Cem Anos de SOLIDÃO
Gabriel Garcia Márquez
(18.2)
para jomí garcía ascot
e maría luisa elío
O rancor agravou-se seis meses depois, quando Gastón tornou a
escrever de Leopoldville, onde por fim recebera o aeroplano só para pedir
que lhe mandassem o biciclo que, de tudo o que havia deixado em Macondo,
era a única coisa que tinha para ele um valor sentimental. Aureliano
suportou com paciência o despeito de Amaranta Úrsula, esforçou-se em
demonstrar-lhe que podia ser tão bom marido na bonança como na
adversidade, e as urgências cotidianas que os assediavam quando acabou o
último dinheiro de Gastón criaram entre eles um vínculo de solidariedade
que não era tão deslumbrante e caprichoso como a paixão, mas que serviu
para que eles se amassem tanto e fossem tão felizes como nos tempos
alvoroçados da libertinagem. Quando Pilar Ternera morreu estavam
esperando um filho.
Na sonolência da gravidez, Amaranta Úrsula tentou fazer uma
indústria de colares de vértebras de peixe. Mas, exceção feita a Mercedes,
que lhe comprou uma dúzia, não encontrou a quem vendê-los. Aureliano
tomou consciência pela primeira vez de que o seu dom para línguas, a sua
sabedoria enciclopédica, a sua estranha faculdade de se lembrar dos
pormenores de fatos e lugares remotos e desconhecidos eram tão inúteis
como o cofre de pedraria legítima de sua mulher, que na época devia valer
tanto quanto todo o dinheiro de que poderiam dispor, juntos, os últimos
habitantes de Macondo. Sobreviviam por milagre. Embora Amaranta Úrsula
não perdesse o bom humor, nem o engenho para as travessuras eróticas,
adquiriu o costume de se sentar na varanda depois do almoço, numa espécie
de sesta insone e pensativa. Aureliano a acompanhava. As vezes
permaneciam em silêncio até o anoitecer, um defronte do outro, olhando-se
nos olhos, amando-se no sossego com tanto amor como antes se amaram no
escândalo. A incerteza do futuro fez com que o coração voltasse ao passado.
Viram-se a si mesmos no paraíso perdido do dilúvio, patinhando nos charcos
do quintal, matando lagartixas para pendurá-las em Úrsula, brincando de
enterrá-la viva, e aquelas evocações lhes revelaram a verdade de que tinham
sido felizes juntos desde que tinham memória. Aprofundando o passado,
Amaranta Úrsula recordou a tarde em que entrou na oficina de ourivesaria e
a mãe lhe contou que o pequeno Aureliano não era filho de ninguém porque
tinha sido encontrado boiando numa cestinha. Embora a versão lhes
parecesse inverossímil, careciam de informações para substituí-la pela
verdadeira. A única coisa de que estavam certos, depois de examinar todas
as possibilidades, era de que Fernanda não tinha sido a mãe de Aureliano.
Amaranta Úrsula inclinou-se a pensar que era filho de Petra Cotes, de quem
só se lembrava de histórias de infâmia, e aquela suposição lhe produziu na
alma uma torção de horror.
Atormentado pela certeza de que era irmão da sua mulher, Aureliano
deu uma fugida até a casa paroquial para procurar nos arquivos sebentos e
furados de traças alguma pista certa da sua filiação. A certidão de batismo
mais antiga que encontrou foi a de Amaranta Buendía, batizada na
adolescência pelo Padre Nicanor Reyna, na época em que este andava
tratando de provar a existência de Deus pela prova do chocolate. Chegou a
iludir-se com a possibilidade de ser um dos dezessete Aurelianos, cujas
certidões de nascimento perseguiu através de cinco tomos, mas as datas de
batismo eram remotas demais para a sua idade. Vendo-o perdido em
labirintos de sangue, trêmulo de incerteza, o padre artrítico que o observava
da rede perguntou-lhe compassivamente qual era o seu nome.
— Aureliano Buendía — disse ele.
— Então não se mate de procurar — exclamou o pároco com uma
convicção decisiva. — Há muitos anos houve por aqui uma rua que se
chamava assim e por essa época o povo tinha o hábito de pôr nos filhos os
nomes das ruas. Aureliano tremeu de raiva.
