segunda-feira, 26 de setembro de 2022

One Moment In Time

Whitney Houston




Live at Grammy, 1989






Each day I live
I want to be a day to give
The best of me
I'm only one, but not alone
My finest day is yet unknown
I broke my heart fought every gain
To taste the sweet
I face the pain
I rise and fall, yet through it all
This much remains

I want

One moment in time
When I'm more than I thought I could be
When all of my dreams
Are a heartbeat away
And the answers are all up to me
Give me one moment in time
When I'm racing with destiny
Then in that one moment of time
I will feel, I will feel eternity

I've lived to be the very best
I want it all, no time for less
I've laid the plans
Now lay the chance here in my hands

Give me

One moment in time
When I'm more than I thought I could be
When all of my dreams
Are a heartbeat away
And the answers are all up to me
Give me one moment in time
When I'm racing with destiny
Then in that one moment of time
I will feel, I will feel eternity

You're a winner for a lifetime
If you seize that one moment in time
Make it shine

Give me

One moment in time
When I'm more than I thought I could be
When all of my dreams
Are a heartbeat away
And the answers are all up to me
Give me one moment in time
When I'm racing with destiny
Then in that one moment of time

I will be
I will be
I will be free
I will be
I will be free

Composição: Albert Hammond / John Bettis.







Cada dia que vivo
Eu quero ser um dia para dar
O melhor de mim
Eu sou apenas um, mas não estou sozinho
Meu melhor dia ainda é desconhecido
Eu sofri e lutei por cada vitória
Para provar o doce
Eu enfrento a dor
Eu me levanto e caio, mas apesar de tudo
Isso ainda resta

Eu quero

Um momento no tempo
Quando eu seria mais do que pensei que poderia ser
Quando todos os meus sonhos
Está a um batimento cardíaco de distância
E as respostas dependem de mim
Me dê um momento no tempo
Quando estou correndo com o destino
Então, naquele único momento de tempo
Vou sentir, vou sentir a eternidade

Eu vivi para ser o melhor
Eu quero tudo sem tempo para menos
Eu mostrei os planos
Agora coloque a chance aqui em minhas mãos

Me dê

Um momento no tempo
Quando eu seria mais do que pensei que poderia ser
Quando todos os meus sonhos
Estão a um batimento cardíaco de distância
E as respostas dependem de mim
Me dê um momento no tempo
Quando estou correndo com o destino
Então, naquele único momento de tempo
Vou sentir, vou sentir a eternidade

Você é um vencedor para toda a vida
Se você aproveitar aquele momento no tempo
Faça brilhar

Me dê

Um momento no tempo
Quando eu seria mais do que pensei que poderia ser
Quando todos os meus sonhos
Está a um batimento cardíaco de distância
E as respostas dependem de mim
Me dê um momento no tempo
Quando estou correndo com o destino
Então, naquele único momento de tempo

Eu vou ser
Eu vou ser
Eu vou ser livre
Eu vou ser
Eu vou ser livre




Abertura do Estádio Arthur Ashe Stadium 1997





Flusser : Filosofia da Caixa Preta (7 - A Recepção da Fotografia)

