terça-feira, 27 de junho de 2023

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Entre hoje e amanhã...




parece uma marca inexpressiva, mas para um buteku de contos e poesias é uma marca para se comemorar...

... e seguir em frente...


escrever
tentar 
repetir 
           pensar
as mãos brincando no papel
esvoaçando o colorido da doidice
o lápis
                a borracha
     os caprichos
seus enredos
             o ritmo das palavras
as emoções
           saltitando




Makarenko - Poema Pedagógico Livro 1: O inglório começo da Colônia Gorki (c)

Poema Pedagógico


Antón S. Makarenko


Livro Um

Capítulo 2

O inglório começo da Colônia Gorki

continuando...

Saí do dormitório, transformando minha raiva em uma espécie de pedra pesada dentro do meu peito. Mas as trilhas tinham que ser limpas e a raiva petrificada exigia ação. Fui em busca de Kaliná Ivánovitch:

- Vamos remover a neve.

- O que você está dizendo? Será que vim aqui para traabalhos braçais? E os bandidos-rouxinóis? disse ele, apontando para os quartos.

- Eles não querem.

- ¡Ah, parasitas! Está bem, vamos!

Kaliná Ivánovitch e eu estávamos terminando de abrir o primeiro caminho quando Vólokhov e Taranêts apareceram nele, indo, como sempre, para a cidade.

- Assim é queé bom! - disse alegremente Taranêts.

- Eles deveriam ter feito isso há muito tempo - argumentou Vólokhov.

Kálina Ivánovitch fechou-lhes o caminho:

- O que é isso de "bom"? Seu canalha, você se recusou a trabalhar e acha que vou fazer isso por você? Você não passa por aqui, parasita. Entre na neve, senão te acerto com a pá...

Kálina Ivánovitch levantou a pá, mas um segundo depois sua pá voou para um monte de neve distante, seu cachimbo acabou em outro lugar, e o atônito Kálina Ivánovitch só pôde olhar para os jovens e ouvi-los gritando com ele, de longe:

- Vai ter que se enviar sozinho na neve, atrás da pá!...

E eles se foram para a cidade, rindo.

- Vou para o inferno! Eu não trabalho aqui! exclamou Kálina Ivánovitch, e foi para seu quarto, deixando sua pá no monte de neve.

Nossa vida tornou-se triste e apreensiva. Gritos podiam ser ouvidos todas as noites na grande estrada para Khárkov:

- Socorro!

Os aldeões roubados vieram até nós e com vozes trágicas imploraram nossa ajuda.

Consegui arranjar com o Zavgubnarobraz um revólver para a defesa contra os cavaleiros-salteadores de estrada, mas escondi dele a situação na colônia. Eu ainda não havia perdido a esperança de encontrar uma maneira de me entender com os educandos.

Para mim e meus companheiros, os primeiros meses de nossa colônia não foram apenas meses de desespero e esforço impotente: foram também meses de busca pela verdade. Em toda a minha vida eu não li tanta literatura pedagógica quanto naquele inverno de 1920.

Isso foi na época de Wrangel e da guerra contra a Polônia. Wrangel estava por perto, perto de Novomírgorod; muito perto de nós, em Tcherkássi, os poloneses lutavam; toda a Ucrânia estava infestada de bátkos, chefes dos bandos "brancos", e muita gente em volta de nós se encontrava sob o feitiço da bandeira de Petliúra (1). Mas nós, na nossa floresta, com a cabeça nas mãos, procurávamos esquecer o barulho dos grandes acontecimentos e líamos livros pedagógicos.

O principal fruto que obtive da minha leitura foi a firme e profunda convicção de que não possuía nenhuma ciência nem nenhuma teoria, de que era preciso deduzir a teoria de todo o conjunto de fenômenos reais que se desenrolavam diante de meus olhos. No começo eu nem sequer compreendi, mas simplesmente vi que não precisava de fórmulas livrescas, que, de qualquer forma, não poderia aplicar ao meu trabalho, mas de análise imediata e ação não menos urgente.

