sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (3)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida


O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR


SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO II
A   MÃE

continuando...

     Mas é apenas uma ilusão. Porque ela não fez realmente o filho: ele se fez nela; sua carne só engendra carne: ela é incapaz de fundar uma existência, que se terá de fundar ela própria; as criações que emanam da liberdade põem o objeto como valor e o reevestem de uma necessidade; no seio materno o filho é injustificado, não passa ainda de uma proliferação gratuita, um fato bruto cuja contingência é simétrica à da morte. A mãe pode ter suas razões de querer um filho, mas não poderá dar, a esse outro que vai ser amanhã, suas próprias razões de ser; ela engendra-o na generalidade de seu corpo, não na singularidade de sua existência. É o que compreende a heroína de Colette Audry quando diz:

Nunca pensara que ele pudesse dar um sentido a minha vida... Seu ser germinara em mim; o que quer que acontecesse, tinha de conduzi-lo a bom termo, até o fim, sem poder apressar as coisas, ainda que fosse preciso morrer. Depois ali estivera, nascido de mim; assim, assemelhava-se à obra que eu teria podido realizar na vida. . . mas afinal não o era (cf. On joue perdant, "1'Enfant").

     Em certo sentido, o mistério da encarnação repete-se em cada mulher; toda criança que nasce é um deus que se faz homem: não poderia realizar-se como consciência e liberdade se não viesse ao mundo; a mãe presta-se a esse mistério, mas não o comanda; a suprema verdade desse ser que se forma em seu ventre escapa-lhe. É esse equívoco que ela traduz por dois fantasmas contraditórios: toda mãe tem a ideia de que o filho será um herói; exprime assim seu deslumbramento à ideia de engendrar uma consciência e uma liberdade; mas teme também dar à luz um enfermo, um monstro, porque conhece a horrível contingência da carne e esse embrião que a habita é somente carne. Há casos em que tal ou tal mito vence, mas muitas vezes a mulher oscila entre um e outro. Ela é sensível também a outro equívoco. Presa no grande ciclo da espécie, afirma a vida contra o tempo e a morte: com isso tem a promessa da imortalidade; mas experimenta também na carne a realidade da afirmação de Hegel: "O nascimento dos filhos é a morte dos pais". O filho, diz ele ainda, é para os pais "o ser para si do amor deles que cai fora deles", e inversamente, ele obterá seu ser para si "na separação da fonte, uma separação em que essa fonte seca". Essa superação de si é também para a mulher prefiguração da morte. Ela traduz essa verdade pelo medo que sente quando imagina o parto; receia nele perder a própria vida.
     Sendo assim ambígua a significação da gravidez, é natural que a atitude da mulher seja ambivalente: de resto, modifica-se, nos diversos estádios da evolução do feto. É preciso sublinhar primeiramente que, no início do processo, o filho não está presente; ele ainda não tem senão uma existência imaginária; a mãe pode sonhar com esse pequeno indivíduo que nascerá dentro de meses, pode diligenciar para preparar-lhe um berço, uma fralda: só apreende concretamente os turvos fenômenos orgânicos que nela se verificam. Certos incensadores da Vida e da Fecundidade pretendem misticamente que a mulher reconhece pela qualidade de seu prazer que o homem acaba de torná-la mãe: trata-se de um desses mitos que cumpre abandonar. Ela nunca tem uma intuição decisiva do acontecimento: ela o induz partindo de sinais incertos. Cessam as regras, engorda, os seios tornam-se pesados e doem, ocorrem vertigens e náuseas; por vezes, ela acredita simplesmente estar doente e é um médico que a informa. Sabe então que seu corpo recebeu um destino que o transcende; dia após dia, um pólipo nascido de sua carne e estranho a sua carne vai crescer nela; a mulher torna-se presa da espécie que lhe impõe suas misteriosas leis e, geralmente, essa alienação a amedronta: seu medo traduz-se por vômitos. Estes são parcialmente provocados pelas modificações das secreções gástricas que então se produzem; mas se essa reação, que outras fêmeas mamíferas ignoram, assume importância é por motivos psíquicos: manifesta o caráter agudo que o conflito entre a espécie e o indivíduo (Cf vol. I, cap. 1) reveste na fêmea humana. Ainda que a mulher deseje profundamente o filho, seu corpo revolta-se primeiramente quando lhe cumpre parir. Nos Estados Nervosos de Angústia, Stekel afirma que o vômito da mulher grávida exprime sempre certa recusa ao filho; se este é acolhido com hostilidade — por motivos amiúde inconfessados — as perturbações estomacais exageram-se.

     "A psicanálise ensinou-nos que a exageração psíquica dos sintomas do vômito só se observa no caso em que a expulsão oral traduz emoções de hostilidade em relação à gravidez ou ao feto", diz H. Deutsch. E ela acrescenta: "Muitas vezes o conteúdo psíquico do vômito da gravidez é exatamente o mesmo que nos vômitos histéricos das moças, provenientes de um fantasma de gravidez [1] ". Em ambos os casos reaviva-se a velha ideia da fecundação pela boca que se encontra nas crianças. Para as mulheres infantis, em particular, a gravidez é, como no passado, assimilada a uma doença do aparelho digestivo. H. Deutsch cita o caso de uma doente que estudava, com ansiedade, seus vômitos para verificar se não encontrava neles fragmentos de embrião; sabia, no entanto, pelo que afirmava, que a obsessão era absurda. A bulimia, a falta de apetite, as repugnâncias assinalam a mesma hesitação entre o desejo de conservar e o de destruir o embrião. Conheci uma jovem mulher que sofria ao mesmo tempo de vômitos exasperados e de uma constipação feroz; disse-me, ela própria, que tinha a impressão de procurar expulsar o feto e ao mesmo tempo retê-lo; o que correspondia exatamente a seus desejos confessados.

[1] Citaram-me precisamente o caso de um homem que, durante os primeiros meses da gravidez da mulher — que no entanto ele amava pouco — apresentou exatamente os mesmos sintomas de náusea, de vertigem e de vômitos que se observam nas mulheres grávidas. Traziam evidentemente, de uma maneira histérica, conflitos consciente.

     O Dr. Arthus (Le Mariage) cita o exemplo seguinte, que resumo:

Mme T. apresenta graves perturbações de gravidez, com vômitos incoercíveis... A situação é tão inquietante que se deve pensar em praticar uma interrupção da gravidez em processo... A mulher está desolada... A rápida análise que pôde ser praticada revela (que): Mme T. procedeu a uma identificação inconsciente com uma de suas antigas amigas de pensão que desempenhou papel muito grande em sua vida afetiva e morreu em consequência de sua primeira gravidez. Logo que a causa pode ser revelada, os sintomas melhoram; depois de uma quinzena de dias verificam-se ainda vômitos, porém sem mais nenhum perigo. 

     Constipação, diarreias, trabalho de expulsão manifestam sempre a mesma mistura de desejo e de angústia; disso resulta, por vezes, um aborto: quase todos os abortos espontâneos têm uma origem psíquica. Tais incômodos se acentuam tanto mais quanto a mulher lhes dá maior importância e "se ouve" mais. Em particular, os famosos "desejos" das mulheres grávidas são obsessões de origem infantil complacentemente acariciadas: relacionam-se sempre aos alimentos, em virtude da velha ideia da fecundação alimentar; sentindo perturbações em seu corpo, a mulher traduz, como acontece muitas vezes nas psicastenias, esse sentimento de estranheza por um desejo que por vezes a fascina. Há, de resto, uma "cultura" desses desejos pela tradição, como houve outrora uma cultura da histeria; a mulher, na expectativa de ter desejos, espera por eles, inventa-os. Relataram-me o caso de uma mãe solteira que tinha um desejo tão frenético de espinafres que corria a comprá-los no mercado e ficava numa terrível impaciência a olhá-los enquanto os cozinhava: exprimia assim a angústia de sua solidão; sabendo que só podia contar consigo mesma, era com pressa febril que diligenciava para satisfazer seus desejos. A Duquesa de Abrantes descreveu de maneira muito divertida, em suas Mêmoires, um caso em que o desejo é imperiosamente sugerido pelo ambiente da mulher. Queixa-se de ter sido cercada de excessiva solicitude durante a gravidez.

