Cem Anos de SOLIDÃO
Gabriel Garcia Márquez
(18.1)
para jomí garcía ascot
e maría luisa elío
PILAR TERNERA morreu na cadeira de balanço de
cipó, numa noite de festa, guardando a entrada do seu paraíso. De acordo
com a sua última vontade, enterraram-na sem ataúde, sentada na cadeira de
balanço, que foi descida com cordas por homens num buraco enorme,
cavado no centro da pista de dança. As mulatas vestidas de preto, pálidas de
pranto, improvisavam ofícios de trevas enquanto tiravam os brincos, os
broches e os anéis, e os iam jogando na fossa, antes de que a selassem com
uma lápide sem nome nem datas e lhe colocassem por cima uma montanha
de camélias amazônicas. Depois de envenenar os animais, fecharam portas e
janelas com tijolos e argamassa e se dispersaram pelo mundo com os seus
baús de madeira, atapetados por dentro com figuras de santos, recortes de
revista e retratos de namorados efêmeros, remotos e fantásticos, que
cagavam diamantes ou comiam canibais ou eram coroados como reis de
baralho em alto-mar.
Era o fim. No túmulo de Pilar Ternera, entre salmos e miçangas de
putas, apodreciam os escombros do passado, os poucos que restavam depois
que o sábio catalão liquidou a livraria e voltou à aldeia mediterrânea onde
nascera, derrotado pela saudade de uma primavera teimosa. Ninguém
poderia pressentir a sua decisão. Chegara a Macondo durante o. esplendor
da companhia bananeira, fugindo de uma das tantas guerras, e não lhe
ocorrera nada mais prático do que instalar aquela livraria de incunábulos e
edições originais em vários idiomas, que os clientes casuais folheavam com
receio, como se fossem livros de lixeira, enquanto esperavam a vez para que
interpretassem os seus sonhos na casa em frente. Esteve metade da vida no
abafado fundo da loja, garranchando a sua letra preciosista em tinta violeta
e em folhas que arrancava de cadernos escolares, sem que ninguém soubesse
ao certo o que escrevia. Quando Aureliano o conheceu, tinha dois caixotes
cheios daquelas páginas disparatadas que de algum modo faziam pensar nos
pergaminhos de Melquíades, e dessa época até quando foi embora deve ter
enchido um terceiro, de modo que era razoável pensar que não tinha feito
nada além disso, durante a sua permanência em Macondo. As únicas
pessoas com quem se relacionou foram os quatro amigos, cujos piões e
papagaios trocou por livros e os pôs a ler Sêneca e Ovídio quando ainda
estavam na escola primária. Tratava os clássicos com uma familiaridade
caseira, como se todos tivessem sido em alguma época seus companheiros de
quarto, e sabia muitas coisas que simplesmente não se devia saber, como por
exemplo que Santo Agostinho usava debaixo do hábito um gibão de lã que
não tirou durante quatorze anos, e que Arnaldo de Villanova, o nigromante,
ficou impotente desde menino por causa de uma mordida de escorpião. O
seu fervor pela palavra escrita era uma urdidura de respeito solene e
irreverência folgazã. Nem os seus próprios manuscritos estavam a salvo dessa
dualidade. Tendo aprendido catalão para traduzi-los, Alfonso meteu um
rolo de páginas nos bolsos, que sempre andavam cheios de recortes de jornal
e manuais de profissões estranhas, e certa noite perdeu-os na casa das
garotas que se deitavam com eles por fome. Quando o avô sábio soube, em
vez de fazer o escândalo temido comentou morrendo de rir que aquele era o
destino natural da literatura. Em compensação, não houve poder humano
capaz de persuadi-lo a não levar os três caixotes quando regressou à sua
aldeia natal, e soltou impropérios cartagineses [1] contra os inspetores da
estrada de ferro que tentavam mandá-los como carga, até que conseguiu
ficar com eles no vagão de passageiros. “O mundo terá acabado de se foder”,
disse então, “no dia em que os homens viajarem de primeira classe e a
literatura no vagão de carga.” Isso foi a última coisa que o ouviram dizer.
