quarta-feira, 3 de julho de 2019

Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, VI — Jean Valjean

Victor Hugo - Os Miseráveis


Primeira Parte - Fantine

Livro Segundo - A Queda



VI — 
Jean Valjean 


O hóspede do bispo acordou alta noite. 

Jean Valjean era oriundo de uma pobre família de camponeses de Brie. Na sua infância não aprendera a ler. Depois de homem fizera-se podador em Taverolles. Sua mãe chamava-se Joana Mateus e seu pai Jean Valjean ou Vlajean, alcunha talvez formada pela contração de voilà Jean. 

Jean Valjean era dotado de carácter pensativo, sem ser triste, circunstância particular às naturezas afetuosas. No fim de tudo, porém, não passava de uma criatura dorminhoca e destituída de interesse, ao menos aparentemente. Perdera os pais ainda de tenra idade. A mãe morrera vítima de uma febre de leite mal tratada; o pai, que fora também podador, morrera em consequência de uma queda, caindo de uma árvore Não ficara a Jean Valjean senão uma irmã, mais velha do que ele, viúva, com sete filhos, entre rapazes e raparigas. A irmã tomou conta de Valjean, e enquanto o marido foi vivo conservou o irmão na sua companhia e sustentou-o. Mas o marido morreu. A mais velha das sete criancinhas tinha oito anos, a mais nova doze meses Jean Valjean tinha completado vinte e cinco anos. Para as criancinhas substituiu o pai que lhes faltara, e por sua vez passou a amparar a irmã que o amparara a ele. Esta mudança operou-se com a maior simplicidade, como se fora um dever, e até com certo orgulho da parte de Jean. Assim consumira a mocidade num trabalho rude e mal retribuído. Nunca lhe tinham conhecido afeição amorosa, nunca tivera tempo para se preocupar com o amor. 

A noite recolhia a casa fagado e comia a sua sopa sem proferir uma só palavra. Às vezes, sua irmã, quando ele estava a comer, rava-lhe da gela o melhor da ceia, isto é, o bocado de carne, de toucinho, ou o olho de couve, para dar a algum dos filhos; ele não deixava de comer, curvado sobre a mesa e com a cabeça quase meda na gela, os compridos cabelos caídos para diante dos olhos, nem opunha resistência, parecendo não dar por coisa alguma. 

Havia em Taverolles, próximo da habitação dos Valjeans, do outro lado do lugar, uma caseira chamada Maria Cláudia; às vezes, os filhos de Joana, quase sempre esfaimados, iam pedir em nome da mãe, uma porção de leite a Maria Cláudia e bebiam-no atrás de algum valado ou na volta de qualquer caminho, arrancando-se tão sofregamente a bilha uns aos outros, que às vezes as rapariguinhas entornavam-no pelas roupas que traziam. Se a mãe vesse conhecimento destes pequenos abusos de confiança, castigaria severamente os delinquentes. Jean Valjean, apesar dos seus modos bruscos, pagava o leite a Maria Cláudia às escondidas da mãe e as criancinhas não eram castigadas. 

No tempo das podas, ganhava vinte e quatro soldos por dia; terminadas elas, ajustava-se como ceifeiro, como cavador, como moço de gado, como jornaleiro, enfim, fazia tudo o que podia. A irmã, pela sua parte, também não ficava ociosa. Mas que valia o trabalho de dois para sustentar um rancho de sete criancinhas? Era um triste grupo, que a miséria pouco a pouco foi abraçando e apertando no seu círculo de ferro. Chegou um Inverno muito rigoroso, em que Jean Valjean não encontrou que fazer. Ficou sem trabalho e a família sem pão. Sete criancinhas sem pão! 

Num domingo à noite, preparava-se Maubert Isabeau, padeiro com estabelecimento no largo da igreja, em Taverolles, para se deitar, quando ouviu uma violenta pancada na vidraça gradeada da sua loja. Correu imediatamente para ali e chegou a tempo de ver um braço passando por uma abertura feita no vidro com um murro, pegar num pão e levá-lo. Isabeau saiu apressadamente e correu atrás do ladrão, que fugia como lhe permitiam as pernas, conseguindo alcançá-lo. 

O ladrão largara o pão no caminho durante a corrida, mas tinha ainda o braço ensanguentado. Era Jean Valjean. 

Passava-se isto em 1795. 

Jean Valjean foi levado aos tribunais daquele tempo «pelo crime de roubo noturno com arrombamento, praticado numa casa habitada». Possuía uma espingarda de que se servia como o melhor arador e exercia às vezes o mister de caçador furtivo. Tudo isto lhe foi prejudicial. Há contra os caçadores furtivos um preconceito legítimo. O caçador furtivo e o contrabandista vizinham paredes meias com o salteador. Contudo, seja dito de passagem, entre estas raças de homens e o medonho assassino das cidades há ainda um profundo abismo. 

O caçador furtivo vive na floresta, o contrabandista na montanha ou no mar. As cidades produzem homens ferozes, porque produzem homens corruptos. A montanha, o mar e a floresta, produzem homens selvagens: desenvolvem a parte feroz, porém muitas vezes sem destruir a parte humana. 

Jean Valjean foi considerado criminoso. Os termos do código eram formais. Existem na nossa civilização momentos terríveis: os momentos em que a penalidade é descarregada sobre um culpado. Que lúgubre momento aquele em que a sociedade se desvia e consuma o irreparável desamparo de uma criatura racional! Jean Valjean foi condenado a cinco anos de galés. 