Esses cuidados, essas atenções aumentam o mal-estar, o enjoo, o nervosismo, os mil e um sofrimentos que quase sempre acompanham a primeira gravidez. Senti-o... Foi minha mãe quem começou, um dia em que jantava em casa dela... "Ah! Meu Deus, disse-me de repente largando o garfo e encarando-me com um ar consternado, ah! meu Deus, não pensei em perguntar qual era teu desejo."
- Mas não tenho nenhum — respondi.
- Não tens desejo — disse minha mãe... — Não tens desejo! Mas nunca se viu isso! Tu te enganas. É que não prestas atenção. Falarei com tua sogra.
E eis minhas duas mães se consultando, e eis meu Junot que, com medo de que lhe desse um filho com cabeça de javali... me perguntava todas as manhãs: "Laure, de que tens vontade?" Minha cunhada, que voltou de Versalhes ampliou o coro das perguntas... nem podia enumerar quantas pessoas vira desfiguradas por desejos não satisfeitos... sei, assustando-me também... Até procurei em minha imaginação algo de que gostasse especialmente e não encontrei nada. Enfim, um dia, aconteceu-me, comendo uma pastilha de ananás, refletir que um ananás deveria ser uma coisa excelente... Uma vez persuadida de que tinha desejo de ananás, senti uma vontade muito grande, que aumentou quando Corcelet declarou que não estava no tempo. Oh! Então experimentei esse sofrimento que participa do desespero e põe a gente num estado de morrer ou satisfazê-lo. 
(Junot, após numerosas gestões, acaba recebendo um ananás das mãos de Mme Bonaparte. A Duquesa de Abrantes acolheu-o alegremente e passou a noite a cheirá-lo e tocá-lo, por lhe ter o médico ordenado que só o comesse pela manhã. Quando finalmente Junot me serviu): 
Empurrei o prato para longe de mim, "Não sei o que tenho, não posso comer ananás." Ele punha-me o nariz no maldito prato, o que provocou uma asserção positiva de que não podia comer ananás. Foi preciso não somente levá-lo, mas ainda abrir as janelas, perfumar meu quarto para tirar o menor vestígio de um odor que um segundo bastara para tornar odioso. O que há de mais singular neste fato é que, desde então, nunca pude comer ananás sem um esforço violento... 

     São as mulheres de quem se ocupam demasiado ou que se ocupam demasiado consigo mesmas que apresentam maior número de fenômenos mórbidos. As que vencem mais facilmente a prova da gravidez são, por um lado, as matronas totalmente entregues a sua função de poedeiras e, por outro lado, as mulheres viris que as aventuras do corpo não fascinam e que fazem questão de sobrepujá-las com desembaraço; Mme de Stael conduzia uma gravidez com tanta vivacidade e displicência quanto uma conversação.
     Quando a gravidez prossegue, a relação entre a mãe e o feto muda. Este acha-se solidamente instalado no ventre materno, os dois organismos se adaptaram um ao outro e há entre ambos trocas biológicas que permitem à mulher reencontrar seu equilíbrio. Ela não se sente mais possuída pela espécie: ela é que possui o fruto de suas entranhas. Durante os primeiros meses era uma mulher qualquer e diminuída pelo trabalho secreto que se realizava no seu interior; posteriormente torna-se, com evidência, uma mãe e suas fraquezas são o reverso de sua glória. A impotência de que sofria torna-se, acentuando-se, um álibi. Muitas mulheres encontram, então, em sua gravidez uma maravilhosa paz: sentem-se justificadas; tinham sempre tido prazer em se observar, em espiar o corpo; não ousavam, por senso de seus deveres sociais, interessar-se por ele com demasiada complacência: agora têm o direito de fazê-lo, porque tudo o que fazem para seu próprio bem-estar fazem para o filho. Não se lhes pede mais trabalho, nem esforço; não têm mais que se preocupar com o resto do mundo; os sonhos de futuro que acariciam dão um sentido ao momento presente; basta-lhes se deixarem viver, estão de férias. A razão de sua existência está em seu ventre e dá-lhes uma impressão perfeita de plenitude. "É como um pequeno aquecedor no inverno, sempre aceso e que só para você existe, inteiramente submetido à sua vontade. É também uma ducha fresca, escorrendo sem cessar durante o verão. Está ali", diz uma mulher citada por H. Deutsch. Satisfeita, a mulher conhece também o prazer de se sentir "interessante", o que constituiu seu maior desejo desde a adolescência; como esposa, sofria com sua dependência em relação ao homem; agora não é mais um objeto sexual, uma serva; encarna a espécie, é promessa de vida, de eternidade; os que a cercam, respeitam-na; até seus caprichos tornam-se sagrados: o que a incita, já o vimos, a inventar "desejos". "A gravidez permite à mulher racionalizar atos que de outro modo pareceriam absurdos", afirma Helen Deutsch. Justificada pela presença de um outro em seu seio, ela goza enfim plenamente de ser ela própria.

continua página 268...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (3)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

Hannah Arendt - Origens do Totalitarismo: Parte III Totalitarismo (O Movimento Totalitário - 3.3b - O Domínio Total)

Origens do Totalitarismo

Hannah Arendt

Parte III 
TOTALITARISMO

Os homens normais não sabem que tudo é possível. 
David Rousset 

3. O Totalitarismo no Poder
     3.3 - O Domínio Total

continuando...

          Como instituição, o campo de concentração não foi criado em nome da produtividade; a única função econômica permanente do campo é o financiamento dos seus próprios supervisores; assim, do ponto de vista econômico, os campos de concentração existem principalmente para si mesmos. Qualquer trabalho que neles tenha sido realizado poderia ter sido feito muito melhor e mais barato em condições diferentes.[135] A Rússia especialmente, cujos campos de concentração são em geral descritos como campos de trabalho forçado, porque a burocracia soviética preferiu honrá-los com esse nome, revela com mais clareza que o trabalho forçado não é a questão fundamental; o trabalho forçado é a condição normal de todos os trabalhadores russos, já que eles não têm liberdade de movimento e podem ser arbitrariamente convocados para trabalhar em qualquer lugar a qualquer momento. A incredibilidade dos horrores é intimamente ligada à inutilidade econômica. Os nazistas levaram essa inutilidade ao ponto da franca antiutilidade quando, em meio à guerra e a despeito da escassez de material rolante e de construções, edificaram enormes e dispendiosas fábricas de extermínio e transportaram milhões de pessoas de um lado para o outro.[136] Aos olhos de um mundo estritamente utilitário, a evidente contradição entre esses atos e a conveniência militar dava a todo o sistema a aparência de louca irrealidade.