Filosofia da Caixa Preta




VILÉM FLUSSER



Ensaios para uma futura filosofia da fotografia



7 - A Recepção da Fotografia


De modo geral, todo mundo possui um aparelho fotográfico e fotografa, assim como, praticamente, todo mundo está alfabetizado e produz textos. Quem sabe escrever, sabe ler; logo, quem sabe fotografar sabe decifrar fotografias. Engano. Para captarmos a razão pela qual quem fotografa pode ser analfabeto fotográfico, é preciso considerar a democratização do ato fotográfico. Tal consideração poderá contribuir, de passagem, à nossa compreensão da democracia em seu sentido mais amplo.
Aparelho fotográfico é comprado por quem foi programado para tanto. Aparelhos de publicidade programam tal compra. O aparelho fotográfico assim comprado será de “ultimo modelo”: menor, mais barato, mais automático e eficiente que o anterior. O aparelho deve o aperfeiçoamento constante de modelos ao feed-back dos que fotografam. O aparelho da indústria fotográfica vai assim aprendendo, pelo comportamento dos que fotografam, como programar sempre melhor os aparelhos fotográficos que produzirá. Neste sentido, os compradores de aparelhos fotográficos são funcionários do aparelho da indústria fotográfica.
Uma vez adquirido, o aparelho fotográfico vai se revelar um brinquedo curioso. Embora repouse sobre teorias científicas complexas e sobre técnicas sofisticadas, é muito fácil manipulá-lo. O aparelho propõe jogo estruturalmente complexo, mas funcionalmente simples. Jogo oposto ao xadrez, que é estruturalmente simples, mas funcionalmente complexo: é fácil aprender suas regras, mas difícil jogá-lo bem. Quem possui aparelho fotográfico de “último modelo”, pode fotografar “bem” sem saber o que se passa no interior do aparelho. Caixa preta.
O aparelho é brinquedo sedento por fazer sempre mais fotografias. Exige de seu possuidor (quem por ele está possesso) que aperte constantemente o gatilho. Aparelhoarma. Fotografar pode virar mania, o que evoca uso de drogas. Na curva desse jogo maníaco, pode surgir um ponto a partir do qual o homem-desprovido-de-aparelho se sente cego. Não sabe mais olhar, a não ser através do aparelho. De maneira que não está face ao aparelho (como o artesão frente ao instrumento), nem está rodando em torno do aparelho (como o proletário roda a máquina). Está dentro do aparelho, engolido por sua gula. Passa a ser prolongamento automático do seu gatilho. Fotografa automaticamente.
A mania fotográfica resulta em torrente de fotografias. Uma torrente memória que a fixa. Eterniza a automaticidade inconsciente de quem fotografa. Quem contemplar álbum de fotógrafo amador, estará vendo a memória de um aparelho, não a de um homem. Uma viagem para a Itália, documentada fotograficamente, não registra as vivências, os conhecimentos, os valores do viajante. Registra os lugares onde o aparelho o seduziu para apertar o gatilho. Álbuns são memórias “privadas” apenas no sentido de serem memórias de aparelho. Quanto mais eficientes se tornam os modelos dos aparelhos, tanto melhor atestarão os álbuns, a vitória do aparelho sobre o homem. “Privatividade” no sentido pós-industrial do termo.
Quem escreve precisa dominar as regras da gramática e ortografia. Fotógrafo amador apenas obedece a modos de usar, cada vez mais simples, inscritos ao lado externo do aparelho. Democracia é isto. De maneira que quem fotografa como amador não pode decifrar fotografias. Sua práxis o impede de fazê-lo, pois o fotógrafo amador crê ser o fotografar gesto automático graças ao qual o mundo vai aparecendo. Impõe-se conclusão paradoxal: quanto mais houver gente fotografando, tanto mais difícil se tornará o deciframento de fotografias, já que todos acreditam saber fazê-las.
Mas ainda não é tudo. As fotografias que sobre nós se derramam são recebidas como se fossem trapos desprezíveis. Podemos recortá-las de jornais, rasgá-las, jogá-las. Nossa práxis com a maré fotográfica que nos inunda faz crer que podemos fazer delas e com elas o que bem entendermos. Tal desprezo pela fotografia individual distingue a sua recepção das demais imagens técnicas. Exemplo: ao contemplarmos cena da guerra no Líbano em cinema ou TV, sabemos que nada podemos fazer a não ser contemplá-la. Ao contemplarmos cena idêntica em jornal, podemos recortá-la e guardá-la, ou simplesmente rasgá-la para embrulhar sanduíche. Isso leva a crer que podemos agir ao recebermos a mensagem de tal guerra, que podemos assumir ponto de vista “histórico” face à guerra. Analisemos essa falsa atitude histórica face à fotografia.
A fotografia da guerra no Líbano em jornal mostra uma cena. Exige que nosso olhar a escrutine pelo método já discutido anteriormente. O olhar vai estabelecendo relações específicas entre os elementos da fotografia. Não serão relações históricas de causa e efeito, mas relações mágicas do eterno retorno. Por certo, o artigo que a fotografia ilustra no jornal consiste de conceitos que significam as causas e os efeitos de tal guerra. Porém o artigo é lido em função da fotografia, como que através dela. Não é o artigo que “explica” a fotografia, mas é a fotografia que “ilustra” o artigo. Este só é texto no curioso sentido de ser pré-texto da fotografia. Tal inversão da relação “texto-imagem” caracteriza a pós-indústria, fim de todo historicismo. No curso da História, os textos explicavam as imagens, demitizavam-nas. Doravante, as imagens ilustram os textos, remitizando-os. Os capitéis românticos serviam aos textos bíblicos com o fim de desmagicizá-los. Os artigos de jornal servem ás fotografias para serem remagicizados.
No curso da História, as imagens eram subservientes, podia-se dispensá-las. Atualmente, os textos são subservientes e podem ser dispensados. Os países assim chamados subdesenvolvidos começam a descobrir tal fato. No decorrer da História, o iletrado era um aleijado da cultura dominada por textos. Atualmente, o iletrado participa da cultura dominada por imagens. Lutar contra o analfabetismo vai-se revelando luta quixotesca. Contudo, não são apenas os países subdesenvolvidos que começam a percebê-lo, “Johnny can’t spell” nos Estados Unidos. O analfabetismo fotográfico está levando ao analfabetismo textual.
Não é, pois, historicamente, que agimos face à guerra do Líbano; agimos ritualmente. Recortar a fotografia do jornal ou rasgá-la é agir ritualmente. A fotografia está sendo manipulada como em ritual de magia. No fundo, não somos nós que a manipulamos, é ela que nos manipula. E da seguinte forma: a cena fotográfica da guerra no Líbano consiste de elementos que se relacionam significativamente. No sentido temporal, um elemento precede outro e pode suceder ao precedente. No sentido de superfície, um elemento dá significado a outro e recebe significado de outro. Destarte, a superfície da imagem passa a ser significativa, carregada de valores. Está plena de deuses. Mostra o que é “bom” e o que é “mau”: os tanques são “maus”; as crianças são “boas”; Beirute em chamas é “infernal”, os médicos de uniforme branco são “anjos”. A fotografia é hierofania: o sacro nela transparece. E o que vale para esta fotografia relativa ao Líbano, vale para todas as demais. São, todas elas, imagens de forças inefáveis que giram em torno da imagem, conferindo-lhe sabor indefinível. Imagens de forças ocultas que giram magicamente. Fascinam seu receptor, sem que este saiba dizer o que o fascina.
O receptor pode recorrer ao artigo de jornal que acompanha a fotografia par dar nome ao que está vendo. Mas, ao ler o artigo, está sob a influência do fascínio mágico da fotografia. Não quer explicação sobre o que viu, apenas confirmação. Está farto de explicações de todo tipo. Explicações nada adiantam se comparadas com o que se vê. Não quer saber sobre causas ou efeitos da cena, porque é esta e não o artigo que transmite realidade. E como tal realidade é mágica, a fotografia não a transmite; é ela a própria realidade.
A realidade da guerra no Líbano, a realidade ela mesma está na fotografia. Não pode estar alhures. Se o receptor da fotografia for para o Líbano ver a guerra com seus próprios olhos, estará vendo a mesma cena, já que olha tudo pelas categorias da fotografia. Está programado para ver magicamente. E para que fazer tal viagem, se a fotografia lhe traz a guerra para sua casa? O vetor de significado se inverteu: o símbolo é o real e o significado é o pretexto. O universo dos símbolos (entre os quais, o universo fotográfico é dos mais importantes) é o universo mágico da realidade. Não adianta perguntar o que a fotografia da cena libanesa significa na realidade. Os olhos veem o que ela significa, o resto é metafísica de má qualidade.
E assim a fotografia vai modelando seus receptores. Estes reconhecem nela forças ocultas inefáveis, vivenciam concretamente o efeito de tais forças e agem ritualmente para propiciar tais forças. Exemplo: em fotografia de cartaz mostrando escova de dente, o receptor reconhece o poder da cárie. Sabe que é força nefasta e compra a escova a fim de passá-la ritualmente sobre os dentes, conjurando o perigo (espécie de sacrifício ao “deus Cárie”, ao Destino). Certamente, pode recorrer ao léxico sobre o verbete “cárie”. Isto apenas confirma o mito, não importa o que diz o texto, o leitor comprará a escova. Está programado para tanto. Até com informação “histórica”, agirá magicamente. Óbvio, isto não é descrição de vida em tribo de índio; é descrição de vida de funcionário em situação programada por aparelhos. Índio não dispõe de verbete.
Ambos, índio e funcionário, creem na realidade das imagens. No entanto, a crença do funcionário é de má fé. Naturalmente: o funcionário pensa saber “melhor”, tem o verbete, aprendeu a ler, a Ter “consciência histórica” das causas e efeitos. Sabe que no Líbano não se chocam Bem e Mal, mas que uma cadeia de causas produz uma cadeia de efeitos. Sabe que escova de dentes não é objeto ritual, mas produto da história do Ocidente. Este “saber melhor” deve ser reprimido, quando se trata de agir segundo o programa. Se o funcionário estiver consciente das causas e efeitos do seu funcionamento, jamais funcionará corretamente. Se tivesse consciência histórica, como poderia comprar escovas dente, formar opinião sobre o Líbano ou simplesmente ir ao escritório, arquivar papeladas, participar de reuniões, gozar férias, aposentar-se? A repressão da consciência histórica é indispensável para o funcionamento. As fotografias servem para reprimi-la. No entanto, a consciência crítica pode ainda ser mobilizada. Nela, a magia programada nas fotografias torna-se transparente. A fotografia da cena libanesa em jornal não mais revelará forças ocultas do tipo “judaísmo” ou “terrorismo”, mas mostrará os programas do jornal e do partido político que o programa, assim como o programa do aparelho político que programa o partido. Ficará evidente que “judaísmo” e “terrorismo” etc., constam de tais programas. A fotografia da escova de dente não mais revelará forças ocultas do tipo “cárie”, mas mostrará o programa das agências de publicidade e o programa do governo. Ficará evidente que “cárie” consta de tais programas.
A crítica pode ainda desmagicizar a imagem.
No entanto, algo de verdadeiramente monstruoso pode acontecer no curso do esforço para desmagicizá-la: o crítico está atualmente já programado para uma visão mágica do mundo. O próprio crítico vê forças ocultas em toda parte. Sob tal visão, os próprios aparelhos tornam-se forças ocultas: o jornal, o partido, a agência de publicidade, o parque industrial são deuses a serem exorcizados pela fotografia. Hierofania de segundo grau, onde o jornal vai tomar o lugar do terrorismo desmitificado. Os aparelhos não são mais percebidos enquanto brinquedos automáticos, mas como possuídos de forças inefáveis. A crítica de cultura da Escola de Frankfurt é bom exemplo desse paganismo de segundo grau, exorcismo do exorcismo.
Resumindo; eis como fotografias são recebidas: enquanto objetos, não têm valor, pois todos sabem fazê-las e delas fazem o que bem entendem. Na realidade, são elas que manipulam o receptor para comportamento ritual, em proveito dos aparelhos. Reprimem a sua consciência histórica e desviam a sua faculdade crítica para que a estupidez absurda do funcionamento não seja conscientizada. Assim, as fotografias vão formando círculo mágico em torno da sociedade, o universo das fotografias. Contemplar tal universo visando quebrar o círculo seria emancipar a sociedade do absurdo.



