Cem Anos de SOLIDÃO
Gabriel Garcia Márquez
(17.2)
para jomí garcía ascot
e maría luisa elío
Fizeram-se amantes. Aureliano ocupava a manhã em decifrar
pergaminhos e, na hora da sesta, ia para o quarto soporífero onde
Nigromanta o esperava para lhe ensinar a fazer primeiro como as minhocas,
em seguida como os caracóis e por último como os caranguejos, até que
tivesse que abandoná-lo para tocaiar amores extraviados. Várias semanas se
passaram antes de Aureliano descobrir que ela tinha em volta da cintura um
cintinho que parecia feito com uma corda de violoncelo, mas que era duro
como o aço e carecia de arremate, porque tinha nascido e crescido com ela.
Quase sempre, entre amor e amor, comiam nus na cama, no calor alucinante
e sob as estrelas diurnas que a ferrugem ia fazendo apontar no teto de zinco.
Era a primeira vez que Nigromanta tinha um homem fixo, um machucante
de planta [1] , como ela mesma dizia morrendo de rir, e começava até
mesmo a ter ilusões de coração quando Aureliano lhe confiou a sua paixão
reprimida por Amaranta Úrsula, que não tinha conseguido remediar com a
substituição, mas pelo contrário, ela ia torcendo cada vez mais as suas
entranhas, à medida que a experiência alargava o horizonte do amor. Então,
Nigromanta continuou a recebê-lo com o mesmo calor de sempre, mas fez
com que lhe pagasse os serviços com tanto rigor que, quando Aureliano não
tinha dinheiro, punha na conta que não era feita com números, mas com
riscos que ia traçando com a unha do polegar atrás da porta. Ao anoitecer,
enquanto ela vagava pelas sombras da praça, Aureliano passava pela varanda
como um estranho, mal cumprimentando Amaranta Úrsula e Gastón, que
normalmente jantavam a essa hora, e tornava a se fechar no quarto, sem
poder ler nem escrever, nem sequer pensar, por causa da ansiedade que lhe
provocavam as risadas, os cochichos, as brincadeiras preliminares e, em
seguida, as explosões de felicidade agônica que enchiam as noites da casa.
Essa era a sua vida dois anos antes que Gastón começasse a esperar o
aeroplano e continuava sendo igual na tarde em que foi à livraria do sábio
catalão e se encontrou com quatro rapazes desbocados, encarniçados numa
discussão sobre os métodos de matar baratas na Idade Média. O velho
livreiro, conhecendo a estima de Aureliano por livros que só Beda, o
Venerável, tinha lido, insistiu com uma certa malignidade paternal para que
ele fosse o árbitro da controvérsia e este nem sequer tomou fôlego para
explicar que as baratas, o inseto voador mais antigo sobre a terra, já era a
vítima favorita das chineladas do Antigo Testamento, mas que como espécie
era definitivamente refratária a qualquer método de extermínio, desde as
rodelas de tomate com bórax até a farinha com açúcar, pois as suas mil
seiscentas e três variedades tinham resistido à mais remota, tenaz e
desapiedada perseguição que o homem jamais empreendera, desde as suas
origens, contra qualquer ser vivente, inclusive o próprio homem, ao extremo
de que assim como se atribuía ao gênero humano um instinto de
reprodução, devia-se atribuir a ele também outro, mais definido e premente,
que era o instinto de matar baratas, e que se estas tinham conseguido
escapar à ferocidade humana era porque tinham se refugiado nas trevas,
onde se fizeram invulneráveis pelo medo congênito do homem à escuridão,
mas em compensação tornaram-se susceptíveis ao brilho do meio-dia, de
modo que na Idade Média, na atualidade e pelos séculos dos séculos, o único
método eficaz para matar baratas era o deslumbramento solar.