— Ah! — disse — então o senhor também não acredita.
— Em quê?
— Que o Coronel Aureliano Buendía fez trinta e duas guerras civis e
perdeu todas — respondeu Aureliano.
— Que o exército encurralou e
metralhou três mil trabalhadores e que levou os cadáveres para jogá-los no
mar num trem de duzentos vagões.
O pároco mediu-o com um olhar de pena.
— Ai, filho — suspirou. — Para mim bastaria estar certo de que você e
eu existimos neste momento.
De modo que Aureliano e Amaranta Úrsula aceitaram a versão da
cestinha, não porque acreditassem nela, mas porque os punha a salvo dos
seus terrores. A medida que avançava a gravidez iam-se transformando num
ser único, integravam-se cada vez mais na solidão de uma casa a que só
faltava um último sopro para desmoronar. Reduziram-se a um espaço
essencial, que ia do quarto de Fernanda, onde vislumbraram os encantos do
amor sedentário, até o princípio da varanda, onde Amaranta Úrsula se
sentava tricotando sapatinhos e touquinhas de recém-nascido e Aureliano
respondia as cartas ocasionais do sábio catalão. O resto da casa se rendeu ao
assédio tenaz da destruição. A oficina de ourivesaria, o quarto de
Melquíades, os remos primitivos e silenciosos de Santa Sofía de la Piedad
ficaram no fundo de uma selva doméstica que ninguém teria a coragem de
desbastar. Cercados pela voracidade da natureza, Aureliano e Amaranta
Úrsula continuavam cultivando o orégão e as begônias e defendiam o seu
mundo com demarcações de cal, construindo as últimas trincheiras da
guerra imemorial entre o homem e as formigas. O cabelo comprido e
descuidado, as equimoses que lhe amanheciam na cara, a inchação das
pernas, a deformação do antigo e amoroso corpo de doninha tinham
mudado em Amaranta Úrsula a aparência juvenil de quando chegara em
casa com o viveiro de canários desafortunados e o esposo cativo, mas não lhe
alteraram a vivacidade de espírito.
“Merda”, costumava rir, “quem havia de pensar que nós iríamos
realmente acabar vivendo como antropófagos!” O último fio que os atava ao
mundo rompeu-se no sexto mês de gravidez, quando receberam uma carta
que evidentemente não era do sábio catalão. Tinha sido selada em
Barcelona, mas o envelope estava escrito com tinta azul convencional, numa
caligrafia administrativa, e tinha o aspecto inocente e impessoal dos recados
inimigos. Aureliano arrancou-a das mãos de Amaranta Úrsula quando ela se
dispunha a abri-la.
— Esta não — disse a ela. — Não quero saber o que diz.
Tal como ele pressentia, o sábio catalão não tornou a escrever. A carta
alheia, que ninguém leu, ficou à mercê das traças no consolo onde Fernanda
esquecera uma vez o seu anel de casamento e lá continuou se consumindo
no fogo interior da sua má notícia, enquanto os amantes solitários
navegavam contra a corrente daqueles tempos de despedidas, tempos
impenitentes e aziagos, que se desgastavam no empenho inútil de fazê-los
derivar para o deserto do desencanto e do esquecimento. Conscientes
daquela ameaça, Aureliano e Amaranta Úrsula passaram os últimos meses de
mãos dadas, terminando com amores de lealdade o filho começado com
exaltações e fornicação. De noite, abraçados na cama, não se amedrontavam
com as explosões terrestres das formigas, nem com o ragor das traças, nem
com o silvo constante e nítido do crescimento da erva daninha nos quartos
vizinhos. Muitas vezes foram acordados pelo tráfego dos mortos. Ouviram
Úrsula lutando contra as leis da criação para preservar a estirpe, e José
Arcadio Buendía procurando a verdade quimérica dos grandes inventos, e
Fernanda rezando, e o Coronel Aureliano Buendía se embrutecendo com os
enganos da guerra e os peixinhos de ouro, e Aureliano Segundo agonizando
de solidão no aturdimento das farras, e então aprenderam que as obsessões
dominantes prevalecem contra a morte e tornaram a ser felizes com a
certeza de que eles continuariam a se amar m as suas naturezas de
fantasmas, muito depois de que as outras espécies de animais futuros
arrebatassem dos insetos o paraíso da miséria que os insetos estavam
acabando de arrebatar dos homens. Num domingo, às seis da tarde,
Amaranta Úrsula sentiu a premência do parto. A sorridente parteira das
garotas que deitavam por causa da fome fez com que ela subisse na mesa da
sala de jantar, montou a cavalo no seu ventre e a maltratou com galopes
selvagens até que seus gritos foram silenciados pelo choro de um varão
formidável. Através das lágrimas, Amaranta Úrsula viu que era um Buendía
dos grandes, socado e voluntarioso como os Josés Arcadios, com os olhos
abertos e clarividentes dos Aurelianos e predisposto a começar a estirpe
outra vez do princípio e purificá-la dos seus vícios perniciosos e da sua
vocação solitária, porque era o único em um século que tinha sido
engendrado com amor.
