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sábado, 10 de maio de 2025

Marcel Proust - À Sombra das Moças em Flor (Nomes de Lugares: o Lugar - z)

em busca do tempo perdido


volume II
À Sombra das Moças em Flor

Segunda Parte
Nomes de Lugares: o Lugar


(z)

continuando...

      Agora, meus sonhos voltavam a ser livres para se reportar a esta ou àquela das amigas de Albertine e, em primeiro lugar, a Andrée, cujas amabilidades talvez me tivessem tocado menos se não tivesse certeza de que seriam conhecidas de Albertine. É claro que a preferência que há muito eu vinha fingindo por Andrée me fornecera em hábitos de conversas, de declarações de carinho como que a matéria de um amor já inteiramente pronto para ela, ao qual até então não faltara mais que um sentimento sincero a acrescentar-lhe, e que agora o meu coração livre de novo, poderia proporcionar. Mas Andrée era muito intelectual, muito nervosa, muito doentia, muito parecida comigo para que a amasse de verdade. Se agora Albertine se me afigurava oca, Andrée estava repleta de algo que eu já conhecia de sobra. No primeiro dia pensara ver na praia a amante de um corredor, embriagada de amor pelo esporte, e Andrée me dizia que havia principiado a praticar esportes a conselho do médico, a fim de curar a neurastenia e as perturbações de nutrição.
      Mas seus melhores momentos eram aqueles em que traduzia um romance de George Eliot. Minha decepção, fruto de um erro inicial sobre o que seria Andrée, não teve, de fato, nenhuma importância para mim. Mas o erro era do tipo desses que, se permitem que o amor nasça e só são reconhecidos como erros quando a situação já não pode ser mudada, tornam-se motivo de sofrimento. Tais erros-que podem ser diferentes dos que havia cometido em relação a Andrée, e até mesmo opostos provêm muitas vezes, como em particular no caso dela, do fato de que assumimos demais o aspecto e as maneiras daquilo que não somos mas desejaríamos ser, para iludir à primeira vista. A aparência exterior, à afetação, à imitação e ao desejo de ser admirado, seja pelos bons, seja pelos maus, acrescenta-se o falso aspecto das palavras e dos gestos. Há cinismos e crueldades que não resistem à prova mais que certas bondades, certas generosidades. Do mesmo modo que muitas vezes se descobre um avaro vaidoso em um homem conhecido por sua caridade, a jactância do vício nos faz supor uma Messalina em uma moça honesta cheia de preconceitos. Eu julgara encontrar em Andrée uma criatura saudável e primitiva, quando não passava de alguém que buscava saúde, como o eram talvez muitos daqueles em que ela pensava encontrá-la, e que na verdade não a possuíam, assim como um homem gordo e artrítico, de rosto vermelho e vestido de flanela branca, não é forçosamente um Hércules. Ora, há circunstâncias em que não é indiferente para a felicidade que a pessoa a quem se amou pelo que parecia ter de saudável na realidade não passasse de um desses enfermos que só recebem sua saúde de outros, como os planetas tomam emprestada a sua luz, como certos corpos se limitam a deixar passar a eletricidade.
     Não importa; Andrée, como Rosemonde e Gisele, e até mais do que elas, era em última análise uma amiga de Albertine, que compartilhava a sua vida e imitava as suas maneiras a ponto de que no primeiro dia eu a princípio não as distinguira uma da outra. Entre essas moças, caules de rosas, cujo encanto principal era se destacarem sobre o mar, reinava a mesma indivisão que no tempo em que não as conhecia e quando o aparecimento de qualquer uma me causava tanta emoção por me anunciar que o pequeno grupo não estava longe. Ainda agora, a vista de uma me proporcionava um prazer onde entrava, numa percentagem que eu não saberia avaliar, a possibilidade de ver as outras a segui-la mais tarde, e, ainda que não viessem naquele dia, a oportunidade de falar a respeito delas e de saber que lhes seria dito que eu estivera na praia.
     Não era mais a atração dos primeiros dias; era uma genuína veleidade de amar que hesitava entre todas, de tal forma cada uma era a substituta natural da outra. Minha maior tristeza não teria sido o fato de ser abandonado por aquela que eu preferia entre todas; mas logo preferiria, porque nela fixara a soma de tristeza e de sonho que flutuava entre elas, aquela que me tivesse abandonado. Ainda nesse caso, era a todas as suas amigas, a cujos olhos eu em breve perderia todo o prestígio, que eu teria inconscientemente lamentado naquela, tendo lhes confessado essa espécie de amor coletivo que o político ou o ator dedicam ao público pelo qual não se consolam de ser abandonados depois de ter recebido todos os seus favores. Mesmo os favores que não pudera obter de Albertine, esperava por eles, de repente, de uma ou outra que me dissera uma palavra ou lançara um olhar ambíguo, ao me deixar à noite, devido aos quais era para essa última que se voltava o meu desejo por um dia inteiro.
      E o meu desejo errava ainda mais sensualmente entre os seus rostos móveis, porque uma fixação relativa das feições já estava bastante iniciada para que se pudesse distinguir, mesmo que mudasse ainda, a efígie maleável e flutuante. Às diferenças existentes entre esses rostos estavam, sem dúvida, muito longe de corresponder as diferenças idênticas no comprimento e largura das feições, as quais, de uma a outra das moças, e por mais dissemelhantes que parecessem, talvez pudessem ser quase superpostas. Mas o nosso conhecimento dos rostos não é matemático.
     Primeiro, não começa por medir as partes, mas tem como ponto de partida uma expressão, um conjunto. Em Andrée, por exemplo, a finura dos olhos doces parecia juntar-se ao nariz estreito, tão delgado como uma simples curva, que tivesse sido traçada para que fosse possível prosseguir numa só linha a intenção de delicadeza divisada anteriormente no duplo sorriso dos olhares gêmeos. Uma linha da mesma finura lhe riscava os cabelos, ágil e profunda como a que o vento traça na areia. E essa linha devia ser hereditária, pois os cabelos inteiramente brancos da mãe de Andrée eram dispostos da mesma maneira, aqui formando um tufo, ali uma depressão, como a neve que se ergue ou se afunda de acordo com as desigualdades do terreno. É evidente que, comparado à fina delineação do de Andrée, o nariz de Rosemonde parecia oferecer amplas superfícies, como uma torre alta assentada numa base poderosa. Ainda que a expressão seja bastante para fazer crer em diferenças enormes entre coisas separadas por algo infinitamente pequeno, e ainda que o infinitamente pequeno possa por si só criar uma expressão absolutamente particular, uma individualidade, o fato é que nem o infinitamente pequeno de uma linha nem a originalidade da expressão faziam com que esses rostos aparecessem irredutíveis uns aos outros. Entre os de minhas amigas, a coloração abria uma separação ainda mais profunda, não tanto pela variada beleza dos tons que lhes proporcionava, tão opostas que eu sentia diante de Rosemonde- inundada de um róseo sulfurino sobre o qual reagia ainda a luz esverdeada dos olhos -e diante de Andrée-cujas faces brancas recebiam tanto da austera distinção de seus cabelos negros o mesmo tipo de prazer como se olhasse alternadamente um gerânio à beira do mar ensolarado e uma camélia à noite; mas sobretudo porque as diferenças infinitamente pequenas das linhas se achavam desmesuradamente aumentadas, assim como as proporções entre as superfícies eram inteiramente mudadas por esse elemento novo da cor, o qual, assim como é um dispensador de matizes; e funciona também como grande regenerador ou, pelo menos, modificador de dimensões. De maneira que as fisionomias, construídas talvez de modo pouco diverso, conforme sejam iluminadas pelo fogo de uma cabeleira ruiva ou de uma pele rosada, ou pela branca luz de um pálido fosco, encompridavam-se ou se ampliavam, tornando-se uma coisa diferente, como esses acessórios dos balés russos, que consistem às vezes, se são vistos em plena luz do dia, numa simples rodela de papel e que o gênio de um Bakst, segundo a iluminação vermelho-pálida ou lunar em que mergulha o cenário, faz incrustar-se duramente neste, como uma turquesa na fachada de um palácio, ou desabrochar molemente, rosa de bengala no meio de um jardim. Assim, ao tomar conhecimento dos rostos, nós os medimos realmente, mas como pintores e não como agrimensores.
     Dava-se o mesmo com Albertine que com suas amigas. Em certos dias, delgada, pálida, aborrecida, uma transparência violácea descendo obliquamente no fundo de seus olhos, como ocorre algumas vezes no mar, ela parecia sentir uma tristeza de exilada. Em outros, seu rosto mais liso atraía os desejos à sua superfície envernizada e os impedia de irem mais além; a menos que eu não a visse de súbito de lado, pois suas faces foscas feito uma cera branca eram, na superfície, rosadas por transparência, o que dava tanta vontade de as beijar, de tocar aquela pele diferente que se esquivava. De outras vezes, a felicidade banhava suas faces de uma claridade tão móvel que a pele, tornada vaga e fluida, deixava passar como que olhares subjacentes que a faziam parecer de uma outra cor, mas não de matéria diferente da dos olhos; às vezes, sem querer, ao olhar para seu rosto matizado de pontinhos castanhos e onde flutuavam apenas duas manchas mais azuis, lembrava um ovo de pintassilgo, e muitas vezes era como uma ágata opalina, trabalhada e polida somente em dois lugares, onde, no meio da pedra escura, luzissem como asas transparentes de uma borboleta azul, os olhos, em que a carne se torna espelho e nos dá a ilusão de deixar, mais que em outras partes do corpo, que nos aproximemos da alma. Porém, com mais freqüência, tinha boa cor e se mostrava mais animada; umas vezes só era cor-de-rosa, em seu rosto branco, a ponta do nariz, fino como o de uma gatinha sorrateira, com a qual se tivesse vontade de brincar; às vezes suas faces eram tão polidas que o olhar deslizava como pelas de uma miniatura, sobre o seu esmalte rosado, ainda mais delicado e interior devido à tampa entreaberta e superposta de seus cabelos negros; ocorria que a pele de suas faces chegava ao rosa violáceo do ciclâmen, e às vezes até, quando ela estava congestionada ou febril, e dando então a ideia de uma compleição doentia que rebaixava o meu desejo a qualquer coisa de mais sensual e fazia seu olhar exprimir algo mais perverso e indecente, assumia o púrpura sombrio de certas rosas de um rubro quase negro. E cada uma destas Albertines era diferente, como é diferente cada uma das aparições da bailarina cujas cores, forma e caráter vão se transmudando, conforme os jogos inumeravelmente variados de um projetor luminoso. Talvez por serem tão diversas as criaturas que eu contemplava em Albertine àquela época, é que mais tarde adquiri o hábito de tornar-me eu mesmo um outro personagem, de acordo com a Albertine em que pensava: um ciumento, um indiferente, um voluptuoso, um melancólico, um furioso, recriados não só ao acaso da lembrança que renascia, mas conforme a intensidade da crença interposta, para uma mesma recordação, pelo modo diverso com que a apreciava. Pois era sempre a isto que precisava retornar, a essas crenças que na maior parte do tempo nos enchem a alma à nossa revelia, mas que, todavia, têm mais importância para a nossa felicidade que determinada criatura que vemos, pois é através delas que a vemos, são elas que atribuem à criatura contemplada a sua efêmera grandeza. Para ser exato, eu deveria dar um nome diferente a cada um dos eus que a seguir pensou em Albertine; mais ainda, deveria dar um nome diferente a cada uma dessas Albertines que apareciam diante de mim, nunca a mesma, como-chamados simplesmente por mim, para maior comodidade, o mar - esses mares que se sucediam e diante dos quais, outra ninfa, se destacava Albertine. Mas principalmente da mesma forma, porém de modo bem mais útil do que se diz, numa narrativa, o tempo que estava fazendo em tal dia-deveria sempre denominar a crença que, no dia em que eu via Albertine, reinava em minha alma, formando a atmosfera e o aspecto dos seres, bem como o aspecto dos mares depende dessas névoas apenas visíveis que mudam a cor de todas as coisas devido a sua concentração, sua mobilidade, sua disseminação, sua fuga-como a que Elstir havia rompido uma tarde não me apresentando às moças com quem se detivera e cujas imagens subitamente me pareceram mais belas quando se afastavam -, névoa que alguns dias depois, quando as conhecera, tornara a formar-se, velando o seu brilho, interpondo-se muitas vezes entre elas e meus olhos, opaca e doce, semelhante à Leucotéia de Virgílio.
     Sem dúvida, os rostos de todas elas tinham mudado de significação para mim, desde que o modo pelo qual era preciso lê-los me fora em certa medida indicado por suas próprias frases, às quais tanto maior valor eu podia atribuir, visto que à vontade as provocava com minhas perguntas, fazia-as variar como um experimentador que submete a contraprovas a verificação daquilo que supôs. E, em suma, é uma forma como outra qualquer de resolver o problema da existência, o de aproximar bastante as coisas e as pessoas que de longe nos pareceram belas e misteriosas, para nos darmos conta de que não têm mistério nem beleza; é uma das higienes entre as quais se pode optar, uma higiene que talvez não seja muito recomendável, mas que nos proporciona uma certa calma para passar a vida e também para nos resignarmos à morte, uma vez que nos permite não lamentar coisa alguma, convencendo-nos que alcançamos o melhor e que o melhor não é grande coisa.
      Eu havia substituído, no fundo do cérebro daquelas moças, o desprezo à castidade, a recordação de saídas diárias, por princípios honestos, talvez capazes de ceder mas tendo até então preservado de qualquer deslize aquelas que os haviam recebido de seu ambiente burguês. Ora, quando nos enganamos desde o começo, mesmo quanto às pequenas coisas, quando um erro de suposição ou de memória nos faz procurar o autor de uma intriga malévola ou o local para onde se desgarrou um objeto em direção falsa, pode acontecer que só descubramos o nosso engano para o substituir não pela verdade, mas por um outro engano. No tocante ao modo de viver daquelas moças e à forma de tratá-las, eu tirava todas as consequências da palavra inocência que havia lido em seus rostos, conversando familiarmente com elas. Mas talvez tivesse lido irrefletidamente, no lapso de uma decifração por demais rápida, e ali não mais estivesse escrita, como não estava o nome de Jules Ferry no programa da matinê em que pela primeira vez ouvira a Berma, o que não me impedira de garantir ao Sr. de Norpois que Jules Ferry, sem qualquer dúvida, escrevia anteatos.
     No caso de qualquer das minhas amigas do pequeno grupo, como não seria o último rosto que eu tivesse visto, o único de quem me lembraria? Porque, de todas as lembranças relativas a uma pessoa, a inteligência elimina aquilo que não concorre para a utilidade imediata de nossas relações cotidianas (mesmo e sobretudo se tais relações são impregnadas de um pouco de amor, o qual, sempre insatisfeito, vive no momento a decorrer)? Ela deixa afrouxar a cadeia dos dias passados, só lhe segura com força o último elo, muitas vezes formado de metal bem diverso do dos elos desaparecidos na noite, e, na viagem que fazemos através da vida, só considera como real a região em que estamos no presente. Nenhuma das minhas primeiras impressões, já tão distantes, podia encontrar contra a sua deformação diária um recurso em minha memória; durante as longas horas que eu passava conversando, lanchando, jogando com aquelas moças, nem me lembrava que elas eram as mesmas virgens implacáveis e sensuais que eu vira, como num afresco, desfilar diante do mar.
      Os geógrafos e os arqueólogos nos conduzem à ilha de Calipso, exumam o palácio de Minos. Unicamente, Calipso não passa de uma mulher, Minos de um rei sem nada de divino. Até as qualidades e os defeitos que a História nos ensina terem sido então o apanágio dessas pessoas muito reais, diferem às vezes, grandemente, das qualidades e defeitos que havíamos atribuído aos seres fabulosos do mesmo nome. Assim se dissipara toda a graciosa mitologia oceânica que eu havia elaborado nos primeiros dias.
     Porém não é totalmente indiferente que nos ocorra, ao menos às vezes, passar o nosso tempo na familiaridade do que julgáramos inacessível e que havíamos desejado.
     Na convivência com as pessoas que a princípio acháramos desagradáveis, persiste sempre, mesmo no meio do prazer fictício que podemos sentir junto delas, o gosto falsificado dos defeitos que conseguiram dissimular. Mas, nas relações como as que eu tinha com Albertine e suas amigas, o legítimo prazer que está em sua origem deixa esse perfume que nenhum artífice consegue conferir aos frutos forçados, às uvas que não amadureceram ao sol. As criaturas sobrenaturais que elas tinham sido um momento para mim, conservavam ainda, mesmo sem que eu o soubesse, um tom de maravilhoso nas relações mais banais que tivera com elas, ou melhor, preservavam essas relações de terem jamais algo de banal. Meu desejo buscara com tamanha avidez a significação dos olhos que, agora, me conheciam e sorriam, mas que no primeiro dia tinham cruzado os meus olhares como raios emitidos de um outro universo, tão ampla e minuciosamente havia ele distribuído a cor e o perfume sobre a superfície carnosa daquelas moças que, estendidas sobre o rochedo, me alcançavam simplesmente sanduíches ou brincavam de adivinhações, que, em muitas dessas tardes, enquanto eu, deitado no chão, como aqueles pintores que buscam a grandeza do antigo na vida moderna e dão a uma mulher que apara a unha do pé a nobreza do "Menino que extrai o espinho" ou que, como Rubens, mudam em deusas mulheres suas conhecidas para compor um quadro mitológico, contemplava aqueles belos corpos morenos e louros, de tipos tão opostos, espalhados a meu redor pela relva, sem esvaziá-los talvez de seu conteúdo medíocre de que os enchera a experiência diária, e no entanto sem me lembrar expressamente de sua origem celeste como se, igual a Hércules ou a Telêmaco, estivesse brincando rodeado de ninfas.
     Depois os concertos acabaram, chegou o mau tempo, minhas amigas deixaram Balbec, não juntas todas, como as andorinhas, mas na mesma semana. Albertine foi a primeira, de repente, sem que nenhuma das amigas pudesse entender, nem então nem mais tarde, por que voltara de súbito a Paris, onde nem trabalhos nem distrações a esperavam.

