sábado, 28 de março de 2026

Bom diaaa, Clássicas... Gounod, Bach, Puccini

Uma playlist calma de violoncelo e piano para ler ou escrever


"Leia, escreva ou estude com esta playlist calma de violoncelo e piano, perfeita para criar um ambiente focado e inspirado. Com clássicos atemporais como Ave Maria de Gounod, a belíssima O Mio Babbino Caro de Puccini e O Cisne de Saint-Saëns, esta coleção oferece melodias suaves para acompanhar seus momentos de tranquilidade." Cellofeggio






Lista de faixas:
00:00 - Ave Maria - Charles Gounod
02:59 - O Mio Babbino Caro - Giacomo Puccini
05:20 - O ma belle rebelle - Charles Gounod
09:08 - O Cisne - Camille Saint-Saëns
12:11 - Ricercare - Domenico Gabrielli
21:51 - Prelúdio da Suíte para Violoncelo nº 2 em Ré Menor, BWV 1008 - Johann Sebastian Bach
25:57 - Allemande da Suíte para Violoncelo nº 2 em Ré Menor, BWV 1008 - Johann Sebastian Bach
29:37 - Courante da Suíte para Violoncelo nº 2 em Ré Menor, BWV 1008 - Johann Sebastian Bach
32:21 - Sarabande da Suíte para Violoncelo nº 2 em Ré Menor, BWV 1008 - Johann Sebastian Bach
38:21 - Minuetos da Suíte para Violoncelo nº 2 em Ré Menor, BWV 1008 - Johann Sebastian Bach
41:17 - Gigue da Suíte para Violoncelo nº 2 em Ré Menor, BWV 1008 - Johann Sebastian Bach
44:09 - Sonata em Sol Menor - Henry Eccles
47:11 - Largo (Inverno) - Antonio Vivaldi
49:30 - Ave Maria - Franz Schubert

Gounod, Bach, Puccini / Bach /  

Desenho animado - O Mundo de Karma

Celebrando a história negra e os contadores de histórias


"O Mundo de Karma tem como personagem principal Karma Grant, uma artista musical e rapper aspirante com um talento enorme, e um coração ainda maior. Ela é inteligente, resistente e cheia de empatia. Ela coloca toda sua alma em seu trabalho artístico, transformando seus sentimentos em rimas inteligentes cheias de paixão, coragem e um senso de humor característico. Nesta série, veremos Karma usando a voz para ajudar a família, amigos e comunidade, e aprenderemos como as palavras podem ter poder. Ela não quer só compartilhar sua música com o mundo... ela quer mudar o mundo através da música!"





