar sozinho - o que é verdade nove vezes em dez.

Quando estou pensando, há muitas opiniões em mim, entrechocando-se.

Mas meu pensamento não é meu de outro jeito: não é fácil pensar exatamente em que quero pensar. Vem-me à mente, com força própria e não raro com muita teimosia, uma porção de coisas que eu preferia não pensar - ou preferia esquecer.

Vejamos os personagens internos. Primeiro os sonhos... Normalmente, esquecemos quase todos os nossos sonhos e quase tudo de cada um deles.

Avancemos mais dois passos na mesma direção, eles também da experiência de todos. Quer chamemos de fantasias, preocupações ou projetos, a verdade é que passamos a maior parte do tempo engendrando situações, cenas e personagens que poderão nos ajudar ou atrapalhar, que são amigos ou inimigos, que nos fazem felizes ou nos deixam apreensivos.

Temos DENTRO DE NÓS tudo que existe FORA DE NÓS - inclusive gente.

Na rua é fácil ver os que estão em uma passarela. Na sala de espera de um cinema, mais fácil ainda. Em uma reunião social, então, só se vê exibição.

Fofoca é falar com outro sobre o que vimos - ou ouvimos - de um terceiro ausente.

Só nossos pensamentos sabem, mais que nós mesmos, de nossos pensamentos!

Diria o existencialista: o medo que temos da fofoca de fora é o medo que sentimos diante de nossas intenções mais profundas - isto é, as mais negadas por nós.


"Ensaio Sobre A Cegueira
A humanidade é cega!




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Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos (c)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos
 
continuando...

          Como alguém consegue salvar-se na guerra, quando todos os que lhe são aparentados pereceram? E como se sente esse único alguém? A esse respeito, informa-nos uma passagem de um mito indígena anotado por Koch-Grünberg junto aos taulipangues, na América do Sul.

Os inimigos vieram e os atacaram. Chegaram à aldeia, que se compunha de cinco casas, e, à noite, incendiaram-na em dois lugares, a m de que, em razão da claridade, os habitantes não pudessem fugir no escuro. Com seus tacapes, mataram muitos deles, no momento mesmo em que pretendiam escapar de suas casas.
     Um homem chamado Maitchaule deitou-se ileso em meio a um amontoado de mortos e, com o intuito de enganar os inimigos, lambuzou o rosto e o corpo de sangue. Acreditando que estavam todos mortos, eles foram embora. Restou somente aquele homem. Ele se foi, banhou-se e caminhou até uma outra casa, não muito distante. Pensou que houvesse gente ali, mas não achou ninguém. Todos haviam fugido. Encontrou apenas bolo de mandioca e carne assada, e comeu. Pôs-se, então, a refletir; deixou a casa e afastou-se. Sentou-se e seguiu pensando. Pensou no pai e na mãe, que haviam sido mortos pelos inimigos, e que agora não tinha mais ninguém no mundo. Então disse: “Vou me deitar ao lado de meus companheiros, que estão mortos!”. E, com muito medo, retornou à aldeia incendiada. Encontrou nela uma grande quantidade de abutres. Maitchaule era um feiticeiro e havia sonhado com uma linda moça. Espantou os abutres e deitou-se ao lado dos companheiros mortos. Lambuzara-se novamente de sangue. A m de poder usá-las a qualquer momento, manteve as mãos junto à cabeça. Os abutres, então, voltaram e puseram-se a disputar os cadáveres. Em seguida, chegou a filha do rei dos abutres. E o que fez, então, a filha do rei? Pousou sobre o peito de Maitchaule e, quando ia bicar-lhe o corpo, ele a agarrou. Os abutres bateram em retirada. Maitchaule disse à filha do rei dos abutres: “Transforma-te numa mulher! Estou tão sozinho aqui, sem ninguém que me ajude”. E levou-a consigo para a casa abandonada. Lá, cuidou dela como de um pássaro domesticado. Disse-lhe: “Agora vou pescar. Quando voltar, quero encontrar-te transformada numa mulher!”.

