segunda-feira, 29 de junho de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap IV - Só esperava uma oportunidade)

em busca do tempo perdido


volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Quarto

Brusca reviravolta para Albertine. - Desolação pela madrugada. - Vou imediatamente para Paris com Albertine.  
 

    Só esperava uma oportunidade para a ruptura definitiva. E, uma noite, como mamãe partisse no dia seguinte para Combray, onde ia assistir uma irmã de sua mãe em sua última enfermidade, deixando-me para que aproveitasse os ares marinhos, como o teria desejado a minha avó, eu lhe anunciara que irrevogavelmente estava decidido a não casar com Albertine e em breve ia deixar de vê-la. Estava contente de ter podido, com estas palavras, dar uma satisfação à minha mãe na véspera de sua partida. Ela não me ocultara que isto havia sido de fato uma satisfação bem grande. Precisava também explicar-me com Albertine. Como voltasse com ela da Raspeliere, tendo os fiéis descido, uns em Saint-Mars-le-Vêtu, outros em Saint-Pierre-des lfs, outros ainda em Doncieres, sentindo-me especialmente feliz e desligado dela, decidira-me, agora que só havia nós dois no vagão, a abordar finalmente o assunto. Aliás, a verdade é que aquela dentre as moças de Balbec que eu amava, embora ausente naquela ocasião como suas amigas, mas que ia voltar (agradava-me estar com todas, pois cada uma delas tinha, para mim, como no primeiro dia, algo da essência das outras, como se pertencesse a uma raça à parte), era Andrée. Visto que ela ia chegar de novo a Balbec dentro de alguns dias, certamente viria logo me visitar, e então, para estar livre, não casar com ela se não quisesse, para poder ir a Veneza e, no entanto, daqui até lá, tê-la todinha para mim, o meio que adotaria seria não dar a entender que me aproximava demais dela e, desde a sua chegada, quando estivéssemos conversando, lhe diria: - Que pena que eu não a tenha visto algumas semanas antes! Eu a teria amado; agora, meu coração já está preso. Mas isto não quer dizer nada, nós nos veremos amiúde, pois estou entristecido com meu outro amor, e você me ajudará a consolar-me. - Sorria interiormente ao pensar nessa conversação, pois, assim, daria a Andrée a ilusão de que não a amava de verdade; desse modo, ela não ficaria cansada de mim e eu aproveitaria alegre e suavemente a sua ternura. Mas tudo isso só tornava mais necessário falar afinal seriamente com Albertine, para não agir de forma indelicada, e, visto estar resolvido a me dedicar à sua amiga, era preciso que ela, Albertine, soubesse perfeitamente que eu não a amava. Era preciso dizer-lhe imediatamente, pois Andrée podia chegar a qualquer momento. Porém, como nos aproximássemos de Parville, senti que não teríamos tempo nessa noite e que era preferível deixar para o dia seguinte o que agora estava irrevogavelmente decidido. Portanto, contentei-me em lhe falar do jantar que tivéramos na casa dos Verdurin. No momento em que repunha a sua capa, tendo o trem acabado de deixar Incarville, última estação antes de Parville, ela me disse: 

- Então amanhã, de novo Verdurin, não se esqueça que é você quem vai me buscar. -

     Não pude evitar dizer com bastante secura: 

- Sim, a menos que eu "largue", pois começo a achar esta vida verdadeiramente idiota. Em todo caso, se formos, para que o meu tempo na Raspeliere não seja inteiramente perdido, será necessário que pense em pedir à Sra. Verdurin algo que muito possa interessar-me, ser um objeto de estudo e me dar prazer, pois de fato tive pouco prazer este ano em Balbec. 
 - Isto não é gentil para comigo, mas não lhe quero mal porque sinto que você está nervoso. Qual seria esse prazer? 
- Que a Sra. Verdurin faça tocar para mim peças de um compositor cuja obra conhece muito bem. Eu também conheço uma, porém creio que há outras e eu teria necessidade de saber se foram editadas, se são diversas das primeiras. 
- Que compositor? 
- Minha queridinha, quando eu te disser que se chama Vinteuil, ficarás mais adiantada? - Podemos ter desenvolvido todas as ideias possíveis, que a verdade nunca penetra nelas, e é de fora, quando menos se espera, que ela nos dá sua tremenda picada e nos fere para sempre. 
- Você não sabe como me diverte - respondeu Albertine erguendo-se, pois o trem ia parar. - Não só isto me diz muito mais do que você poderia pensar, mas mesmo sem a Sra. Verdurin poderei lhe dar todas as informações que quiser. Lembra-se que falei de uma amiga mais velha, que me serviu de mãe e de irmã, e com quem passei em Trieste os meus melhores anos e que, aliás, devo reencontrar dentro de algumas semanas em Cherburgo, de onde viajaremos juntas (é meio barroco, mas você sabe como amo o mar); pois bem, essa amiga (oh, não é absolutamente o tipo de mulher que você poderia imaginar!), veja que coisa extraordinária, é justamente a melhor amiga da filha desse Vinteuil, e eu conheço quase tanto a filha de Vinteuil. Nunca as chamo senão de minhas duas irmãs mais velhas. Não me sinto constrangida em mostrar que sua pequena Albertine poderá lhe ser útil nesses assuntos de música, de que você diz, aliás com razão, que não entendo nada. -