Com todo o meu ser, senti que tinha que me apressar, que não podia esperar esperar nem mais um dia. A colônia estava assumindo cada vez mais o caráter de um covil de bandidos. Na atitude dos educandos para com os educadores, o tom permanente de zombaria e malícia aumentava cada vez mais. Já haviam começado a contar anedotas obscenas na presença dos educadores, exigindo rudemente que lhes servissem as refeições, jogando os pratos para o alto, brincando ostensivamente com seus punhais finlandeses e perguntando zombeteiros sobre as posses cada um de nós.

- Sempre pode ser útil... numa hora de aperto!

Eles se recusaram resolutamente a cortar lenha para as estufas e um dia quebraram o teto de madeira do galpão na presença de Kálina Ivánovitch. Eles fizeram isso entre risos e piadas:

- Esta lenha vai bastar para o resto de nossa vida!

Kálina Ivánovitch soltou milhões de faíscas de seu cachimbo e só encolhia os ombros:

- O que se pode dizer a esses parasitas? Tipos indecentes! E de onde eles aprenderam isso de destruir as construções? Seus pais deveriam ser presos por algo assim, os parasitas!

E aconteceu: não consegui ficar mais tempo na corda bamba pedagógica.

Numa manhã de inverno, pedi a Zadorov que cortasse lenha para a cozinha. E ouvi a habitual resposta atrevida e alegre:

- Vá cortar você mesmo: há muitos de vocês aqui!

Era a primeira vez que ele me tratava por "você".

Encolerizado e ofendido, levado ao desespero e ao frenesi por todos os meses anteriores, corri para Zadórov e dei-lhe um bofetão no rosto. Dei-lhe um tapa tão forte que ele vacilou e caiu sobre a estufa. Bati nele uma segunda vez e, agarrando-o pelo colarinho e levantando-o, bati nele mais uma vez.

De repente, vi que ele estava terrivelmente assustado. Pálido, com as mãos trêmulas, pôs apressadamente o boné, tirou-o e voltou a colocá-lo. E provavelmente eu teria continuado a bater nele, mas ele gaguejou num gemido lamentoso:

- Desculpe, Antón Semiónovtich...

Minha fúria era tão selvagem e desmedida que percebi que se alguém dissesse uma única palavra contra mim, eu me jogaria em cima de todos para matar, para exterminar aquela multidão de bandidos. Um atiçador de ferro apareceu em minhas mãos. Os cinco educandos permaneceram imóveis ao lado de suas camas. Burún tentava arrumar qualquer coisa na sua roupa.

Virei-me para eles e os ameacei, batendo com o atiçador no encosto de uma cama:

- Ou vão todos imediatamente para o mato rachar lenha ou desapareçam da colônia para o diabo que os carregue!

E sai do dormitório.

No galpão onde guardávamos nossas ferramentas, levantei um machado e observei, franzindo a testa, como os educando escolhiam machados e serrotes. Passou pela minha cabeça que era melhor não ir para a floresta naquele dia, não colocar os machados nas mãos dos educandos, mas já era tarde: todas as ferramentas estavam distribuídas. Isso não importava. Eu me sentia pronto para tudo: havia resolvido não desistir de minha vida de graça. Além disso, ainda tinha o revólver no bolso.

Nós fomos para a floresta. Kálina Ivánovitch me alcançou e, terrivelmente agitado, sussurrou:

- O que está acontecendo? Diga-me, por favor, por que é que eles estão tão mansos?

Olhei distraído para os olhos azuis de pan e respondi:

- As coisas estão ruins, meu irmão... Pela primeira vez na vida eu bati em uma pessoa.

- Que horror, homem! - Kálina Ivánovitch ficou surpreso. - E se eles fizerem queixa?

- Bem, isso ainda não seria tão mau...

Para minha surpresa, tudo correu bem. Trabalhei com os rapazes até a hora do almoço. Cortamos pinheiros tortos. Em geral, os rapazes permaneceram enfezados, mas o ar puro e gelado, a bela floresta, adornada com enormes capas de neve, o trabalho harmonioso do machado e do serrote fizeram sua parte.

