sábado, 25 de abril de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Escaravelho de Ouro(e)

Edgar Allan Poe - Contos


O Escaravelho de Ouro
Título original: The Gold-Bug 
Publicado em 1842  

continuando...

      Assim que acabámos o inventário e que a nossa terrível exaltação ficou em parte apaziguada, Legrand, ao ver que eu morria de impaciência por possuir a solução deste prodigioso enigma, deu-me todos os pormenores. 

— Recorda-se — disse-me — da noite em que mostrei o esboço que fizera do escaravelho. Lembra-se também que fiquei sentido pela sua insistência em me fazer notar que o meu desenho se parecia com uma caveira. A primeira vez que fez essa observação, julguei que brincava. Em seguida, recordei-me das manchas particulares no dorso do inseto e reconheci que a sua observação tinha na realidade qualquer fundamento. Contudo, a sua ironia quanto às minhas faculdades gráficas irritou-me, porque sou tido como um artista razoável e por isso, quando estendeu o pedaço do pergaminho, estive quase a amarfanhá-lo e atirá-lo ao lume. 
— Quer referir-se ao pedaço de papel? 
— Não. Tinha todo o aspecto de papel, e eu mesmo assim supus, mas depois, ao querer desenhar em cima dele descobri logo que era um pedaço de pergaminho muito fino. Ele estava bastante sujo, você recorda-se. No momento em que eu o ia limpar, os meus olhos incidiram no desenho que você tinha visto e pode conceber qual foi o meu espanto quando me apercebi da imagem precisa de uma caveira mesmo no sítio onde eu julgava ter desenhado um escaravelho. Durante um momento, senti-me demasiado aturdido para pensar com clareza. Sabia que o meu esboço diferia desse novo desenho em todos os pormenores, se bem que tivesse uma certa analogia no contorno geral. Peguei então numa vela e sentando-me na outra extremidade do quarto, procedi logo a uma análise mais minuciosa do pergaminho. Ao virá-lo, vi o meu próprio desenho pelo avesso, precisamente como o tinha feito. A minha primeira impressão foi simplesmente de surpresa. Havia nele uma semelhança realmente notável no contorno, e era uma coincidência que a imagem de uma caveira, desconhecida para mim, ocupasse o outro lado do pergaminho, mesmo por baixo do meu desenho do escaravelho — e de uma caveira que se assemelhava ao meu desenho, não só no contorno como nas dimensões. Confesso que esta coincidência me deixou positivamente estupefato, por um instante. É o efeito vulgar desta espécie de coincidências. O espírito esforça-se em estabelecer uma relação, uma ligação da causa com o efeito e, julgando-se impotente para o conseguir, sofre uma espécie de paralisia momentânea. Mas, quando voltei a mim deste espanto, senti nascer em mim, a pouco e pouco, uma convicção que me chocou ainda mais do que essa coincidência. Comecei a recordar-me distintamente, positivamente, que não havia nenhum desenho no pergaminho quando eu fiz nele o esboço do escaravelho. Tinha a certeza absoluta, porque me recordo de o ter virado e tornado a virar, procurando o sítio mais limpo. Se a caveira estivesse visível, tê lo-ia notado. Havia nela realmente um mistério que me sentia capaz de desvendar, e desde então, pareceu-me ver antecipadamente um pálido clarão nas regiões mais profundas e mais secretas da minha compreensão, uma espécie de pirilampo de luz intelectual, uma conceção em embrião da verdade, da qual a nossa aventura na outra noite nos forneceu uma esplêndida demonstração. Levantei-me decididamente e, pegando no pergaminho, deixei toda a reflexão para o momento em que pudesse estar só. 