continua pág 34...

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SOBRE O AUTOR 
na edição brasileira de 1985


Nascido em Praga em 1920, Vilém Flusser iniciou seus estudos de Filosofia na Universidade Carolíngia de Praga, em 1933. Emigrou para Londres em 1940 e para São Paulo em 1941. Seus primeiros ensaios sobre Linguística e Filosofia foram publicados 1957 no “Suplemento Literário” d’O Estado de São Paulo, do qual passou a ser colaborador constante. Em 1962 tornou-se membro do Instituto Brasileiro de Filosofia e professor de Filosofia da Comunicação na Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo. Tornou-se co-editor da Revista Brasileira de Filosofia em 1964 tendo sido nomeado delegado especial do Ministério das Relações Exteriores para cooperação cultural com os Estados Unidos e a Europa, em 1966. Entre 1965 e 1970, organizou seminários e conferências no Departamento de Humanidades do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) sobre a Filosofia da Linguagem e abriu espaço em jornal par escrever crônicas diárias sobre filosofia do cotidiano (“Posto Zero”, da Folha de São Paulo). Em 1972, mudou-se para a Itália e, em 1976, para a França, onde reside atualmente, publicando principalmente na Alemanha e França. Publicou os livros: Língua e Realidade (São Paulo, Herder, 1963); A História do Diabo (São Paulo, Martins, 1965); Da Religiosidade (São Paulo, Comissão Estadual de Cultura, 1967); La Force du Quotidien (Paris, Mame, 1972); Le Monde Codifié (Paris, Institut de l’Enviroment, 1972); Naturalmente (São Paulo, Duas Cidades, 1979); Pós – História (São Paulo, Duas Cidades, 1982); Für eine Philosophie der Fotografie (Göttingen, European Photography, 1983); Ins Universum der technischen Bilder (Göttingen, European Photography, 1985).




