sexta-feira, 13 de março de 2026

Cinema: A Onda

Die Welle


É um filme alemão de 2008 dirigido por Dennis Gansel. É inspirado no livro homônimo de 1981 do autor americano Todd Strasser e no experimento social da Terceira Onda, realizado pelo professor de história norte-americano Ron Jones, e conta a experiência de um professor do ensino médio para mostrar a seus alunos como é a vida baixo uma ditadura que sai de controle quando ele forma uma unidade social com vida própria. O filme foi produzido por Christian Becker para a Rat Pack Filmproduktion. Obteve sucesso nas bilheterias alemãs e depois de dez semanas, 2,5 milhões de pessoas haviam assistido ao filme.






Elenco:
Jürgen Vogel como Rainer Wenger, o professor que começou o experimento em sua classe.
Frederick Lau como Tim, um estudante inseguro com problemas na escola. Antes do experimento ele era solitário, mas acaba descobrindo novas amizades n'A Onda.
Max Riemelt como Marco, jogador do time de polo aquático de Rainer e namorado de Karo.
Jennifer Ulrich como Karo, namorada de Marco, uma aluna inteligente que se recusa a entrar n'A Onda e por causa disso acaba tendo brigas com Marco e seus amigos.
Cristina do Rego como Lisa, uma garota tímida que nunca teve um namorado. Melhor amiga de Karo, elas brigam por causa de seu envolvimento na onda e Lisa acaba ficando brevemente com Marco.
Christiane Paul como Anke Wenger, esposa de Rainer e professora na mesma escola que ele. Ela tenta alertar Rainer o quanto o experimento fugiu ao seu controle, em vão.
Elyas M'Barek como Sinan, um estudante turco-alemão e jogador do time de polo aquático.
Maximilian Vollmar como Bomber, um bully que se torna mais gentil após entrar para A Onda.
Maximilian Mauff como Kevin, um aluno rico que se recusa a entrar n'A Onda de início mas muda de ideia mais tarde.
Jacob Matschenz como Dennis, um aluno da Alemanha Oriental que também se junta à Onda.
Ferdinand Schmidt-Modrow como Ferdi
Tim Oliver Schultz como Jens
Amelie Kiefer como Mona, uma aluna que desde o início se mostra contra A Onda e lidera o movimento de oposição ao grupo, com o apoio de Karo.
Odine Johne como Maja
Fabian Preger como Kaschi
Tino Mewes como Schädel
Maxwell Richter como um anarquista
Alexander Held como o pai de Tim
Dennis Gansel como Martin


Sugesstão: 
Leia o livro, A Onda - Todd Strasser

Todd Strasser, autor de "A Onda", se baseia em fatos reais ocorridos em 1969 em um colégio na Califórnia, para dramatizar o experimento social da Terceira Onda. O livro explora como o poder da pressão coletiva pode persuadir as pessoas a se juntar a um grupo e abrir mão de seus direitos individuais, às vezes causando grandes males aos outros. Strasser utiliza a história para questionar a facilidade com que uma sociedade democrática pode ser atraída pelo fascismo e pelo totalitarismo. O autor traz questionamentos bastante atuais sobre o fascismo e a intolerância, explorando de forma brilhante o papel da juventude idealista na consolidação desses discursos.



Sugestão: 
Assista também o filme abaixo, ele tem início com o professor de história Burt Ross explicando aos seus alunos a atmosfera da Alemanha, em 1930, a ascensão e o genocídio nazista. Os questionamentos dos alunos levam o professor a realizar uma arriscada experiência pedagógica que consiste em reproduzir na sala de aula alguns clichês do nazismo: usariam o slogan 'Poder, Disciplina e Superioridade', um símbolo gráfico para representar 'A onda', etc. O professor Ross se declara o líder do movimento da 'onda', exorta a disciplina e faz valer o poder superior do grupo sobre os indivíduos. Os estudantes o obedecem cegamente. A tímida recusa de um aluno o obriga a conviver com ameaças e exclusão do grupo. A escola inteira é envolvida no fanatismo da Onda, até que um casal de alunos mais consciente alerta ao professor ter perdido o controle da experiência pedagógica que passou ao domínio da realidade cotidiana da comunidade escolar. 


A Onda [The Wave] 
Versão original para a televisão [1981] 
- Legendado PT-BR




Direção:
Alexander Grasshoff

Elenco: 
Bruce Davison / Ben Ross
Lori Lethin / Lauree
John Putch / David
Johnny Doran / Robert
Pasha Gray / Amy
Wesley Pfenning / Christy Ross
Marc Copage / Eric
Robert DeLapp
Matthew Dunn
Frank Lloyd
Danny Marmolejo
Michael Pasternak / Peter
Teri Ralston / Mrs. Saunders
Jamie Rose / Andrea
Larry Keith / Mr. Saunders
Tommy Bull / Don (não creditado)
Adolf Hitler / Self (cenas de arquivo) (não creditado)


Moby Dick: 54 - A História do Town-ho(b)

Moby Dick

Herman Melville

54 - A História do Town-ho (Tal como foi contada na Estalagem Dourada)
 
continuando...

