domingo, 26 de julho de 2026

Odisseia: Prelúdio (Canto I.c)

Odisseia

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Prelúdio
Canto I

Assembleia dos Deuses, Conselhos de Atena a Telêmaco e Festa dos Pretendentes

     “A assembleia dos deuses se reúne acerca do envio de Odisseu para Ítaca desde a ilha de Calipso. Então, Atena vai para Ítaca, se apresenta a Telêmaco, se fazendo semelhante a Mentes, rei dos Tófios.
     Ocorre então uma conversa. Atena aconselha Telêmaco a ir procurar seu pai primeiro em Pilo, cidade de Nestor, depois em Esparta, cidade de Menelau. Ela parte dando sinais de que é deusa.
     Acontece, entrementes, a festa dos pretendentes.” (Scholie MPV)


volta, a seguir, para a terra querida do teu nascimento, 
um cenotáfio lhe erige, prestando-lhe as honras funéreas, 
ricas, tal como convém, e a tua mãe depois dá um marido. 
Logo que tudo hajas feito e a bom termo, de acordo, levado, 
no íntimo da alma reflete, e no peito, também, valoroso, 
como consigas matar, claramente ou por modo encoberto, 
os pretendentes, no próprio palácio, que bem não te fica, 
como criança, brincar; para tal, já passaste da idade. 
Ou não soubeste da fama que Orestes divino entre os homens 
veio a alcançar, por haver dado a Morte ao Tiestíada Egisto,

que, com traiçoeira artimanha, matara seu pai muito ilustre? 
Tu, também, caro! Crescido te vejo e com bela aparência. 
Sê corajoso, porque também possam vindoiros louvar-te. 
Ora pretendo tornar para a nave ligeira, a ajuntar-me 
aos companheiros, talvez agastados com minha demora. 
Cuida tu próprio de tudo e medita nas minhas palavras.” 
  O ajuizado Telêmaco desta maneira lhe fala: 
“Hóspede, tuas palavras são ditas com ânimo amigo, 
como de pai para filho; jamais poderei esquecê-las. 
Mas, muito embora desejes partir, fica um pouco, te peço,

que te banhes e possas dar largas ao peito querido, 
para depois ao navio voltares, levando um presente, 
muito valioso e bonito, que seja lembrança de minha 
parte, tal como os amigos com os hóspedes fazem de grado.” 
  A de olhos glaucos, Atena, lhe disse, em resposta, o seguinte: 
“Não me demovas do intento, pois muito me importa ir embora. 
Quanto ao presente, se tanto o desejas, que seja na volta, 
quando de novo passar por aqui; levá-lo-ei para casa. 
Por mais valioso que escolhas, terás outro igual conquistado.” 
   A de olhos glaucos, Atena, afastou-se ao dizer tais palavras. 

Desapareceu como pássaro, tendo-lhe ao peito insuflado 
força e coragem, fazendo-o ainda mais de Odisseu recordar-se 
do que até então o fizera. Transborda-lhe o peito de espanto 
ao refletir sobre o caso, pois que era um dos deuses notara. 
Os pretendentes procura, a seguir, qual um deus na aparência. 
  Todos, em volta, escutavam silentes o aedo famoso, 
que lhes cantava o retorno funesto que Palas Atena 
houve por bem decretar ao voltarem de Troia os Aquivos. 
Dos aposentos de cima escutou a cantiga divina 
a virtuosa Penélope, filha de Icário. Resolve,

sem mais demora, baixar pelas longas escadas da casa, 
mas não sozinha, que duas criadas ao lado a acompanham. 
Quando a divina mulher o lugar alcançou onde estavam 
os pretendentes, no umbral se deteve de bela feitura, 
tendo as feições escondidas num véu de lavor admirável. 
De cada lado lhe fica uma serva de espírito casto. 
Lágrimas verte copiosas e ao divo cantor se dirige: 
  “Fêmio, canções diferentes tu sabes, que os homens encantam 
gestas de heróis e de deuses, que os vates gloriosos propagam. 
Dessas, lhe canta qualquer, e que todos te escutem silentes

vinho a beber. Não prossigas, porém, nessa história tão triste, 
que o coração se me aperta no peito ao ouvir-te a cantiga, 
o que acontece dês que a incomportável saudade me aflige, 
pela querida cabeça, que sempre à memória me ocorre, 
pelo varão, cuja fama em toda a Hélade e em Argos se estende.” 
  O ajuizado Telêmaco desta maneira lhe fala: 
“Mãe, por que causa proíbes que o nobre cantor nos deleite 
com o que à mente lhe vem? Não têm culpa, por certo, os cantores, 
sim tem-na Zeus, é o culpado, que os dons distribui entre os homens 
laboriosos por modo variável, tal como lhe agrada.

Não o censures por ter-nos cantado as desgraças dos Dânaos, 
pois entre o povo recebem mais altos louvores os cantos 
que para o ouvinte mais novos lhe soam, de fatos recentes. 
Ânimo forte te cumpre ora ter para ouvi-lo sem mágoa. 
Não foi somente Odisseu quem privado se viu do retorno, 
mas também outros heróis pereceram nos plainos de Troia. 
Para o teu quarto recolhe-te e cuida dos próprios lavores, 
roca e tear, e às criadas solícitas ordens transmite 
para que tudo executem, que aos homens importa a palavra, 
mormente a mim, a quem cumpre assumir o comando da casa.”