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Flusser, Vilém, 1920 – 
Filosofia da caixa preta – São Paulo : Hucitec, 1985. - 92 p. 

EDITORA HUCITEC
São Paulo, 1985
Direitos autorais 1983 de Vilém Flusser. Título do original alemão: Für eine Philosophie der Fotografie. Tradução do autor. Direitos de publicação em língua portuguesa reservados pela Editora de Humanismo, Ciência e Tecnologia “Hucitec” Ltda., Rua Comendador Eduardo Saccab, 344 – 04602 – São Paulo, Brasil. Tel.: (011) 61-6319. 
Projeto gráfico: Estúdio Hucitec. 
Capa: Fred Jordan. 
Flusser : Filosofia da Caixa Preta (7 - A Recepção da Fotografia)
Flusser : Filosofia da Caixa Preta (8 - O Universo Fotográfico)

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pequena nota de rodapé...

Ontológico é um adjetivo que define tudo que diz respeito à ontologia, ou seja, que investiga a natureza da realidade e da existência.

Moby Dick: 8 - O Púlpito

Moby Dick



Herman Melville




8 - O Púlpito


Não fazia muito tempo que eu estava sentado quando um homem de uma venerável solidez entrou; assim que a porta, impelida pelo vento, se abriu para admiti-lo, o rápido olhar lançado sobre ele por toda a congregação foi o suficiente para atestar que aquele portentoso senhor era o capelão. Sim, era o famoso padre Mapple, assim chamado pelos baleeiros, que muito o admiravam. Tinha sido marinheiro e arpoador na juventude, mas já havia muitos anos que se dedicava ao ministério. Na época a que me refiro, o padre Mapple estava no inverno rigoroso de uma velhice sadia; o tipo de velhice que parece mesclar-se ao desabrochar de uma segunda juventude, pois entre todos os sulcos de suas rugas brilhavam certos tons suaves de uma nova floração – o verdor da primavera despontando mesmo sob a neve de fevereiro. Ninguém que tivesse ouvido sua história poderia deixar de olhar para o padre Mapple com o maior interesse, porque havia certas peculiaridades clericais enxertadas em seu caráter, imputáveis àquela aventureira vida marítima que ele antes levara. Quando entrou, vi que ele não trazia guarda-chuva e que por certo não tinha vindo em sua carruagem, porque a neve escorria de seu chapéu alcatroado e seu grande casaco de piloto parecia forçá-lo para o chão com o peso da água que tinha absorvido. Mas tirou o chapéu, o casaco e as galochas, pendurando-os num canto próximo; depois, vestido com decoro, tranquilamente se aproximou do púlpito.
Como a maioria dos púlpitos antiquados, este era muito alto, e como para chegar lá teria sido preciso uma escada muito grande, com um ângulo muito aberto no chão, o que diminuiria ainda mais a área diminuta da capela, o arquiteto, como que por sugestão do padre Mapple, terminou o púlpito sem colocar uma escada comum, substituindo-a por uma escada lateral perpendicular, como as que são usadas para subir a bordo de um navio vindo de um barco. A esposa de um capitão baleeiro havia doado um par de cordas vermelhas, tingidas da cor do mogno, e o conjunto todo, considerando-se o tipo de capela, não era de mau gosto. Parando por uns instantes ao pé da escada, segurando com as duas mãos os nós ornamentais das cordas, o padre Mapple olhou para cima e, com uma destreza de marinheiro, mas ainda reverente, subiu as escadas como se estivesse subindo ao mastro de sua embarcação.
As partes perpendiculares dessa escada lateral, como ocorre em escadas suspensas, eram de uma corda recoberta por tecido, apenas os degraus eram de madeira, de tal modo que em cada degrau havia um nó. À primeira vista, não deixei de notar que esses nós, embora úteis num navio, pareciam desnecessários ali. Mas eu não sabia que o padre Mapple, depois de atingir as alturas, iria se virar devagar e, debruçando-se sobre o púlpito, puxar a escada degrau por degrau, até que desaparecesse toda no interior do púlpito, deixando-o isolado em sua pequena Quebec.
Refleti por algum tempo sem compreender o motivo desse gesto. Padre Mapple gozava da reputação de homem sincero e santo, e eu não poderia supor que fosse capaz de cortejar a notoriedade com simples truques cênicos. Não, pensei, deve haver uma razão muito séria para isso; além disso, deve simbolizar algo despercebido. Seria possível, então, que com um ato de isolamento físico ele quisesse representar seu retiro espiritual, distante de todos os laços e ligações exteriores com o mundo? Sim, pois repleto da carne e do vinho do mundo, para o fiel servidor de Deus esse púlpito – entendo – se tornava uma fortaleza fechada – a imponente Ehrenbreitstein, com uma fonte de água perene dentro das suas muralhas.
Mas a escada lateral não era a única característica estranha do lugar, ligada à antiga vida de marinheiro do capelão. Entre os cenotáfios de mármore de cada um dos lados do púlpito havia uma parede ao fundo, enfeitada com um grande quadro, que representava um navio enfrentando uma tempestade terrível nas imediações de um litoral de rochas negras com ondas alvas. Mais no alto, acima da tormenta e das nuvens carregadas, flutuava uma pequena ilha de luz, da qual irradiava o rosto de um anjo; e este rosto iluminado lançava um jato de luz sobre o convés balançante do navio, parecido com a placa de prata hoje posta na prancha do Vitória, em que Nelson caiu. “Ah!, nobre navio!”, o anjo parecia dizer, “avante, avante, ó, nobre navio, sustenta o duro elmo! Bem vês que o sol abre caminho; as nuvens se dissipam – e o azul mais sereno começa a despontar.”
E nem mesmo ao púlpito faltava traço do mesmo gosto marítimo que fazia parte da escada e do quadro. A frente, como um painel, lembrava uma falsa proa, e a Santa Bíblia repousava sobre um pedaço de madeira talhada, cujas formas imitavam o bico arrabecado de um navio.
O que poderia ser mais significativo? – uma vez que o púlpito é sempre a parte mais avançada da terra; todo o resto vem depois; o púlpito lidera o mundo. É de lá que se vê surgir a ira de Deus, e a proa deve suportar o primeiro tranco. É de lá que se invoca o Deus dos ventos bons ou ruins, na esperança de ventos favoráveis. Sim, o mundo é um navio numa travessia sem regresso; e o púlpito é sua proa.


