em busca do tempo perdido
volume II
À Sombra das Moças em Flor
Segunda Parte
Segunda Parte
Nomes de Lugares: o Lugar
(j)
continuando...
Ocorrera-lhe, inspirado pela ternura paterna e pelo desejo de emocionar o filho, a ideia de mandar buscar o instrumento. Mas faltava o "tempo material", ou antes, achou que faltava; mas apressou-se o jantar porque Saint-Loup não dispunha de tempo suficiente, esperando um tio que vinha passar de visita com a Sra. de Villeparisis. Como esse tio era muito dado aos exercícios físicos, sobretudo às longas caminhadas, era em grande parte a pé que percorreria entre o castelo, onde veraneava, e Balbec, dormindo à noite nas fazendas, de que era incerto o momento em que chegaria. Sem ousar se mexer, Saint-Loup encarregou-me até de levar a Incarville, onde ficavam os escritórios do telégrafo, o despacho que enviava diariamente à sua amante. O tio que esperava chamava-se Palamede, prenome que herdara dos príncipes da Sicília, seus antepassados; mais tarde, quando encontrei nas minhas leituras históricas, pertencentes potentado ou príncipe da Igreja, esse mesmo nome, bela medalha da Renascimento - alguns dizem ser uma verdadeira antiguidade - sempre na família, tendo de descendente em descendente, desde o gabinete do Vaticano até o tio amigo, senti o prazer reservado àqueles que, não podendo por escassez de formar uma coleção de medalhas ou uma pinacoteca, procuram velhos nomes (nomes de lugares, documentais e pitorescos como um mapa antigo, uma paisagem ampla, uma insígnia ou um foro consuetudinário, nomes de batismo onde se ouve ressoar, nas belas finais francesas, o defeito de pronúncia, o sotaque de uma vulgaridade racial, a fala viciosa segundo a qual nossos antepassados impunham às palavras latinas e saxãs mutilações permanentes que mais tarde passaram a ser nobres legisladoras de gramáticas) e, em suma, graças a tais coleções de sonoridades antigas dão concertos a si mesmos, à maneira dos que adquirem violas de gamba e violas de amor para tocar música de outrora em instrumentos antigos. Saint-Loup me disse que, mesmo na mais fechada sociedade aristocrática, seu tio Palamede ainda se distinguia por ser dificilmente acessível, desdenhoso, muito aferrado à sua nobreza, formando com a cunhada e algumas pessoas escolhidas o que era conhecido como o círculo dos Fênix. Ainda aí era tão temido por suas insolências que ocorreu algumas vezes que certos aristocratas, desejosos de conhecê-lo, haviam recorrido a seu próprio irmão, que se negou a apresentá-los.
- Não, não me peçam para apresentá-los a meu irmão Palamede. Mesmo que eu, minha
mulher, nós todos nos empenhássemos, nada obteríamos. Ou o senhor se arriscaria a que ele
não fosse amável, e eu não desejo isso. - No Jockey, ele e alguns amigos tinham relacionado
duzentos sócios a quem jamais se deixariam apresentar. E, na casa do conde de Paris, era
conhecido pelo apelido de "Príncipe", devido a sua elegância e a seu orgulho.
Saint-Loup me falou da juventude, há muito passada, de seu tio. Todos os dias levava
mulheres ao apartamento de solteiro que dividia com dois amigos, bonitos como ele, razão pela
qual os chamavam as "Três Graças".
- Um dia, um dos homens que atualmente é muito bem visto no faubourg Saint-Germain,
como diria Balzac, mas que teve um primeiro período bastante tumultuado e mostrava estranhas
preferências, pedira a meu tio que o deixasse ir àquele apartamento. Porém, mal chegado,
declarou-se não às mulheres e sim a meu tio Palamede. Este fingiu não entender, chamou à parte
os dois amigos com uma desculpa qualquer; voltaram, pegaram o culpado, despiram-no e lhe
deram uma surra até que sangrasse, pondo-o depois porta afora, aos pontapés, sob um frio de
dez graus abaixo de zero. O infeliz foi encontrado semimorto, a polícia instaurou inquérito, e
custou muito ao desgraçado que a coisa não seguisse adiante. Hoje meu tio não daria um castigo
tão cruel e você nem imagina o número de pessoas do povo a quem trata com afeto, ele tão altivo
para com as pessoas da alta roda. Protege-os, e eles lhes pagam com a ingratidão. Ora é um
criado que o serviu num hotel, a quem arranja uma colocação em Paris, ora um camponês a
quem custeia o aprendizado de um ofício. É até o lado bem gentil de meu tio, em contraste com o
lado mundano.
