segunda-feira, 8 de junho de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (3)

 Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO IV
PROSTITUTAS E HETAIRAS
 
continuando...

     Em sua maioria, as prostitutas acham-se moralmente adaptadas à sua condição; isto não quer dizer que sejam hereditárias ou congenitamente imorais, mas sim que se sentem, com razão, integradas numa sociedade que reclama seus serviços. Sabem que os discursos do policial que as identifica são simples palavrório e os sentimentos elevados que seus fregueses exibem fora do bordel intimidam-nas bem pouco. Marie Thérèse explica à padeira, em casa de quem reside, em Berlim:

   Gosto de todo mundo. Quando se trata de "gaita", minha senhora. . . Sim, porque dormir com um homem, a troco de nada, de graça, ele diz a mesma coisa da gente, é uma puta, e quando se exige pagamento, ele julga a gente também como puta, mas esperta; porque, quando se pede dinheiro a um homem, pode-se estar certa de que ele diz logo depois: "Ah, não sabia que tinhas este ofício" ou "Tens um homem". É isso, paga ou não, para mim é a mesma coisa. "Ah, sim, responde ela, você tem razão." Porque, eu lhe digo, você vai fazer fila meia hora por dia para poder comprar um par de sapatos. Eu, numa meia hora, dou uma trepada. Tenho os sapatos. Para pagar? ao contrário, se conheço meu trabalho ainda sou paga por cima. A senhora vê então que tenho razão.

     Não é a situação moral e psicológica que torna penosa a existência das prostitutas. Sua condição material é que é, na maioria dos casos, deplorável. Exploradas pelo cáften, pela proxeneta, vivem na insegurança e três quartos delas não têm dinheiro. Ao fim de cinco anos de profissão, cerca de 75% estão com sífilis, diz o Dr. Bizard, que tratou de tantas. Entre outras, as menos experientes são contaminadas com uma assustadora facilidade; cerca de 25% devem ser operadas, em consequência de complicações blenorrágicas. Uma, em vinte, tem tuberculose, 60% tornam-se alcoólatras ou toxicômanas, 40% morrem antes dos 40 anos. É preciso acrescentar que, apesar das precauções, algumas vezes ficam grávidas e são operadas em más condições. A baixa prostituição é um ofício penoso em que a mulher oprimida sexual e economicamente, submetida à arbitrariedade da polícia, a uma humilhante fiscalização médica, aos caprichos dos fregueses, presa dos micróbios, da doença e da miséria, é realmente degradada ao nível de uma coisa¹.

[1] Não é evidentemente com medidas negativas e hipócritas que se pode modificar a situação. Para que a prostituição desapareça, são necessárias duas condições: que uma profissão decente seja assegurada a todas as mulheres; que os costumes não oponham nenhum obstáculo à liberdade do amor. É somente suprimindo as necessidades a que atende que se suprimirá a prostituição.

