domingo, 23 de agosto de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 3 (VIII. Saboreando o conhaque)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO III
OS SENSUAIS
VIII
SABOREANDO O CONHAQUE
 
     A discussão chegara ao fim, mas, coisa estranha, Fiódor Pávlovitch, tão alegre até então, ensombreceu-se. Serviu-se de mais um copo de conhaque, o que já era demais.

— Vão-se embora, jesuítas, fora daqui! — gritou ele para os criados.
— Vai-te, Smierdiákov, receberás hoje o ducado prometido. Não te desoles, Gregório, vai procurar Marfa, ela te consolará, cuidará de ti. Esses canalhas não nos deixam descansar — disse ele, de mau humor, quando os criados saíram, obedecendo-lhe às ordens.
— Smierdiákov vem agora aqui todos os dias depois do jantar. És tu que o atrais, que o tratas com mimos? — perguntou ele a Ivã Fiódorovitch.
— Absolutamente — respondeu este.
— Deu-lhe na veneta mostrar respeito por mim, é um lacaio, um pulha. Fará parte da vanguarda, quando o momento chegar. 
— Da vanguarda?  
— Haverá outros e melhores, mas haverá muitos como ele.
— E quando chegará o momento?
— O foguete arderá, mas talvez não até o fim. No momento, não gosta o povo de ouvir esses queima panelas.
— Com efeito, aquela burra de Balaão pensa que não acaba mais, e Deus sabe até onde isso pode ir. 
— Ele armazena idéias — observou Ivã, sorrindo.
— Vês tu? Sei que ele não me pode tolerar, nem a mim nem aos outros, e a ti em primeiro lugar, se bem que creias que "lhe deu na veneta mostrar respeito por ti". E quanto a Aliócha, ele despreza Aliócha. Mas não é ladrão, nem falador; não sai espalhando coisas; faz excelentes pastéis de peixe... Ah! Afinal, que o diabo o leve! Vale a pena falar dele?
— Decerto que não.
— E, quanto ao que ele pensa lá consigo, é preciso em geral chicotear o mujique russo. Sempre foi minha opinião. Nosso mujique é um velhaco, indigno de compaixão, e fazem bem em bater-lhe por vezes ainda agora. É a bétula que faz a força da terra russa, e ela perecerá com as florestas. Sou a favor das pessoas de espírito. Deixamos de bater nos mujiques, por liberalismo, mas eles continuam a chicotear a si mesmos. E fazem bem. "Com a medida com que me dirdes, vos medirão a vós. " É bem isto, não é?... Meu caro, se soubesses como odeio a Rússia... isto é, não a Rússia, mas todos os seus vícios... e talvez a Rússia. Tout cela, c'est de Ia cochonnerie. Sabes o que amo? Amo o espírito. 
— O senhor serviu-se outro copo. Já bebeu bastante.
— Espera, tomarei ainda dois e acabou-se. Mas interrompeste-me. De passagem por Mókroie, conversei um dia com um velho, que me disse: "Gostamos, mais do que tudo, de condenar as moças a açoites, e encarregamos os rapazes de executar a sentença. Em seguida, o rapaz toma como noiva aquela a quem chicoteou, de modo que se tornou isso um costume entre nós para as moças". Que sadistas, hein? Digam o que disserem, é engraçado. Se fôssemos ver isso, hein? Aliócha, ficas corado? Não te envergonhes, meu filho. É pena que não tenhas ficado hoje para jantar com o padre abade. Teria falado aos monges a respeito das moças de Mókroie. Aliócha, não me queiras mal por ter ofendido o padre abade. A cólera arrebata-me. Porque, se há um Deus, se ele existe, evidentemente sou culpado então, e responderei por isso, mas, se ele não existe, há necessidade ainda desses teus padres? Não seria demais se lhes cortassem a cabeça, porque eles impedem o progresso. Crês tu, Ivã, que isso me atormenta? Não, tu não o crês, vejo-o nos teus olhos. Crês que não sou senão um palhaço, como se pretende. Aliócha, crês tu nisso, crês tu?