[135] Ver Kogon, op. cit., p. 58: "Grande parte do trabalho imposto nos campos de concentração era inútil; ou era supérfluo ou era tão mal planejado que tinha de ser feito duas ou três vezes". Ver também Bettelheim, op. cit., pp. 831-2: "Os novos prisioneiros eram forçados a realizar tarefas idiotas. (...) Sentiam-se degradados (...) e preferiam trabalho mais pesado que produzisse alguma coisa de útil". Mesmo Dallin, que baseou seu livro sobre a tese de que a finalidade dos campos soviéticos é proporcionar mão-de obra barata, é forçado a admitir a ineficiência do trabalho nos campos: op. cit., p. 105. As teorias correntes sobre o sistema de campos russo como uma medida econômica, destinada a prover mão-de-obra barata, seriam claramente refutadas se recentes informes acerca de anistias em massa e da abolição dos campos de concentração provarem-se corretos. Pois, se os campos serviam a um importante objetivo econômico, o regime certamente não poderia ter-se permitido sua rápida liquidação sem graves consequências para todo o sistema econômico.
[136] Além dos milhões de pessoas que os nazistas transportaram para os campos de extermínio, constantemente experimentavam novos planos de colonização, transportando alemães da Alemanha ou dos territórios ocupados para o Leste para fins de colonização. Isso, naturalmente, constituía sério obstáculo às ações militares e à exploração econômica. Quanto às numerosas discussões sobre esses assuntos e ao constante conflito entre a hierarquia civil nazista nos territórios ocupados do Leste e a hierarquia da SS, ver especialmente o volume XXIX de Trialof the major war criminais, Nuremberg, 1947.

     Essa atmosfera de loucura e irrealidade, criada pela aparente ausência de propósitos, é a verdadeira cortina de ferro que esconde dos olhos do mundo todas as formas de campos de concentração. Vistos de fora, os campos e o que neles acontece só podem ser descritos com imagens extraterrenas, como se a vida fosse neles separada das finalidades deste mundo. Os campos de concentração podem ser classificados em três tipos correspondentes às três concepções ocidentais básicas de uma vida após a morte: o Limbo, o Purgatório e o Inferno. Ao Limbo correspondem aquelas formas relativamente benignas, que já foram populares mesmo em países não-totalitários, destinadas a afastar da sociedade todo tipo de elementos indesejáveis — os refugiados, os apátridas, os marginais e os desempregados —; os campos de pessoas deslocadas, por exemplo, que continuaram a existir mesmo depois da guerra, nada mais são do que campos para os que se tornaram supérfluos e importunos. O Purgatório é representado pelos campos de trabalho da União Soviética, onde o abandono alia-se ao trabalho forçado e desordenado. O Inferno, no sentido mais literal, é representado por aquele tipo de campos que os nazistas aperfeiçoaram e onde toda a vida era organizada, completa e sistematicamente, de modo a causar o maior tormento possível.
     Os três tipos têm uma coisa em comum: as massas humanas que eles detêm são tratadas como se já não existissem, como se o que sucedesse com elas hão pudesse interessar a ninguém, como se já estivessem mortas e algum espírito mau, tomado de alguma loucura, brincasse de suspendê-las por certo tempo entre a vida e a morte, antes de admiti-las na paz eterna. Mais que o arame farpado, é a irrealidade dos detentos que ele confina, que provoca uma crueldade tão incrível que termina levando à aceitação do extermínio como solução perfeitamente normal. Tudo o que se faz nos campos tem o seu paralelo no mundo das fantasias malignas e perversas. O que é difícil entender, porém, é que esses crimes ocorriam num mundo fantasma materializado num sistema em que, afinal, existiam todos os dados sensoriais da realidade, faltando-lhe apenas aquela estrutura de consequências e responsabilidade sem a qual a realidade não passa de um conjunto de dados incompreensíveis. Como resultado, passa a existir um lugar onde os homens podem ser torturados e massacrados sem que nem os atormentadores nem os atormentados, e muito menos o observador de fora, saibam que o que está acontecendo é algo mais do que um jogo cruel ou um sonho absurdo.[137]

[137] Bettelheim, op. cit., observa que os guardas dos campos adotavam uma atitude semelhante à dos próprios prisioneiros no tocante à atmosfera de irrealidade.

     Os filmes documentários divulgados na Alemanha e em outros países depois da guerra demonstraram claramente que essa atmosfera de loucura e irrealidade não se dissipa com a simples reportagem. Para o observador sem preconceitos essas visões são quase tão pouco convincentes quanto as fotos de misteriosas substâncias tiradas em sessões espíritas.[138] O bom senso reagiu aos horrores de Auschwitz com o argumento plausível: "Que crime essas pessoas devem ter cometido para que se lhes fizessem tais coisas!"; ou, na Alemanha e na Áustria, em meio à fome e ao ódio geral: "Que pena que pararam de matar os judeus!"; e, em toda parte, com o ceticismo com que é recebida a propaganda ineficaz.

[138]  Tem certa importância compreender que todas as fotografias dos campos de concentração eram enganadoras, uma vez que mostravam os campos em seus últimos estágios, no momento em que chegavam as tropas aliadas. Não existiam campos de extermínio na Alemanha propriamente dita e, a essa altura, todo o equipamento de extermínio já havia sido desmontado. Por outro lado, o que mais provocou a indignação dos aliados e o que constitui o lado mais horroroso dos filmes — isto é, a visão dos esqueletos humanos — não era de modo algum típico dos campos de concentração alemães; o extermínio era levado a cabo sistematicamente por meio de gás e não de fome. A condição dos campos foi o resultado da guerra durante os últimos meses: Himmler havia ordenado a evacuação de todos os campos de extermínio do Leste europeu onde eles se concentravam (principalmente na Polônia), e, em consequência, os campos de concentração alemães ficaram superpovoados com a vinda dos sobreviventes deportados, sem que houvesse possibilidade de assegurar o suprimento de alimentos.

     Se a propaganda da verdade não convence o homem comum, por ser demasiado monstruosa, é positivamente perigosa para aqueles que sabem, em sua própria imaginação, o que são capazes de fazer e, portanto, acreditam plenamente na realidade dos filmes. De repente, torna-se-lhes claro que aquilo que durante milhares de anos fora relegado pela imaginação do homem a uma esfera além da competência humana pode ser fabricado aqui mesmo na Terra, que o Inferno e o Purgatório, e até mesmo um arremedo da sua duração perpétua, podem ser criados pelos métodos mais modernos da destruição e da terapia. Para essas pessoas (e em qualquer cidade grande elas são mais numerosas do que desejamos admitir), o inferno totalitário prova somente que o poder do homem é maior do que jamais ousaram pensar, e que podemos realizar nossas fantasias infernais sem que o céu nos caia sobre a cabeça ou a terra se abra sob os nossos pés. Essas analogias, repetidas nos relatos do mundo dos agonizantes,[139] parecem ser mais que uma tentativa desesperada de exprimir o que está além da linguagem humana. Talvez nada melhor do que a perda da fé num Julgamento Final distinga tão radicalmente as massas modernas daquelas dos séculos passados: os piores elementos perderam o temor, os melhores perderam a esperança. Incapazes de viver sem temor e sem esperança, as massas são atraídas por qualquer esforço que pareça prometer uma imitação humana do Paraíso que desejaram e do Inferno que temeram. Do mesmo modo como a versão popularizada da sociedade sem classes de Marx tem uma estranha semelhança com a Era Messiânica, também a realidade dos campos de concentração lembra, antes de mais nada, as pinturas medievais do Inferno.

[139] Rousset acentua (op. cit., passim) que a vida num campo de concentração era simplesmente um prolongado processo de morte.