“Portanto, em seu tom costumeiro, apenas entrecortado pelo cansaço em que se encontrava temporariamente, respondeu dizendo que varrer o convés não era sua obrigação, e que não o faria. E então, não mencionando a pá, apontou para os três rapazes que costumavam varrer o convés, os quais não tinham sido escalados para as bombas e portanto não tinham feito quase nada ou nada mesmo o dia inteiro. A isso, Radney respondeu com blasfêmias, repetindo incondicionalmente a sua ordem, de modo arrogante e insultante, ao mesmo tempo em que avançava para cima do lacustre, que continuava sentado, empunhando um martelo de toneleiro, que apanhara de um barril próximo.
“Esquentado e irritado pelo trabalho intermitente com as bombas, apesar daquele primeiro sentimento anônimo de abstenção, o suado Steelkilt mal podia suportar tal ousadia no imediato; mas de alguma forma, ainda abafando a conflagração dentro de si, sem falar nada, permaneceu obstinadamente preso ao seu assento até que o raivoso Radney sacudiu o martelo a poucos centímetros de seu rosto, ordenando furiosamente que obedecesse ao comando.
“Steelkilt levantou-se e, dando a volta ao sarilho, sempre seguido pelo imediato com o martelo ameaçador, repetiu deliberadamente o seu propósito de não obedecer. Ao perceber que a sua abstenção não surtia o menor efeito, por uma intimação algo terrível e indizível com o punho cerrado, preveniu o estúpido homem ensandecido; porém de nada adiantou. E, desse modo, os dois deram mais uma volta no sarilho, até que, resolvido a não recuar e achando já ter aguentado tudo o que podia aguentar, o lacustre parou na escotilha e assim falou ao oficial:
“‘Sr. Radney, não vou lhe obedecer. Tire esse martelo daqui ou então tome cuidado’. Mas o imediato predestinado, chegando ainda mais perto de onde o lacustre estava parado, sacudiu o pesado martelo a um centímetro dos seus dentes, enquanto repetia uma série de intragáveis maldições. Sem recuar um milésimo de centímetro; fulminando-o com o destemido punhal do seu olhar fito, Steelkilt, fechando sua mão direita atrás de si e trazendo-a para frente, disse a seu perseguidor que se o martelo apenas roçasse a sua face ele (Steelkilt) o mataria. Mas, senhores, o louco havia sido marcado pelos deuses para o morticínio. Naquele momento, o martelo tocou o seu rosto; no instante seguinte a mandíbula do oficial foi partida ao meio; ele caiu na escotilha jorrando sangue como uma baleia.
“Antes que o grito chegasse à popa, Steelkilt sacudiu um dos cabos do mastro, onde estavam dois colegas seus como gajeiros. Os dois eram Canalenses.”
“Canalenses?!”, gritou Don Pedro. “Já vi muitos baleeiros em nossos portos, mas nunca ouvi falar em Canalenses. Perdão, mas quem e o que são eles?”
“Canalenses, Don Pedro, são os barqueiros do nosso grande canal Erie. O senhor deve ter ouvido falar deles.”
“Não, señor; aqui nesta terra insípida, quente, ociosíssima e hereditária sabemos muito pouco sobre o seu norte vigoroso.”
“É mesmo? Bom, Don Pedro, encha o meu copo de novo. A sua chicha está muito boa; antes de prosseguir, vou contar-lhes quem são os nossos Canalenses, pois essa informação pode lançar alguma luz sobre a minha história.
“Por trezentas e sessenta milhas, senhores, na extensão total do Estado de Nova York; através de numerosas cidades populosas e vilarejos prósperos; através de grandes pântanos desabitados e sinistros, e campos cultivados e opulentos de fertilidade ímpar; nos bares e nos bilhares; através da mais sagrada das florestas sagradas; por arcos romanos sobre rios indígenas; sob o sol e sob a sombra; por corações felizes ou partidos; por todo o cenário contrastante da terra dos nobres Mohawk; e especialmente pelas fileiras de níveas capelinhas, cujas torres se erguem como marcos, onde corre o rio ininterrupto de uma corrupção veneziana e muitas vezes sem lei. Lá está, senhores, seu verdadeiro Axanti; lá se lamentam os pagãos; onde sempre se encontram, na porta ao lado; à sombra comprida, ao abrigo padroeiro das igrejas. Por uma curiosa fatalidade, como se nota muitas vezes entre os seus piratas metropolitanos, sempre acampados em torno aos palácios de justiça, assim também os pecadores, senhores, transbordam das sacras cercanias.”
“Será um frade passando?”, perguntou Don Pedro, olhando para a praça povoada, com uma preocupação divertida
“Que bom para o nosso amigo do norte que a Inquisição de Dona Isabel está acabando em Lima”, riu Don Sebastian. “Continue, senhor.”
“Um momento! Perdão!”, exclamou um outro do grupo. “Em nome de todos nós, Limenhos, desejo apenas lhe dizer, senhor marinheiro, que não nos passou despercebida a sua gentileza ao substituir a Lima de hoje pela remota Veneza, na sua comparação sobre a corrupção. Ah! Não precisa fazer cerimônia, nem mostrar-se surpreso; o senhor conhece o provérbio que corre por toda a costa: ‘Corrupta como Lima’. Por certo só faz corroborar a sua afirmação; ou seja, há mais igrejas sempre abertas do que salões de bilhar, e, no entanto, ‘Corrupta como Lima’. Assim também em Veneza; já estive lá; a cidade sagrada dos abençoados evangelistas, São Marcos! Que São Domingos a purifique! O seu copo! Agradecido, eu vou enchê-lo; bem, agora é a sua vez.”
“Livremente descrito por seus próprios dons, senhores, o Canalense daria um excelente herói dramático, tão abundantes e pitorescos são os seus ardis. Como Marco Antônio, por dias e dias ao longo de seu Nilo florido e verdejante, navega indolente, brincando descuidado com a sua Cleópatra de faces rosadas, amadurecendo a sua coxa adamascada ao sol no convés. Mas em terra toda essa efeminação acaba. A aparência bandoleira que o Canalense ostenta com tanto orgulho; seu chapéu de lado, alegre e enfeitado com fitas, auguram seu grandioso condão. Um terror para a inocência sorridente dos vilarejos por onde passa; de sua aparência trigueira e atitude arrogante tampouco se escapa nas cidades. Certa vez em que vagava por seu canal, recebi boa ajuda de um desses Canalenses; agradeço-lhe de coração; não quero ser ingrato; mas é frequentemente uma das principais qualidades compensatórias desse homem violento estender a mão para ajudar um pobre estrangeiro em apuros e saquear um rico. Em suma, senhores, a selvageria dessa vida no canal é enfaticamente provada por isto; e mesmo em nossa bravia pesca da baleia havendo tantos desses rematados tipos, quase nenhuma raça de homens, exceto os de Sidney, inspiram tanta desconfiança em nossos capitães baleeiros. O mais curioso é que, para milhares dos nossos garotos rústicos e jovens nascidos ao longo dessas águas, a prova da vida no Grand Canal representa uma simples transição entre ceifar um milharal cristão e singrar afoitamente as águas dos oceanos mais bárbaros.”
“Entendi! Entendi!”, exclamou com ímpeto Don Pedro, derramando a chicha em seus punhos argênteos. “Não há necessidade de viajar! O mundo inteiro é Lima. Eu achava que no seu norte temperado as gerações fossem frias e santas como os outeiros. Mas vamos à história.”
“Senhores, parei quando o lacustre sacudia o brandal. Nem bem o fizera quando foi cercado por três pilotos novatos e quatro arpoadores, que o empurraram para o convés. Mas, descendo pelas cordas tais malignos cometas, os dois Canalenses acudiram ao tumulto e tentaram arrastar seu homem para o castelo de proa. Outros marinheiros se juntaram a eles nessa tentativa, e formou se a balbúrdia infernal; enquanto o valente capitão, para ficar fora de perigo, movia para cima e para baixo um forcado de baleia, instigando os seus oficiais a deter aquele canalha atroz, para castigá-lo no tombadilho. De tempos em tempos, corria para perto da borda revoltosa da confusão e, abrindo o cerco com seu forcado, tentava espetar o objeto de seu ressentimento. Mas Steelkilt e seus celerados eram demais para eles: conseguiram ganhar o convés do castelo de proa, onde, rolando três ou quatro barris grandes, formando uma fileira com o sarilho, esses parisienses do mar entrincheiraram-se atrás da barricada.