Aquele fatalismo enciclopédico foi o princípio de uma grande
amizade. Aureliano continuou se reunindo todas as tardes com os quatro
debatedores, que se chamavam Álvaro, Germán, Alfonso e Gabriel, os
primeiros e últimos amigos que teve na vida. Para um homem como ele,
encastelado na realidade escrita, aquelas sessões atormentadas, que
começavam a livraria às seis da tarde e terminavam nos bordéis ao
amanhecer, foram uma revelação. Até então, não lhe ocorrera pensar que a
literatura fosse o melhor brinquedo que se inventara para zombar das
pessoas, como demonstrou Álvaro numa noite de farra. Algum tempo
haveria de passar antes que Aureliano se desse conta de que tanta
arbitrariedade tinha origem no exemplo do sábio catalão, para quem a
sabedoria não valia a pena se não fosse possível se servir dela para inventar
uma nova maneira de preparar o feijão.
Na tarde em que Aureliano pontificou sobre as baratas, a discussão
terminou na casa de umas garotas que se deitavam por fome, um bordel de
mentira nos arrabaldes de Macondo. A proprietária era uma alcoviteira
sorridente, atormentada pela mania de abrir e fechar portas. O seu eterno
sorriso parecia provocado pela credulidade dos clientes, que admitiam como
coisa certa um estabelecimento que não existia a não ser na imaginação,
porque ali até as coisas palpáveis eram irreais: os móveis que se desarmavam
ao sentar, a vitrola destripada em cujo interior havia uma galinha chocando,
o jardim de flores de papel, os almanaques de anos anteriores à chegada da
companhia bananeira, os quadros com litografias recortadas de revistas que
nunca tinham sido editadas. Até as putinhas tímidas que vinham das
vizinhanças quando a proprietária lhes avisava que haviam chegado clientes
eram pura invenção. Apareciam sem cumprimentar, com os vestidinhos
floridos de quando tinham cinco anos a menos, e os tiravam com a mesma
inocência com que os tinham vestido, e no paroxismo do amor exclamavam
assombradas que horror, olha como este teto está caindo, e imediatamente
depois de ter recebido o seu peso e cinquenta centavos gastavam-no num
pão com um pedaço de queijo que a proprietária vendia, mais risonha do
que nunca, porque só ela sabia que nem essa comida era de verdade.
Aureliano, cujo mundo atual começava nos pergaminhos de Melquíades e
terminava na cama de Nigromanta, encontrou no bordelzinho imaginário
uma cura de burro para a timidez. No começo não conseguia chegar a parte
alguma, nos quartos onde a dona entrava nos melhores momentos do amor e
fazia toda espécie de comentários sobre os encantos íntimos dos
protagonistas. Mas com o tempo chegou a se familiarizar tanto com aqueles
contratempos do mundo que certa noite mais aloucada que as outras se
despiu na saleta de entrada e percorreu a casa equilibrando uma garrafa de
cerveja sobre a sua masculinidade inconcebível. Foi ele quem pôs em moda
as extravagâncias que a proprietária festejava com o seu sorriso eterno, sem
protestar, sem acreditar nelas, nem mesmo quando Germán tentou
incendiar a casa para demonstrar que ela não existia e mesmo quando
Alfonso torceu o pescoço do papagaio e jogou-o na panela onde começava a
ferver o cozido de galinha.
Embora Aureliano se sentisse ligado aos quatro amigos por uma
mesma amizade e uma mesma solidariedade, a ponto de pensar neles como
se fossem um só, estava mais próximo de Gabriel do que dos outros. O
vínculo nasceu na noite que ele falou casualmente do Coronel Aureliano
Buendía e Gabriel foi o único que não acreditou que ele estivesse zombando
de ninguém. Até a dona, que não costumava intervir conversas, discutiu
com uma raivosa paixão de verdureira que o Coronel Aureliano Buendía, de
quem realmente ouviu falar algumas vezes, era um personagem inventado
pelo governo como pretexto para matar os liberais. Gabriel, pelo contrário,
não punha em dúvida a realidade do Coronel Aureliano Buendía, porque
tinha sido companheiro de armas e amigo inseparável do seu bisavô, o
Coronel Gerineldo Márquez. Aquelas veleidades da memória eram ainda
mais críticas quando se falava da matança dos trabalhadores. Cada vez
Aureliano tocava neste ponto, não só a proprietária, mas também algumas
pessoas mais velhas do que ela, repudiavam a patranha dos trabalhadores
encurralados na estação e do trem de duzentos vagões carregados de
mortos, e inclusive se obstinavam em afirmar o que afinal de contas tinha
ficado estabelecido nos expedientes judiciais e nos textos da escola primária:
que a companhia bananeira nunca existira. De modo que Aureliano e Gabriel
estavam ligados por uma espécie de cumplicidade, baseada em fatos reais
em que ninguém acreditava e que tinham afetado as suas vidas a ponto de
ambos encontrarem à deriva, na ressaca de um mundo acabado que só
restava a saudade. Gabriel dormia onde o surpreendesse a hora. Aureliano o
acomodou várias vezes na oficina de ourivesaria, mas ele passava as noites
em vigília, perturbado pelo tráfego dos mortos que andavam pelos quartos
até amanhecer. Mais tarde recomendou-o a Nigromanta, que levava para o
seu quartinho multitudinário quando estava livre e anotava-lhe as contas
com risquinhos porta, nos poucos espaços disponíveis que as dívidas de
Aureliano tinham deixado.