"Ela não disse quê nem porquê, e depois foi embora" resmungava Françoise, que aliás gostaria que fizéssemos o mesmo. Achava-nos indiscretos diante dos empregados, todavia já bem reduzidos em número, mas retidos pelos raros fregueses que permaneciam no hotel, diante do gerente que "comia dinheiro". É verdade que, há muito tempo, o hotel, que não tardaria a fechar, vira partir quase todo o mundo; mas também, nunca fora tão agradável como agora. Não era essa a opinião do gerente; ao longo dos salões onde a gente enregelava e a cuja porta já não montava guarda nenhum groom, ele media os corredores, de redingote novo, tão cuidado pelo barbeiro que seu rosto apagado parecia consistir em uma mistura na qual, para uma parte de carne, havia três de cosméticos, e mudando sem cessar de gravata (tais elegâncias custam mais barato que assegurar o aquecimento e manter o pessoal, e aquele que já não pode mandar dez mil francos para obras de caridade, ainda facilmente banca o generoso dando cem sous de gorjeta ao telegrafista que lhe traz um despacho). Dava a impressão de inspecionar o nada, de querer dar, graças ao bom aspecto pessoal, um ar provisório à miséria que se sentia naquele hotel, onde a temporada não fora boa, e parecia o fantasma de um soberano que regressa para assombraras ruínas do que outrora foi seu palácio. Ficou descontente sobretudo quando o trem local, que já não tinha passageiros suficientes, deixou de funcionar até a primavera seguinte.

- O que falta aqui, - dizia o gerente- são os meios de comoção.

     Apesar do débito registrado, fazia projetos grandiosos para os anos seguintes. E, como, ainda assim, era capaz de reter exatamente belas expressões quando se aplicavam à indústria hoteleira e tinham por resultado engrandecê-la:

- Eu não estava bastante bem assessorado, embora tivesse uma boa equipe na sala de jantar -dizia -; mas os grooms deixam a desejar; verão que falange saberei reunir no ano que vem.

     Enquanto esperava, a interrupção dos serviços do B.C.B. o obrigava a mandar buscar a correspondência e às vezes conduzir os viajantes de carro. Eu pedia muitas vezes para sentar ao lado do cocheiro e, desse modo, passeava qualquer que fosse o tempo, como no inverno que passara em Combray.
     Entretanto, às vezes, a chuva bem forte nos retinha, a minha avó e a mim; estando fechado o cassino, em peças quase completamente vazias, como no porão de um navio quando o vento sopra, e onde todos os dias, como no decorrer de uma travessia, uma nova pessoa daquelas com quem passáramos três meses sem travar relações, o primeiro presidente do conselho de Rennes, o decano de Caen, uma senhora americana e suas filhas, vinham se juntar a nós, começavam a conversar, inventavam uma forma de tornar as horas menos longas, revelavam um talento, ensinavam-nos um jogo, convidavam-nos para tomar chá ou tocar música, ou para uma reunião em determinada hora, combinando em conjunto essas distrações que possuem o verdadeiro segredo de nos dar prazer, apenas porque não pretendem mais que isso, e simplesmente nos ajudam a passar o tempo e a matar o tédio. Enfim, travavam conosco, no fim da nossa temporada, amizades que suas partidas sucessivas, no dia seguinte, vinham interromper. Cheguei a travar relações com o rapaz rico, e com um de seus amigos nobres, e com a atriz que voltara por alguns dias; mas a pequena sociedade só se compunha de três pessoas, tendo o outro amigo regressado a Paris. Convidaram-me para ir jantar com elas no seu restaurante. Creio que ficaram bem contentes por eu não ter aceito. Mas haviam feito o convite da maneira mais amável possível, e, embora na verdade partisse do rapaz rico, visto que os outros eram apenas seus hóspedes, como o amigo que os acompanhava, marquês Maurice de Vaudémont, era de casa muitíssimo nobre, a atriz instintivamente, perguntando-me se não queria ir, acrescentou para me lisonjear: 

- Isso daria imenso prazer a Maurice.

     E, quando encontrei todos os três no hall, foi o Sr. de Vaudémont, enquanto o rapaz rico ficava em silêncio, que me disse:

- Não vai nos dar o prazer de jantar conosco?

     Em resumo, aproveitara eu muito pouco de Balbec, o que me aumentava o desejo de para ali voltar. Parecia-me que ali ficara muito pouco tempo. Não era esta a opinião de meus amigos, que me escreviam para perguntar se tencionava viver em Balbec definitivamente. E, ao ver que era o nome de Balbec que eles se obrigavam a colocar no envelope, e como, em vez de dar para uma campina ou para a rua, a minha janela se abria para os campos do mar, cujo rumor ouvia à noite, e ao qual, antes de adormecer, confiara o meu sono como uma barca, tinha a ilusão de que essa promiscuidade com as ondas devia materialmente, à minha revelia, fazer penetrar em mim a noção do seu charme, à maneira das lições que a gente aprende dormindo.
      O gerente me oferecia melhores quartos para o próximo ano, mas agora sentia-me ligado ao meu, onde entrava sem mais sentir o cheiro do vetiver, e do qual o meu pensamento, que antigamente se elevava dali com tanta dificuldade, acabara por tomar tão exatamente as dimensões que fui obrigado a fazê-lo sofrer um tratamento inverso, quando tive de me deitar de novo no meu quarto antigo, cujo teto era baixo.
      De fato, tínhamos sido forçados a deixar Balbec, já que o frio e a umidade se tornaram penetrantes demais para permanecermos por muito tempo naquele hotel desprovido de lareiras e caloríferos. Aliás, esqueci quase de imediato essas últimas semanas. O que revi quase invariavelmente, quando pensei em Balbec, foram os momentos em que, todas as manhãs, como devia sair à tarde com Albertine e suas amigas, minha avó, por ordens do médico, me forçou a ficar deitado no escuro. O gerente ordenava que não fizessem barulho no meu andar e ele próprio vigiava para ser obedecido. Por causa da luz muito forte, eu conservava fechadas, o máximo de tempo possível, as grandes cortinas cor-de-violeta que me haviam testemunhado tanta hostilidade na primeira noite. Mas, apesar dos alfinetes com os quais, para que a luz do dia não passasse, Françoise as prendia à noite, e que só ela sabia retirar, apesar das cobertas, da toalha da mesa de cretone vermelho, dos tecidos pegados aqui e ali para ajustar às cortinas, não conseguia uni los de todo e a escuridão não era completa; e parecia que se espalhavam pelo tapete um escarlate desfolhar de anêmonas, entre as quais eu não podia evitar de, por um momento, pousar os pés nus. E na parede defronte à janela, parcialmente iluminada, havia um cilindro de ouro, sem qualquer sustentáculo, colocado verticalmente e deslocando-se devagar como a coluna luminosa que precedia os hebreus no deserto. Voltava a me deitar; obrigado a gozar, sem me mexer, apenas pela imaginação, e todos ao mesmo tempo, os prazeres dos jogos, do banho, da caminhada, que a manhã aconselhava, a alegria me fazia bater bruscamente o coração como uma máquina em plena atividade, porém imóvel, e que, para descarregar a sua velocidade, só pode girar sobre si mesma no mesmo lugar.
     Sabia que minhas amigas estavam no molhe mas não podia vê-las, enquanto elas passavam diante dos píncaros assimétricos do mar, no fundo do qual, empoleirada no meio de seus cimos azulados como uma aldeia italiana, eu às vezes discernia, numa clareira, a cidadezinha de Rivebelle, minuciosamente detalhada pelo sol. Não via minhas amigas, mas (enquanto chegavam até meu belvedere o pregão dos jornaleiros, dos "jornalistas", como dizia Françoise, os chamados dos banhistas e das crianças que brincavam, pontuando, à maneira dos gritos dos pássaros marinhos, o ruído das ondas que quebravam suavemente) adivinhava a sua presença, ouvia o riso delas, envolto como o das nereidas na suave arrebentação que subia até os meus ouvidos. 