Tinha passado uma semana negra com os preparativos finais da viagem,
porque à medida que a hora se aproximava o seu humor ia-se decompondo e
mudavam-se as intenções e as coisas que colocava num lugar apareciam
noutro, assediado pelos mesmos duendes que atormentavam Fernanda.
— Collons — maldizia. — Estou cagando para a Lei 27 do sínodo de
Londres.
Germán e Aureliano tomaram conta dele. Ajudaram-no como a um
menino, prenderam nos seus bolsos, com alfinetes de gancho, as passagens e
os documentos de viagem, escreveram uma lista pormenorizada do que ele
devia fazer desde que saísse de Macondo até desembarcar em Barcelona,
mas assim mesmo ele jogou no lixo, sem perceber, um par de calças com a
metade do seu dinheiro. Na véspera da viagem, depois de pregar os caixotes
e meter a roupa na mesma mala com que tinha chegado, franziu as
pálpebras de marisco, apontou com uma espécie de bênção atrevida os
montes de livros com que havia sobrevivido ao exílio e disse aos amigos:
— Deixo para vocês essa merda!
Três meses depois receberam um envelope grande com vinte e nove
cartas e mais de cinquenta retratos, que tinham se acumulado nos ócios do
alto-mar. Embora não pusesse datas, era evidente a ordem em que tinha
escrito as cartas. Nas primeiras, contava com o seu humor habitual as
peripécias da travessia, a vontade que lhe dera de atirar pela amurada o
comissário que não lhe permitira trazer os três caixotes no camarote, a
imbecilidade lúcida de uma senhora que se aterrava com o número 13, não
por superstição mas porque lhe parecia um número que ficara por terminar,
e a aposta que ganhara no primeiro jantar porque reconhecera na água de
bordo o gosto das beterrabas noturnas das fontes de Lérida. Com o correr dos
dias, entretanto, a realidade de bordo interessava-o cada vez menos e até os
acontecimentos mais recentes e triviais lhe pareciam dignos de saudade,
porque à medida que o navio se afastava a memória ia se tornando triste.
Aquele processo de nostalgização progressiva era também evidente nos
retratos. Nos primeiros parecia feliz, com a sua camisa de inválido [2] e o seu
topete nevado, no encapelado outubro do Caribe. Nos últimos, era visto com
um sobretudo escuro e um cachecol de seda, pálido por natureza e
taciturno pela ausência, na coberta de um navio de angústia que começava
a sonambular por oceanos outonais. Germán e Aureliano respondiam as suas
cartas. Escreveu tantas nos primeiros meses que agora se sentiam mais perto
dele do que quando estava em Macondo e quase se aliviavam da raiva de que
tivesse ido embora. No princípio, mandava dizer que tudo continuava igual,
que na casa onde nascera ainda havia o caracol rosado, que os arenques
secos tinham o mesmo sabor sobre a torrada, que as cascatas da aldeia
continuavam se perfumando ao entardecer. Eram outra vez as folhas de
cadernos retomadas com garranchinhos roxos [3] , nas quais dedicava um
parágrafo especial para cada um. Entretanto, e embora ele mesmo não
parecesse perceber, aquelas cartas de recuperação e estímulo se iam
transformando pouco a pouco em pastorais de desengano. Nas noites de
inverno, enquanto fervia a sopa no fogão, desejava o calor dos fundos da loja,
o zumbido do sol nas amendoeiras empoeiradas, o apito do trem na
sonolência da sesta, da mesma forma como desejava em Macondo a sopa de
inverno no fogão, os pregões do vendedor de café e as cotovias fugazes da
primavera. Aturdido por duas saudades colocadas de frente uma para a
outra como dois espelhos, perdeu o seu maravilhoso sentido de irrealidade
até que terminou por recomendar a todos que fossem embora de Macondo,
que esquecessem tudo o que ele ensinara do mundo e do coração humano,
que cagassem para Horácio e que em qualquer lugar em que estivessem se
lembrassem sempre de que o passado era mentira, que a memória não tinha
caminhos de regresso, que toda primavera antiga era irrecuperável e que o
amor mais desatinado e tenaz não passava de uma verdade efêmera.