Com efeito, Saint-Loup pertencia a esse tipo de rapazes aristocratas situados a uma altura
onde podem brotar essas expressões: "É o que ele tem de gentil, é o seu lado gentil", sementes
preciosas que logo determina" modo de conceber as coisas, na qual não se vale nada e o "povo"
vale tudo-, em outras palavras, o oposto do orgulho plebeu. - Na juventude, parece que nem pode
imaginar como ele dava o tom, como ditava a lei na sociedade. De sua parte em qualquer
circunstância, fazia o que lhe era mais agradável, mais cômodo, mas era logo imitado pelos
esnobes. Se lhe acontecia ter sede no teatro e mandasse tirar bebidas ao camarote, era certo
que, na semana seguinte, todos os salõezinhos detrás dos camarotes se encheriam de refrescos.
Num verão muito chuvoso, porque ele sofreu um pouco de reumatismo, encomendou um
sobretudo de vicunha fina, mas bem quente, que só se usa em cobertas de viagem, e respeitou o
tecido de listras azuis e alaranjadas. Imediatamente, os grandes alfaiates receberam dos clientes
encomendas de casacos listrados de azul, com franjas, de pelos compridos. Se, por um motivo
qualquer, desejava tirar toda a solenidade de um jantar no castelo onde passava o dia, e, para
indicar esse tom, não vestia casaco sentava-se à mesa com a jaqueta que usara de tarde, virou
moda jantar no campo jaqueta. Se, ao comer um doce, se servia de um garfo em vez da colher,
ou de um talher que inventara e que havia encomendado a um ourives, ou mesmo dedos, não era
mais permitido fazer de outro modo. Sentira vontade de ouvir de novo certos quartetos de
Beethoven (pois, com todas as suas ideias extravagantes, não é nenhum estúpido e possui
talento) e encarregou alguns músicos de tocarem em sua casa aquelas peças, para ele e os
amigos. A maior elegância daquele tempo era dar reuniões pouco frequentadas, onde se ouvia
música de câmara. Creio que deve ter se aborrecido nesta vida. Bonito como era, deve ter tido
muitas mulheres - Apenas não poderia dizer quais, pois ele era muito discreto. Mas sei que
enganou muito minha pobre tia. O que não impediu que fosse extremamente atencioso com ela,
que ela o adorasse, e que tenha chorado durante anos. Quando está em Paris vai ainda ao
cemitério quase todos os dias.
