domingo, 14 de junho de 2026

O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (4)

 Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

SEGUNDA PARTE

SITUAÇÃO
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CAPÍTULO IV
PROSTITUTAS E HETAIRAS
 
continuando...

     Nenhum homem é definitivamente seu senhor. Mas elas têm a mais urgente necessidade do homem. A cortesã perde todos os seus meios de existência, se ele deixa de desejá-la; a estreante sabe que todo o seu futuro está nas mãos dele; a própria estrela, privada de apoio masculino, vê dissipar-se o seu prestígio: abandonada por Orson Welles, foi com um ar doentio de órfã que Rita Hayworth deambulou pela Europa antes de encontrar Ali Khan. A mais bela de todas nunca tem certeza do dia seguinte, porque suas armas são mágicas e a magia é caprichosa; ela está ligada a seu protetor — marido ou amante — quase tão estreitamente quanto uma esposa "honesta" ao seu esposo. Deve-lhe não somente o serviço da cama, mas precisa ainda suportar-lhe a presença, a conversa, os amigos e principalmente as exigências da vaidade dele. Pagando, à mulher que explora, sapatos de saltos altos, saias de cetim, o proxeneta faz um investimento que lhe dará uma renda; o industrial, o produtor, oferecendo pérolas e peles à amiga, afirma fortuna e poder através dela: que a mulher seja um meio para ganhar dinheiro ou um pretexto para gastá-lo, é sempre a mesma servidão. Os presentes com que a cumulam são cadeias. E esses vestidos, essas joias que ela usa, pertencem-lhe realmente? O homem, por vezes, reclama a restituição após a ruptura, como o fez outrora, com elegância, Sacha Guitry. Para "conservar" seu protetor sem renunciar a seus prazeres, a mulher utilizará espertezas e manobras, mentiras e hipocrisias que aviltam a vida conjugal; ainda que apenas se finja subserviente, já essa comédia é servil. Bela, célebre, ela pode escolher outro senhor, se o do momento se lhe afigura odioso. Mas a beleza é uma preocupação, um tesouro frágil; a hetaira depende estreitamente de seu corpo que o tempo impiedosamente degrada; é para ela que a luta contra a velhice assume seu aspecto mais dramático. Sendo dotada de grande prestígio, poderá sobreviver a sua ruína, à ruína de seu rosto e de suas formas. Mas o cuidado desse renome, que é seu bem mais precioso, submete-a à mais dura das tiranias: a da opinião. Sabe-se em que escravidão caem as vedettes de Hollywood. Seu corpo não lhes pertence mais; o produtor decide da cor dos cabelos, do peso, da linha, do tipo; para modificar a curva de um semblante arrancam-lhe dentes. Regimes, ginástica, provas, maquilagem são uma aborrecida tarefa diária. Sob a rubrica Personal appearance são previstos saídas e namoros; a vida privada não é senão um momento da vida pública. Na França, não há regulamento escrito, mas uma mulher prudente e hábil sabe o que sua "publicidade" exige dela. A vedette que se recusa a se submeter a tais exigências conhecerá quedas brutais ou lentas, mas inelutáveis. A prostituta que só entrega o corpo é talvez menos escrava do que a mulher que tem por profissão agradar. Uma mulher "consagrada", que tem nas mãos um ofício de verdade e cujo talento é reconhecido — atriz, cantora, dançarina — escapa à condição de hetaira; pode conhecer uma verdadeira independência; mas a maioria continua em perigo durante toda a vida; é-lhe necessário sem descanso seduzir novamente o público e os homens.
     Muitas e muitas vezes, a mulher que vive à custa de um amigo interioriza sua dependência; submetida à opinião, reconhece-lhe os valores; admira a sociedade elegante e adota-lhe os costumes; quer ser considerada segundo normas burguesas. Para sita da burguesia rica, adere às ideias dela; "pensa como se deve"; outrora punha amiúde as filhas num convento e, envelhecida, ia ela própria à missa, convertendo-se ruidosamente. Está do lado dos conservadores. É demasiado orgulhosa de ter conquistado um lugar neste mundo, para desejar que ele mude. A luta que trava para "vencer" não a predispõe a sentimentos de fraternidade e de solidariedade humana; pagou seus êxitos com exageradas complacências de escrava para desejar sinceramente a liberdade universal. Zola acentuou esse traço em Nana:

