terça-feira, 25 de março de 2025

Marcel Proust - À Sombra das Moças em Flor (Nomes de Lugares: o Lugar - h)

em busca do tempo perdido


volume II
À Sombra das Moças em Flor

Segunda Parte
Nomes de Lugares: o Lugar


(h)

continuando...

      Depois do jantar, quando subia com minha avó, dizia-lhe que as coisas que nos encantavam na Sra. de Villeparisis, o tato, a finura, a discrição, o esquecimento de si mesma, talvez não devessem ter muito valor, pois as pessoas que os possuíram no mais alto grau não passaram de Molés e Loménies em compensação, se o fato de não tê-las pode tornar as relações cotidianas notáveis, ainda assim não impediu de chegar ao que foram Chateaubriand, Vigny, Balzac, vaidosos sem autocrítica, de quem era fácil zombar, como Bloch... nome de Bloch, minha avó protestava.
     Gabava a Sra. de Villeparisis. Como que é o interesse da espécie que, no amor, dirige as preferências de cada pessoa e que, para que criança seja constituída da maneira mais normal, o instinto que as mulheres magras procurem os homens gordos, e as gordas assim também eram obscuramente as exigências de minha felicidade pelo nervosismo, pela minha doentia inclinação à tristeza, ao isolamento. Dizia minha avó colocar em primeiro plano as qualidades de juízo e as próprias não só da Sra. de Villeparisis; mas de uma sociedade onde eu poderia ter sossego e distração uma sociedade semelhante àquela onde se viu o talento de um Doudan, de um Sr. de Rémusat, para não falar de uma Beau de um Joubert, de uma Sévigné, talento que proporciona mais dignidade à vida que os requintes opostos, que levaram um Baudelaire, um Poe, e um Rimbaud a sofrimentos e desconsiderações que ela não desejava ao neto. Interrompi-a para beijá-la, perguntando se havia reparado em tal ou qual frase da Sra. de Villeparisis, em que se notava a mulher que preza o seu nascimento muito mais do que diz. Desse modo, submetia minha avó as minhas impressões, pois nunca sabia o grau de estima devido a alguém senão quando ela o indicasse. Todas as noites trazia-lhe as notas que tomara durante o dia sobre todos os seres inexistentes que não fossem ela. Uma vez, disse-lhe:

- Sem ti, não poderia viver. 
- Não, isso não. - respondeu com voz perturbada. - É preciso ter um coração mais forte. Se não, o que seria de ti se eu fosse viajar? Ao contrário, espero que sejas razoável e feliz.
- Saberei ser razoável e feliz se viajasses por alguns dias, mas ficaria contando as horas.
-  Mas, se eu partisse por alguns meses... (só de pensar nisso meu coração se apertava) por muitos anos... por...

     Ficávamos calados. Não tínhamos coragem de nos olhar. No entanto, eu sofria mais pela sua angústia do que pela minha. Assim, aproximei-me da janela e lhe falei distintamente, desviando o olhar:

- Sabes como sou um sujeito de hábitos. Nos primeiros dias, em que me vejo separado das pessoas a quem amo, sinto-me infeliz. Mas depois, sem deixar de querê-las, acabo me acostumando, minha vida se torna calma, suave; e eu suportaria uma separação de meses ou anos...

