sábado, 29 de março de 2025

Marcel Proust - À Sombra das Moças em Flor (Nomes de Lugares: o Lugar - i)

em busca do tempo perdido


volume II
À Sombra das Moças em Flor

Segunda Parte
Nomes de Lugares: o Lugar


(i)

continuando...

      No entanto, esse mérito pessoal era, em certa medida, condicionado aquela ideia. Sua atividade mental, suas aspirações socialistas, que o levavam à procurar jovens estudantes pretensiosos e mal vestidos, tinham nele algo de verdadeiramente puro e desinteressado que não se verificava naqueles rapazes, precisamente porque Robert era um aristocrata. Julgando-se herdeiro de uma casta ignorante e egoísta, Saint-Loup procurava, com sinceridade, que eles lhe perdoassem as origens aristocráticas, que, ao contrário, exerciam sobre eles uma sedução; com que o procurassem justamente por sua estirpe, sempre fingindo em sua presença, uma atitude de frieza e até de insolência. Assim, era Saint-Loup que vivia compelido a tomar a iniciativa para com pessoas que teriam deixado meus pais fiéis à sociologia de Combray, estupefatos porque achariam que era Robert quem devia se esquivar delas. Um dia estávamos, Robert e eu, sentados na areia e ouvimos sair, de uma barraca de lona a nosso lado, imprecações com fervilhamento de judeus que infestavam Balbec.

"Não se pode dar dois passos sem encontrá-los" - dizia a voz. ''Em princípio não sou irredutivelmente hostil à raça judaica, mas assim já é demais. Só se ouve:
"Olha, Apraão, sou eu, Chacó" e parece até estamos em Abuquir'' 

     O homem que esbravejava assim contra Israel saiu por fim da barraca e erguemos os olhos para aquele antissemita. Era meu companheiro Bloch. Imediatamente, Saint-Loup me pediu que lembrasse a Bloch que ambos haviam se conhecido nos exames para o bacharelado, em que Bloch obtivera o prêmio de honra, e depois tinham se encontrado numa universidade popular. 
     Às vezes eu sorria ao perceber em Robert o sinal das lições dos jesuítas, no desassossego que lhe causava o medo de ofender, sempre que um de seus amigos intelectuais cometia um erro mundano; fazia algo ridículo a que ele, Saint-Loup, não dava a menor importância, mas que teria envergonhado o outro se se apercebesse da falha cometida. Era Robert quem se ruborizava como se fosse ele o culpado; por exemplo, no dia em que Bloch prometeu ir vê-lo no hotel, dizendo:

- Como não suporto esperar entre o falso luxo dessas grandes caravanas e os ciganos me fazem passar mal, diga ao laift que os mande ficar em silêncio e que avise a você em seguida.

      Pessoalmente, não tinha muito interesse em que Bloch fosse ao hotel. Ele estava em Balbec, infelizmente não sozinho e sim com suas irmãs, que tinham grande quantidade de parentes e amigos. Ora, essa colônia judia era mais pitoresca do que agradável. Acontecia em Balbec o que ocorre em certos países, a Rússia ou a Romênia, onde os cursos de geografia nos ensinam que a população judia não desfruta do mesmo favor, nem chegou ao mesmo grau de assimilação que em Paris, por exemplo. Andando sempre juntos, sem mistura de nenhum outro elemento, quando as primas e tios de Bloch, ou correligionários de ambos os sexos, iam para o cassino, umas para o baile e os outros se bifurcando para o bacará, formavam um cortejo homogêneo e inteiramente diverso das pessoas que os olhavam passar, gente que os via ali todos os anos sem jamais trocar um cumprimento com eles, nem o grupo dos Cambremer, nem o clã do magistrado, nem os grandes e pequenos burgueses; ou mesmo simples negociantes de cereais de Paris, cujas belas filhas orgulhosas, zombeteiras e tão francesas como as estátuas de Reims, não gostariam de se misturar a essa horda de moças mal-educadas, que levavam a preocupação com a moda dos "banhos de mar" ao ponto de parecerem ter sempre o ar de quem acaba de pescar camarões ou de estarem a fim de dançar o tango. Quanto aos homens, apesar do esplendor dos smokings e dos sapatos envernizados, o exagero de seu tipo fazia pensar nas pesquisas ditas "inteligentes" dos pintores que, tendo que ilustrar os Evangelhos, ou as Mil e Uma Noites, pensam no país onde a cena ocorre, e dão a São Pedro ou a Ali Babá precisamente a mesma cara do jogador mais gordo de Balbec. Bloch me apresentou suas irmãs, a quem tratava com extrema rispidez, cortando-lhes a palavra, e que riam às gargalhadas à menor tirada do irmão, a quem admiravam e idolatravam. De modo que é possível que o ambiente dessa família tivesse, como todas as outras, talvez mais que qualquer outra, muitos encantos, qualidades e virtudes. Mas, para senti-los, seria preciso penetrar nela. Porém esse ambiente não agradava aos demais, o que eles sentiam vendo nisso a prova de um antissemitismo contra o qual faziam frente numa compacta e fechada, onde aliás ninguém sonhava em abrir caminho.
     Quanto ao laift, isto me surpreendia menos que alguns dias antes. BIoch me perguntara por que viera eu a Balbec (por outro lado, parecia-lhe muito natural sua presença ali) e se fora "com a intenção de fazer bons contatos"; quando soube que aquela viagem correspondia a um de meus desejos mais antigos, menos profundo do que ir a Veneza, respondeu-me:

- Sim, naturalmente, tomar sorvetes com belas senhoras, e fingindo que lê as Stones of Venaice de Lord John Ruskin, um melancólico maçante, um dos sujeitos mais chatos que existe. Bloch julgava, portanto, que na Inglaterra não só todas as pessoas do sexo masculino são lordes, mas também que a letra “i” se pronunciava sempre “ai” em inglês. Quanto a Saint-Loup, achava que esse erro de pronúncia não era nada grave; considerava-o decorrente, antes de tudo, da ausência de uma dessas noções que a boa sociedade, que meu novo amigo desprezava tanto quanto as possuía. O medo de que Bloch um dia se certificasse que se diz Venice e que Ruskin não é lorde, e assim imaginasse, retrospectivamente, que Saint-Loup o achara ridículo diante dele fez com que este último se sentisse culpado como se não tivesse mostrado indulgência que lhe sobrava, e o rubor que um dia haveria de colorir o rosto Bloch quando descobrisse o seu erro, ele o sentiu antecipadamente, a reversibilidade, subir ao seu. Pois pensava, e com razão, que Bloch daria mais importância que ele a semelhante erro. E assim o provou Bloch, dias depois, ao me ouviu dizer lift, interrompendo-me:
- Ah, diz-se lift. - E num tom altaneiro: -Aliás, isto não tem nenhuma importância.

      Frase análoga a um reflexo, igual em todos os homens que têm amor-próprio, tanto nas mais graves circunstâncias como nas mais ínfimas, denotando, tanto como no caso presente, que importância parece ter a coisa em questão para quem afirma que não tem importância; frase trágica, às vezes, que é a primeira a escapar e tão lancinante dos lábios de todo homem um pouco orgulhoso quando, negando-lhe um favor, acabara por lhe arrancar a última esperança a que se prendia:

"Muito bem, isto não tem mais importância, vou me arrumar de outro modo"; e esse outro modo a que se vê compelido por algo que não tem importância, às vezes pode ser o suicídio.

      Depois, Bloch me disse coisas muito amáveis. Certamente desejava se mostrar muito atencioso comigo. No entanto, indagou:

- É por vontade de teres à nobreza (aliás, uma nobreza meio esquecida) que frequentas esse Saint-Loup-en-Bray? Pois és muito ingênuo. Deves estar passando por uma crise de esnobismo. És esnobe, mesmo? Sim, não é?