     Primeiramente, Maitchaule deita-se entre os mortos, para escapar. Faz-se de morto para não ser descoberto. Depois, descobre ser o único que restou, sentindo-se triste e amedrontado. Decide, assim, deitar-se novamente entre os companheiros mortos. De início, talvez entretenha o pensamento de compartilhar de seu destino. Muito seriamente, porém, não o faz, pois sonhou com uma linda moça, e, não vendo nenhum outro ser vivo em torno de si senão abutres, toma um abutre para ser sua mulher. Pode-se acrescentar ainda que, atendendo ao seu desejo, o pássaro de fato se transforma numa mulher.
     É notável o número de tribos — e, aliás, por todo o mundo — oriundas de um casal que é o único a permanecer vivo após uma grande catástrofe. O caso do bem conhecido dilúvio bíblico é atenuado pelo direito que tem Noé a toda a sua família. É-lhe permitido levar consigo na arca toda a sua estirpe, além de um casal de cada espécie de ser vivo. Mas o agraciado com a misericórdia divina é ele próprio; a virtude da sobrevivência — nesse caso, uma virtude religiosa — pertence a ele, e é somente por causa dele que os demais podem entrar na arca. Há exemplos mais crus dessa mesma lenda, narrativas nas quais, à exceção do casal primordial, todos os demais homens perecem. Nem sempre tais narrativas encontram-se vinculadas à ideia de um dilúvio. Frequentemente, é em consequência de epidemias que os homens todos perecem, à exceção de um único, que, vagando em busca de uma mulher, acaba por encontrar uma única, às vezes duas, com as quais se casa, fundando assim uma nova estirpe.
     É parte da força e da glória desse antepassado que, um dia, ele tenha restado como o único homem sobre a terra. Ainda que não se afirme explicitamente, constitui uma espécie de mérito seu o fato de não ter sucumbido junto com os outros. Ao prestígio de que ele desfruta por ser o antepassado de todos quantos vieram depois dele junta-se o respeito pela afortunada força de sua sobrevivência. Enquanto vivia ainda entre muitos dos seus, é possível que não se tenha distinguido de forma tão particular: era um homem como todos os outros. De súbito, porém, está totalmente sozinho. A época de sua peregrinação solitária é descrita em muitos detalhes. O espaço mais amplo ocupa aí sua busca por seres vivos, em lugar dos quais encontra apenas cadáveres por toda parte. A certeza crescente de que, além dele, não há de fato mais ninguém o impregna de desespero. Contudo, uma outra nota soa aí também, inequívoca: a humanidade que com ele recomeça repousa tão somente nele; sem ele, e sem sua coragem de recomeçar sozinho, ela absolutamente não existiria.
     Das narrativas dessa espécie que nos foram transmitidas, uma das mais simples é a da origem dos kutenais. Seu texto é o que se segue.