Apesar da sua vida desorganizada, o grupo inteiro tentava fazer
alguma coisa de perdurável, por insistência do catalão. Fora ele, com a sua
experiência de antigo professo de letras clássicas e o seu depósito de livros
raros, quem os tinha posto em condições de passar uma noite inteira
procurando a trigésima sétima situação dramática, num povoado onde
ninguém mais tinha interesse nem possibilidades de. além da escola
primária. Fascinado pela descoberta da amizade, aturdido pelos feitiços de
um mundo que lhe fora vedado pela mesquinharia de Fernanda, Aureliano
abandonou o escrutínio dos pergaminhos precisamente quando começavam
a se revelar para ele como predições em versos cifrados. Mas a comprovação
posterior de que o tempo chegava para tudo, sem que fosse necessário
renunciar aos bordéis, deu-lhe ânimo para voltar ao quarto de Melquíades,
decidido a não fraquejar no seu empenho até descobrir as últimas chaves.
Isso foi pelos dias em que Gastón começava a esperar o aeroplano, e
Amaranta Úrsula se encontrava tão sozinha que certa manhã apareceu no
quarto.
— Olá, antropófago — disse a ele. — Outra vez caverna.
Estava irresistível, com o seu vestido inventado e um longos colares de
vértebras de savelhas que ela mesma fabricava. Tinha desistido do cordão de
seda, convencida da fidelidade do marido, e pela primeira vez desde o
regresso parecia dispor de um momento de lazer. Aureliano não precisaria vê-la para saber que tinha chegado. Ela se debruçou na mesa de trabalho, tão
próxima e indefesa que Aureliano escutou o profundo rumor dos seus ossos,
e se interessou pelos pergaminhos. Tentando vencer a perturbação, ele
segurou a voz que lhe. fugia, a vida que se esvaía, a memória que se
transformava num pólipo petrificado, e falou do destino levítico do
sânscrito, possibilidade científica de se ver o futuro feito transparente no
tempo, como se vê contra a luz o escrito no verso de papel, da necessidade
de cifrar as predições para que não se derrotassem a si mesmas, e das
Centúrias de Nostradamus e da destruição da Cantábria anunciada por S.
Millán. De repente, sem interromper a conversa, movido por um impulso
que dormia nele desde as suas origens, Aureliano colocou sua mão sobre a
dela, pensando que aquela decisão final punha ao desmoronamento.
Entretanto, ela lhe agarrou o indicador com a inocência carinhosa com que o
fizera muitas vezes na infância e o manteve agarrado enquanto ele
continuava respondendo às suas perguntas. Permaneceram assim, ligados
por um indicador de gelo que não transmitia nada em nenhum sentido, até
que ela acordou do seu sonho momentâneo e deu um tapa na testa. “As
formigas!”, exclamou. E então se esqueceu dos manuscritos, chegou até a
porta com um passo de dança e de lá mandou a Aureliano com a ponta dos
o mesmo beijo com que se despedira de seu pai na tarde que a mandaram
para Bruxelas.