O Mundo de Karma - Scholastic



Moby Dick: 55 - Das representações monstruosas de baleias

Moby Dick

Herman Melville

55 - Das representações monstruosas de baleias
 
     Devo sem demora pintar-lhes, da melhor maneira possível sem uma tela, algo semelhante à verdadeira forma da baleia tal como aparece de fato aos olhos do baleeiro quando todo o seu corpo está amarrado ao lado do navio de tal modo que se pode perfeitamente até andar sobre ela. Pode valer a pena, assim, referir previamente aqueles curiosos retratos imaginários que até hoje em dia certamente desafiam a fé do homem da terra. É hora de corrigir o vulgo quanto a este assunto, provando que tais pinturas da baleia estão todas equivocadas.
     Pode ser que a origem primeira de todas essas fraudes pictóricas se encontre entre as mais antigas esculturas Hindus, Egípcias e Gregas. Pois desde essas épocas inventivas mas inescrupulosas, sobre os painéis de mármore dos templos, nos pedestais das estátuas, e nos escudos, medalhões, taças, e moedas, desenhava se o golfinho com uma cota de malha de escamas como a de Saladino, com um elmo na cabeça como o de São Jorge; desde então, algo desse mesmo tipo de licença prevaleceu, não apenas nas pinturas mais populares da baleia, como também em muitas de suas apresentações científicas.
     Ora, muito provavelmente, o retrato mais antigo existente que de algum modo representa a baleia encontra-se na famosa caverna-pagode de Elefanta, na Índia. Os brâmanes sustentam que nas quase infindáveis esculturas daquele pagode imemorial todas as ocupações e profissões e todos os passatempos concebíveis do homem estão prefigurados 
eras antes de qualquer um deles vir a existir de fato. Não admira, portanto, que de algum modo a nossa nobre profissão de baleeiro estivesse ali esboçada. A referida baleia Hindu encontra-se numa área separada da parede, que mostra a encarnação de Vixnu com a forma de Leviatã, conhecida pelos doutos como Matse Avatar. Mas embora essa escultura seja metade homem e metade baleia, de modo a mostrar apenas a cauda desta última, contudo, essa pequena parte está toda errada. Mais se parece com a cauda afilada de uma anaconda do que com as palmas amplas da cauda majestosa da verdadeira baleia.
     Mas vão às velhas galerias e vejam então o retrato deste peixe feito por um grande pintor Cristão; pois ele não é mais bem-sucedido que o antediluviano Hindu. É a pintura de Guido, de Perseu salvando Andrômeda do monstro marinho ou baleia. Onde Guido conseguiu o modelo de uma criatura tão estranha como aquela? Nem Hogarth conseguiu ao pintar a mesma cena em A descida de Perseu algo minimamente melhor. A enorme corpulência daquele monstro hogarthiano ondula na superfície, mal deslocando uma polegada de água. Tem uma espécie de palanquim no dorso, e a sua boca distendida, com presas para dentro da qual as ondas são arrastadas, se parece com a Traitor’s Gate que leva, pela água, do Tâmisa até a Torre de Londres. Em seguida, há as baleias do Prodromus do velho escocês Sibbald, e a baleia de Jonas, conforme representada nas estampas das velhas Bíblias e gravuras de velhas cartilhas. O que se pode dizer sobre estas? Quanto à baleia do encadernador retorcendo-se feito a liana da videira em torno ao cepo de uma âncora que desce – conforme a estampa em ouro das lombadas e frontispícios de vários livros velhos e novos –, trata-se de criatura muito pitoresca, mas puramente fabulosa, e, acredito, copiada de figuras similares dos vasos antigos. Embora universalmente denominado golfinho, contudo, este peixe do encadernador eu chamo de esboço de baleia; pois tal era a intenção quando o artefato foi introduzido pela primeira vez. Foi introduzido por um velho editor italiano algures por volta do século XV, durante o Renascimento dos Estudos; e naqueles dias, e mesmo até um período relativamente recente, supunha-se popularmente que os golfinhos fossem uma espécie de Leviatã.
     Nas vinhetas e outros adornos de alguns livros antigos encontrar-se-ão por vezes traços muito curiosos da baleia, onde toda sorte de sopros, jets d’eau, termas quentes e frias, Saratoga e Baden-Baden, brotam borbulhando de seu cérebro inexaurível. No frontispício da edição original de Advancement of Learning há algumas baleias curiosas.
     Mas, deixando de lado esses esforços de amadores, vamos dar uma olhada nas figuras do Leviatã que se pretendem descrições sóbrias e científicas, feitas por quem sabe. Na velha coleção de viagens de Harris há algumas ilustrações de baleias tiradas de um livro holandês de viagens, de 1671, intitulado Uma viagem à pesca de baleias em Spitzbergen, no navio ‘Jonas na Baleia’, pelo capitão Peter Peterson, de Friesland. Numa dessas ilustrações, as baleias, como enormes balsas de madeira, estão representadas deitadas em ilhas de gelo, vivas, com ursos brancos correndo sobre os seus dorsos. Em outra ilustração, o extraordinário disparate é a representação da baleia com uma cauda perpendicular.
     Há também um in-quarto impressionante, escrito por um certo capitão Colnett, da marinha britânica, intitulado Uma viagem em torno do cabo Horn e aos Mares do Sul, com o propósito de expandir a pescaria de Cachalotes. Neste livro há um esboço que se pretende um “Desenho de uma baleia Physeter ou Espermacete, feito, segundo a escala, a partir de uma baleia morta na costa do México, em agosto de 1793, e içada a bordo”. Não duvido que o capitão quisesse um retrato verídico para o benefício dos seus marujos. Para mencionar só uma coisa a seu respeito, eu diria que a baleia tem um olho que, se colocado num Cachalote adulto, segundo a escala que acompanha, transformaria o olho do animal numa janela oitavada de uns cinco pés de comprimento. Ah, galhardo capitão, por que não nos fez Jonas olhando de dentro daquele olho?!