     Da baixa prostituição à grande hetaira, há numerosos de graus. A diferença essencial consiste em que a primeira negocia com sua pura generalidade, de modo que a concorrência a mantém num nível de vida miserável, ao passo que a segunda se esforça por se fazer reconhecer em sua singularidade: vencendo, pode aspirar a um grande destino. A beleza, o encanto, o sex-appeal são necessários, mas não bastam: é preciso que a mulher seja distinguida pela opinião. É através de um desejo de homem que muitas vezes seu valor se desvendará; mas só será "lançada" quando o homem tiver proclamado seu valor aos olhos do mundo. No século passado, era o palacete, eram as pérolas que testemunhavam a ascendência conquistada por uma cocotte sobre seu protetor e que a elevavam à condição de demi-mondaine; seu mérito se afirmava na medida em que homens continuavam a arruinar-se por ela. As mudanças sociais e econômicas aboliram o tipo das Blanche d'Antigny. Não há mais um demi-monde, dentro do qual se possa afirmar uma reputação. É de outra maneira que uma mulher ambiciosa se esforçará por conquistar celebridade. É a "estrela" a última encarnação da hetaira. Com um marido ao lado — condição rigorosamente exigida por Hollywood — ou um amigo sério, ela se aparenta contudo a Frinéia, Impéria, Casque d'Or. A hetaira entrega a Mulher aos sonhos dos homens, que em troca lhe dão fortuna e glória.
     Houve sempre entre a prostituição e a arte uma passagem incerta, em virtude de se associarem de maneira equívoca a beleza e a volúpia; na verdade não é a Beleza que engendra o desejo; mas a teoria platônica do amor propõe hipócritas justificações para a lubricidade. Frinéia desnudando o seio oferece ao areópago a contemplação de uma ideia pura. A exibição de um corpo sem véu torna-se um espetáculo de arte; os "burlescos" americanos fizeram um drama do despir-se. 0 "nu é casto", afirmam os velhos que, sob a denominação de "nus artísticos", colecionam fotografias obscenas. No bordel, o momento da "escolha" já é uma parada; ao complicar-se, têm-se os "quadros vivos", as "poses artísticas" que se oferecem aos fregueses. A prostituta que as pira a adquirir um valor singular não se limita mais a mostrar passivamente a carne; esforça-se por mostrar talentos particulares. As "tocadoras de flauta" gregas encantavam os homens com sua música e suas danças. As Uled-Nail executam a dança do ventre, as espanholas que dançam e cantam no Barrio-Chino não fazem senão oferecer-se de maneira requintada à escolha do apreciador. É para achar "protetores" que Nana sobe ao palco. Certos music-halls, como outrora certos cafés-concerto, não passam de bordéis. Todos os ofícios em que a mulher se exibe podem' ser utilizados para fins galantes. Há, sem dúvida, girls, taxi-girls, dançarinas nuas e outras, pin-ups, manequins, cantoras, que não permitem que sua vida erótica se imiscua em seu trabalho; quanto mais este implique em técnicas, invenção, mais poderá ser considerado como um fim em si; mas, frequentemente, uma mulher que se apresenta em público para ganhar a vida é tentada a comerciar com seus encantos. Inversamente, a cortesã deseja um ofício que lhe sirva de álibi. Raras, como a Léa, de Colette, responderiam a um amigo que as chamasse "Cara artista": "Artistas? Realmente meus amantes são muito indiscretos". Dissemos que sua reputação é que lhe confere um valor comercial: é no palco ou na tela que se pode conquistar "nome", que se tornará um capital.
     Cinderela nem sempre sonha com o Príncipe Encantado: teme que, marido ou amante, ele se transforme em tirano; prefere sonhar com sua própria imagem rindo às portas dos cinemas. Porém, o mais das vezes, é graças a "proteções" masculinas que ela alcança seu objetivo; e são os homens — marido, amante, pretendente — que lhe confirmam o triunfo, fazendo-a participar de seu renome ou de sua fortuna. É essa necessidade de agradar a indivíduos, à multidão, que aproxima a vedette da hetaira. Elas desempenham na sociedade um papel análogo: empregarei a palavra hetaira para designar todas as mulheres que tratam, não do corpo somente, mas também de sua pessoa como de um capital a ser explorado. Sua atitude é muito diferente da de um criador que, transcendendo-se em sua obra, supera o dado e apela em outrem para uma liberdade a que abre o futuro; a hetaira não desvenda o mundo, não abre nenhum caminho à transcendência humana²: ao contrário, procura captá-la em proveito próprio; oferecendo-se aos sufrágios de seus admira dores, não renega sua feminilidade passiva que a destina ao homem: dota-a de um poder mágico que lhe permite pegar os homens na armadilha de sua presença e deles alimentar-se; arrasta-os consigo em sua imanência.

[2] Pode ela ser também uma artista que, procurando agradar, invente e crie. Pode então acumular as duas funções ou ultrapassar o estádio da galantaria e entrosar-se na categoria das mulheres atrizes, cantoras, dançarinas etc, de que falaremos adiante.