— Depois você me explica — disse. — Eu tinha esquecido que hoje é
dia de jogar cal nos formigueiros.
Continuou indo ao quarto ocasionalmente, quando tinha alguma
coisa que fazer por aqueles lados, e permanecia ali uns breves minutos,
enquanto o marido continuava perscrutando o céu. Iludido com aquela
mudança, Aureliano então ficava para comer em família, como não o fazia
desde os primeiros meses do regresso de Amaranta Úrsula. Gastón gostou.
Nas conversas de sobremesa, que costumavam se prolongar por mais de uma
hora, queixava-se de que os seus sócios o estavam enganando. Haviam-lhe
anunciado o embarque do aeroplano num navio que não chegava e, embora
os seus agentes marítimos insistissem no fato de que ele não chegaria nunca
.porque não figurava nas listas de navios do Caribe, os sócios teimavam em
dizer que o despacho estava correto e até insinuavam a possibilidade de que
Gastón mentisse nas cartas. A correspondência atingiu tal grau de
desconfiança mútua que Gastón optou por não escrever mais e começou a
sugerir a possibilidade de uma viagem rápida a Bruxelas, para esclarecer
coisas e regressar com o aeroplano. Entretanto, o projeto se desvaneceu tão
rapidamente quanto Amaranta Úrsula reiterou a sua decisão de não se
mexer de Macondo ainda que ficasse sem marido. Nos primeiros tempos,
Aureliano partilhou da ideia generalizada de que Gastón era um bobo de
bicicleta e isso lhe provocou um vago sentimento de piedade. Mais tarde,
quando obteve nos bordéis uma informação mais profunda sobre a natureza
dos homens, pensou que a mansidão de Gastón tinha origem na paixão
desatinada. Mas quando o conheceu melhor e se deu conta de que o seu
verdadeiro temperamento entrava em contradição com a sua conduta
submissa, imaginou a maliciosa suspeita de que até a espera do aeroplano era
uma farsa. Então, pensou que Gastón não era tão bobo quanto parecia, mas
pelo contrário, era um homem de uma firmeza, uma habilidade e uma
paciência infinitas, que se propusera a vencer a esposa pelo cansaço da
eterna complacência, do nunca lhe dizer não, do simular um assentimento
sem limites, deixando-a se enredar em sua própria teia de aranha, até o dia
em que não pudesse mais suportar o tédio das ilusões ao alcance da mão e
ela mesma fizesse as malas para voltar à Europa. A antiga piedade de
Aureliano se transformou numa aversão violenta. Pareceu-lhe tão perverso o
sistema de Gastón, mas ao mesmo tempo tão eficaz, que se atreveu a
prevenir Amaranta Úrsula. Entretanto, ela zombou da sua desconfiança,
sem vislumbrar sequer a desagregadora carga de amor, de incerteza e de
ciúmes que trazia dentro de si. Não lhe ocorrera pensar que provocara em
Aureliano alguma coisa a mais que um afeto fraternal até que cortou o dedo
tentando abrir uma lata de pêssegos em calda e ele se precipitou para
chupar-lhe o sangue com uma avidez e uma devoção que lhe eriçaram a
pele.
— Aureliano! — ela riu, inquieta. — Você é malicioso demais para ser
um bom vampiro.
Então Aureliano transbordou. Dando beijinhos desamparados no
côncavo da mão ferida, abriu os atalhos mais escondidos do coração e tirou
uma tripa interminável e macerada, o terrível animal parasitário que
incubara no martírio. Contou-lhe como se levantava à meia-noite para
chorar de abandono e de raiva na roupa íntima que ela deixava secando no
banheiro. Contou-lhe com quanta ansiedade pedia a Nigromanta que
gemesse como uma gata e soluçasse no seu ouvido gastón gastón gastón, e
com quanta astúcia roubava os seus vidros de perfume para encontrá-los no
pescoço das garotas que se deitavam com ele por causa da fome. Espantada
com a paixão daquele desabafo, Amaranta Úrsula foi fechando dedos,
contraindo-os como um molusco, até que a sua mão ferida, liberta de toda a
dor e de todo vestígio de misericórdia, converteu-se num nó de esmeraldas e
topázios e ossos pétreos e insensíveis.