Parados, fumamos confusos da minha reserva de makhórka (2), e Zadórov, soprando a fumaça para o topo dos pinheiros, de repente caiu na gargalhada:

- Mas essa é boa! Ha, ha, ha!

Foi bom ver seu rosto rosado, que tremia de tanto rir, e eu não conseguia parar de sorrir:

- O que é que é uma boa? O trabalho?

- O trabalho também... O que eu quero dizer, é o jeito como os enhor me deu aquela sova!

Era natural que Zadórov, um jovem grande e robusto, risse. Eu mesmo fiquei surpreso por ter ousado tocar em tal gigante.

Ele riu de novo, e ainda rindo, pegou o machado e foi em direção a uma árvore.

- Mas que história, ha, ha, ha!

Almoçamos juntos, brincando, mas não fizemos mais nenhuma referência ao incidente da manhã. Eu, porém, senti-me embaraçado, embora determinado a não baixar o tom e continuei a dar ordens com a mesma firmeza após a refeição. Vólokhov estava sorrindo, mas Zádorov se aproximou de mim com uma expressão muito séria:

- Não somos tão ruins, Anton Semiónovitch! Tudo sairá bem. Nós compreendemos...


continua na página 25...
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(1) Referência às guerras enfrentadas pelos bolcheviques na Ucrânia após a Revolução de 1917. Piotr Nicolaiévitch Wrangel (1878-1928) foi o comandante, a partir de 1920, do exército branco ucraniano, contrarrevolucionário. A guerra polonesa foi a invasão da Ucrânia oriental pela Polônia em maio de 1920. Simon Vassiliévitch Petliúra (1879-1929) foi um general ucraniano separatista, adversário tanto dos brancos como dos bolcheviques, que chegou a assumir a presidência de um governo independente em Kiev em 1919. (N. da E.)
(2) Tipo de fumo barato.
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Leia também:

Livro Um

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Makarenko - Poema Pedagógico Livro 1: O inglório começo da Colônia Gorki (b)

Poema Pedagógico


Antón S. Makarenko


Livro Um

Capítulo 2

O inglório começo da Colônia Gorki

continuando...

No dia 4 de dezembro, os primeiros seis educandos chegaram à colônia e me entregaram um envelope fabuloso, lacrado com cinco lacres enormes... Este envelope continha seus dossiês. Quatro foram enviados à colônia por assalto à mão armada em uma casa e tinham dezoito anos; os outros dois, mais novos, foram acusados ​​de furto. Nossos educandos estavam esplendidamente vestidos: culotes de montar, botas elegantes. Seus penteados estavam na última moda. Não havia absolutamente nenhuma criança abandonada neles. Os sobrenomes desses primeiros alunos eram Zadórov, Burún, Vólokhov, Bendiuk, Gud e Taranêts.

Nós os recebemos cordialmente. Desde a manhã uma refeição particularmente saborosa estava sendo preparada. A cozinheira resplandecia com sua touca branca imaculada. No dormitório, mesas ornamentadas ocupavam o espaço livre entre as camas. Não tínhamos toalhas de mesa, mas lençóis novos nos serviam bem. Aqui se reuniram todos os participantes da nascente colônia. Veio também Kaliná Ivánovitch, que, por ocasião da solenidade, havia trocado o casaco cinza sujo que usava todos os dias por um casaco de veludo verde.

Fiz um discurso sobre a nova vida de trabalho, sobre a necessidade de esquecer o passado e marchar em frente e para a frente. Os educandos ouviram meu discurso com pouca atenção, cochichando entre si, olhando com sorrisos sarcásticos e desdenhosos para as camas dobráveis, "camas de campanha", cobertas com os novos cobertores de algodão, e para as janelas e portas sem pintura. No meio de meu discurso, Zadórov disse de repente em voz alta a um de seus companheiros:

- Por tua causa nos metemos nessa confusão!

Passamos o resto do dia planejando nossa vida futura. Mas os educandos ouviram com descaso cortês minhas propostas: eles só queriam se livrar de mim o mais rápido possível.