      Não é que seu desejo de ser amável se houvesse bruscamente mudado. Mas o que se chama em francês um tanto incorreto "a má educação" era o seu defeito; portanto, defeito em que reparava, e assim não julgava que pudesse chocar os outros. Na humanidade, a frequência de virtudes idênticas para todos não é mais maravilhosa que a multiplicidade dos defeitos particulares de cada um. Sem dúvida, não é o senso comum a coisa mais disseminada pelo mundo, e sim a bondade. Nos pontos mais remotos e perdidos, assombramo-nos ao vê-la florescer espontânea, como num valezinho distante uma papoula igual às demais no resto do mundo, ela que nunca as viu e que jamais conheceu nada, senão o vento que às vezes faz tremular sua rubra corola solitária. Mesmo que essa bondade, paralisada pelo interesse, não chegue a se exercer, ela todavia existe, e a cada vez que não a impeça de agir um motivo egoísta, por exemplo durante a leitura de um romance ou de um jornal, ela se desabrocha, inclina-se, mesmo no coração daquele que, assassino na vida real, mantém sua ternura, enquanto leitor de folhetins, pelos fracos, pelos justos e perseguidos. Mas a variedade de defeitos não é menos admirável que a semelhança das virtudes. A pessoa mais perfeita possui um certo defeito que choca ou dá raiva. Este homem é de uma bela inteligência, enxerga tudo de um ponto de vista elevado, nunca fala mal de ninguém, mas esquece no bolso as cartas mais importantes que a gente lhe confiou porque ele mesmo se ofereceu para levá-las; e faz com que percamos um encontro importantíssimo, sem nem nos dar um sorriso de desculpas, pois timbra em nunca saber as horas. Este outro é finíssimo, gentil, de modos tão delicados, que só nos diz coisas que nos tornam felizes; mas sentimos que cala sobre outras coisas diferentes, que as esconde no coração, onde elas azedam, e o prazer que tem em nos ver é tão caro que antes nos mataria de cansaço do que nos deixaria sozinhos.
     Um terceiro é mais sincero; porém leva a sinceridade a tal extremo que, na ocasião em que nos desculpamos de não ter ido vê-lo alegando motivos de saúde, insiste em nos fazer saber que fomos vistos no teatro no mesmo dia, e de muito boa cara, ou que não lhe aproveitara muito algo que fizemos por ele, já que outros três vão lhe prestar o mesmo favor e, portanto, pouco tem a nos agradecer. Nas duas circunstâncias, o amigo anterior fingiria não saber que fôramos ao teatro e não diria que outras pessoas poderiam lhe prestar o mesmo serviço. Quanto ao último amigo, sente a necessidade de repetir ou de revelar a alguém aquilo que mais pode nos contrariar, está encantado com sua franqueza e diz firmemente:

- Eu sou assim.

     Enquanto outros nos aborrecem com sua curiosidade exagerada, ou sua tão absoluta falta de curiosidade, tão grande que se pode falar nos mais sensacionais acontecimentos sem que saibam de que se trata; e outros, ainda, levam meses para nos responder uma carta, quando ela se refere a uma coisa que dizia respeito a nós e não a eles, ou então, se dizem que vêm nos perguntar algo, e ficamos sem ousar sair de casa com receio que venham e não nos encontrem, não aparecem e nos fazem ficar esperando semanas e semanas porque, não tendo recebido de nossa parte a resposta que sua carta de modo algum exigia, pensam que ficamos aborrecidos. Há os que, consultando seu desejo e não o nosso, falam sem nos deixar dizer uma só palavra, quando estão alegres têm vontade de nos ver, não importando o trabalho urgente que tenhamos; mas, quando se sentem enlanguescidos pelo tempo, ou de mau humor, não lhe podemos arrancar uma só palavra; opõem aos nossos esforços um langor inércia; não se dão ao trabalho de responder, mesmo por monossílabos, ao que foi dito como se não nos tivessem ouvido. Todos os nossos amigos têm defeitos, de modo que, para continuar a gostar deles, somos obrigados a nos consolar desses defeitos pensando em seu talento, sua bondade, sua afeição; ou prescindir deles, empregando nisso toda a nossa boa vontade. Infelizmente, nossa obstinação complacente em não ver o defeito de nosso amigo sempre está superada, sua obstinação em exibi-lo, ou pela própria cegueira, ou porque acha que cegos são os outros. Pois, ou ele não enxerga seu defeito, ou crê que os outros não o veem. Como o risco de desagradar provém sobretudo da dificuldade de apreciar aquilo que passa despercebido ou não, pelo menos por prudência a gente nunca deveria falar de si mesmo, pois certamente este é um assunto em que podemos estar seguros que o nosso ponto de vista e o dos outros jamais coincidirão. Se temos a surpresa em visitar uma casa de aparência comum, cujo interior está repleto de tesouros, de gazuas e de cadáveres, quanto descobrir a verdadeira vida do próximo, o universo real sob o universo aparente, não menor a sentiremos quando, em imagem que fazíamos de nós mesmos graças ao que dizem de nós, certificamos pelo que essas mesmas pessoas dizem de nós quando estamos ausentes, da imagem inteiramente diversa que têm a nosso respeito e sobre nossa vida. De que, de cada vez que falamos de nós mesmos, podemos estar seguros de nossas prudentes e inofensivas palavras, ouvidas com aparente polidez e hipócrita aprovação, deram lugar aos comentários mais exasperados ou mais divertidos, em todo caso os menos favoráveis. Nosso menor risco será o de agastar os que nos ouvem, pela desproporção que há entre a ideia que fazemos de nós próprios e as nossas palavras, desproporção que em geral converte as frases das pessoas sobre si mesmas em algo tão risível quanto o cantarolar dos falsos amados a música que experimentam a necessidade de trautear uma música de que gostam, compensando a insuficiência de seu murmúrio inarticulado por uma mímica mágica e um ar de admiração que não se justifica de forma alguma diante dos que estão escutando. E, ao mau costume de falar de si mesmo e de seus defeitos é preciso acrescentar, como se com ele formasse um só bloco inteiriço, esse costume de denunciar nas demais pessoas defeitos precisamente iguais aos que temos. Ora, é sempre desses defeitos que falamos, como se fosse uma forma de rodeios de falar de nós mesmos e que alia ao prazer da absolvição ao da que são. Além disso, parece que nossa atenção, sempre atraída para aquilo que caracteriza, assinala-o mais que qualquer outra coisa nas demais pessoas míopes que dizem de outro: 

