Simone de Beauvoir
02. A Experiência Vivida
O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR
SlMONE DE BEAUVOIR
SEGUNDA PARTE
SITUAÇÃO
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CAPÍTULO IV
PROSTITUTAS E HETAIRAS
continuando...
Nenhum homem é definitivamente seu senhor. Mas elas têm
a mais urgente necessidade do homem. A cortesã perde todos os
seus meios de existência, se ele deixa de desejá-la; a estreante
sabe que todo o seu futuro está nas mãos dele; a própria
estrela, privada de apoio masculino, vê dissipar-se o seu prestígio: abandonada por Orson Welles, foi com um ar doentio
de órfã que Rita Hayworth deambulou pela Europa antes de
encontrar Ali Khan. A mais bela de todas nunca tem certeza do
dia seguinte, porque suas armas são mágicas e a magia é caprichosa; ela está ligada a seu protetor — marido ou amante —
quase tão estreitamente quanto uma esposa "honesta" ao seu
esposo. Deve-lhe não somente o serviço da cama, mas precisa
ainda suportar-lhe a presença, a conversa, os amigos e principalmente as exigências da vaidade dele. Pagando, à mulher que
explora, sapatos de saltos altos, saias de cetim, o proxeneta faz
um investimento que lhe dará uma renda; o industrial, o produtor, oferecendo pérolas e peles à amiga, afirma fortuna e poder
através dela: que a mulher seja um meio para ganhar dinheiro
ou um pretexto para gastá-lo, é sempre a mesma servidão. Os
presentes com que a cumulam são cadeias. E esses vestidos, essas
joias que ela usa, pertencem-lhe realmente?
O homem, por vezes, reclama a restituição após a ruptura, como o fez outrora,
com elegância, Sacha Guitry.
Para "conservar" seu protetor
sem renunciar a seus prazeres, a mulher utilizará espertezas e
manobras, mentiras e hipocrisias que aviltam a vida conjugal;
ainda que apenas se finja subserviente, já essa comédia é servil.
Bela, célebre, ela pode escolher outro senhor, se o do momento
se lhe afigura odioso. Mas a beleza é uma preocupação, um
tesouro frágil; a hetaira depende estreitamente de seu corpo que
o tempo impiedosamente degrada; é para ela que a luta contra
a velhice assume seu aspecto mais dramático. Sendo dotada de
grande prestígio, poderá sobreviver a sua ruína, à ruína de seu
rosto e de suas formas. Mas o cuidado desse renome, que é
seu bem mais precioso, submete-a à mais dura das tiranias: a da
opinião. Sabe-se em que escravidão caem as vedettes de Hollywood. Seu corpo não lhes pertence mais; o produtor decide
da cor dos cabelos, do peso, da linha, do tipo; para modificar
a curva de um semblante arrancam-lhe dentes. Regimes, ginástica, provas, maquilagem são uma aborrecida tarefa diária. Sob
a rubrica Personal appearance são previstos saídas e namoros;
a vida privada não é senão um momento da vida pública. Na
França, não há regulamento escrito, mas uma mulher prudente e
hábil sabe o que sua "publicidade" exige dela. A vedette que se
recusa a se submeter a tais exigências conhecerá quedas brutais ou
lentas, mas inelutáveis. A prostituta que só entrega o corpo é
talvez menos escrava do que a mulher que tem por profissão
agradar.
Uma mulher "consagrada", que tem nas mãos um
ofício de verdade e cujo talento é reconhecido — atriz, cantora,
dançarina — escapa à condição de hetaira; pode conhecer uma
verdadeira independência; mas a maioria continua em perigo
durante toda a vida; é-lhe necessário sem descanso seduzir
novamente o público e os homens.