Cheia de espanto, Penélope aos seus aposentos retorna 
pois lhe calaram no peito as sensatas palavras do filho. 
Acompanhada das servas, subiu para os seus aposentos, 
para chorar pelo caro marido, Odisseu, té que sono 
muito tranquilo nos olhos lhe Palas Atena vertesse. 
Os pretendentes na sala sombria levantam tumulto, 
todos a arder em desejos de o leito poder compartir-lhe. 
  O ajuizado Telêmaco desta maneira lhes fala: 
  “De minha mãe pretendentes, soberbos e cheios de orgulho, 
ora gozemos da festa; ninguém faça bulha importuna,

pois não há nada mais belo que um canto escutar delicioso, 
tal como os deste cantor, que semelha na voz a um dos deuses. 
Mas amanhã muito cedo, reunidos sereis todos na ágora, 
para que eu possa anunciar, sem ambages, o que vos intimo: 
abandonardes-me a casa por outros mais gratos convites 
e dardes festas recíprocas, mas só com vossa fazenda. 
Mas se julgardes melhor e mais cômodo assim continuardes 
impunemente a gastar os haveres de um homem somente, 
bem, prossegui! que implorar hei de aos deuses eternos do Olimpo. 
Zeus me dará, porventura, alcançar a vingança almejada,

para que inultos venhais a morrer aqui dentro de casa.” 
  Disse; os presentes, ouvindo-o, morderam os lábios com força, 
maravilhados de como Telêmaco a todos falara. 
Disse-lhe Antínoo, de Eupites nascido, em resposta, o seguinte: 
  “Foram teus mestres, por certo, Telêmaco, os deuses eternos, 
que te ensinaram o orgulho e a falar desse modo grandíloquo. 
Zeus não permita que venhas em Ítaca, de ondas cercada, 
a governar, muito embora isso seja tua herança paterna.” 
  O ajuizado Telêmaco desta maneira lhe fala: 
“Agastar-te-ei, porventura, com minhas palavras, Antínoo?

Fora de minha vontade reinar, se assim Zeus o deixasse. 
Ou te parece ser isso entre os homens o pior dos destinos? 
De forma alguma quem reina é infeliz, porque logo sua casa 
muito opulenta se torna e ele próprio bem mais respeitado. 
Mas dos Aqueus muitos príncipes há nos contornos desta ilha, 
tanto da nova progênie, assim como de troncos mais velhos. 
Que seja rei qualquer deles, que o divo Odisseu já está morto. 
Eu, quanto a mim, me contento em mandar nesta casa, que é nossa, 
e nas escravas, que o divo Odisseu como espólio nos trouxe.” 
  Disse-lhe Eurímaco, filho de Pólibo, então, em resposta:

 “Isso, Telêmaco, se acha assentado nos joelhos dos Deuses, 
quem há de em Ítaca, de ondas cercada, exercer o reinado. 
Fica na posse de tua fazenda e dirige tua casa, 
que, enquanto houver habitantes em Ítaca, não há de um homem 
contra teu próprio querer expoliar-te exercendo violência. 
Ora, meu caro, a respeito desse hóspede quero falar-te. 
Donde nos veio tal homem? Que terra o envaidece de origem? 
Progenitores quais tem, e a que pátria, também, se filia? 
Trouxe-te, acaso, a notícia de estar o teu pai de tornada, 
ou veio aqui simplesmente por causa do próprio interesse?

Rapidamente voltou, sem dar tempo a nenhum dos presentes 
de conhecê-lo. No entanto, revela aparência mui nobre.” 
  O ajuizado Telêmaco desta maneira lhe fala: 
“Não é possível, Eurímaco; morto foi ele ao retorno. 
Já não dou crédito algum às pessoas que o dizem de volta, 
como, também, não consulto os oráculos, quando, adivinho 
por minha mãe convidado, é frequente, os expende na sala. 
Trata-se de hóspede antigo de nossa família, de Tafo; 
Mentes se chama e se orgulha de ser descendente de Anquíalo 
justo; dirige o destino dos Táfios amantes do remo.”

 Isso disse ele; mas na alma que é deusa imortal reconhece. 
  Voltam os mais a dançar no compasso do canto agradável, 
a divertirem-se à espera de que fosse a noite chegada. 
Quando o crepúsc’lo baixou, ainda o grato festim prosseguiu; 
todos, então, se dispersam, em busca dos próprios palácios. 
Sobe Telêmaco para o seu quarto no esplêndido pátio, 
onde lhe haviam construído aposento em lugar bem aberto. 
Vai para a cama, volvendo no peito cuidados diversos. 
Iluminava-lhe os passos, com um facho na mão, Euricleia, 
gênita de Opos, que filha se diz do guerreiro Pisénor,

que, há muito tempo, Laertes comprara com os próprios haveres, 
na flor da idade; por ela ele deu vinte bois, esse o preço, 
tendo-a em casa acatado tal como se esposa lhe fosse, 
sem nunca haver compartido do leito; temia a consorte. 
Essa, portanto, aclarava-lhe os passos, pois muito o estimava, 
mais que qualquer das escravas, pois desde pequeno o criara. 
Abre Telêmaco a porta do quarto de forte feitura, 
senta-se logo no leito e, a seguir, despe a túnica fina 
e para os braços a joga da velha de sábios conselhos. 
Esta, tomando da túnica, dobra-a com todo o cuidado e a dependura

 no gancho do lado do leito crivado. 
Vem para fora e, a seguir, puxa a porta por meio da argola 
toda de prata, esticando por fim a correia da tranca. 
Por toda noite ali fica, envolvido num velo de ovelha, 
a refletir no caminho a que Palas Atena o exortara. 

continua página 664...
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes

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