     A essas palavras, pronunciadas quando chegávamos à estação de Parville, tão longe de Combray e de Montjouvain, tanto tempo depois da morte de Vinteuil, uma imagem se agitava em meu coração, uma imagem mantida em reserva durante tantos anos que, mesmo se tivesse podido adivinhar o seu poder nocivo ao armazená-la outrora, acharia que, com o passar do tempo, ela o tivesse perdido inteiramente; conservada viva no fundo de mim como Orestes, cuja morte os deuses haviam impedido, a fim de que, no dia marcado, regressasse à sua terra para punir o assassinato de Agamenon - para meu suplício, talvez para meu castigo, quem sabe, de ter deixado morrer a minha avó; surgindo de súbito do fundo da noite onde parecia sepultada para sempre e ferindo, como um Vingador, a fim de inaugurar-me uma vida terrível, nova e merecida, talvez também para expor a meus olhos as funestas consequências que as más ações engendram indefinidamente, não apenas para aqueles que as cometeram, mas para aqueles que não acreditaram, que só fizeram contemplar um espetáculo curioso e divertido, como eu, ai de mim, naquele distante entardecer em Montjouvain, escondido atrás de um arbusto, onde (como quando escutara complacentemente a narrativa dos amores de Swann) havia deixado que se abrisse perigosamente em mim a via funesta do Saber, destinada a ser dolorosa. E nesse mesmo tempo da minha maior dor, tive uma sensação quase orgulhosa, quase alegre, como a de um homem a quem o choque recebido faria dar tamanho salto que ele alcançasse um ponto a que nenhum esforço o poderia ter levantado. Albertine, amiga da Srta. Vinteuil e da amiga desta, praticante profissional do safismo, era, junto do que eu imaginara nas maiores dúvidas, o que é, para o pequeno acústico da Exposição de 1889, de que mal se esperava pudesse ir de uma casa a outra, o telefone que voa sobre as ruas, as cidades, os campos, os mares, ligando países. Era uma terra incógnita terrível aonde eu fora aterrissar, uma nova fase de sofrimentos insuspeitados que se abria. E, entretanto, esse dilúvio da realidade que nos submerge, se é enorme em face de nossas tímidas e ínfimas suposições, era pressentido por elas. Era sem dúvida algo como o que eu acabava de saber, era algo como a amizade de Albertine e da Srta. Vinteuil, algo que meu espírito não teria sabido inventar, mas que eu obscuramente apreendia quando me inquietava tanto ao ver Albertine junto de Andrée. Muitas vezes, é unicamente por falta de espírito criador que não se vai muito longe no sofrimento. E a mais terrível realidade nos concede, ao mesmo tempo que o sofrimento, a alegria de uma bela descoberta, porque só faz doar uma forma clara e nova ao que ruminávamos há muito sem desconfiar.
     O trem havia parado em Parville, e como éramos os seus únicos passageiros, foi com uma voz amolentada pela sensação de inutilidade da tarefa, pelo mesmo hábito que no entanto o fazia cumpri-la, inspirando-lhe a um tempo a exatidão e a indolência, e mais ainda, o desejo de dormir, que o empregado gritou:

- Parville! -

     Albertine, sentada à minha frente e vendo que chegara a seu destino, deu alguns passos do fundo do vagão onde estávamos e abriu a portinhola. Mas este movimento, que ela assim fazia para descer, me dilacerava intoleravelmente o coração, como se, ao contrário da posição independente do meu corpo, que a dois passos dele parecia ocupar o de Albertine, tal separação espacial, que um desenhista verídico seria forçado a figurar entre nós, não passasse de uma aparência, e como se, para quem quisesse redesenhar as coisas conforme a realidade verdadeira, fosse preciso agora colocar Albertine, não a certa distância de mim, mas dentro de mim. Ela me fazia tanto mal ao se afastar que, agarrando-a, puxei-a desesperadamente pelo braço. 
- Seria materialmente impossível - perguntei - que você fosse dormir esta noite em Balbec? 
- Materialmente, não. Mas estou caindo de sono. 
- Você me faria um imenso favor... 
 - Pois seja, embora eu não compreenda; por que não me falou mais cedo? De qualquer modo, fico. -  

     Minha mãe dormia quando, depois de ter mandado que dessem a Albertine um quarto situado em outro andar, voltei para o meu. Sentei-me junto à janela, reprimindo os soluços para que não me ouvisse minha mãe, que só estava separada de mim por um delgado tabique. Nem sequer pensara em fechar os postigos, pois, num dado instante, erguendo os olhos, vi à minha frente, no céu, aquele mesmo clarão de um vermelho tinto que se via no restaurante de Rivebelle, num estudo que Elstir fizera de um sol poente. Lembrei-me da exaltação que me provocara, quando a vira do trem no dia da minha primeira chegada a Balbec, essa mesma imagem de uma tarde que não precedia a noite, mas um novo dia. Porém, agora, nenhum dia mais seria novo para mim, nem mais me despertaria o desejo de uma felicidade desconhecida, e somente prolongaria meus sofrimentos até que eu não tivesse mais forças para suportá-los. A verdade daquilo que Cottard me havia dito no cassino de Parvillefi [ou Incarville] já não me apresentava dúvidas. O que eu temera, e vagamente suspeitara havia muito tempo em Albertine, o que meu instinto deduzia de todo o seu ser, e aquilo que meus raciocínios, dirigidos pelo meu desejo, tinham me feito pouco a pouco negar, era verdade! Por trás de Albertine, eu já não via as montanhas azuladas do mar, mas o quarto de Montjouvain em que ela caía nos braços da Srta. Vinteuil com aquele riso que ela fazia ouvir como o som ignorado do seu prazer. Pois, linda como era Albertine, como podia ser que a Srta. Vinteuil, com os gostos que tinha, não lhe pedisse para satisfazê-los? E a prova de que Albertine não ficara chocada com isso e havia consentido é que não tinham brigado e a sua intimidade não cessara de aumentar. E aquele gracioso movimento de Albertine, ao pousar o queixo no ombro de Rosemonde, olhando-a a sorrir e depondo-lhe um beijo no pescoço, esse movimento que me lembrara a Srta. Vinteuil e para cuja interpretação eu todavia hesitara em admitir que uma mesma linha traçada por um gesto resultasse obrigatoriamente de uma mesma tendência, quem sabe se Albertine simplesmente não o aprendera com a Srta. Vinteuil? Pouco a pouco o céu apagado se iluminava. Eu que até então nunca havia despertado sem sorrir para as coisas mais humildes, para a taça de café com leite, o ruído da chuva, o estrondo do vento, senti que o dia que estava para nascer em alguns instantes, e todos os dias que se seguiriam, nunca mais me haveriam de trazer a esperança de uma felicidade desconhecida, e sim o prolongamento de meu martírio. Aferrava-me à vida ainda; sabia que nada mais tinha a esperar dela que não fosse cruel. Corri para o elevador, apesar da hora indevida, para chamar o ascensorista, que preenchia as funções de vigia noturno, e lhe pedi que fosse ao quarto de Albertine dizer-lhe que eu tinha algo de importante para lhe comunicar, caso ela pudesse receber-me. 

