PRIMEIRA PARTE
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
25. Dez anos que dessangraram a Colômbia
Lá pelos anos 40, o influente economista colombiano Luis
Eduardo Nieto Arteta escreveu uma apologia do café. O café
tinha conseguido aquilo que jamais conseguiram, nos
anteriores ciclos econômicos do país, as minas e o tabaco, o
anil e a quina: dar nascimento de uma ordem madura e
progressista. As fábricas têxteis e outras indústrias leves
nasceram, não por acaso, nos departamentos produtores de
café: Antióquia, Caldas, Valle del Cauca, Cundinamarca.
Uma democracia de pequenos produtores agrícolas,
dedicados ao café, converteu os colombianos em “homens
moderados e sóbrios”. “O pressuposto mais vigoroso para a
normalidade
no
funcionamento
da
vida
política
colombiana”, ele dizia, “foi a consecução de uma peculiar
estabilidade econômica. O café a produziu, e com ela o
sossego e a moderação”.
[1]
Pouco tempo depois eclodiu a violência. Os elogios ao
café, na verdade, não tinham interrompido, como num
passe de mágica, a longa história de revoltas e repressões
sanguinárias na Colômbia. Desta vez, e durante dez anos,
entre 1948 e 1957, a guerra camponesa abarcou
minifúndios e latifúndios, desertos e semeadas, e vales e
matas e páramos andinos, compeliu ao êxodo comunidades
inteiras, gerou guerrilhas revolucionárias e bandos de
criminosos, e transformou o país num cemitério: calcula-se
que deixou um saldo de 180 mil mortos
[2]. O banho de
sangue coincidiu com um período de euforia econômica da
classe dominante: é lícito confundir a prosperidade de uma
classe com o bem-estar de um país?
A violência começou como um enfrentamento entre
liberais e conservadores, mas a dinâmica do ódio de classes
foi salientando cada vez mais seu caráter de luta social.
Jorge Eliécer Gaitán, o caudilho liberal que a oligarquia de
seu próprio partido, entre depreciadora e receosa, chamava
“El Lobo” ou “El adulaque”, granjeara um formidável
prestígio popular e ameaçava a ordem estabelecida; quando
o assassinaram a tiros, desencadeou-se o furacão. Primeiro
foi uma maré humana irrefreável nas ruas da capital, o
espontâneo bogotazo, e em seguida a violência derivou
para o campo, onde, já fazia algum tempo, os bandos
organizados pelos conservadores vinham semeando o
terror. O ódio longamente ruminado pelos camponeses
explodiu, e enquanto o governo enviava policiais e soldados
para cortar testículos, abrir o ventre das mulheres grávidas
ou atirar as crianças para o ar para espetá-las com a
baioneta, sob a consigna “não deixar nem a semente”, os
doutores do Partido Liberal se recolhiam às suas casas sem
alterar seus bons modos nem o tom cavalheiresco de suas
manifestações; no pior dos casos, viajavam para o exílio.
Foram os camponeses que forneceram os mortos. A guerra
alcançou extremos de incrível crueldade, estimulada por um
afã de vingança que crescia com a própria guerra. Surgiram
novos estilos de morte: no “corte gravata”, a língua saía por
um buraco do pescoço. Sucediam-se as violações, os
incêndios, os saques; os homens eram esquartejados ou
queimados vivos, esfolados ou partidos lentamente em
pedaços; os batalhões arrasavam as aldeias e as
plantações; os rios se tingiam de vermelho; os bandoleiros
outorgavam o direito de viver em troca de tributos em
dinheiro ou carregamentos de café, e as forças repressivas
expulsavam e perseguiam as inúmeras famílias que fugiam
para buscar refúgio nas montanhas: as mulheres davam à
luz nos matos. Os primeiros chefes guerrilheiros, animados
pela necessidade de revanche mas sem horizontes políticos
claros, lançavam-se à destruição pela destruição, o
desafogo a sangue e fogo sem outros objetivos. Os nomes
dos protagonistas da violência (Tenente Gorila, Malasombra,
El Cóndor, Pielroja, El Vampiro, Avenegra, El Terror del Llano)
não sugerem uma epopeia da revolução. Mas o traço da
rebelião social destacava-se até nas coplas que os bandos
cantavam:
Eu sou campesino puroe não comecei a peleia,mas se procuram barulhovão dançar com a mais feia.