Continua na página 51...

Moby Dick: 3.2 - A Estalagem do Jato 
Moby Dick: 4 - A colcha
Moby Dick: 5 - Café-da-manhã
Moby Dick: 6 - A rua
Moby Dick: 7 - A Capela
Moby Dick: 8 - O Púlpito
Moby Dick: 9 - O Sermão
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851,


O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.

O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.

A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura. 


E você com o quê se identifica?

domingo, 25 de setembro de 2022

Gabriel G Márquez - Cem Anos de Solidão (7.1) - O Coronel Gerineldo Márquez

Cem Anos de Solidão


Gabriel Garcia Márquez


(7.1)



para jomí garcía ascot 

e maría luisa elío




O CORONEL GERINELDO MÁRQUEZ foi o primeiro que percebeu o vazio da guerra. Na sua condição de chefe civil e militar de Macondo, mantinha duas vezes por semana conversas telegráficas com o Coronel Aureliano Buendía. No princípio, essas entrevistas determinavam o curso de uma guerra de carne e osso, cujos contornos perfeitamente definidos permitiam estabelecer a qualquer momento o ponto exato em que se encontrava e prever os seus rumos futuros. Embora nunca se deixasse arrastar para o terreno das confidências, nem sequer pelos seus amigos mais íntimos, o Coronel Aureliano Buendía conservava na época o tom familiar que permitia identificá-lo no outro extremo da linha. Muitas vezes prolongou a conversa além do tempo previsto e a deixou derivar para comentários de caráter doméstico. Pouco a pouco, no entanto, e à medida a guerra ia se intensificando e estendendo, a sua imagem foi se apagando num universo de irrealidade. Os pontos e traços da sua voz eram cada vez mais remotos e incertos, e se uniam e se combinavam para formar palavras que paulatinamente foram perdendo todo o sentido. O Coronel Gerineldo limitava-se então a escutar, assustado pela impressão de estar em contato telegráfico com um desconhecido do outro mundo.

— Entendido, Aureliano — concluía no manipulador. — Viva o Partido Liberal!

Acabou por perder todo o contato com a guerra. O que em outros tempos fora uma atividade real, uma paixão irresistível da sua juventude, converteu-se para ele numa referência remota: um vácuo. O seu único refúgio era o quarto de costura de Amaranta. Visitava-a todas as tardes. Gostava de contemplar as suas mãos enquanto franzia babados de cambraia na máquina de manivela que Remedios, a bela, fazia girar. Ficavam muitas horas sem falar, satisfeitos com a companhia recíproca, mas enquanto Amaranta se alegrava intimamente por manter vivo o fogo da sua devoção, ele ignorava quais eram os secretos desígnios daquele coração indecifrável. Quando se teve notícia da sua volta, Amaranta sufocou de ansiedade. Quando o viu entrar em casa, porém, confundido com a ruidosa escolta do Coronel Aureliano Buendia, e o viu maltratado pelo rigor do desterro, envelhecido pela idade e pelo esquecimento, sujo de suor e poeira, cheirando a estábulo, feio, com o braço esquerdo na tipoia, sentiu-se desfalecer de desilusão. “Meu Deus”, pensou, “não era este que eu esperava.” No dia seguinte, entretanto, ele voltou à casa barbeado e limpo, com o bigode perfumado de água de alfazema e sem a tipoia ensanguentada. Trazia-lhe um breviário de capa nacarada.

— Como os homens são esquisitos! — ela disse, porque não encontrava outra coisa para dizer. — Levam a vida lutando contra os padres e dão livros de oração de presente.