      Há, porém, um detalhe que tornava a antiga concepção de Inferno tolerável para o homem e que não pode ser reproduzido: o Julgamento Final, a ideia de um critério absoluto de justiça aliado à infinita possibilidade da misericórdia. Pois, no cálculo humano, não existe crime nem pecado comensuráveis com os tormentos eternos do Inferno. Daí a perplexidade, daí a pergunta decorrente do bom senso: que crimes essas pessoas podem ter cometido para sofrer tão desumanamente? Daí, também, a absoluta inocência das vítimas: nenhum homem jamais mereceu tal coisa. E daí, finalmente, a grotesca casualidade da escolha das vítimas dos campos de concentração no reino aperfeiçoado do terror: esse "castigo" pode, com igual justiça ou injustiça, ser aplicado a qualquer um.
     Comparado ao insano resultado final — uma sociedade de campos de concentração —, o processo pelo qual os homens são preparados para esse fim e os métodos pelos quais os indivíduos se adaptam a essas condições são transparentes e lógicos. A desvairada fabricação em massa de cadáveres é precedida pela preparação, histórica e politicamente inteligível, de cadáveres. O incentivo e, o que é mais importante, o silencioso consentimento a tais condições sem precedentes resultam daqueles eventos que, num período de desintegração política, súbita e inesperadamente tornaram centenas de milhares de seres humanos apátridas, desterrados, proscritos e indesejados, enquanto o desemprego tornava milhões de outros economicamente supérfluos e socialmente onerosos. Por sua vez, isso só pôde acontecer porque os Direitos do Homem, apenas formulados mas nunca filosoficamente estabelecidos, apenas proclamados mas nunca politicamente garantidos, perderam, em sua forma tradicional, toda a validade. 
     O primeiro passo essencial no caminho do domínio total é matar a pessoa^jurídica do homem. Por um lado, isso foi conseguido quando certas categorias de pessoas foram excluídas da proteção da lei e quando o mundo não-totalitário foi forçado, por causa da desnacionalização maciça, a aceitá-los como os fora-da-lei; logo a seguir, criaram-se campos de concentração fora do sistema penal normal, no qual um crime definido acarreta uma pena previsível. Assim, os criminosos, que, aliás, constituíam um elemento essencial na sociedade dos campos de concentração, geralmente só eram ali confinados depois de completarem a sentença a que haviam sido condenados. Em todas as circunstâncias, o domínio totalitário cuidava para que as categorias confinadas nos campos — judeus, portadores de doenças, representantes das classes agonizantes — perdessem a capacidade de cometer quaisquer atos normais ou criminosos. Do ponto de vista da propaganda, essa "custódia protetora" era apresentada como "medida policial preventiva",[140] isto é, medida que tira das pessoas a capacidade de agir. As exceções a essa regra, na Rússia, devem ser atribuídas à calamitosa escassez de prisões e a um desejo, até agora não realizado, de transformar todo o sistema penal num sistema de campos de concentração.[141]  

[140] Maunz, op. cit., p. 50, insiste em que os criminosos nunca deviam ser mandados para os campos para cumprimento das sentenças regulares.  
[141] A escassez de prisões na Rússia era tal que, no ano de 1925-6, somente 36% das sentenças puderam ser cumpridas. Ver Dallin, op. cit., p. 158 ss.

     A inclusão de criminosos — a que acabamos de aludir — é necessária para emprestar credibilidade à alegação propagandística do movimento de que a instituição existe para abrigar elementos fora da sociedade.[142] Os criminosos não deveriam estar em campos de concentração, porque é mais difícil matar a pessoa jurídica de um homem culpado por algum crime do que a de um outro totalmente inocente. O fato de constituírem categoria permanente entre os internos é uma concessão do Estado totalitário aos preconceitos da sociedade, que assim pode habituar-se mais facilmente à existência dos campos. Por outro lado, para não alterar o sistema de campos, é essencial, enquanto exista no país um sistema penal, que os criminosos somente sejam enviados para lá depois de haverem completado a sentença, isto é, quando de fato já têm direito à liberdade. Em hipótese alguma deve o campo de concentração transformar-se em castigo previsível para um crime definido. Misturar criminosos às outras categorias de presos tem, além disso, a vantagem de tornar chocantemente evidente a todos os outros internos o fato de que atingiram o mais baixo nível social. E, na verdade, estes logo perceberão que não lhes faltam motivos para invejar o mais vil ladrão ou assassino; mas, no início parecia o nível mais baixo um bom começo. Ademais, tratava-se de eficiente meio de camuflagem: isso só acontece a criminosos; e não está acontecendo nada pior do que os criminosos merecem.[142] 

[142] "A Gestapo é a SS sempre deram grande importância ao fato de se misturarem as categorias dos internos nos campos. Em nenhum campo os internos pertenciam exclusivamente a uma categoria" (Kogon, op. cit., p. 19). Na Rússia, sempre se costumou misturar prisioneiros políticos e criminosos. Durante os primeiros dez anos de poder soviético, os grupos políticos da Esquerda gozavam de certos privilégios; contudo, o pleno desenvolvimento do caráter totalitário do regime mudou a situação e "após a década de 20, os prisioneiros políticos passaram a ser tratados como inferiores aos criminosos comuns, mesmo oficialmente" (Dallin, op. cit., p. 177 ss).

     Os criminosos constituem a aristocracia de todos os campos. (Na Alemanha, durante a guerra, foram substituídos na liderança dos campos pelos presos comunistas, pois as caóticas condições criadas por uma administração de criminosos não permitiam a realização sequer de uma transformação temporária na época em que o andamento da guerra o exigia. Tratava-se, porém, apenas de uma transformação temporária dos campos de concentração em campos de trabalho forçado, fenômeno inteiramente atípico e de curta duração.[143]) O que leva os criminosos à liderança não é tanto a sua afinidade com o pessoal da supervisão — na União Soviética, aparentemente, os supervisores não são, como a SS, uma elite especial, treinada para cometer crimes[144] — quanto o fato de que somente os criminosos são mandados para o campo em virtude de alguma atividade definida. Eles, pelo menos, sabem por que estão num campo de concentração, e, portanto, conservam ainda um resíduo da personalidade jurídica. Para os criminosos políticos, isso é apenas subjetivamente verdadeiro; seus atos, enquanto atos e não meras opiniões ou vagas suspeitas de terceiros, ou a participação acidental num grupo politicamente condenado, geralmente não são previstos no sistema legal do país nem juridicamente definidos.[145]

[143] O livro de Rousset peca por seu exagero da influência dos comunistas alemães, que dominavam a administração interna de Buchenwald durante a guerra.
[144] Ver, por exemplo, o testemunho da sra. Buber-Neumann (ex-esposa do comunista alemão Heinz Neumann), que sobreviveu aos campos de concentração soviéticos e alemães: "Os russos nunca (...) se mostravam tão sádicos quanto os nazistas. (...) Nossos guardas russos eram homens decentes e não sádicos, mas satisfaziam fielmente as necessidades daquele desumano sistema" (Under two dictators).
[145] Bruno Bettelheim "Behavior in extreme situations", no Journal of Abnormal and social psycology, vol. XXXVIII, n? 4, 1943, descreve a vaidade dos criminosos e prisioneiros políticos comparada com a atitude dos que não haviam feito nada. Estes "eram menos capazes de suportar o choque inicial", os primeiros a se desintegrar. Bettelheim atribui isso à sua origem na classe média.