Álvaro foi o primeiro a seguir o conselho de abandonar Macondo.
Vendeu tudo, até a onça cativa que zombava dos transeuntes no quintal da
sua casa, e comprou uma passagem eterna num trem que nunca acabava de
viajar. Nos cartões postais que mandava das estações intermediárias,
descrevia aos gritos as imagens instantâneas que tinha visto pela janela do
vagão, e era como ir rasgando em tiras e jogando ao esquecimento o longo
poema da fugacidade: os negros quiméricos nos algodoais da Louisiana, os
cavalos alados na grama azul de Kentucky, os amantes gregos no crepúsculo
infernal do Arizona, a moça de suéter vermelho que pintava aquarelas nos
lagos de Michigan e que lhe deu com os pincéis um adeus não era de
despedida mas de esperança, porque ela ignorava que estava vendo passar
um trem sem regresso. Em seguida foram Alfonso e Germán, num sábado,
com a ideia de voltar na segunda-feira, e não se soube mais deles. Um ano
depois da partida do sábio catalão, o único que restava era Gabriel ainda
vivendo à deriva, à mercê da eventual caridade de Nigromanta, e
respondendo aos questionários do concurso de uma revista francesa, cujo
maior prêmio era uma viagem a Paris. Aureliano, que era quem recebia a
assinatura, ajudava-o a encher os formulários, às vezes na sua casa, e quase
entre os potes de louça e o cheiro de valeriana da única farmácia que restava
em Macondo, onde vivia Mercedes, a sigilosa namorada de Gabriel. Era a
última coisa que ia ficando de um passado cujo aniquilamento não se
consumava, que continuava se aniquilando indefinidamente, consumindo-se dentro de si mesmo, se acabando a cada minuto mas sem acabar de se
acabar nunca. O povoado chegara a tais extremos de inatividade que
quando Gabriel ganhou o concurso e para Paris com duas mudas de roupa,
um par de sapatos e as obras completas de Rabelais, teve que fazer sinal ao
maquinista a fim de que o trem se detivesse para apanhá-lo. A antiga Rua
dos Turcos era agora um lugar de abandono, onde os últimos árabes se
deixavam levar para a morte pelo costume milenar de se sentar à porta,
embora fizesse muitos anos tinham vendido a última jarda de diagonal e nas
vitrinas sombrias só restassem os manequins decapitados. A cidade da
companhia bananeira, que talvez Patricia Brown tentasse evocar para os
netos nas noites de intolerância e pepinos no vinagre de Prattville, Alabama,
era uma planície de capim selvagem.
O padre ancião que substituíra o Padre Angel, e cujo nome ninguém
se deu o trabalho de averiguar, esperava a piedade de Deus estendido de
papo para o ar numa rede, atormentado pela artrite e pela insônia da
dúvida, enquanto os lagartos e as ratazanas disputavam a herança do
templo vizinho. Naquele Macondo esquecido até pelos pássaros, onde a
poeira e o calor se fizeram tão tenazes que dava trabalho respirar,
enclausurados pela solidão e pelo amor e pela solidão do amor puma casa
onde era quase impossível dormir por causa do barulho das formigas ruivas,
Aureliano e Amaranta Úrsula eram os únicos seres felizes, e os mais felizes
sobre a terra. Gastón voltara a Bruxelas. Cansado de esperar o avião, um dia
meteu numa maleta as coisas indispensáveis e o arquivo da correspondência,
e foi com o propósito de voltar por antes de que os seus privilégios fossem
cedidos a um grupo de aviadores alemães que tinham apresentado às
autoridades provinciais um projeto mais ambicioso que o seu. Desde a tarde
do primeiro amor, Aureliano e Amaranta Úrsula tinham continuado a