A 22 de Abril de 1796, proclamava-se em Paris a vitória de Montennoe, alcançada pelo general em chefe do exército de Itália, que a mensagem do Diretório de Quinhentos, chama Bonaparte, e nesse mesmo dia saía de Bicêtre uma numerosa leva de forçados. Jean Valjean fazia parte dessa leva. Um antigo carcereiro daquela prisão, que conta hoje perto de oitenta anos, lembra-se ainda perfeitamente desse infeliz que foi acorrentado na extremidade do quarto cordão, no ângulo norte do pátio. Jazia sentado no chão como todos os outros e parecia não compreender mais nada além do horror da sua situação. É provável que por entre as vagas ideias da sua lamentável ignorância se lhe afigurasse excessivo o tormento que os homens lhe infligiam. Todo o tempo que lhe estiveram a soldar a argola da gotilha, pelo lado de trás, o que se fazia descarregando sobre o ferro grandes marteladas, o infeliz chorou sempre e, sufocado pelas lágrimas que lhe embargavam a voz, apenas de quando em quando se lhe ouvia dizer: «Eu era um pobre podador em Taverolles!» Ao dizer isto, no meio de continuos soluços, levantava e baixava gradualmente a mão direita sete vezes, como se tocasse sucessivamente em sete cabeças desiguais, e por este gesto depreendia-se que o crime que cometera, fora para alimentar sete crianças. 

Partiu para Toulon, onde chegou ao cabo de uma viagem de vinte e sete dias, num carro e com a corrente de forçado ao pescoço. Em Toulon vestiram-lhe a jaqueta vermelha, que constitui o trajo dos sentenciados às galés. Desde então, tudo o que constituíra a sua existência até aí se desvaneceu, incluindo o nome; deixou de ser Jean Valjean para ser apenas um número, o 24601. E sua irmã? Que destino levou? Que destino levaram aquelas sete criancinhas? Quem se ocupa de semelhantes coisas? Perguntai ao tufão que passa para onde arremessou as folhas secas da pequena árvore serrada pelo pé. 

É sempre a mesma história. Aquelas pobres criaturas de Deus, agora sem apoio, sem guia nem asilo, parram ao acaso, talvez mesmo que cada qual pelo seu lado, e pouco a pouco se foram embrenhando nessa névoa frígida em que se perdem os destinos solitários, trevas espessas no meio das quais sucessivamente desaparecem tantas frontes assinaladas com o estigma do infortúnio, durante a triste peregrinação da humanidade. Abandonaram a terra que os viu nascer; o campanário da sua aldeia esqueceu-os; esqueceu-os o marco do campo que fora seu; no fim de alguns anos passados nas galés, até o próprio Jean Valjean os esqueceu. Naquele coração, onde existira uma ferida, ficara uma cicatriz. Eis tudo. Durante todo o tempo que esteve em Toulon, uma só vez ouviu falar da irmã. Foi pelos fins do seu quarto ano de caveiro. Alguém que os conhecera na terra tinha visto a irmã. Residia em Paris, onde morava numa rua pobre das proximidades de S. Sulpício, chamada a rua de Geindre. Apenas tinha na sua companhia um filho, o mais novo de todos. Onde estavam os outros seis? Nem ela mesmo o saberia dizer. Todas as manhãs ia trabalhar para uma tipografia na rua do Sabot, n.º 3, onde exercia o mister de encadernadora, e onde tinha de estar às seis horas da manhã, hora que de Inverno ainda nem se conhece o dia. No mesmo edifício havia uma escola, para onde ela levava o filho, que tinha sete anos. Como ela, porém, entrava às seis horas, e a escola não se abria senão às sete, a pobre criança, a quem não consentiam entrada na tipografia, tinha de esperar uma hora cá fora, no Inverno, ao relento da noite, antes de principiar a aula. Todas as manhãs, os operários que passavam, viam a infeliz criança sentada no chão, pendendo com sono, e muitas vezes a dormir n'algum canto, acocorado e encostado ao seu cestinho. 

Quando chovia, a porteira, compadecida do rapazinho, recolhia-o no seu cubículo, onde havia apenas uma enxerga, uma roda de fiar e duas cadeiras de pau; o pequeno deitava-se a um canto e adormecia abraçado ao gato para não ter tanto frio. Às sete horas abria-se a escola e ele lá se apresentava. 

Eis o que disseram a Jean Valjean. Contaram-lhe isto um dia, foi um momento, um relâmpago, como uma janela repentinamente aberta sobre os destinos dos entes que ele tanto amava e que logo após se fechou. Depois disto não tornou a ouvir falar deles, foi aquela a última vez. Nada mais soube a seu respeito, nunca os tornou a ver, nem no decurso desta dolorosa história se tornará a fazer menção a eles. 

Nos fins do quarto ano, chegou a Jean Valjean a vez de se evadir, no que foi auxiliado pelos seus camaradas, como é costume de tão triste lugar. Evadiu-se e andou dois dias errante pelos campos, usufruindo a liberdade, se é ser livre ver-se perseguido, voltar a cabeça a todo o instante, estremecer ao menor ruído, ter medo de tudo, da chaminé que fumega, do homem que passa, do cão que ladra, do cavalo que galopa, da hora que bate, do dia porque se vê, da noite porque se não vê, da estrada, do atalho, do arvoredo, do sono. 

Na noite do segundo dia, Jean Valjean era recapturado. Havia trinta e seis horas que não tinha comido nem bebido. 

Em virtude deste novo delito, foi condenado pelo tribunal marímo a uma prolongação de três anos, o que perfez oito anos. 

Ao fim do sexto ano, chegou-lhe novamente ocasião de se evadir; aproveitou-se dela, mas não chegou a consumar a fuga. Apenas deram pela sua falta na ocasião da chamada, dispararam o tiro de peça do costume, e, apesar da escuridão da noite, deram com ele escondido debaixo da quilha de um navio em construção. Resistiu aos guardas que o prenderam. 

Crime de evasão e rebelião. 

Este novo delito, previsto pelo código especial, foi punido com um agravo de cinco anos, sendo dois de dupla grilheta. Treze anos. 

No décimo ano, tentou a fuga novamente, porém, não foi mais feliz do que das outras vezes. Mais três anos por esta nova tentativa. Dezasseis anos. 