 - A senhorita prefere vir ela própria - veio ele me responder. - Estará aqui num instante. - De fato, em breve Albertine entrou de robe de chambre. 
 - Albertine - disse-lhe bem baixinho, recomendando que não elevasse a voz para não acordar minha mãe, de quem estávamos separados por esse tabique cuja delgadez, hoje importuna e que obrigava a sussurrar, parecia outrora, quando ali tão bem se pintaram as intenções de minha avó, uma espécie de diafaneidade musical -, estou envergonhado por incomodá-la. Eis do que se trata. Para que você compreenda, é preciso que lhe diga uma coisa que você não sabe. Quando vim para cá, deixei uma mulher com quem deveria me casar, que estava prestes a abandonar tudo por mim. Devia seguir de viagem esta manhã e, desde uma semana, todos os dias eu me perguntava se teria coragem de não lhe telegrafar dizendo que voltava. Tive essa coragem, mas sentia-me tão infeliz que achei que me mataria. Por isso é que perguntei ontem à noite se não poderia vir dormir em Balbec. Se eu tivesse que morrer, gostaria de lhe dizer adeus. - E dei livre curso às lágrimas, que minha ficção tornava naturais. 
- Meu pobrezinho, se eu tivesse sabido, teria passado a noite a seu lado -exclamou Albertine, a cujo espírito nem mesmo ocorreu a idéia de que eu talvez desposasse a tal mulher, desvanecendo-se desse modo a oportunidade de que ela própria fizesse um "bom casamento", de tanto que ela se sentia sinceramente comovida com um pesar cuja causa eu não podia ocultar lhe, mas não a realidade e a força - Além disso - continuou ela -, ontem, durante todo o trajeto desde a Raspeliere, bem que havia sentido que você estava triste e nervoso, receava alguma coisa. - Na verdade, o meu desgosto só começara em Parville, e o nervosismo bem diferente, mas que por felicidade Albertine confundia com ele, provinha do tédio de viver ainda alguns dias com ela. Albertine acrescentou: - Não o deixo mais, vou ficar aqui o tempo todo. - Oferecia-me justamente - e só ela podia oferecê-lo o único remédio contra o veneno que me queimava, aliás homogêneo a ele; um suave, o outro cruel, ambos igualmente derivavam de Albertine. Nesse momento Albertine meu mal livrava-me de sofrimentos, me deixava ela, a Albertine remédio enternecido como um convalescente. Mas eu pensava que ela em breve ia partir de Balbec para Cherburgo e de lá para Trieste. Seus hábitos de outrora iriam renascer. Antes de tudo o que eu desejava era impedir Albertine de tomar o barco, tratar de conduzi-la à Paris. Decerto, de Paris, mais facilmente ainda que de Balbec, ela poderia, se o quisesse, ir para Trieste, mas em Paris nós veríamos; talvez eu pudesse pedir à Sra. de Guermantes para indiretamente agir sobre a amiga da Srta. Vinteuil, no sentido de que esta não ficasse em Trieste, para fazê-la aceitar um emprego alhures, talvez na casa do príncipe de ***, que eu havia encontrado na casa da Sra. de Villeparisis e na da própria Sra. de Guermantes. E este, mesmo que Albertine quisesse ir à sua casa para visitar a amiga, poderia, avisado pela Sra. de Guermantes, impedir que se encontrassem. Com certeza, poderia eu refletir que em Paris, se Albertine possuía esses gostos, acharia muitas outras pessoas com quem satisfazê-los. Porém cada movimento de ciúme é particular e traz a marca da criatura desta vez a amiga da Srta. Vinteuil que o suscitou. Era a amiga da Srta. Vinteuil que continuava sendo a minha grande preocupação. A paixão misteriosa com que antigamente havia pensado na Áustria, porque era o país de origem de Albertine (seu tio ali fora conselheiro da embaixada), de modo que sua singularidade geográfica, a raça que o habitava, seus monumentos suas paisagens, podia eu considerá-los, tais como num atlas ou numa coleção de quadros, no sorriso e nas maneiras de Albertine -, essa paixão misteriosa eu a sentia ainda, mas, por uma troca de sinais, no domínio do horror. Sim, era dali que Albertine provinha. Era ali que, em cada residência, ela estava segura de encontrar, fosse a amiga da Srta. Vinteuil, fossem outras. Iriam renascer os hábitos da infância, iriam reunir-se dentro de três meses para o Natal, depois para o Ano-Novo, datas que já me eram tristes por si mesmas, pela recordação inconsciente da mágoa que nelas sentira, quando outrora me separavam de Gilberte durante todo o tempo das férias de Natal. Após longos jantares, depois dos réveíllons, quando todos estariam alegres, animados, Albertine ia tomar, com suas amigas de lá, as mesmas atitudes que eu vira assumir com Andrée, quando a amizade de Albertine por ela era inocente, quem sabe? talvez as atitudes que tinham aproximado, diante de mim, a Srta. Vinteuil perseguida por sua amiga, em Montjouvain. Á Srta. Vinteuil, agora, enquanto sua amiga a acariciava antes de cair sobre ela, eu emprestava o rosto afogueado de Albertine, da Albertine que eu ouvi lançar, fugindo, e depois se abandonando, o seu riso estranho e profundo. Que era, diante do sofrimento que sentia, o ciúme que um dia havia sentido, quando Saint-Loup encontrara a mim e Albertine em Doncieres e onde ela lhe fizera provocações? E também aquele que experimentara ao pensar no iniciador desconhecido a quem eu devera os primeiros beijos que ela me dera em Paris, no dia em que eu esperava a carta da Srta. de Stermaria? Aquele outro ciúme, provocado por Saint-Loup ou por um jovem qualquer, nada valia. Em tal caso, poderia no máximo temer um rival contra quem eu tivesse de arrebatá-la. Mas aqui o rival não era meu semelhante, suas armas eram diferentes, eu não podia lutar no mesmo terreno, dar a Albertine os mesmos gozos, nem sequer concebê-los com exatidão. Em muitos momentos da nossa vida trocaríamos todo o futuro por um poder em si mesmo insignificante. Outrora, eu teria renunciado a todas as vantagens da vida para conhecer a Sra. Blatin, porque ela era uma amiga da Sra. Swann. Hoje, para que Albertine não fosse a Trieste, eu teria suportado todos os sofrimentos e, se isso não fosse bastante, lhes teria infligido, tê-la-ia isolado, sequestrado, tomado o pouco dinheiro que ela possuía para que a penúria a impedisse materialmente de fazer a viagem. Como outrora, quando queria ir a Balbec, o que me impelia a partir era o desejo de uma igreja persa, de um temporal pela madrugada, o que agora me dilacerava o coração, ao pensar que Albertine talvez fosse a Trieste, era que ela passaria ali a noite de Natal com a amiga da Srta. Vinteuil; pois a imaginação, quando muda de natureza e se transforma em sensibilidade, não dispõe para tanto de maior número de imagens simultâneas. Se me dissessem que ela não se encontrava naquele momento em Cherburgo ou em Trieste, que não poderia ver Albertine, como teria eu chorado de alegria e de doçura! Como teria mudado minha vida e seu futuro! E, no entanto, eu bem sabia que era arbitrária essa localização do meu ciúme, que, se Albertine possuía esses gostos, poderia satisfazê-los com outras. Aliás, quem sabe se até essas mesmas jovens, podendo encontrá-la em outro local, não torturariam elas tanto o meu coração? Era de Trieste, daquele mundo ignorado onde eu sentia que Albertine passava bem, onde estavam suas lembranças, suas amizades, seus amores de infância, que se exalava aquela atmosfera hostil, inexplicável, como a que se evolava outrora até o meu quarto de Combray, da sala de jantar em que eu ouvia conversar e rir com estranhos, dentre o ruído dos talheres, mamãe, que não viria dar-me boa-noite; como a que enchera para Swann, as casas em que Odette ia procurar, em festas, prazeres inconcebíveis. Não era mais como uma terra deliciosa, onde a raça é pensativa, os ocasos dourados, os carrilhões tristes, que agora eu imaginava Trieste, mas como uma cidade maldita que eu desejaria mandar queimar de imediato e suprimir do mundo real. Aquela cidade estava afundada no meu coração como aguilhão permanente. Deixar Albertine partir em breve para Cherburgo e Trieste causava-me horror. E até mesmo ficar em Balbec. Pois agora que a revelação da intimidade de minha amiga com a Srta. Vinteuil se fazia uma quase certeza, parecia-me que, em todos os momentos em que Albertine não estivesse comigo (e havia dias inteiros em que, por causa de sua tia, não podia vê-la), ela se entregaria às primas de Bloch, talvez a outras. A idéia de que naquela mesma noite ele poderia ver as primas de Bloch me deixava louco. Assim, depois que me disse que não me largaria durante uns dias, respondi: 
- Mas é que eu desejaria voltar a Paris. Não viria comigo? E não gostaria de vir morar um pouquinho conosco em Paris? -