   Em matéria de livros e dramas, Nana tinha opiniões muito preciosas: queria obras ternas e nobres, coisas que a fizessem sonhar e lhe engrandecessem a alma. . . Exaltou-se contra os republicanos. Que queria então, essa gentinha que nunca se lavava? Não se era feliz? O Imperador não fizera tudo pelo povo? Uma bela porcaria, o povo! Conhecia-o, podia falar; não, vejam, seria uma grande desgraça para todo mundo, essa república deles. Ah, que Deus proteja o Imperador o mais tempo possível.

     Durante as guerras, ninguém exibe um patriotismo tão agressivo quanto as grandes prostitutas; pela nobreza dos sentimentos que afetam, esperam erguer-se ao nível das duquesas. Lugares--comuns, clichês, preconceitos, emoções convencionais constituem o fundo de suas conversas públicas e, muitas vezes, ela tem toda sinceridade até no segredo do coração. Entre a mentira e a hipérbole, a linguagem se destrói. Toda a vida da hetaira é uma parada: suas palavras, suas mímicas destinam-se não a exprimir pensamentos e sim a produzir um efeito. Representa com seu protetor a comédia do amor: por momentos representa-a para si mesma. Para a opinião representa comédias de decência e de prestígio: acaba por se acreditar um modelo de virtude e um ídolo sagrado. Uma má-fé obstinada governa-lhe a vida interior e permite a suas mentiras concertadas aparentarem a naturalidade da verdade. Há, por vezes, em sua vida, impulsos espontâneos: não ignora inteiramente o amor, tem "xodós", "caprichos", às vezes chega a ser "fisgada". Mas quem dá muito lugar ao capricho, ao sentimento, ao prazer, depressa perde sua "situação". Geralmente, ela põe em suas fantasias a prudência da esposa adúltera; esconde-se de seu protetor e da opinião; não pode portanto dar muito de si mesma a "seus amantes prediletos"; eles são apenas uma distração, uma trégua. Demais, ela se encontra demasiado obcecada pela preocupação do êxito para se esquecer em um amor de verdade. Quanto às outras mulheres, as hetairas as amam sensualmente, assaz amiudadamente; inimiga dos homens que lhe impõem seu domínio, ela encontrará nos braços de uma amiga um descanso voluptuoso e, ao mesmo tempo, um revide: assim Nana ao lado de Satin. Do mesmo modo por que deseja desempenhar no mundo um papel ativo a fim de empregar positivamente sua liberdade, compraz-se, também, em possuir outros seres: rapazes muito jovens que ela se divertirá até em "ajudar" ou moças muito moças que de bom grado sustentará, junto das quais, em todo caso, será um personagem viril. Seja ou não homossexual, terá com o conjunto das mulheres as re lações complexas de que falei: precisa delas como juízes e testemunhas, como confidentes e cúmplices, para criar esse "contra-universo" que reclama toda mulher oprimida pelo homem. Mas a rivalidade feminina atinge aqui seu paroxismo. A prostituta que faz comércio de sua generalidade tem concorrentes; mas há bastante trabalho para todas e, mesmo através de suas disputas, elas se sentem solidárias. A hetaira que procura "distinguir-se" é a priori hostil a quem almeja, como ela, um lugar privilegiado. É neste caso que os temas conhecidos acerca das "maldades" femininas encontram toda a sua verdade.
     A grande desgraça da hetaira provém de que não somente sua independência é o reverso mentiroso de mil dependências, mas ainda de que mesmo essa liberdade é negativa. Uma atriz como Raquel, uma dançarina como Isadora Duncan, ainda que auxiliadas por homens, têm um ofício que as exige e as justifica; elas alcançam, com um trabalho voluntário, querido, uma liberdade concreta. Mas, para a imensa maioria das mulheres, a arte, o ofício são apenas um meio; não empenham nisso projetos verdadeiros. O cinema, particularmente, que submete a vedette ao encenador, não lhe permite a invenção, os progressos de uma atividade criadora. Exploram o que ela é; ela não cria um objeto novo. E ainda, além disso, é muito difícil tornar-se uma vedette. Na "galanteria" propriamente dita, nenhum caminho se abre à transcendência. Aqui também o tédio acompanha o confinamento da mulher na imanência. Zola mostrou esse traço em Nana.