 — Não, não o creio.
— E eu estou persuadido de que falas sinceramente e que vês com justeza. Não és como Ivã. Ivã é presunçoso... No entanto, gostaria de acabar com o teu mosteiro. Seria preciso suprimir duma vez essa engenhoca mística em toda a terra russa, para converter todos os imbecis à razão. Quanto dinheiro e quanto ouro afluiriam para o Tesouro!
— Mas por que suprimir os mosteiros? — perguntou Ivã.
— A fim de que a verdade resplandeça mais depressa.
— Quando essa verdade resplandecer, primeiramente despojá-los-ão, depois... suprimi-los-ão.  
— Ora! Mas talvez tenhas razão. Que asno sou! — exclamou Fiódor Pávlovitch, coçando a testa. — Paz ao teu mosteiro, Aliócha, se é assim. Nós, pessoas de espírito, ficamos no quente e bebemos conhaque. É sem dúvida a vontade expressa de Deus. Ivã, dize me, há um Deus, sim ou não? Espera, responda-me seriamente! Por que ris ainda?
— Rio de sua observação espirituosa a respeito da fé que revelou Smierdiákov a respeito dos dois eremitas capazes de mover montanhas.
— É a mesma coisa? 
— Totalmente. 
— Pois bem, por consequência, sou também um homem russo, com a mesma característica russa, e tu, filósofo, podes ser apanhado com uma característica do mesmo gênero. Queres que te apanhe? Apostemos que será amanhã. Mas dize-me, no entanto, há um Deus ou não? Somente é preciso que me fales seriamente. 
— Não, não há Deus. 
— Aliócha, Deus existe? 
— Sim, existe. 
— Ivã, há imortalidade? Por pequena que seja, por mais modesta? 
— Não, não há. 
— Nenhuma? 
— Nenhuma.
— Quer dizer, um zero absoluto, ou uma parcela? Não haveria uma parcela? 
— Um zero absoluto. 
— Aliócha, há imortalidade? 
— Sim. 
— Deus e a imortalidade juntos? 
— Sim. É em Deus que repousa a imortalidade.
— Hum! Deve ser Ivã quem tem razão. Senhor, quando se pensa quanto de fé e de energia essa quimera tem custado ao homem, em pura perda, desde milhares de anos! Quem, pois, zomba assim da humanidade? Ivã, pela derradeira vez e categoricamente: há um Deus, sim ou não? 
— Não, pela derradeira vez. 
— Quem, pois, zomba do mundo, Ivã? 
— O diabo, provavelmente — escarneceu Ivã. 
— O diabo existe? 
— Não, não existe. 
— Tanto pior. Não sei o que teria eu feito ao primeiro fanático que inventou Deus. Enforcá-lo seria insuficiente! 
— Sem essa invenção, não haveria civilização. 
— Deveras? Sem Deus? 
— Sim. E não haveria conhaque tampouco. Vai ser preciso retirá-lo. 
— Espera, espera! Ainda um copito! Ofendi Aliócha. Não me queres mal, não é, meu queridinho Alieksiéitchik? 
— Não, não lhe quero mal. Conheço seus pensamentos. Seu coração vale mais que sua cabeça. 
— Meu coração vale mais que minha cabeça? De quem são essas palavras? Ivã, gostas de Aliócha? 
— Sim, amo-o. 
— Ama-o (Fiódor Pávlovitch estava meio embriagado). Escuta, Aliócha, fui grosseiro há pouco com teu stáriets, mas estava superexcitado. É um homem inteligente, que achas, Ivã? 
— Poderia ser. 
— Decerto, il y a du Piron là-dedans¹. É um jesuíta russo. A necessidade de representar a comédia, de usar uma máscara de santidade, indigna-o interiormente, porque é um caráter nobre. 

[1] Há Piron dentro disto.