Muitas e muitas vezes, a mulher que vive à custa de um
amigo interioriza sua dependência; submetida à opinião, reconhece-lhe os valores; admira a sociedade elegante e adota-lhe os
costumes; quer ser considerada segundo normas burguesas. Para
sita da burguesia rica, adere às ideias dela; "pensa como se deve";
outrora punha amiúde as filhas num convento e, envelhecida,
ia ela própria à missa, convertendo-se ruidosamente. Está do lado
dos conservadores. É demasiado orgulhosa de ter conquistado
um lugar neste mundo, para desejar que ele mude. A luta
que trava para "vencer" não a predispõe a sentimentos de fraternidade e de solidariedade humana; pagou seus êxitos com exageradas complacências de escrava para desejar sinceramente
a liberdade universal. Zola acentuou esse traço em Nana:
Em matéria de livros e dramas, Nana tinha opiniões muito preciosas: queria obras ternas e nobres, coisas que a fizessem sonhar e lhe engrandecessem a alma. . . Exaltou-se contra os republicanos. Que queria então, essa gentinha que nunca se lavava? Não se era feliz? O Imperador não fizera tudo pelo povo? Uma bela porcaria, o povo! Conhecia-o, podia falar; não, vejam, seria uma grande desgraça para todo mundo, essa república deles. Ah, que Deus proteja o Imperador o mais tempo possível.
A grande desgraça da hetaira provém de que não somente
sua independência é o reverso mentiroso de mil dependências,
mas ainda de que mesmo essa liberdade é negativa. Uma atriz
como Raquel, uma dançarina como Isadora Duncan, ainda que
auxiliadas por homens, têm um ofício que as exige e as justifica; elas alcançam, com um trabalho voluntário, querido, uma
liberdade concreta. Mas, para a imensa maioria das mulheres,
a arte, o ofício são apenas um meio; não empenham nisso projetos verdadeiros.
O cinema, particularmente, que submete a
vedette ao encenador, não lhe permite a invenção, os progressos
de uma atividade criadora. Exploram o que ela é; ela não
cria um objeto novo. E ainda, além disso, é muito difícil tornar-se uma vedette. Na "galanteria" propriamente dita, nenhum
caminho se abre à transcendência. Aqui também o tédio acompanha o confinamento da mulher na imanência. Zola mostrou
esse traço em Nana.
Entretanto, em seu luxo, no meio dessa corte, Nana aborrecia-se mortalmente. Tinha homens para todos os minutos da noite e dinheiro até nas gavetas da sala de banho, mas isso não a contentava mais, ela sentia como um vazio algures, um buraco que a fazia bocejar. Sua vida arrastava-se sem ocupação, trazendo de volta as mesmas horas monótonas... Essa certeza de que a alimentariam deixava-a deitada o dia inteiro, sem um esforço, adormecida no fundo desse temor e dessa submissão de convento, como que encerrada em seu ofício de prostituta. Matava o tempo com prazeres tolos, na sua única espera do homem.
A literatura norte-americana descreveu cem vezes esse tédio
que esmaga Hollywood e que desde o dia da chegada sufoca
o viajante; os atores e os figurantes aí se aborrecem, de resto,
tanto quanto as mulheres cuja condição compartilham. Mesmo
na França, as saídas oficiais assumem um caráter de corveia. O protetor que reina sobre a vida da starlet é um homem idoso, que
tem por amigos homens de idade: suas preocupações são estranhas à jovem, suas conversas acabrunham-na; há um fosso muito
mais profundo ainda do que no casamento burguês entre a estreante de 20 anos e o banqueiro de 45, que passam dias e
noites juntos.