As pessoas viviam ali e, de repente, veio uma epidemia. Estavam morrendo. Morriam todas. Puseram-se a vagar, levando a notícia umas às outras. Entre a totalidade dos kutenais reinava a doença. Por toda parte era a mesma coisa. Num determinado lugar não encontraram ninguém. Estavam todos mortos. Restara uma única pessoa. Um dia, essa pessoa que restara se curou. Tratava-se de um homem, e ele estava sozinho. Então, pensou: “Vou vagar pelo mundo para ver se encontro alguém em alguma parte. Se não encontrar ninguém, não vou mais querer regressar. Não há ninguém no mundo, e ninguém jamais virá me visitar”. O homem partiu em sua canoa e chegou ao último acampamento dos kutenais. Chegando lá, onde normalmente se viam pessoas à beira do rio, não encontrou ninguém; e, andando pelas redondezas, viu apenas mortos — nenhum sinal de vida em parte alguma. Tornou a partir em sua canoa e, chegando a uma outra localidade, desembarcou, mais uma vez encontrando apenas mortos. Não havia ninguém ali. Tomou, então, o caminho de volta. Alcançou o último povoado onde os kutenais tinham vivido. Entrou no povoado. Nas tendas, havia tão somente cadáveres amontoados. Vagou, pois, sem parar e viu que todos haviam morrido. Chorava ao caminhar. “Sou o único que restou”, disse para si mesmo; “até mesmo os cães estão mortos.” Ao chegar à aldeia mais longínqua, viu pegadas humanas. Havia uma tenda ali. Em seu interior, não havia cadáveres. Mais adiante cava a aldeia. Soube, então, que duas ou três pessoas ainda estavam vivas. Viu pegadas maiores e menores, e não saberia dizer se eram de três pessoas. Mas alguém se salvara. Seguiu adiante em sua canoa e pensou: “Remarei naquela direção. Os que viviam aqui costumavam remar para lá. Se se trata de um homem, talvez ele se tenha mudado para mais adiante”. 
     Assim, sentado em sua canoa, viu mais acima, a uma certa distância, dois ursos pretos comendo pequenas frutas. Pensou: “Vou atirar neles e, se os acertar, eu os como. Porei sua carne para secar e, então, darei uma olhada por aí, para ver se sobrou alguém vivo. Primeiro, ponho a carne para secar; depois, vou procurar as pessoas. Anal, vi pegadas de gente. Talvez sejam homens ou mulheres famintas. Precisam também de algo para comer”. Caminhou rumo aos ursos. Ao aproximar-se, viu que não eram ursos, mas mulheres. Uma era mais velha; a outra, uma moça. Pensou consigo: “Fico contente de ver seres humanos. Tomarei esta mulher por esposa”. Adiantou-se, pois, e pegou a moça, que disse a sua mãe: “Mãe, estou vendo um homem”. A mãe ergueu os olhos e viu que sua filha estava falando a verdade. Viu um homem pegando sua filha. Então, a mulher, a moça e o jovem homem choraram, pois os kutenais haviam morrido todos. Fitando-se uns aos outros, choraram juntos. A mulher disse: “Não leve minha filha. Ela ainda é pequena. Leve a mim. Você será o meu homem. No futuro, quando minha filha crescer, ela será tua mulher. Então você terá filhos”. O jovem casou se com a mulher mais velha. Não tardou muito até que ela lhe dissesse: “Agora minha filha está adulta. Agora ela pode ser tua mulher. É bom que vocês tenham filhos. O ventre dela agora está forte”. O jovem, então, tomou a moça por esposa, e, daí em diante, os kutenais se multiplicaram.

     Uma terceira espécie de catástrofe — o suicídio em massa —, consequência, por vezes, da epidemia e da guerra, produziu também seus sobreviventes. A seguir, apresenta-se aqui uma lenda dos ba-ilas, um povo banto da Rodésia.
     Dois clãs dos ba-ilas, um dos quais denominando-se o das cabras e o outro o dos vespões, encontravam-se em grave disputa. O motivo da discórdia era a qual deles cabia o direito à ocupação do posto de cacique. O clã das cabras, que já desfrutara da primazia, perdera o posto e, em razão do orgulho ferido, seus membros decidiram afogar-se todos juntos no lago. Homens, mulheres e crianças confeccionaram uma corda bastante comprida. Reuniram-se, então, à beira do lago, ataram todos, um por um, a corda ao pescoço e mergulharam juntos na água. Um homem oriundo de um terceiro clã, o dos leões, desposara uma mulher do clã das cabras. Tentou, pois, impedi-la de suicidar-se e, não conseguindo, decidiu morrer junto com ela. Coincidentemente, haviam sido ambos os últimos a atarem-se à corda. Foram, assim, arrastados juntamente com os outros e estavam para se afogar quando, subitamente, o homem sentiu pena e cortou a corda, libertando-se a si próprio e a sua mulher. Tentando livrar-se dele ela gritou: “Me solta! Me solta!”. Ele, porém, não cedeu, trazendo-a de volta para a terra. Por essa razão, até hoje a gente do clã dos leões diz àqueles do clã das cabras: “Nós salvamos vocês da extinção. Nós!”.
     Por fim, cumpre ainda considerar aqui um emprego consciente dos sobreviventes proveniente de tempos históricos e muito bem atestado. Numa luta de aniquilação travada por duas tribos indígenas da América do Sul, um único representante do lado dos derrotados é mantido com vida pelos inimigos e enviado de volta para sua gente. Deveria contar lhes o que vira e retirar-lhes toda a coragem de prosseguir lutando. Ouçamos, nas palavras de Humboldt, o relato acerca desse mensageiro do terror:

Após o ano de 1720, a longa resistência que, reunidos sob o comando de um líder valente, os cabres haviam oposto aos caraíbas arruinara os primeiros. Haviam derrotado o inimigo na foz do rio; uma porção de caraíbas foi morta em fuga, entre as corredeiras e uma ilha. Os prisioneiros foram devorados; mas, com aquela refinada astúcia e crueldade que é própria dos povos das Américas do Sul e do Norte, deixaram um único caraíba com vida o qual, afim de testemunhar o bárbaro acontecimento, foi obrigado a subir numa árvore para, imediatamente depois, dar conhecimento aos derrotados do que vira. Contudo, o êxtase vitorioso do chefe dos cabres foi de curta duração. Os caraíbas retornaram em massas tamanhas que dos cabres antropófagos restaram apenas uns míseros resquícios.

