sábado, 6 de junho de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Por mais dura que fosse)

 em busca do tempo perdido


volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

    Por mais dura que fosse a palavra "lacaio" aos ouvidos de Morel, cujo pai fora lacaio, mas justamente porque o fora, a explicação de todas as desventuras sociais pelo "ciúme", explicação simplista e absurda, mas que não se desgasta, e que, em determinada classe, "pega" sempre de modo tão infalível como os velhos truques junto ao público dos teatros, ou a ameaça do perigo clerical nas assembleias, encontrava nele um crédito quase tão forte como em Françoise ou nos criados da duquesa de Guermantes, para quem era a causa única dos males da humanidade. Não duvidou que seus camaradas tivessem tentado arrebatar-lhe o lugar e mais infeliz se sentia com aquele duelo calamitoso e, aliás, imaginário. 

- Oh, que desespero! - gritou Charlie. - Não sobreviverei a isto. Mas eles não devem vir vê lo antes de se encontrar com esse oficial? 
- Não sei, acho que sim. Mandei dizer a um deles que ficarei aqui esta noite e lhe darei as minhas instruções. 
- Espero que, até ele chegar, eu já possa ter feito o senhor recobrar a razão; permita-me apenas que permaneça a seu lado - pediu-lhe Morel com ternura. Era tudo o que o Sr. de Charlus desejava. Não cedeu logo. 
- O senhor faria mal em aplicar aqui o "quem muito ama, muito castiga" do provérbio, pois era ao senhor que eu amava muito, e pretendo castigar, mesmo após a nossa briga, aqueles que covardemente tentaram lhe fazer mal. Até agora, as suas insinuações indagativas, que ousavam me perguntar como é que um homem como eu podia ombrear-me com um gigolô de sua espécie, saído do nada, só respondi com a divisa de meus primos La Rochefoucauld: "É meu prazer." Eu mesmo lhe observei várias vezes que esse prazer era suscetível de tornar-se o meu maior prazer, sem que de sua arbitrária elevação resultasse um abaixamento para mim. -

     E, num movimento de orgulho quase louco, exclamou erguendo os braços: 

- Tantus ab uno splendor
[Do latim: "Tamanho esplendor [vindo] de um só." (N. do T)] 
- Condescender não é descer - acrescentou mais calmo, depois desse delírio de orgulho e alegria. - Espero ao menos que meus dois adversários, apesar de sua estirpe inegável, sejam de um sangue que eu possa fazer correr sem desonra. Sobre tal assunto, andei tomando algumas informações discretas que me deixaram tranqüilo. Se tem alguma gratidão por mim, deveria ao contrário sentir-se orgulhoso por ver que, por sua causa, retomo o temperamento belicoso de meus antepassados, dizendo como eles, no caso de um desfecho fatal: "A morte é vida para mim." -

     E o Sr. de Charlus dizia-o com sinceridade, não só por amor a Morel, mas também porque uma inclinação pelos combates, que ele ingenuamente acreditava herdar dos ancestrais, lhe dava tanta alegria à ideia de se bater que esse duelo, maquinado a princípio apenas para fazer com que Morel voltasse, fazia com que experimentasse agora uma certa mágoa em desistir dele. Jamais tivera uma questão qualquer sem se julgar logo valoroso e identificado ao ilustre conde de Guermantes, ainda que, em se tratando de outro, esse mesmo ato de marchar para o campo de honra lhe parecesse da última insignificância. 

- Creio que será muito bonito - disse-nos com sinceridade, salmodiando cada palavra. - Ver Sarah Bernhardt no L'Aiglon, que é isso? Cocô. Mounet-Sully, no Édipo? Cocô. No máximo ela alcança uma certa lividez de transfiguração, quando aquilo se passa nas Arenas de Nimes. Mas o que é isso ao lado dessa coisa inaudita, ver combater o próprio descendente do Condestável? -

     E a esta simples ideia, o Sr. de Charlus, não se contendo de alegria, pôs-se a dar golpes e contragolpes que lembravam Moliere, fazendo-nos aproximar prudentemente de nós os nossos copos e recear que os primeiros entrechoques de lâmina fossem ferir os adversários, o médico e as testemunhas. 

