terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Dez anos que dessangraram a Colômbia(14)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     25. Dez anos que dessangraram a Colômbia
          Lá pelos anos 40, o influente economista colombiano Luis Eduardo Nieto Arteta escreveu uma apologia do café. O café tinha conseguido aquilo que jamais conseguiram, nos anteriores ciclos econômicos do país, as minas e o tabaco, o anil e a quina: dar nascimento de uma ordem madura e progressista. As fábricas têxteis e outras indústrias leves nasceram, não por acaso, nos departamentos produtores de café: Antióquia, Caldas, Valle del Cauca, Cundinamarca. Uma democracia de pequenos produtores agrícolas, dedicados ao café, converteu os colombianos em “homens moderados e sóbrios”. “O pressuposto mais vigoroso para a normalidade no funcionamento da vida política colombiana”, ele dizia, “foi a consecução de uma peculiar estabilidade econômica. O café a produziu, e com ela o sossego e a moderação”. [1]
     Pouco tempo depois eclodiu a violência. Os elogios ao café, na verdade, não tinham interrompido, como num passe de mágica, a longa história de revoltas e repressões sanguinárias na Colômbia. Desta vez, e durante dez anos, entre 1948 e 1957, a guerra camponesa abarcou minifúndios e latifúndios, desertos e semeadas, e vales e matas e páramos andinos, compeliu ao êxodo comunidades inteiras, gerou guerrilhas revolucionárias e bandos de criminosos, e transformou o país num cemitério: calcula-se que deixou um saldo de 180 mil mortos [2]. O banho de sangue coincidiu com um período de euforia econômica da classe dominante: é lícito confundir a prosperidade de uma classe com o bem-estar de um país?
     A violência começou como um enfrentamento entre liberais e conservadores, mas a dinâmica do ódio de classes foi salientando cada vez mais seu caráter de luta social. Jorge Eliécer Gaitán, o caudilho liberal que a oligarquia de seu próprio partido, entre depreciadora e receosa, chamava “El Lobo” ou “El adulaque”, granjeara um formidável prestígio popular e ameaçava a ordem estabelecida; quando o assassinaram a tiros, desencadeou-se o furacão. Primeiro foi uma maré humana irrefreável nas ruas da capital, o espontâneo bogotazo, e em seguida a violência derivou para o campo, onde, já fazia algum tempo, os bandos organizados pelos conservadores vinham semeando o terror. O ódio longamente ruminado pelos camponeses explodiu, e enquanto o governo enviava policiais e soldados para cortar testículos, abrir o ventre das mulheres grávidas ou atirar as crianças para o ar para espetá-las com a baioneta, sob a consigna “não deixar nem a semente”, os doutores do Partido Liberal se recolhiam às suas casas sem alterar seus bons modos nem o tom cavalheiresco de suas manifestações; no pior dos casos, viajavam para o exílio. Foram os camponeses que forneceram os mortos. A guerra alcançou extremos de incrível crueldade, estimulada por um afã de vingança que crescia com a própria guerra. Surgiram novos estilos de morte: no “corte gravata”, a língua saía por um buraco do pescoço. Sucediam-se as violações, os incêndios, os saques; os homens eram esquartejados ou queimados vivos, esfolados ou partidos lentamente em pedaços; os batalhões arrasavam as aldeias e as plantações; os rios se tingiam de vermelho; os bandoleiros outorgavam o direito de viver em troca de tributos em dinheiro ou carregamentos de café, e as forças repressivas expulsavam e perseguiam as inúmeras famílias que fugiam para buscar refúgio nas montanhas: as mulheres davam à luz nos matos. Os primeiros chefes guerrilheiros, animados pela necessidade de revanche mas sem horizontes políticos claros, lançavam-se à destruição pela destruição, o desafogo a sangue e fogo sem outros objetivos. Os nomes dos protagonistas da violência (Tenente Gorila, Malasombra, El Cóndor, Pielroja, El Vampiro, Avenegra, El Terror del Llano) não sugerem uma epopeia da revolução. Mas o traço da rebelião social destacava-se até nas coplas que os bandos cantavam:

Eu sou campesino puro 
e não comecei a peleia, 
mas se procuram barulho 
vão dançar com a mais feia.