     Esse único sobrevivente, deixado escarnecedoramente com vida, vê, de cima de uma árvore, sua gente ser devorada. Todos os guerreiros juntamente com os quais ele partira para a batalha tombaram em combate ou foram parar no estômago dos inimigos. Na condição de sobrevivente compulsório, tendo diante dos olhos as imagens do terror, ele é enviado de volta a sua gente. O sentido de sua mensagem, conforme a concebem os inimigos, seria: “Somos tão poderosos que restou um único de vocês. Não ousem lutar conosco novamente!”. Contudo, a força do que viu é tão grande em seu interior, sua unicidade compulsória é tão impressionante que ele, contrariamente ao esperado, incita sua gente à vingança. Os caraíbas acorrem em massas provindas de toda parte e dão para sempre um fim nos cabres.
     Essa história, que não é a única em seu gênero, mostra a clareza com que os povos primitivos veem o sobrevivente. Têm plena consciência da singularidade de sua situação. Contam com essa singularidade e procuram empregá-la para seus objetivos particulares. Para ambos os lados, junto aos inimigos e aos amigos, o caraíba que esteve em cima da árvore representou seu papel corretamente. Refletindo-se corajosamente sobre essa sua dupla função, pode-se aprender uma infinidade de coisas.

continua página 397...
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Leia também:

Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos (c) 
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

Edgar Allan Poe - Contos: O Escaravelho de Ouro(b)

Edgar Allan Poe - Contos


O Escaravelho de Ouro
Título original: The Gold-Bug 
Publicado em 1842  

continuando...

      Havia no conteúdo desta carta qualquer coisa que me causava uma grande inquietação. O estilo diferia absolutamente do habitual de Legrand. Com que diabo sonharia? Que novo capricho se apoderara do seu cérebro excitado? Que assunto « tão importante» poderia ter a expor-me? As palavras de Júpiter não pressagiavam nada de bom. Eu temia que a contínua intranquilidade tivesse desarranjado a razão ao meu amigo. Sem hesitar, preparei-me, pois, para acompanhar o negro.
     Ao chegar ao cais, reparei numa foice e em três pás novas que estavam no fundo do barco no qual íamos embarcar. 

— O que é que significa tudo isto, Júpiter? 
— Isso é uma grande foice, massa, e pás. 
— Bem vejo, mas o que é que estão a fazer aqui? 
Massa Will disse-me para as comprar na cidade e paguei-as bem caro. Isto custou-me um dinheirão. — Mas, com todo este mistério, o que é que vai fazer o teu massa Will com a foice e as pás? 
— Pergunta-me mais do que sei; o próprio massa não sabe mais também; diabos me levem, se não estou convencido disso. Tudo isto é por causa do escaravelho.

     Vendo que não podia obter nenhum esclarecimento de Júpiter, cuja compreensão parecia absorvida pelo escaravelho, entrei no barco e desfraldei a vela. Uma bela e forte brisa empurrou-nos bem depressa para a enseada ao norte do forte Moultrie, e depois de um passeio de cerca de duas milhas, chegámos à cabana. Eram quase três da tarde. Legrand esperava-nos com viva impaciência. Apertou-me a mão com uma nervosa solicitude que me alarmou e reforçou as suspeitas que me assaltavam. O seu rosto tinha uma palidez espectral, e os seus olhos, vulgarmente muito fundos, brilhavam com um fulgor sobrenatural. Depois de algumas perguntas relativas à sua saúde, perguntei-lhe, por não encontrar nada melhor, se o tenente G... lhe tinha finalmente entregado o seu escaravelho. 

— Oh!, sim — respondeu, corando muito. — Ele deu-me no dia seguinte, de manhã. Por nada deste mundo me separaria desse escaravelho. Sabe que Júpiter tem absoluta razão a respeito dele? 
— Em quê? — perguntei-lhe com um triste pressentimento no coração. 
— Suponho que é um escaravelho de ouro autêntico.