O moloc a quem a hetaira sacrifica prazer, amor, liberdade, é sua carreira. O ideal da matrona é uma felicidade estática que envolve suas relações com o marido e os filhos. A "carreira" desenrola-se através do tempo, mas é contudo um objeto imanente que se resume em um nome. O nome cresce nos cartazes é nas bocas na medida em que, na escala social, degraus cada vez mais altos são vencidos. Segundo seu temperamento, a mulher administra sua empresa com prudência ou com audácia. Uma experimenta nisso as satisfações de dona de casa dobrando uma bela roupa branca no armário, outra a embriaguez da aventura. Ora a mulher se limita a manter, sem cessar, em equilíbrio, uma situação ininterruptamente ameaçada e que por vezes desmorona, ora ela edifica indefinidamente sua fama como uma torre de Babel visando em vão ao céu. Algumas, misturando a galanteria a outras atividades, surgem como verdadeiras aventureiras: são espiãs, como Mata Hari, ou agentes secretas; não têm, em geral, a iniciativa de seus projetos, são antes instrumentos nas mãos dos homens. Mas, em conjunto, a atitude da hetaira tem analogias com a do aventureiro; como este, ela se encontra muitas vezes a meio caminho entre a seriedade e a aventura propriamente dita, ela visa a valores feitos, convencionais: dinheiro, glória; mas dá ao fato de os conquistar tanta importância quanto a própria posse; e, finalmente, o valor supremo a seus olhos é seu êxito subjetivo. Justifica, ela também, esse individualismo por um niilismo mais ou menos sistemático, mas vivido coirí tanto maior convicção quanto é hostil aos homens e vê inimigas nas outras mulheres. Se é bastante inteligente para sentir a necessidade de uma justificação moral, invocará um nietzscheísmo mais ou menos bem assimilado; afirmará o direito do ser de elite sobre o vulgar. Sua pessoa apresenta-se-lhe como um tesouro cuja simples existência é um dom; de modo que, consagrando-se a si mesma, pretenderá servir a coletividade. O destino da mulher devotada ao homem é marcado pelo amor: a que explora o homem assenta no culto que rende a si mesma. Se atribui tanta importância a sua glória, não é somente por interesse econômico: procura nisso a apoteose de seu narcisismo.
O moloc a quem a hetaira sacrifica prazer, amor, liberdade, é sua carreira. O ideal da matrona é uma felicidade estática que envolve suas relações com o marido e os filhos. A "carreira" desenrola-se através do tempo, mas é contudo um objeto imanente que se resume em um nome. O nome cresce nos cartazes é nas bocas na medida em que, na escala social, degraus cada vez mais altos são vencidos. Segundo seu temperamento, a mulher administra sua empresa com prudência ou com audácia. Uma experimenta nisso as satisfações de dona de casa dobrando uma bela roupa branca no armário, outra a embriaguez da aventura. Ora a mulher se limita a manter, sem cessar, em equilíbrio, uma situação ininterruptamente ameaçada e que por vezes desmorona, ora ela edifica indefinidamente sua fama como uma torre de Babel visando em vão ao céu. Algumas, misturando a galanteria a outras atividades, surgem como verdadeiras aventureiras: são espiãs, como Mata Hari, ou agentes secretas; não têm, em geral, a iniciativa de seus projetos, são antes instrumentos nas mãos dos homens. Mas, em conjunto, a atitude da hetaira tem analogias com a do aventureiro; como este, ela se encontra muitas vezes a meio caminho entre a seriedade e a aventura propriamente dita, ela visa a valores feitos, convencionais: dinheiro, glória; mas dá ao fato de os conquistar tanta importância quanto a própria posse; e, finalmente, o valor supremo a seus olhos é seu êxito subjetivo. Justifica, ela também, esse individualismo por um niilismo mais ou menos sistemático, mas vivido coirí tanto maior convicção quanto é hostil aos homens e vê inimigas nas outras mulheres. Se é bastante inteligente para sentir a necessidade de uma justificação moral, invocará um nietzscheísmo mais ou menos bem assimilado; afirmará o direito do ser de elite sobre o vulgar. Sua pessoa apresenta-se-lhe como um tesouro cuja simples existência é um dom; de modo que, consagrando-se a si mesma, pretenderá servir a coletividade. O destino da mulher devotada ao homem é marcado pelo amor: a que explora o homem assenta no culto que rende a si mesma. Se atribui tanta importância a sua glória, não é somente por interesse econômico: procura nisso a apoteose de seu narcisismo.
continua página 338...
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Leia também:
O Segundo Sexo - 01. Fatos e Mitos: que é uma mulher?
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo I - Infância (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo II - A Moça (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo III - A Iniciação Sexual (1)
O Segundo Sexo - 02. A Experiência Vivida: Capítulo IV - A Lésbica (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo I - A Mulher Casada (1)
O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (4)
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Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.
"O que é uma mulher?"
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