     A mistura de políticos e criminosos com que os campos de concentração da Rússia e da Alemanha iniciaram a sua carreira foi logo acrescentado um terceiro elemento que, em breve, iria constituir a maioria dos internos dos campos de concentração. Desde então, esse grupo mais amplo tem consistido em pessoas que absolutamente nada fizeram que tivesse alguma ligação racional com o fato de terem sido presas, nem em sua consciência nem na consciência dos seus atormentadores. Na Alemanha, a partir de 1938, esse componente era representado por judeus; na Rússia, por qualquer grupo que, por motivos que nada tinham a ver com os seus atos, havia incorrido no desagrado das autoridades. Esses grupos, inocentes em todos os sentidos, prestam se melhor a experiências radicais de privação de direitos e destruição da pessoa jurídica e são, portanto, em qualidade e quantidade, a categoria mais essencial da população dos campos — princípio que teve a sua aplicação mais ampla nas câmaras de gás, que, pelo menos por sua enorme capacidade, não podiam destinar-se a casos individuais, mas a grandes números de pessoas. A esse respeito, o seguinte diálogo espelha a situação do indivíduo: "Para que servem essas câmaras de gás?" "E para que é que você nasceu?"[146] Esse terceiro grupo dos totalmente inocentes é o que sempre leva a pior nos campos. Certos criminosos e políticos são incorporados a essa categoria; destituídos da distinção protetora de haverem feito alguma coisa, ficam completamente expostos à arbitrariedade. O objetivo final, parcialmente conseguido na União Soviética e claramente visível nas últimas fases do terror nazista, é que toda a população dos campos seja composta dessa categoria de pessoas inocentes.

[146] Rousset, op. cit.,p. 71.

     Em contraste com o completo acaso com que os internos são escolhidos, existem as categorias, inexpressivas em si, mas úteis do ponto de vista organizacional, em que geralmente são divididos por ocasião da chegada. Nos campos alemães, essas categorias eram os criminosos, os políticos, os elementos anti-sociais, os infratores religiosos e os judeus, cada uma com a sua insígnia diferente. Quando os franceses criaram campos de concentração depois da Guerra Civil Espanhola, adotaram imediatamente o método totalitário de misturar políticos com criminosos e inocentes (no caso, os apátridas) e, a despeito da sua inexperiência, mostraram-se extraordinariamente inventivos na criação de categorias inexpressivas de internos.[147]

[147] Quanto às condições nos campos de concentração franceses, ver Arthur Koestler, Scum oftheearth, 1941.

     Originalmente destinada a evitar qualquer solidariedade entre os internos, essa técnica demonstrou-se particularmente valiosa, pois ninguém podia saber se a categoria a que pertencia era melhor ou pior que as outras, embora na Alemanha os judeus fossem, em toda e qualquer circunstância, a categoria mais baixa. O aspecto grotesco de tudo isso é que internos se identificavam com as categorias que lhes eram imputadas, como se elas fossem o último vestígio autêntico da sua pessoa jurídica. Não é de se admirar que, em 1933, um comunista saísse dos campos mais comunista do que antes, um judeu mais judeu e, na França, a esposa de um legionário mais convencida do valor da Legião Estrangeira, como se as categorias a que pertenciam lhes acenassem com o último vislumbre de tratamento previsível, como se representassem uma identidade jurídica derradeira e, portanto, fundamental.     

Parte III Totalitarismo (O Movimento Totalitário - 3.3b - O Domínio Total)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Tratado Geral sobre a Fofoca II

José Angelo Gaiarsa


     Gaiarsa, José Angelo, 1920 - 2010
     Tratado geral sobre a fofoca : uma análise da desconfiança humana / José Angelo Gaiarsa. - 15. ed. - São Paulo : Ágora, 2015


TODOS NOS SENTIMOS VÍTIMAS DA FOFOCA - quando ela chega a nós.


Mas ninguém se sente agente da fofoca. Estranho, não? 
É que fofoca MESMO SÓ ELE faz.
- Eu?
- NUNCA?


Gaiarsa: Respiração E Angústia (1)
"Como é que eu vou me impedir de me sufocar?" J.A. Gaiarsa





"A notícia ao passar de pessoa a pessoa, vai sofrendo alterações e/ou acréscimos, que a modificam.
  Mais importante, porém do que essa modificação na notícia é a INTERPRETAÇÃO que o fofoqueiro faz das ações ou dos ditos de sua vítima. Os tratados não dão ênfase suficiente a esse fato, limitando-se ao primeiro." J.A. Gaiarsa

"Importante é a interpretação, é o atribuir das piores intenções possíveis às ações e aos ditos do fofocado. Este, porém, e por sua vez, ao praticar ou dizer o que fez ou disse, sentia-se sempre movido dos mais límpidos e dignos propósitos." J.A. Gaiarsa

COMO É AMARGA A INCOMPREENSÃO HUMANA!

"Sempre podemos saber, pelo jeito, que uma pessoa está fazendo fofoca.
  Em matéria de fofoca,
 A FORMA É A MENSAGEM!
O elemento visual da fofoca vai além. Com frequência, o olhar desdenhoso, o muxoxo de desprezo, o gesto de pouco-caso das mãos ou o modo de olhar de cima para baixo são toda a fofoca. Dizem do outro e ao outro: 'Coitado!' ou 'Filho da p.'." J.A. Gaiarsa

***


"TODOS OS FOFOQUEIROS SÃO POLICIAIS DO STATUS QUO." J.A. Gaiarsa


________________

sobre a fofoca / angustia e respiração / 

Curta: Diferente

Como você é diferente?

Curta-metragem premiada de Tahneek Rahman

"Uma garota encontra um garoto, mas nenhum dos dois sabe das diferenças um do outro."

lembrando: caso as legendas não apareçam automaticamente 
clique nas configurações e ative as legendas... ou não! 





Roteirista/Diretora: 
Tahneek Rahman /  / tahneekrahman  
Derian Persand

Elenco:
Kassidy Charles / Emily
Joseph Omar / Sam
Camilo Gonzales / Assistente com cadeira de rodas


* Vencedor dos prêmios "Melhor da Mostra" e "Escolha do Público" no Reel Short Teen Film Festival em Orlando, Flórida, no Enzian Theater (4 de março de 2017).
* Selecionado oficialmente para o All American High School Film Festival em Nova York (30 de julho de 2017).
* Selecionado oficialmente para a 26ª edição anual do Brouhaha Film & Video Showcase (27 de outubro de 2017).
* Inscrito na Tisch School of the Arts da Universidade de Nova York, no Pratt Institute, no Ringling College of Art & Design e na School of Visual Arts & Design da Universidade da Flórida Central.


Pentecost / O Xadrez das CoresDiferente /     

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap II - Assaltou-me o temor)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Segundo

Os mistérios de Albertine. - As moças que ela vê no espelho. - A dama desconhecida. - O ascensorista. - A Senhora de Cambremer. - Os prazeres do Sr. Nissim Bernard. - Primeiro esboço do estranho caráter de Morel. - O Sr. de Charlus janta em casa dos Verdurin. 
 

continuando...

     Assaltou-me o temor de haver falado sem simpatia, diante de Robert, dessa jovem falsamente original, cujo espírito era tão medíocre quanto violento o caráter. Há quase uma só notícia que venhamos a saber que nos faça lastimar uma de nossas frases. Respondi à Sra. de Cambremer que não sabia de nada; que aliás era verdade, e que além disso a noiva me parecia ainda muito jovem. 