Finalmente, no décimo terceiro ano, tentou mais uma vez evadir-se e foi novamente preso depois de quatro horas de liberdade. Três anos por estas quatro horas. 

Em Outubro de 1815 foi posto em liberdade, tendo entrado em 1796, por ter quebrado um vidro e furtado um pão. 

Permitam-nos aqui um parêntesis. É a segunda vez, nos seus estudos sobre a penalidade e sobre a condenação pela lei, que o autor deste livro encontra o roubo de um pão, como origem da catástrofe de um destino Cláudio Gueux roubara um pão; Jean Valjean tinha roubado um pão; segundo uma estatística inglesa, está provado que em Londres de cinco roubos quatro têm por causa imediata a fome. 

Jean Valjean entrara para as galés soluçante e trêmulo; saiu de lá impassível. Entrara angustiado, saiu sombrio. 

Que se passara naquela alma?



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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.


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terça-feira, 2 de julho de 2019

Cinema: Eu e a democracia temos quase a mesma idade

Democracia em Vertigem

Direção: Petra Costa


na Netflix


as angústias da realidade que se impôs sobre nós

















O Brasil Nação - v2: § 64 – O passe de 1871 e o abolicionismo imperial - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim


O Brasil Nação volume 2




SEGUNDA PARTE 
TRADIÇÕES



À glória de
CASTRO ALVES
Potente e comovida voz de revolução


capítulo 7
as revoluções brasileiras



§ 64 – O passe de 1871 e o abolicionismo imperial




A política nacional renegara de tudo que é digno, degradara-se, principalmente para com os escravos; no entanto, em 1871, o governo imperial faz votar ostensivamente uma reforma emancipadora... Não será difícil dar a explicação de como, sem saírem os governantes da miséria em que fermentavam, houve a lei de 28 de setembro. Apreciaremos os motivos reais da reforma em que se ostentava o abolicionismo do imperante, em correspondência com as convicções dos políticos encarregados da tarefa. Tanto foi a efetiva valia da célebre lei do ventre livre

Destaquem-se, em primeiro lugar, as datas: em 1851, emerge o novo abolicionismo, com Silva Guimarães; acentua-se, em 1857-59-61, com Silveira da Mota, Jequitinhonha, Teixeira de Freitas; generaliza-se em 1861-63, no mundo da jurisprudência, na imprensa, com a vigorosa intervenção de Tavares Bastos; brame e despenha-se em 1863-65-68... com a formidável propaganda sentimental de Castro Alves; em 1869-70, é a formidável avalanche, já tangida por Luiz Gama e Rui Barbosa... No entanto, só em 1866 a fala do trono faz uma rapidíssima insinuação, para que o Parlamento pense no caso; e o estadista áulico Pimenta Bueno é incumbido de arranjar um plano de lei, a ser estudado pelo Conselho de Estado; amanha-se um projeto mais retrógrado do que qualquer dos já conhecidos –, Montezuma ou Silveira da Mota. Apesar disso, o monstrengo é estudado, antes afastado, até 1868, data em que Nabuco de Araújo apresenta ao mesmo conselho um projeto seu, que é fortemente combatido. E vem assim, quando, em 1871, estoura a bomba do imperial projeto emancipador, atirado ao Parlamento pelo intrépido empreiteiro Paranhos da Silva. Note-se, no entanto, que, afora as insignificantes linhas da fala do trono com Zacarias, tudo que se faz, de 1866 a 70, é no segredo morto do Conselho de Estado; altos políticos, exteriores a ele desconheciam os planos. E, com isto, mesmo neste segredo morto, a nota de abolicionismo, tépido e inócuo só se ouve quando já reboavam por todo o Brasil as inflamadas reivindicações de Castro Alves, quando se sentiam os frêmitos da dura campanha de que iam sair livres os negros norte-americanos, e nadavam no ambiente os programas que, antes de Rio Branco – ventre livre, libertariam todos os escravos das próprias colônias espanholas, para que ficasse, único do mundo cristão, vivendo do trabalho escravo, o país governado pelos Olindas e Sinimbus. 

Estas datas dizem muito, por conseguinte, como valor da política nacional, e dizem tudo quando se sabe que, mesmo assim, tarde e mal, a reforma suscitada e realizada em 1871 foi obra exclusiva do monarca – concepção e realização. E por que veio Pedro II para a causa dos escravos, ele, que levava o seu império no fastígio quase vertiginoso de 1865, sem dar qualquer prova, de qualquer interesse pela sorte dos escravos? São muitas as causas do emancipacionismo reverso e tardo, de Pedro II. A guerra do Paraguai era, como indisfarçado motivo íntimo, o seu grande empenho. Toda a América, todo o mundo, só tinha simpatias para o pequeno povo heroico, condenado ao extermínio; Lopez, tratado pela diplomacia imperial de déspota, cruel e tirano imperdoável, incompatível com a liberdade, defendia-se apontando ao mundo o Estado realmente incompatível com a liberdade, e que vivia sobre a escravidão. Pedro II, sempre a campar de liberal, teve de mostrar que, por si, era a favor da libertação dos negros: primeira causa – desmentir o Lopez. Abolia-se a escravidão legal em todo o resto do Ocidente; estendiam-se por todo o país as vagas de uma propaganda que iria à revolução; não era mais possível fingir que o Brasil se conformara com a condição de ser o apanágio de negreiros e da sua descendência; e a mesma escassa capacidade política de Pedro II compreendera que não se podia mais adiar em achar a forma de transigência com a necessidade de emancipação dos escravos; segunda causa – evidência da oportunidade. A terceira causa, que até parece fútil, foi, no entanto, a decisiva: a Sociedade Abolicionista Francesa, nos nomes do príncipe e do Duque de Broglie, Conde de Montalembert, Sr. de Pressensé, Guizot, Henri Martin, Laboulaye... dirigiu uma mensagem ao imperador do Brasil, apelando para os seus sentimentos de justiça e de liberdade... Ora, Pedro II desde sempre havia decidido ser tudo aquilo; estava convencido de possuir todos esses dotes, e, pronto, fez a resposta; o ministro só teve que lhe copiar o borrão. É coisa decidida; só lhe falta a forma e oportunidade... oportunidade muito limitada. Era questão de liquidar o Paraguai. De fato, a campanha terminou em 1870, e, na sessão parlamentar do ano seguinte, Rio Branco entrava com o fruto do imperial abolicionismo. 