     Tive de me calar e olhar pela janela. Minha avó saiu do quarto por um instante. Mas, no dia seguinte, comecei a falar de filosofia, em tom bastante indiferente, mas fazendo com que minha avó prestasse atenção às minhas palavras; disse-lhe que era curioso verificar como, depois das últimas descobertas da ciência, o materialismo parecia arruinado, e que o mais provável era que ainda houvesse a imortalidade das almas e a sua futura reunião.
     A Sra. de Villeparisis preveniu que dentro em breve já não poderia nos ver com frequência. Um jovem sobrinho, que se preparava para ingressar em Saumur, e estava de guarnição nas vizinhanças, em Doncieres, vinha passar com ela algumas semanas de licença, e a marquesa ficaria ocupada quase todo o tempo. Durante nossos passeios, havia elogiado sua profunda inteligência, sobretudo o seu bom coração; eu já imaginava que ele iria se tornar de simpatia por mim, que eu seria o seu amigo preferido e, quando um pouco antes de sua chegada, sua tia deu a entender a minha avó que ele infelizmente caíra nos braços de uma mulher má, por quem estava alucinado e que não o largaria nunca, eu, convencido que esse tipo de paixão redunda fatalmente na alienação mental, no crime e no suicídio; pensando no tempo tão curto reservado à nossa amizade, tão grande já em meu coração sem que o tivesse ainda visto, chorei por ela e pelas desgraças que a esperavam, como se chorasse por um ser querido do qual acabamos de saber que caiu gravemente doente e que seus dias estão contados.
     Numa tarde de muito calor, estava eu na sala de jantar do hotel, deixada na penumbra a fim de protegê-la dos raios do sol, baixando as cortinas que a luz marejava, e que pelos interstícios deixavam passar o azul do mar, quando vi, pelo passeio central que ia da praia à estrada, um rapaz alto, magro, de pescoço e cabeça orgulhosamente empinada, olhos penetrantes, de pele tão dourada, cabelos tão louros como se tivessem absorvido todos os raios de sol. Trajava uma calça de tecido muito fino, esbranquiçado, como jamais imaginei que um homem se vestiria e que, por sua leveza, evocava o calor e o bom tempo que fazia lá, menos que o frescor do refeitório; andava muito depressa. Seus olhos, dos quais a todo instante caía o monóculo, eram da cor do mar. Todos o olharam com curiosidade, pois sabiam que aquele jovem marquês de Saint-Loupen-Bray era célebre por sua elegância. Todos os jornais haviam descrito o traje que recentemente ao servir de testemunha, num duelo, a um jovem duque, que a qualidade tão peculiar de seus cabelos, de seus olhos, de sua pele e porte, que o teriam distinguido em meio de uma multidão como um ''precioso'' de opala brilhante e azulada, engastado em matéria grosseira, deveria ter uma vida diversa da dos outros homens. E, em consequência, quando, as relações que tanto desgostavam a Sra. de Villeparisis, as mais belas mulheres da alta sociedade o disputavam entre si, sua presença, em uma praia, por exemplo ao lado da beldade famosa a quem cortejava, não só a colocava no centro das atenções, como atraía os olhares tanto sobre ele quanto sobre ela. Devido a seu charme e a sua impertinência de jovem "leão", principalmente devido a seu grande físico, alguns lhe achavam mesmo um certo ar efeminado, mas sem censurar pois sabiam o quanto era viril e que amava apaixonadamente as mulheres; era o sobrinho da Sra. de Villeparisis de quem nos falara. Fiquei encantado ao vê-lo, ia conhecê-lo durante algumas semanas e certo de que me daria todo o seu afeto. Atravessou rapidamente o hotel em todo o comprimento, parecendo perseguir o seu monóculo que volteava a seu redor como uma borboleta. Chegava da praia, e o mar que enchia até a metade a vidraça do hall, formava-lhe um fundo sobre o qual se destacava, como em certos retratos em que os pintores pretendem, sem trair em nada a observação mais exata da vida atual, porém escolhendo para seu modelo um quadro apropriado, campo de polo ou de golfe, pista de corridas, convés; dar um equivalente moderno dessas telas em que os primitivos faziam a figura humana no primeiro plano de uma paisagem. Um carro tirado, cavalos, o esperava diante da entrada; e, enquanto o monóculo retomava brincalhão na estrada ensolarada, com a elegância e a maestria que um pianista consegue mostrar nos trechos mais simples, onde parecia não se superar um executante de segunda categoria, o sobrinho da Sra. de Villeparisis tomando as rédeas que o cocheiro lhe dera, sentou-se a seu lado e, ao mesmo tempo que abria uma carta que o gerente lhe entregara, fez partir os cavalos.