- Que espetáculo sugestivo não seria para um pintor! Você, que conhece o Sr. Elstir - disse me ele -, deveria trazê-lo. -

     Respondi que ele não se encontrava no litoral. O Sr. de Charlus insinuou que poderiam passar um telegrama. 

- Oh, digo isto por causa dele - acrescentou, diante do meu silêncio. - É sempre interessante para um mestre (e na minha opinião ele é um mestre) fixar um exemplo de semelhante revivescência étnica. E talvez não exista um por século.

     Mas, se o Sr. de Charlus se encantava à ideia de um combate que a princípio julgara totalmente fictício; Morel pensava com terror nos mexericos que, da banda do regimento, poderiam estender-se, graças ao rumor que o duelo provocaria, até o templo da rua Bergere. Vendo já a sua "classe" informada de tudo, fazia-se cada vez mais insistente junto ao Sr. de Charlus, o qual continuava a gesticular ante a embriagadora idéia de se bater. Suplicou ao barão que lhe permitisse não abandoná-lo até dois dias mais tarde, data suposta do duelo, para vigiá-lo e tentar fazê-lo escutar a voz da razão. Uma tão terna proposta triunfou das últimas hesitações do Sr. de Charlus, que disse que ia buscar encontrar uma saída, que dali a dois dias enviaria uma resolução definitiva. Desse modo, não resolvendo a questão de vez, o Sr. de Charlus sabia conservar Charlie durante pelo menos dois dias e aproveitaria a ocasião para dele obter compromissos para o futuro em troca de sua renúncia ao duelo, exercício, dizia, que o encantava por si mesmo e do qual não se privava sem pena. E nisto, aliás, era sincero, pois sempre tivera prazer em ir ao campo de honra quando se tratava de cruzar bordos ou de trocar balas com um adversário. Por fim Cottard chegou, muito atrasado, pois, encantado por servir de testemunha, porém mais emocionado ainda, fora obrigado a parar em todos os cafés ou granjas da estrada pedindo que lhe indicassem o "n° 100" ou o "local exato".
     Logo que chegou, o barão o conduziu a um aposento isolado, pois achava mais regulamentar que eu e Charlie não assistíssemos à entrevista e era mestre em definir um aposento qualquer a afetação provisória de sala do trono ou de deliberações.
     Uma vez a sós com Cottard, agradeceu-lhe calorosamente, mas demonstrou que parecia provável que as frases repetidas na realidade não tivessem sido ditas, e que, em tais condições, o doutor houvesse por bem avisar à segunda testemunha de que, salvo possíveis complicações, o incidente dava-se por encerrado. Afastando-se o perigo, Cottard mostrou-se desapontado. Por um momento, pensou mesmo em manifestar cólera, mas lembrou-se de que um de seus mestres, que fizera a mais bela carreira de seu tempo, tendo deixado de entrar para a Academia por apenas alguns votos, havia mostrado boa cara à má sorte e fora apertar a mão doutor concorrente eleito. Desse modo, o doutor evitou uma expressão de desafio, que não teria mudado coisa alguma, e depois de ter murmurado, ele, o mais medroso dos homens, que há certas coisas que não se pode deixar confessar, acrescentou que era melhor assim, que com esta solução ele ficava contente. O Sr. de Charlus, desejoso de provar sua gratidão ao doutor, da mesma forma que o senhor duque, seu irmão, ajeitaria a gola do paletó de meu pai, principalmente como uma duquesa teria abraçado uma plebeia, aproximou sua cadeira bem perto da do doutor, apesar do desagrado que este lhe inspirava. E não apenas sem prazer físico, mas vencendo uma repulsão física, como Guermantes e não como invertido, para dizer adeus ele ao doutor, pegou-lhe a mão e acariciou-a por um instante com uma bondade de dono que afaga o focinho de seu cavalo e lhe dá açúcar. Mas Cottard, que nunca deixara ver ao barão que nem mesmo tivesse ouvido os mais vagos rumores maliciosos acerca dos costumes deste, e nem por isso o deixava de considerar, em seu foro íntimo, como fazendo parte da classe dos "anormais" (a tal ponto que, com sua habitual impropriedade de termos e no tom mais sério, dizia de um criado de quarto do Sr. Verdurin: "Não é a amante do barão?"), personagens de que tinha pouca experiência, imaginou que essa carícia da mão era o imediato prelúdio de uma violação, para cuja realização visto que o duelo não passara de um pretexto ele fora atraído a uma cilada e levado pelo Sr. de Charlus àquele gabinete solitário onde ia ser agarrado à força. Não se atrevendo a deixar a cadeira, revirava os olhos de pavor, como se houvesse caído nas mãos de um selvagem do qual não tivesse certeza de que não se alimentava de carne humana. Por fim o Sr. de Charlus, largando-lhe a mão e querendo ser amável até o fim: 