A partir de então, mesmo nos dias mais críticos da guerra, ele a visitava todas as tardes. Muitas vezes, quando Remedios, a bela, não estava presente, era ele quem tocava a máquina de costura. Amaranta se sentia perturbada pela perseverança, pela lealdade, pela submissão daquele homem investido de tanta autoridade e que no entanto se despojava das armas na sala para entrar indefeso no quarto de costura. Mas durante quatro anos ele lhe reiterou o seu amor, e ela encontrou sempre a maneira de recusá-lo sem feri-lo, porque, embora não conseguisse amá-lo, já não podia viver sem ele. Remedios, a bela, que parecia indiferente a tudo, e de quem se pensava que era débil mental, não foi insensível a tanta devoção, e interveio em favor do Coronel Gerineldo Márquez. Amaranta descobriu de repente que aquela menina que havia criado, que mal despertava para a adolescência, já era a criatura mais bela que se havia visto em Macondo. Sentiu renascer no seu coração o rancor que em outra época experimentara contra Rebeca, e rogando a Deus que não a arrastasse até o extremo de lhe desejar a morte, expulsou-a do quarto de costura. Foi por essa época que o Coronel Gerineldo Márquez começou a sentir o fastio da guerra. Apelou para as suas reservas de persuasão, para a sua imensa e reprimida ternura, disposto a renunciar por Amaranta a uma glória que lhe tinha custado o sacrifício dos seus melhores anos. Mas não conseguiu convencê-la. Uma tarde de agosto, agoniada pelo peso insuportável da sua própria obstinação, Amaranta se trancou no quarto para chorar a sua solidão até morrer, depois de dar a resposta definitiva ao seu pretendente tenaz:

— Vamos esquecer isso para sempre — disse a ele — já somos velhos demais para estas coisas.

O Coronel Gerineldo Márquez atendeu naquela tarde a um chamado telegráfico do Coronel Aureliano Buendía. Foi uma conversa de rotina que não havia de abrir nenhuma brecha para a guerra estancada. Ao terminar, o Coronel Gerineldo Márquez contemplou as ruas desoladas, a água cristalizada nas amendoeiras, e se encontrou perdido na solidão.

— Aureliano — disse tristemente no manipulador — está chovendo em Macondo.

Houve um longo silêncio na linha. De repente, os aparelhos saltaram com os signos desapiedados do Coronel Aureliano Buendia.

— Não seja boboca, Gerineldo — disseram os signos. -É natural que esteja chovendo em agosto.

Fazia tanto tempo que não se viam que o Coronel Gerineldo Márquez se desconcertou com a agressividade daquela reação. Entretanto, dois meses depois, quando o Coronel Aureliano Buendía voltou a Macondo, o desconcerto se transformou em espanto. Até Úrsula se surpreendeu com o quanto havia mudado. Chegou na calada, sem escolta, embrulhado numa manta apesar do calor, e com três amantes que instalou numa mesma casa, onde passava a maior parte do tempo estendido numa rede. Mal lia os informes telegráficos que falavam de operações de rotina. Certa ocasião o Coronel Gerineldo Márquez lhe pediu instruções para a evacuação de uma localidade fronteiriça que ameaçava se converter num conflito internacional.

— Não me aborreça com coisinhas miúdas — ordenou ele. — Consulte a Divina Providência.

Era talvez o momento mais crítico da guerra. Os proprietários de terra liberais, que no princípio apoiavam a revolução, entraram em aliança secreta com os proprietários de terra conservadores para impedir a revisão dos títulos de propriedade. Os políticos que capitalizavam a guerra já desde o exílio haviam repudiado publicamente as determinações drásticas do Coronel Aureliano Buendía, mas até mesmo essa desautorização parecia deixá-lo sem preocupações. Não voltara a ler os seus versos, que ocupavam mais de cinco tomos e que permaneciam esquecidos no fundo do baú. De noite, ou na hora da sesta, chamava à rede uma das suas mulheres e obtinha dela uma satisfação rudimentar, e logo dormia com um sono de pedra que não era perturbado pelo mais leve indício de preocupação. Só ele sabia, naquele tempo, que o seu aturdido coração estava condenado para sempre à incerteza. A princípio, embriagado pela glória do regresso, pelas vitórias inverossímeis, bordejara o abismo da grandeza. Satisfazia-se com trazer à cabeceira o Duque de Marlborough, seu grande mestre nas artes da guerra, cujo aparato de peles e unhas de tigre produzia o respeito dos adultos e o assombro das crianças. Foi então que decidiu que nenhum ser humano se aproximasse dele a menos de três metros. No centro do círculo de giz que os seus ajudantes de campo traçavam onde quer que ele chegasse, e no qual apenas ele podia entrar, decidia com ordens breves e inapeláveis o destino do mundo. Na primeira vez em que esteve em Manaure depois do fuzilamento do General Moncada, apressou-se em cumprir a última vontade da sua vítima, e a viúva recebeu os óculos, a medalha, o relógio e a aliança, mas não lhe permitiu passar da porta de entrada.

— Não entre, coronel — disse a ele. — O senhor pode mandar na sua guerra, mas na minha casa mando eu.

O Coronel Aureliano Buendía não deu mostras de rancor, mas o seu espírito só encontrou sossego quando a sua guarda pessoal saqueou e reduziu a cinzas a casa da viúva. “Cuide do coração, Aureliano”, dizia-lhe então o Coronel Gerineldo Márquez.
“Você está apodrecendo vivo.” Por essa época, convocou uma segunda assembléia dos principais comandantes rebeldes. Encontrou de tudo: idealistas, ambiciosos, aventureiros, ressentidos sociais e até delinqüentes comuns. Havia inclusive um antigo funcionário conservador, refugiado na revolta para fugir a um julgamento por desvio de fundos. Muitos não sabiam sequer por que lutavam. No meio daquela multidão heterogênea, cujas diferenças de critério estiveram a ponto de provocar uma explosão interna, destacava-se uma autoridade tenebrosa: o General Teófilo Vargas. Era um índio puro, selvagem, analfabeto, dotado de uma malícia taciturna e de uma vocação messiânica que provocava nos seus homens um fanatismo demente. O Coronel Aureliano Buendía convocou a reunião com o propósito de unificar o poder rebelde contra as manobras dos políticos. O General Teófilo Vargas adiantou-se às suas intenções: em poucas horas desbaratou a coligação dos comandantes melhor qualificados e se apoderou do poder central. “E uma fera digna de cuidado”, disse o Coronel Aureliano Buendía aos seus oficiais. “Para nós, esse homem é mais perigoso que o Ministro da Guerra.” Então, um capitão muito jovem que sempre se havia distinguido pela timidez levantou o dedo cauteloso:

— É muito simples, coronel — propôs — nós temos de matá-lo.

