Simone de Beauvoir
SlMONE DE BEAUVOIR
Gosto de todo mundo. Quando se trata de "gaita", minha senhora. . . Sim, porque dormir com um homem, a troco de nada, de graça, ele diz a mesma coisa da gente, é uma puta, e quando se exige pagamento, ele julga a gente também como puta, mas esperta; porque, quando se pede dinheiro a um homem, pode-se estar certa de que ele diz logo depois: "Ah, não sabia que tinhas este ofício" ou "Tens um homem". É isso, paga ou não, para mim é a mesma coisa. "Ah, sim, responde ela, você tem razão." Porque, eu lhe digo, você vai fazer fila meia hora por dia para poder comprar um par de sapatos. Eu, numa meia hora, dou uma trepada. Tenho os sapatos. Para pagar? ao contrário, se conheço meu trabalho ainda sou paga por cima. A senhora vê então que tenho razão.
Não é a situação moral e psicológica que torna penosa a existência das prostitutas. Sua condição material é que é, na maioria dos casos, deplorável. Exploradas pelo cáften, pela proxeneta, vivem na insegurança e três quartos delas não têm dinheiro. Ao fim de cinco anos de profissão, cerca de 75% estão com sífilis, diz o Dr. Bizard, que tratou de tantas. Entre outras, as menos experientes são contaminadas com uma assustadora facilidade; cerca de 25% devem ser operadas, em consequência de complicações blenorrágicas. Uma, em vinte, tem tuberculose, 60% tornam-se alcoólatras ou toxicômanas, 40% morrem antes dos 40 anos. É preciso acrescentar que, apesar das precauções, algumas vezes ficam grávidas e são operadas em más condições. A baixa prostituição é um ofício penoso em que a mulher oprimida sexual e economicamente, submetida à arbitrariedade da polícia, a uma humilhante fiscalização médica, aos caprichos dos fregueses, presa dos micróbios, da doença e da miséria, é realmente degradada ao nível de uma coisa¹.
[1] Não é evidentemente com medidas negativas e hipócritas que se pode modificar a situação. Para que a prostituição desapareça, são necessárias duas condições: que uma profissão decente seja assegurada a todas as mulheres; que os costumes não oponham nenhum obstáculo à liberdade do amor. É somente suprimindo as necessidades a que atende que se suprimirá a prostituição.
Da baixa prostituição à grande hetaira, há numerosos de graus. A diferença essencial consiste em que a primeira negocia com sua pura generalidade, de modo que a concorrência a mantém num nível de vida miserável, ao passo que a segunda se esforça por se fazer reconhecer em sua singularidade: vencendo, pode aspirar a um grande destino. A beleza, o encanto, o sex-appeal são necessários, mas não bastam: é preciso que a mulher seja distinguida pela opinião. É através de um desejo de homem que muitas vezes seu valor se desvendará; mas só será "lançada" quando o homem tiver proclamado seu valor aos olhos do mundo. No século passado, era o palacete, eram as pérolas que testemunhavam a ascendência conquistada por uma cocotte sobre seu protetor e que a elevavam à condição de demi-mondaine; seu mérito se afirmava na medida em que homens continuavam a arruinar-se por ela. As mudanças sociais e econômicas aboliram o tipo das Blanche d'Antigny. Não há mais um demi-monde, dentro do qual se possa afirmar uma reputação. É de outra maneira que uma mulher ambiciosa se esforçará por conquistar celebridade. É a "estrela" a última encarnação da hetaira. Com um marido ao lado — condição rigorosamente exigida por Hollywood — ou um amigo sério, ela se aparenta contudo a Frinéia, Impéria, Casque d'Or. A hetaira entrega a Mulher aos sonhos dos homens, que em troca lhe dão fortuna e glória.Houve sempre entre a prostituição e a arte uma passagem incerta, em virtude de se associarem de maneira equívoca a beleza e a volúpia; na verdade não é a Beleza que engendra o desejo; mas a teoria platônica do amor propõe hipócritas justificações para a lubricidade. Frinéia desnudando o seio oferece ao areópago a contemplação de uma ideia pura. A exibição de um corpo sem véu torna-se um espetáculo de arte; os "burlescos" americanos fizeram um drama do despir-se. 0 "nu é casto", afirmam os velhos que, sob a denominação de "nus artísticos", colecionam fotografias obscenas. No bordel, o momento da "escolha" já é uma parada; ao complicar-se, têm-se os "quadros vivos", as "poses artísticas" que se oferecem aos fregueses. A prostituta que as pira a adquirir um valor singular não se limita mais a mostrar passivamente a carne; esforça-se por mostrar talentos particulares. As "tocadoras de flauta" gregas encantavam os homens com sua música e suas danças. As Uled-Nail executam a dança do ventre, as espanholas que dançam e cantam no Barrio-Chino não fazem senão oferecer-se de maneira requintada à escolha do apreciador. É para achar "protetores" que Nana sobe ao palco. Certos music-halls, como outrora certos cafés-concerto, não passam de bordéis. Todos os ofícios em que a mulher se exibe podem' ser utilizados para fins galantes. Há, sem dúvida, girls, taxi-girls, dançarinas nuas e outras, pin-ups, manequins, cantoras, que não permitem que sua vida erótica se imiscua em seu trabalho; quanto mais este implique em técnicas, invenção, mais poderá ser considerado como um fim em si; mas, frequentemente, uma mulher que se apresenta em público para ganhar a vida é tentada a comerciar com seus encantos. Inversamente, a cortesã deseja um ofício que lhe sirva de álibi. Raras, como a Léa, de Colette, responderiam a um amigo que as chamasse "Cara artista": "Artistas? Realmente meus amantes são muito indiscretos". Dissemos que sua reputação é que lhe confere um valor comercial: é no palco ou na tela que se pode conquistar "nome", que se tornará um capital.
[2] Pode ela ser também uma artista que, procurando agradar, invente e crie. Pode então acumular as duas funções ou ultrapassar o estádio da galantaria e entrosar-se na categoria das mulheres atrizes, cantoras, dançarinas etc, de que falaremos adiante.
Essa libertação pode traduzir-se no terreno erótico, entre outros. No dinheiro ou nos serviços que presta ao homem, a mulher pode encontrar uma compensação para o complexo de inferioridade feminina; e dinheiro tem um papel purificador; abole a luta dos sexos. Se muitas mulheres que não são profissionais fazem questão de arrancar cheques e presentes do amante, não é somente por cupidez: fazer o homem pagar — pagar-lhe também como se verá adiante — é transformá-lo em instrumento. Com isso a mulher nega-se a sê-lo: talvez o homem pense tê-la, mas essa posse sexual é ilusória; ela é que o tem no terreno muito mais sólido da economia. Seu amor-próprio está satis feito. Pode entregar-se aos amplexos do amante, não cede a uma vontade estranha, o prazer não lhe poderá ser "infligido", apresentar-se-á antes como um benefício suplementar; não será "tomada" porquanto é paga.
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
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