- Vai tomar alguma coisa conosco, como se diz, o que antigamente se chamava um mazagrã ou um gloria, bebidas que agora só se encontram, como curiosidades arqueológicas, nas peças de Labiche e nos cafés de Doncieres. Um gloria seria bem adequado ao local, não? E às circunstâncias, que diz? 
- Sou presidente da liga antialcoólica - respondeu Cottard. - Bastaria que um medicastro provinciano passasse para que começassem a dizer que eu não dou o exemplo. Os homini sublime dedit coelumque tueri -acrescentou. 
[De Ovídio: "Ele deu ao homem um rosto voltado para o céu." (N. do T)]

     Embora isso nada tivesse a ver com o assunto, pois era bem pobre o seu estoque de citações latinas, bastando aliás para maravilhar os alunos. O Sr. de Charlus deu de ombros e reconduziu Cottard para junto de nós, depois de lhe haver pedido segredo sobre o que se passara, segredo que tanto mais lhe importava, pois que o motivo do duelo abortado era puramente imaginário, sendo preciso evitar que chegasse aos ouvidos do oficial arbitrariamente posto em questão. Enquanto nós quatro bebíamos, a Sra. Cottard, que esperava pelo marido do lado de fora, diante da porta, e que o Sr. de Charlus vira muito bem, sem se preocupar em mandar chamá-la, entrou e cumprimentou o barão, que lhe estendeu a mão como a uma camareira, sem se mexer do assento, em parte como um rei que recebe homenagens, em parte como um esnobe que não deseja que uma mulher pouco elegante se assente à sua mesa, em parte como egoísta que tem prazer em estar sozinho com os amigos e não quer ser importunado. Assim, a Sra. Cottard ficou de pé, falando ao Sr. de Charlus e a seu marido. Mas talvez porque a cortesia, o que "se tem a fazer", não seja privilégio exclusivo dos Guermantes, e pode subitamente iluminar e guiar os cérebros mais indecisos, ou porque, enganando muito a mulher, Cottard por momentos, numa espécie de compensação, sentisse necessidade de protegê-la contra quem lhe faltasse com o devido respeito, o doutor bruscamente franziu as sobrancelhas, o que eu jamais o vira fazer, e, sem consultar o Sr. de Charlus, como dono: 
- Vamos, Léontine, não fiques assim de pé; senta-te. 
- Mas não o incomodo? - indagou timidamente a Sra. Cottard ao barão, o qual, surpreendido com o tom do doutor, nada respondera. E, sem lhe dar tempo dessa vez, Cottard repetiu com autoridade: 
- Já te disse para sentares.

     Após um momento, a gente se dispersou, e então o Sr. de Charlus disse a Morel: 

- De toda esta história, que terminou melhor do que você merecia, concluo que não sabe se comportar e que, ao final de seu serviço militar, eu mesmo o levarei de volta a seu pai, como fez o arcanjo Rafael, enviado por Deus ao jovem Tobias. -

     E o barão se pôs a sorrir com ar de grandeza e uma alegria de que Morel, a quem a perspectiva de ser desse modo mandado de volta não agradava nada, parecia não compartir. Na embriaguez de se comparar ao arcanjo e Morel ao filho de Tobias, o Sr. de Charlus não pensava mais na finalidade de sua frase, que era tatear o terreno para saber se, como o desejava, Morel consentiria em voltar com ele a Paris. Embriagado pelo seu amor ou pelo amor-próprio, o barão não viu, ou fingiu não ver, a careta do violinista, pois, tendo deixado este sozinho no café, disse me com um sorriso orgulhoso: 