     Que decepção senti nos dias seguintes quando, cada vez que estava no hotel ou fora dele, com o pescoço erguido, equilibrando perpetuamente os movimentos dos membros ao redor do monóculo dançante e fugidio que passara a ser seu centro de gravidade-, percebi que ele não procurava aproximar-se de nós e que não nos cumprimentava, embora não pudesse ignorar que éramos amigos de sua tia!
     Recordando-me da amabilidade que me haviam testemunhado a Sra. de Villeparisis e, antes dela, o Sr. de Norpois, pensava que eles talvez fossem nobres de mentira, e que um artigo secreto das leis que governam a aristocracia deve permitir, quem sabe, às mulheres e a certos diplomatas que faltem, no seu convívio com os plebeus, e por um motivo que me escapava, a essa altivez que, ao contrário, um jovem marquês praticaria impiedosamente. Minha inteligência poderia me dizer o contrário. Mas a característica da idade ridícula que eu atravessava; idade nada ingrata, aliás muito fecunda -é que não se consulta a inteligência e que os menores atributos das criaturas parecem fazer parte indivisível de sua personalidade. Sempre cercados de monstros e deuses, a gente quase não conhece o sossego. E quase todos os gestos que fazemos por essa época, desejaríamos suprimi-los mais tarde. Mas, ao contrário, o que se deveria de fato lastimar seria não mais possuirmos aquela espontaneidade que nos inspirava. Depois, veem-se as coisas de maneira mais prática, em plena concordância com o resto da sociedade, mas a adolescência é a única época da vida em que aprendemos algo.
      Aquela insolência que eu adivinhava no Sr. de Saint-Loup, e tudo o que ela implicava de dureza natural, ficou comprovada por sua atitude cada vez que passava por nós, o corpo bem empertigado, a cabeça sempre empinada, o olhar impassível, e (não será demais dizer) tão implacável, destituído desse vago respeito que se tem pelos direitos das outras criaturas, mesmo que elas não conheçam a nossa tia, e em virtude do qual minha atitude não era absolutamente a mesma diante de uma velha dama e diante de um bico de gás. Essas maneiras glaciais também estavam bem distantes das cartas encantadoras que eu, alguns dias antes, ainda imaginava que me escrevesse para me testemunhar sua simpatia, à mesma distância em que estão as ovações da Câmara da posição medíocre e obscura de um homem imaginativo que pensa ter levantado o ânimo do povo com um discurso inesquecível e que, após ter assim sonhado em voz alta, vê-se de novo um joão-ninguém, como antes, depois de cessarem as falsas aclamações.
     Quando a Sra. de Villeparisis, sem dúvida para tentar apagar a má impressão que nos causara a aparência do sobrinho, reveladora de um temperamento orgulhoso e malvado, voltou a nos falar da inesgotável bondade do seu sobrinho-neto (era filho de uma de suas sobrinhas e um pouco mais velho que eu), admirei-me como no mundo, ao desprezo de toda a verdade, atribuem se qualidades de coração aos que o possuem tão seco, ainda que sejam amáveis com as pessoas brilhantes que fazem parte de seu ambiente social. A própria Sra. de Villeparisis acrescentou, mesmo de forma indireta, uma confirmação a esses traços essenciais do caráter de seu sobrinho, que já não me causavam dúvidas, um dia em que encontrei a ambos num caminho tão estreito que ela não teve outra alternativa senão me apresentar a ele. Pareceu não ouvir que lhe apresentavam alguém, nenhum músculo do rosto se mexeu; seus olhos; não brilhou o menor clarão de simpatia humana, mostraram simplesmente insensibilidade e inanidade do olhar, um exagero, a cuja falta nada os difere dos espelhos sem vida. Depois, fixando em mim a dureza do olhar, como para certificar-se bem de quem eu era, antes de devolver meu cumprimento; fez um movimento brusco que antes parecia efeito de um reflexo muscular do um ato voluntário, encompridou o braço em todo o seu tamanho e apresentando a mão, à distância, pondo entre ele e mim o maior intervalo possível. Quando no dia seguinte me mandou seu cartão, julguei que se tratava, no mínimo, de um duelo. Mas ele só me falou de literatura, declarando, depois de longa palestra, que muita vontade de me ver várias horas por dia. Não só dera provas, durante a conversa de um gosto muito vivo pelas coisas do espírito, como me testemunhara simpatia que combinava muito mal com a saudação da véspera. Depois, quão que saudava sempre dessa maneira quando lhe apresentavam alguém, comecei a pensar que se tratava de simples hábito mundano particular, próprio de uma parte da família, e ao qual sua mãe, que fazia questão que