   Entretanto, em seu luxo, no meio dessa corte, Nana aborrecia-se mortalmente. Tinha homens para todos os minutos da noite e dinheiro até nas gavetas da sala de banho, mas isso não a contentava mais, ela sentia como um vazio algures, um buraco que a fazia bocejar. Sua vida arrastava-se sem ocupação, trazendo de volta as mesmas horas monótonas... Essa certeza de que a alimentariam deixava-a deitada o dia inteiro, sem um esforço, adormecida no fundo desse temor e dessa submissão de convento, como que encerrada em seu ofício de prostituta. Matava o tempo com prazeres tolos, na sua única espera do homem.

     A literatura norte-americana descreveu cem vezes esse tédio que esmaga Hollywood e que desde o dia da chegada sufoca o viajante; os atores e os figurantes aí se aborrecem, de resto, tanto quanto as mulheres cuja condição compartilham. Mesmo na França, as saídas oficiais assumem um caráter de corveia. O protetor que reina sobre a vida da starlet é um homem idoso, que tem por amigos homens de idade: suas preocupações são estranhas à jovem, suas conversas acabrunham-na; há um fosso muito mais profundo ainda do que no casamento burguês entre a estreante de 20 anos e o banqueiro de 45, que passam dias e noites juntos.
     O moloc a quem a hetaira sacrifica prazer, amor, liberdade, é sua carreira. O ideal da matrona é uma felicidade estática que envolve suas relações com o marido e os filhos. A "carreira" desenrola-se através do tempo, mas é contudo um objeto imanente que se resume em um nome. O nome cresce nos cartazes é nas bocas na medida em que, na escala social, degraus cada vez mais altos são vencidos. Segundo seu temperamento, a mulher administra sua empresa com prudência ou com audácia. Uma experimenta nisso as satisfações de dona de casa dobrando uma bela roupa branca no armário, outra a embriaguez da aventura. Ora a mulher se limita a manter, sem cessar, em equilíbrio, uma situação ininterruptamente ameaçada e que por vezes desmorona, ora ela edifica indefinidamente sua fama como uma torre de Babel visando em vão ao céu. Algumas, misturando a galanteria a outras atividades, surgem como verdadeiras aventureiras: são espiãs, como Mata Hari, ou agentes secretas; não têm, em geral, a iniciativa de seus projetos, são antes instrumentos nas mãos dos homens. Mas, em conjunto, a atitude da hetaira tem analogias com a do aventureiro; como este, ela se encontra muitas vezes a meio caminho entre a seriedade e a aventura propriamente dita, ela visa a valores feitos, convencionais: dinheiro, glória; mas dá ao fato de os conquistar tanta importância quanto a própria posse; e, finalmente, o valor supremo a seus olhos é seu êxito subjetivo. Justifica, ela também, esse individualismo por um niilismo mais ou menos sistemático, mas vivido coirí tanto maior convicção quanto é hostil aos homens e vê inimigas nas outras mulheres. Se é bastante inteligente para sentir a necessidade de uma justificação moral, invocará um nietzscheísmo mais ou menos bem assimilado; afirmará o direito do ser de elite sobre o vulgar. Sua pessoa apresenta-se-lhe como um tesouro cuja simples existência é um dom; de modo que, consagrando-se a si mesma, pretenderá servir a coletividade. O destino da mulher devotada ao homem é marcado pelo amor: a que explora o homem assenta no culto que rende a si mesma. Se atribui tanta importância a sua glória, não é somente por interesse econômico: procura nisso a apoteose de seu narcisismo.

continua página 338...
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O Segundo Sexo - 02. Situação: Capítulo IV - Prostitutas e Hetairas (4)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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