A gestação do monstro foi por entre dissídios, avança-e-recua, e muito segredo atrás dos pesados reposteiros do Conselho de Estado. Elaborado o projeto Pimenta Bueno, concertado de acordo com as ideias de Nabuco foi ao dito conselho, para muitos pareceres, sepultados sob o mais espesso silêncio. Escreveu e discursou Otoni que nem aos ministros foram comunicados tais pareceres. Num rápido entremez, foi Pimenta Bueno presidente do conselho, com um gabinete bem misturado, de sorte a fazer a reforma, e que ninguém duvidasse de que era fruto da coroa. O fraco S. Vicente não foi homem para a empreitada, que só pôde ser realizada pelo expedito Paranhos. Apareceu o projeto, nos termos em que o devia ser, e, de fato foi votado. Nunca se falou tão ostensivamente em política da coroa. Nem a reforma constitucional da República esteve mais acima das discussões: os pontos essenciais não podiam ser modificados “– isto é o que ficou assentado com S. Majestade antes do embarque”. E o projeto não estudado, não debatido (afirma Otoni, que foi parte) assim mesmo, foi feito lei. O Parlamento não conhecia nem os célebres pareceres do Conselho de Estado. O conselheiro Teixeira Júnior disse no parecer ao projeto: “... sob caráter confidencial e com a recomendação reiterada da maior reserva (grifos do parecer) foi mostrada à comissão... uma cópia... Nestas condições, pois, a comissão não pode revelar nenhuma das opiniões exaradas...” Não se perdendo em razões para justificar o projeto, o delicioso parecer destacou, todavia, esta: “Um Pedro II (o que roubou ao irmão – o trono a liberdade e a esposa) proclamou a liberdade dos índios, outro Pedro II realizará a da raça africana.” Uma coisa não disse, no entanto, o sigiloso parecer: que isso, negado em 1871 ao parlamento brasileiro, tinha sido comunicado, desde 1867, aos abolicionistas amigos, da França. 

Foi Pedro II quem produziu a primeira reforma em favor dos escravos, mas, em sinceridade, ele não era abolicionista. Esta sua atuação veio acentuar aquilo mesmo que já assinalamos: apesar de tudo, ele estava acima dos dirigentes com quem teve de fazer o seu reinado. Afrânio Peixoto, na sua imensa generosidade, faz desse monarca o propulsor do movimento emancipador, e como não tem fundamento para o conceito, justifica as falhas e hesitações do imperial abolicionismo com as peias constitucionais, que lhe embaraçavam a ação. E como isso não é a história, nada temos a embargar na generosa referência. Pedro II, o onipotente, a reinar, governar e administrar, desde que ainda era um adolescente, se houvera nele qualquer fração de legítimo abolicionismo, não esperaria que o tráfico se extinguisse sob a pressão do inglês, nem haveria aquela oportunidade de 1871. Em 1849-50, o imperador era o rapaz de 25 anos, com dez anos de experiência política, na idade ótima – das afirmações pessoais, sobretudo em generosidade e em poder. O governo do Império era a sua vontade; o tráfico se fechou quando ele o quis, sem nenhuma consulta à nação; libertação do ventre da mulher se fez quando ele o quis. Teria sido em 1852, em 60, em 65... se ele tivesse sido tocado de qualquer inspiração análoga à que determinou a lei de 8 de setembro. Nem a secura de coração de Pedro II lhe permitia nutrir os sentimentos, compassivos e exaltados, de que se fazia o legítimo abolicionismo. Caráter incompleto e de convenção, o imperador foi abolicionista convencionalmente, quando motivos exteriores o levaram para aí, para ser um abolicionista incompleto, antes nocivo. Em face do trono, competindo com ele, quem era abolicionista era a propaganda republicana. Abolicionista, ele chamou o gabinete Dantas, em 1885, quando lhe pareceu já muito viva a agitação, mas foi somente para um ensaio, disse, ele, e assim o demonstrou, negando a Dantas a dissolução que garantiria, como aconteceu com Paranhos, a Câmara para votar o projeto governamental. Em vez disto, preparou uma solução monstruosa. Teve Dantas como seu chefe do gabinete, mas pronto a puxar-lhe a casaca, até que o deixou cair, para que viesse Saraiva, com a sua abolição ainda mais dosimétrica. E, não abolicionista, continuou Pedro II depois de 1871, como não o era antes. Toda a sua política, antes de Dantas, como no fim da sua viagem à Europa, não sobre à de Cotegipe, a quem encarregou de ultimar a segunda fase do seu emancipacionismo, que só não foi definitivo por que havia a alma do Brasil. Quando iniciada a decisiva campanha abolicionista, B. Otoni o disse com todas as letras: “O imperador queria a emancipação remunerada, e o país começou a pronunciar-se pela simples abolição”. (1) Nabuco, em 1886, com toda a sua indesmentida dedicação dinástica, não hesitou em notar a verdade: “A reação atual e conservadora tem a responsabilidade do Partido Conservador, mas quem ideou essa reação, quem fez retroceder a sombra do sol no disco da segunda independência brasileira, foi o imperador”. (2) 


(1) O Eclipse do Abolicionismo, pág. 40. 

(2) Otoni, Biografia de D. Pedro de Alcântara, e opúsculo sobre o elemento servil, publicado em 1871. Melo Moraes, op. cit.