O Coronel Aureliano Buendía não se assustou com a frieza da proposta, e sim com a forma como ela se antecipou uma fração de segundo ao seu próprio pensamento.

— Não esperem que eu dê essa ordem — disse. E não a deu, realmente.

Mas quinze dias depois o General Teófilo Vargas foi despedaçado a golpes de facão numa emboscada, e o Coronel Aureliano Buendía assumiu o poder central. Na mesma noite em que a sua autoridade foi reconhecida por todos os comandos rebeldes, acordou sobressaltado, pedindo aos gritos uma manta. Um frio interior que lhe rachava os ossos e o mortificava inclusive em pleno sol impediu-lhe de dormir bem por vários meses, até que se transformou num hábito. A embriaguez do poder começou a se decompor em faixas de tédio. Procurando um remédio contra o frio, mandou fuzilar o jovem oficial que propôs o assassinato do General Teófilo Vargas. As suas ordens eram cumpridas antes de serem anunciadas, mesmo antes que ele as concebesse, e sempre iam muito mais longe do que ele se atreveria a fazê-las chegar. Extraviado na solidão do seu imenso poder, começou a perder o rumo. Incomodava-o o povo que o aclamava nas aldeias vencidas, e que lhe parecia o mesmo que aclamava o inimigo. Em toda parte encontrava adolescentes que o olhavam com os próprios olhos, que falavam com a sua própria voz, que o cumprimentavam com a mesma desconfiança com que ele os cumprimentava, e que diziam ser seus filhos. Sentiu-se jogado, repelido, e mais solitário do que nunca. Teve a certeza de que os seus próprios oficiais lhe mentiam. Brigou com o Duque de Marlborough. “O melhor amigo,” costumava dizer então, “é o que acaba de morrer.” Cansou-se da incerteza, do círculo vicioso daquela guerra eterna que sempre o encontrava no mesmo lugar, só que cada vez mais velho, mais acabado, mais sem saber por que, nem como, nem até quando. Sempre havia alguém fora do círculo de giz. Alguém que precisava de dinheiro, que tinha um filho com coqueluche ou que queria ir dormir para sempre porque já não podia suportar na boca o gosto de merda da guerra e que, entretanto, reunia as suas últimas reservas de energia para informar: “Tudo normal, coronel.” E a normalidade era precisamente o mais terrível daquela guerra infinita: não acontecia nada. Sozinho, abandonado pelos presságios, fugindo do frio que havia de acompanhá-lo até a morte, procurou um último refúgio em Macondo, ao calor das recordações mais antigas. Era tão grave a sua inércia que quando lhe anunciaram a chegada de uma comissão do seu partido, credenciada para discutir a encruzilhada da guerra, ele se mexeu na rede sem acordar de todo.

— Levem-nos às putas — disse.

continua página 107...

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histórias davóinha: becos sem saída (III) 19bs – a notícia

becos sem saída


(III) o descolocado
19bs – a notícia

baitasar


pronto, o assunto feijoada estava apostado, sem mais nenhuma algazarra ou tumulto, assim como se veio o dia se foi, as crianças dormem tranquilas, sem queixas de importância, isso faz bem, pois assim ficam em paz, levanta os olhos até a muriquinha e sorri, pega a chupeta rósea e esconde embaixo do travesseiro da futuro

o virgílio se veio bem antes, não recebeu chamado de serviço nem precisou fazer reforço de ajuda, resmungou que amanhã vai puxar o carrinho das garrafas vazias, papelão, vidro quebrado e ferro-velho, o silêncio do sono invade a cama resfriada, cada um para o seu lado, o braseiro segue amornado, a distância aumentando, não querem mais filhos, não querem correr riscos com as contas de um calendário deixado de lado, e muito pouco compreendido, É mais fácil não fazer do que se arrepender

o gosto do não feito desanimava mais e mais

virgílio ronca quase no instante em que fecha os olhos, memória vira e revira as vontades, boceja, desiste de cutucar a onça da vara curta quando lembra a quem cabe a tarefa de acalentar as crianças, lavar fraldas, dar a mamada, limpar os mijados e o cocô, não reclama, as meninas são ensinadas assim, como segurar nos braços, como aconchegar, confortar, embalar, tranquilizar, é a herança mímica da exibição de amor ensinada desde sempre às meninas e interditada aos guris

quando um não quer, a outra se vira do jeito que pode, finge que também não quer e dorme, ou finge que dorme e geme enquanto as coxas queimam até esfriarem, Assim é melhor, risco zero!, e fico sem nenhum pecado da carne sem vontade de se confessar, gosta desse jeito, se descobrindo dona dela mesma

fica ali, esbugalhada e quieta, vigiando a escuridão com seus ruídos, fantasmas latejando, tecendo o dia que há de vir, entre sal, alhos, cebolas e tomates, a banha derretendo entre os feijões, a água fervente com bofes, rins, coração, fígado, toucinhos, miúdos e patas

o fechamento dos olhos se demora e o abraço do sono não lhe chega com as mesmas facilidades do virgílio, o adormecer continua arredio e desconfiado, pede aos anjos um tantinho de sono, Os abicus não devem andar por esses lados com seus olhos de águia. Queria tanto uma conversa pra boi dormir. Mais uma noite de cachorro.