“‘Saiam daí, seus piratas!’, rugiu o capitão, ameaçando-os com uma pistola em cada mão, que um camareiro acabara de lhe trazer. ‘Saiam daí, seus degoladores!’
“Steelkilt pulou para a barricada e, caminhando por ali a passos largos, desafiou o pior que as pistolas podiam fazer; mas fez com que o capitão entendesse claramente que a sua morte (a de Steelkilt) seria o sinal para um motim assassino por parte de todos. Receando profundamente que isso se tornasse verdade, o capitão recuou um pouco, mas ainda ordenou que os insurgentes voltassem imediatamente ao seu dever.
“‘O senhor promete que não seremos molestados se o fizermos?’, perguntou o líder do motim.
“‘Voltem! Voltem! – Não faço promessas. – Ao dever! Querem afundar o navio abandonando seus postos numa hora destas? Voltem!’, e levantou outra vez uma pistola.
“‘Afundar o navio?’, gritou Steelkilt. ‘É mesmo, pois que afunde. Nenhum de nós vai voltar, a não ser que você jure que não irá tocar em nenhum fio do nosso cabelo. O que acham, rapazes?’, virando-se para os seus companheiros. Como resposta, animadamente deram vivas.
“O lacustre agora patrulhava a barricada, o tempo todo de olho no Capitão, soltando frases como estas: – ‘A culpa não é nossa; nós não queríamos; eu disse a ele que tirasse o seu martelo da minha frente; isso é coisa de moleque; ele já devia me conhecer; falei para ele não mexer no vespeiro; acho que quebrei um dedo no maldito queixo dele; os facões não estão no castelo de proa?; vejam essas alavancas, meus caros. Capitão, pelo amor de Deus, veja bem; é só dizer; não seja tolo; esqueça tudo; estamos prontos para voltar; trate-nos decentemente e seremos os seus homens; mas não seremos açoitados’.
“‘Voltem! Não faço promessas. Repito, voltem!’
“‘Agora você vai ouvir’, gritou o lacustre, estendendo o braço na sua direção, ‘há poucos de nós aqui (e eu sou um deles) que embarcaram só pela viagem, entendeu? Ora, como o senhor bem sabe, podemos pedir para sermos dispensados assim que a âncora baixar; por isso não queremos uma rixa; não nos interessa; queremos ser pacíficos; estamos prontos para trabalhar, mas não seremos açoitados.’
“‘Voltem’, rugiu o Capitão.
“Steelkilt olhou a sua volta por um momento e disse – ‘Vou lhe dizer uma coisa, Capitão, em vez de matá-lo e ser enforcado por causa de um tratante miserável, não faremos nada contra o senhor a não ser que sejamos atacados; mas enquanto o senhor não der a sua palavra de que não seremos açoitados não mexeremos um dedo’.
“‘Para o castelo de proa, então, vão para lá. Vou deixá-los ali até que enjoem. Para lá.’
“‘Vamos descer, então?’, gritou o líder a seus homens. A maior parte era contra, mas por obediência a Steelkilt precederam-no na descida ao seu antro sinistro e desapareceram rosnando, como ursos numa caverna.
“Assim que a cabeça despida do lacustre chegou à altura das pranchas do convés, o capitão e a sua súcia pularam sobre a barricada e, puxando rapidamente a peça corrediça da escotilha, colocaram as suas mãos sobre ela e pediram em voz alta ao camareiro que trouxesse o cadeado pesado de bronze do tombadilho. Abrindo então um pouco a peça, o Capitão sussurrou algo pela fenda, fechou-a e girou sobre eles – em número de dez –, deixando no convés uns vinte ou mais que se mostraram neutros.
“Durante toda a noite manteve-se a vigília de todos os oficiais, na popa e na proa, especialmente no escotilhão do castelo de proa e na caverna-mestra; por onde temiam que os insurgentes pudessem emergir, caso arrombassem o tabique. Mas as horas de escuridão transcorreram em paz; os homens que continuaram cumprindo os seus deveres, trabalhando arduamente nas bombas, cujo troar e retroar na noite lúgubre sinistramente ressoavam por todo o navio.
“Quando o sol nasceu o Capitão foi para vante, e, batendo no convés, intimou os prisioneiros ao trabalho; mas, aos berros, eles se recusaram. Desceram-lhes então água, e alguns punhados de biscoitos lhes foram atirados em seguida; quando então novamente o Capitão girou a chave, e, colocando-a no bolso, voltou ao tombadilho. Isso se repetiu duas vezes por dia, durante três dias, mas na quarta manhã ouviu-se um tumulto que parecia uma briga, e depois um burburinho, quando as ordens costumeiras foram dadas; de repente, quatro homens assomaram ao castelo de proa, dizendo que estavam prontos para voltar. O fétido ar enclausurado, a dieta de fome, somados talvez a eventuais temores de uma retaliação definitiva, obrigaram-nos à rendição incondicional. Encorajado por isso, o Capitão reiterou a sua ordem para o resto, mas Steeklilt gritou-lhe que parasse com o falatório e fosse para o seu lugar. Na quinta manhã outros três amotinados irromperam ao ar livre, desvencilhando-se dos braços que tentavam segurá-los lá embaixo. Apenas três restaram. 
“‘É melhor voltar agora!’, disse o Capitão, zombando cruelmente.
“‘Tranque-nos de novo!’, gritou Steelkilt.
“‘Ah! Pois não!’, disse o Capitão, e a chave girou.
“Foi nessa hora, senhores, que, enraivecido pela deserção de sete dos seus companheiros, mordido pela voz zombeteira que o chamara, e enlouquecido pelo sepultamento de vários dias num lugar escuro como a entranha do desespero; foi aí que Steelkilt propôs aos dois Canalenses, que até então pareciam estar de acordo com ele, que saíssem do buraco na próxima intimação da guarda; e que, armados com suas facas afiadas (utensílios longos, pesados, em forma de crescente, com um cabo de cada lado), corressem do gurupés ao balaústre da popa; e, como que por um desespero diabólico, tomassem posse do navio. Quanto a ele, disse que o faria de qualquer jeito, caso se juntassem a ele ou não. Esta era a última noite que ele passaria naquele antro. Mas os outros dois não se opuseram ao plano; juraram que estavam prontos para aquilo, ou qualquer outra loucura, qualquer coisa, em suma, exceto a rendição. E, mais do que isso, ambos insistiram em ser o primeiro a subir ao convés, quando chegasse a hora de agir. Mas a isso seu líder opôs tenaz objeção, reservando a primazia para si mesmo; principalmente porque nenhum de seus dois companheiros cederia ao outro nessa questão, e ambos não poderiam subir juntos primeiro, pois a escada só permitia um homem por vez. E, aqui, senhores, a perfídia desses canalhas deve ser revelada.
“Ao ouvir o projeto ensandecido de seu líder, cada um deles arquitetou o mesmo golpe traiçoeiro no seu íntimo, a saber: ser o primeiro a sair, para ser o primeiro dos três, embora o último dos dez, a se entregar; e assim garantir qualquer mínima possibilidade de perdão que tal conduta merecesse. Mas, quando Steelkilt lhes fez saber sua determinação de liderá-los até o fim, de algum modo os dois, por uma química de sutil vilania, mesclaram todas juntas as suas traições secretas; e, quando o líder pegou no sono, expuseram verbalmente, um ao outro, as suas ideias em três sentenças; amarraram o adormecido com cordas, e o amordaçaram; e chamaram aos gritos o Capitão à meia-noite.
“Pressentindo a iminência de um assassinato, e farejando o sangue no ar escuro, ele e todos os seus companheiros armados e arpoadores avançaram para o castelo de proa. Em alguns minutos a escotilha foi aberta, e, de pés e mãos atados, o líder ainda se debatendo foi empurrado para cima por seus pérfidos aliados, que imediatamente quiseram receber o crédito pela prisão de um homem plenamente disposto ao assassinato. Mas foram os três encoleirados e arrastados pelo convés como reses mortas; e, lado a lado, foram içados ao cordame de mezena, como três quartos de carne, e ali ficaram pendurados até de manhã. ‘Diabos os carreguem!’, gritou o Capitão, andando de um lado para o outro à frente deles, ‘nem os abutres querem vocês, seus canalhas!’