« Quando você se fosse embora e o Júpiter estivesse bem adormecido, entregar-me-ia a uma investigação um pouco mais meticulosa sobre o assunto. E, primeiro, quis compreender de que forma este pergaminho viera parar às minhas mãos. O sítio em que descobrimos o escaravelho, fora na costa, a cerca de uma milha a leste da ilha, mas a uma pequena distância acima do nível da maré alta. Quando o apanhei, mordeu-me cruelmente, e eu deixei-o fugir. Júpiter, com a sua prudência costumada, antes de apanhar o inseto que voara já do seu lado, procurou em volta dele uma folha ou outra coisa semelhante com que pudesse pegar-lhe. Foi nesse momento que descobriu o pedaço de pergaminho, que julgou ser papel. Estava meio enterrado na areia, com uma ponta de fora. Perto do lugar, onde o achámos, observei os restos de um casco de uma grande embarcação, pelo menos pelo que pude observar. Os destroços do naufrágio estavam ali provavelmente há já muito tempo, porque a custo se poderia reconhecer a armação de um barco.
« Júpiter embrulhou o inseto e deu-me. Pouco depois prosseguimos o caminho até à cabana e encontrámos o tenente G... Mostrei-lhe o inseto e ele pediu-me que deixasse levá-lo ao forte. Disse-lhe que sim e ele meteu-o no bolso do colete, mas sem o pergaminho que lhe servia de invólucro e que eu conservara na mão enquanto ele examinava o escaravelho. Talvez tivesse medo que eu mudasse de opinião e julgou prudente guardar primeiro o inseto; sabe que ele é doido por História Natural e por tudo o que com ela se relaciona. E então, sem pensar nisso, meti o pergaminho no bolso.
« Recorda-se que assim que me sentei à mesa para desenhar o escaravelho, não encontrei o papel no lugar em que o ponho habitualmente. Vi na gaveta e não havia lá nenhum. Procurei nas minhas algibeiras, esperando encontrar uma carta já antiga, quando os meus dedos encontraram o pergaminho. Dou-lhe pormenorizadamente toda a série de circunstâncias que o puseram nas minhas mãos, porque todas elas impressionaram o meu espírito.
« Sem dúvida alguma, você julgar-me-ia um sonhador, mas eu já tinha estabelecido uma espécie de conexão. Já unira dois grandes elos de uma grande cadeia.
« Um barco que naufragara na costa e não longe deste barco um pergaminho — não um papel — que continha a imagem de uma caveira. Vai naturalmente perguntar-me onde está a relação? Responderei que a caveira é o emblema, bem conhecido, dos piratas. Em todos os ataques içam sempre o pavilhão com a caveira.
« Disse-lhe que era um pedaço de pergaminho e não de papel. O pergaminho é uma coisa de muita duração, quase que não se deteriora. Não se confiam ao pergaminho documentos de mínima importância, pois que é menos fácil de utilizar para escrever e menos ainda para desenhar. Esta reflexão levou me a pensar que devia ter qualquer relação com a caveira, qualquer sentido estranho. Como é natural, não deixei de reparar no formato do pergaminho. Embora um dos cantos tivesse sido destruído por qualquer acidente via-se bem que a forma primitiva era oblonga. Era, portanto, uma dessas tiras que se escolhe para escrever, para assinar um documento importante, um apontamento que se quer conservar por muito tempo e cuidadosamente.»

— Mas — interrompi-o — diz que a caveira não estava no pergaminho quando desenhou nele o escaravelho. Como pode estabelecer, portanto, uma relação entre o barco e a caveira, pois que esta última, segundo confessou, foi de facto desenhada? Deus sabe como e por quem foi desenhada, posteriormente ao seu desenho do escaravelho? 
— Ah!, é nisso que reside todo o mistério, se bem que eu tivesse pouca dificuldade em resolver esse ponto do enigma. A minha dedução estava certa e não podia levar-me senão a um único resultado. O meu raciocínio era este: quando desenhei o meu escaravelho, não tinha nenhum vestígio de caveira no pergaminho: quando acabei o meu desenho passei-lhe e não o perdi de vista até que me restituiu. Por conseguinte, não foi você que desenhou a caveira e não havia ali outra pessoa para o fazer. Não tinha sido, portanto, feito por mão humana, e no entanto ali estava diante dos meus olhos!

« As minhas reflexões levaram-me a tentar recordar e, com efeito, lembrei-me com uma perfeita exatidão, de todos os incidentes que ocorreram nesse intervalo. A temperatura era baixa — oh!, a feliz casualidade! — e um bom lume crepitava na lareira. Estava suficientemente aquecido pelo exercício e sentei-me perto da mesa. Você, entretanto, virara a sua cadeira para muito perto da lareira, justamente no momento em que lhe passei o pergaminho para mão, e quando o ia examinar, Wolf, o meu terra-nova, entrou e saltou-lhe aos ombros. Você afagou-o com a mão esquerda, e procurava afastá-lo deixando descair vagarosamente a sua mão direita, a que segurava o pergaminho, entre os seus joelhos e muito perto do fogo. Julguei por uns momentos que a chama ia atingi-lo e estive quase a dizer-lhe para ter cuidado. Mas, antes que eu falasse, você retirou-o e pôs-se a examiná-lo. Quando considerei bem estas circunstâncias, não duvidei por um instante de que o calor tivesse sido o agente que fizera aparecer no pergaminho o desenho da caveira. Sabe que há — e desde sempre houve — preparações químicas, por meio das quais se pode escrever no papel caracteres que são invisíveis até serem submetidos à ação do calor. Emprega-se algumas vezes o óxido de cobre misturado com água régia e diluído em quatro partes do seu peso de água, combinação que dá uma cor verde. O óxido de cobalto dissolvido no ácido nítrico dá uma cor vermelha. Estas cores desaparecem, mais ou menos tempo depois de arrefecer a substância na qual se escreveu, mas reaparecem facilmente sob a ação do calor.
« Examinei então a caveira com o maior cuidado. Os contornos exteriores, isto é, os mais próximos da beira do pergaminho estavam muito mais nítidos do que os outros. Evidentemente que a ação do calor fora imperfeita e desigual. Acendi imediatamente o lume e submeti o pergaminho inteiro a um calor escaldante. Primeiro, não teve outro efeito senão avivar as linhas um pouco sumidas da caveira; mas, ao prosseguir a experiência, vi aparecer a um canto da tira, no diagonalmente oposto àquele em que estava traçada a caveira, uma figura que eu supus primeiro ser uma cabra. Mas um exame mais atento convenceu-me de que se tratava de um cabrito.