— Mas ele crê em Deus. 
— Nem 1 copeque. Não o sabias? Ele mesmo fala disso a todo mundo, ou antes, a todas as pessoas inteligentes que vão vê-lo. Declarou sem rebuços ao Governador Schultz: "Creio, mas ignoro em quê". 
— Deveras? 
— É textual. Mas estimo-o. Há nele alguma coisa de Mefistófeles, ou melhor, do Um Herói de Nosso Tempo... Arbiénin, é este mesmo seu nome?.., Vês tu? É um sensual, e a tal ponto que não estaria tranquilo, mesmo agora, se minha mulher ou minha filha fossem confessar-se com ele. Quando começa ele a contar, se tu soubesses... Há três anos, convidou-nos a tomar chá, com licores (porque as damas enviam-lhe licores); pôs-se a descrever sua vida de outrora, de modo que a gente só faltava morrer de rir... e como teve de avir-se para curar uma senhora... "Se não tivesse dor nas pernas", disse ele, "dançaria para vocês certa dança. " Hein? Que sujeito! "Eu também levei vida alegre", acrescentou ele. Extorquiu 60 000 rublos ao negociante Diemídov. 
— Como? Roubando-o?
— O outro havia-se confiado a ele, acreditando-o um homem de honra. "Guarde-os para mim, amanha vão passar minha casa em revista. " O santo homem guardou tudo. "Tu os deste para a igreja", disse ele. Disse- lhe que era ele um tratante. "Não", replicou ele, "mas tenho ideias largas... " De resto, é de um outro que se trata. Confundi... sem dar por isso. Ainda um copinho e pronto. Leva a garrafa, Ivã. Por que não me detiveste nas minhas mentiras? 
— Sabia que o senhor mesmo se deteria.
— É falso, somente por maldade não disseste nada. No fundo, tu me desprezas. Vieste à minha casa para mostrar teu desprezo. 
— Vou-me embora; o conhaque começa a subir-lhe à cabeça. 
— Pedi-te insistentemente que fosses passar um ou dois dias em Tchermachniá, mas não fizeste caso. 
— Partirei amanhã, já que faz tanta questão. 
— Não há perigo. Queres espionar-me; tal é teu fito, maldito, e o que te retém aqui.  

     O velho não se acalmava. Estava naquele ponto em que certos bêbados, até então pacíficos, fazem de repente questão de se mostrarem malvados.
— Que tens para me olhares assim? Teus olhos me dizem: "Vil beberrão". Revelam desconfiança e desprezo. És um velhaco astuto. O olhar de Aliócha resplandece. Ele não me despreza. Alieksiéi, cuida de não amar Ivã. 
— Não se zangue contra meu irmão! Basta de ofendê-lo — proferiu Aliócha, num tom firme. 
 — Pois bem, seja! Ah! que dor de cabeça! Ivã, leva o conhaque, pela terceira vez te digo. — pôs-se a pensar e mostrou de súbito um sorriso astuto. — Não te zangues, Ivã, contra um pobre velho. Não gostas de mim, eu o sei, mas não te zangues. Não há razão para amar-me. Partirás para Tchermachniá, irei encontrar-te lá e te levarei um presente. Mostrar-te ei lá uma mocinha, atrás de quem ando há muito tempo. Anda ainda descalça, mas não tenhas medo das moças descalças, não se deve desprezá-las, elas são umas pérolas!... — e estalou um beijo na mão. — Para mim — animou-se subitamente, como que desembriagado por um instante, abordando seu tema favorito —, para mim... Ah! meus filhos, meus leitõezinhos... para mim... jamais encontrei uma mulher feia, eis minha máxima! Compreendem? Não, não podem. Não é sangue, é leite que corre nas veias de vocês, ainda não quebraram a casca completamente! Na minha opinião, pode-se encontrar em toda mulher algo de muito interessante, que lhe é particular, somente é preciso saber descobri-lo, eis o quid! É um talento! Para mim nunca houve feionas. Basta o sexo e é já muito... Mas isto está fora do alcance de vocês! Até mesmo entre as solteironas velhas, encontram-se por vezes encantos tais, que a gente pergunta a si mesmo como é que imbecis puderam deixá-las envelhecer sem as notar! É preciso em primeiro lugar surpreender uma dessas que andam descalças, é assim que se deve fazer. Não o sabias? É preciso que ela fique maravilhada e confusa por ver um bárin² amoroso do focinhozinho dela. Por sorte, há e sempre haverá senhores para tudo ousar e criadas para obedecer-lhes. Basta isto para felicidade da existência! A propósito, Aliócha, sempre causei espanto à tua defunta mãe, mas duma outra maneira. Por vezes, depois de havê-la privado de carícias, expandia- me diante dela num momento dado, caía a seus joelhos, beijando-lhe os pés, e sempre lhe provocava uma risadinha convulsiva, aguda mas sem estrépito. Ela não ria de outra forma. Sabia que sua crise começava sempre assim, que no dia seguinte ela gritaria como uma possessa, e que aquela risadinha só exprimia a aparência de um entusiasmo; mas era sempre isto! A gente sempre encontra, quando sabe procurar. Um dia um tal Bieliávski, um rico bonitão, que lhe fazia a corte e frequentava nossa casa, esbofeteou-me na presença dela. Mansa como um carneiro, pensei que ela ia bater-me: "Tu foste batido, ele te esbofeteou!", dizia ela. 'Tu me vendias a ele... Como ousou ele, na minha presença? Trata de não me aparecer, corre a desafiá-lo a um duelo!... " Conduzi-a então ao mosteiro, onde rezaram sobre ela para acalmá-la, mas, juro-te perante Deus, Aliócha, jamais ofendi a minha pequena endemoniada. Uma vez somente, foi no primeiro ano de nosso casamento, rezava ela demais, observava estritamente as festas da Virgem, e recusava-me a entrada de seu quarto. "Vou curá-la de seu misticismo!", pensava eu. "Vês", disse, "este ícone que tens como milagroso? Tiro-o, vou cuspir em cima dele na tua presença e nenhum castigo sofrerei!" "Meu Deus, ela vai Tratar-me", digo a mim mesmo. Ela, porém, teve apenas um sobressalto, juntou as mãos, ocultou seu rosto, foi tomada dum tremor e caiu sobre o soalho... Aliócha! Aliócha! Que tens? Que tens?