De manhã, Lídia Pietróvna, toda agitada, veio ao meu quarto e disse:

- Não sei como falar com eles... Digo-lhes que temos de ir ao lago buscar água, e um deles, com o cabelo todo alisado, que estava a calçar os sapatos, de repente traz uma bota na minha cara e diz: "Está vendo, o sapateiro me fez umas botas muito apertadas!"

Nos primeiros dias nem sequer nos ofenderam: simplesmente não notaram a nossa presença. Ao cair da noite, eles saíram silenciosamente da colônia e voltavam pela manhã, ouvindo com um sorriso discreto minhas críticas, inflamadas pelo espírito compenetrado da minha reprimenda sócio-educativa. Uma semana depois, Bendiuk foi preso na colônia por um agente do Departamento de Investigação provincial: ele foi acusado de assassinato e roubo noturno. Lídochka, morrendo de medo desse acontecimento, chorou em seu quarto e só saiu para perguntar a todos nós:

- Mas o que é isso? Como ele poderia matar? Ele saiu assim e matou?

Iekaterína Grigórievna, sorrindo seriamente, franziu a testa:

- Não sei, Anton Semiónovitch; Eu realmente não sei... Talvez eu deva apenas ir embora daqui... Eu não sei que tom usar aqui...

A floresta solitária ao redor de nossa colônia, as caixas vazias das nossas casas, os dez catres dobráveis ​​em vez de camas, o machado e a pá como ferramentas e a meia dúzia de educandos que recusavam categoricamente não apenas nossa pedagogia, mas toda e qualquer cultura humana. tudo isso, para dizer a verdade, não correspondia em nada à nossa experiência escolar anterior.

Nas longas noites de inverno, a colônia era angustiante, dava arrepios. Duas únicas lâmpadas a iluminavam, uma no dormitório e outra no meu quarto. As duas educadoras e Kaliná Ivánovitch tinham simples lamparinas flutuante, uma invenção da época de Kii, Schek e Joriv, dos tempos antediluvianos. O vidro da minha lamparina estava quebrado em cima e o resto todo fuliginoso, porque Kaliná Ivánovitch, ao acender o cachimbo, recorria frequentemente ao fogo da minha lamparina, enfiando para isso metade do jornal no vidro.

Naquele ano, as nevascas começaram cedo e todo o pátio da colônia estava cheio de pilhas de neve. Não tínhamos ninguém para limpar as trilhas. Pedi aos educandos que fizessem sozinhos e Zadórov me respondeu:

- Até podemos limpar os caminhos, mas só quando passar o inverno: senão a gente remove a neve, e ela cai de novo. Está entendendo?

Ele sorriu gentilmente e caminhou em direção a um companheiro, esquecendo-se da minha existência. Zadórov veio de uma família de intelectuais: você poderia dizer imediatamente. Falava bem, seu rosto se distinguia por aquele olhar lustroso que só as crianças bem alimentadas têm. Vólokhov era um tipo de outra espécie; boca larga, nariz achatado, olhos muito afastados, tudo isso, ao lado de uma peculiar mobilidade de traços, compunha uma cara de bandido. Vólokhov sempre mantinha as mãos nos bolsos dos culotes e agora se aproximava de mim com esta mesma pose:

- Então, já lhe explicaram...


continua na página 20...
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Leia também:

Livro Um
O inglório começo da Colônia Gorki (b)

domingo, 25 de junho de 2023

Marcel Proust - O Tempo Recuperado (Estes temas que Robert desdenhava)

em busca do tempo perdido

volume VII
O Tempo Recuperado



continuando...