Continua na página 245...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
53 - O Gam / 54 - A História do Town-ho(a) / 54 - A História do Town-ho(b) /      
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

O Sol é para todos: 2ª Parte (30)

Harper Lee

O Sol é para todos

Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB

SEGUNDA PARTE

30

— Ele se chama sr. Arthur, querida — corrigiu Atticus com delicadeza. — Jean Louise, esse é o Sr. Arthur Radley. Acho que ele já conhece você.

     Só Atticus para, num momento como aquele, me apresentar a Boo Radley— Atticus era assim mesmo.
     Boo me viu correr instintivamente para a cama onde Jem dormia, pois o mesmo sorriso tímido se insinuou no rosto dele. Vermelha de constrangimento, tentei disfarçar cobrindo Jem. 

— Ah-ah, não mexa nele — disse Atticus.

     O sr. Tate olhava fixamente para Boo com os óculos de aro de tartaruga. Ia dizer alguma coisa, quando ouvimos o dr. Reynolds vindo pelo corredor. 

— Saiam todos — disse, ao chegar à porta. — Boa noite, Arthur, não vi que você estava aí.

     A voz do médico era tão jovial quanto o andar, como se ele tivesse feito aquele cumprimento todas as noites da sua vida, o que me deixou ainda mais perplexa do que estar no mesmo cômodo que Boo Radley. Claro… até Boo Radley às vezes ficava doente, pensei. Mas, por outro lado, não tinha tanta certeza.
     O dr. Reynolds estava carregando um grande pacote enrolado em jornal. Colocou-o sobre a escrivaninha de Jem e tirou o paletó.

— Então, está convencida de que ele está vivo? Vou dizer como eu sabia. Quando fui examiná-lo ele reagiu com um chute. Precisei colocá-lo fora de combate para conseguir tocá-lo. Agora vá — ele disse para mim. 
Ah… — fez Atticus, olhando para Boo. — Heck, vamos para a varanda da frente. Lá tem cadeiras suficientes e ainda está fazendo calor.

     Fiquei pensando por que Atticus tinha nos convidado para ir para a varanda e não para a sala, então entendi: as luzes da sala eram muito fortes.
     Saímos em fila, primeiro o sr. Tate.... Atticus ficou esperando na porta para que passássemos na frente dele, mas mudou de ideia e foi atrás do sr. Tate.
     As pessoas têm a mania de manter as rotinas diárias até nas situações mais estranhas. Eu não era exceção. 

— Venha, sr. Arthur, sei que não conhece bem a casa. Vou levá-lo até a varanda — ouvi eu mesma dizer.

     Ele olhou para mim e concordou com a cabeça.
     Levei-o através do corredor e da sala de visitas. 

— Não quer sentar, sr. Arthur? Esta cadeira de balanço é muito confortável.

     Lembrei da minha pequena fantasia com ele: ele estaria sentado na varanda… “Que dias bonitos tem feito, não, sr. Arthur?” “Sim, muito bonitos.” Sentindo-me um pouco irreal, levei-o para a cadeira mais distante de Atticus e do sr. Tate. Ficava bem no escuro. Boo se sentiria melhor assim.
     Atticus estava sentado no balanço e o sr. Tate numa cadeira ao lado. A luz forte que vinha da janela da sala incidia sobre eles. Sentei-me ao lado de Boo. 

— Bom, Heck — Atticus estava dizendo. — Acho que o melhor a fazer é… Meu Deus, estou perdendo a memória… — Atticus empurrou os óculos para cima e apertou os olhos com as mãos. — Jem ainda não fez treze anos… não, ele já tem treze... Não me lembro. De todo jeito, o caso vai ter que ser apresentado ao tribunal… 
— Que caso, Sr. Finch? — o sr. Tate descruzou as pernas e se inclinou para a frente. 
— É claro que foi legítima defesa, mas tenho de ir ao escritório e procurar… 
— O senhor acha que foi Jem que matou Bob Ewell, sr. Finch? Acha mesmo? 
— Você ouviu o que Scout disse, não há dúvida. Ela disse que Jem se levantou e tirou Ewell de cima dela… Deve ter pego a faca de Ewell no escuro… Bem, saberemos amanhã. 
— Espere um momento, sr. Finch. Jem não esfaqueou Bob Ewell — disse o sr. Tate.

     Atticus ficou em silêncio por um instante. Olhou para o sr. Tate como se gostasse do que tinha ouvido. Mas balançou a cabeça. 

— Heck, é muita gentileza sua, e sei que está falando isso porque tem um bom coração, mas não faça isso.

     O sr. Tate se levantou e foi até a beira da varanda. Cuspiu nos arbustos, pôs as mãos nos bolsos e olhou para Atticus. 

— Não faça o quê? — perguntou o sr. Tate. 
— Desculpe se fui ríspido, Heck, mas esse caso não vai ser abafado. Não sou assim. 
— Ninguém vai abafar nada, sr. Finch.

     O sr. Tate falava calmamente, mas suas botas estavam tão solidamente plantadas nas tábuas da varanda que pareciam ter crescido ali. Havia uma curiosa disputa sendo travada entre meu pai e o xerife cuja natureza eu não conseguia saber. 
     Foi a vez de Atticus levantar-se e ir até a beira da varanda. Pigarreou e deu uma cuspida no jardim. Pôs as mãos nos bolsos e olhou para o sr. Tate. 

— Heck, você não disse nada, mas sei o que está pensando e agradeço. Jean Louise… — ele se virou para mim —, você disse que Jem tirou o sr. Ewell de cima de você? 
— Sim, senhor, foi o que pensei… Eu… 
— Está vendo, Heck? Agradeço do fundo do meu coração, mas não quero que meu filho comece a vida com um peso desses nas costas. O melhor é deixar tudo às claras. Deixar que os moradores do condado venham para assistir e tragam seus sanduíches. Não quero que ele cresça com gente cochichando pelas costas dele: “Jem Finch? O pai pagou uma nota para abafar a história.” Quanto antes acabarmos com isso, melhor. 
— Sr. Finch, Bob Ewell caiu em cima da faca. Ele se matou.

     Atticus foi até o canto da varanda e olhou as glicínias. Cada um a seu modo, pensei, um era tão teimoso quanto o outro. Não dava para saber quem ia entregar os pontos primeiro. A teimosia de Atticus era tranquila e raras vezes evidente, mas de certa maneira ele era tão cabeça-dura quanto os Cunningham. O sr. Tate era menos culto e mais direto, mas era igual ao meu pai. 

— Heck — Atticus estava de costas para nós —, se isso for abafado, vai contradizer tudo o que sempre ensinei a Jem. Às vezes acho que sou um completo fracasso como pai, mas sou tudo o que eles têm. Antes de olhar para qualquer pessoa, Jem olha para mim, e procuro viver de modo que eu possa olhar diretamente para ele… Se eu for conivente com uma coisa dessas, não poderei olhá-lo nos olhos, e no dia em que não puder fazer isso, vou perdê-lo. Não quero perder nem ele nem a Scout, porque eles são tudo o que eu tenho. 
— Sr. Finch — o sr. Tate continuava com os pés plantados no chão da varanda —, Bob Ewell caiu em cima da faca, posso provar.

     Atticus girou nos calcanhares. As mãos se enterraram ainda mais nos bolsos. 

— Heck, pode ao menos tentar ver as coisas do meu ponto de vista? Você também tem filhos, mas sou mais velho. Quando os meus crescerem, serei um homem velho, se é que chegarei lá, mas agora… se eles não confiarem em mim, não vão confiar em ninguém. Jem e Scout sabem o que aconteceu. Se eles souberem que eu disse outra coisa na cidade, Heck, vou perdê-los. Não posso ser uma pessoa na cidade e outra em casa.

     O sr. Tate balançou-se nos calcanhares e disse, paciente: 

— Ele derrubou Jem, tropeçou na raiz da árvore e veja… posso mostrar.

     O sr. Tate procurou no bolso do paletó e tirou um longo canivete. Nesse momento, o dr. Reynolds apareceu na porta. 