- Olhamos para ver se você descia. - dizia-me Albertine à noite. - Mas os seus postigos ficaram fechados mesmo na hora do concerto.

     Com efeito, às dez horas ele rebentava debaixo de minhas janelas. Entre os intervalos dos instrumentos, se o mar estava muito cheio, voltava-se a ouvir, contínuo e ligado, o deslizar da água de uma onda, que parecia envolver as cordas do violino em suas volutas de cristal e lançar sua espuma por sobre os ecos intermitentes de uma música submarina. Impacientava-me por não me terem trazido ainda as minhas coisas a fim de que pudesse me vestir. Soava meio-dia e por fim chegava Françoise. E, durante meses a fio, nessa Balbec que tanto desejara, porque só a imaginara batida pela tempestade e coberta de névoas, o bom tempo fora tão deslumbrante e tão fixo que, quando ela vinha abrir a janela, eu pudera sempre, sem me enganar, esperar encontrar a mesma réstia de sol dobrada no ângulo da parede externa, e de uma cor imutável que emocionava menos como um sinal de verão do que pelo teor melancólico, como o de um esmalte artificial e inerte. E, enquanto Françoise desprendia os alfinetes dos cortinados, despregava os tecidos e corria as cortinas, o dia de verão que ela aos poucos desvelava parecia tão morto, tão imemorial, como uma suntuosa e milenária múmia que nossa velha empregada não fizesse mais que ir desenrolando cuidadosamente de suas bandagens, antes de fazê-la aparecer embalsamada em seu vestido de ouro.

Fim

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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Primeira Parte
Segunda Parte
À Sombra das Moças em Flor (Nomes de Lugares: o Lugar - z)
Volume 3
Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Marcel Proust - À Sombra das Moças em Flor (Nomes de Lugares: o Lugar - y)

em busca do tempo perdido


volume II
À Sombra das Moças em Flor

Segunda Parte
Nomes de Lugares: o Lugar


(y)

continuando...

      Fomos ao encontro das outras para voltar. Agora eu sabia que amava Albertine; mas infelizmente não me preocupava em confessar-lhe o meu amor. É que, desde o tempo em que brincava nos Champs-Élysées, minha concepção de amor tomara-se muito diversa, enquanto as criaturas a que sucessivamente se prendia o meu amor permaneciam quase idênticas. Por um lado, a confissão, a declaração do meu afeto àquela a quem amava já não me parecia uma das cenas capitais e necessárias do amor; e nem este seria uma realidade exterior, mas simplesmente um prazer subjetivo. E esse prazer, eu sentia que Albertine tanto mais faria o que fosse necessário para alimentá-lo quanto ignorasse que eu o experimentava.
     Durante todo o caminho de volta, a imagem de Albertine, afogada na luz que emanava das outras, não foi a única a existir para mim. Mas como a lua, que durante o dia não passa de uma pequena nuvem branca de uma forma mais caracterizada e mais fixa, assume toda a sua força quando o dia se esvai, assim, logo que entrei no hotel, foi somente a imagem de Albertine que se ergueu do meu coração e se pôs a brilhar.
     De súbito, meu quarto parecia novo. Claro, havia muito que já não era o aposento inimigo do primeiro dia. Modificamos sem cessar a nossa morada ao nosso redor; e, à medida que o hábito nos dispensa de sentir, suprimimos os elementos nocivos de cor, de dimensão e de cheiro que causavam nosso mal-estar. Não era mais o quarto, bastante poderoso ainda sobre a minha sensibilidade, certamente não para me fazer sofrer, mas para me proporcionar alegria, a bacia dos belos dias, semelhante a uma piscina pela metade, de que eles faziam resplandecer um azul úmido de luz, a que recobria por um instante, impalpável e branca feito uma emanação de calor, uma vela refletida e fugitiva; nem o quarto puramente estético das noites pictóricas; era o quarto em que estava há tantos dias que já não o via. Ora, eis que eu principiava a abrir os olhos para ele, mas desta vez da perspectiva egoísta que é a do amor. Imaginava que o belo espelho oblíquo, as elegantes estantes envidraçadas dariam a Albertine, se viesse me visitar, uma boa ideia a meu respeito. Em vez de um lugar de transição onde eu passasse por um momento antes de fugir para a praia ou para Rivebelle, meu quarto se tornaria real e querido para mim, renovando-se, pois eu olharia e apreciaria cada móvel com os olhos de Albertine.
     Alguns dias após o jogo do anel, tendo-nos distanciado demais num passeio e como ficássemos bem contentes por encontrar em Maineville dois pequenos tonneaux de dois lugares, que nos permitiriam voltar à hora do jantar, a vivacidade já bastante acentuada do meu amor por Albertine teve como efeito que fosse sucessivamente a Rosemonde e a Andrée que eu propusesse subissem comigo, e nem uma só vez a Albertine; a seguir, sempre convidando de preferência Andrée ou Rosemonde, levei todo o mundo, por motivos secundários de hora, caminho ou de capas, a decidir, como contra a minha vontade, que o mais prático seria levar comigo Albertine, a cuja companhia eu fingia me resignar mais ou menos. Infelizmente o amor, tendendo à assimilação completa de um ser, e como nenhum é comestível só pela conversação, Albertine, por mais que se mostrasse gentil durante esse retorno em que a levei para casa, deixou-me feliz, porém ainda mais esfomeado por ela do que estava ao partir, e contando os momentos que acabávamos de passar juntos apenas como um prelúdio, sem muita importância em si mesmo, dos que se seguiriam. Entretanto, possuía esse primeiro encanto que jamais se volta a encontrar. Ainda não pedira coisa alguma a Albertine. Ela podia imaginar o que eu desejava, mas, não tendo certeza, supor também que me inclinava a relações sem um fim determinado, nas quais devia a minha amiga achar esse vago delicioso, rico em surpresas esperadas, que é o romanesco.
     Na semana seguinte, quase não tentei ver Albertine. Fingia preferir Andrée. O amor se inicia, e desejaríamos continuar para aquela a quem ama o desconhecido que ela pode amar, mas temos necessidade dela, temos necessidade de tocar menos o seu corpo que sua atenção, seu coração. Insinuamos numa carta uma maldade que obrigará a indiferente a nos pedir um favor, e o amor, segundo uma técnica infalível, aperta para nós, num movimento alternado, a engrenagem na qual não se pode mais amar nem ser amado. Consagrava a Andrée as horas em que as outras iam a alguma reunião matinal que eu sabia que Andrée sacrificaria por mim com prazer, e que mesmo com tédio teria sacrificado, por elegância moral, para não dar às outras, nem a si mesma, a ideia de que atribuía valor a um prazer relativamente mundano. Assim, eu dispunha de modo a tê-la todas as noites só para mim, não pensando em fazer ciúmes em Albertine mas aumentar a seus olhos o meu prestígio ou, pelo menos, não perdê-lo revelando-lhe que era a ela e não a Andrée quem eu amava. Tampouco o dizia a Andrée, receando que ela o fosse contar a Albertine. Quando falava de Albertine a Andrée, afetava uma frieza pela qual esta foi talvez menos enganada do que eu com sua aparente credulidade. Fingia acreditar em minha indiferença por Albertine e desejar a união mais completa possível entre mim e Albertine. É provável que, pelo contrário, ela não acreditasse na primeira nem desejasse a segunda. Enquanto lhe dizia que pouco me importava com sua amiga, eu só pensava em uma coisa: tentar travar relações com a Sra. Bontemps, que estava por algum tempo nas vizinhanças de Balbec e com quem Albertine devia ir passar em breve três dias. Naturalmente não deixei transparecer esse desejo a Andrée e, quando lhe falei da família de Albertine, assumi um ar bastante distraído.
     As respostas explícitas de Andrée não pareciam pôr em dúvida a minha sinceridade. Por que então ocorreu-lhe num daqueles dias comentar comigo: 

- Justamente acabei de ver a tia de Albertine"? 

     Certamente não me dissera: 

"Percebi muito bem pelas suas palavras, lançadas como que ao acaso, que você só pensava em travar relações com a tia de Albertine."

     Mas era bem à presença, no espírito de Andrée, de semelhante ideia que ela achava mais bonito me ocultar, que parecia referir-se a palavra "justamente". Era da família de certos olhares, de certos gestos, que, embora não tenham uma forma lógica, racional, diretamente elaborada pela inteligência de quem a escuta, lhe chegam todavia com seu significado verdadeiro, assim como a palavra humana, mudada em eletricidade no telefone, se refaz palavra para ser ouvida. A fim de apagar do espírito de Andrée a ideia de que me interessava pela Sra. Bontemps, não falei mais dela apenas distraído, mas com malquerença; disse ter encontrado antigamente essa espécie de louca e esperava que isso nunca mais ocorresse. Ora, ao contrário, eu procurava encontrá-la de qualquer modo.
     Tentei obter de Elstir, mas sem dizer a ninguém que o havia solicitado, que lhe falasse de mim e me reunisse a ela. Ele prometeu-me fazer conhecê-la, espantando-se contudo de que eu o desejasse, pois julgava-a uma mulher desprezível, intrigante e tão desinteressante como interesseira. Pensando que, se visse a Sra. Bontemps, Andrée o saberia mais cedo ou mais tarde, julguei que era melhor avisá-la.

- As coisas de que a gente mais procura fugir são as que chegam sem que possamos evitá-las. - disse-lhe. - Nada no mundo pode me aborrecer tanto como encontrar a Sra. Bontemps e, no entanto, não tenho como lhe escapar; Elstir deve me convidar com ela. 
- Nunca duvidei um só instante - exclamou Andrée num tom amargo, enquanto seu olhar, engrandecido e alterado pelo descontentamento, fixava-se em alguma coisa invisível. 

     Estas palavras de Andrée não constituíam a mais ordenada exposição de um pensamento que assim pode resumir-se: 

"Sei muito bem que você ama Albertine e que faz de tudo para se aproximar de sua família."

     Mas eram as ruínas informes e reconstituíveis desse pensamento o que eu fizera explodir, ao me chocar com ele, apesar de Andrée. Assim como o "justamente", essas palavras só tinham significado em grau secundário. Isto é, eram dessas que, ao contrário das afirmações diretas, nos inspiram estima ou desconfiança para com alguém, ou nos fazem brigar com ele.
     Visto que Andrée não me acreditara quando lhe dizia que a família de Albertine me era indiferente, é que ela pensava que eu amava Albertine. E provavelmente não se sentia feliz com isso. Em geral, ela bancava o terceiro em meus encontros com sua amiga. Entretanto, havia dias em que eu devia ver Albertine sozinha, dias que esperava em febre, que passavam sem nada me trazer de decisivo, sem terem sido esse dia crucial cujo papel eu confiava imediatamente ao dia seguinte, que igualmente não o sustentaria; escoavam-se desse modo, sucessivamente como ondas, esses cumes logo substituídos por outros.
      Cerca de um mês depois do dia em que tínhamos brincado o jogo do anel, disseram-me que Albertine devia partir na manhã seguinte para ir passar 48 horas na casa da Sra. Bontemps, e, obrigada a tomar o trem muito cedo, viria dormir na véspera no Grande Hotel, de onde, de ônibus, poderia, sem incomodar as amigas em cuja casa habitava, tomar o primeiro trem. Falei sobre isso a Andrée.