     Ele disse isto com uma profunda seriedade que me fez um mal indizível. 

— Este escaravelho está destinado a fazer a minha fortuna e — continuou com um sorriso de triunfo — a devolver-me os bens da minha família. Será, portanto, de estranhar que o tenha em tão alto apreço? Pois que a Fortuna julgou por bem conceder-me, não tenho senão que aproveitar-me dele, convenientemente, e obterei o ouro do qual é o indício. Júpiter, traz-me! 
— O quê? O escaravelho, massa? Prefiro não ter nada a ver com o escaravelho. Pode ir buscá-lo o patrão.

     Ao ouvir isto, Legrand levantou-se com ar grave e imponente e foi buscar o inseto colocado numa campânula de vidro. Era um soberbo escaravelho, desconhecido dos naturalistas dessa época e que devia ser de um grande valor sob o ponto de vista científico. Tinha numa das extremidades do dorso duas manchas negras e redondas e na outra uma mancha de forma alongada. Os élitros eram excessivamente duros e luzidios e tinham positivamente o aspecto de ouro polido.
     O inseto era extraordinariamente pesado, a ponto de parecer justificar a opinião de Júpiter, mas que Legrand concordasse com ele a esse respeito, isso era-me impossível compreender, e, mesmo que se tratasse da minha vida, não teria encontrado a chave do enigma. 

— Pedi-lhe que viesse — disse-me com um tom especial quando acabei de examinar o inseto — e fi-lo para lhe pedir um conselho e assistência na realização dos objetivos do Destino e do escaravelho... 
— Meu caro Legrand — exclamei interrompendo-o — certamente não está bem de saúde e seria muito melhor que tomasse algumas precauções. Vai meter-se na cama, e ficarei ao pé de si alguns dias, até que esteja restabelecido. Tem febre e... 
— Apalpe o meu pulso — disse-me.

     Tomei-lhe o pulso e, para dizer a verdade, não lhe encontrei o mais ligeiro sintoma de febre. 

— Mas poderá estar muito doente, sem ter febre. Permita-me, desta vez, que faça apenas de seu médico. Antes de mais, vai meter-se na cama. Em seguida... 
— Engana-se — interrompeu-me — estou tão bem quanto se pode esperar neste estado de excitação. Se realmente quer ver-me perfeitamente bem, alivie esta excitação. 
— E o que é preciso para tal? 
— É muito fácil. Júpiter e eu partiremos para uma expedição às colinas, no continente, e temos necessidade da ajuda de uma pessoa em que nós possamos confiar em absoluto. Você é a única pessoa. Quer a nossa empresa seja um malogro ou um êxito, a excitação que vê em mim será igualmente acalmada. 
— Tenho um enorme desejo de lhe ser útil — respondi. — Mas pretenderá dizer que este infernal escaravelho tenha qualquer ligação com a nossa expedição às colinas? 
— Sim, certamente. 
— Então, Legrand, é-me impossível colaborar numa empresa perfeitamente absurda. 
— Desgosta-me muito o que diz, porque teremos de tentar a empresa sozinhos. 
— Sozinhos! Ah!, o desgraçado está doido de certeza! Mas vejamos, quanto tempo durará essa excursão? 
— Provavelmente toda a noite. Vamos partir imediatamente, e em qualquer dos casos, estaremos de regresso ao amanhecer. 
— E promete-me pela sua honra, que passado este capricho, e o caso do escaravelho — bom Deus! — satisfeito plenamente, voltará para casa e seguirá as minhas prescrições exatamente como as do seu médico? 
— Sim, prometo-lhe, e agora partamos porque não há tempo a perder.