— O filho da… O morto está embaixo daquela árvore, doutor, no pátio da escola. Tem uma lanterna? Se não tem, é melhor levar esta. 
— Posso ir de carro e ligar os faróis — disse o dr. Reynolds, mas pegou a lanterna do sr. Tate. — Jem está bem, vai dormir até amanhã, acredito, portanto, não se preocupem. Foi essa faca que o matou, Heck? 
— Não, senhor, a faca ainda está enfiada nele. Pelo cabo, parece faca de cozinha. Ken deve estar chegando lá com o rabecão, doutor. Boa noite.

     O sr. Tate abriu o canivete e disse: 

— Foi assim.

     Ele empunhou o canivete e fingiu tropeçar; quando caiu, o braço esquerdo ficou na frente dele. 

— Está vendo? Ele se apunhalou e a faca entrou no espaço entre as costelas. O peso dele enterrou a faca no corpo.

     O sr. Tate fechou o canivete e guardou-o no bolso outra vez. 

— Scout tem oito anos, estava muito assustada para saber o que aconteceu exatamente — ele concluiu. 
— Você ficaria surpreso — disse Atticus, entredentes. 
— Não estou dizendo que ela inventou, só que estava assustada demais para saber o que aconteceu exatamente. Estava escuro como breu. Precisava ser alguém muito acostumado com o escuro para ser uma boa testemunha… 
— Não estou convencido — disse Atticus baixinho. 
Pelo amor de Deus, não estou pensando em Jem!

     O sr. Tate bateu com tanta força as botas no chão que as luzes do quarto da srta. Maudie se acenderam. As da srta. Stephanie Crawford também. Atticus e o sr. Tate olharam para o outro lado da rua, depois se entreolharam. Esperaram.
     Quando o sr. Tate voltou a falar, mal dava para ouvir a voz dele. 

— Sr. Finch, não gosto de discutir com o senhor no estado em que se encontra agora. Nenhum homem deveria passar pela tensão pela qual o senhor passou esta noite. Não sei como ainda não está de cama, mas sei que pela primeira vez não está conseguindo juntar dois mais dois e temos de resolver isso agora, porque amanhã será tarde demais. Bob Ewell tem uma faca de cozinha enfiada na barriga.

     O sr. Tate disse ainda que papai não ia insistir que um garoto do tamanho de Jem, com um braço quebrado, teria força para atacar e matar um homem adulto, na escuridão total. 

— Heck, você mostrou um canivete. Onde arrumou? — perguntou Atticus. 
— Tirei de um bêbado — respondeu o sr. Tate, calmo.

     Tentei me lembrar: o sr. Ewell estava em cima de mim… Ele caiu… Jem deve ter se levantado. Pelo menos foi o que pensei… 

— Heck? 
— Eu disse que peguei de um bêbado na cidade esta noite. Ewell deve ter encontrado aquela faca no lixão. Pegou e esperou uma oportunidade… só isso.

     Atticus foi até o balanço e sentou-se. As mãos ficaram caídas no meio das pernas. Olhava para o chão. Mexia-se com a mesma lentidão daquela noite na frente da cadeia, quando achei que ele levou uma eternidade para dobrar o jornal e colocá-lo na cadeira.
     O sr. Tate continuava andando pesado pela varanda. 

— A decisão não é sua, Finch, é minha. A decisão e a responsabilidade são minhas. Pela primeira vez, se não conseguir ver as coisas como eu, não poderá fazer nada. Se tentar, vou chamá-lo de mentiroso na sua cara. Seu filho não esfaqueou Bob Ewell — disse, devagar. — Longe disso, e agora o senhor sabe. Ele só queria chegar em casa em segurança com a irmã.

     O sr. Tate parou de andar. Ficou de frente para Atticus e de costas para nós. 

— Posso não ser o melhor dos homens, mas sou o xerife do condado de Maycomb. Moro aqui desde que nasci e já vou fazer quarenta e três anos. Sei de tudo que aconteceu aqui desde antes de eu nascer. Um rapaz negro foi morto sem motivo e o responsável por isso também está morto. Vamos deixar os mortos enterrarem os mortos desta vez, sr. Finch. Vamos deixar os mortos enterrarem os mortos.

     O sr. Tate foi até o balanço e pegou o chapéu que estava ao lado de Atticus. Puxou os cabelos para trás e pôs o chapéu na cabeça. 

— Não sabia que era contra a lei alguém fazer todo o possível para evitar que um crime seja cometido, e foi exatamente isso que ele fez. Talvez o senhor ache que tenho a obrigação de contar tudo para a cidade inteira e não abafar nada. Sabe o que vai acontecer então? Todas as senhoras da cidade, inclusive a minha mulher, vão bater na porta dele levando bolos. Eu acho, sr. Finch, que colocar holofotes sobre um homem tímido e recluso que prestou um grande serviço ao senhor e à cidade… é um erro. E não quero ter esse erro na minha consciência. Se fosse outro homem, seria diferente. Mas não esse, sr. Finch.

     O sr. Tate tentava cavar um buraco no piso com o salto da bota. Passou a mão no nariz depois massageou o braço esquerdo. 

— Posso não ser grande coisa, sr. Finch, mas continuo sendo o xerife do condado de Maycomb e Bob Ewell caiu em cima da faca. Boa noite, senhor.

     O sr. Tate saiu pisando forte pela varanda e atravessou o jardim. Bateu a porta do carro e foi embora.
     Atticus ficou olhando para o chão por um bom tempo. Finalmente, levantou a cabeça. 

— Scout, o sr. Ewell caiu em cima da faca, consegue entender isso? — perguntou.

     Tive a impressão de que Atticus precisava de ânimo. Fui até ele, e o abracei e o beijei com força. 

— Consigo, sim. O sr. Tate está certo — garanti.

     Atticus desvencilhou-se do abraço e me encarou. 

— O que você quer dizer com isso? 
— Bom, seria como matar um rouxinol, não?

     Atticus enfiou o rosto nos meus cabelos e acariciou-os. Quando se levantou e foi até a parte escura da varanda, seus passos joviais tinham voltado. Antes de entrar em casa, parou na frente de Boo Radley. 

— Obrigado pelo que fez pelos meus filhos, Arthur — disse.

continua página 197...
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Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (28b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (29) / O Sol é para todos: 2ª Parte (30)   
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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

Espumas Flutuantes - Adormecida

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

ADORMECIDA
Ses longs cheveux épars la couvrent sonie entière. 
 La croix de son collier repose dans sa main, 
 Comme pour témoigner qu’elle a fait sa prière. 
 Et qu’elle va la faire en s’éveillant demain. 
 Alfred de Musset 
 
Uma noite, eu me lembro... Ela dormia 
 Numa rede encostada molemente... 
 Quase aberto o roupão.... solto o cabelo 
 E o pé descalço do tapete rente.

‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste 
 Exalavam as silvas da campina... 
 E ao longe, num pedaço do horizonte, 
 Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados, 
 Indiscretos entravam pela sala, 
 E de leve oscilando ao tom das auras, 
 Iam na face trêmulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago 
 Mesmo em sonhos a moça estremecia... 
 Quando ela serenava... a flor beijava-a... 
 Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia... 

Dir-se-ia que naquele doce instante 
 Brincavam duas cândidas crianças... 
 A brisa, que agitava as folhas verdes, 
 Fazia-lhe ondear as negras tranças! 

E o ramo ora chegava ora afastava-se... 
 Mas quando a via despeitada a meio, 
 Pra não zangá-la... sacudia alegre 
 Uma chuva de pétalas no seio... 