Emancipador por convenção, em vista dos seus interesses, Pedro II fez questão de dar arras, para que a reforma de 1871 se contasse como coisa exclusivamente sua; e timbrou em não na realizar com estadistas emancipadores – Silveira da Mota, Nabuco de Araújo, Martin Francisco... Essa reforma não precisava de ser abolicionista; sendo obra própria do simples empreiteiro Paranhos, ela se ajustava admiravelmente ao momento de emancipacionismo de Pedro II. Paranhos que, em 1866-68, fizera objeção à parca emancipação de Pimenta Bueno, era bem o avesso de Zacarias, sem deixar de lhe ser idêntico: Zacarias, o primeiro a lembrar que se fizesse emancipação, e que, três anos depois, votou contra a emancipação, como Paranhos, fora contra ela e a realizou. É que o primeiro lembrou e o segundo realizou, por inspiração ordenativa da coroa. Era a segunda pessoa no gabinete do ventre livre. Saião Lobato, foi sagrado, por isso, abolicionista, ou porque propusera que negro escravo fosse para a roça... Ora, Otoni lembra que, de tão escravocrata, Saião Lobato, numa sessão secreta da Câmara, adotara, para o caso, a opinião do pétreo Cairu: “Nenhum esforço humano curará o mal da escravidão...” É por isso, que Paranhos e Saião demitiram aquele delegado da coroa da corte, o qual, baseado no direito romano, fez declarar livres 400 escravas cafetinizadas pelos respectivos senhores... Quem o refere é Melo Morais. 

De tudo isto resultou a lei de 28 de setembro, com que se iludiu a nação, que já clamava impetuosamente contra o crime da escravidão, lei que, de positivo, só teve estes resultados: retardou, uns dez anos, a libertação efetiva dos escravos, condenou à morte a grande maioria das decantadas crianças livres, nascidas de ventre escravo, e permitiu aos senhores aumentar o número de escravos, inscrevendo como tal, na matrícula criada, milhares de brasileiros indiscutivelmente livres. Tudo somando, e bem calculado, a lei de 28 de setembro só deu satisfação aos interesses vis ligados à escravidão. Otoni, no momento mesmo em que se discutia a famosa emancipação, apontou o crime: “... das crianças, salvar-se-ão cinco, e serão sacrificadas 95 às gloriosas ovações que S. Majestade Imperial foi colher na Europa.” Em carta ao Centro Abolicionista da Politécnica, Benedito Otoni é taxativo: “Lei de transação, a de 28 de setembro, manda aceitar para matrículas, sem exames, as relações de escravos que os senhores apresentam, aliás, notório que imenso número, talvez a maioria não tinham contra si nem a tolerância da lei escrita.” E por que era isso, a reforma de Pedro II-Paranhos foi duramente condenada no momento mesmo em que a levantaram. José de Alencar teve, com relação à qualidade dela, o melhor argumento para combatê-la: “...a ideia da libertação do ventre foi sempre combatida pela Inglaterra, a França, Estados Unidos e outros países...” Sales Torres Homem que a defendeu no Senado, teve de reconhecer: “... tímida e incompleta, a lei transigiu com os interesses, mal-entendidos, em preterição das exigências na Justiça e dos direitos da humanidade.” Logo em 1874, quando não previa, sequer, a República, Rui Barbosa mostrou, patenteou, com a lucidez do seu discorrer, o que valia o monstro:


... expressão de generosidade da coroa... composto ingruente de ideias contraditórias... desampara à geração atual de escravos, e cria, ao lado dela, uma geração de ingênuos, quase tão envilecidos como os próprios escravos... serviu para introduzir no seio das famílias perturbações de todos os dias... melhoramento superficial... para protelar indefinidamente a reforma real.


De são e profícuo, só havia, na lei de 28 de setembro, a criação do fundo de emancipação. Pois bem, entrada em uso, começaram a roer-lhe as verbas: em 1872, retiraram dele as multas impostas em virtude da lei que o criara; em 1877, tiraram-lhe 25%, para fins que tinha dotação especial; em 1879, deduziram-lhe outros 25%. Finalmente, procurava-se como raridade, o escravo alforriado pelo fundo de emancipação.




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"Morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."


Cecília Costa Junqueira



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Bomfim, Manoel, 1868-1932  
                O Brasil nação: vol. II / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 392 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 31).


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Download Acesse:

http://www.fundar.org.br/bbb/index.php/project/o-brasil-nacao-vol-ii-manoel-bonfim/


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segunda-feira, 1 de julho de 2019

bdia, Nubya... uau

Nubya Garcia 

'Lost Kingdom' at Gilles Peterson's Worldwide Awards



uau









Stendhal - O Vermelho e o Negro: Maneiras de Agir em 1830 (XXII - 2)

Livro I 

A verdade, a áspera verdade. 
Danton 


Capítulo XXII -2

MANEIRAS DE AGIR EM 1830




A palavra foi dada ao homem para esconder seu pensamento. 

R. P . MALAGRIDA



continuando...




Naquele momento considerava-se inteiramente aristocrata, ele que por muito tempo sentira-se tão chocado com o sorriso desdenhoso e a superioridade altaneira que percebia no fundo de todas as amabilidades que lhe fa​ziam na casa do sr. de Rênal. Não pôde deixar de sentir a extrema diferença. Esqueçamos até, dizia a si mesmo ao afastar-se, que se trata de dinheiro roubado aos pobres detentos, e ainda que os impedem de cantar! Jamais ocorreu ao sr. de Rênal dizer a seus hóspedes o preço de cada garrafa de vinho que lhes apresenta. E esse sr. Valenod, na enumeração de suas proprie​dades, repetida a toda hora, não consegue falar de sua casa, de seu domínio etc., se sua mulher está presente, sem dizer tua casa, teu domínio.

Essa dama, aparentemente tão sensível ao prazer da propriedade, fizera uma cena abominável, durante o almoço, a um criado que quebrara um de seus cálices, de​sem​​parelhando uma de suas dúzias; e esse criado respondera com a maior insolência. 