- Talvez por causa disso é que o noivado ainda não seja oficial; em todo caso, falam muito nisso. -

     Tendo ouvido que a Sra. de Cambremer me falar de Morel e julgando que ainda o fazia quando baixou a voz para me falar do noivado de Saint-Loup, disse-lhe secamente a Sra. Verdurin: 

- Quero preveni-la; não é música sem valor o que aqui se toca. A senhora sabe, em arte os fiéis das minhas quartas, meus filhos, como lhes chamo, é uma coisa espantosa como são avançados - ajuntou ela com ar de orgulhoso terror. - Muitas vezes lhe digo: "Meu pessoalzinho, vocês andam mais depressa do que aqui a sua Patroa, a quem, no entanto, passam as audácias por nunca terem causado medo." Todos os anos isso vai um pouco mais longe; virá em breve o dia em que ultrapassarão Wagner e d'Indy. 
- Mas é muito bom ser avançado, nunca se é o bastante - disse a Sra. de Cambremer, sempre inspecionando cada canto da sala de jantar, procurando reconhecer as coisas que a sogra havia deixado, as que a Sra. Verdurin trouxera, e apanhar esta em flagrante delito de falta de gosto. No entanto, buscava falar-me do assunto que mais a interessava: o Sr. de Charlus. Achava tocante que o barão protegesse um violinista. - Ele parece inteligente. É até de uma verve extrema para quem já é um tanto idoso. 
- Idoso? Mas ele não tem jeito de idoso; olhe, o cabelo ainda é de moço. (Pois fazia uns três ou quatro anos que a palavra "cabelo" fora empregada no singular por um desses desconhecidos que são os lançadores de modas literárias, e todas as pessoas que tinham o comprimento de raio da Sra. de Cambremer diziam "o cabelo", não sem um sorriso afetado. Atualmente, ainda se diz "o cabelo", mas do excesso do singular renascerá o plural.) 
- O que me interessa, acima de tudo, no Sr. de Charlus - acrescentou - é que se sente nele o dom. Digo-lhe que pouco me importa o saber. O que se aprende não me interessa. -

     Tais palavras não estão em contradição com o valor particular da Sra. de Cambremer, que era precisamente imitado e adquirido. Mas justamente uma das coisas que se deviam saber naquele momento é que o saber não é nada e não pesa coisa alguma ao lado da originalidade. A Sra. de Cambremer aprendera, como o resto, que não é preciso aprender nada. 

- É por isso - disse ela - que Brichot, que tem lá o seu lado curioso, pois não desprezo certa erudição saborosa, interessa-me no entanto muito menos. -

     Mas Brichot, naquele instante, só estava ocupado com uma coisa: ouvindo que falavam de música, receava que o assunto recordasse à Sra. Verdurin a morte de Dechambre. Queria dizer alguma coisa para afastar essa lembrança funesta. O Sr. de Cambremer forneceu-lhe a ocasião com esta pergunta: 

- Então, os lugares onde há florestas têm sempre nomes de animais? 
- Como não? - respondeu Brichot, contente por ostentar seu saber diante de tantos novos, entre os quais eu lhe dissera que estava certo de interessar ao menos um. - Basta ver como, nos próprios nomes de pessoas, uma árvore é conservada, como um feto na hulha. Um de nossos padres conscritos se chama Sr. de Saulces de Freycinet, o que significa, salvo engano, lugar plantado de salgueiros e de freixos, salix et fraxinetum; seu sobrinho, Sr. de Selves, reúne mais árvores ainda, visto que se chama de Selves, sylva. -

     Com satisfação, Saniette via a conversa animar-se.
     Podia, já que Brichot falava o tempo todo, conservar um silêncio que lhe evitaria ser o objeto dos motejos do Sr. e da Sra. Verdurin. E, tornando-se ainda mais sensível na alegria da libertação, emocionara-se ao ouvir o Sr. Verdurin, malgrado a solenidade de um tal jantar, dizer ao mordomo que pusesse uma jarra d'água junto do Sr. Saniette, que não bebia outra coisa. (Os generais que mais sacrificam soldados fazem questão de mantê-los bem alimentados.) Enfim, a Sra. Verdurin sorrira uma vez para Saniette. Decididamente eram boas pessoas. Ele não mais seria torturado.
     Nesse momento, a refeição foi interrompida por um convidado que eu me esquecera de citar, um ilustre filósofo norueguês que falava francês muito bem, porém muito lentamente, por dois motivos: primeiro, porque, tendo-o aprendido há pouco e não querendo cometer erros (entretanto cometia alguns), reportava-se para cada palavra a uma espécie de dicionário interior; depois, porque, sendo metafísico, pensava sempre o que desejava dizer enquanto o dizia, o que, mesmo num francês, é causa de lentidão. De resto, era uma criatura deliciosa, embora aparentemente igual a tantas outras, menos sob um aspecto. Esse homem, de falar tão vagaroso (havia um certo silêncio entre duas palavras), tornava-se de uma rapidez vertiginosa para escapar logo que se despedia. Da primeira vez, sua precipitação fazia pensar numa cólica ou até numa necessidade mais imperiosa. 

- Meu caro... colega - disse ele a Brichot, depois de haver deliberado em seu espírito se "colega" era o termo conveniente -, tenho uma espécie de desejo de saber se há outras árvores na nomenclatura de sua bela língua francesa latina normanda. A senhora (ele queria dizer Sra. Verdurin, embora não se atrevesse a encará-la) me disse que o senhor sabia todas as coisas. Não será este precisamente o momento? 
- Não, momento de comer - interrompeu a Sra. Verdurin, que via que o jantar não acabava. - Ah, muito bem - respondeu o escandinavo baixando a cabeça para o prato, com um sorriso triste e resignado. - Porém devo observar, a senhora que se me permite esse questionário, perdão, essa questação - que amanhã devo voltar a Paris para jantar na Tour d'Argent ou no Hotel Meurice. Meu confrade francês -, Sr. Boutroux, deve nos falar de sessões de espiritismo perdão, de evocações espirituosas que ele controlou. 
- Não é tão bom como dizem, o Tour d'Argent - retrucou a Sra. Verdurin, irritada. - Cheguei a ter ali uns jantares detestáveis. 
- Mas estou enganado, o que se come na casa da Senhora não é a mais fina cozinha francesa? 
- Meu Deus, positivamente não é mau - respondeu a Sra. Verdurin suavizada. - E, se o senhor voltar na quarta-feira próxima, será ainda melhor. 
- Mas segunda-feira parto para a Argélia e de lá vou até o Cabo. E, quando estiver no Cabo da Boa Esperança, não poderei mais encontrar o meu ilustre colega perdão, não poderei encontrar mais o meu confrade. -

     E pôs-se, por obediência, após ter fornecido essas desculpas retrospectivas, a comer com rapidez vertiginosa. Mas Brichot estava bem feliz de poder dar outras etimologias vegetais e respondeu, interessando de tal modo o norueguês que este parou novamente de comer, mas fazendo sinal de que podiam lhe tirar o prato cheio e servir o seguinte: 

- Um dos Quarenta - disse Brichot - é chamado Houssaye, ou lugar plantado de azevinhos (houx); no nome de um fino diplomata, o Sr. d'Ormesson, o senhor encontra o olmo (orme), o ulmus caro a Virgílio e que deu seu nome á cidade de Ulm; no de seus colegas, o Sr. de La Boulaye, a bétula (bouleau); no Sr. d'Aunay, o amieiro (aune); no Sr. de Bussiere, o buxo (buís); no Sr. Albaret, o alburno (aubier) (prometi a mim mesmo dizê-lo a Céleste); no Sr. de Cholet, a couve (chou); e a macieira (pommíer) do nome do Sr. de La Pommeraye que nós ouvimos conferenciar (lembra-se, Saniette?), na época em que o bom Porei fora enviado aos confins do mundo como procônsul na Odéonie? -

     Ao nome de Saniette pronunciado por Brichot, o Sr. Verdurin lançou à mulher e a Cottard um olhar irônico que desmontou o tímido. 