     Era necessário impedi-la, a todo custo, de estar sozinha, pelo menos durante alguns dias, conservá-la junto a mim para assegurar-me de que ela não pudesse ver a amiga da Srta. Vinteuil. Isto, na verdade, equivaleria a morar sozinha comigo, pois minha mãe, aproveitando-se de uma viagem de inspeção que meu pai ia fazer, impusera-se como um dever obedecer a uma vontade de minha avó, que desejaria que ela fosse passar alguns dias em Combray junto de uma de suas irmãs. Mamãe não gostava da tia porque esta não fora para a minha avó, tão carinhosa com ela, a irmã que deveria ter sido. Assim, depois de crescidas, as crianças lembram-se, rancorosas, dos que foram maus com elas. Porém mamãe, transformada em minha avó, era incapaz de rancor; a vida de sua mãe era para ela como uma pura e inocente infância onde ia aspirar aquelas lembranças cuja doçura ou amargor regulavam suas ações com uns e outros. Minha tia teria podido fornecer a mamãe certos detalhes inestimáveis, porém agora dificilmente o faria, pois achava-se muito enferma (dizia-se que era um câncer), e minha mãe censurava-se por não ter ido mais cedo, para acompanhar meu pai, e nisso não via senão mais um motivo para fazer o que sua mãe teria feito; e, assim como ela, ia, no aniversário do pai de minha avó, o qual fora tão ruim pai, depositar sobre seu túmulo as flores que minha avó costumava levar. Assim, junto ao túmulo que ia se entreabrir, desejava minha mãe levar as suaves conversas que minha tia não viera oferecer à minha avó. Enquanto estivesse em Combray, minha mãe se ocuparia de certos trabalhos que minha avó sempre desejara, mas somente se fossem executados sob a supervisão de sua filha. Assim, eles ainda não tinham sido principiados, pois não queria mamãe, deixando Paris antes de meu pai, fazer-lhe sentir demasiado o peso de um luto ao qual ele se associava, mas que não podia afligi-lo tanto quanto a ela. 