Eu, fitando esta cena, repetia 
 Naquela noite lânguida e sentida: 
 “Ó flor! — tu és a virgem das campinas! 
 “Virgem! — tu és a flor de minha vida!...” 
 São Paulo, novembro de 1868 




JESUÍTAS
Século XVIII 
Ó mes frères, je viens vous apporter mon Dieu, 
 Je viens vous apporter ma tête! 
Chátiments — Victor Hugo

Quando o vento da Fé soprava Europa, 
 Como o tufão, que impele ao ar a tropa 
 Das águias, que pousavam no alcantil; 
 Do zimbório de Roma — a ventania 
 O bando dos Apost’los sacudia 
 Aos cerros do Brasil.

Tempos idos! Extintos luzimentos! 
 O pó da catequese aos quatro ventos 
 Revoava nos céus... 
 Floria após na Índia, ou na Tartária, 
 No Mississipi, no Peru, na Arábia 
 Uma palmeira — Deus! — 

O navio Maltês, do Lácio a vela, 
 A lusa nau, as quinas de Castela, 
 Do Holandês a galé 
 Levavam sem saber ao mundo inteiro 
 Os vândalos sublimes do cordeiro, 
 Os átilas da fé.  

Onde ia aquela nau? — Ao Oriente. 
 A outra? — Ao Polo. A outra? — Ao Ocidente. 
 Outra? — Ao Norte. Outra? — Ao Sul. 
 E o que buscava? A foca além do polo; 
 O âmbar, o cravo do indiano solo, 
 Mulheres em ’Stambul.

Ouro — na Austrália; pedras — em Misora!... 
 “Mentira!” respondia em voz canora 
 O filho de Jesus... 
 “Pescadores!... nós vamos no mar fundo 
 “Pescar almas pra o Cristo em todo o mundo, 
 “Com um anzol — a cruz —!” 

Homens de ferro! Mal na vaga fria 
 Colombo ou Gama um trilho descobria 
 Do mar nos escarcéus, 
 Um padre atravessava os equadores, 
 Dizendo: “Gênios!... sois os batedores 
 Da matilha de Deus.” 

Depois as solidões surpresas viam 
 Esses homens inermes, que surgiam 
 Pela primeira vez. 
 E a onça recuando s’esgueirava 
 Julgando o crucifixo... alguma clava 
 Invencível talvez! 

O martírio, o deserto, o cardo, o espinho, 
 A pedra, a serpe do sertão maninho, 
 A fome, o frio, a dor, 
 Os insetos, os rios, as lianas, 
 Chuvas, miasmas, setas e savanas, 
 Horror e mais horror...  

Nada turbava aquelas frontes calmas, 
 Nada curvava aquelas grandes almas 
 Voltadas pra amplidão... 
 No entanto eles só tinham na jornada 
 Por couraça — a sotaina esfarrapada... 
 E uma cruz — por bordão. 

Um dia a taba do Tupi selvagem 
 Tocava alarma... embaixo da folhagem 
 Rangera estranho pé... 
 O caboc’lo da rede ao chão saltava, 
 A seta ervada o arco recurvava... 
 Estrugia o boré.

E o tacape brandindo, a tribo fera 
 De um tigre ou de um jaguar ficava à espera 
 Com gesto ameaçador... 
 Surgia então no meio do terreiro 
 O padre calmo, santo, sobranceiro, 
 O Piaga do amor.

Quantas vezes então sobre a fogueira, 
 Aos estalos sombrios da madeira, 
 Entre o fumo e a luz... 
 A voz do mártir murmurava ungida 
 “Irmãos! Eu vim trazer-vos — minha vida... 
 Vim trazer-vos — Jesus!”

Grandes homens! Apóstolos heroicos!... 
 Eles diziam mais do que os estoicos: 
 “Dor, — tu és um prazer! 
 “Grelha, — és um leito! Brasa, — és uma gema! 
 “Cravo, — és um cetro! Chama, — um diadema 
 “Ó morte, — és o viver!”   

Outras vezes no eterno itinerário 
 O sol, que vira um dia no Calvário 
 Do Cristo a santa cruz, 
 Enfiava de vir achar nos Andes 
 A mesma cruz, abrindo os braços grandes 
 Aos índios rubros, nus.

Eram eles que o verbo de Messias 
 Pregavam desde o vale às serranias, 
 Do Polo ao Equador... 
 E o Niágara ia contar aos mares... 
 E o Chimboraço arremessava aos ares 
 O nome do Senhor!... 
 São Paulo, 1868  

continua pag 38...
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

quinta-feira, 12 de março de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (5)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO II
A   MÃE

continuando...

     As primeiras relações da mãe com o recém-nascido são igualmente variáveis. Certas mulheres sofrem desse vazio que depois sentem em seu corpo: parece-lhes que lhes roubaram seu tesouro.  

Sou a colmeia sem palavras 
cujo enxame alçou voo 
Não trago mais o alimento 
De meu. sangue para teu frágil corpo 
Meu ser é a casa fechada 
De que acabam de tirar um morto ¹, 

[¹] Je suis la ruche sans parole 
     Dont l'essaim est parti dans l'air 
     Je n'apporte plus la becquée 
     De mon sang à ton frêle corps 
     Mon être est la maison fermée 
     Dont on vient d'enlever un mort.
   
     escreve Cécile Sauvage. E também:

Não és mais inteiramente meu. Tua cabeça 
Reflete outros céus ².  

[²] Tu n'es plus tout à moi. Ta tête 
     Réfléchit déjà d''autres cieux.

     E ainda:

Nasceu, perdi meu jovem bem-amado 
Agora nasceu, estou só, sinto 
Apavorar-se em mim o vazio de meu sangue...³. 

[³] Il est né, j'ai perdu mon jeune bien-aimé 
     Maintenant il est né, je suis seule, je sens 
     S'épouvanter en moi le vide de mon sang...

     Ao mesmo tempo, entretanto, há em toda jovem mãe uma curiosidade maravilhada. É um estranho milagre ver, ter em mãos um ser vivo formado em si, saído de si. Mas que parte teve exatamente a mãe no acontecimento extraordinário que põe na terra uma nova existência? Ela o ignora. Não existiria sem ela e no entanto ele lhe escapa. Há uma tristeza espantada em vê-lo fora, separado de si. E quase sempre uma decepção. A mulher gostaria de senti-lo seu tão seguramente quanto a própria mão: mas tudo o que ele experimenta está encerrado nele, ele é opaco, impenetrável, separado; ela não o reconhece sequer, porquanto não o conhece; sua gravidez, ela a viveu sem ele: não tem nenhum passado comum com esse pequeno estranho; esperava que ele lhe fosse de imediato familiar: não, é um desconhecido e ela fica estupefata com a indiferença com que o acolhe. Durante os devaneios da gravidez, ele era uma imagem, era infinito e a mãe representava em pensamento sua maternidade futura; agora é um individuozinho finito e presente de verdade, contingente, frágil, exigente. A alegria de enfim vê-lo presente, bem real, mistura-se à tristeza de que seja apenas isso.
     É pela amamentação que muitas jovens mães reencontram, para além da separação, uma íntima relação animal com o filho; é uma fadiga mais exaustiva que a da gravidez, mas que permite à ama perpetuar o estado de folga, de paz, de plenitude saborosa da mulher grávida.

Quando o bebê mamava, diz Colette Audry a propósito de uma de suas heroínas, não havia mais nada que fazer e isso poderia ter durado horas" ela não pensava sequer no que viria depois. Tinha-se que esperar que ele se destacasse do seio como uma grande abelha (On joue perdant). 