- Afirmava o senhor que Cholet provém de chou - disse eu a Brichot. - Será que uma estação pela qual passei antes de chegar a Doncieres, Saint-Frichoux, também provém de chou? - Não, Saint-Frichoux é Sanctus Fructuosus, como Sanctus Ferreolus deu Saint-Fargeau, mas isto não é absolutamente de origem normanda. 
- Ele sabe coisas demais, ele nos aborrece - gargarejou docemente a princesa. -

     Há tantos outros nomes que me interessam, mas não posso perguntar-lhe todos de uma só vez:
     E, virando-me para Cottard: 

- Será que a Sra. Putbus está aqui? - indaguei. 
- Graças a Deus, não - respondeu a Sra. Verdurin, que ouvira a minha pergunta. - Tratei de desviar as suas vilegiaturas para Veneza; estamos livres dela este ano. 
- Eu mesmo vou ter direito a duas árvores - disse o Sr. de Charlus -, pois tenho mais ou menos reservada uma pequena casa entre Saint-Martin-du-Chêne e Saint-Pierre-des-lfs. 
- Mas é muito perto daqui; espero que volte muitas vezes em companhia de Charlie Morel. Não terá mais do que entrar em acordo com o nosso pequeno grupo quanto aos trens, está a dois passos de Doncieres - disse a Sra. Verdurin, que detestava que não viessem pelo mesmo trem e às horas em que enviava os carros para a estação. Ela sabia como era penosa a subida para La Raspeliere, mesmo contornando-a por trás da Féterne, o que dava um atraso de meia hora, e temia que aqueles que formassem um grupo à parte não encontrassem carros para levá-los, ou que, tendo na verdade ficado em casa, pudessem pretextar não terem encontrado carros em Douville-Féterne e não se sentirem com forças para fazer uma tal subida a pé. A esse convite, o Sr. de Charlus se limitou a responder com uma inclinação muda. 
- Ele não deve ser fácil de tratar todos os dias, tem um ar afetado - sussurrou Ski ao doutor que, tendo permanecido uma criatura simples, apesar de uma camada superficial de orgulho, não procurava ocultar que Charlus o esnobava. 
- Sem dúvida, ele ignora que em todas as estações de águas e até em Paris, nas clínicas, os médicos, para quem sou naturalmente o "grande chefe", fazem questão de me apresentar a todos os nobres que aí estejam e que não vão demorar muito. Isso torna até bem agradável para mim a permanência nas estâncias balneárias - acrescentou com ar leviano. - Mesmo em Doncieres, o major do regimento, que é médico assistente do coronel, convidou-me para almoçar com ele dizendo que eu estava em condições de jantar com o general. E esse general era um senhor de alguma coisa. Não sei se esses títulos de nobreza são mais ou menos antigos que o deste barão. 
- Não deixe que isto lhe suba à cabeça, é uma bem pobre coroa - respondeu Ski a meia voz, e acrescentou algo confuso com um verbo, onde apenas distingui as últimas sílabas "ardor", ocupado como estava em ouvir o que Brichot dizia ao Sr. de Charlus. 
- Provavelmente não, lamento dizer-lhe, o senhor só tem uma árvore, pois, se Saint-Martin du-Chêne é evidentemente Sanctus Martínus juxta quercum, por outro lado a palavra if pode ser simplesmente a raiz, ave, eve, que quer dizer úmido, como em Aveyron, Lodeve, Yvette, e que o senhor vê subsistir em nossas pias (évíers) de cozinha. É a "água", que em bretão se diz Ster: Stermaria, Sterlaer, Sterbouest, Ster-en-Dreuchen. -

     Não escutei o final, pois, por maior que fosse o prazer que sentia em voltar a ouvir o nome de Stermaría, ouvia sem querer, a meu lado, Cottard dizendo baixinho a Ski: 

- Ah, mas eu não; sabia! Então, trata-se de um senhor que sabe se virar por todos os lados na vida! Como! Pertence à confraria! No entanto não tem os olhos pisados. Precisarei de cuidar dos pés embaixo da mesa, era só o que faltava; me deixasse bolinar por ele. Aliás, isto só parcialmente me deixa espantado. Vejo diversos nobres na ducha, em trajes de Adão; são mais ou menos uns degenerados. Nem lhes falo, porque, afinal, sou funcionário e isto poderia me causar transtornos. Mas eles sabem perfeitamente quem sou.

     Saniette, a quem a interpelação de Brichot assustara, começava a respirar como alguém que tem medo da tempestade e que percebe que o raio não foi seguido de nenhum rumor de trovão, quando ouviu o Sr. Verdurin questioná-lo, fixando nele um olhar que não largava o infeliz enquanto estava falando, de modo a perturbá-lo imediatamente e a não lhe permitir recobrar o ânimo: 

- Mas Saniette, como é que sempre nos ocultou que freqüentava as matinês do Odeon? - Trêmulo como um recruta diante de um sargento torturador, Saniette respondeu, dando à sua frase as menores dimensões que pôde, a fim de que tivesse mais chances de escapar aos golpes: 
- Uma vez, em La Chercheuse. 
- Que é que ele está dizendo? - bramiu o Sr. Verdurin, com ar a um tempo desgostoso e furibundo, franzindo as sobrancelhas como se necessitasse de toda a sua atenção para entender algo de ininteligível. - Primeiro, não se compreende o que está dizendo. O que tem você na boca? -perguntou o Sr. Verdurin, cada vez mais violento, e aludindo ao defeito de pronúncia de Saniette. - Pobre Saniette, não quero que o faça infeliz - disse a Sra. Verdurin num tom de falsa piedade e para não deixar dúvida em ninguém quanto às insolentes intenções do marido. 
- Eu estava na Ch... 
- Che, che, che, procure falar claramente -, disse o Sr. Verdurin -, não o ouço de jeito nenhum. -

     Quase nenhum dos fiéis continha o riso e tinham o aspecto de um bando de antropófagos em que a ferida feita num branco desperta o gosto pelo sangue. Pois o instinto de imitação e a ausência de coragem governam tanto as sociedades como as multidões. E todo mundo ri de alguém de quem se vê zombar, arriscando-se a venerá-lo dez anos depois em um círculo onde é admirado. Da mesma forma, o povo aclama e enxota os reis. 

- Ora - disse a Sra. Verdurin -, não é culpa dele. 
- Também não é minha, a gente não janta fora quando não consegue mais articular as palavras. 
- Eu estava assistindo e La Chercheuse d'esprit, de Favart. 
- O quê! É a Chercheuse d'esprit que você chamava de Chercheuse? Ah! É magnífica, eu poderia ficar imaginando cem anos que não descobriria nada - exclamou o Sr. Verdurin, que no entanto logo acharia que alguém não era letrado, artista, "não era dos seus", se ouvisse dizer o título completo de certas obras. Por exemplo, era imperioso dizer Le Malade, Le Bourgeois; e aqueles que acrescentassem lmaginaire ou Gentilhomme teriam revelado não serem "da roda", assim como, em um salão, alguém prova não pertencer à alta sociedade ao dizer: o Sr. de Montesquiou-Fezensac em vez de Sr. de Montesquiou. 
[Alusão a duas peças de Moliere: O Doente Imaginário ("Le Malade lmaginaire"), e O Burguês Fidalgo.("Le Bourgeois Gentilhomme"). (N. do L)] 
- Mas não é assim tão extraordinário - observou Saniette, sufocado pela emoção, porém risonho, conquanto não tivesse vontade de rir. -

     A Sra. Verdurin estourou: 

- Ah, é? - exclamou, escarnecendo. - Fique certo de que ninguém no mundo poderia adivinhar que se tratava de La Chercheuse d'esprit. -

     O Sr. Verdurin retornou com voz suave e, dirigindo-se ao mesmo tempo a Saniette e a Brichot: 

- Aliás, é uma bela peça La Chercheuse d'esprit. -

     Pronunciada em tom sério, esta simples frase, onde não se podia achar nenhum sinal de maldade, fez tanto bem a Saniette e excitou nele tanta gratidão como se fosse uma amabilidade. Ele não pôde proferir uma só palavra e manteve um silêncio feliz. Brichot foi mais loquaz: 