- Reparou, quando o comparei ao filho de Tobias, como ele delirava de alegria? É porque, como é muito inteligente, compreendeu logo que o Pai, junto ao qual ia viver de agora em diante, não era o seu pai carnal, que deve ser um horrendo criado de quarto com bigodes, mas seu pai espiritual, isto é, Eu. Que orgulho para ele! Com que altivez erguia a cabeça! Como se sentia alegre por ter compreendido! Estou certo de que vai repetir todos os dias: "ó, Deus, que destes o bem-aventurado arcanjo Rafael por guia a vosso servo Tobias em uma longa viagem, concedei a nós, vossos servidores, que sejamos sempre por ele protegidos e dotados de seu socorro." Não tenho nem mesmo necessidade - acrescentou o barão, muito convencido de que se assentaria um dia diante do trono de Deus - de lhe dizer que eu era o enviado celeste, ele o compreendeu por si mesmo e está mudo de felicidade! -

     E o Sr. de Charlus (a quem, pelo contrário, a felicidade não tirava a palavra), pouco se importando com alguns passeantes que viravam a cabeça para ele, julgando ter dado com um louco, gritou com todas as suas forças, erguendo os braços: 

- Aleluia!!!

     Esta reconciliação só pôs fim durante algum tempo aos tormentos do Sr. de Charlus; muitas vezes Morel, tendo partido em manobras longe demais para que o Sr. de Charlus pudesse ir vê-lo e enviar-me para lhe falar, escrevia ao barão cartas desesperadas e ternas, em que lhe assegurava que teria de matar-se, devido a uma coisa horrível que o punha na necessidade de ter vinte e cinco mil francos. Não dizia que coisa horrível era essa e, mesmo que o dissesse, sem dúvida era invenção. Quanto ao dinheiro, o Sr. de Charlus o teria enviado de boa vontade, se não sentisse que aquilo dava a Charlie condições de não precisar dele e também de ter os favores de outra pessoa. Assim, recusava, e seus telegramas tinham o tom seco e cortante de sua voz. Quando estava certo de seu efeito, desejava que Morel rompesse com ele para sempre, pois, persuadido de que o contrário é que haveria de ocorrer, dava-se conta de todos os inconvenientes que renasceriam dessa ligação inevitável. Mas, se não chegasse resposta alguma de Morel, ele deixava de dormir, não tinha mais nenhum momento de sossego, tão grande é de fato o número de coisas que vivemos sem as conhecer, e das realidades interiores e profundas que nos permanecem ocultas. Então, ele formulava todas as hipóteses acerca dessa enormidade que fazia com que Morel tivesse necessidade de vinte e cinco mil francos, dava-lhes todas as formas, ligava-lhes sucessivamente diversos nomes próprios. Creio que naqueles momentos o Sr. de Charlus (embora por essa época o seu esnobismo, diminuindo, já tivesse sido alcançado, senão ultrapassado, pela crescente curiosidade que o barão mostrava pelo povo) devia se lembrar com certa nostalgia dos graciosos turbilhões multicores das reuniões mundanas, em que as mulheres e os homens mais encantadores só o procuravam pelo prazer desinteressado que ele lhes dava, onde ninguém teria sonhado em "armar-lhe um golpe", inventar uma "coisa horrível", pela qual estariam prontos a matar-se caso não recebessem imediatamente vinte e cinco mil francos. Creio que então, e talvez porque, ainda assim, permanecera mais aferrado a Combray do que eu e houvesse enxertado a altivez feudal no orgulho alemão, devia julgar que não se é impunemente o amante sincero de um criado, que o povo não é exatamente a sociedade, que ele não inspirava confiança ao povo, como sempre ocorrera comigo.

     A estação seguinte do trenzinho, Maineville, lembra-me justamente um incidente relativo a Morel e ao Sr. de Charlus. Antes de falar nele, devo dizer que a chegada a Maineville (quando se levava até Balbec um recém-chegado elegante que, para não perturbar, preferia não se hospedar na Raspeliere) era ocasião de cenas menos penosas do que a que vou contar dentro de um instante. O recém-chegado, tendo suas bagagens miúdas no trem, em geral achava o Grande Hotel um tanto afastado, mas, como não havia antes de Balbec senão praiazinhas com vivendas desconfortáveis, resignava-se, de gosto pelo luxo e pelo bem-estar, ao longo trajeto, quando, no momento em que o trem estacionava em Maineville, via bruscamente erguer-se o Palace, que ele não podia suspeitar fosse uma casa de prostituição. 