Estes temas que Robert desdenhava assim, Gilberte, em troca, abordava-os de bom grado falando comigo quando ele partia. Claro que não em relação com seu marido, pois dele o ignorava ou fingia ignorá-lo tudo. Mas gostava de falar disto quando se tratava de outro, já porque visse nisso uma espécie de desculpa indireta para Robert, ou porque este, compartilhado como seu tio entre um silêncio severo sobre estes temas e uma necessidade de espionar e de falar mal de gente, caso tivesse-lhe contado coisas sobre muitos. Entre todos eles, não excluía ao Sr. de Charlus; e é certamente porque Robert, sem falar de Charlie a Gilberte, não pudera evitar repetir-lhe, sob uma ou outra forma, o que o violinista lhe dissera. E o violinista perseguia o antigo benfeitor com seu ódio; suas conversações, que Gilberte apreciava, permitiram-me indagar-lhe se, num paralelo, Albertine, cujo nome eu ouvia pela vez primeira através dela, quando eram colegas de curso, não tinham tais gostos. Gilberte não possuía informação. De resto, fazia muito tempo que aquilo deixara de oferecer interesse para mim. Mas eu continuava a me indagar maquinalmente, como um velho que, tendo perdido a memória, de vez em quando pede notícias de morto.

Curioso, é que essa coisa sobre tal assunto não posso me estender, será , até que ponto, por essa época, todas as pessoas que Albertine amava, todas que poderiam tê-la obrigado a fazer o que quisessem, pediram, imploraram, até dizer que mendigaram, na falta de minha amizade, algumas relações comigo. 

Não haveria mais necessidade de oferecer dinheiro à Sra. Bontemps para que mandasse Albertine de volta. Ocorrendo quando não mais servia para alguma, essa reviravolta da vida me entristecia profundamente, não por causa de Albertine, que eu teria recebido sem prazer se me fosse devolvida, não pelas faltas de além-túmulo; mas por pior causa é uma jovem a quem eu amava e podia chegar a ver. Dizia comigo que se ela morresse, ou se a deixasse todos os que poderiam me fazer aproximar dela decairiam a meus olhos. Não adiantava inutilmente agir sobre eles, visto não estar curado pela experiência que deveria me ensinar - se por acaso ensinasse alguma coisa - que amar é um destino de má sorte, como os que existem nos contos de fadas, e contra a qual nada pode fazer enquanto não for quebrado o encanto. 

- Justamente o livro que estou lendo fala dessas coisas - disse-me Gilberte - Falei desse mistério à Robert: "Nós nos entenderíamos perfeitamente." Ele jurou não se lembrar e que aquilo em todo caso, não tinha nenhum sentido. - É um velho romance de Balzac - prosseguiu Gilberte - que vou ler para pôr-me à altura de meus tios, A Menina dos Olhos de Ouro: inverossímil, absurdo, um tremendo pesadelo. Além disso, uma mulher tão falsa ser vigiada assim por outra mulher, nunca por um homem. - Você sabe conheci uma mulher a quem o homem que a amava virtualmente, jamais podia ver pessoa alguma, e só saía acompanhada de criados de confiança. Pois então, isto deve tê-lo horrorizado, você que é tão bom. Justamente, achávamos que deveria casar-se. Sua mulher haveria de curá-lo, e você a faria feliz. 

- Não, pois eu tenho muito mau gênio

- Que ideia!

- Juro-lhe! Aliás, já falei, mas não pude decidir a casar-me. A própria desistiu por causa do meu temperamento indeciso e maçante. 

Era de fato sob esta fórmula bem simplista, que julgava a minha aventura com Albertine, agora que via essa aventura de fora. 

Sentia-me triste ao subir sequer rever a igreja de Combray, que através de uma janela violácea. Dizia como se não fosse morrer até lá, não vendo outro lado da igreja, que se me afigurasse a morte, assim como havia existido. 

Entretanto, um dia falei se gostava de mulheres.

- Oh, de jeito nenhum - como jeito dela era duvidoso. 