Na manhã seguinte ao dia em que Robert me falara assim de seu tio, enquanto ele o
esperava em vão, passava eu sozinho pela frente do cassino, vindo ao hotel, quando tive a
sensação de estar sendo observado por alguém que se achava longe. Virei a cabeça e dei com
um homem de uns 40 anos, muito robusto, com bigodes bem pretos e que, batendo
nervosamente com a bengala nas calças, fixava em mim os olhos dilatados pela atenção. Por
instantes, aqueles eram atravessados por olhares de extrema atividade, próprios apenas dos
homens que estão diante de uma pessoa a quem desconhecem, pessoa que, por motivo, lhes
inspira ideias que não ocorreriam a outros - por exemplo, os loucos dos espiões. Lançou-me um
olhar derradeiro, a um tempo ousado e prudente; profundo, como o último golpe antes de iniciar a
fuga, e, depois de olhar em redor, assumindo de repente um ar distraído e altaneiro, virou-se
inteiramente para um cartaz de teatro, em cuja leitura se absorveu, cantarolando uma canção,
enquanto arrumava a rosa musgosa da botoeira. Tirou uma caderneta do bolso e pareceu tomar
nota do espetáculo anunciado; olhou o relógio duas ou três vezes, baixou mais sobre a testa a
palheta de cor negra, prolongando-lhe a aba com a mão em viseira como para ver alguém que
não chegava, fez um gesto de descontentamento como esses que a gente faz quando já está
farto de esperar, mas que nunca fazemos quando esperamos de verdade; depois, empurrando o
chapéu para a nuca e deixando aparecer o cabelo cortado à escovinha, mas que apresentava de
cada lado grandes mechas onduladas, soltou o suspiro ruidoso não das pessoas que têm muito
calor, mas das que desejam aparentar que estão com calor. Veio-me a ideia de que se tratava de
um ladrão de hotel, que, já tendo reparado em mim e minha avó nos dias anteriores, e preparando
um golpe, vendo que o havia surpreendido enquanto me espiava, adotara aquela nova atitude
para despistar, e expressava distração e indiferença, mas com tão agressivo exagero que seu
objetivo, mais que o de dissipar as suspeitas que eu porventura tivesse, parecia o de vingar uma
humilhação que eu lhe houvesse infligido sem querer, dando-me a entender não tanto que não me
houvesse visto, mas que eu era sem importância demais para atrair a sua atenção. Empertigava
se com ar de bravata, franzia os lábios, torcia o bigode e dava ao olhar um tom de indiferença, de
dureza, quase insultante. De modo que a singularidade de sua expressão me fazia toma-lo tanto
por um ladrão como por um doido. Todavia seu modo de trajar era extremamente correto, e muito
mais sério e simples que o de todos os banhistas que eu via em Balbec, de forma que justificava
minha jaqueta escura, tão frequentemente humilhada pela deslumbrante alvura banal das roupas
de praia. Porém minha avó vinha a meu encontro, demos uma volta juntos e, uma hora depois,
esperava-a diante do hotel, onde entrara por um momento; vi então sair a Sra. de Villeparisis na
companhia de Robert de Saint-Loup e do desconhecido que me olhara tão fixamente à porta do
cassino. Com a rapidez do relâmpago, o seu olhar me atravessou como no momento em que o
vira pela primeira vez, e, como se não me tivesse visto, voltou a pôr diante dos olhos aquele olhar
embotado, neutro, que finge nada ter visto fora e não é capaz de ler coisa alguma para dentro,
olhar que expressa apenas a satisfação de sentir a seu redor as pestanas que entreabre com sua
beatífica redondeza, o olhar devoto e derretido de alguns hipócritas, o olhar presunçoso de certos
tolos. Vi que mudara de roupa. A que usava era ainda mais sombria; e, sem dúvida, o fato é que a
verdadeira elegância está menos longe da simplicidade que a falsa; mas havia outra coisa:
olhando-o de bem perto, via-se que, se a cor estava quase totalmente ausente dessas roupas,
não era porque as banira por lhes ser indiferente, mas antes porque as proibira por um motivo
qualquer. E a sobriedade que denotavam parecia provir mais da obediência a um regime do que
da falta de gulodice. Um debrum verde-escuro se harmonizava, no tecido das calças, com o
desenho das meias, refinamento que provava a vivacidade de um gosto cultivado em qualquer
outra parte e ao qual esta única concessão fora feita por tolerância, ao passo que uma pinta
rosada na gravata era imperceptível como uma liberdade que mal ousamos tomar.
- Como vai? Apresento-lhe o meu sobrinho, o barão de Guermantes - disse-me a Sra. de
Villeparisis, enquanto o desconhecido, sem me olhar, resmungando um vago "Encantado", que fez
seguir de uns grunhidos para emprestar à amabilidade um tom forçado, e dobrando o dedo
mínimo, o indicador e o estendeu-me o médio e o anular, sem nenhum anel, que apertei,
protegidos em, luva de couro da Suécia; depois, sem ter erguido os olhos para mim, virou-se para
Sra. de Villeparisis.
- Meu Deus, onde estou com a cabeça? - disse esta. - Já te chamei, barão de Guermantes.
Apresento-lhe o barão de Charles. Afinal, o erro não é grande - acrescentou -, pois também és um
Guermantes.