— Ah!, ah! — exclamei. — Não tenho o direito de troçar de si. Um milhão e meio de dólares, é uma coisa demasiado séria para que se brinque. Mas não poderá juntar um terceiro elo à sua cadeia, não encontrará nenhuma referência especial entre os seus piratas e uma cabra. Como sabe, os piratas não têm nada a ver com cabras. Isso refere-se aos granjeiros. 
— Mas acabei de lhe dizer que a imagem não era de uma cabra. 
— Bom!, seja um cabrito. É quase a mesma coisa. 
— Quase, mas não por completo — disse Legrand. — Ouviu decerto falar de um certo capitão Kidd. Eu considerei imediatamente a figura deste animal como uma espécie de assinatura hieroglífica (kidd: cabrito). Digo assinatura, porque o lugar que ela ocupava no pergaminho sugeria naturalmente esta ideia. Quanto à caveira, colocada na extremidade diagonalmente oposta, tinha o aspecto de um timbre, de uma estampilha. Mas fiquei cruelmente desconcertado pela ausência de qualquer texto. 
— Presumo que esperava encontrar algumas linhas entre o selo e a assinatura. 
— Qualquer coisa desse género. O facto é que me sentia irresistivelmente impressionado por um pressentimento de uma imensa e iminente fortuna. Porquê? Não poderia dizê-lo muito bem. Afinal, talvez fosse mais um desejo do que uma crença positiva. Mas acreditaria que o dito absurdo de Júpiter, de que o escaravelho era de ouro maciço, teve uma influência notável na minha imaginação? Depois desta série de incidentes e coincidências era na verdade extraordinário! Notou tudo o que há de fortuito nisto? Foi preciso que todos os acontecimentos ocorressem no mesmo dia do mesmo ano, em que houve frio, e bastante, para ser preciso aquecimento e, sem este lume e sem a intervenção do cão, no momento preciso em que apareceu, nunca teria tomado conhecimento da caveira e nunca teria possuído o tesouro. 
— Vá, vá. Estou em brasas. 
— Pois bem, vai ter conhecimento de uma louca história sobre a qual correram mil rumores vagos, relativos aos tesouros escondidos, em alguma parte da costa atlântica, por Kidd e os seus sócios. Resumindo, todos estes rumores deviam ter qualquer fundamento. E esses rumores duravam já há tanto tempo e com tanta persistência, que isso não podia, quanto a mim, ter senão uma razão: é que o tesouro continuava escondido. Se Kidd tivesse desenterrado o tesouro, esses rumores não teriam, sem dúvida, chegado até nós de uma maneira tão persistente. Repare que as histórias em causa falam nas pessoas que procuram o tesouro e nunca nas que o encontraram. Se o pirata tivesse ido buscá-lo, o caso ficaria por aí. Parecia-me que algum acidente, por exemplo, a perda da indicação que marcava o sítio exato, privá-lo-ia do meio para o descobrir. Suponho que este incidente chegou ao conhecimento dos seus companheiros — de outra forma nunca teriam sabido que um tesouro estava enterrado — e com suas pesquisas infrutíferas, sem um guia e indicações positivas, deram início a este rumor universal e a estas lendas hoje tão comuns. Ouviu falar alguma vez de algum tesouro importante descoberto na costa? 
— Nunca. 
— Ora, é notório que Kidd acumulou imensas riquezas. Considerava, portanto, como uma coisa certa que a terra as guardava ainda; e não se espantará muito se eu lhe disser que sentia em mim uma esperança que era quase uma certeza: que o pergaminho, tão estranhamente encontrado, conteria a indicação desaparecida do lugar onde fora feito o depósito. 
— Mas como procedeu? 
— Expus novamente o pergaminho ao lume, depois de ter aumentado o calor, mas não apareceu nada! Pensei que a camada de gordura podia influir no insucesso, e por isso limpei cuidadosamente o pergaminho deitando água quente em cima dele. Depois, coloquei-o numa caçarola de ferro fundido, com a caveira para cima e pu-lo em cima de um fogão de carvão em brasa. Passados alguns minutos, retirei a tira de pergaminho e apercebi-me, com uma alegria inexprimível, que estava marcado em vários sítios com sinais que se assemelhavam a algarismos dispostos em linhas. Tornei a pô-lo na caçarola e, quando o retirei de lá, estava tal como vai ver.

continua na página 435...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

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