- Não creio de jeito nenhum. - disse Andrée com ar descontente.- Aliás, isso não lhe adiantaria nada, pois tenho certeza que Albertine não vai querer vê-lo, caso for sozinha ao hotel. Não seria protocolar - acrescentou, empregando um adjetivo de que muito gostava, desde pouco, no sentido de "aquilo que se faz". Digo isto porque sei das ideias de Albertine. A mim, que me importa que você a veja ou não? Tanto faz.

      Reuniu-se a nós Octave, que não pôs obstáculos em dizer a Andrée o número de pontos que obtivera no golfe, na véspera, e depois Albertine, que passeava jogando o seu diabolô, como uma freira empunha o seu rosário. Graças a tal jogo ela podia ficar horas sozinha sem se aborrecer. Logo que se ajuntou a nós, surgiu-me a ponta rebelde de seu nariz, que eu havia omitido ao pensar nela nos últimos dias debaixo de seus cabelos pretos, a verticalidade da testa se opunha, e não pela primeira vez, à imagem indecisa que dela guardara, ao passo que, com sua brancura, mordiscava fortemente o meu olhar; saindo da poeira das lembranças, Albertine se reconstruía à minha frente. O golfe dá o hábito dos prazeres solitários. Aquele proporcionado pelo diabolô certamente o é. No entanto, depois de se reunir conosco, Albertine continuou a jogá-lo, sempre conversando com a gente, como uma dama a quem as amigas vieram visitar nem por isso pára de fazer crochê. 

- Parece que a Sra. de Villeparisis - disse ela a Octave - fez uma reclamação ao senhor seu pai - (Eu ouvi, por detrás da palavra "parece", uma dessas notas que eram bem de Albertine; cada vez que percebia tê-las esquecido, lembrava-me, ao mesmo tempo, de já ter entrevisto atrás delas a fisionomia decidida e francesa de Albertine. Poderia ser cego e conhecer muito bem algumas das qualidades alertas e um tanto provincianas dessas notas e da ponta do seu nariz. Umas e outro se equivaliam e teriam podido substituir-se, e sua voz era como o que dizem há de realizar o fototelefone do futuro: no som se recortava com nitidez a imagem visual). -Aliás, ela não escreveu apenas ao senhor seu pai, mas, ao mesmo tempo, ao prefeito de Balbec, para que não joguem mais diabolô no molhe. Atiraram-lhe uma bola à cara.

- Sim, eu o ouvi falar dessa reclamação. É ridícula. Já não há tantas distrações por aqui. 

     Andrée não se imiscuiu na conversação. Não conhecia, como tampouco Albertine e Octave, a Sra. de Villeparisis. 

- Não sei por que essa senhora criou tamanho caso. - disse ela no entanto. - A velha Sra. de Cambremer também levou uma bolada mas não se queixou.
- Vou lhe explicar a diferença - respondeu gravemente Octave, riscando um fósforo. -É que, na minha opinião, a Sra. de Cambremer é uma dama da sociedade e a Sra. de Villeparisis é uma arrivista. Vocês vão ao golfe esta tarde? 

     E nos deixou, bem como Andrée. Fiquei sozinho com Albertine. 

- Olhe. - disse ela -, eu agora arrumo os cabelos do jeito que você gosta; veja a minha mecha. Todo mundo zomba disso e ninguém sabe por quem me arrumo assim. Minha tia também vai rir de mim. Tampouco lhe direi o motivo. 

     Eu via de lado as faces de Albertine que muitas vezes pareciam pálidas; porém assim, banhadas por um sangue claro que as iluminava, adquiriam esse brilho que têm certas manhãs de inverno em que as pedras, parcialmente ensolaradas, parecem granito róseo e desprendem alegria. A que me dava naquele instante a vista das faces de Albertine era bem viva, mas levava a um outro desejo que não era o de passear, e sim o de beijar. Perguntei-lhe se eram verdadeiros os projetos que lhe atribuíam.

-Sim - disse ela -,vou passar esta noite no seu hotel e até vou deitar antes do jantar, pois estou um pouco resfriada. Você poderá vir assistir ao meu jantar, ao lado da cama, e depois poderemos jogar o que você quiser. Ficaria contente se for à estação amanhã de manhã, mas tenho medo que isso pareça meio estranho, não digo a Andrée, que é inteligente, mas às outras que lá estarão; iria provocar histórias se o repetissem à minha tia; mas poderíamos passar juntos o serão. Minha tia não saberá nada disso. Vou me despedir de Andrée. Então, até logo mais. Venha cedo para que tenhamos boas horas a nosso dispor - acrescentou sorrindo.

     A essas palavras, fui mais além do que nos tempos em que amava Gilberte, àqueles em que o amor me parecia uma entidade não só exterior, mas realizável. Ao passo que a Gilberte que eu via nos Champs-Élysées era uma outra diversa da que eu encontrava em mim desde que estava sozinho, de súbito, na Albertine real, a que eu via diariamente, que eu julgava cheia de preconceitos pequeno-burgueses e tão franca com a tia, vinha encarnar-se a Albertine imaginária, aquela por quem, quando não a conhecia ainda, me avaliara furtivamente molhado no molhe, a que parecia voltar a contragosto enquanto via que me afastava.
      Fui jantar com minha avó; sentia em mim um segredo que ela não conhecia. Do mesmo modo, quanto a Albertine, amanhã suas amigas estariam com ela sem saber o que havia de novo entre nós dois e, ao beijar a sobrinha na testa, a Sra. Bontemps ignoraria que eu estava entre ambas, naquele arranjo de cabelos que tinha por objetivo, oculto a todos, ser agradável a mim, a mim que até então tanto invejara a Sra. Bontemps porque, aparentada às mesmas pessoas que a sobrinha, precisava usar os mesmos lutos, fazer as mesmas visitas de família; ora, acontecia que eu era para Albertine mais do que a sua própria tia. Junto desta, era em mim que ela pensaria.
     Não sabia muito bem o que se passaria dali a pouco. Em todo o caso, o Grande Hotel e o serão já não me pareceriam vazios; continha a minha felicidade. Chamei o elevador para subir ao quarto que Albertine ocupava, que dava para o vale. Os menores movimentos, como sentar-me na banqueta do ascensorista, eram-me suaves, pois tinham relação imediata com meu coração; eu não via, nas cordas que faziam o aparelho subir, nos poucos degraus que me restava galgar, senão as rodas, os degraus materializados da minha alegria. Bastavam-me dois ou três passos a dar no corredor antes de chegar àquele quarto onde estava encerrada a preciosa substância daquele corpo rosado-esse quarto que, mesmo que ali se devessem desenrolar atos deliciosos, conservava aquela permanência, aquele ar de ser, para um transeunte não informado, semelhante a todos os outros, que fazem das coisas as testemunhas obstinadamente mudas, os escrupulosos confidentes, os depositários invioláveis do prazer.
     Esses poucos passos do patamar ao quarto de Albertine, esses passos que ninguém mais podia interromper, transpu-los com delícias, com prudência, como que mergulhado num elemento novo, como se, avançando, eu estivesse lentamente deslocando felicidade e, ao mesmo tempo, com um sentimento desconhecido de onipotência, e de entrar enfim de posse de uma herança que me pertencera o tempo todo. Depois, de súbito, pensei que errara em manter dúvidas; ela me dissera que fosse quando estivesse deitada.
     Era evidente: eu sapateava de alegria; quase atirei Françoise no chão porque estava no meu caminho; corria, os olhos cintilantes, para o quarto da minha amiga. Encontrei Albertine na cama. Descobrindo-lhe o pescoço, a camisola branca mudava as proporções do seu rosto, o qual, congestionado pela cama, pela gripe, ou pelo jantar, parecia mais róseo; pensei nas cores que tivera algumas horas antes, a meu lado, no molhe, e das quais iria enfim saber o gosto; a face estava atravessada, de alto a baixo, por uma de suas tranças negras e encaracoladas, que, para me agradar, desfizera completamente. Olhava-me sorrindo. A seu lado, na janela, o vale estava iluminado pelo luar. A visão do pescoço despido de Albertine, daquelas faces muito rosadas, me deu tal embriaguez (ou seja, pusera para mim a realidade do mundo não mais na natureza, mas na torrente de sensações que eu mal podia conter) que rompeu o equilíbrio entre a vida imensa, indestrutível, que rolava no meu ser, e a vida do universo, comparativamente tão mesquinha. O mar, que eu percebia perto do vale, na janela, os seios arqueados dos primeiros rochedos de Maineville, o céu onde a lua ainda não alcançara o zênite, tudo isso parecia mais leve de carregar do que plumas para os globos de minhas pupilas que, entre as pálpebras, eu sentia dilatadas, resistentes, prontas para erguer muitos outros fardos, todas as montanhas do mundo, sobre sua superfície delicada. Seu orbe já não se encontrava bastante preenchido pela própria esfera do horizonte. E tudo o que a natureza pudesse me trazer de vida teria me parecido bem pouco, os sopros marinhos me pareceriam curtos demais para a imensa aspiração que soerguia o meu peito. Inclinei-me para Albertine a fim de beijá-la. Ainda que a morte devesse me tocar naquele momento, isso me pareceria indiferente, ou melhor, impossível, pois a vida não estava fora de mim, estava em mim; eu teria sorrido com pena se um filósofo me externasse a ideia de que um dia, mesmo afastado, eu teria de morrer, que as forças eternas da natureza me sobreviveriam, as forças dessa natureza sob cujos pés divinos eu não passava de um grão de poeira; que, depois de mim, haveria ainda aquelas falésias arredondadas e arqueadas, aquele mar, aquele luar, aquele céu! Como seria possível isto, como poderia o mundo existir mais que eu, visto que eu não estava perdido nele, mas ele é que estava contido em mim, em mim que ele estava longe de preencher, em mim, onde, sentindo lugar para acumular tantos outros tesouros, eu jogava desdenhosamente para um canto, céu, mar e rochedos?

- Acabe com isso, ou eu toco a campainha - exclamou Albertine, vendo que me lançava sobre ela para beijá-la. Mas eu dizia comigo que não era para ficar sem fazer coisa alguma que uma moça convidava um rapaz para entrar às escondidas no seu quarto, manobrando para que sua tia não soubesse de nada, e que além disso a audácia é proveitosa para quem sabe desfrutar as ocasiões; no estado de exaltação em que me encontrava, o rosto redondo de Albertine, iluminado por um fogo interior como por uma lamparina, assumia para mim um tal relevo que, imitando a rotação de uma esfera ardente, parecia-me girar como as figuras de Michelangelo que um imóvel e vertiginoso turbilhão arrasta. Eu ia conhecer o aroma, o sabor desse desconhecido fruto róseo. Ouvi um som precipitado, prolongado e estridente. Albertine tocara a campainha com todas as forças.

      Julgara que o amor que sentia por Albertine não se baseava na esperança da posse física. Entretanto, quando me pareceu resultar da experiência daquela noite que essa posse era impossível e que, depois de não ter duvidado, no primeiro dia, na praia, que Albertine fosse uma sem-vergonha, e de ter passado depois por suposições intermediárias, pareceu-me certo, em definitivo, que ela era absolutamente virtuosa; quando, ao voltar da casa da tia, oito dias mais tarde, disse-me com frieza:

- Perdoo-o; lamento até lhe ter causado desgosto, mas não recomece nunca mais, ao contrário do que ocorrera quando Bloch me havia dito que eu poderia possuir todas as mulheres, e como se, ao invés de uma moça real, eu tivesse conhecido uma boneca de cera, deu-se que pouco a pouco se foi destacando dela o meu desejo de penetrar em sua vida, de acompanhá-la nas terras onde passara a infância, de ser iniciado por ela numa vida desportiva; e minha curiosidade intelectual sobre o que ela pensava acerca de tal ou qual assunto não sobreviveu à crença de que poderia beijá-la. Meus sonhos a abandonaram desde que deixaram de ser alimentados pela esperança de uma posse, da qual os julgara independentes. Desde então viram se livres para se referir - conforme o encanto que lhes achasse um certo dia, sobretudo conforme a possibilidade e as chances que entrevia de ser amado por elas - a esta ou aquela das amigas de Albertine, principalmente Andrée. No entanto, se Albertine não tivesse existido, talvez eu não tivesse sentido o prazer que principiei a sentir cada vez mais, nos dias seguintes, diante da gentileza que me testemunhava Andrée. Albertine não contara a ninguém o fracasso que eu experimentara com ela.