     Mas há mulheres que não podem amamentar e em quem a indiferença espantada das primeiras horas se perpetua enquanto não reencontram laços concretos com o filho. É o caso, entre outros, de Colette, a quem não foi possível amamentar a filha e que descreve, com sua habitual sinceridade, seus primeiros sentimentos maternos (Colette, L'Étoile Vésper).

O que se segue é a contemplação de uma nova pessoa, que entrou na casa sem vir de fora. . . Punha eu suficiente amor em minha contemplação? Não ouso afirmá-lo. Sem dúvida tinha o hábito — tenho-o ainda — do deslumbramento. Exercia-o sobre o conjunto de prodígios que é um recém-nascido: as unhas, semelhantes em transparência à escama convexa do camarão rosado, a planta dos pés vinda a nós sem ter tocado o solo. A ligeira plumagem dos cílios baixando sobre o rosto, interpostos entre as paisagens terrestres e o sonho azulado do olho. O pequeno sexo, amêndoa apenas incisa, bívalve, exatamente fechado lábio a lábio. Mas a minuciosa admiração que eu de dicava à minha filha não a chamava amor, não a sentia como tal. Espiava... Não hauria, em espetáculos que minha vida tão longamente esperara a vigilância e a emulação das mães maravilhadas. Quando surgiria para mim o sinal que realiza uma segunda, uma mais difícil violentação? Tive que aceitar que uma soma de advertências, de furtivas revoltas ciumentas, de premonições falsas, e até verdadeiras, o orgulho de dispor de uma vida de que eu era a humilde credora, a consciência algo pérfida de dar ao outro uma lição de modéstia, me transformassem enfim em uma mãe comum. Ainda assim só me tranquilizei quando a linguagem inteligível floriu em lábios encantadores, quando o conhecimento, a malícia e mesmo a ternura fizeram de um pequerrucho standard uma menina, e de uma menina minha filha! 

     Há também muitas mães que se assustam com suas novas responsabilidades. Durante a gravidez, só lhes cabia entregarem-se a sua carne; nenhuma iniciativa lhes era exigida. Agora há em face delas uma pessoa com direitos sobre elas. Certas mulheres acariciam alegremente o filho enquanto se acham no hospital, ainda joviais e despreocupadas, mas começam a encará-lo como um fardo quando voltam para casa. Nem mesmo a amamentação lhes dá alguma alegria, ao contrário, receiam estragar os seios ; e com rancor que os sentem partidos, com as glândulas doloridas; fere-os a boca do filho: parece-lhes que ele aspira-lhes as forças, a vida, a felicidade. Ele inflige-lhes uma dura servidão e não faz mais parte delas: apresenta-se como um tirano; elas olham com hostilidade esse pequeno indivíduo estranho a elas e que constitui uma ameaça à carne, à liberdade, ao seu eu inteiro.
     Muitos outros fatores intervém. As relações com a mãe conservam toda a sua importância. H. Deutsch cita o caso de uma jovem ama cujo leite secava todas as vezes que a mãe a visitava; muitas vezes ela pede auxílio, mas tem ciúme dos cuidados que outra dá ao bebê e com mau humor o encara. As relações com o pai da criança, os sentimentos que ele próprio alimenta têm também grande influência. Todo um conjunto de razões econômicas, sentimentais, define a criança como um fardo, uma cadeia, ou uma libertação, uma joia, uma segurança. Há casos em que a hostilidade se torna ódio declarado que se traduz por uma negligência extrema ou maus tratos. O mais das vezes, a mãe, consciente de seus deveres, combate-a; com isso sente um remorso que engendra angústias em que se prolongam as apreensões da gravidez. Todos os psicanalistas admitem que todas as mães que vivem obsidiadas pela ideia de que podem fazer mal aos filhos, todas as que imaginam horríveis acidentes, experimentam em relação a eles uma inimizade que buscam recalcar. O que, em todo caso, é de notar, e distingue essa relação de qualquer outra relação humana, é o fato de que nos primeiros tempos o filho, ele próprio, não intervém: seus sorrisos, seus balbucios só têm o sentido que lhes empresta a mãe; quer lhe pareça encantador, único, ou aborrecido, vulgar, odioso, ele depende dela e não de si mesmo. É por isso que as mulheres frias, insatisfeitas, melancólicas, que esperavam do filho uma companhia, um calor, uma excitação capaz de arrancá-las de si mesmas, ficam sempre profundamente desapontadas. Como a "passagem" da puberdade, da iniciação sexual, do casamento, a da maternidade engendra uma decepção melancólica nos sujeitos que esperam que um acontecimento exterior possa renovar-lhes e justificar-lhes a vida. É o sentimento que se encontra em Sofia Tolstoi. Eis que escreve:

Estes nove meses foram os mais terríveis de minha vida. Quanto ao décimo, é melhor não falar. 

     Em vão se esforça ela por inscrever no diário uma alegria convencional: é sua tristeza, seu medo das responsabilidades que nos impressionam.

Tudo aconteceu. Dei à luz, tive minha parte de sofrimentos, tive alta e pouco a pouco volto à vida com um medo e uma inquietude constantes acerca de meu filho e principalmente de meu marido. Alguma coisa partiu-se em mim. Algo me diz que sofrerei constantemente, creio que é o temor de não desempenhar meus deveres para com minha família. Deixei de ser natural porque tenho receio desse amor vulgar de uma fêmea pelos filhotes e medo de amar exageradamente meu marido. Afirmam que é uma virtude amar o marido e os filhos. Por vezes esta ideia consola-me. . . Como o sentimento materno é forte e como me parece natural ser mãe! É o filho de Liova, eis por que o amo.

     Mas sabe-se que ela só exibe tamanho amor pelo marido porque não o ama; essa antipatia recai no filho concebido em atos que lhe repugnavam.
     K. Mansfield descreveu a hesitação de uma jovem mãe que adora o marido mas suporta com repulsa suas carícias. Ela sente perante os filhos ternura e ao mesmo tempo uma impressão de vazio que interpreta melancolicamente como uma indiferença completa. Linda, descansando no jardim junto do último filho, pensa no marido, Stanley (Na Baía).

Agora, tinha-o desposado; e até o amava. Não o Stanley que todo mundo conhecia, não o Stanley quotidiano; mas um Stanley tímido, sensível, inocente, que se ajoelhava todas as noites para rezar. Mas a desgraça era. . . que via seu Stanley tão raramente. Havia momentos de beleza e calma, mas o resto do tempo ela tinha a impressão de viver numa casa sempre ameaçada de incêndio, num navio que todos os dias naufragava. E era sempre Stanley que se achava em perigo. Ela passava todo o tempo a salvá-lo, a tratar dele, a acalmá-lo e ouvir-lhe a história. O tempo que sobrava, vivia-o com medo de ter filhos. .. Era muito bonito dizer que ter filhos é a sorte comum das mulheres. Não era verdade. Ela, por exemplo, poderia provar que era falso. Estava quebrada, enfraquecida, desanimada com tanta gravidez. E duro de suportar era que não gostava dos filhos. O mais não vale a pena fingir... Não, era como se um vento frio a tivesse enregelado em cada uma daquelas terríveis viagens; não lhe restava mais calor para dar--lhes. Quanto ao menininho, graças aos céus pertencia à sua mãe, a Beryl, a quem quisesse. Mal o tivera nos braços. Era-lhe tão indiferente enquanto repousava a seus pés. Baixou o olhar... Havia algo tão estranho, tão inesperado no sorriso dele que Linda sorriu também. Mas dominou-se e disse à criança: "Não gosto de bebês. — Não gostas de bebês?" Ele não podia acreditar. "Não gostas de mim?" Agitava estupidamente os braços para a mãe. Linda deixou-se cair na relva. "Por que continuas a sorrir?, disse severamente. Se soubesses o que estava pensando não ririas..." Linda estava tão espantada com a confiança daquela criaturinha. Ah, não, sê sincera. Não era o que sentia; era algo inteiramente diferente, algo tão novo, tão... Lágrimas dançaram-lhe nos olhos; murmurou docemente para o filho: "Bom dia, meu estranho menino..." 