Que gente!, dizia-se Julien; mesmo que me dessem a metade de tudo o que roubam, não viveria com eles. Um dia acabaria por me trair; não conseguiria reter a expressão do desprezo que me inspiram. 

Mas foi preciso, de acordo com as ordens da sra. de Rênal, frequentar vários almoços do mesmo gênero; Julien ficou na moda. Perdoavam-lhe seu traje de guarda de honra, ou melhor, essa imprudência era a causa verdadeira de seus sucessos. Logo não se falou de outra coisa em Verrières senão de ver quem levaria a melhor na luta para obter o instruí​do rapaz: o sr. de Rênal ou o diretor do asilo. Esses senhores formavam com o sr. Maslon um triunvirato que há muito tiranizava a cidade. O prefeito era alvo de invejas, os liberais tinham do que se queixar dele; no entanto, era nobre e feito para a superioridade, ao passo que o pai do sr. Valenod deixara-lhe apenas 600 luíses de renda. Em relação a ele, fora preciso passar da piedade pelas roupas simples com que todos o haviam conhecido na juventude, à inveja por seus cavalos normandos, por suas correntes de ouro, por seus trajes vindos de Paris, por toda a sua prosperidade atual. 

Na onda desse mundo novo para Julien, ele acreditou descobrir um homem honesto; era um geômetra, chamava-se Gros e passava por jacobino. Tendo decidido só dizer coisas que lhe pareciam falsas a si mesmo, Julien foi obrigado a acautelar-se em relação ao sr. Gros. De Vergy chegavam-lhe grandes pacotes de temas. Aconselhavam-no a ver com frequência seu pai, e ele conformava-se a essa triste necessidade. Em suma, ele compunha bas​tante bem sua reputação, quando certa manhã foi surpreendido ao ser despertado por duas mãos que lhe tapavam os olhos. 

Era a sra. de Rênal, que fizera uma viagem à cidade e, subindo apressadamente a escada e deixando os filhos ocupados com um coelho de estimação, chegara ao quarto de Julien alguns instantes antes deles. Foi um momento delicioso, mas muito curto: a sra. de Rênal já se afastara quando os garotos chegaram com o coelho, que que​riam mostrar a seu amigo. Julien acolheu bem a todos, inclusive ao coelho. Parecia-lhe reencontrar sua família; sentiu que amava esses garotos, que gostava de tagarelar com eles. Admirava-lhes a doçura da voz, a simplicidade e a nobreza das atitudes; tinha necessidade de lavar sua imaginação de todas as maneiras de agir vulgares, de todos os pensamentos desagradáveis em meio aos quais respirava em Verrières, onde sempre havia o temor de falhar, onde o luxo e a miséria puxavam-se os cabelos. As pessoas em cuja casa almoçava faziam, a propósito de um assado, confidências humilhantes para elas e nauseabundas para quem as ouvia. 

– Vocês, nobres, têm razão de ser orgulhosos, ele dizia à sra. de Rênal. E contava-lhe todos os almoços que tivera de suportar. 

– Com que então você está na moda! E ela ria de bom grado, pensando no ruge que a sra. Valenod julgava-se obrigada a pôr toda vez que esperava Julien. Acho que ela tem projetos para o seu coração, acrescentava.

O desjejum foi delicioso. A presença das crianças, aparentemente incômoda, na verdade aumentava a felicidade comum. Essas pobres crianças não sabiam como demonstrar sua alegria de rever Julien. Os criados não haviam deixado de contar-lhes que lhe ofereciam 200 francos a mais para educar os pequenos Valenod. 

No meio da refeição, Stanislas-Xavier, ainda pálido de sua enfermidade, perguntou de repente à mãe quanto valiam sua colher de prata e a taça na qual bebia. 

– Por que isso? 

– Quero vendê-las para dar o dinheiro ao sr. Julien, para que ele não seja bobo ficando conosco. 

Julien abraçou-o, com lágrimas nos olhos. Sua mãe chorava, enquanto Julien, que pusera Stanislas sobre os joelhos, explicava-lhe que não devia usar a palavra bobo que, empregada nesse sentido, era uma maneira de falar de lacaios. Vendo o prazer que causava à sra. de Rênal, ele procurou explicar, com exemplos pitorescos que divertiam as crianças, o que era ser bobo. 

– Compreendo, disse Stanislas, é o corvo que deixa cair o queijo, que a raposa, bajuladora, apanha. 

Repleta de alegria, a sra. de Rênal cobria os filhos de beijos, o que não podia fazer sem apoiar-se um pouco sobre Julien. 

De repente, a porta abriu-se; era o sr. de Rênal. Seu rosto severo e descontente produziu um estranho contraste com a doce alegria que sua presença expulsava. A sra. de Rênal empalideceu; não se sentia em condições de negar o que quer que fosse. Julien tomou a palavra e, falando alto, pôs-se a contar ao prefeito a história da taça de prata que Stanislas queria vender. Ele tinha certeza de que essa história seria mal acolhida. Inicialmente, o sr. de Rênal franziu a sobrancelha, por hábito, só de ouvir o nome prata. A menção desse metal, ele dizia, é sempre um prefácio a algum achaque sobre meu dinheiro. 

Mas aqui havia mais do que interesse de dinheiro; havia um aumento de suspeitas. O ar de felicidade que animava sua família na ausência dele não ajudava a facilitar as coisas, num homem dominado por uma vaidade tão suscetível. Como sua mulher elogiasse a maneira cheia de graça e de espírito com que Julien dava ideias novas a seus alunos, ele respondeu: 

– Sim! Sim! Eu sei, ele torna-me odioso a meus filhos; para ele é cem vezes mais fácil ser amável com eles do que para mim, que afinal sou o chefe. Neste século, tudo tende a lançar o ódio contra a autoridade legítima. Pobre França! 