- Eu disse isso  

- Você o disse (mas você se engana), fala naquela idade que não iriam muito por ela mesma, segundo as propostas à Albertine? Ou então que imaginamos, sabendo quando os outros podem estar mais certos, porém exagerá-la e errar por que se errassem por ausência do que desejaria tapar-me os olhos pronta para os ciumentos duvidosos de antigamente. O inverso ao fazer afirmações das relações com Gilberte, havia dito Andrée, pois são antes de conhecê-los como ocorre muitas vezes variantes das realidades inventadas. E então refiz minhas suposições; suposições, quase ignoradas mais prováveis como verdadeiras. Teria preferido dizer tudo para me ofuscar em Balbec, pelo que falara de mulheres conhecer do que se assume um ar entendi mesmo ignorando o que a Sra. Vinteuil e de Andrée, parte da "confraria", e só um homem de letras pergunta, até o dia em que a recuar. A não ser que fosse por ter sabido, durante um namoro que ele teria conduzido na direção que lhe interessava, das inclinações de Gilberte pelas mulheres, é que Robert a desposara, esperando prazeres, que encontrara, pois buscava-os em outra parte. Nenhuma dessas hipóteses depois, em mulheres como a filha de Odette ou entre as jovens do pequeno lugar, existe uma tal diversidade, um tamanho acúmulo de gostos alternados, não simultâneos, que facilmente passam da ligação com uma mulher a um amor por um homem, de modo que se torna difícil definir-lhes o gosto verdade e dominante. 

Não quis pedir emprestado a Gilberte o seu exemplar de A Menina dos Olhos de Ouro, (Fille aux yeux d'or), pois que o estava lendo. Mas ela me emprestou, para ler ao dormir, nesta última noite que passei em sua casa, um livro que me causou uma impressão muito viva e singular. Era um volume do diário inédito dos Goncourt. E quando, antes de apagar a minha vela, li a passagem que tratarei mais adiante, minha falta de condições para as letras, outrora pressentida no sonho de Guermantes confirmada durante a estada cuja última noite chegara. Na noite de véspera de partida, em que, cessando o torpor dos hábitos que vão retornar, procuramos julgar-nos; pareceu-me algo menos lastimável, como se alguém não revelasse nenhuma verdade profunda; e, ao mesmo tempo, parecia-me, que a literatura não fosse aquilo que eu havia julgado. Por outro lado, menos amável me parecia o estado doentio que iria confinar-me a uma casa de saúde as belas coisas de que falam os livros não eram mais belas do que as que eu tinha visto. Mas, devido a uma estranha contradição, agora que esse livro as mencionava, sentia vontade de vê-las. Eis as páginas que li até que o cansaço me fechou os olhos: 