     Tampouco as compilações mais escrupulosas de História Natural, para o proveito dos jovens e crianças, estão livres dos mesmos erros abomináveis. Vejam a popular Natureza animada, de Goldsmith. Na edição condensada londrina de 1807 há gravuras de uma suposta “baleia” e de um “narval”. Não quero parecer deselegante, mas essa baleia repugnante se parece com uma gironda amputada; e, quanto ao narval, basta uma olhadela para se espantar que, neste século XIX, pespeguem um tal hipogrifo como verdadeiro diante de um público de estudantes inteligentes.
     Também, em 1825, Bernard Germain, Conde de Lacépède, famoso naturalista, publicou um livro científico e sistematizado sobre as baleias, no qual se veem várias imagens de diferentes espécies do Leviatã. Não apenas estão todas incorretas, como a imagem do Mysticetus ou baleia da Groenlândia (ou seja, a baleia franca), o próprio Scoresby, homem de longa experiência com essa espécie, reconheceu como inexistente na natureza.
     Mas o coroamento de toda essa parvoíce estava reservado ao cientista Frederick Cuvier, irmão do famoso barão. Em 1836, publicou uma História natural das baleias, na qual nos dá algo que chamou de uma figura do Cachalote. Antes de mostrar tal imagem a um nativo de Nantucket, é melhor preparar-se para uma retirada sumária de Nantucket. Em suma, o Cachalote de Frederick Cuvier não é um Cachalote, mas uma abóbora. É claro que ele nunca teve o privilégio de fazer uma viagem de pesca de baleias (poucos homens o tiveram), mas quem sabe dizer de onde ele tirou tal imagem? Talvez do mesmo lugar de onde Desmarest, cientista e seu predecessor no mesmo campo, obteve um de seus autênticos abortos; ou seja, de um desenho chinês. E como esses rapazes chineses são espirituosos com um lápis, informam-nos as muitas xícaras e seus pires esquisitos.
     Quanto às baleias dos pintores de tabuletas que se veem nas ruas, por cima das lojas de comerciantes de óleo, o que dizer a respeito? Em geral são baleias Ricardo III, com corcovas de dromedários, muito cruéis; comendo no desjejum três ou quatro tortas de marinheiros, ou seja, botes cheios de marujos: suas deformidades chapinhando em mares de sangue e tinta azul.
     Mas esses erros abundantes ao retratar a baleia não são tão surpreendentes assim. Pensem bem! A maior parte dos desenhos científicos foi feita a partir de peixes encalhados; e esses são quase tão corretos quanto o desenho de um navio naufragado, com o casco partido, tentando representar corretamente a própria criatura em todo o orgulho de seu casco e mastros intactos. Embora os elefantes tenham posado para retratos de corpo inteiro, um Leviatã com vida jamais flutuou o bastante para que se fizesse o seu retrato. A baleia com vida, com toda a sua majestade e importância, só pode ser vista no oceano, em águas insondáveis; e, flutuando, seu vasto volume tampouco se vê, como não se distingue um navio de esquadra em uma linha de batalha; e fora desse elemento é algo eternamente impossível para um mortal içar o seu corpo no ar, preservando todas as suas enormes ondulações e protuberâncias. Sem falar na presumível diferença de contorno entre uma jovem cria de baleia e um Leviatã Platônico adulto; mesmo no caso de uma dessas jovens crias estar suspensa no convés de um navio, a sua forma é tão estranha, anguiliforme, maleável e variada, que a sua expressão exata nem mesmo o diabo conseguiria captar.
     Mas cabe imaginar que a partir do esqueleto nu de uma baleia encalhada derivem indícios acurados sobre a sua forma verdadeira? De modo algum. Pois uma das coisas mais curiosas sobre este Leviatã é que o seu esqueleto dá uma ideia muito vaga de sua forma. Embora o crânio de Jeremy Bentham, dependurado como um candelabro na biblioteca de um dos seus testamenteiros, dê uma ideia correta de um velho senhor utilitarista de testa larga, com todas as suas outras características pessoais importantes, nada disso pode ser inferido dos ossos articulados de um Leviatã. De fato, como diz o grande Hunter, um simples esqueleto de baleia tem a mesma relação com o animal revestido e recheado que um inseto com a crisálida que o envolve. Tal particularidade se prova de modo admirável na cabeça, como se mostrará incidentalmente algures neste livro. É também revelada de modo muito curioso na barbatana lateral, cujos ossos correspondem com quase exatidão aos ossos da mão humana, excetuando o polegar. Essa barbatana tem ossos de quatro dedos regulares, o indicador, o médio, o anular e o mínimo. Mas todos se ocultam permanentemente sob a cobertura da carne, como os dedos humanos sob coberturas artificiais. “Por mais temerária que a baleia possa, às vezes, ser conosco”, disse Stubb certo dia, fazendo graça, “pode-se dizer que ela nos trata com luvas de pelica.”
     Por todas essas razões, então, seja de que modo se considere o caso, é forçoso concluir que o grande Leviatã é a única criatura do mundo que deverá permanecer para sempre inexprimível. De fato, um retrato pode se aproximar mais do alvo do que outro, mas nenhum pode alcançar um grau muito considerável de exatidão. Portanto, não existe um modo terreno de se saber precisamente como é uma baleia na realidade. E o único modo pelo qual se pode ter uma ideia plausível do seu perfil com vida é ir pessoalmente à pesca de baleias; mas, ao fazê-lo, corre-se um grande risco de ser destroçado e afundado para sempre por ela. Destarte, parece-me melhor não ser muito exigente em sua curiosidade em relação a este Leviatã.