"Mas ele mal pode abrir os olhos"; um tísico tem dúvidas da integridade pulmonar do indivíduo mais robusto; uma pessoa pouco fala dos banhos que os outros não tomam; um mal cheiroso pretende que os outros cheirem mal; um marido enganado vê em toda parte maridos enganados; a mulher leviana só vê mulheres levianas; o esnobe só enxerga esnobes. Além do mais, todo vício, como toda profissão, exige e desenvolve um conhecimento especial que se exibe com gosto. O invertido descobre logo os invertidos; o alfaiate, convidado a uma reunião social, ainda nem falou e já calcula a qualidade da fazenda da nossa roupa e seus dedos ardem por apalpar-lhe o tecido; e, se, após alguns momentos, pedimos a um dentista sua verdadeira opinião a nosso respeito, ele dirá a quantidade de nossos dentes cariados. Para ele, nada mais importante; para nós, que já reparamos em sua dentadura, nada mais ridículo. E não é apenas quando falamos de nós mesmos que achamos que os outros são cegos; agimos como se eles o fossem. Para cada um de nós, há um deus especial que nos oculta ou promete a invisibilidade do nosso defeito, assim como fecha os olhos e as narinas às pessoas que não se lavam, quanto ao sebo que trazem nas orelhas e ao cheiro de suor que têm nas axilas, convencendo-os de que podem exibir impunemente esses defeitos ao mundo, pois este não perceberá coisa alguma. E os que usam pérolas falsas ou as presenteiam, imaginam que as tomarão por verdadeiras. Bloch era mal-educado, neurastênico, esnobe e, pertencendo a uma família pouco estimada, suportava, como o fundo do mar, incalculáveis pressões que faziam pesar sobre ele não só os cristãos da superfície, mas as camadas superpostas das castas judias superiores à sua, cada qual oprimindo com seu desprezo a que estava imediatamente abaixo. Para atingir o ar livre, atravessando famílias e famílias judaicas, Bloch teria de levar milhares e milhares de anos. Mais valia buscar saída por outro lado. Quando Bloch me falou da crise de esnobismo que eu devia estar atravessando, pedindo-me que confessasse ser um esnobe, tive vontade de lhe responder:

- Se fosse esnobe, não andaria com você. - Disse-lhe apenas que ele era pouco amável. Então quis se desculpar, mas de acordo com o jeito do homem mal-educado, que se sente feliz em desdizer suas palavras mas achando um meio de agravá-las. 
- Perdoe-me - dizia agora a cada vez que nos encontrávamos -, eu te desgostei, torturei, fui mau sem motivo. E, no entanto (o homem em geral, e seu amigo em particular, é um animal estranho), não podes imaginar, eu que te incomodo tão cruelmente, a afeição que sinto por ti. Tanto, que muitas vezes chego a chorar por ti.