- Ah, isto não será possível por agora - respondeu Albertine. - Além disso, que necessidade tem você de voltar tão depressa a Paris, visto que essa dama já partiu? 
- Porque estarei mais tranquilo num lugar onde a conheci, em vez de Balbec, que ela nunca viu e a que tomei horror. -

     Terá Albertine compreendido mais tarde que essa outra mulher não existia, e que se naquela noite eu quisera morrer de verdade fora porque ela me revelara, estouvadamente, que tinha ligações com a amiga da Srta. Vinteuil? É possível. Há momentos em que isso me parece provável. Em todo caso, naquela manhã, acreditou na existência dessa mulher. 

- Mas você deveria casar com essa senhora, meu pequeno - disse ela. - Seria feliz e ela certamente o seria também. -

     Respondi que a ideia de que poderia fazer feliz aquela mulher, de fato, quase estivera a ponto de me decidir; ultimamente, depois de receber uma grande herança que me permitiria dar muito luxo e distrações à minha mulher, estivera a ponto de aceitar o sacrifício daquela a quem amava. Inebriado pela gratidão que me inspirava a gentileza de Albertine, tão próxima do atroz sofrimento que ela me causara, assim como prometeríamos de bom grado uma fortuna ao garçom do café que nos serve um sexto cálice de aguardente, disse-lhe que minha mulher teria um auto e um iate; que, sob esse aspecto, já que Albertine gostava tanto de passear de auto e de iate, era uma pena que não fosse ela a quem eu amava; que eu teria sido o marido perfeito para ela, mas que se haveria de dar um jeito, que talvez a gente pudesse encontrar-se de forma agradável. Apesar de tudo, como na própria embriaguez a gente evita interpelar os passantes, com receio dos golpes, abstive-me de cometer a imprudência que teria cometido no tempo de Gilberte, dizendo que era a ela, Albertine, que eu amava. 

- Você vê, estive prestes a casar com ela. Mas não ousei fazê-lo, todavia, e não desejaria obrigar uma jovem a viver junto de alguém tão doente e aborrecido. 
- Mas você está louco, todos desejariam viver com você, olhe como todo mundo o procura. Só se fala de você na casa da Sra. Verdurin, e me disseram que se dá o mesmo na mais alta sociedade. Portanto, essa senhora não foi justa com você, para lhe dar essa impressão de dúvida a seu próprio respeito. Vejo que se trata de uma malvada, detesto-a; ah! se eu estivesse em seu lugar... 
- Nada disso, ela é muito gentil, gentil demais. Quanto aos Verdurin e aos outros, rio-me deles. Fora aquela a quem amo e à qual, de resto, renunciei, só ligo para a minha pequena Albertine; somente ela, ficando muito tempo comigo, pelo menos nos primeiros dias -acrescentei, para não assustá-la e poder pedir-lhe muito nesses dias -, é que poderá consolar-me um pouco. - Só vagamente aludi a uma possibilidade de casamento, dizendo que era irrealizável porque nossos temperamentos não combinavam. Contra minha própria vontade, sempre perseguido em meu ciúme pelas lembranças das relações de Saint-Loup com "Rachel-quando-do-Senhor" e de Swann com Odette, estava muito inclinado a crer que, no momento em que amava, não podia ser amado, e que só o interesse podia unir a mim uma mulher. Certamente era uma loucura julgar Albertine por Odette e Rachel. Porém não se tratava dela, mas de mim; eram os sentimentos que eu pudesse inspirar que o meu ciúme me fazia subestimar em excesso. E desse julgamento, talvez errôneo, nasceram sem dúvida muitas desgraças que iriam se abater sobre nós.
 - Então recusa o meu convite para Paris? 
- Minha tia não há de querer que eu parta neste momento. Além disso, mesmo que eu possa mais tarde, não será esquisito que eu entre assim em sua casa? Em Paris, vão logo descobrir que não sou sua prima. 
 - Pois bem, diremos que somos meio noivos. Que diferença faz, já que você sabe que não é verdade? -