     Era uma dessas moças bonitas que, desde a extrema juventude, por sua beleza, mas principalmente por um atrativo, um encanto que permanece bem misterioso e que tem suas origens talvez nas reservas de vitalidade onde os menos favorecidos pela natureza vêm se saciar, sempre - em sua família, no meio das amigas, na sociedade - agradaram mais que outras mais belas, mais ricas; era dessas criaturas a quem, antes da idade do amor e bem mais ainda quando ele chega, se pede mais do que elas pedem e até mais do que podem dar. Desde a infância, Albertine tivera sempre em admiração a seu redor quatro ou cinco amiguinhas, entre as quais Andrée, que lhe era tão superior e o sabia (e talvez essa atração exercida por Albertine tão involuntariamente estivesse na origem, tivesse servido para a fundação do pequeno grupo). Essa atração se exercia mesmo bem longe, nos ambientes relativamente mais brilhantes onde, se houvesse uma pavana para dançar, Albertine era solicitada de preferência a uma jovem mais bem-nascida. O resultado era que, não tendo um tostão de dote, vivendo bastante mal, aliás, a cargo do Sr. Bontemps, que diziam ser corrupto e desejar livrar-se dela, ela era no entanto convidada não só para jantar mas para morar em casa de pessoas que, aos olhos de Saint-Loup, não teriam qualquer elegância, mas que, para a mãe de Rosemonde ou para a mãe de Andrée, mulheres muito ricas mas que não conheciam tais pessoas, representavam algo enorme. Assim, Albertine passava, todos os anos, algumas semanas com a família de um diretor do Banco da França, presidente do Conselho de administração de uma grande companhia de estradas de ferro. A mulher desse financista recebia personagens importantes e jamais cumprimentara a mãe de Andrée, a qual achava descortês essa dama, mas nem por isso se sentia menos prodigiosamente interessada por tudo o que se passava na casa dela. Assim, todos os anos exortava Andrée a convidar Albertine para a sua vivenda, porque, dizia, era uma boa obra oferecer uma temporada à beira-mar a uma menina que não tinha nada de seu para viajar e com quem a tia praticamente não se importava; a mãe de Andrée provavelmente não era movida pela esperança de que o diretor do Banco e sua esposa, sabendo que Albertine era mimada por ela e sua filha, formassem uma melhor opinião sobre ambas; com muito maior razão, não esperava que Albertine, contudo tão boa e hábil, soubesse fazê-la ser convidada, ou, pelo menos, que conseguisse convidar Andrée para os garden-party do financista. Mas todas as noites, ao jantar, sempre assumindo um ar de indiferença e desdém, ela ficava encantada ao ouvir Albertine lhe contar o que se passara no castelo durante a sua permanência, as pessoas que ali tinham sido recebidas, quase todas conhecidas dela de vista ou pelo nome. Mesmo a ideia de que ela não os conhecia senão desse modo, ou seja, simplesmente não os conhecia (ela chamava a isto conhecer as pessoas "desde sempre") conferia uma ponta de melancolia à mãe de Andrée, enquanto fazia a Albertine perguntas sobre eles com ar altivo e distraído, com a extremidade dos lábios, e que poderia deixá-la inquieta e insegura quanto à importância de sua própria condição, caso não se tranquilizasse a si mesma e se recolocasse na "realidade da vida" dizendo ao mordomo: 

- Diga ao chefe que suas ervilhas não estão bem cozidas.

     Recuperava então a sua serenidade. E estava mesmo disposta a que Andrée só se casasse com um homem, de excelente família, é claro, mas suficientemente rico para que ela também pudesse ter um chefe de cozinha e dois cocheiros. Era isso o positivo, a verdade efetiva de uma situação social. Mas que Albertine houvesse jantado no castelo do diretor do Banco com essa ou aquela dama, que essa dama chegasse mesmo a convidá-la para o inverno seguinte, isso não deixava de trazer à moça, no modo de ver da mãe de Andrée, uma espécie de consideração particular que se casava muito bem à piedade e até ao desprezo excitados pelo seu infortúnio, desprezo aumentado pelo fato de o Sr. Bontemps haver traído a sua bandeira aliando se ao governo e até mesmo vagamente panamista, ao que diziam. O que, aliás, não impedia que a mãe de Andrée, por amor à verdade, fulminasse com seu desprezo as pessoas que davam a impressão de crer que Albertine fosse de baixa extração.

- Como, é o que há de melhor, são Simonets com um só.

      Certamente, devido ao meio em que tudo isso ia evoluindo, em que o dinheiro desempenha tal papel, e onde a elegância faz com que nos convidem mas não com que nos desposem, nenhum casamento "aceitável" poderia ser, para Albertine, a consequência útil da consideração tão distinta de que ela gozava e que não teriam julgado compensadora de sua pobreza. Mas só por si mesmos, e sem trazer esperança de uma consequência matrimonial, tais "sucessos" excitavam a inveja de certas mães maldosas, que se encolerizavam por ver Albertine ser recebida como "filha da casa" pela mulher do diretor do Banco, e até pela mãe de Andrée, a quem mal conheciam. Assim, diziam a amigos comuns a elas e a essas duas damas, que estas ficariam indignadas se soubessem a verdade, isto é, que Albertine contava na casa de uma (e vice-versa) tudo o que a intimidade em que a admitiam imprudentemente lhe permitia descobrir sobre a outra, mil pequenos segredos que seria infinitamente desagradável à interessada ver desvendados. Tais mulheres invejosas diziam isto para que se espalhasse e para que Albertine fosse mal vista pelos seus protetores. Mas semelhante política, como ocorre muitas vezes, não alcançava nenhum êxito. Sentia-se demais a maldade que a inspirava, e isto só fazia desprezar ainda mais aquelas que tinham tomado tal iniciativa. A mãe de Andrée estava bem determinada a respeito de Albertine para que mudasse de opinião. Considerava-a uma "infeliz", mas de índole excelente, e que não sabia o que mais inventar para agradar.
     Se essa espécie de fama que obtivera Albertine não parecia comportar nenhum resultado prático, ela imprimira à amiga de Andrée o caráter distintivo das criaturas que, sempre solicitadas, jamais têm necessidade de se oferecer (caráter que também se encontra, por motivos análogos, num outro extremo da sociedade, nas mulheres de grande elegância) e que é não exibirem o sucesso que obtêm, mas antes ocultá-lo. Ela nunca dizia de alguém:

"Ele tem vontade de me ver", falava de todos com grande benevolência e como se fosse ela quem corresse atrás, procurasse os outros. Se falavam de um rapaz que minutos antes lhe havia feito pessoalmente as mais amargas censuras, porque ela lhe recusara um encontro, bem longe de se gabar publicamente ou de lhe querer mal, Albertine o elogiava:

- É um excelente rapaz. 

     Ficava mesmo muito aborrecida que se agradassem tanto dela, pois aquilo a obrigava a causar mágoa, ao passo que, por sua natureza, gostava de causar prazer. Gostava mesmo de causar prazer ao ponto de ter dito uma mentira especial a certas pessoas utilitárias, a certos homens vitoriosos. Existindo, aliás, em estado embrionário, em um número enorme de pessoas, esse tipo de insinceridade consiste em não saber se contentar com um único ato, em causar prazer, graças a este, a uma só pessoa. Por exemplo, se a tia de Albertine desejava que a sobrinha a acompanhasse a uma reunião matinal pouco divertida, Albertine, comparecendo, poderia achar suficiente o proveito moral de ter dado prazer à tia. Mas, acolhida gentilmente pelos donos da casa, preferia lhes dizer que desejava há muito visitá-los e que escolhera aquela ocasião e solicitara a permissão da tia. Isto ainda não era bastante: naquela matinê se achava presente uma das amigas de Albertine que tivera um grande desgosto. Albertine lhe dizia: 

- Não quis te deixar sozinha, julguei que te faria bem que eu estivesse junto de ti. Se queres que deixemos a matinê, vamos a outro lugar; farei o que quiseres, pois acima de tudo desejo te ver menos triste - (o que aliás também era verdade).

      Às vezes, no entanto, ocorria que o objetivo fictício destruía a finalidade real. Assim, tendo Albertine um serviço a pedir para uma das amigas, ia por esse motivo visitar uma certa dama. Mas, logo ao chegar à casa dessa dama bondosa e simpática, ela, obedecendo sem querer ao princípio de utilização múltipla de uma única ação, achava mais afetuoso dar a impressão de ter vindo apenas devido ao prazer que sentia que iria experimentar ao rever aquela dama. Esta ficava muito sensibilizada pelo fato de Albertine ter percorrido um longo trajeto por pura amizade.
     Vendo a dama quase comovida, Albertine gostava ainda mais dela. Unicamente, acontecia o seguinte: experimentava tão vivamente o prazer da amizade pelo qual mentirosamente pretendia ter vindo, que temia que a senhora duvidasse dos sentimentos, na verdade sinceros, se ela lhe pedisse o obséquio para a amiga. A dama julgaria que Albertine a fora visitar para aquilo, o que era verdadeiro, mas concluiria que Albertine não sentia prazer desinteressado em vê-la, o que era falso. De modo que Albertine voltava sem lhe ter pedido o obséquio, como os homens que foram tão bons com uma mulher na esperança de obter os seus favores, que não se declaram a elas para que essa bondade mantenha um caráter de nobreza. Em outros casos, não se pode dizer que o objetivo verdadeiro fosse sacrificado ao objetivo acessório e imaginado posteriormente, mas o primeiro era de tal modo oposto ao segundo que, se a pessoa que Albertine comovia ao lhe declarar um ficasse conhecendo o outro, seu prazer logo se transformaria no desgosto mais profundo. A sequência da narrativa fará melhor compreender, bem mais adiante, esse gênero de contradições. Digamos, com um exemplo tirado a uma ordem de fatos muito diversos, que são muito frequentes nas mais variadas situações que a vida oferece.
     Um marido instalou sua amante na cidade em cujo quartel está servindo. Sua mulher, que ficou em Paris e está relativamente a par da verdade, mostra-se desolada, escrevendo ao marido cartas cheias de ciúme. Ora, a amante é obrigada a vir passar um dia em Paris. O marido não pode resistir a seus pedidos de acompanhá-la e obtém uma licença de 24 horas. Mas, como é uma boa pessoa e sofre por causar desgosto à esposa, chega em casa e lhe diz, derramando algumas lágrimas sinceras, que, transtornado pelas cartas dela, arranjou um meio de a vir consolar e abraçar. Assim, achou um meio de dar, com uma só viagem, uma prova de amor ao mesmo tempo à esposa e à amante. Mas, se a esposa soubesse o motivo pelo qual o marido tinha vindo a Paris, sua alegria se iria mudar sem dúvida em desgosto, a não ser que visse que o ingrato a tornava, apesar de tudo, mais feliz do que infeliz com suas mentiras. Entre os homens que me pareceram praticar mais assiduamente o sistema de fins múltiplos está o Sr. de Norpois. Às vezes aceitava ser o intermediário entre dois amigos brigados, e isto fazia com que o chamassem o mais obsequioso dos homens. Mas não lhe bastava dar a impressão de prestar um serviço a quem o solicitara; apresentava ao outro as negociações que fazia junto a ele como empreendidas, não a pedido do primeiro, mas no interesse do segundo, o que persuadia facilmente um interlocutor sugestionado de antemão pela ideia de que tinha à sua frente "o mais serviçal dos homens". Dessa forma, jogando em dois tabuleiros, fazendo o que em linguagem de teatro se chama contraparte, jamais deixava que sua influência corresse qualquer risco, e os serviços que prestava não constituíam uma alienação e sim uma frutificação de uma parte do seu crédito. Por outro lado, todo serviço prestado, parecendo duplamente retribuído, aumentava ainda mais a sua reputação de amigo serviçal, e serviçal com eficiência, que não faz esforços inúteis, cujos passos dão sempre bom resultado, o que era demonstrado pelo reconhecimento dos dois interessados. Essa duplicidade no obséquio era, e com desmentidos como em toda criatura humana, uma parte importante do caráter do Sr. de Norpois. E muitas vezes, no Ministério, servia se de meu pai, que era bastante ingênuo, fazendo-o crer que o estava servindo.
     Agradando mais do que desejava e não tendo necessidade de alardear o seu sucesso, Albertine guardou silêncio sobre a cena que tivera comigo ao lado da cama, e que uma moça feia gostaria de ter dado ciência ao universo inteiro. Além disso, eu não conseguia me explicar sua atitude naquela cena. Pelo que respeita à hipótese de uma virtude absoluta (hipótese que a princípio atribuíra à violência com que Albertine recusara se deixar beijar e agarrar por mim e que, de resto, não era de modo algum indispensável à minha concepção da bondade, da honestidade essencial da minha amiga), não deixei de examiná-la por diversas vezes. Essa hipótese era bem o contrário da que eu levantara no primeiro dia em que vira Albertine. Depois, tantos atos diferentes, todos de gentileza para comigo (uma gentileza carinhosa, às vezes inquieta, alarmada, ciumenta de minha predileção por Andrée), banhavam por todos os lados o gesto rude com o qual, para fugir de mim, ela tocara a campainha. Por que então me pedira para vir passar o serão junto de sua cama? Por que falava o tempo todo a linguagem da ternura? Sobre o que repousa o desejo de ver um amigo, de temer que ele lhe prefira a sua amiga, de tentar agradá-lo, de lhe dizer romanescamente que as outras não saberão que passou o serão com ela, se lhe recusa um prazer tão simples e que não é um prazer para ela? Da mesma forma, não podia acreditar que a virtude de Albertine fosse até esse ponto e chegava a me perguntar se não houvera, para sua violência, um motivo de coqueteria, por exemplo, um aroma desagradável que julgasse ter em si e com o qual temera me incomodar, ou de pusilanimidade, se, por exemplo, julgasse, em sua ignorância das realidades do amor, que meu estado de fraqueza nervosa podia ter algo de contagioso através do beijo.
      Certamente ficou desolada por não ter podido me dar prazer e me ofereceu um pequeno lápis de ouro, devido a essa virtuosa perversidade das pessoas que, enternecidas com a nossa gentileza e não concordando em nos conceder o que ela reclama, querem todavia fazer outra coisa em nosso favor: o crítico, cujo artigo lisonjearia o romancista, em vez disso o convida para jantar; a duquesa não leva o esnobe consigo ao teatro, mas manda-lhe o seu camarote para uma noite em que ela não irá. Tanto aqueles que fazem o mínimo e poderiam não fazer nada são levados pelo escrúpulo a fazer algo! Disse a Albertine que, dando-me o lápis, ela me proporcionava um grande prazer, todavia menor do que eu teria se, na noite em que ela dormira no hotel, tivesse permitido que a beijasse. 