     E deixou ouvir um soluço. O que me assombrava em Bloch, mais que os seus maus modos, era ver de que maneira a sua conversação era de qualidade desigual. Este rapaz tão difícil, que dos escritores mais em voga dizia: 

- É um lúgubre idiota, um rematado imbecil -,às vezes punha-se a contar, muito divertido, anedotas que não tinham nenhuma graça, e citava uma pessoa totalmente medíocre como sendo "alguém curiosíssimo". Essa dupla medida para avaliar o espírito, a qualidade e o interesse das criaturas, não deixava de me espantar até o dia em que conheci o Sr. Bloch pai. Achava que nunca nos seria permitido conhecê-lo, pois Bloch filho falava mal de mim a Saint-Loup e deste a mim. Especialmente dissera a Saint-Loup que eu sempre era terrivelmente esnobe.
- Sim, sim, está encantado por conhecer Legrandin - disse. Esse modo de sublinhar um nome era, em Bloch, um sinônimo ao mesmo tempo de ironia e de literatura. Saint-Loup, que jamais ouvira o nomes Legrandin, espantou-se:
- Quem é?
- Oh, é alguém muito distinto. - respondeu - Bloch rindo. E punha, friorento, as mãos nos bolsos do jaquetão, convencido de que, naquele instante, estava contemplando o aspecto pitoresco de um extraordinário fidalgo provinciano, junto a quem não era nada o nome de Barbey d'Aurevilly. Consolava-se de não saber descrever o Sr. Legrandin, pronunciando-lhe o “n” com muitos LL e saboreando-o como se fosse um vinho respeitável. Mas meus gozos subjetivos ficavam desconhecidos dos outros. Se falou mal de mim à Saint-Loup, por outro lado não o fez menos de Saint-Loup para mim. Ficara sabendo dos pormenores dessas maledicências desde o dia seguinte, não que fôssemos repetir um ao outro, o que nos teria parecido incorreto, mas porque Bloch, a quem era tão natural e inevitável que assim o fizéssemos, inquieto - por certo que não ia nos dizer nada que não soubéssemos, preferiu antecipar; chamando de parte Saint-Loup, confessou-lhe que falara deliberadamente mal dele para que lhe contassem, e jurou "por Zeus, filho de Kronos, guardião dos juramentos", que o amava e daria sua vida por ele; e enxugou uma lágrima. No mesmo dia deu um jeito para estar a sós comigo, me fez sua confissão, declarou que agia por meu interesse porque julgava que certa espécie de relações sociais seriam prejudiciais e que eu "valia mais que isso". Depois, segurando minha mão com um sentimentalismo de bêbado, embora sua embriaguez fosse puramente de origem nervosa, disse: - Acredita em mim, e que a funesta Ker me agarre imediatamente e me faça entrar pelas portas de Hades, odiosas aos humanos, se não é verdade que ontem, fiquei pensando em ti, em Combray, em minha ternura infinita por ti, naquelas tardes de colégio, que nem te lembras mais, passei a noite inteira chorando. Sim, a noite inteira juro-te, e infelizmente sei, pois conheço as almas humanas, que não acreditará.

     De fato, não acreditava; e seu juramento "pela Ker" não acrescentava peso àquelas palavras, que eu percebia serem inventadas à medida que ele falava, o culto helênico era em Bloch puramente literário. Aliás, quando principiava em ser sentimental e queria enternecer os outros com alguma falsidade, dizia:

- Eu te juro - mais pela volúpia histérica de mentir que pelo interesse em que pensassem que dizia a verdade. Não acreditei em nada do que me disse, mas não lhe guardei rancor, pois herdara de minha mãe e de minha avó a incapacidade de ser rancoroso, mesmo contra culpados bem mais graves, e de jamais condenar ninguém.

      Aliás, Bloch não era de todo um mau rapaz, podia praticar muitas bondades. E, desde que quase se extinguiu a raça de Combray, raça de onde criaturas absolutamente íntegras, como minha avó e minha mãe, e como já quase não tenho escolha senão entre brutos honrados, insensíveis e leais que, só pelo timbre da voz, mostram logo que não se preocupam de forma alguma com a nossa vida e outra espécie de pessoas que, enquanto estão conosco nos compreendem, nos estimam, se enternecem até às lágrimas e que, em compensação, horas depois fazem um cruel gracejo a nosso respeito, e no entanto voltam para nós, sempre tão compreensivos, tão encantadores, tão momentaneamente assimilados a nós mesmos; creio que é esta última espécie de homens a que prefiro, senão pelo valor moral, ao menos pelo convívio.