- Mas não precisamos ir mais longe - dizia infalivelmente à Sra. Cottard, mulher conhecida como de espírito prático e boa conselheira. - Eis exatamente o que me serve. Para que continuar até Balbec, onde certamente não será melhor? Só pelo aspecto, acho que tem todo o conforto; Poderia perfeitamente mandar buscar a Sra. Verdurin, pois pretendo, em troca de suas gentilezas, dar algumas reuniões em sua homenagem. Ela não terá de andar tanto como se eu morasse em Balbec. Isto me parece perfeitamente adequado para ela, e para sua esposa, meu caro professor. Deve ter salões; convidaremos as senhoras. Cá entre nós, não compreendo por que, em vez de alugar La Raspeliere, a Sra. Verdurin não veio morar aqui. É muito mais sadio que nas velhas casas como La Raspeliere, que é forçosamente úmida, e aliás sem ser limpa; eles não têm água quente, a gente não pode lavar-se como queira. Maineville me parece bem mais agradável. A Sra. Verdurin, aqui, teria desempenhado perfeitamente o seu papel de dona-de-casa. Em todo caso, cada um com seu gosto; quanto a mim, vou fixar-me aqui. Senhora Cottard, não quer descer comigo? Despachemo-nos, o trem não vai demorar a partir. A senhora me guiaria até essa casa que será a sua e que já deve ter frequentado várias vezes. É um quadro que parece feito para a senhora. - Custava-nos muito fazê-lo calar-se e, sobretudo, impedi-lo de descer, pois o infeliz convidado, com a obstinação que muitas vezes provém das gafes, insistia, pegava as suas malas e não queria dar ouvidos a coisa alguma, até que lhe asseguravam que nem a Sra. Verdurin nem a Sra. Cottard jamais iriam vê-lo naquela casa. - Em todo caso, vou fixar domicílio ali. A Sra. Verdurin não terá mais do que me escrever.

     A lembrança relativa a Morel se refere a um incidente de caráter mais particular. Houve outros, porém contento-me aqui, à medida que o "tortinho" pára e o empregado grita Doncieres, Grattevast, Maineville, etc., em assinalar o que a praiazinha e a guarnição evocam. Já falei de Maineville (media villa) e da importância que ela adquiria devido àquela suntuosa casa de mulheres recentemente construída, não sem despertar os protestos inúteis das mães de família. Mas, antes de dizer em que Maineville tem alguma relação, na minha memória, com Morel e o Sr. de Charlus, tenho de apontar a desproporção (que mais tarde terei de esmiuçar) entre a importância que Morel atribuía a conservar livres determinadas horas e a insignificância das ocupações em que pretendia empregá-las, sendo que essa mesma desproporção ocorria em meio às explicações de outra natureza que dava ao Sr. de Charlus. Ele, que se fingia de desinteressado com o barão (e podia fazê-lo sem riscos, tendo em vista a generosidade de seu protetor), quando desejava ter a noite livre para dar uma aula, etc., não deixava de acrescentar a seu pretexto estas palavras ditas com um sorriso de cupidez: 

- E depois, isto pode me fazer ganhar quarenta francos. Não é nada. Permita-me ir, pois, como vê, é do meu interesse. Diabos, não tenho rendas como o senhor, preciso ir fazendo a minha situação, é o momento de ganhar uns trocados. -

     Ao desejar dar a sua aula, Morel não estava sendo de todo insincero. Por um lado, é falso que o dinheiro não tenha cor. Uma nova maneira de ganhá-lo devolve o brilho às moedas que o uso gastou. Se de fato ele havia saído para dar uma aula, é possível que dois luíses entregues na despedida por uma aluna tenham produzido sobre ele um efeito diverso de dois luíses caídos das mãos do Sr. de Charlus. Depois, o homem mais rico caminharia, por dois luíses, quilômetros que se transformam em léguas quando se é filho de um criado de quarto. Mas várias vezes, acerca da realidade da aula de violino, o Sr. de Charlus tinha dúvidas, tanto maiores, visto que o músico freqüentemente invocava pretextos de outro gênero, de natureza inteiramente desinteressada do ponto de vista material, e além disso absurdos. Assim, Morel não podia deixar de apresentar uma imagem de sua vida, mas voluntariamente, e também involuntariamente, de tal modo ensombrecida que somente certas partes se deixavam distinguir. Durante um mês ele se pôs à disposição do Sr. de Charlus, com a condição de ter as noites livres, pois desejava freqüentar assiduamente o curso de álgebra. Ir depois visitar o Sr. de Charlus? Ah, impossível, as aulas iam às vezes até muito tarde.