- Isto me faria tão feliz! E o que é que lhe podia acontecer? Estou surpreso que me tenha repelido. 
- O que me espanta. - respondeu ela - é que você ache isso espantoso. Pergunto a mim mesma que tipo de moças poderá ter conhecido para que minha conduta lhe cause surpresa. 
- Estou desolado por tê-la aborrecido, mas, mesmo agora, não posso lhe dizer que considero ter procedido mal. Minha opinião é que se trata de coisas sem importância, e não compreendo que uma moça que tão facilmente pode causar prazer não consinta nisso. Entendamo-nos. - acrescentei, para dar uma meia-satisfação às suas ideias morais, lembrando-me como ela e suas amigas tinham difamado a amiga da atriz Léa -, não quero dizer que uma moça possa fazer tudo e que não existe nada que seja imoral. Assim, olhe, essas relações de que você falava outro dia a respeito de uma menina que mora em Balbec e que existiria entre ela e uma atriz, acho isso ignóbil, tão ignóbil que penso que são os inimigos dessa moça que inventaram tudo isso e que nada do que foi contado é verdade. Isto me parece improvável, impossível. Porém deixar-se beijar, e ainda mais por um amigo, já que você diz que sou seu amigo... 
- É meu amigo, mas tive outros antes de você; conheci rapazes que, asseguro-lhe, tinham por mim amizade igual. Muito bem, nenhum deles teria ousado fazer coisa semelhante. Bem sabiam o par de tapas que teriam levado. Aliás, nem pensavam nisso; a gente se apertava as mãos com toda a franqueza, como amigos, como bons camaradas; jamais nos falaríamos em beijar e não éramos menos amigos por isso. Vamos, se faz questão da minha amizade, pode ficar contente, pois é preciso que eu goste muito de você para perdoá-lo. Mas estou certa de que pouco liga para mim. Confesse que gosta mesmo é de Andrée. No fundo você tem razão; ela é muito mais amável que eu, e é deslumbrante! Ah! Os homens!

     Apesar da minha decepção recente, essas palavras de tanta franqueza, dando-me uma grande estima por Albertine, causaram-me uma doce impressão. E talvez essa impressão tivesse para mim grandes e lastimáveis consequências, pois foi por ela que principiou a se formar aquele sentimento quase familiar, aquele núcleo moral que sempre devia subsistir no meio do meu amor por Albertine. Um tal sentimento pode ser a causa de mágoas maiores. Pois, para sofrer verdadeiramente por uma mulher, é preciso ter acreditado totalmente nela. Naquele momento, esse embrião de estima moral, de amizade, permanecia no meio da minha alma como pedra de espera. Não teria podido nada, sozinho, contra a minha felicidade se tivesse continuado assim, sem aumentar, numa inércia que deveria conservar no ano seguinte e, com muito mais razão ainda, durante as últimas semanas de minha primeira temporada em Balbec. Estava em mim como um desses hóspedes que, apesar de tudo, seria mais prudente expulsar, mas que deixam que permaneça sem inquietá-lo, de tanto que os tornam provisoriamente inofensivos sua fraqueza e seu isolamento no meio de uma alma estranha.

continua na página 226...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Primeira Parte
Segunda Parte
À Sombra das Moças em Flor (Nomes de Lugares: o Lugar - y)
Volume 3
Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Marcel Proust - À Sombra das Moças em Flor (Nomes de Lugares: o Lugar - x)

em busca do tempo perdido


volume II
À Sombra das Moças em Flor

Segunda Parte
Nomes de Lugares: o Lugar


(x)

continuando...

      Gisele julgara dever endereçar à amiga, a fim de que esta a comunicasse às outras, a composição que tivera de fazer para obter seu diploma de estudos do segundo grau. Os temores de Albertine acerca das dificuldades dos assuntos propostos tinham aumentado ainda mais devido aos dois entre os quais Gisele fora obrigada a optar. Um era: 

"Sófocles escreve dos Infernos para consolar Racine pelo fracasso de Athaiie"; o outro: “Suponha que, após a primeira representação de Esther, a Sra, de Sévigné escreve à Sra. de La Fayette para lhe dizer o quanto lamentou a sua ausência."

     Pois Gisele, por um excesso de zelo que deve ter tocado os examinadores, escolhera o primeiro, o mais difícil dos dois assuntos, e o desenvolvera de modo tão notável que obtivera 14 e fora felicitada pelo júri. Teria conseguido a menção "ótimo" se não tivesse levado pau no exame de espanhol. A composição, cuja cópia Gisele enviara a Albertine, nos foi lida imediatamente por esta, visto que, devendo ela própria passar pelo mesmo exame, desejava muito ouvir a opinião de Andrée, muito mais forte que elas todas e que podia lhe dar bons conselhos. 

- Ela tem uma sorte! - disse Albertine. - Era justamente o assunto que lhe deu aqui sua professora de francês.

     A carta de Sófocles a Racine, redigida por Gisele, começava assim:

"Meu caro amigo, desculpai-me o escrever-vos sem ter tido a honra de ser conhecido pessoalmente de vós, mas vossa nova tragédia, Athalie, não mostrará por acaso que estudastes perfeitamente bem as minhas modestas obras? Não pusestes versos senão na boca dos protagonistas, ou personagens principais do drama, porém escrevestes alguns, e encantadores; permiti que vos diga sem lisonjas, quanto aos coros, que não faziam má figura, segundo se diz, na tragédia grega, mas que são na França uma legítima novidade. Além do mais, o vosso talento, tão fino, tão aprimorado, tão arrebatador, tão sutil, tão delicado, alcançou uma energia pela qual vos felicito. 
Athalie, Joad, eis personagens que vosso rival, Corneille, não teria burilado melhor. As índoles são viris, a intriga é simples e forte. Eis uma tragédia cujo móvel não é o amor e apresento-vos meus mais sinceros cumprimentos. Os mais famosos preceitos nem sempre são os mais verdadeiros. Citar-vos-ei como exemplo:
''Desta paixão a sensível pintura 
 Chega-nos pela via mais segura.'' 
 Tendes provado que o sentimento religioso que transborda de vossos coros não é menos capaz de emocionar. O grande público pode ter ficado desorientado, mas os verdadeiros conhecedores vos rendem justiça. Portanto, fiz questão de vos enviar minhas congratulações, às quais acrescento, meu caro confrade, a expressão dos meus mais elevados sentimentos."

     Os olhos de Albertine não tinham deixado de cintilar enquanto estivera lendo:

- Parece até que ela copiou isto - exclamou, ao acabar. - Nunca teria acreditado que Gisele fosse capaz de realizar uma tarefa destas. E os versos que ela cita! De onde será que os afanou? A admiração de Albertine, é verdade que mudando de objeto, ainda mais aumentou, bem como a mais aplicada atenção, fazendo com que "os olhos lhe saíssem das órbitas" quando Andrée, consultada por ser a mais velha e a mais instruída, falou do trabalho de Gisele primeiro com uma certa ironia e, depois, com um ar displicente que mal dissimulava a sua verdadeira seriedade, e refez à sua moda a mesma carta. 
- Não está má. - disse ela a Albertine mas, se eu fosse você e me dessem o mesmo tema, o que pode ocorrer, pois o apresentam seguido, não faria desse jeito. Eis como faria. Primeiro, se fosse Gisele, não me deixaria embalar e teria começado escrevendo numa folha à parte o plano da obra. Na primeira linha, a posição da questão e a exposição do tema; depois, as ideias gerais que entrariam no desenvolvimento do assunto. Por fim, a apreciação, o estilo, a conclusão. Desse modo, inspirando-se num sumário, a gente sabe aonde vai. Desde a exposição do tema, ou, se você prefere, Titine, já que se trata de uma carta, desde a entrada no assunto, Gisele comete um equívoco. Dirigindo-se a um homem do século XVII, Sófocles não devia ter escrito: "Meu caro amigo". 
- É verdade, deveria tê-lo feito dizer: "Meu caro Racine" - gritou fogosamente Albertine. - Teria ficado bem melhor. 
- Não. - respondeu Andrée num tom meio trocista -, deveria ter posto "Senhor". Da mesma forma, para encerrar deveria ter encontrado algo como: "Permiti, Senhor (quando muito "caro Senhor"), que vos diga dos sentimentos de estima com os quais tenho a honra de ser vosso servidor." Por outro lado, Gisele diz que os coros são uma novidade em Athalie. Ela esquece Esther, e duas tragédias pouco sabidas, mas que precisamente este ano foram analisadas pelo professor, de modo que, bastando citá-las, pois são a mania dele, a gente tem certeza de ser aprovada. São As Judias, de Robert Garnier, e o Amante, de Montchrestien.

     Andrée citou estes dois títulos sem conseguir esconder um sentimento de benevolente superioridade que se exprimiu num sorriso, aliás bem gracioso. Albertine não se conteve:

- Andrée, você é de abafar - exclamou. - Vai me escrever estes dois títulos. O quê? Imagine só se me cair isso na prova; mesmo que fosse na oral, eu os citaria logo e causaria um efeito tremendo.

     Mas, a seguir, cada vez que Albertine pediu a Andrée que lhe repetisse os nomes das duas peças para que ela as escrevesse, a tão sábia amiga fingiu tê-los esquecido e nunca mais pôde recordá-los.

- Depois - continuou Andrée num tom de imperceptível desdém pelas companheiras mais pueris, porém feliz por se fazer admirar e dando mais importância do que parecia à forma de como teria desenvolvido o assunto - Sófocles nos Infernos deve estar bem informado. Assim, deve saber que não é diante do grande público, mas diante do Rei-Sol e de alguns cortesãos privilegiados que Athalie foi representada. O que Gisele diz a respeito da estima dos conhecedores não está inteiramente ruim, mas poderia ser completado. Sófocles, tornado imortal, pode muito bem ter o dom da profecia e anunciar que, segundo Voltaire, Athalie não será apenas "a obra-prima de Racine, mas do espírito humano".

     Albertine bebia todas essas palavras. Tinha as pupilas em fogo. E foi com a mais profunda indignação que repeliu a proposta de Rosemonde para começarem a jogar.