     O pescoço de Albertine, que lhe saía inteiro da camisa, era forte, dourado, de intensa granulação. Beijei-a tão puramente como se tivesse beijado minha mãe para acalmar um desgosto de criança que julgasse então jamais poder arrancar do peito. Albertine deixou-me para ir vestir-se. Aliás, o seu devotamento já principiava a diminuir; agora há pouco me dissera que não me deixaria um segundo sequer. (E eu bem sentia que sua resolução não duraria, visto que eu receava, caso permanecêssemos em Balbec, que ela fosse ter naquela mesma noite, sem mim, com as primas de Bloch.) Ora, ela vinha agora me dizer que desejava passar em Maineville e que voltaria para me ver à tarde. Não se recolhera na véspera à noite, poderia haver correspondência para ela, além do que a sua tia podia estar inquieta. Eu havia respondido: 

- Se é só por isso, a gente podia mandar o ascensorista dizer à sua tia que você está aqui e pegar suas cartas. -

     E, desejosa de se mostrar gentil, porém contrariada por estar sendo reprimida, franzira a testa e depois, de súbito, disse amavelmente: 

 - É isto mesmo e mandara o ascensorista.

     Não fazia um momento que Albertine me deixara, quando o ascensorista veio bater de leve. Eu não esperava que, enquanto conversava com Albertine, tivesse ele tido tempo de ir a Maineville e voltar. Vinha me dizer que Albertine escrevera um bilhete à sua tia e que podia, se eu o quisesse, ir a Paris no mesmo dia. Aliás, fizera mal em dar o recado oralmente, pois, apesar da hora matinal, o gerente já estava a par de tudo e, transtornado, vinha perguntar-me se eu estava descontente com alguma coisa, se de fato ia partir, se não poderia esperar ao menos alguns dias, já que o vento hoje estava muito receoso (de recear). Eu não queria lhe explicar que desejava a todo custo que Albertine já não estivesse em Balbec quando as primas de Bloch fossem dar o seu passeio, principalmente na ausência de Andrée, a única que poderia protegê-la, e que Balbec era como um desses lugares em que um doente, que ali não mais respira, decido mesmo que deva morrer no caminho, não passar a noite seguinte. Além do mais, eu ia ter de lutar contra rogos do mesmo gênero, primeiro no hotel, onde Marie Gineste e Céleste Albaret tinham os olhos vermelhos. (Aliás, Marie fazia ouvir o soluço apressado de uma torrente; Céleste, mais frágil, recomendava-lhe calma; porém, tendo Marie murmurado os únicos versos que conhecia: Ici-bas tous les filas meurent. Céleste não pôde se conter, e um lençol de lágrimas se espalhou pelo seu rosto cor de lilás; penso, aliás, que me esqueceram na mesma noite.)
     A seguir, no trenzinho local, apesar de todas as minhas precauções para não ser visto, encontrei o Sr. de Cambremer que, à vista de minhas malas, empalideceu, pois contava comigo para dali a dois dias; exasperou-me querendo me convencer de que minhas sufocações deviam se à mudança de tempo e que outubro seria um mês excelente para elas, e me perguntou se, de qualquer modo, não poderia "adiar a minha partida por oito dias", expressão cuja estupidez só não me deixou enfurecido talvez porque me fazia mal a sua proposta. E, enquanto ele me falava no vagão, a cada parada eu temia ver aparecer, mais terrível que Herimbald ou Guiscard, o Sr. de Crécy, implorando para ser convidado, ou, mais temível ainda, a Sra. Verdurin, fazendo questão de me convidar. Mas isto só devia acontecer dentro de algumas horas. Eu ainda não chegara a tanto. Só precisava fazer face às queixas desesperadas do gerente. Mandei-o embora, pois receava que, mesmo sussurrando, acabasse ele por acordar mamãe. Fiquei sozinho no quarto, aquele mesmo quarto de teto por demais alto, onde me sentira tão infeliz na minha primeira chegada, onde pensara com tanta ternura na Srta. de Stermaria e havia espiado a passagem de Albertine e suas amigas como aves de arribação paradas na praia, onde a possuíra com tanta indiferença quando a mandara buscar pelo ascensorista, onde conhecera a bondade de minha avó e depois soubera que ela estava morta; aqueles postigos ao pé dos quais caía a luz da manhã, eu os abrira a primeira vez para avistar os primeiros contrafortes do mar (esses postigos que Albertine me fazia fechar para que não nos vissem aos beijos). Eu tomava melhor consciência de minhas próprias transformações confrontando-as com a identidade das coisas. Entretanto, habituamo-nos a elas como às pessoas, e, quando subitamente nos lembramos do significado diverso que elas comportam e, depois que tiverem perdido todo significado, dos acontecimentos bem diferentes dos de hoje que enquadraram, a diversidade dos atos realizados sob o mesmo teto, entre as mesmas bibliotecas envidraçadas, e a mudança no coração e na vida que semelhante diversidade implica, parecem ainda acrescidas pela permanência imutável do cenário, reforçado pela unidade do lugar. Duas ou três vezes, durante um momento, tive a idéia de que o mundo onde estavam esse quarto e essas bibliotecas, e no qual Albertine era coisa tão pouca, consistisse talvez num mundo intelectual, que era a única realidade, e meu desgosto, algo como aquilo que é causado pela leitura de um romance