ele fosse admiravelmente educado, lhe acostumara o corpo; fazia tais cumprimentos sem neles pensar que em suas belas roupas, seus lindos cabelos; era algo desprovido do significado moral que eu lhe dera a princípio, uma coisa puramente aprendida, como outro hábito que tinha de fazer-se apresentar imediatamente aos pais de quem conhecia, e que se tornara tão instintivo nele que, vendo-me no dia seguinte do nosso encontro, lançou-se a mim e, sem me dar bom-dia, pediu-me que o apresentasse à minha avó que estava comigo, com a mesma rapidez febril corri para atender o pedido se devesse a um instinto defensivo, com o gesto de aparar um golpe, fechar os olhos diante de um jorro de água fervente, e que nos resguarda perigo que nos teria atingido um momento depois.
     Uma vez cumpridos os primeiros ritos de exorcismo, assim como a fada rabugenta se despoja de sua aparência inicial e se apresenta revestida de graças encantadoras, vi essa criatura desdenhosa fazer-se o mais amável e atencioso dos rapazes que já conhecera. "Bem" disse comigo, "já me equivoquei, fui vítima de uma miragem, mas só venci a primeira para cair numa outra, pois este é um grão-senhor enamorado de sua nobreza e procurando dissipar, de fato, toda a atraente educação, toda a amabilidade de Saint-Loup depois de algum tempo, deixar transparecer uma outra pessoa, mas bem daquela que eu suspeitava.
     Esse rapaz, com ares de um aristocrata e de um desportista que só estimava e se mostrava curioso pelos assuntos do espírito, sobretudo manifestações modernistas da literatura e da arte que pareciam tão ridículas para a tia; estava imbuído, por outro lado, daquilo que ela denominava declamações socialistas, e, cheio do mais profundo desprezo por sua casta, passava horas estudando Nietzsche e Proudhon. Era um desses "intelectuais", prontos para a admiração, que se encerram num livro preocupados apenas com altos pensamentos. Além disso, em Saint Loup, a expressão dessa tendência bastante abstrata e que o afastava tanto de minhas preocupações habituais, conquanto me parecesse emocionante, aborrecia-me um pouco. Posso dizer que, logo que me inteirei bem acerca de seu pai, nos dias em que acabava a leitura de umas memórias cheias de fatos relativos a esse famoso conde de Marsantes, no qual se resume a elegância tão especial de uma época já distante, e com o espírito pleno de fantasias e desejando saber detalhes sobre a vida que levara o Sr. de Marsantes; fiquei furioso ao ver que Robert de Saint-Loup, em vez de se contentar em ser o filho de seu pai; em vez de se mostrar capaz de me guiar pelo romance antiquado que fora a sua vida, se elevara à intensa admiração de Nietzehe e de Proudhon. Seu pai não teria compartilhado os meus lamentos. Era também um homem muito inteligente, que ultrapassava os limites de sua vida de homem mundano. Mal tivera tempo de conhecer o filho, mas desejara que valesse mais que ele. Creio firmemente que, ao contrário do resto da família, teria admirado o filho, alegrando-se que este abandonasse pelas meditações austeras os motivos de diversão leviana que havia tido; e, sem dizer nada, com sua modéstia de grão-senhor talentoso, teria lido às escondidas os autores prediletos do filho para avaliar o quanto Robert lhe era superior.
      Apesar disso, ocorria algo muito triste: enquanto o Sr. de Marsantes, um espírito bem aberto, teria apreciado um filho tão diferente dele, Robert de Saint-Loup, como era dessas pessoas que julgam o mérito sempre ligado a certas formas de vida e arte, guardava uma lembrança afetuosa, mas eivada de um certo desdém, do pai, que se ocupara a vida inteira em caçar e correr, bocejara ao ouvir Wagner e adorava a música de Offenbach. Saint-Loup não era inteligente o bastante para compreender que o valor intelectual nada tem a ver com a adesão a uma determinada fórmula estética, e nutria pela "intelectualidade" do Sr. de Marsantes quase o mesmo tipo de desdém que poderiam ter tido por Boieldieu ou por Labiche um filho de Boieldieu ou de Labiche que tivessem sido adeptos da literatura mais simbolista ou da música mais complicada.- Mal conheci meu pai-dizia Robert. Parece que foi um homem refinado. Seu grande mal foi a época deplorável em que viveu. Ser nascido no faubourg Saint-Germain e ter vivido na época da Belle-Hélene é uma catástrofe para uma existência. Se fosse um pequeno burguês fanático pelo Ring, talvez tivesse dado outro rumo à vida. Disseram-me que até gostava de literatura. Mas nem sabemos se isso era verdade, pois o que entendia por literatura se compunha de obras já caducas.