     Afinal, o terror indiscriminado também havia aparecido, misturado com reivindicações de justiça, na revolução mexicana de Emiliano Zapata e Pancho Villa. Na Colômbia, a raiva explodia de qualquer maneira, mas não é casual que daquela década de violência tenham nascido as posteriores guerrilhas políticas que, levantando as bandeiras da revolução social, chegaram a ocupar e controlar extensas zonas do país. Os camponeses, assediados pela repressão, emigraram para as montanhas e ali organizaram o trabalho agrícola e a autodefesa. As chamadas “repúblicas independentes” continuaram oferecendo refúgio aos perseguidos depois que conservadores e liberais assinaram, em Madri, um pacto de paz. Os dirigentes de ambos os partidos, num clima de brindes e pombas, resolveram alternar-se sucessivamente no poder em prol da concórdia nacional, e então começaram, já de comum acordo, a tarefa de “limpeza” contra os focos de perturbação do sistema. Numa única operação, para combater os rebeldes de Marquetalia, foram disparados um milhão e meio de projéteis, lançadas vinte mil bombas e mobilizados, por terra e ar, dezesseis mil soldados [3].
     Em plena violência, havia um oficial que dizia: “Não me tragam histórias, tragam-me orelhas”. A ferocidade da guerra e o sadismo da repressão poderiam ser explicados mediante razões clínicas? Resultaram da maldade natural dos protagonistas? Um homem que cortou as mãos de um sacerdote, prendeu fogo no corpo e na casa dele e logo o despedaçou e o jogou num cano de despejo, gritava, quando a guerra acabou: “Eu não sou culpado! Eu não sou culpado! Deixem-me só!” Perdera a razão, mas de certo modo a tinha: o horror da violência pôs em evidência o horror do sistema. Porque o café não trouxe a felicidade e a harmonia, como havia profetizado Nieto Arteta. É verdade que, graças ao café, ativou-se a navegação no Magdalena e nasceram ferrovias e estradas e se acumularam capitais que deram origem a certas indústrias, mas a ordem oligárquica interna e a dependência econômica ante os centros estrangeiros do poder não só não foram afetadas pelo processo ascendente do café como também – e bem ao contrário – tornaram-se mais angustiantes para os colombianos. Quando a década de violência chegou ao fim, as Nações Unidas publicavam os resultados de sua pesquisa sobre a nutrição na Colômbia. De lá para cá a situação absolutamente não melhorou: 88 por cento dos escolares de Bogotá padeciam de avitaminose e mais da metade tinha um peso abaixo do normal; entre os trabalhadores, a avitaminose castigava 71 por cento, e entre os camponeses do vale de Tensa, 78 por cento [4]. A pesquisa mostrou “uma nítida insuficiência de alimentos protetores – leite e seus derivados, ovos, carne, pescado e algumas frutas e hortaliças – que em conjunto fornecem proteínas, vitaminas e sais”. Não só aos clarões dos tiros se revela uma tragédia social. As estatísticas indicam que a Colômbia registra um índice de homicídios sete vezes maior do que o dos Estados Unidos, mas também indicam que uma quarta parte dos colombianos em idade ativa não tem trabalho fixo. Duzentas mil pessoas, anualmente, apresentam-se ao mercado de trabalho, mas a indústria não gera novos empregos, e no campo a estrutura de latifúndios e minifúndios tampouco necessita de mais braços; ao contrário, expulsa continuamente novos desempregados para os subúrbios das cidades. Há na Colômbia mais de um milhão de crianças sem escola. Isto não impede que o sistema se dê ao luxo de manter 41 universidades diferentes, públicas ou privadas, cada uma com seus diversos cursos e departamentos, para a educação dos f ilhos da elite e da minoritária classe média [5].

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Dez anos que dessangraram a Colômbia(14)
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[1] ARTETA, Luis Eduardo Nieto. Ensayos sobre economía colombiana. Medellín, 1969.
[2] GUZMÁN CAMPOS, Germán, FALS ORDA, Orlando, & UMAÑA LUNA, Eduardo. La violencia en Colombia. Estudio de un proceso social. Bogotá, 1963-4.  
[3] GUZMÁN CAMPOS. La violencia en Colombia (parte descritiva). Bogotá, 1968. 
[4] NACIONES UNIDAS. “Análisis y proyecciones del desarrollo econômico”, III. In: El desarrollo económico de Colombia. Nova York, 1957. 
[5] O professor Gusmán Rama descobriu que algumas dessas veneráveis casas acadêmicas têm em suas bibliotecas, como acervo mais importante, a coleção encadernada da Seleções do Readers Digest. RAMA, Germán. Educación y movilidad social en Colombia. Eco (116). Bogotá, dezembro de 1969.   

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