e de que somente um louco poderia fazer um sofrimento durável e permanente que se prolongasse por toda a sua vida; que talvez bastasse um pequeno movimento de minha vontade para alcançar esse mundo real e nele penetrar, ultrapassando a minha dor como um círculo de papel que se fura, e não mais me preocupar com o que fizera Albertine, assim como não nos preocupamos com os atos da heroína imaginária de um romance depois que terminamos a leitura. Além disso, as amantes a quem mais amei jamais coincidiram com o meu amor por elas. Esse amor era verdadeiro, visto que eu subordinava todas as coisas à função de vê-las, de guardá-las só para mim, já que soluçava se as tinha esperado uma noite. Mas elas mais possuíam a propriedade de despertar esse amor, de levá-lo ao paroxismo, do que serem a sua imagem. Quando as via, quando as ouvia, nada encontrava nelas que se parecesse ao meu amor e pudesse explicá-lo. No entanto, minha única alegria era vê-las, minha única ansiedade, esperá-las. Dir-se-ia que uma virtude, sem qualquer relação com elas, lhes fora acessoriamente acrescentada pela natureza, e que essa virtude, essa força similielétrica, tinha por efeito excitar em mim o meu amor, isto é, dirigir todas as minhas ações e provocar todos os meus sofrimentos. Porém a beleza, a inteligência ou a bondade dessas mulheres eram inteiramente distintas de tudo isso. Como por uma corrente elétrica que nos move, fui sacudido pelos meus amores, vivi-os e senti-os; nunca pude chegar a vê-los ou a pensá-los. Inclino-me até a crer que nesses amores (ponho de lado aliás o prazer físico que os acompanha em geral, mas que não basta para constituí-los), sob a aparência da mulher, é a essas forças invisíveis, de que ela está acessoriamente acompanhada, que nós nos dirigimos como à obscuras divindades. É delas, cuja benevolência nos é necessária, que buscamos o contato, sem nele encontrar um prazer positivo. Com essas deusas, a mulher põe-nos em relação, sem fazer mais que isso. Como oferendas, prometemos jóias, viagens, pronunciamos fórmulas que significam que adoramos, e fórmulas opostas que significam sermos indiferentes. Dispusemos de todo o nosso poder para alcançar um novo encontro, mas que seja concedido sem tédio. Ora, seria pela própria mulher, se ela não estivesse complementada com essas forças ocultas, que faríamos tanto esforço que, quando ela partisse, não saberíamos dizer como estava vestida e nos aperceberíamos de que nem sequer a tínhamos olhado? Como é enganador o sentido da vista! Um corpo humano, até mesmo amado como o de Albertine, nos parece a alguns metros, a poucos centímetros, bem distante de nós. Da mesma forma a alma que nele está. Unicamente, se alguma coisa muda violentamente o lugar dessa alma em relação a nós, mostrando-nos que ela ama a outros seres e não a nós, então, pelas batidas do nosso coração deslocado, sentimos que, não a alguns passos de nós, mas dentro de nós, é que estava a criatura amada. Em nós, nas regiões mais ou menos superficiais. Mas as palavras: "Esta amiga é a Srta. Vinteuil" tinham sido o Sésamo, que eu seria incapaz de achar por mim mesmo, que fizeram entrar Albertine nas profundezas do meu coração dilacerado. E a porta que se fechara sobre ela, poderia eu procurá-la durante cem anos sem saber como reabri-la. Essas palavras, deixara de ouvi-las por um momento, enquanto Albertine estava junto a mim, ainda há pouco. E, beijando-a como beijava minha mãe em Combray para acalmar a minha angústia, quase acreditava na inocência de Albertine ou, pelo menos, não pensava continuamente na descoberta que fizera acerca de seu vício. Mas agora que estava sozinho, as palavras ressoavam de novo como esses ruídos internos do ouvido que ouvimos logo que alguém deixa de nos falar. Agora, seu vício não apresentava dúvidas para mim. A luz do sol que ia se erguer, modificando as coisas a meu redor, me fez de novo tomar, como que me deslocando um momento em relação a ela, consciência mais cruel ainda do meu sofrimento. Eu jamais vira principiar uma manhã tão linda nem tão dolorosa. Pensando em todas as paisagens indiferentes que iam iluminar-se e que ainda na véspera só teriam me dado o desejo de as visitar, não pude conter um soluço quando, num gesto de ofertório, mecanicamente concluído, e que me pareceu simbolizar o sacrifício sangrento que ia ter de fazer de toda alegria, a cada manhã, até o fim da minha vida, renovação solenemente celebrada em cada aurora de minha mágoa cotidiana e do sangue de minha chaga, o ovo de ouro do sol, como que propulsado pela ruptura de equilíbrio que, no momento da coagulação, traria uma mudança de densidade, farpado de chamas como nos quadros, rompeu de um salto a cortina atrás da qual o sentíamos desde um instante, fremente e prestes a entrar em cena, e da qual apagou, sob ondas de luz, a púrpura misteriosa e condensada. Ouvi-me a chorar a mim mesmo. Mas nesse momento, contra toda expectativa, a porta se abriu e, o coração batendo, pareceu-me ver a minha avó diante de mim, como numa dessas aparições que eu já tivera, mas só dormindo. Então tudo aquilo não passava de um sonho? Ai de mim! Estava bem desperto. 