- Mesmo até depois das duas da manhã? - perguntava o barão. 
- Às vezes. 
- Mas a álgebra se aprende tão facilmente num livro.
- Até mais facilmente, pois não entendo grande coisa nas aulas. 
- Então? Aliás, a álgebra não vai te servir para nada. 
- Gosto disso. Dissipa a minha neurastenia. - 

"Não, não pode ser a álgebra que lhe faz pedir licenças noturnas", dizia consigo o Sr. de Charlus. "Estará ligado à polícia?"

     Em todo caso Morel, fossem quais fossem as objeções que lhe fizessem, reservava certas horas tardias, seja para a álgebra, seja para o violino. Uma vez não foi uma nem outra coisa, mas o príncipe de Guermantes, que, tendo vindo passar alguns dias na praia para visitar a duquesa de Luxemburgo, encontrou o músico, sem saber de quem se tratava e sem que Morel tampouco o conhecesse, e lhe ofereceu cinquenta francos para passarem a noite juntos na casa de mulheres em Maineville; prazer duplo para Morel, pelo dinheiro recebido do Sr. de Guermantes e pela volúpia de achar-se rodeado de mulheres cujos seios morenos se exibiam desnudos. Não sei como o Sr. de Charlus soube do local e do que se passava, mas não do nome do sedutor. Louco de ciúme, e a fim de conhecer este último, telegrafou a Jupien, que chegou dois dias depois, e, quando, no começo da semana seguinte, Morel anunciou que de novo estaria ausente, o barão perguntou a Jupien se ele se encarregaria de comprar a patroa do estabelecimento e conseguir que os escondessem, a ele e Jupien, para assistirem à cena. 

- Está entendido. Vou cuidar disso, seu tratante - respondeu Jupien ao barão.

     Não se pode compreender a que ponto essa inquietação agitava e, por isso mesmo, havia enriquecido momentaneamente o espírito do Sr. de Charlus. Assim, o amor provoca verdadeiras convulsões geológicas do pensamento. No do Sr. de Charlus, que ainda poucos dias antes se assemelhava a uma planície tão uniforme que, na maior distância, não se poderia perceber uma única ideia ao nível do solo, tinham-se bruscamente erguido, duras como pedras, um maciço de montanhas, mas de montanhas que fossem igualmente esculpidas, como se algum estatuário, em vez de transportar o mármore, o tivesse cinzelado no local e onde se retorciam, em grupos gigantes e titânicos, a Fúria, o Ciúme, a Curiosidade, a Inveja, o ódio; o Sofrimento, o Orgulho, o Receio e o Amor.
     Nesse meio tempo, chegara o dia em que Morel devia estar ausente. A missão de Jupien obtivera êxito. Ele e o barão deveriam chegar por volta das onze da noite e ficariam escondidos. Três ruas antes de chegar a essa esplêndida casa de prostituição (aonde vinha gente de todos os arredores elegantes), o Sr. de Charlus andava na ponta dos pés, dissimulava a voz, suplicava a Jupien que falasse mais baixo, de medo que Morel os ouvisse lá de dentro. Ora, logo que entrou a passo de gato no vestíbulo, o Sr. de Charlus, pouco habituado a esse tipo de lugares, encontrou se, para seu terror e estupefação, num local mais barulhento que a Bolsa de Valores ou a Sala dos Leilões. Era em vão que recomendava, às soubrettes que se apressavam a seu redor, que falassem mais baixo; e aliás a sua própria voz era abafada pelo barulho dos gritos e imprecações de uma velha "subpatroa" de peruca muito escura, com um rosto em que se estampava a gravidade de um notário ou de um padre espanhol, e que, a todo instante, soltava, com voz de trovão, fazendo alternativamente abrir e fechar as portas, como se regula a circulação dos carros: "Ponha o cavalheiro no 28, no quarto espanhol." "Já não se pode passar." "Abram a porta, estes cavalheiros perguntam pela Srta. Noémie. Ela os espera no salão persa."

continua na página 222...
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