- Enfim. - disse Andrée no mesmo tom desligado, desenvolto, um tanto zombeteiro e ardentemente convicto-, se Gisele tivesse anotado antes as ideias gerais para desenvolvê-las, talvez houvesse pensado no que eu faria, ou seja, mostrar a diferença existente entre a inspiração religiosa dos coros de Sófocles e a dos de Racine. Eu teria feito, por meio de Sófocles, a observação de que, se os coros de Racine são impregnados de sentimentos religiosos como os da tragédia grega, não se trata todavia dos mesmos deuses. O deus de Joad nada tem a ver com o de Sófocles. E isto leva, muito naturalmente, após o fim do desenvolvimento, à conclusão: Que importa que as crenças sejam diversas?" Sófocles sentiria escrúpulos em insistir nesse ponto. Recearia ferir as convicções de Racine e, insinuando a esse respeito algumas palavras sobre seus mestres de Port-Royal, prefere felicitar o seu êmulo pela elevação do seu gênio poético.

     A admiração e a atenção tinham dado tanto calor a Albertine que ela suava em bicas. Andrée conservava a fleuma sorridente de um dândi feminino. 

- Também não seria mau citar alguns julgamentos de críticos célebres. - disse ela antes que recomeçassem a jogar.
- Sim - respondeu Albertine -, já me disseram isso. Os mais recomendáveis, em geral, são os julgamentos de Sainte-Beuve e Merlet, não é? 
- Não está enganada de modo nenhum. - replicou Andrée que aliás se recusou a lhe escrever os dois outros nomes malgrado as súplicas de Albertine. - Merlet e Sainte-Beuve são bem lembrados. Mas é preciso citar principalmente Deltour e Gasc-Desfossés.

      Enquanto isso, eu pensava na folhinha do bloco que Albertine me passara: 

"Amo-te muito", e, uma hora depois, descendo os caminhos, um tanto íngremes para o meu gosto, que levavam a Balbec, dizia comigo que seria com ela que viveria o meu romance.

     O estado caracterizado pelo conjunto de signos pelos quais normalmente julgamos estar enamorados, como as ordens que eu dava no hotel para não me despertarem fosse qual fosse a visita, a não ser que se tratasse de uma ou outra dessas moças, como as batidas de coração ao esperá-las (qualquer que fosse a que estivesse por chegar) e, naqueles dias, a minha raiva se não achasse um barbeiro e devesse me apresentar diante de Albertine, Rosemonde ou Andrée com a barba por fazer esse estado, sem dúvida, renascendo alternativamente por uma ou por outra, era tão diferente daquilo a que chamamos amor como difere a vida humana da dos zoófitos, nos quais a existência, a individualidade se assim podemos chamá-la, se reparte entre organismos diversos. Mas a História Natural nos ensina que se observa semelhante organização animal e que nossa própria vida, por pouco que já esteja um tanto adiantada, não é menos afirmativa sobre a realidade dos estados insuspeitados por nós antigamente e pelos quais devemos passar, mesmo que seja para abandoná-los em seguida; tal era para mim aquele estado amoroso dividido simultaneamente entre várias moças. Dividido, ou melhor, indiviso, pois, na maioria das vezes, o que me era mais delicioso, diferente do resto do mundo, o que principiava a me ser tão caro a ponto de que a esperança de voltar a vê-lo no dia seguinte era a melhor alegria da minha vida, era antes o grupo inteiro dessas moças, tomado em conjunto naquelas tardes sobre o rochedo, durante aquelas horas ao ar livre, naquela faixa de relva onde se sentavam as figuras, tão excitantes para a minha imaginação, de Albertine, de Rosemonde e de Andrée; e isto sem que eu pudesse dizer qual delas me fazia tão preciosas aquelas paragens, qual delas eu tinha mais desejos de amar.
     No princípio de um amor, como no seu término, não estamos exclusivamente ligados ao objeto desse amor, ou melhor, o desejo de amar de que ele vai derivar (e, mais tarde, a recordação que ele deixa) erra voluptuosamente numa zona de encantos intercambiáveis encantos às vezes simplesmente de natureza, de gula, de moradia-bastante harmônicos entre si para que ele não se sinta em terra estranha junto de nenhum. Além disso, como diante delas eu ainda não me mostrava enfastiado pelo hábito, tinha a faculdade de vê-las, ou seja, de sentir profundo espanto, cada vez que me encontrava em sua presença. Por um lado, sem dúvida, esse espanto se deve à criatura que nos apresenta então uma nova faceta de si mesma; mas é tão grande a multiplicidade de cada uma, a riqueza de linhas de seu rosto e de seu corpo, linhas das quais tão pouco voltamos a encontrar, logo que não estamos mais perto da pessoa, na simplicidade arbitrária de nossa lembrança-como a memória escolheu determinada particularidade que nos impressionou, isolou-a, exagerou-a, fazendo de uma mulher que nos pareceu alta um estudo onde o comprimento do seu talhe é desmesurado, ou de uma mulher que nos pareceu loura e rosada uma pura "Harmonia em rosa e ouro", no momento em que essa mulher está de novo perto de nós, todas as outras qualidades esquecidas que lhe dão equilíbrio nos assaltam, em sua complexidade confusa, diminuindo a altura, afogando o tom róseo, e substituindo o que viemos buscar com exclusividade por outras particularidades que não nos lembrávamos de ter notado da primeira vez e que não compreendemos que contássemos tão pouco com revê-las. Lembramo-nos: íamos ao encontro de um pavão e encontramos uma peônia. E esse espanto inevitável não e o único; pois junto dele há um outro, nascido da diferença não mais entre as estilizações da lembrança e da realidade, mas entre a criatura que vimos pela última vez e a que nos surge hoje sob outro ângulo, mostrando-nos um novo aspecto. O rosto humano é verdadeiramente como o do deus de uma teogonia oriental, todo um cacho de fisionomias justapostas nos planos diferentes que não vemos ao mesmo tempo.
     Mas, em grande parte, o nosso espanto provém sobretudo de que a criatura também nos apresenta uma mesma face. Ser-nos-ia necessário um tão grande esforço para recriar tudo o que nos foi proporcionado por algo que não é nós próprios ainda que seja o sabor de uma fruta-que mal recebemos a impressão descemos insensivelmente o declive da lembrança e, sem dar por isso, em pouco tempo estamos muito longe daquilo que sentimos. De modo que todo novo encontro é uma espécie de correção que nos reconduz ao que muito bem tínhamos visto. Já não nos lembrávamos mais, de tal modo o que se denomina lembrar uma criatura é na verdade esquecê-la. Mas, enquanto ainda sabemos ver, no momento em que o traço esquecido aparece nós o reconhecemos, somos obrigados a retificar a linha que se desviou e, assim, a perpétua e fecunda surpresa que fazia tão saudáveis e suavizadores para mim esses encontros diários com as bonitas moças à beira-mar, era feita de partes iguais de descobertas e reminiscências. Acrescentando-se a isto a agitação despertada pelo que elas representavam para mim, que jamais era inteiramente aquilo que eu julgara, o que fazia que a esperança do próximo encontro não mais fosse idêntica à precedente e sim à lembrança ainda vibrante do último encontro, compreender-se-á que cada passeio dava a meus pensamentos uma violenta mudança de rumo, e não na direção que eu traçara a sós no meu quarto, com a cabeça descansada. E essa direção ficava esquecida, anulada, quando eu voltava, vibrando como uma colmeia, com as frases que me haviam perturbado, e que ressoavam dentro de mim por muito tempo. Cada criatura é destruída quando a deixamos de ver; depois, o seu aparecimento seguinte é uma nova criação, diversa da que a precedeu imediatamente, senão de todas. Pois o mínimo de variedades que possa reinar em tais criações é representado pelo número dois.
     Se lembramos um olhar enérgico, um jeito atrevido, o próximo encontro inevitavelmente nos deixará espantados, ou seja, quase exclusivamente impressionados com um lânguido perfil, por uma espécie de doçura sonhadora, coisas que havíamos negligenciado na recordação anterior. No confronto entre a nossa lembrança e a nova realidade, é isso que marcará a nossa decepção ou nossa surpresa, e agora nos parece o retoque da realidade advertindo-nos de que nossa recordação era falha; por seu turno, o aspecto fisionômico negligenciado da última vez e, por isso mesmo, mais sedutor agora, mais real e corrigido, se transformará em matéria de recordações e devaneios. É um perfil suave, langoroso, uma expressão sonhadora e doce, o que desejamos rever. E então, da próxima vez, o que houver de voluntário no olhar penetrante, no nariz pontudo, nos lábios cerrados, virá corrigir a defasagem entre o nosso desejo e o objeto que julgava corresponder-lhe. Fica bem entendido que essa fidelidade às impressões primeiras, puramente físicas, reencontradas sempre junto de minhas amigas, não se referia somente às suas feições, pois já vimos que eu também era sensível às suas vozes, talvez mais inquietantes (pois elas não oferecem apenas as mesmas superfícies singulares e sensuais das feições, mas fazem parte do abismo inacessível que dá a vertigem dos beijos sem esperança), vozes semelhantes ao som único de um pequeno instrumento onde cada uma punha inteira a sua alma e que era exclusivamente seu. Traçada por uma inflexão, a linha profunda de uma dessas vozes espantava-me sempre que a reconhecia depois de a ter esquecido. Tanto que as retificações que eu era obrigado a fazer a cada novo encontro, para voltar ao tom exato, eram tão adequadas a um afinador ou a um professor de canto, como a um desenhista.
      Quanto à harmoniosa coesão em que se neutralizavam já algum tempo, pela resistência que cada uma opunha à expansão das demais, as diversas ondas de sentimento propagadas em mim por essas moças, tudo se rompeu em favor de Albertine, numa tarde em que brincávamos de passar anel. Era num pequeno bosque sobre a falésia. Colocado entre duas jovens estranhas ao pequeno grupo e que minhas amigas haviam trazido porque nesse dia deveríamos ser bem numerosos, eu olhava com inveja o vizinho de Albertine, um rapaz, dizendo comigo que, se estivesse no seu lugar, poderia tocar as mãos da minha amiga naqueles minutos inesperadas que talvez jamais voltassem e que tão longe poderiam me levar. Já o simples contato das mãos de Albertine, e até sem pensar nas consequências que daí adviriam, me parecia delicioso. Não que eu nunca tivesse visto mãos mais lindas que as suas. Até no grupo de suas amigas, as de Andrée, delgadas e bem mais finas, tinham como que uma vida particular, dócil ao comando da moça, mas independente, e muitas vezes se alongavam diante dela como nobres lebreus, com atitudes de preguiça, de sonho profundo, e estiramentos bruscos de uma falange, devido aos quais Elstir havia feito vários estudos dessas mãos. Num deles, via-se Andrée aquecendo-as ao fogo e, diante da luz, elas mostravam a diafaneidade dourada de duas folhas de outono. Porém mais grossas, as mãos de Albertine cediam um instante e depois resistiam à pressão da mão que as apertava, transmitindo uma sensação toda particular. A pressão da mão de Albertine era dotada de uma doçura sem igual bem em harmonia com a coloração rósea, ligeiramente malva, de sua pele. Com essa pressão, parecia que a gente penetrava na moça, na profundidade de seus sentidos, assim como na sonoridade do seu riso, indecente como um barulho sensual ou como certos gritos. Era uma dessas mulheres a quem temos tão grande prazer em apertar a mão que ficamos gratos à civilização por ter feito do shake-hand um ato permitido entre rapazes e moças que se encontram. Se os costumes arbitrários de cortesia tivessem substituído esse aperto de mãos por outro gesto, eu teria contemplado todos os dias as mãos intangíveis de Albertine, tão ardentemente curioso de conhecer o seu contato, como o era de saber o gosto de suas faces.
     Mas, no prazer de ter por muito tempo suas mãos entre as minhas, se tivesse sido o seu vizinho no jogo do anel, eu tinha como objetivo um pouco mais que esse prazer: quantas confissões, quantas declarações até hoje caladas por timidez, eu teria podido confiar a certas pressões da mão; de sua parte, como lhe teria sido fácil demonstrar, com outras pressões de mão, que me aceitava; que cumplicidade, que princípio de volúpia! Meu amor podia progredir mais em alguns minutos assim passados ao lado dela do que desde que a conhecia. E não me aguentava no lugar, pois via que aqueles minutos não durariam muito, estariam em breve chegando ao fim, pois aquele joguinho certamente não continuaria por muito tempo, e tão logo acabasse seria tarde demais. Deixei que me pegassem o anel de propósito e, uma vez no meio da roda, fingia que não o via passar e o seguia com os olhos esperando o momento em que chegasse às mãos do vizinho de Albertine; esta, rindo loucamente, estava toda cor-de-rosa na animação e alegria do jogo.