A sra. de Rênal não se deteve a examinar as nuances da acolhida que lhe dava o marido. Ela acabava de entrever a possibilidade de passar doze horas com Julien. Tinha uma série de compras a fazer na cidade e declarou que fazia questão de almoçar no cabaré; independentemente do que o marido pudesse dizer ou fazer, insistiu na ideia. As crianças ficaram encantadas com a simples palavra cabaré, que a falsa virtude moderna pronuncia com tanto prazer. 

O sr. de Rênal deixou sua mulher na primeira loja de novidades onde ela entrou, para ir fazer algumas visitas. Voltou mais carrancudo que de manhã; estava convencido de que a cidade inteira ocupava-se dele e de Julien. Em verdade, ninguém ainda lhe fizera suspeitar a parte ofensiva do falatório público. Os que tinham mexericado sobre o sr. prefeito queriam saber apenas se Julien ficaria com ele por 600 francos, ou se aceitaria os 800 oferecidos pelo diretor do asilo. 

Este último, que encontrou o sr. de Rênal nas rodas da sociedade, demonstrou-lhe frieza, conduta não desprovida de habilidade. Há pouco despropósito na província; ali as sensações são tão raras que as pessoas as aproveitam inteiramente. 

O sr. Valenod era o que chamam, a cem léguas de Paris, um gabarola, uma espécie de indivíduo impudente e grosseiro. Sua existência triunfante, desde 1815, reforçara suas belas disposições. Ele reinava, por assim dizer, em Verrières, sob as ordens do sr. de Rênal; mas, sendo muito mais ativo, não se envergonhando de nada, intrometendo-se em tudo, mexendo-se sem parar, escrevendo, falando, esquecendo as humilhações, não tendo nenhuma pretensão pessoal, acabara por abalar o crédito do prefeito aos olhos do poder eclesiástico. O sr. Valenod dissera, de certo modo, aos quitandeiros da região: deem-me os dois mais tolos dentre vocês; aos homens da lei: indiquem-me os dois mais ignaros; aos funcionário da saúde: designem-me os dois mais charlatães. Depois de reunir os mais impudentes de cada profissão, dissera-lhes: reinemos juntos. 

Os modos dessa gente feriam o sr. de Rênal. A grosseria de Valenod não se ofendia com nada, nem mesmo com os desmentidos que o padre Maslon não lhe poupava em público. 

Mas, em meio a essa prosperidade, o sr. Valenod tinha necessidade de confortar-se por pequenas insolências de detalhe contra as grandes verdades que ele sentia que todos tinham o direito de lançar-lhe. Sua atividade redobrara depois dos temores que lhe deixara a visita do sr. Appert: fizera três viagens a Besançon; escrevia vá​rias cartas a cada correio; enviava outras por desconhecidos que passavam em sua casa ao cair da noite. Talvez tivesse agido mal ao fazer destituir o velho cura Chélan; pois essa atitude vindicativa o fizera ser visto, por vários devotos de bom nascimento, como um homem profundamente mau. Aliás, esse serviço prestado o pusera na dependência absoluta do vigário-geral de Frilair, do qual recebia estranhas incumbências. Sua política estava nesse ponto quando cedeu ao prazer de escrever uma carta anônima. Para aumentar a confusão, sua mulher declarou-lhe que queria ter Julien em sua casa, e a vaidade subira-lhe à cabeça. 

Nessa posição, o sr. Valenod previa um confronto com seu antigo aliado, o sr. de Rênal. Este lhe diria palavras duras, o que pouco lhe importava; mas o prefeito podia escrever a Besançon, ou mesmo a Paris. O primo de algum ministro podia aparecer de repente em Verrières e arrebatar-lhe o asilo de mendicidade. O sr. Valenod pensou em aproximar-se dos liberais; por isso vários deles haviam comparecido ao almoço para o qual Julien fora convidado. Ele teria sido fortemente apoiado contra o prefeito. Mas eleições podiam sobrevir, e era evidente que o asilo e um mau voto eram incompatíveis. O relato dessa política, muito bem adivinhada pela sra. de Rênal, fora feito a Julien, enquanto este dava-lhe o braço para acompanhá-la de uma loja a outra, e aos poucos foram levados ao Passeio da Fidelidade, onde passaram várias horas, quase tão tranquilas quanto em Vergy. 

Nesse meio tempo, o sr. Valenod tentava evitar um confronto com o antigo chefe, assumindo ele próprio um ar audacioso em relação a este. Nesse dia o sistema funcionou, mas fez crescer a irritação do prefeito. 

Nunca a vaidade em conflito com tudo o que o amor ao dinheiro pode ter de mais áspero e mesquinho pôs um homem num estado mais lamentável do que aquele no qual se achava o sr. de Rênal, ao entrar no cabaré. Nunca, ao contrário, seus filhos haviam estado mais alegres e felizes. Esse contraste o espicaçou ainda mais. 

– Pelo que vejo, estou sendo demais em minha família! disse ele ao entrar, querendo dar um tom imponente a essas palavras. 

Como única resposta, sua mulher tomou-o à parte e falou da necessidade de afastar Julien. As horas de felicidade que ela acabava de passar haviam lhe dado o desembaraço e a firmeza necessários para seguir o plano de conduta que meditava há quinze dias. Para completar a perturbação do pobre prefeito de Verrières, ele sabia que gracejavam publicamente, na cidade, de seu apego ao dinheiro. O sr. Valenod era generoso como um ladrão, enquanto ele conduzira-se de maneira mais prudente do que brilhante nas cinco ou seis últimas arrecadações para a confraria de São José, para a congregação da Virgem, para a congregação do Santo-Sacramento etc. 

Entre os fidalgos provincianos de Verrières e dos arredores, habilmente classificados no registro dos frades coletores segundo o montante de suas oferendas, o nome do sr. de Rênal aparecera mais de uma vez em último lugar. Em vão ele dizia que não ganhava nada. O clero não brinca em tal assunto.