- Quanto a mim, se às vezes achava Robert um tanto sério demais, ele, em compensação, não entendia porque não tinha eu maior seriedade. Julgando todas as coisas apenas pela inteligência que possuem, não percebia os encantos da imaginação que me davam coisas que reputava frívolas, assombrava-se de que eu - a quem julgava muito superior a si próprio - me pudesse se interessar por elas.

     Desde os primeiros dias, Saint-Loup havia conquistado minha avó, pela incessante bondade que se empenhava em testemunhar-nos, mas pela e mentalidade que punha em todas as coisas. Ora, a naturalidade - sem dúvida porque se sente nela a natureza sob a arte humana - era a qualidade que minha avó punha acima de todas, tanto nos jardins, onde não gostava que houvesse, como Combray, canteiros muito regulares, quanto na cozinha, onde detestava as ''obras complexas" em que mal se reconhecem os alimentos que foram usados para compô-las, ou na interpretação pianística, que lhe desagradava quando era apurada ou lambida, a tal ponto que sentia uma complacência toda especial por notas ligadas, pelas notas falsas, de Rubinstein. Essa naturalidade, ela a saboreava até nas roupas de Saint-Loup, de uma elegância simples, sem artifícios ou engomações, sem goma nem armação. Apreciava ainda mais aquele rapaz rico pelo descuidado e livre que tinha de viver no luxo sem "cheirar a dinheiro", sem a ares de importância; e parecia-lhe até encantadora essa naturalidade quando se manifestava pela incapacidade-que Saint-Loup conservara e que desaparece com a infância com certas particularidades fisiológicas dessa idade de impedir que se refletisse uma emoção. Qualquer coisa que desejasse, por exemplo, algo com que não contara, mesmo sendo um cumprimento, determinava nele um prazer, brusco, tão ardente, tão volátil, tão expansivo, que lhe era impossível conter ou oculta-lo; uma expressão de contentamento assomava-lhe irresistivelmente; a pele muito fina das faces deixava transparecer um vivo rubor, seus olhos refletiam a alegria e o enlevo; e minha avó era infinitamente sensível a essa aparência de inocência e franqueza, que em Saint-Loup, aliás, ao menos na maneira, em que me liguei a ele, era bem sincera. Mas conheci outra criatura, e há muitas que como ela, qual a sinceridade fisiológica desse rubor passageiro não excluía de modo algum a duplicidade moral; muitas vezes, prova unicamente a vivacidade com que mostra o prazer, a ponto de se verem desarmadas diante dele e serem forçadas a confessa-lo aos outros, certas naturezas capazes das piores objeções. Mas, minha avó adorava mais a simplicidade de Saint-Loup, era no seu modo de ser sem rodeios, a simpatia que me devotava, e que expressava com palavras tais que ela mesma dizia consigo não saber achar mais justas e carinhosas, palavras dignas de levarem a assinatura de "Sévigné e Beausergent''; ele não se constrangia de gracejar dos meus defeitos - que desvelara com uma finura que encantara avó -, mas como ela própria o teria feito, com ternura; ao passo que exaltando minhas qualidades com um ardor e um abandono que não conhecia as reservas e a frieza, graças às quais os jovens de sua idade costumam achar que se dão importância. Mostrava, para prevenir-me o menor incômodo, para repor-me uma manta sobre as pernas sem que eu notasse, se o tempo esfriava, para arrumar uma sem nada me dizer, de ficar comigo mais tarde que de costume se me via indisposto, uma atenção vigilante que, do ponto de vista da minha saúde, chegava a achar quase excessiva, pois talvez fosse preferível menos mimos, mas que, por outro lado, tocavam-na profundamente como prova de afeição por ruim.