Nesse meio tempo, saía a minha avó e começamos a andar todos. O tio de Saint-Loup não
só não me honrou com uma palavra mas sequer com o olhar. Se encarava os desconhecidos (e
nesse curto passeio lançou duas ou três vezes o seu olhar profundo e terrível como para sondar
as pessoas insignificantes de condição bem modesta que passavam), em compensação não
olhava posso julgar por mim, as pessoas conhecidas como um policial em missão secreta mas
que mantém os amigos fora de sua vigilância profissional. Deixei minha avó, a Sra. de Villeparisis
e ele conversando juntos, fiquei um pouco atrás com Robert:
- Diga-me, escutei bem? A Sra. de Villeparisis disse a seu tio que era um Guermantes?
- Sim, naturalmente, é: Palamede de Guermantes.
- Mas dos mesmos Guermantes que têm um castelo perto de Combray, que pretendem
descender de Genevieve de Brabante?
- Perfeitamente. Meu tio, que é o que existe de mais heráldico, lhe responderia que o
nosso grito de guerra, que mais tarde foi Passavent, em princípio era Combraysis - disse ele
rindo, para não dar impressão de se envaidecia dessa prerrogativa do grito, próprio só das casas
quase soberanas, dos senhores de brasões. - É irmão do atual proprietário do castelo.
Assim, a Sra. de Villeparisis era parente, e bem próxima, dos Guermantes. Ela, que por
muito tempo fora para mim a senhora que me dera uma caixa de chocolates com um pato,
quando eu era pequeno, caixa então de tal modo a do lado de Guermantes como se tivesse sido
preparada no lado de Méséglise; menos brilhante e menos considerada a meus olhos, que o
oculista de Combray disse que sofria agora subitamente uma dessas altas fantásticas,
semelhantes às baixas, menos imprevistas de outros objetos que possuímos, altas e baixas que
introduzem na nossa adolescência, e nos aspectos de nossa vida onde subsistir algo de nossa
adolescência, mudanças tão numerosas como as metamorfoses de Ovídio.
- Não existem nesse castelo os bustos de todos os antigos senhores de Guermantes?
- Sim, e são um belo espetáculo. - disse Saint-Loup com ironia. - Aqui, entre nós, acho
essas coisas meio ridículas. Mas em Guermantes há coisas de maior interesse: um retrato
impressionante da minha tia, pintado por Carriere. É lindo como um Whistler ou um Velásquez. -acrescentou Saint-Loup, que, no seu zelo de neófito, nem sempre conservava com exatidão a
escala de valores. - Há também quadros muito curiosos de Gustave Moreau. Minha tia é sobrinha
de sua amiga Sra. de Villeparisis, foi educada por ela e se casou com o primo, que também era
sobrinho da tia de Villeparisis, o atual duque de Guermantes.
- Mas então o que é o seu tio...?
- Ele usa o título de barão de Charles. Na verdade, quando meu tio-avô morreu, o tio
Palamede deveria ter tomado o título de príncipe des Laumes, que era o de seu irmão antes que
se tornasse duque de Guermantes, pois na nossa família mudam de nome como quem troca de
camisa. Mas meu tio tem idéias próprias sobre esse assunto. E, como acha que se abusa um
pouco dos ducados italianos, grandezas espanholas, etc., embora pudesse ter escolhido entre
quatro ou cinco títulos de príncipe, preferiu o de barão de Charles como forma de protesto e com
uma simplicidade aparente onde há muito de orgulho. "- Hoje diz ele todo mundo é príncipe;
portanto, é necessário a gente se diferenciar em alguma coisa; tomarei um título de príncipe
quando quiser viajar incógnito." Segundo ele, não há título mais antigo que o de barão de Charles.
Para provar que é anterior ao dos Montmorency, que falsamente se diziam os primeiros barões da
França, ao passo que na verdade o eram apenas da Ilha de França, onde ficava o seu feudo, meu
tio lhe dará explicações durante horas e horas, e com todo o prazer, pois que, embora seja
homem de gosto e muito talento, este assunto de conversação parece lhe interessar sempre. -disse Saint-Loup com um sorriso. - Mas como não sou feito ele, não me faça falar de genealogia,
pois não conheço nada tão aborrecido, tão morto, como isso; e de fato a existência é muito curta
para essas coisas.