[2] Senhor. Tratamento respeitoso dado outrora às pessoas classe privilegiada. Atualmente, emprega-se no sentido irônico de comodista, preguiçoso.

     O velho levantou-se, aterrorizado. Desde que se começou a falar de sua mãe, o rosto de Aliócha alterava-se pouco a pouco; corou, seus olhos cintilaram, seu lábios tremeram... O velho bêbedo nada notara, até o momento em que Aliócha teve uma crise estranha, reproduzindo, traço por traço, o que acabava ele de contar a respeito da "endemoniada". De- súbito, levantou-se da mesa, exatamente como sua mãe, de acordo com a narrativa, juntou as mãos, ocultou o rosto, deixou-se cair sobre sua cadeira, todo sacudido por uma crise de histeria, acompanhada de lágrimas silenciosas.

— Ivã! Ivã! Água, depressa! Completamente como a mãe dele. Tira água com a colher grande e asperge o, como eu fazia com ela. É por causa de sua mãe, por causa de sua mãe... — murmurou ele a Ivã.
— Sua mãe era também a minha, suponho, que pensa o senhor? — não pôde Ivã impedir-se de dizer, com um desprezo cheio de cólera. Seu olhar faiscante fez o velho estremecer. Coisa estranha, por um instante, o velho pareceu perder de vista que a mãe de Aliócha era também a de Ivã...
— Como, tua mãe? — murmurou, sem compreender. — Por que dizes isto? A propósito de que mãe? Será que ela... Ah! diabo! é também a tua! Pois bem, onde tinha eu a cabeça? Desculpa-me, mas eu acreditava, Ivã... Eh! eh! eh! — parou, com um sorriso idiota de bêbedo. 

     No mesmo instante, um barulho reboou no vestíbulo, gritos furiosos se elevaram, a porta abriu-se e Dimítri Fiódorovitch irrompeu na sala. O velho apavorado precipitou-se para Ivã. 

— Ele vem matar-me! Não me entregues! — exclamou ele, agarrado às abas do paletó de Ivã.

continua na página 199...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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