— E um antropófago perfeito — disse. — Vai se chamar Rodrigo.
— Não — contradisse o marido. — Vai se chamar Aureliano e ganhar
trinta e duas guerras.
Depois de cortar o umbigo, a parteira pôs-se a remover com um trapo
o unguento azul que lhe cobria o corpo, iluminada por Aureliano com uma
lâmpada. Só quando o viraram de costas é que perceberam que ele tinha
alguma coisa a mais que o resto dos homens e se inclinaram para examiná-lo.
Era um rabo de porco. Não se alarmaram. Aureliano e Amaranta Úrsula não
conheciam o precedente familiar nem se lembravam das pavorosas
admoestações de Úrsula, e a parteira acabou de tranquilizá-los com a
suposição de que aquele rabo inútil poderia ser cortado quando o menino
mudasse os dentes. Depois não tiveram mais ocasião de tornar a pensar
nisso, porque Amaranta Úrsula sangrava um manancial inesgotável.
Tentaram socorrê-la com ataduras de teia de aranha e cinza socada, mas era
como querer tapar uma fonte com as mãos. Nas primeiras horas, ela fazia
esforços para conservar o bom humor. Pegava na mão do assustado
Aureliano e suplicava que não se preocupasse, que gente como ela não tinha
sido feita para morrer contra a vontade e rolava de rir dos recursos
truculentos da parteira. Mas à medida que as esperanças abandonavam
Aureliano, ela ia se fazendo menos visível, como se a estivessem apagando da
luz, até que se afundou na sonolência. Na madrugada da segunda-feira
trouxeram uma mulher que rezou junto à cama orações de cauterização,
infalíveis em homens e animais, mas o sangue apaixonado de Amaranta
Úrsula era insensível á qualquer artifício diferente do amor. De tarde, depois
de vinte e quatro horas de desespero, souberam que estava morta porque o
caudal se extinguiu sem auxílios e o seu perfil se afilou e as florações da cara
se desvaneceram numa aurora de alabastro e tornou a sorrir. Aureliano não
compreendera até então quanto gostava de seus amigos, quanta falta lhe
faziam e quanto teria dado para estar com eles naquele momento. Colocou o
menino na cestinha que a mãe tinha preparado para ele, tapou a cara do
cadáver com uma manta e vagou sem rumo pelo povoado deserto,
procurando um desfiladeiro de volta ao passado. Bateu na porta da
farmácia, onde não tinha estado nos últimos tempos, e o que encontrou foi
uma oficina de carpintaria. A anciã que abriu a porta com uma lâmpada na
mão compadeceu-se do seu desvario e insistiu em que não, que ali nunca
tinha havido uma farmácia, nem nunca havia conhecido uma mulher de
colo esbelto e olhos sonhadores que se chamasse Mercedes. Chorou com a
testa apoiada na porta da antiga livraria do sábio catalão, consciente de que
estava pagando os prantos atrasados de uma morte que não quisera chorar
no seu devido tempo para não quebrar os feitiços do amor. Quebrou os
punhos contra os muros de argamassa de O Menino de Ouro, clamando por
Pilar Ternera, indiferente aos luminosos discos alaranjados que cruzavam o
céu e que tantas vezes tinha contemplado com uma fascinação pueril, nas
noites de festa, do pátio dos socós. No último salão aberto do desmantelado
bairro de tolerância, um conjunto de acordeões tocava as canções de Rafael
Escalona, o sobrinho do bispo, herdeiro dos segredos de Francisco, o Homem.