Agora eu reconhecia, no olhar duro que me fizera desviar a cabeça há pouco, perto do
cassino, o mesmo que vira fixado em mim em Tansonville, quando a Sra. Swann havia chamado
Gilberte.
- Mas dentre as numerosas amantes que me dizia que seu tio, Sr. de Charles, havia tido,
não estava a Sra. Swann?
- Oh, de jeito nenhum! Quer dizer, ele é um grande amigo de Swann e sempre o defendeu.
Mas nunca se murmurou que fosse amante de sua mulher. Você provocaria um grande espanto
na sociedade se desse a impressão de acreditar nisso.
Não ousei responder-lhe que maior espanto haveria em Combray se eu afirmasse o
contrário.
Minha avó ficou encantada como Sr. de Charles. De fato, ele dava grande importância a
questões relativas a linhagem e posição social, o que minha avó notara; mas sem aquela
severidade onde em geral costuma haver uma inveja e a irritação de ver outra pessoa desfrutar
vantagens que a gente deseja conseguir. Como, pelo contrário, minha avó, contente com sua
sorte e não ficava lamentando de forma alguma o não viver numa sociedade mais brilhante,
servia-se nas da inteligência para observar os caprichos do Sr. de Charles, falava dos Saint-Loup
com essa benevolência desinteressada, sorridente, quase simpático, com que recompensamos o
objeto de nossa observação casual pelo prazer que dá; e tanto mais que desta vez o objeto de
observação era um personagem cujas pretensões ela considerava, senão legítimas, pelo menos
pitorescas; o destacar-se vivamente das personalidades com que ela em geral tinha ocasião de
lidar. Mas minha avó lhe perdoara facilmente o preconceito aristocrático, espertamente por causa
da inteligência e da sensibilidade, que se adivinhava serem eternamente vivas no Sr. de Charles,
ao contrário de tantas pessoas da alta sociedade de quem Saint-Loup escarnecia. Mas tal
preconceito não fora entretanto sacrificado pelo tio, como o fizera o sobrinho, em favor de
qualidades superiores. O Sr. Charles antes conseguira conciliar ambas as coisas. Descendente
dos duques de Nemours e dos príncipes de Lamballe, possuía arquivos, móveis, tapeçarias,
retratos dos antepassados feitos por Rafael, Velásquez e Boucher; podia dizer "visitava" um
museu e uma incomparável biblioteca apenas ao percorrer as acomodações da família, e
colocava, ao contrário, na posição de onde o sobrinho afirmava, descender, toda a herança da
aristocracia. Talvez também, por ser menos ideólogo Saint-Loup, atentava menos nas palavras e
era um observador mais realista dos homens; não queria desprezar um elemento essencial de
prestígio aos olhos das pessoas em geral, e que, se dava à sua imaginação prazeres
desinteressados; muitas vezes ser um auxílio extremamente eficaz para sua atividade utilitária
permanece aberto o debate entre os homens desse gênero e aqueles que obedecem um ideal
interior que os impele a se desfazerem dessas vantagens para tentar realizá-lo, nisto semelhantes
aos pintores e escritores que renunciam à virtuosidade, aos povos artistas que se modernizam,
aos povos guerreiros que tomam a iniciativa do desarmamento universal, aos governos
absolutistas que tornam democráticos e revogam as leis severas, muitas vezes sem que a
realidade recompense seus nobres esforços; pois uns perdem seu talento, outros a secular
predominância; o pacifismo às vezes multiplica a guerra, e a indulgência leva à criminalidade. Se
os esforços de sinceridade e de emancipação de Saint-Loup deviam ser considerados muito
nobres, a avaliar pelo resultado exterior, seria de que o Sr. de Charles se felicitasse por não
participar de tais ideias, visto mandar transportar para sua casa uma grande parte dos admiráveis
entalhamentos do palácio dos Guermantes em vez de trocá-los, como fizera seu sobrinho, por
mobiliário de estilo moderno, dos Lebourg e dos Guillaumin. Não é menos verdade que o ideal do