depois de tanto fuxicar-se, os miolos adormecem, os ouvidos emudecem os olhos e ela afunda no assoalho da cama, dorme com a boca escancarada que parece ter o fundo e as larguras da vastidão sem fim

acorda tonta, de porre, sem lucidez, ramelenta, melada nos lábios grossos, a mamada escorrida, Maria Futuro!

e assim o dia começa e se vai, sem maiores temores ou sustos, a mesma rotineira usança do dia até que outra noite vai entrando do beco para dentro da casinha da memória, os miúdos acomodados para o sono, a miúda reclamando sua mamada, revisa com resmungos, cantos e encantos o cercadinho enquanto escuta suas músicas no rádio, O seria da vida sem esse companheiro?

o apresentador do programa musical anuncia uma das suas músicas preferidas, gosta de cantarolar pelos becos da casa, algumas mais que outras, como gosta da filharada, ela gosta de todos, claro, sempre atenta aos movimentos do lamparino e supimpo, mas os olhos que guarda para maria futuro são de mãe, amiga e cúmplice, ela fica tomada de felicidade testemunhando a miúda crescer

Agora, para nossas queridas ouvintes, os sabores de um samba-canção de 60, autoria de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, na voz de Tristão da Silva: A Notícia!


Hoje a notícia correu
Vieram logo me dizer
Mas verdade é que eu
Estava farta de saber

O amor que acaba é igual
A todo amor que chega ao fim.
E afinal, quem sou,
Para mudar coisas assim.

Os meus problemas são meus,
Deixem comigo a solução.
E os meus fracassos à Deus,
É que revelo quantos são.

Um conselho é tão fácil de dar,
Qualquer um cita exemplos no fim
Mas se um dia eu tiver de chorar
Ninguém chora por mim.

se inspira nas suas veias, no seu tédio, nas paredes, na fome, nas flores empoeiradas de plástico, na feijoada, na cama fria, nas tantas e tantas mágoas da vida, na cachaça, no labirinto de lágrimas, no grito congelado na garganta, na frieza daquela vida de escassez, sai a cantarolar pela casa, Adoro Tristão, faz coro ao cantor, Ninguém chora por mim!!!!

em uma mistura de susto e indignação ouve o apresentador interromper a sua cantoria, estacionaa junto das paredes mornas do fogão, as pedras rachando, o hino nacional tocando, Ouviram do Ipiranga às margens plácidas...

Ué, que diabo é isso?!

Boa noite, Boa noite, ela responde àquela voz sobranceira e grave, pausada e definitiva, anunciando o discurso do excelentíssimo ministro da justiça

O Presidente da República, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e considerando que a revolução de 31 de março de 1964, maria memória perde sua atenção daquela falação tão sisuda, quer estar alegre, convencida das boas intenções, solidariedade e fraternidade das pessoas de bem, da família, batuque, deus, saravá, a voz sisuda e dura a persegue pela casa, tortura seus ouvidos

O Presidente da República, no interesse nacional, poderá decretar a intervenção nas Vilas e Municípios, ela só quer ser feliz na voz do tristão, alguém cale essa boca e toque sua canção, não está entendendo aquela falação toda

O Presidente da República em qualquer dos casos previstos na Constituição, poderá decretar o Estado de Sítio, deus!, ela confia em você, faça alguma coisa

Fica suspensa a garantia de Habeas Corpus, nos casos de crimes políticos, contra a Segurança Nacional, deus!, ela não sabe disso de habeas corpus, jesus amado passe para o lado dos torturados, imediatamente, sem vacilar, seja duro com os torturadores, ela ainda não sabe, mas há males que vêm para o mal

Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com esse Ato Institucional e seus Atos Complementares, bem como os respectivos efeitos, obá!, não a abandone, ela conta com você

O presente Ato Institucional entra em vigor, nesta data. Revogadas as disposições em contrário, 13 de dezembro de 1968; 147º da Independência e 80º da República, deus!, faça-o calar-se

Desfaz-se a cadeia Nacional de Rádios, deus!, ela não está entendendo nada, explique-se, a voz se cala e memória volta a ouvir o hino nacional, está assustada, continua parada junto a fornalha de pedra e barro, quando compraram o fogão à gás – usado e com um dos dois bicos entupido – não deixou o virgílio desmanchar o fogão de pedra, E quando não tivermos o dinheiro para o gás? Deixa aí, é a nossa reserva para os dias piores.

o rádio volta às canções

olha para os lados, respira aliviada, nada mudou, foi só um susto, uma voz silenciosa lhe diz para desligar o rádio, O que não se sabe não assusta, desjunta o plug da tomada da parede, um zelo cuidadoso e desconfiado, todo cuidado é pouco, Deus é bom, nada de ruim vai nos acontecer.

está exausta, maria futuro continua adormecida, aproveita e se vai para o sono, um silêncio desalumiado se abre e a toma nos braços, Deus é pai, sente que ele cruza os braços às suas costas, feito um leão-de-chácara, a voz lhe escapa, está toda encolhida, dobrada e abraçada nos joelhos, não consegue explicar tanto medo em mais um dia se acabando



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