- Estamos justamente no bosque bonito - disse-me Andrée, designando as árvores que nos rodeavam, com um sorriso no olhar que era só para mim e parecia passar por cima dos jogadores como se só nós dois fôssemos bastante inteligentes para nos desdobrarmos e fazer, a respeito do jogo, uma observação de caráter poético. E ela chegou até a levar a delicadeza de espírito a ponto de cantar, sem vontade, o "Ele passou por aqui, o furão do bosque, senhoras, passou por aqui o furão do bosque bonito", como essas pessoas que não podem ir ao Trianon sem dar uma festa estilo Luís XVI, ou que muitas vezes se divertem mandando cantar uma canção no mesmo ambiente para o qual foi escrita. E ao contrário, sem dúvida, eu teria ficado triste por não achar qualquer encanto na comparação proposta por Andrée, se tivesse tempo para pensar naquilo. Mas estava bem longe o meu espírito. Jogadores e jogadoras começavam a se espantar com a minha estupidez, e porque não pegava o anel. Eu contemplava Albertine tão bela, tão indiferente, tão alegre que, sem o prever, ia ser minha vizinha, quando enfim pegasse o anel nas mãos designadas, graças a uma manobra de que ela não suspeitava e que, se soubesse, muito a irritaria. Na febre do jogo, os longos cabelos de Albertine tinham-se desfeito um pouco e, em mechas encaracoladas, caíam-lhe pelo rosto, cuja rósea carnação ainda mais ressaltavam pela sua negra secura.
- Você tem as tranças de Laura Dianti, de Éléonore de Guyenne e de sua descendente, tão amada por Chateaubriand. Deveria usar sempre os cabelos meio caídos. - disse-lhe ao ouvido para me aproximar dela.  

     De repente, o anel passou para o vizinho de Albertine. Imediatamente me lancei sobre ele, brutalmente abri suas mãos, e peguei o anel; ele foi obrigado a ocupar meu posto no meio do círculo e eu tomei o seu ao lado de Albertine. Poucos minutos antes, invejava o rapaz ao ver suas mãos deslizando pelo barbante e encontrando a todo momento as de Albertine. Agora que chegara a minha vez, muito tímido para procurar esse contato, muito emocionado para poder desfrutá-lo, só conseguia sentir as batidas rápidas e dolorosas do coração. Num dado instante, Albertine se inclinou para mim com um ar de inteligência, o rosto cheio e rosado, fingindo assim que estava com o anel, a fim de enganar o furão e evitar que ele olhasse para o lado onde o anel estava sendo passado. Compreendi logo que os subentendidos expressos no olhar de Albertine se referiam àquela artimanha, mas perturbei-me ao ver assim passar em seus olhos a imagem, puramente simulada para os propósitos do jogo, de um segredo, de uma combinação que não existia entre nós dois, mas que desde então me pareceram possíveis e me seriam divinamente gratificantes. Como esse pensamento me exaltasse, senti uma leve pressão da mão de Albertine contra a minha, e seu dedo caricioso que deslizava por baixo do meu e vi que, ao mesmo tempo, ela me piscava o olho, procurando fazê-lo imperceptivelmente. De súbito, uma multidão de esperanças, até então invisíveis para mim mesmo, se cristalizaram:

 "Ela aproveita o jogo para me demonstrar que me ama muito", pensei no auge de uma alegria, da qual imediatamente despenquei ao ouvir Albertine me dizer com raiva:

- Mas pegue logo o anel, seu burro, faz uma hora que estou lhe passando.

     Aturdido pela dor, larguei o barbante; o furão percebeu o anel, se atirou sobre ele e tive de voltar para o meio do círculo, desesperado, olhando a ronda desenfreada que continuava a meu redor, interpelado pelos gracejos de todas as jogadoras, obrigado, para lhes responder, a rir também quando tinha tão pouca vontade disso, enquanto Albertine não parava de dizer:

- Não se deve jogar quando não se pode prestar atenção, para não fazer os outros perderem. Ou a gente não o convida nos dias em que formos jogar, Andrée, ou sou eu que não venho mais.

     Andrée, superior ao jogo e que continuava cantando o seu "Bosque bonito", que Rosemonde por espírito de imitação repetia sem qualquer convicção, quis desviar as censuras de Albertine e me disse: 

- Estamos a dois passos dos Creuniers que você tanto gostaria de ver. Venha, vou levá-lo até lá por um belo caminho enquanto essas doidas bancam crianças de oito anos. 

     Como Andrée era extremamente gentil comigo, pelo caminho lhe fui dizendo de Albertine tudo o que me parecia próprio para que esta me amasse. Andrée me respondeu que também gostava muito dela, achava-a encantadora; entretanto, meus elogios à sua amiga davam-me a impressão de não lhe causar nenhum prazer. De súbito, ao pequeno caminho vazio, parei, tocado no coração por uma doce lembrança da meninice: acabava de reconhecer, nas folhas recortadas e brilhantes que avançavam para a entrada dos Creuniers, uma moita de espinheiros-rosa sem flor, infelizmente, desde o fim da primavera. Em torno a mim flutuava uma atmosfera de antigos meses de Maria, de tardes de domingo, de crenças, de erros esquecidos. Desejaria apreendê-la. Parei por um segundo e Andrée, com adivinhação encantadora, deixou-me conversar por um instante com as folhas do arbusto. Pedi-lhe notícias das flores, aquelas flores de espinheiro-rosa semelhantes a alegres moças estouvadas, coquetes e piedosas. 

- Essas senhoritas já se foram há muito tempo. - diziam-me as folhas. 

     E talvez pensassem que, para o grande amigo delas que eu pretendia ser, não parecia de modo algum informado sobre seus hábitos. Um grande amigo, mas que não as revia desde muitos anos, apesar de suas promessas. E, no entanto, como Gilberte fora o meu primeiro amor por uma menina, elas tinham sido o meu primeiro amor por uma flor. 

- Sim, eu sei, elas vão embora em meados de junho. respondi -, mas tenho muito prazer em ver o local onde elas moravam aqui. Foram me ver em Combray, no meu quarto, trazidas por minha mãe quando eu estava doente. E nos encontrávamos aos sábados de tarde, no mês de Maria. Aqui elas podem ir às novenas? 
- Oh, naturalmente! Aliás gostam muito dessas senhoritas na igreja de Saint-Denis-du Désert, que é a paróquia mais próxima. 
- E como fazer agora para vê-las? 
- Ora, não antes do mês de maio do ano que vem. 
- Mas posso estar certo de que elas estarão lá?
- Regularmente todos os anos. 
- Só não sei se encontrarei o lugar. 
- Como não!? Essas senhoritas são tão alegres; elas só param de rir para entoar cânticos, de modo que não é possível a gente se enganar e, na beira do caminho, você reconhecerá o seu aroma. 

      Voltei para junto de Andrée e recomecei a lhe fazer elogios acerca de Albertine. Parecia me impossível que ela não os fosse transmitir a Albertine, tamanha era a minha insistência. E, no entanto, jamais soube que Albertine tomasse conhecimento deles. Todavia, Andrée possuía mais conhecimento em assuntos do coração do que ela, e maior refinamento na gentileza; descobrir o olhar, a palavra, a ação que mais engenhosamente pudessem dar prazer, calar uma reflexão que arriscasse magoar, fazer o sacrifício (e sem parecer que era um sacrifício) de uma hora de jogo, e até de uma reunião matinal, de um garden-party, para ficar junto de um amigo ou de uma amiga triste e lhe mostrar assim que preferia sua simples companhia a prazeres frívolos, tais eram as suas delicadezas habituais. Mas, depois que a gente a conhecia um pouco melhor, dir-se-ia que com ela se dava o mesmo que ocorria com esses covardes heroicos que não querem ter medo e cuja bravura é particularmente meritória; dir-se-ia que, no fundo de sua natureza, não havia nada daquela bondade que ela manifestava a todo instante por distinção moral, por sensibilidade, por vontade nobre de se mostrar boa amiga. Ao ouvir as coisas encantadoras que ela me dizia acerca de uma possível afeição entre mim e Albertine, parecia que ela iria trabalhar com todas as suas forças para realizá-la. Ora, talvez por acaso, nunca se utilizou do menor dos nadas de que dispunha e que poderiam unir-me a Albertine, e eu não juraria que meus esforços para ser amado por Albertine não tenham provocado, de sua amiga, manobras secretas destinadas a contrariá-los, mas despertado nela uma cólera aliás bem oculta e contra a qual talvez lutasse ela própria por delicadeza. Albertine seria incapaz dos mil refinamentos de bondade de Andrée, e no entanto eu não estava certo da bondade profunda desta última como o fiquei mais tarde da bondade da primeira. Sempre se mostrando indulgente para com a exuberante frivolidade de Albertine, Andrée tinha para ela palavras e sorrisos que eram de amiga, e mais, agia como amiga. Eu a vi, dia após dia, para fazê-la aproveitar o seu luxo, tornar feliz essa amiga pobre, ter, sem nenhum interesse, mais trabalho que um cortesão que deseja captar o favor do soberano. Era encantadora de doçura, de palavras tristes e carinhosas, quando lamentavam diante dela a pobreza de Albertine, e esforçava-se mil vezes mais por ela do que o faria por uma amiga rica. Mas, se alguém suspeitasse que Albertine não era tão pobre como diziam, uma nuvem mal perceptível velava afronte e os olhos de Andrée; ela parecia de mau humor. E se iam ao ponto de dizer que afinal não tivesse tanta dificuldade de casar como pensavam, Andrée protestava com veemência e repetia quase com raiva: 

-Oh, ela não poderá casar, bem sei. E isso me dá muita pena!  

     Mesmo no que me dizia respeito, ela era a única das moças que jamais me repetiria algo desagradável que tivessem dito de mim; mais ainda, se era eu mesmo quem o contasse a ela, dava a impressão de não acreditar ou vinha com uma explicação que tornava inofensiva a frase. É o conjunto dessas qualidades a que se denomina tato. É o apanágio das pessoas que, se vamos ao campo da honra, nos felicitam e acrescentam que não havia razão para um duelo, a fim de aumentar ainda mais aos nossos olhos a coragem de que demos prova, sem a isso ser constrangidos. São o oposto das pessoas que, nas mesmas circunstâncias, afirmam:

- Deve ser bastante aborrecido para você bater-se em duelo, mas por outro lado você não podia engolir essa afronta, não podia proceder de outra maneira.

     Mas, como em tudo há prós e contras, se o prazer ou pelo menos a indiferença de nossos amigos em nos repetir algo de ofensivo que foi dito a nosso respeito prova que absolutamente não se colocam na nossa pele no momento em que nos falam, e enfiam-lhe o alfinete ou a faca como numa bexiga, a arte de nos ocultar sempre o que pode ser desagradável no que ouviram dizer de nossos atos ou da opinião que estes lhes inspiraram, pode provar, em outra categoria de amigos, a dos amigos cheios de tato, uma forte dose de dissimulação. Não há inconveniente se, de fato, não podem pensar mal de nós e se o que lhes é dito os faz apenas sofrer, como a nós mesmos. Achava que este era o caso de Andrée, sem contudo estar absolutamente certo disso. 
     Deixáramos o bosquezinho e seguíamos por um emaranhado de veredas muito pouco freqüentadas que Andrée conhecia perfeitamente bem. 

- Olhe - disse ela de repente, eis os seus famosos Creuniers. E você ainda tem muita sorte, pois estão exatamente na hora e na luz em que Elstir os pintou. 

     Mas eu ainda estava muito triste por haver caído, no jogo do anel, de tão alto apogeu de esperanças. Portanto, não foi com o prazer que certamente teria sentido em outras circunstâncias que pude distinguir de súbito a meus pés, agachadas contra as rochas onde se protegiam do calor, as Deusas marinhas que Elstir espiara e surpreendera, sob uma sombria transparência tão bela como o teria sido a um Leonardo, as maravilhosas Sombras escondidas e furtivas, ágeis e silenciosas, prestes a escorregar pelas pedras ao primeiro remoinho de luz, a se ocultar num buraco e prontas, passada a ameaça do raio luminoso, a voltar para junto do rochedo ou da alga, sob o sol esfarelador das falésias e do Oceano descolorido, cuja modorra parecem velar, guardiãs imóveis e leves, deixando aparecer à flor d'água o seu corpo viscoso e o olhar atento dos olhos fundos.

continua na página 218...
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