aproveitar os escassos descuidos do esposo , a se amar com ardores
amordaçados em encontros ocasionais, e quase sempre interrompidos por
regressos imprevistos. Mas quando se viram sozinhos na casa sucumbiram no dos amores atrasados. Era uma paixão insensata, alucinada, que fazia
tremerem de pavor na cova os ossos de Fernanda e os mantinha num estado
de excitação perpétua. Os gemidos de Amaranta Úrsula, as suas canções
agônicas, estavam do mesmo jeito às duas da tarde na mesa da sala de estar
e às duas da madrugada na despensa. “O que mais me aborrece”, ria, “é o
tempo enorme que perdemos.” No aturdimento da paixão, viu as formigas
devastando o jardim, saciando a sua fome pré-histórica nas madeiras da
casa, e viu a torrente de lava viva se apoderando outra vez da varanda, só se
preocupou em combatê-la quando a encontrou no quarto. Aureliano
abandonou os pergaminhos, não tornou a sair de casa, e respondia de
qualquer maneira às cartas sábio catalão. Perderam o sentido da realidade, a
noção tempo, o ritmo dos hábitos cotidianos. Tornaram a fechar portas e
janelas para não demorarem nos trâmites de desnudamento, e andavam
pela casa como Remedios, a bela, sempre quis estar, e se espojavam em pelo
nos barreiros do quintal, e uma tarde por pouco não se afogaram quando se
amavam na caixa-d’água. Em pouco tempo fizeram mais que as formigas
ruivas: quebraram os móveis da sala, rasgaram com as suas loucuras a rede
que resistira aos tristes amores de acampamento do Coronel Aureliano
Buendía e abriram os colchões e os esvaziaram no chão, para se sufocar em
tempestades de algodão. Embora Aureliano fosse um amante tão feroz como
o seu rival, era Amaranta Úrsula quem comandava com o seu engenho
disparatado e a sua voracidade lírica aquele paraíso de desastres, como se
tivesse concentrado no amor a indomável energia que a tataravó consagrara
à fabricação de animaizinhos de caramelo. Além disso, enquanto ela cantava
de alegria e morria de rir das suas próprias invenções, Aureliano ia se
tornando mais absorto e calado, porque a sua paixão era ensimesmada e
calcinante. Entretanto, ambos chegaram a tais extremos de virtuosismo que
quando se esgotavam na exaltação tiravam melhor partido do cansaço.
Entregaram-se à idolatria dos corpos, ao descobrir que os tédios do amor
tinham possibilidades inexploradas, muito mais ricas que as do desejo.
Enquanto ele amaciava com claras de ovo os seios eréteis de Amaranta
Úrsula, ou suavizava com gordura de coco as suas coxas elásticas e o seu
ventre de pêssego, ela brincava de boneca com a portentosa criatura de
Aureliano e pintava-lhe olhos de palhaço com batom e bigodes de turco com
lápis de sobrancelhas e armava-lhe laços de organza e chapeuzinhos de
papel prateado. Uma noite se lambuzaram dos pés à cabeça com pêssegos
em calda, lamberam-se como cães e se amaram como loucos no chão da
varanda, e foram acordados por uma torrente de formigas carnívoras que se
dispunham a devorá-los vivos.
Nas pausas do delírio, Amaranta Úrsula respondia às cartas de
Gastón. Sentia-o tão distante e ocupado que o seu regresso lhe parecia
impossível. Numa das primeiras cartas, ele contou que na realidade os sócios
tinham mandado o aeroplano, mas que uma agência marítima de Bruxelas o
embarcara por equívoco com destino a Tanganica, onde o entregaram à
dispersa comunidade dos Macondos. Aquela confusão ocasionou tantos
contratempos que só a recuperação do aparelho podia demorar dois anos.