- É verdade - respondeu ele ao Sr. Verdurin- e, se a fizessem passar por obra de algum autor sármata ou escandinavo, poderiam apresentar a candidatura de La Chercheuse d'esprit à condição vacante de obra-prima. Mas diga-se, sem faltar com o respeito aos manes do gentil Favart, ele não era de temperamento ibseniano. (E logo enrubesceu até as orelhas, pensando no filósofo norueguês, o qual tinha um ar infeliz porque buscava em vão identificar que tipo de vegetal podia ser o buis de que há pouco falara Brichot a propósito de Bussiere.) Aliás, a satrapia de Porei estava ocupada agora por um funcionário que é um tolstoiniano de rigorosa observância, e poderia ocorrer que víssemos Anna Karenina ou Ressurreição sob a arquitrave odeônica. 
- Sei a qual retrato de Favart o senhor quer se referir - disse o Sr. de Charlus. - Vi uma prova muito linda na casa da condessa Molé. -

     O nome da condessa Molé causou forte impressão na Sra. Verdurin: 

- Ah! O senhor costuma ir à casa da Sra. de Molé! - exclamou ela. Pensava que se dizia "a condessa Molé", "Sra. Molé", simplesmente por abreviação, como ouvia dizer os Rohan, ou, por desdém, como ela própria dizia: senhora La Trémoïlle. Não tinha nenhuma dúvida de que a condessa Molé, conhecendo a rainha da Grécia e a princesa de Caprarola, tivesse mais que ninguém direito à partícula, e estava decidida, de uma vez por todas, a dá-la a uma pessoa tão brilhante e que se mostrava muito amável com ela. Assim, para mostrar que falara desse modo intencionalmente e não regateava esse "de" à condessa, prosseguiu: - Mas eu absolutamente não sabia que o senhor conhecia a senhora de Molé! - como se fosse duplamente extraordinário que o Sr. de Charlus conhecesse aquela dama e que a Sra. Verdurin não soubesse que ele a conhecia. Ora, a alta sociedade, ou pelo menos aquilo que o Sr. de Charlus assim denominava, forma um todo relativamente homogêneo e fechado. Se, por um lado, é compreensível que na disparatada imensidade da burguesia um advogado diga, a alguém que conhece um de seus companheiros de colégio: "Mas como diabos você conhece Fulano?" em compensação, espantar-se de que um francês conheça o sentido das palavras tempo ou floresta não seria mais extraordinário do que se admirar dos acasos que tinham podido reunir o Sr. de Charlus e a condessa Molé. Ademais, mesmo se um tal conhecimento não tivesse decorrido naturalmente das leis mundanas, se tivesse sido fortuito, como seria estranho que a Sra. Verdurin o ignorasse, já que via o Sr. de Charlus pela primeira vez e que as relações deste com a Sra. Molé estavam longe de ser a única coisa que ela não sabia a seu respeito, de que, na verdade, não sabia nada. 
- Quem era que representava essa Chercheuse d'esprit, meu caro Saniette? - perguntou o Sr. Verdurin. Mesmo sentindo que a tempestade passara, o antigo arquivista hesitou em responder. 
- Mas também, tu o intimidas - disse a Sra. Verdurin -, zombas de tudo o que ele diz e depois queres que ele responda. Vamos, diga quem representava aquilo, e lhe daremos galantina para levar para casa - acrescentou ela, fazendo uma alusão malévola à ruína em que caíra Saniette querendo salvar um casal amigo. 
- Lembro-me apenas de que era a Sra. Samary que fazia o papel da Zerbine - disse Saniette. 
- A Zerbine? O que é isso? - gritou o Sr. Verdurin como se houvesse um incêndio. 
- É uma personagem do antigo repertório, como O Capitão Fracasso, como quem diz o Fanfarrão, o Pedante. 
- Ah, o pedante é você! A Zerbine! Não, mas ele está tocado! - exclamou o Sr. Verdurin.

     A Sra. Verdurin olhou para seus convivas rindo, para desculpar Saniette. 

- A Zerbine! Ele pensa que todo mundo sabe logo o que significa isso. Você é como o Sr. de Longepierre, o homem mais idiota que conheço, que outro dia nos falava familiarmente "o Banat". Ninguém ficou sabendo do que ele estava falando. Finalmente fomos informados de que se tratava de uma província da Sérvia. -

     Para terminar com o suplício de Saniette, que me fazia mais mal do que a ele, perguntei a Brichot se sabia o que significava Balbec. 

- Balbec é provavelmente uma corruptela de Dalbec - disse ele. - Seria preciso consultar as cartas dos reis da Inglaterra, suseranos da Normandia, pois Balbec era dependente da baronia de Douvres, devido a que se dizia muitas vezes Balbec d'Outre-Mer, Balbec-en-Terre. Mas a própria baronia de Douvres dependia do bispado de Bayeux e, apesar dos direitos que os templários tiveram momentaneamente sobre a abadia a partir de Louis d'Harcourt, patriarca de Jerusalém e bispo de Bayeux, os bispos dessa diocese é que foram coletores dos bens de Balbec. Foi o que me explicou o deão de Doville, homem calvo, eloquente, quimérico e gourmet, que vive na obediência a Brillat-Savarin, e me expôs incertas pedagogias com termos um tanto sibilinos, enquanto me fazia comer admiráveis batatas fritas. -

continua na página 155...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap II - Assaltou-me o temor)
Volume 6
Volume 7

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

MPB: O barquinho , O pato , Manhã de carnaval

Nara Leão e Roberto Menescal


"Em 1967 eu tinha 7 anos e nutria um amor platônico por Nara Leão que então estava com seus 25 anos, eu sempre a imaginava como a "minha namorada" e nas revistas semanais que minha mãe comprava eu sempre procurava um "poster" dela para colar na parede do meu quarto. Morreu jovem aos 47 anos, mas até hoje tenho saudades dos "nossos namoros" nos meus devaneios pueris, que se baseava somente nas nossas "troca de olhares" ela no poster, eu com as duas mãos no queixo a admirando, completamente apaixonado." @Alzir100



Dia de luz, festa de Sol
E o barquinho a deslizar
No macio azul do mar
Tudo é verão, o amor se faz
No barquinho pelo mar
Que desliza sem parar
Sem intenção, nossa canção
Vai saindo desse mar
E o Sol
Beija o barco e luz
Dias tão azuis

Volta do mar, desmaia o Sol
E o barquinho a deslizar
E a vontade de cantar
Céu tão azul, ilhas do sul
E o barquinho, coração
Deslizando na canção
Tudo isso é paz
Tudo isso traz
Uma calma de verão
E então
O barquinho vai
E a tardinha cai
O barquinho vai
E a tardinha cai

Volta do mar, desmaia o Sol
E o barquinho a deslizar
E a vontade de cantar
Céu tão azul, ilhas do sul
E o barquinho, coração
Deslizando na canção
Tudo isso é paz
Tudo isso traz
Uma calma de verão
E então
O barquinho vai
E a tardinha cai
O barquinho vai
E a tardinha cai
Vai, vai
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Composição: Roberto Menescal / Ronaldo Bôscoli.






Manhã de carnaval

Manhã, tão bonita manhã
Na vida, uma nova canção
Cantando só teus olhos
Teu riso, tuas mãos
Pois há de haver um dia
Em que virás

Das cordas do meu violão
Que só teu amor procurou
Vem uma voz
Falar dos beijos perdidos
Nos lábios teus

Canta o meu coração
Alegria voltou
Tão feliz a manhã
Deste amor

Composição: Antônio Maria / Luiz Bonfá


Luiz Bonfá





Registro histórico
Nara Leão - A Banda / Festival da Record 1966




"Eu prefiro ser gente."


A morte de Nara Leão 07/06/89



O barquinho , O pato , Manhã de carnaval /