   Por esse caminho, a mulher consegue conquistar certa independência. Entregando-se a vários homens, não pertence definitivamente a nenhum; o dinheiro que junta, o nome que "lança" como se lança um produto, asseguram-lhe uma autonomia econômica. As mulheres mais livres da Antigüidade grega não eram nem as matronas nem as baixas prostitutas: eram as he tairas. As cortesãs do Renascimento, as gueixas japonesas gozam de uma liberdade infinitamente maior do que suas contemporâ neas. Na França, a mulher que se nos afigura mais virilmente independente é talvez Ninon de Lenclos. Paradoxalmente, essas mulheres que exploram ao extremo sua feminilidade criam para si uma situação quase equivalente à de um homem; partindo desse sexo que as entrega aos homens como objeto, reencontram-se como sujeitos. Não somente ganham a vida como os homens, mas ainda vivem em uma companhia quase exclusivamente mas culina; livres de costumes e de propósitos, podem elevar-se — como Ninon de Lenclos — à mais rara liberdade de espírito. As mais distintas vêem-se, amiúde, cercadas de artistas e escri tores que as "mulheres honestas" aborrecem. É na hetaira que os mitos masculinos encontram sua mais sedutora encarnação; ela é, mais do que qualquer outra, carne e consciência, ídolo, inspiradora, musa; pintores e escultores querem-na como modelo; ela alimenta os sonhos dos poetas; é nela que o intelectual explora os tesouros da "intuição" feminina; ela é mais facilmente inteligente do que a matrona, menos afetada na hipocrisia. As que são superiormente dotadas não se contentarão com esse papel de Egéria; sentirão necessidade de manifestar, de maneira autônoma, o valor que o sufrágio alheio lhes confere; gostarão de transformar suas virtudes passivas em atividades. Emergindo no mundo como sujeitos soberanos, escrevem versos ou prosa, pintam, compõem. Assim, Impéria se tornou célebre entre as cortesãs italianas. Pode acontecer também que, utilizando o homem como instrumento, ela exerça funções viris por intermédio dele: as "grandes favoritas" participaram do governo do mundo através de seus poderosos amantes ³.

[3] Assim como certas mulheres utilizam o casamento para alcançar certos fins, outras empregam os amantes como meios para atingir objetivos políticos, econômicos etc. como as outras a de matrona. Superam a situação de hetaira como as outras de matrona.

     Essa libertação pode traduzir-se no terreno erótico, entre outros. No dinheiro ou nos serviços que presta ao homem, a mulher pode encontrar uma compensação para o complexo de inferioridade feminina; e dinheiro tem um papel purificador; abole a luta dos sexos. Se muitas mulheres que não são profissionais fazem questão de arrancar cheques e presentes do amante, não é somente por cupidez: fazer o homem pagar — pagar-lhe também como se verá adiante — é transformá-lo em instrumento. Com isso a mulher nega-se a sê-lo: talvez o homem pense tê-la, mas essa posse sexual é ilusória; ela é que o tem no terreno muito mais sólido da economia. Seu amor-próprio está satis feito. Pode entregar-se aos amplexos do amante, não cede a uma vontade estranha, o prazer não lhe poderá ser "infligido", apresentar-se-á antes como um benefício suplementar; não será "tomada" porquanto é paga.
     Entretanto, a cortesã tem a reputação de ser fria. É-lhe útil saber governar o coração e o ventre: sentimental ou sensual, arrisca-se a sofrer a ascendência de um homem que a explorará ou a açambarcará ou a fará sofrer. Entre as aventuras que aceita, muitas há — principalmente no início da carreira — que a humilham; sua revolta contra a arrogância masculina exprime-se pela frigidez. As hetairas, como as matronas, confiam-se de bom grado os "truques" que lhes permitem "fingir". Esse desprezo, esse nojo pelo homem mostra bem que no jogo explorador-explorado elas não estão inteiramente certas de ter ganho. Com efeito, na imensa maioria dos casos, é ainda a dependência seu quinhão.
 
continua página 333...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (3)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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