      E bem depressa ficou claro entre nós que éramos amigos íntimos para sempre, e ele dizia "nossa amizade" como se falasse de algo importante e delicioso que existisse fora de nós mesmos e que em breve denominou - sem contar o amor por sua amante - a maior alegria de sua vida. Tais palavras me deram uma espécie de tristeza e senti-me embaraçado para respondê-las, pois a verdade é que eu não experimentava, ao me encontrar ou conversar com ele - e sem dúvida me ocorreria o mesmo em relação aos outros - aquela felicidade que, pelo contrário, podia sentir quando estava a sós. Sozinho, sentia às vezes afluir do fundo de mim mesmo uma daquelas impressões que me proporcionavam um delicioso bem-estar. Mas, desde que estivesse em companhia de alguém, desde que falasse com um amigo, meu espírito dava meia-volta, era a esse interlocutor e não a mim mesmo que dirigia seus pensamentos. E, quando estes seguiam esse caminho oposto, não me davam qualquer prazer. Tão logo me separava de Saint-Loup, ia pondo em certa ordem, com o auxílio das palavras, os minutos confusos que passara com ele; dizia comigo que tinha uma boa amizade, que um bom amigo é uma coisa rara; mas, sentir-me cercado de objetos difíceis de adquirir causava-me uma sensação que era justamente o oposto do prazer que me era natural, o oposto do prazer de haver extraído de mim mesmo, e leva-lo à claridade, algo que em mim se ocultava na penumbra. Se passara duas ou três horas a conversar com Robert, ainda que ele tivesse admirado o que eu havia dito, eu sentia uma espécie de remorso, de cansaço, de pena, por não ter ficado sozinho e pronto enfim, para escrever. Então, retrucava a mim mesmo que ninguém é inteligente só para si, que os espíritos mais dotados apreciaram ser tidos em boa consideração, que eu não podia dar como perdidas as horas que passara a erguer uma alta ideia de mim no espírito de meu amigo, convencia-me facilmente que deveria estar feliz por isso, desejando com vivo ardor que semelhante felicidade jamais me fosse arrebatada porque não a sentira de fato. Teme-se acima de tudo a perda dos bens que existem fora de nós, pois nosso coração não chegou a se apoderar deles. Sentia-me capaz de exercer as virtudes da amizade melhor que muitos (porque poria sempre o bem de meus amigos acima de meus interesses pessoais, de que não prescindem jamais as outras pessoas, e que para mim não existiam), porém não de conhecer a alegria em um sentimento que, ao invés de aumentar as diferenças existentes entre minha alma e a dos outros-como as que existem entre todas as almas -contribuía para desfazê-las. Em compensação, às vezes meu pensamento distinguia em Saint Loup um ser geral, o "nobre", e que, como um espírito interior, movia seus membros, ordenava seus gestos e suas opiniões; então, nesses instantes, embora junto dele, achava-me sozinho, como se estivesse diante de uma paisagem cuja harmonia compreendesse. Não era mais que um objeto que meu pensamento queria aprofundar. Experimentava uma alegria, da inteligência e não da amizade, ao encontrar sempre nele esse ser secular, o aristocrata que Robert justamente aspirava a não ser. Na agilidade física que conferia tanto encanto à sua amabilidade; no desembaraço com que oferecia seu carro à minha avó e a ajudava a subir; na destreza com que saía do carro quando temia que eu estivesse com frio, para lançar o seu casaco nos meus ombros; eu não sentia apenas a maleabilidade hereditária dos grandes caçadores que, desde muitas gerações, tinham sido os antepassados desse rapaz que aspirava à intelectualidade, algo mais que o desdém para com a riqueza, que, existindo nele junto com o gosto que sentia por ela, porque desse modo podia tratar seus amigos com mais capacidade e dava-lhe condições para lhes pôr à seus pés, com ar negligente, todo o seu luxo. Via eu, sobretudo, a certeza ou a ilusão que tiveram esses grão-senhores de serem "mais que os outros", graças a que legaram a Saint Loup o desejo de mostrar que era "tanto como os outros", medo de parecer atencioso demais que, de fato, era-lhe verdadeiramente desconhecido e que desfigura com tanta mesquinhez e acanhamento a mais sincera generosidade plebeia. Censurava-me, às vezes, por ter prazer em considerar meu amigo só uma obra de arte, ou seja, encarar o maquinismo de todas as partes de sua pessoa como governado harmoniosamente por uma ideia geral a que eram afeitas, das quais ele não conhecia e, consequentemente, nada acrescentava às suas qualidades próprias, a esse valor pessoal de inteligência e de moralidade que ele tanto apreciava.

continua na página 135...
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