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ADVERTÊNCIA DO EDITOR

Esta obra estava prestes a ser publicada quando os grandes acontecimentos de julho [de 1830] vieram dar a todos os espíritos uma direção pouco favorável aos jogos da imaginação. Temos motivos para acreditar que as páginas seguintes foram escritas em 1827.


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Henri-Marie Beyle, mais conhecido como Stendhal (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 — Paris, 23 de março de 1842) foi um escritor francês reputado pela fineza na análise dos sentimentos de seus personagens e por seu estilo deliberadamente seco.


Órfão de mãe desde 1789, criou-se entre seu pai e sua tia. Rejeitou as virtudes monárquicas e religiosas que lhe inculcaram e expressou cedo a vontade de fugir de sua cidade natal. Abertamente republicano, acolheu com entusiasmo a execução do rei e celebrou inclusive a breve detenção de seu pai. A partir de 1796 foi aluno da Escola central de Grenoble e em 1799 conseguiu o primeiro prêmio de matemática. Viajou a Paris para ingressar na Escola Politécnica, mas adoeceu e não pôde se apresentar à prova de acesso. Graças a Pierre Daru, um parente longínquo que se converteria em seu protetor, começou a trabalhar no ministério de Guerra.

Enviado pelo exército como ajudante do general Michaud, em 1800 descobriu a Itália, país que tomou como sua pátria de escolha. Desenganado da vida militar, abandonou o exército em 1801. Entre os salões e teatros parisienses, sempre apaixonado de uma mulher diferente, começou (sem sucesso) a cultivar ambições literárias. Em precária situação econômica, Daru lhe conseguiu um novo posto como intendente militar em Brunswick, destino em que permaneceu entre 1806 e 1808. Admirador incondicional de Napoleão, exerceu diversos cargos oficiais e participou nas campanhas imperiais. Em 1814, após queda do corso, se exilou na Itália, fixou sua residência em Milão e efetuou várias viagens pela península italiana. Publicou seus primeiros livros de crítica de arte sob o pseudônimo de L. A. C. Bombet, e em 1817 apareceu Roma, Nápoles e Florença, um ensaio mais original, onde mistura a crítica com recordações pessoais, no que utilizou por primeira vez o pseudônimo de Stendhal. O governo austríaco lhe acusou de apoiar o movimento independentista italiano, pelo que abandonou Milão em 1821, passou por Londres e se instalou de novo em Paris, quando terminou a perseguição aos aliados de Napoleão.

"Dandy" afamado, frequentava os salões de maneira assídua, enquanto sobrevivia com os rendimentos obtidos com as suas colaborações em algumas revistas literárias inglesas. Em 1822 publicou Sobre o amor, ensaio baseado em boa parte nas suas próprias experiências e no qual exprimia ideias bastante avançadas; destaca a sua teoria da cristalização, processo pelo que o espírito, adaptando a realidade aos seus desejos, cobre de perfeições o objeto do desejo.

Estabeleceu o seu renome de escritor graças à Vida de Rossini e às duas partes de seu Racine e Shakespeare, autêntico manifesto do romantismo. Depois de uma relação sentimental com a atriz Clémentine Curial, que durou até 1826, empreendeu novas viagens ao Reino Unido e Itália e redigiu a sua primeira novela, Armance. Em 1828, sem dinheiro nem sucesso literário, solicitou um posto na Biblioteca Real, que não lhe foi concedido; afundado numa péssima situação económica, a morte do conde de Daru, no ano seguinte, afetou-o particularmente. Superou este período difícil graças aos cargos de cônsul que obteve primeiro em Trieste e mais tarde em Civitavecchia, enquanto se entregava sem reservas à literatura.

Em 1830 aparece sua primeira obra-prima: O Vermelho e o Negro, uma crónica analítica da sociedade francesa na época da Restauração, na qual Stendhal representou as ambições da sua época e as contradições da emergente sociedade de classes, destacando sobretudo a análise psicológica das personagens e o estilo direto e objetivo da narração. Em 1839 publicou A Cartuxa de Parma, muito mais novelesca do que a sua obra anterior, que escreveu em apenas dois meses e que por sua espontaneidade constitui uma confissão poética extraordinariamente sincera, ainda que só tivesse recebido o elogio de Honoré de Balzac.

Ambas são novelas de aprendizagem e partilham rasgos românticos e realistas; nelas aparece um novo tipo de herói, tipicamente moderno, caracterizado pelo seu isolamento da sociedade e o seu confronto com as suas convenções e ideais, no que muito possivelmente se reflete em parte a personalidade do próprio Stendhal.

Outra importante obra de Stendhal é Napoleão, na qual o escritor narra momentos importantes da vida do grande general Bonaparte. Como o próprio Stendhal descreve no início deste livro, havia na época (1837) uma carência de registos referentes ao período da carreira militar de Napoleão, sobretudo a sua atuação nas várias batalhas na Itália. Dessa forma, e também porque Stendhal era um admirador incondicional do corso, a obra prioriza a emergência de Bonaparte no cenário militar, entre os anos de 1796 e 1797 nas batalhas italianas. Declarou, certa vez, que não considerava morrer na rua algo indigno e, curiosamente, faleceu de um ataque de apoplexia, na rua, sem concluir a sua última obra, Lamiel, que foi publicada muito depois da sua morte.

O reconhecimento da obra de Stendhal, como ele mesmo previu, só se iniciou cerca de cinquenta anos após sua morte, ocorrida em 1842, na cidade de Paris.



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Leia também:

Stendhal - O Vermelho e o Negro: O Primeiro Adjunto (XVII)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Um Rei em Verrières (XVIII)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Pensar faz sofrer (XIX)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: As Cartas Anônimas (XX)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Diálogo com um Mestre (XXI - 1)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Maneiras de Agir em 1830 (XXII - 1)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Maneiras de Agir em 1830 (XXII - 2)
Stendhal - O Vermelho e o Negro: Desgostos de um funcionário (XXIII - 1)