     Acompanhei o meu amigo, com o coração confrangido.
     Às quatro horas metemo-nos a caminho, Legrand, Júpiter, o cão e eu. Júpiter pegou na foice e nas pás. Insistiu em se encarregar delas, pelo que me pareceu mais com o receio de deixar um desses instrumentos nas mãos do seu patrão, do que por excesso de zelo e de complacência. Ele estava aliás com um bom humor de cão, e estas palavras: « Escaravelho maldito!» , foram as únicas que lhe escaparam durante toda a viagem. Eu fora encarregado de levar as duas lanternas apagadas. Quanto a Legrand, contentara-se com o escaravelho que levava atado na extremidade de um pedaço de cordel e que fazia girar em volta dele ao caminhar com ares de mágico. Quando observei esse sintoma supremo de demência no meu pobre amigo, a custo pude conter as lágrimas. Pensei, no entanto, que valia mais satisfazer a sua fantasia, pelo menos de momento, até que pudesse tomar algumas medidas enérgicas com possibilidade de êxito. Entretanto, experimentei, mas inutilmente, sondá-lo em relação ao fim da expedição. Ele tinha conseguido persuadir-me a acompanhá-lo, pouco disposto a estabelecer conversa sobre um assunto de uma tão fraca importância. A todas as minhas perguntas, não se dignava responder senão com um: « Depois veremos!»
     Atravessamos num escaler a enseada até ao extremo da ilha, e trepando pelos terrenos montanhosos da margem oposta, dirigimo-nos para o noroeste, através de uma região horrivelmente selvagem e desolada onde era impossível descobrir o rasto de um pé humano. Legrand seguia o caminho com decisão, parando apenas de vez em quando para consultar certas indicações que parecia ter deixado ele mesmo numa ocasião precedente. Caminhámos assim cerca de duas horas, e o Sol estava no ocaso quando entrámos numa região muitíssimo mais sinistra de que tudo o que tínhamos visto até então. Era uma espécie de planalto próximo do cimo de uma montanha muitíssimo escarpada, coberta por um bosque da base ao cume e, à mistura, uma enorme profusão de blocos de pedra, espalhados no chão, e alguns seriam infalivelmente precipitados nos vales inferiores, sem o amparo das árvores em que se apoiavam. As ravinas profundas irradiavam em diversas direções e davam à cena um caráter de solenidade lúgubre.
     A plataforma natural para a qual tínhamos trepado era tão profundamente pejada de cardos que sem a foice teria sido impossível abrir passagem. Júpiter, segundo as ordens do seu patrão, começou a abrir-nos um caminho que ia até uma tulipeira gigantesca que se erguia rodeada por oito ou dez carvalhos, sobre a plataforma, e que os ultrapassava a todos, assim como a todas as árvores que vira até ali, pela beleza da sua forma e folhagem, pelo enorme desenvolvimento dos seus ramos e por toda a majestade do seu aspecto. Quando nos aproximámos desta árvore, Legrand voltou-se para Júpiter e perguntou-lhe se se sentia capaz de a trepar. O pobre velho parecia ligeiramente aturdido com esta pergunta e ficou alguns instantes sem responder. Contudo, aproximou-se do grande tronco, deu lentamente uma volta e examinou-o com uma atenção minuciosa. Quando acabou de o observar disse simplesmente: 

— Sim, massa; Júpiter nunca viu uma árvore a que não possa subir. 
— Então, sobe. Vamos, vamos! E depressa, porque em breve estará muito escuro para ver o que fazemos. 
— Até onde é preciso subir, massa? — perguntou Júpiter. 
— Trepa primeiro para o tronco e depois dir-te-ei que caminho deves seguir. Ah!, um instante! Leva este escaravelho contigo. 
— O escaravelho, massa Will!, o escaravelho de ouro! — gritou o negro aterrorizado. Por que é preciso levar comigo este escaravelho para a árvore? Eu fique amaldiçoado se o fizer! 
— Júpiter, se tens medo, tu, um negro alto, gordo e forte, de tocar num pequeno inseto morto e inofensivo, pois bem, podes levá-lo com um cordel; mas se o não levares contigo, de uma maneira ou de outra, vejo-me na cruel necessidade de te rachar a cabeça com esta pá. 
— Meu Deus! O que é que tem? — disse Júpiter, que com a vergonha se tornara evidentemente mais complacente. — É preciso estar sempre zangado com o seu velho negro? Era uma brincadeira. Eu, ter medo do escaravelho! Estou a rir-me do escaravelho.