 - Achas que me pareço com tua pobre avó - me disse mamãe (pois era ela) com doçura, como para acalmar o meu assombro, confessando de resto aquela semelhança, com um belo sorriso de orgulho modesto que jamais conhecera a coqueteria. Seus cabelos em desordem, onde as mechas grisalhas não estavam escondidas e serpenteavam em torno de seus olhos inquietos, de suas faces envelhecidas, o próprio chambre de minha avó que ela usava, tudo isso me impedira, por um instante, de reconhecê-la, fazendo-me duvidar se dormia ou se minha avó havia ressuscitado. Fazia já muito tempo que minha mãe se assemelhava bem mais à minha avó do que à jovem e risonha mamãe que minha infância conhecera. Mas eu não pensara mais nisso. Assim, quando ficamos lendo por muito tempo, distraídos, não percebemos o passar das horas e, de repente, vemos a nosso redor o sol, inevitavelmente levado a passar pelas mesmas fases, lembrar, a ponto de equivocar-nos, o sol que ali existia na véspera à mesma hora, e despertar a seu redor as mesmas harmonias, as mesmas correspondências que preparam o ocaso. Foi sorrindo que minha mãe me fez ver o meu erro, pois era-lhe doce ter tal semelhança com a mãe. 
- Eu vim - disse ela porque, ao dormir, me parecia ouvir alguém que chorava. Isso me acordou. Mas o que houve que não está deitado? E tens os olhos cheios de lágrimas. Que está acontecendo? -

     Segurei-lhe a cabeça entre os braços: 

- Mamãe, ouve, receio não ter te falado amavelmente de Albertine; o que te disse era injusto. 
- E o que tem isso? - disse mamãe; e, percebendo o sol nascente, sorriu com tristeza pensando na mãe; e para que eu não perdesse o fruto de um espetáculo que minha avó lastimava que eu não contemplasse nunca, apontou-me a janela. Mas, por detrás da praia de Balbec, do mar, do nascer do sol que mamãe me mostrava, eu via, com os movimentos de desespero que não lhe escapavam, o quarto de Montjouvain, onde Albertine, rósea, enroscada como uma grande gata, o nariz rebelde, tomara o lugar da amiga da Srta. Vinteuil e dizia, nos assomos de seu riso voluptuoso: 
- Pois bem! Se nos virem, será melhor. Então eu não ousaria escarrar nesse macaco velho? -

     Era esta a cena que eu via por detrás da que se estendia pela janela e que não era, sobre a outra, mais que um véu sombrio, superposto como um reflexo. Ela própria parecia um efeito quase irreal, como uma vista pintada. À nossa frente, na saliência dos rochedos de Parville, o bosquezinho onde havíamos feito o "jogo do anel" fazia cair em declive até o mar, sob o verniz da água, todo dourado ainda, o tabuleiro de suas folhagens, como na hora em que muitas vezes, no fim do dia, quando ali eu tinha ido dormir uma sesta com Albertine, nos levantáramos ao ver o sol descambando. Na desordem das névoas da noite, que ainda arrastavam os farrapos róseos e azuis sobre as águas atulhadas dos destroços nacarados da aurora, passavam barcos sorrindo à luz oblíqua que amarelava suas velas e a ponta dos gurupés como quando regressavam à tardinha: cena imaginária, tiritante e deserta, pura evocação do poente que não repousava, como a noite, na sequência das horas do dia que eu tinha o hábito de ver preceder-lhe, desligada, interpolada, mais inconsistente ainda que a imagem horrível de Montjouvain que ela não lograva anular, encobrir, esconder poética e baldada imagem da lembrança e do sonho. 

- Mas vejamos - disse minha mãe -, não me disseste nenhum mal dela, falaste até que ela te aborrecia um pouco, que estavas contente por teres desistido da ideia de te casares com ela. Não é motivo para chorar desse jeito. Pensa que tua mamãe vai partir hoje e ficará desolada por deixar o seu lobinho nesse estado. Tanto mais, meu pobrezinho, que não tenho tempo para te consolar. Pois, por mais que minhas coisas já estejam prontas, a gente nunca dispõe de tempo num dia de partida. 
- Não é isso.

     E então, calculando o futuro, pesando bem a minha vontade, compreendendo que aquela ternura de Albertine pela amiga da Srta. Vinteuil, e durante tanto tempo, não podia ter sido inocente, que Albertine já fora iniciada e, tanto quanto o indicavam os seus gestos, nascera aliás com a predisposição ao vício que minhas inquietações tantas vezes tinham pressentido, ao qual jamais deveria ter deixado de se entregar (ao qual se entregava talvez naquele instante, aproveitando um momento em que eu não estava presente), disse à minha mãe, sabendo a mágoa que lhe causava, que ela não demonstrou e que só se traiu por aquele ar de séria preocupação que tinha quando comparava a gravidade de me causar desgosto ou de me fazer mal. Aquele ar que tivera em Combray pela primeira vez, quando se resignara a passar a noite junto a mim, aquele ar que nesse momento se parecia extraordinariamente ao de minha avó quando me permitia beber conhaque, disse à minha mãe: 

- Sei do desgosto que vou te causar. Primeiro, em vez de ficar aqui como querias, vou partir ao mesmo tempo que tu. Mas isto ainda não é nada. Não me sinto bem aqui, prefiro voltar. Mas escuta, não te aborreça demais. Eis o que ocorre: enganei-me, enganei-te de boa-fé ontem, refleti a noite inteira. É necessário absolutamente, e decidamo-lo de imediato, porque eu bem o reconheço agora, porque não mudarei mais e porque não poderia viver sem isso, é absolutamente necessário que eu me case com Albertine.

continua na página 237...
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Leia também:

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Volume 2
Volume 3
Volume 4
Sodoma e Gomorra (Cap IV - Só esperava uma oportunidade)
Volume 6
Volume 7

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