Continua na página 256...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
55 - Das representações monstruosas de baleias / 56 - Das representações menos errôneas de baleias /          
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

sexta-feira, 27 de março de 2026

De quanta terra um homem precisa? - II

Liev Tolstói

II

     Perto da aldeia vivia uma senhora, pequena proprietária, que possuía um terreno de cerca de cento e vinte hectares. Tinha mantido sempre com os camponeses excelentes relações, até o dia em que tomou como feitor um antigo soldado que se pôs a multar toda a gente. Por mais cuidado que Pahóm tivesse, ora um cavalo lhe fugia para os campos de aveia da senhora, ora uma vaca ia para os jardins, ora as vitelas andavam pelos prados; e a multa lá vinha.
     Pahóm pagava, resmungava e, irritado, tratava mal a família; todo o verão, o camponês teve conflitos com o feitor e só o alegrou a chegada do inverno em que o gado tinha de ir para o estábulo; dava lhe a ração de má vontade, mas ao menos estava livre de sustos. Durante o inverno, correu que a senhora ia vender as terras e que o estalajadeiro se preparava para as comprar; toda a aldeia ficou alarmada.

“Bem” — pensavam os camponeses — “se o estalajadeiro comprar as terras, as multas serão mais fortes ainda; o caso é sério”.

     Foram então, em nome da Comuna, pedir à senhora que não vendesse as terras ao estalajadeiro, porque estavam dispostos a pagar lhe melhor; a senhora concordou e os camponeses reuniram-se para que o campo fosse comprado por todos e cultivado por todos; houve duas assembleias, mas o Diabo semeava a discórdia e não chegaram a nenhuma combinação; cada um compraria a terra que pudesse; a senhora acedeu de novo.
     Pahóm ouviu dizer que um seu vizinho ia comprar vinte hectares e que a proprietária receberia metade em dinheiro e esperaria um ano pela outra metade; sentiu inveja e pensou: 

“Ora, vejam isto; vão comprar toda a terra e eu não apanho nenhuma.”