     Todos esses exemplos bastam para mostrar que não existe instinto materno: a palavra não se aplica em nenhum caso à espécie humana. A atitude da mãe é definida pelo conjunto de sua situação e pela maneira por que a assume. É, como se acaba de ver, extremamente variável.

continua página 278...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo II - A Mãe (5)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

Cinema: O Espírito da Colmeia

Víctor Erice

1973

"O Espírito da Colmeia" é um clássico do cinema espanhol dirigido por Víctor Erice, que explora a infância, a morte e a imaginação através da história de duas irmãs em uma aldeia rural na Espanha pós-Guerra Civil.

"O filme se passa em 1940, em uma pequena aldeia espanhola, onde as irmãs Ana (Ana Torrent) e Isabel (Isabel Tellería) assistem à projeção do filme "Frankenstein" (1931). A experiência deixa Ana obcecada pela figura do monstro, levando-a a questionar a morte e a realidade. Isabel, mais velha e cínica, tenta desiludir Ana, mas também se envolve na fantasia, criando um ambiente de curiosidade e medo."


Este filme tem restrição de idade e só está disponível no Youtube
Vídeo com restrição de idade (solicitada pelo usuário que fez o envio)





"O filme foi aclamado pela crítica e é considerado uma obra-prima do cinema espanhol. Recebeu prêmios em festivais de cinema, incluindo o Festival de San Sebastián, e é frequentemente estudado por sua profundidade temática e estética visual. A atuação de Ana Torrent foi especialmente elogiada, consolidando sua posição como uma das grandes promessas do cinema."

Diretor: 
Víctor Erice

Roteiristas:
Ángel Fernández-Santos de Blázquez
Víctor Erice

Elenco:
Fernando Fernán Gómez / Fernando
Teresa Gimpera / Teresa
Ana Torrent / Ana
Isabel Tellería / Isabel
Ketty de la Cámara / Milagros, la criada 
Estanis González / Guardia civil
José Villasante / Frankenstein
Juan Margallo / Fugitivo
Laly Soldevila / Doña Lucía 
Miguel Picazo / Doctor

Produtor: 
Elías Querejeta

O Assalto do Trem Pagador / InterlúdioO Espírito da Colmeia /  A Onda /       

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Sugestão:

A voz adormecida

Um retrato das consequências da Guerra Civil Espanhola. Jovem do interior vai para Madri ficar perto da irmã que está grávida e presa. Na cidade ela conhece um rico jovem que luta com seu cunhado na serra de Madri.

Trailer legendado




Mais informações:
Ganhou 3 prêmios Goya 2012: 
Melhor atriz revelação: María León, 
Melhor atriz coadjuvante: Ana Wagener 
e Melhor canção original por "Nana de la hierbabuena"

Do mesmo diretor de "Havana Blues"

Título original: La voz dormida
Direção: Benito Zambrano
Roteiro: Benito Zambrano e Ignacio del Moral (Baseado no livro de Dulce Chacon)
Gênero: Drama
País: Espanha
Ano: 2011
Tempo: 128 min.
Classificação: a verificar
 
Elenco:
Inma Cuesta / Hortensia
María León / Pepita
Marc Clotet / Paulino
Daniel Holguín / Felipe
Ana Wagener / Mercedes
Susi Sánchez / Sor Serafines
Berta Ojea / La Zapatones (Florencia)
Lola Casamayor / Reme
Ángela Cremonte / Elvira
Amparo Vega León / Sole 
Charo Zapardiel / Tomasa
Arantxa Aranguren / Conchita
Teresa Calo / Doña Celia
Begoña Maestre / Amalia
Jesús Noguero / Don Fernando
Miryam Gallego / Doña Amparo 
Adelfa Calvo / Aquela de olhos lacrimejantes
Mari Carmen Sánchez / Eugenia Núñez
Eduardo Marchi / Don Javier
Amaia Lizarralde / La Topete
Lluís Marco / Don Gonzalo 
Concha Galán / Sor Remedios
Carmen Losa / Sor Caridad
Marta Bódalo / Sor Andrea
Palmira Ferrer / Paloma Castro
Teresa Arbolí / Charo
Candela Fernández / Ángeles
Blanca Apilánez / Doña María
Eloísa Vargas / María Ferrer
Luz de Paz / Isabel Puig
Coral Pellicer / Rafaela
Fermí Reixach / Capelão da prisão 
María Garralón / Doña Julia
Javier Mora / Alberto
Javier Godino / Secretário do bispo
Antonio Dechent / Juiz de Instrução
César Sánchez / Presidente Tribunal
Jaume García Arija / Fiscal
Fernando Sansegundo / Advogado de Defesa
Font García / Marcial Molina
Emilio Linder / Comissário do Interior
Carlos Manuel Díaz / Polícia secreta 1
Julio Vélez / Polícia secreta 2
Alfredo Alba / Polícia secreta 3
Yiyo Alonso / Médico da prisão
Joaquín Perles / Tenente g. civil nas montanhas
Karlos Aurrekoetxea / El Toledano 
José Troncoso / Assistente de vendas de tecidos
Ramón Quesada / Juiz tenente
Antonio Mora / Pascual
María Miguel / Hermana María Ferrer
Juanma Navas / Mateo Ruiz
Alba Alonso / Inés
Luichi Macías / Trini
Gemma Giménez / Martina / Voz Tensi
Yailene Sierra / Carmen
Fanny de Castro / Passageiro de ônibus 1
Arantxa Sacristán / Passageira de ônibus 2
Sara Granadino / Familia María Ferrer
Javier Lara / Julián Rebollo
Ana López / Presa vigilante
Carlos Romero / Tomás Carmona
Pablo Torello / Bedel
Teresa Vallejo / Filha Rafaela
Xelo Cubero / Madre Chelo
Raúl Sáez / Prisioneiro guerrilheiro nas montanhas
Aníbal Marcos / Padre acusado
Antonio Esquinas / Guarda civil bruto
Ana María Prada / Beata 1
María Ripalda / Beata 2
J. Antonio Ruiz / Chefe do pelotão
Chele Sánchez / Esposa Alberto
María José Mariscal / Presa leva tapa
Clara G. Arana / Presa hereje 1
Rocío Galán / Presa hereje 2
Pilar Crespo / Presa especial 1
Milagros Ordóñez / Presa especial 2
Iosune Onraita / Presa especial 3
Raúl Sirio / Soldado 1
Julián Sánchez / Padre fuzilado
Amparo Marín / Juliana Carbonell
Eva Rubio / Teresa Blasco
Marga Martínez / Ramona Marín
Francisca Alfonso / Juana Álvarez
Paco Acevedo / Fuzilado 1
Manuel Morales / Fuzilado 2
Pepe Camacho / Fuzilado 3
Óscar Corrales / Fuzilado 4
Mabel Hinojo Alonso / Figuração especial


A Voz adormecida
- Cena 1 (ative as legendas se for necessário)



A Voz Adormecida 
- Trecho: Desobediência ao culto religioso no dia de Natal



A Voz Adormecida 
- Trecho: Mulheres fuziladas em prisões franquistas