O dono da cantina, que tinha um braço seco e como que torrado por tê-lo
levantado contra a mãe, convidou Aureliano a tomar uma garrafa de
aguardente, e Aureliano convidou-o a tomar outra. O dono da cantina falou
da desgraça do seu braço. Aureliano falou da desgraça do seu coração, seco e
como que torrado por havê-lo erguido contra a irmã. Acabaram chorando
juntos e Aureliano sentiu por um momento que a dor tinha terminado. Mas
quando tornou a ficar sozinho na última madrugada de Macondo, abriu os
braços na metade da praça, disposto a acordar o mundo inteiro e gritou com
toda a sua alma:
— Os amigos são uns filhos da puta!
Nigromanta resgatou-o de um charco de vômito e lágrimas. Levou-o
para o seu quarto, limpou-o, fez com que tomasse uma xícara de caldo.
Acreditando que isso o consolava, riscou com um traço de carvão os
inumeráveis amores que ele continuava lhe devendo e evocou
voluntariamente as suas tristezas mais solitárias para não deixá-lo sozinho no
pranto. Ao amanhecer, depois de um sono ruim e breve, Aureliano recobrou
a consciência da sua dor de cabeça. Abriu os olhos e se lembrou da criança.
Não a encontrou na cestinha. No primeiro impacto, experimentou uma
explosão de alegria, pensando que Amaranta Úrsula tinha despertado da
morte para se ocupar da criança. Mas o cadáver era uma montanha de
pedras sob a manta. Consciente de que ao chegar tinha encontrado aberta a
porta do quarto, Aureliano atravessou a varanda saturada pelos suspiros
matinais do orégão e chegou à sala de jantar, onde ainda estavam os
escombros do parto: a panela grande, os lençóis ensanguentados, os cestos
de cinza e o torcido umbigo da criança numa fralda aberta sobre a mesa,
junto à tesoura e ao fio de seda. A idéia de que a parteira voltara por causa
do menino no decorrer da noite proporcionou-lhe uma pausa de sossego
para pensar. Jogou-se na cadeira de balanço, a mesma em que se sentara
Rebeca nos tempos originais da casa, para dar aulas de bordado, e em que
Amaranta jogava xadrez chinês com o Coronel Gerineldo Márquez, e em que
Amaranta Úrsula costurava a roupinha da criança; e naquele relâmpago de
lucidez teve consciência de que era incapaz de aguentar sobre a sua alma o
peso esmagador de tanta coisa acontecida. Ferido pelas lanças mortais das
tristezas próprias e alheias, admirou a impavidez da teia de aranha nas
roseiras mortas, a perseverança do mato, a paciência do ar na radiante
manhã de fevereiro. E então viu a criança. Era uma pelasca inchada e
ressecada que todas as formigas do mundo iam arrastando trabalhosamente
para os seus canais pelo caminho de pedras do jardim. Aureliano não
conseguiu se mover. Não porque estivesse paralisado pelo horror, mas porque
naquele instante prodigioso revelaram-se as chaves definitivas de
Melquíades e viu a epígrafe dos pergaminhos perfeitamente ordenada no
tempo e no espaço dos homens: O primeiro da estirpe está amarrado a uma
árvore e o último está sendo comido pelas formigas.