     Falou depois à mulher:

“Toda a gente está a comprar terras; vamos nós comprar também uns dez hectares; a vida assim é impossível; o feitor mata-nos com multas”.

     A mulher concordou e consideraram sobre a maneira de realizar o seu desejo; tinham uns cem rublos de parte; venderam um potro e metade das abelhas, meteram um filho a jornaleiro, recebendo a soldada adiantada, e pediram emprestado a um cunhado o que faltava para perfazer metade da quantia necessária.
     Feito isto, escolheu Pahóm um campo de uns quinze hectares, com um pouco de bosque, e foi ter com a senhora para tratarem do negócio; chegaram a acordo e o camponês pagou adiantada uma certa quantia; depois foram à cidade e assinaram a escritura em que ficava estabelecido pagar ele logo metade da quantia e entregar o resto dentro de dois anos.
     Agora tinha Pahóm terra sua; pediu sementes emprestadas, semeou-as na terra que comprara; como a colheita foi boa, pôde, dentro de um ano, pagar ao cunhado e à senhora; tornou-se assim proprietário, lavrando e semeando a sua terra, fazendo feno na sua terra, abatendo as suas árvores, alimentando o seu gado nos seus pastos. Sentia-se cheio de contentamento quando ia lavrar ou olhava para os trigais ou para os prados; a erva que ali crescia e as flores que ali desabrochavam pareciam-lhe diferentes de todas as outras; a princípio parecera-lhe que a sua terra era igual a qualquer outra; agora, totalmente diversa.

 Continua na pág 14...
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De quanta terra um homem precisa? - I / De quanta terra um homem precisa? - II / De quanta terra um homem precisa? - III
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Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói (em russo: Лев Николаевич Толстой.  Nasceu em 9 de setembro de 1828 – Morreu em 20 de novembro de 1910.
Em 23 de setembro de 1862, Tolstói se casou com Sophia Andreevna Behrs, filha de um médico da corte. Eles tiveram 13 filhos, oito dos quais chegaram à vida adulta. De início, o casamento com Sophia foi marcado pela intensidade sexual e insensibilidade emocional. Na véspera de seu casamento, Tolstói entregou a sua noiva seu diário pessoal, que detalhava toda sua intensa vida sexual anterior a seu noivado. Os relatos incluíam o fato de ele ter tido um filho com uma de suas empregadas. Ainda assim, o casamento foi afortunado e proporcionou a Tolstói liberdade e estrutura familiar que o ajudaram a escrever as obras Guerra e Paz e Anna Karenina com Sophia atuando como sua secretária pessoal, editora e gerente financeira. No entanto o casamento foi deteriorando à medida que o estilo de vida e as crenças de Tolstói tornavam-se mais radicais. Por conta de seu estilo de vida, ele rejeitou sua herança, incluindo os direitos autorais de suas obras.
Seus contemporâneos prestaram-lhe diversas homenagens, classificando-o como o maior romancista de sua época.

MPB: Morte e Vida Severina

João Cabral de Melo Neto e Chico Buarque


Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas à terra dada nao se abre a boca

É a conta menor que tiraste em vida

É a parte que te cabe deste latifúndio
(É a terra que querias ver dividida)

Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas à terra dada nao se abre a boca

Compositor: Francisco Buarque de Hollanda (Chico Buarque) e João Cabral de Melo Neto


Funeral de um lavrador, trecho do filme: 
Morte e Vida Severina (1977)



Morte e Vida Severina é um livro do escritor brasileiro João Cabral de Melo Neto, escrito entre 1954 e 1955 e publicado em 1955. O nome do livro é uma alusão ao sofrimento enfrentado pelo personagem. O livro apresenta um poema dramático, que relata a dura trajetória de um migrante sertanejo (retirante) em busca de uma vida mais fácil e favorável na capital pernambucana. 
Em 1965, Roberto Freire, diretor do teatro TUCA da PUC de São Paulo pediu ao então muito jovem Chico Buarque que musicasse a obra.