Afinal, o terror indiscriminado também havia aparecido,
misturado com reivindicações de justiça, na revolução
mexicana de Emiliano Zapata e Pancho Villa. Na Colômbia, a
raiva explodia de qualquer maneira, mas não é casual que
daquela década de violência tenham nascido as posteriores
guerrilhas políticas que, levantando as bandeiras da
revolução social, chegaram a ocupar e controlar extensas
zonas do país. Os camponeses, assediados pela repressão,
emigraram para as montanhas e ali organizaram o trabalho
agrícola e a autodefesa. As chamadas “repúblicas
independentes” continuaram oferecendo refúgio aos
perseguidos depois que conservadores e liberais assinaram,
em Madri, um pacto de paz. Os dirigentes de ambos os
partidos, num clima de brindes e pombas, resolveram
alternar-se sucessivamente no poder em prol da concórdia
nacional, e então começaram, já de comum acordo, a tarefa
de “limpeza” contra os focos de perturbação do sistema.
Numa única operação, para combater os rebeldes de
Marquetalia, foram disparados um milhão e meio de
projéteis, lançadas vinte mil bombas e mobilizados, por
terra e ar, dezesseis mil soldados
[3].
Em plena violência, havia um oficial que dizia: “Não me
tragam histórias, tragam-me orelhas”. A ferocidade da
guerra e o sadismo da repressão poderiam ser explicados
mediante razões clínicas? Resultaram da maldade natural
dos protagonistas? Um homem que cortou as mãos de um
sacerdote, prendeu fogo no corpo e na casa dele e logo o
despedaçou e o jogou num cano de despejo, gritava,
quando a guerra acabou: “Eu não sou culpado! Eu não sou
culpado! Deixem-me só!” Perdera a razão, mas de certo
modo a tinha: o horror da violência pôs em evidência o
horror do sistema. Porque o café não trouxe a felicidade e a
harmonia, como havia profetizado Nieto Arteta. É verdade
que, graças ao café, ativou-se a navegação no Magdalena e
nasceram ferrovias e estradas e se acumularam capitais
que deram origem a certas indústrias, mas a ordem
oligárquica interna e a dependência econômica ante os
centros estrangeiros do poder não só não foram afetadas
pelo processo ascendente do café como também – e bem ao
contrário – tornaram-se mais angustiantes para os
colombianos. Quando a década de violência chegou ao fim,
as Nações Unidas publicavam os resultados de sua pesquisa
sobre a nutrição na Colômbia. De lá para cá a situação
absolutamente não melhorou: 88 por cento dos escolares de Bogotá padeciam de avitaminose e mais da metade tinha
um peso abaixo do normal; entre os trabalhadores, a
avitaminose castigava 71 por cento, e entre os camponeses
do vale de Tensa, 78 por cento
[4]. A pesquisa mostrou “uma
nítida insuficiência de alimentos protetores – leite e seus
derivados, ovos, carne, pescado e algumas frutas e
hortaliças – que em conjunto fornecem proteínas, vitaminas
e sais”. Não só aos clarões dos tiros se revela uma tragédia
social. As estatísticas indicam que a Colômbia registra um
índice de homicídios sete vezes maior do que o dos Estados
Unidos, mas também indicam que uma quarta parte dos
colombianos em idade ativa não tem trabalho fixo.
Duzentas mil pessoas, anualmente, apresentam-se ao
mercado de trabalho, mas a indústria não gera novos
empregos, e no campo a estrutura de latifúndios e
minifúndios tampouco necessita de mais braços; ao
contrário, expulsa continuamente novos desempregados
para os subúrbios das cidades. Há na Colômbia mais de um
milhão de crianças sem escola. Isto não impede que o
sistema se dê ao luxo de manter 41 universidades
diferentes, públicas ou privadas, cada uma com seus
diversos cursos e departamentos, para a educação dos
f
ilhos da elite e da minoritária classe média
[5].
continua na página 168...
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Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Dez anos que dessangraram a Colômbia(14)
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[1] ARTETA, Luis Eduardo Nieto. Ensayos sobre economía colombiana. Medellín,
1969.
[2] GUZMÁN CAMPOS, Germán, FALS ORDA, Orlando, & UMAÑA LUNA,
Eduardo. La violencia en Colombia. Estudio de un proceso social. Bogotá, 1963-4.
[3] GUZMÁN CAMPOS. La violencia en Colombia (parte descritiva). Bogotá,
1968.
[4] NACIONES UNIDAS. “Análisis y proyecciones del desarrollo econômico”, III.
In: El desarrollo económico de Colombia. Nova York, 1957.
[5] O professor Gusmán Rama descobriu que algumas dessas veneráveis casas
acadêmicas têm em suas bibliotecas, como acervo mais importante, a coleção
encadernada da Seleções do Readers Digest. RAMA, Germán. Educación y
movilidad social en Colombia. Eco (116). Bogotá, dezembro de 1969.
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