— Depravado! — disse, como se estivesse cuspindo. — ou para a
Bélgica no primeiro navio que sair.
Álvaro chegara numa dessas tardes à livraria do sábio catalão,
apregoando em altas vozes a sua última descoberta: um bordel zoológico.
Chamava-se O Menino de Ouro e era um imenso salão ao ar livre, por onde
passeavam à vontade não menos do que duzentos socós que davam as horas
com um cacarejo ensurdecedor. Nos currais de arame farpado que
rodeavam a pista de dança e entre grandes camélias amazônicas havia
garças coloridas, jacarés cevados como porcos, serpentes de doze chocalhos e
uma tartaruga de casco dourado que mergulhava num minúsculo oceano
artificial. Havia um cachorrão branco, manso e pederasta, que no entanto
prestava serviços de reprodutor para que lhe dessem de comer. O ar tinha
uma densidade ingênua, como se o tivessem acabado de ventar, e as belas
mulatas, que esperavam sem esperança entre pétalas sangrentas e discos
fora de moda, conheciam ofícios de amor que o homem deixara esquecidos
no paraíso terreno. Na primeira noite em que o grupo visitou aquela estufa
de ilusões, a esplêndida e taciturna anciã que vigiava a entrada numa
cadeira de balanço de cipó sentiu que o tempo regressava às suas fontes
primárias, quando entre os cinco que chegavam descobriu um homem ósseo,
citrino, de pômulos tártaros, marcado para sempre e desde o princípio do
mundo pela varíola da solidão.
— Ai — suspirou — Aureliano!
Estava vendo outra vez o Coronel Aureliano Buendía, como o vira à
luz de um lampião muito antes das guerras, muito antes da desolação da
glória e do exílio do desencanto, na remota madrugada em que ele fora ao
seu quarto para comunicar a primeira ordem da sua vida: a ordem de que
lhe dessem sem amor. Era Pilar Ternera. Anos antes, quando completou os
cento e quarenta e cinco, renunciou ao pernicioso costume de fazer as
contas da sua idade e continuava vi vendo no tempo estático e marginal das
lembranças, num futuro perfeitamente revelado e estabelecido, além dos
futuros perturbados pelas tocaias e pelas suposições insidiosas das cartas. A
partir daquela noite, Aureliano se refugiou na ternura e na compreensão
compassiva da tataravó ignorada. Sentada na cadeira de balanço de cipó, ela
evocava o passado, reconstruía a grandeza e o infortúnio da família e o
arrasado esplendor de Macondo, enquanto Álvaro assustava os jacarés com
as suas gargalhadas de estardalhaço e Alfonso inventava a história
truculenta dos socós que arrancaram a bicadas os olhos de quatro clientes
que tinham se portado mal na semana anterior, e Gabriel estava no quarto
da mulata pensativa que não cobrava o amor com dinheiro, mas com cartas
para um namorado contrabandista que estava preso do outro lado do
Orenoco, porque os guardas da fronteira lhe tinham dado um purgante e o
tinham sentado em seguida num penico que ficou cheio de merda com
diamantes. Aquele bordel de verdade, aquela dona maternal, era o mundo
com que Aureliano sonhara no seu prolongado cativeiro. Sentia-se tão bem,
tão próximo da companhia perfeita, que não pensou em outro refugio na
tarde em que Amaranta Úrsula esfarinhou-lhe as ilusões. Foi disposto a
desabafar com palavras, a que alguém que lhe desembaraçasse os nós que lhe
oprimiam o peito mas só conseguiu se soltar num pranto fluido e cálido e
reparador, no colo de Pilar Ternera. Ela o deixou terminar, acariciando-lhe a
cabeça com a ponta dos dedos, e sem que ele lhe tivesse revelado que estava
chorando de amor, ela reconheceu imediatamente o pranto mais antigo da
história do homem.
— Bem, meu filho — consolou-o — agora me diga quem é você.