- Não podes imaginar minha dor quando penso em ti - continuou Bloch. - No fundo, isto é um lado bastante judaico em mim - acrescentou ironicamente, contraindo a pupila como se cuidasse de dosar ao microscópio uma quantidade infinitesimal de "sangue judeu", e como teria podido dizê-lo (embora não o dissesse) um grão-senhor francês que entre seus ancestrais, todos cristãos, contasse entretanto com Samuel Bernard ou, mais antigamente ainda, a Virgem Maria, da qual se diz que pretendem descender os Lévys. - Fico muito satisfeito – continuou - por estabelecer deste modo em meus sentimentos a parte, aliás bem pequena, influenciada por minhas origens judaicas. - Pronunciou esta frase porque lhe pareceu a um tempo espirituoso e atrevido dizer a verdade acerca de sua raça, verdade que, da mesma forma, ele tratou de atenuar singularmente, como os avaros que decidem livrar-se das dívidas, mas só têm coragem de pagar a metade. O tipo de fraude que consiste em ter audácia de proclamar a verdade, mas misturando a com uma boa proporção de mentiras que a falsificam, é mais espalhado do que se pensa e, até entre aqueles que habitualmente não a praticam, certas crises da vida, notadamente aquelas em que está em jogo uma relação amorosa, dão-lhes a ocasião de se entregarem a ela.

     Todas essas diatribes confidenciais de Bloch à Saint-Loup contra mim, e a mim contra Saint-Loup, acabaram num convite para jantar; não tenho certeza se antes não fez uma tentativa para ter Saint-Loup sozinho. A verossimilhança torna provável essa tentativa, mas não teve sucesso, pois um dia nos disse a ambos:

- Caro mestre, e vós, cavaleiro amado de Ares, de Saint-Loup-en-Bray, domador de cavalos, já que os encontrei às margens de Anfitrite, a ressoar de espuma, perto das tendas dos Menier, os das naus velozes, quereis ambos vir jantar um dia desta semana em casa de meu ilustre pai de coração irrepreensível? - Dirigia-nos esse convite por desejar ligar-se mais estreitamente a Saint-Loup, que o faria, segundo esperava, penetrar nos ambientes aristocráticos. Formulada por mim, semelhante aspiração teria parecido a Bloch o sinal do mais horrível esnobismo, bem de acordo com a opinião que professava sobre uma parte de minha personalidade que, ao menos até então, considerava secundária; porém o mesmo desejo, de sua parte, parecia-lhe uma prova de bela curiosidade de sua inteligência, que ansiava por determinadas mudanças sociais que lhe fossem de utilidade literária. O Sr. Bloch pai, quando o filho lhe dissera que traria um amigo para jantar, nome e título declinou num tom de sarcástica satisfação:
"O Marquês de Saint-Loup-en-Bray" -sentiu uma comoção violenta, e exclamou, usando a interjeição que nele era a maior prova de deferência social:
- Caramba! O Marquês de Saint-Loup-en-Bray! - E lançou ao filho, capaz de travar semelhantes relações olhar admirativo que significava:
"É verdadeiramente assombroso. Será que esse garoto prodígio é o meu filho?"-olhar que deu tanto prazer ao meu camarada como pai lhe houvesse aumentado a mesada em cinquenta francos. Pois Bloch sentia muito à vontade em casa e percebia que o pai o considerava um desajustado devido à sua permanente admiração por Leconte de Lisle, Heredia e outros ''boêmios". Porém relações com Saint-Loup-en-Bray, cujo pai fora presidente da Companhia do Canal de Suez (caramba!), eram um resultado "indiscutível". Lamentava todos ter deixado em Paris o estetoscópio, com medo de estragá-lo. Somente Bloch pai tinha a arte, ou o direito, de se utilizar dele. O que, aliás, só fazia raramente, com conhecimento de causa, nos dias de baile de gala, quando tinham extras. De forma que de tais sessões de estetoscópio emanava, para quem a assistia, uma espécie de distinção, um favor de privilegiados e, para o dono da casa que as dava, um prestígio idêntico ao que o talento confere e que não poderia ter sido maior, ainda que as vistas fossem tiradas pelo próprio Sr. Bloch e o aparato fosse sua invenção. 
- Não foi ontem à casa dos Salomon? - perguntavam no âmbito familiar.
- Não, não fui dos eleitos. Que foi que houve? 
- Um grande aparelho, estetoscópio, toda a aparelhagem. 
- Ah, o estetoscópio! Então lastimo não ter ido, pois parece que Salomon é insuperável quando o mostra. 
- Que queres? - perguntou o Sr. Bloch ao filho. - Não se deve dar tudo de uma vez; desse modo fica alguma coisa a desejar.  

continua na página 140...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Primeira Parte
Segunda Parte
À Sombra das Moças em Flor (Nomes de Lugares: o Lugar - i)
Volume 3
Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7

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