Sr. de Charles era bastante artificial, se é que tal adjetivo se pode aplicar à palavra ideal, tanto no
sentido social como no artístico. Em certas mulheres muito belas e de rara cultura, cujas avós,
dois séculos antes, estiveram misturadas à glória e elegância do antigo regime, ele descobria uma
distinção que o fazia só sentir-se a gosto em sua companhia; e, sem dúvida, era sincera a
admiração que lhes votava, mas, em grande parte, contribuíam para este sentimento numerosas
reminiscências de história e de arte evocadas por seus nomes, assim como as lembranças da
Antiguidade são um dos motivos do prazer que um homem culto encontra na leitura de uma ode
de Horácio, talvez inferior a alguns poemas de hoje que o deixariam indiferente. Cada uma dessas
mulheres, na opinião do Sr. de Charles, estaria para uma linda burguesa como, para uma tela
contemporânea que represente uma estrada ou um casamento, está um desses quadros antigos
cuja história conhecemos perfeitamente, desde o rei ou o papa que o encomendaram, passando
por determinadas personagens junto a quem sua presença, por doação, compra, roubo ou
herança, nos lembra algum acontecimento, ou, pelo menos, uma aliança de interesse histórico e,
por consequência, representa a aquisição de conhecimentos que adquirimos, dando-lhes uma
nova utilidade, e aumentando o sentimento da riqueza dos recursos da nossa memória ou da
nossa erudição. O Sr. de Charles se felicitava que um preconceito análogo ao seu impedisse
essas grandes damas de conviverem com mulheres de sangue menos puro, pois assim se
ofereciam intactas em sua nobreza inalterada, como essas fachadas do séc. XVIII sustentadas
por lisas colunas de mármore róseo e que o tempo não mudou em nada.
O Sr. de Charles celebrava a verdadeira nobreza de espírito e sentimentos dessas
mulheres, fazendo assim um trocadilho com a palavra nobreza, num equívoco que a si mesmo o
enganava e onde residia a falsidade desse conceito bastardo, dessa mistura ambígua de
aristocracia, generosidade e arte, mas também a sua sedução, perigosa para as criaturas como a
minha avó, a quem o preconceito mais grosseiro porém mais inocente de um nobre, que só vê os
seus brasões e não se preocupa com o resto, teria parecido excessivamente ridículo, mas que
ficaria indefesa desde que algo se lhe apresentasse sob as aparências de uma superioridade
espiritual, a ponto de considerar os príncipes os mais invejáveis dos homens porque poderiam ter
tido um La Bruyere ou um Fénelon como preceptores.
Diante do Grande Hotel, os três Guermantes nos deixaram; iam almoçar na casa da
princesa de Luxemburgo. No momento em que minha avó dizia adeus à Sra. de Villeparisis e
Saint-Loup se despedia dela, o Sr. de Charles, que até então não me dirigira a palavra, deu
alguns passos para trás até chegar a meu lado:
- Vou tomar chá esta noite após o jantar, no apartamento de minha tia Villeparisis, disse-me. - Espero que me dê o prazer de comparecer com a senhora sua avó.- e foi reunir-se à marquesa.
Embora fosse domingo, já não havia mais fiacres diante do hotel como no começo da
temporada. A esposa do tabelião, em particular, achava ser gasto excessivo alugar todo fim de
semana um carro a não ser para ir aos Cambremer; contentava-se em ficar encerrada no quarto.
- A Sra. Blandais está doente? - perguntavam ao tabelião
- Não vir hoje. Tem um pouco de dor de cabeça; deve ser o calor, a trovoada. Mas, uma
coisinha de nada; mas creio que a verão esta noite. Aconselhei-a a que descansasse. Isto só
poderá lhe fazer bem.
continua na página 145...
________________
Leia também:
Volume 1
Volume 2
Primeira Parte
Segunda Parte
À Sombra das Moças em Flor (Nomes de Lugares: o Lugar - j)
Volume 3
Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7
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