Quando Aureliano disse, Pilar Ternera emitiu um riso fundo, o velho
riso expansivo que terminara por parecer um arrulho de pombo. Não havia
nenhum mistério no coração de um Buendía que fosse impenetrável para
ela, porque um século de cartas e de experiência lhe ensinara que a história
família era uma engrenagem de repetições irreparáveis, uma giratória que
continuaria dando voltas até a eternidade se não fosse pelo desgaste
progressivo e irremediável do eixo.
— Não se preocupe — sorriu. — Em qualquer lugar que esteja agora,
está esperando você.
Eram quatro e meia da tarde quando Amaranta Úrsula saiu do banho.
Aureliano a viu passar diante do seu quarto com um robe de pregas
delicadas e uma toalha enrolada na cabeça como um turbante. Seguiu-a
quase na ponta dos pés, cambaleando da bebedeira, e entrou no quarto
nupcial no momento em que ela abria o robe e tornava a fechar espantada.
Fez um gesto silencioso para o quarto contíguo, cuja porta estava
entreaberta, e onde Aureliano sabia que Gastón começava a escrever uma
carta.
— Vá embora — disse sem voz.
Aureliano sorriu, levantou-a pela cintura com as duas mãos como um
vaso de begônias, e jogou-a de frente na cama. Com um puxão brutal,
despojou-a do roupão de banho antes de que ela tivesse tempo de impedi-lo
e se aproximou do abismo de uma nudez recém-lavada que não tinha um
matiz de pele, uma região de pelos, um sinal escondido que ele tivesse
imaginado nas trevas de outros quartos. Amaranta Úrsula se defendia
sinceramente, com astúcias de fêmea sábia esquivando o escorregadio e
flexível e cheiroso corpo de doninha, enquanto tentava destroncar-lhe os
rins com os joelhos e picava-lhe a cara com as unhas, mas sem que ele ou ela
emitissem um suspiro que não se pudesse confundir com a respiração de
alguém que contemplasse o econômico crepúsculo de abril pela janela
aberta. Era uma luta feroz, uma batalha de morte, que entretanto parecia
desprovida de qualquer violência, porque estava feita de agressões
contorcidas e evasivas espectrais, lentas, cautelosas, solenes, de modo que
entre uma e outra havia tempo para que voltassem a florescer as petúnias e
Gastón se esquecesse dos seus sonhos de aeronauta no quarto vizinho, como
se fossem dois amantes inimigos tentando se reconciliar no fundo de um
lago diáfano. No fragor do encarniçado e cerimonioso forcejar, Amaranta
Úrsula compreendeu que a meticulosidade do seu silêncio era tão irracional
que poderia despertar as suspeitas do marido contíguo, muito mais do que os
estrépitos de guerra que tentavam evitar. Então começou a rir com os lábios
fechados, sem renunciar à luta, mas se defendendo com mordidas falsas e
desesquivando o corpo pouco a pouco, até que ambos tiveram consciência
de ser ao mesmo tempo adversários e cúmplices, e a briga degenerou numa
excitação convencional e as agressões se tornaram carícias. De repente,
quase brincando, como uma travessura a mais, Amaranta Úrsula descuidou
da defesa e, quando tentou reagir, assustada do que ela mesma tinha feito
possível, já era tarde demais. Uma comoção descomunal imobilizou-a no seu
centro de gravidade, plantou-a no lugar, e a sua vontade defensiva foi
demolida pela ansiedade irresistível de descobrir o que eram os apitos
alaranjados e os balões invisíveis que a esperavam do outro lado da morte.
Mal teve tempo de esticar a mão e procurar às cegas a toalha e meter uma
mordaça entre os dentes, para que não saíssem os gemidos de gata que já
estavam rasgando as suas entranhas.
continua página 243...
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Cem Anos de Solidão (17.2) - Fizeram-se amantes
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[1] Explicação do autor á tradutora: “O machucante, neste caso, é o
homem que sabe proporcionar prazer a uma mulher na cama. De planta,
neste caso, quer dizer e é permanente e para uso exclusivo de Nigromanta.
O importante é usar em português uma expressão cujo som indique sem
qualquer dúvida que Nigromanta gosta de se deitar com Aureliano devido ao
seu sexo enorme.”
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