     Pegou com precaução na extremidade da corda e, agora com o inseto longe dele, tanto quanto as circunstâncias permitiam, pôs-se a tentar trepar à árvore.

continua na página 420...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

sábado, 28 de março de 2026

De quanta terra um homem precisa? - III

Liev Tolstói

III

     O contentamento de Pahóm teria sido completo se os vizinhos não lhe atravessassem as searas e os prados; falou-lhes muito delicada   mente, mas os homens continuaram; umas vezes eram os pastores da comuna que deixavam ir as vacas para as suas pastagens, outras vezes os cavalos que se soltavam à noite e lhe iam para as searas. Pahóm enxotava-os, perdoava aos donos e, durante muito tempo, não fez queixa de ninguém; por fim, perdeu a paciência e queixou-se ao tribunal; bem sabia que era a falta de terra dos camponeses e não qualquer má intenção que os fazia proceder daquele modo, mas pensava: “Se não tomo cuidado, dão-me cabo de tudo; tenho que lhes dar uma lição”.
     Foi o que fez: deu-lhes uma lição, depois segunda, e dois ou três camponeses foram multados; ao fim de certo tempo, os vizinhos tinham-lhe raiva e era de propósito que lhe metiam o gado pelas terras; houve mesmo um que, uma noite, lhe cortou cinco limoeiros para lhes tirar a casca; Pahóm passou pelo bosque e viu umas coisas brancas: aproximou-se e deu com os troncos sem casca estendidos no chão; quase ao lado estavam os cepos; Pahóm, furioso, pensou: “Já bastaria para mal que este patife tivesse cortado uma árvore aqui e além; mas foi logo uma fila inteira; ah! se o apanho!...”
     Pôs-se a ver quem poderia ter sido; finalmente, disse consigo: “Deve ter sido o Simão; ninguém mais ia fazer uma coisa destas.” Deu uma volta pelas propriedades de Simão, mas nada viu e só arranjou a zangar-se com o vizinho; tinha, no entanto, a certeza que era ele e apresentou queixa; Simão foi chamado, julgado e absolvido porque não havia provas; Pahóm ficou ainda mais furioso e voltou-se contra os juízes:

“A gatunagem unta-vos as mãos; se aqui houvesse vergonha, não iam os ladrões em paz.”

     As zangas com os juízes e com os vizinhos trouxeram como resultado ameaças de lhe queimarem a casa; Pahóm tinha mais terra do que dantes, mas vivia muito pior. E foi por esta altura que se levantou o rumor de que muita gente ia sair da terra. “Por mim, não tenho que me mexer” — pensou Pahóm —, “mas se os outros se fossem embora, haveria mais terra para nós; havia de comprá-la e de arredondar a minha pequena propriedade; então é que era viver à farta; assim, ainda estou muito apertado”. 
     Estava um dia Pahóm sentado em casa quando calhou de entrar um camponês que ia de viagem; deu-lhe licença para passar ali a noite e, à ceia, puseram-se de conversa; Pahóm perguntou- lhe donde vinha e o forasteiro respondeu que de além do Volga, onde tinha estado a trabalhar; depois disse o homem que havia muita gente que se estava a fixar por aqueles lados, mesmo lavradores da sua aldeia; tinham entrado na comuna e obtinham setenta e cinco hectares; a terra era tão boa que o centeio crescia à altura de um cavalo e era tão basto que com meia dúzia de foiçadas se fazia um feixe; havia um camponês que tinha chegado de mãos a abanar e possuía agora seis cavalos e duas vacas.
     O peito de Pahóm inflamava-se de cobiça: “Para que hei-de eu continuar neste buraco se noutra parte se pode viver tão bem? Vou vender tudo e, com o dinheiro, vou começar a vida de novo; aqui há muita gente e sempre estou a brigar; mas, primeiro, vou eu mesmo saber as coisas ao certo.” Pelos princípios do Verão, preparou-se e partiu; desceu o Volga de vapor até Samara, depois andou a pé noventa léguas; por fim chegou; era exatamente o que o forasteiro tinha dito; os camponeses tinham imensa terra: cada homem possuía os setenta e cinco hectares que a comuna lhe dera e, se tivesse dinheiro, podia comprar as terras que quisesse, a três rublos o hectare. Informado de tudo o que queria saber, voltou Pahóm a casa no Outono e começou a vender o que lhe pertencia; vendeu a terra com lucro, vendeu a casa e o gado, saiu da comuna; esperou pela primavera e largou com a família para os novos campos.  

Continua na pág 22...
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De quanta terra um homem precisa? - I / De quanta terra um homem precisa? - II / De quanta terra um homem precisa? - III /  
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Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói (em russo: Лев Николаевич Толстой.  Nasceu em 9 de setembro de 1828 – Morreu em 20 de novembro de 1910.
Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.