Assim, Amaranta Úrsula descartou à possibilidade de um regresso
inoportuno. Aureliano, por outro lado, não tinha outro contato com o
mundo senão as cartas do sábio catalão e as notícias de Gabriel que recebia
através de Mercedes, a farmacêutica silenciosa. No princípio eram contatos
reais. Gabriel pedira o reembolso da passagem de volta para ficar em Paris,
vendendo os jornais velhos e as garrafas vazias que as camareiras tiravam de
um hotel lúgubre da Rua Dauphine. Aureliano podia imaginá-lo então com
um suéter de gola alta que só tirava quando os terraços de Montparnasse se
enchiam de namorados primaveris, e dormindo de dia e escrevendo de noite
para enganar a fome, no quarto cheirando a espuma de couve-flor fervida
onde haveria de morrer Rocamadour. Entretanto, as notícias se foram
fazendo pouco a pouco tão incertas, e tão esporádicas e melancólicas as
cartas do sábio, que Aureliano se acostumou a pensar neles pomo Amaranta
Úrsula pensava no marido, e ambos ficaram boiando num universo vazio,
onde a única realidade cotidiana e eterna era o amor. De repente, como um
estampido naquele mundo de inconsciência feliz, chegou a notícia da volta
de Gastón. Aureliano e Amaranta Úrsula abriram os olhos, sondaram as
almas, se olharam na cara com a mão no coração e compreenderam que
estavam tão identificados que preferiam a morte à separação. Então, ela
escreveu ao marido uma carta de verdades contraditórias, na qual reiterava
o seu amor e as suas ânsias de tornar a vê-lo, ao mesmo tempo que admitia
como desígnio fatal a impossibilidade de viver sem Aureliano. Ao contrário do
que ambos esperavam, Gastón mandou uma resposta tranquila, quase
paternal, com duas folhas inteiras consagradas a preveni-los contra as
veleidades da paixão e um ágrafo final com votos inequívocos de que fossem
tão felizes como ele o tinha sido na sua breve experiência conjugal. Era uma
atitude tão imprevista que Amaranta Úrsula se sentiu humilhada diante da
ideia de ter proporcionado ao marido pretexto que ele desejava para
abandoná-la à sua sorte.
continua página 248...
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Cem Anos de Solidão (18.1) - Pilar Ternera morreu na cadeira de balanço de cipó
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[1] Explicação do autor à tradutora: “É uma arbitrariedade minha: suponho
que a língua catalã é a mesma que se usava em Cartago, língua fenícia de
mercadores malcriados. A tradução deve ser literal.”
[2] Explicação do autor à tradutora: “Vi a foto e juro que a camisa parecia de inválido, mas não sei por que: era branca, de colarinho muito grande e talvez de um número maior que o seu. É como os pijamas que vestem nas pessoas nos hospitais, como os camisolões dos bobos, enfim, como você quiser.”
[2] Explicação do autor à tradutora: “Vi a foto e juro que a camisa parecia de inválido, mas não sei por que: era branca, de colarinho muito grande e talvez de um número maior que o seu. É como os pijamas que vestem nas pessoas nos hospitais, como os camisolões dos bobos, enfim, como você quiser.”
[3] Ao empregar garrapatitas moradas, Gabriel García Márquez faz um
jogo verbal: garrapatas é carrapato, enquanto que garrapato é garrancho.
É interessante notar que para este mesmo significado existe a palavra
escarabajo, que quer dizer também escaravelho. Páginas atrás, o autor se
referia ao alfabeto sânscrito como “aranhinhas” e “carrapatos”. A importância
contrapontística existencial dos insetos no romance é facilmente verificável.
Basta lembrar as borboletas amarelas de Mauricio Babilonia, os escorpiões que
rondavam o banho de Meme e de Rebeca, a entomologia de Gastón, as
formigas ruivas decisivas neste capítulo final, as sanguessugas que quase
matam Úrsula (v. a sua relação com os carrapatos), a mordida de escorpião
que deixa Arnaldo de Vilanova impotente etc... Por outro lado, a importância
existencial dos manuscritos no romance é decisiva — fundamentalmente os
pergaminhos de Melquiades — e os escritos do sábio catalão, assim como a
sua própria figura, funcionalmente não passam de variações dos primeiros.
De modo que as garrapatitas moradas de Gabriel García Márquez
assumem um significado ético na cosmovisão do romance, que ultrapassa de
longe a mera metáfora sensorial da semelhança de forma expressa pelo
equívoco verbal. É a não gratuidade de estilo da expressão, intraduzível, que
nos obriga a esta nota. (N.T.)
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