Funeral de um lavrador 
- Chico Buarque



Severino...

 ASSISTE AO ENTERRO DE UM 
 TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE 
 DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE 
 O LEVARAM AO CEMITÉRIO 


- Essa cova em que estás, 
com palmos medida, 
é a cota menor 
que tiraste em vida. 

- É de bom tamanho, 
nem largo nem fundo, 
é a parte que te cabe 
neste latifúndio. 

- Não é cova grande. 
é cova medida, 
é a terra que querias 
ver dividida. 

- É uma cova grande 
para teu pouco defunto, 
mas estarás mais ancho 
que estavas no mundo. 

- É uma cova grande 
para teu defunto parco, 
porém mais que no mundo 
te sentirás largo. 

- É uma cova grande 
para tua carne pouca, 
mas a terra dada 
não se abre a boca. 

- Viverás, e para sempre 
na terra que aqui aforas: 
e terás enfim tua roça. 

- Aí ficarás para sempre, 
livre do sol e da chuva, 
criando tuas saúvas. 

- Agora trabalharás 
só para ti, não a meias, 
como antes em terra alheia. 

- Trabalharás uma terra 
da qual, além de senhor, 
serás homem de eito e trator. 

- Trabalhando nessa terra, 
tu sozinho tudo empreitas: 
serás semente, adubo, colheita. 

- Trabalharás numa terra 
que também te abriga e te veste: 
embora com o brim do Nordeste. 

- Será de terra 
tua derradeira camisa: 
te veste, como nunca em vida. 

- Será de terra 
a tua melhor camisa: 
te veste e ninguém cobiça. 

- Terás de terra 
completo agora o teu fato: 
e pela primeira vez, sapato. 

- Como és homem, 
a terra te dará chapéu: 
fosses mulher, xale ou véu. 

- Tua roupa melhor 
será de terra e não de fazenda: 
não se rasga nem se remenda. 

- Tua roupa melhor 
e te ficará bem cingida: 
como roupa feita à medida. 

- Esse chão te é bem conhecido 
(bebeu teu suor vendido). 

- Esse chão te é bem conhecido 
(bebeu o moço antigo) 

- Esse chão te é bem conhecido 
(bebeu tua força de marido). 

- Desse chão és bem conhecido 
(através de parentes e amigos). 

- Desse chão és bem conhecido 
(vive com tua mulher, teus filhos) -

 Desse chão és bem conhecido 
(te espera de recém-nascido). 

- Não tens mais força contigo: 
deixa-te semear ao comprido. 

- Já não levas semente viva: 
teu corpo é a própria maniva. 

- Não levas rebolo de cana: 
és o rebolo, e não de caiana. 

- Não levas semente na mão: 
és agora o próprio grão. 

- Já não tens força na perna: 
deixa-te semear na coveta. 

- Já não tens força na mão: 
deixa-te semear no leirão. 

- Dentro da rede não vinha nada, 
só tua espiga debulhada. 

- Dentro da rede vinha tudo, 
só tua espiga no sabugo. 

- Dentro da rede coisa vasqueira, 
só a maçaroca banguela. 

- Dentro da rede coisa pouca, 
tua vida que deu sem soca. 

- Na mão direita um rosário, 
milho negro e ressecado. 

- Na mão direita somente 
o rosário, seca semente. 

- Na mão direita, de cinza, 
o rosário, semente maninha, 

- Na mão direita o rosário, 
semente inerte e sem salto. 

- Despido vieste no caixão, 
despido também se enterra o grão. 

- De tanto te despiu a privação 
que escapou de teu peito à viração. 

- Tanta coisa despiste em vida 
que fugiu de teu peito a brisa. 

- E agora, se abre o chão e te abriga, 
lençol que não tiveste em vida. 

- Se abre o chão e te fecha, 
dando-te agora cama e coberta. 

- Se abre o chão e te envolve, 
como mulher com que se dorme.


Lindo lago do amorMorte e Vida Severina / Eu e a Brisa /