Em nenhum ato da sua vida Aureliano tinha sido mais lúcido do que
quando esqueceu os seus mortos e a dor dos seus mortos e tornou a pregar as
portas e as janelas com as cruzes de Fernanda, para não se deixar perturbar
por nenhuma tentação do mundo, porque agora sabia que nos pergaminhos
de Melquíades estava escrito o seu destino. Encontrou-os intactos, entre as
plantas pré-históricas e os charcos fumegantes e os insetos luminosos que
tinham desterrado do quarto qualquer vestígio da passagem dos homens
pela terra, e não teve serenidade para levá-los para a luz, mas ali mesmo, de
pé, sem a menor dificuldade, como se estivessem escritos em castelhano sob
o brilho deslumbrante do meio-dia, começou a decifrá-los em voz alta. Era a
história da família, escrita por Melquíades inclusive nos detalhes mais triviais,
com cem anos de antecipação. Redigira-a em sânscrito, que era a sua língua
materna, e cifrara os versos pares com o código privado do imperador
Augusto e os ímpares com os códigos militares lacedemônios. A proteção
final, que Aureliano começava a vislumbrar quando se deixou confundir pelo
amor de Amaranta Úrsula, radicava em Melquíades ter ordenado os fatos
não no tempo convencional dos homens, mas concentrando tudo em um
século de episódios cotidianos, de modo que todos coexistiram num mesmo
instante. Fascinado pela descoberta, Aureliano leu em voz alta, sem saltos, as
encíclicas cantadas que o próprio Melquíades fizera Arcadio escutar e que,
na realidade, eram as predições da sua execução, e encontrou anunciado o
nascimento da mulher mais bela do mundo que estava subindo ao céu de
corpo e alma, e conheceu a origem de dois gêmeos póstumos que
renunciavam a decifrar os pergaminhos, não só por incapacidade e
inconstância, mas porque as suas tentativas eram prematuras. Neste ponto,
impaciente por conhecer a sua própria origem, Aureliano deu um salto.
Então começou o vento, fraco, incipiente, cheio de vozes do passado, de
murmúrios de gerânios antigos, de suspiros de desenganos anteriores às
nostalgias mais persistentes. Não o percebeu porque naquele momento
estava descobrindo os primeiros indícios do seu ser, num avô concupiscente
que se deixava arrastar pela frivolidade através de um ermo alucinado, em
busca de uma mulher formosa a quem não faria feliz. Aureliano o
reconheceu, perseguiu os caminhos ocultos da sua descendência e
encontrou o instante da sua própria concepção entre os escorpiões e as
borboletas amarelas de um banheiro crepuscular, onde um operário saciava a
sua luxúria com uma mulher que se entregava a ele por rebeldia. Estava tão
absorto que também não sentiu a segunda arremetida do vento, cuja
potência ciclônica arrancou das dobradiças as portas e as janelas, esfarelou o
teto da galeria oriental e desprendeu os cimentos. Só então descobriu que
Amaranta Úrsula não era sua irmã, mas sua tia, e que Francis Drake tinha
assaltado Riohacha só para que eles pudessem se perseguir pelos labirintos
mais intrincados do sangue, até engendrar o animal mitológico que haveria
de pôr fim à estirpe. Macondo já era um pavoroso rodamoinho de poeira e
escombros, centrifugado pela cólera do furacão bíblico, quando Aureliano
pulou onze páginas para não perder tempo com fatos conhecidos demais e
começou a decifrar o instante que estava vivendo, decifrando-o à medida
que o vivia, profetizando-se a si mesmo no ato de decifrar a última página
dos pergaminhos, como se estivesse vendo a si mesmo num espelho falado.
Então deu Outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as
circunstâncias da sua morte. Entretanto, antes de chegar ao verso final já
tinha compreendido que não sairia nunca daquele quarto, pois estava
previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo
vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano
Babilonia acabasse de decifrar os pergaminhos e que tudo o que estava
escrito neles era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as
estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda
oportunidade sobre a terra.
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Cem Anos de Solidão (18.2) - O rancor agravou-se
________________
Em 1959 colaborou na criação da Prensa Latina, a agência
de notícias da jovem República de Cuba, que viria a
abandonar em 1961 para se instalar no México, participando
cada vez mais ativamente na vida política do continente. O
regresso ao seu país seria entrecortado por numerosas
viagens até nova saída em 1980.
A sua intensa e riquíssima carreira de escritor, com início em
1947, ao publicar os seus primeiros contos no El Espectador,
culminou com o romance Cem Anos de Solidão (1967) e
mereceu-lhe a atribuição do Prêmio Nobel da Literatura de
1982.
Da vasta produção do mais célebre escritor da América
Latina, salienta-se, ainda: A Revoada (1955), Ninguém
Escreve ao Coronel (1961), Os Funerais da Mamãe Grande
(1962), A Incrível e Triste História de Cândida Eréndira e de
Sua Avó Desalmada (1972), O Outono do Patriarca (1975),
Crônica de Uma Morte Anunciada (1981), e O Amor nos Tempos do Cólera (1985).
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