"Anteontem, caiu-me aqui, para me levar a jantar em sua casa, Verdurin, o antigo crítico de La Revue, autor daquele livro sobre Whistler, onde na verdade a maneira, o colorido artístico do original americano, é muitas vezes traduzida uma grande delicadeza pelo amoroso de todos os requintes, de todas as lindas pinturas que é Verdurin. Enquanto me visto para sair com ele, ouço de sua partida um discurso, onde às vezes há como que o soletrar assustado depois de uma renúncia a escrever, tão logo se realize seu casamento com a Madeleine de Fromentin; renúncia que seria devida ao hábito de tomar morfina, e que, do Verdurin, levaria a maior parte dos convivas do salão de sua mulher desconfiando que o marido jamais houvesse escrito, falar-lhe de Charles Blanc, Saint-Victor, de Saint-Beuve, de Burty, como de uns indivíduos aos quais o imaginamos inferiores. 'Ora, você, Goncourt, sabe muito bem e Gautier também, que meus salões eram coisa bem superior do que esses lamentáveis Maîtres d'autrefois da obra-prima na família de minha mulher. Depois de um crepúsculo que perto das torres do Trocadero emitem como à centelhas iguais às torres cobertas de geleia de groselha dos antigos pasteleiros. A conversa continua no carro que leva-nos ao Quai Conti onde está seu hotel que seu possuidor pretender ser o antigo hotel dos embaixadores de Veneza, onde parece haver um fumior de que fala Verdurin; uma sala decorada tal como estava à maneira das Mil e Uma Noites, de um célebre palazzo de nome que não me lembro, palazzo portando um poço cujo bocal representa uma coroação da Virgem que, segundo Verdurin é sem dúvida alguma do mais belo Sansovino e que serviria para que seus convidados jogassem a cinza dos charutos. E a verdade é que quando chegamos, à luz glauca e difusa de uma claridade da lua, verdadeiramente parecido aos que iluminam Veneza na pintura clássica, e no qual a silhueta da cúpula do Instituto faz pensar em Salute nos quadros de Guardi. Tenho um pouco a ilusão de estar a beira do Grande Canal. E a ilusão favorecida pela construção do hotel no qual no primeiro piso, não se vê o mole e pelas frases do dono da casa afirmando que o nome da Rua du Bac – nunca me ocorrera pensar tal coisa – vinha das barcas nas quais as monjas de outros tempos; as religiosas de outrora, na infância quando vivia nele minha tia Courmont, e que agora ponho a relembrar ao encontrar, quase contígua ao hotel dos Verdurin, a insígnia de Petit Dunkerque”, uma das estranhas lojas superviventes fora dos viñetados nos desenhos de Gabriel de Saint -Aubin, ali onde o século XVIII curioso devia sentar em seus momentos de ócio para o regateio das francesas e estrangeiras e “todo o mais novo que produz nas artes. Como diz uma fatura desse Petit Dunkerque, fatura da qual, conforme acredito, só Verdurin e eu possuímos uma prova e que é sem dúvida uma das volantes obras mestras de papel ornamentado no reinado de Luis XV que fazia suas contas; com seu cabeçalho representando um mar tempestuoso, cheio de navios, um mar com umas ondas como de uma ilustração da edição dos Coletores de Impostos de L'huî tre et plaideurs. A proprietária da casa, que vai sentar a seu lado, diz-me amavelmente que adornou a mesa só com crisântemos japoneses, mas uns crisântemos colocados em vasos que seriam obras de arte muito estranhos, um deles de bronze sobre os quais umas pétalas de cobre avermelhado pareciam as autênticas folhas desprendidas da flor. Estão os Cottard -o doutor e sua mulher-, o escultor polonês Viradobetski, o colecionador Swann, uma alta senhora russa, uma princesa cujo nome em of esta diz-me ao ouvido que foi ela quem atirou à queima-roupa no arquiduque a acreditar nela, eu teria na Galícia e em todo o norte da Polônia uma absolutamente excepcional, moça nenhuma prometendo a sua mão sem que o noivo é um admirador de La Faustin.'Vocês, ocidentais, não podem com isso', lança, à maneira de conclusão, a princesa, que me dá, por minha fé; ai são de uma inteligência realmente superior, 'essa penetração, por um escritor da intimidade de uma mulher'. Um homem de queixo e lábios raspados, e de mordomo, proferindo, em tom de condescendência, gracejos de ginásio que confraterniza com os primeiros da turma para os festejos Magno, é Brichot, o universitário. Ante o meu nome, pronunciado por Verdurin tem uma só palavra para mostrar que conhece nossos livros, e sinto desânimo despertado por essa conspiração que a Sorbonne organiza levando até a casa amável onde sou festejado a contradição e a hostilidade do silêncio intencional.

continua na página 021...
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Leia também:

Volume 1
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
A Prisioneira (Prefácio)
Volume 6
Volume 7
O Tempo Recuperado (Estes temas que Robert desdenhava)

Marcel Proust - A Fugitiva (Mágoa e Esquecimento - d)

em busca do tempo perdido

volume VI
A Fugitiva



Capítulo I
Mágoa e Esquecimento


continuando...


Saint-Loup mal teria entrado no trem quando cruzei na minha antecâmara com Bloch, a quem não ouvira tocar a campainha, de modo que fui obrigado à recebê-lo por um instante. Ultimamente, ele me havia encontrado com Albertine (já a conhecia de Balbec), num dia em que ela estava de mau humor.

- Jantei com o Sr. Bontemps - falou-me e, como exerço uma certa influência sobre ele, de ti demonstrei-lhe minha tristeza pelo fato de sua sobrinha não ser mais amável contigo; e disse que era necessário que ele intercedesse nesse sentido. - 

Eu sufocava de cólera: tais pedidos e queixas destruíam todo o efeito das diligências de Saint-Loup e punham-me diretamente em contato com Albertine, a quem eu pareceria estar implorando. Para cúmulo da infelicidade, Françoise, que ficara na antecâmara, ouvia tudo aquilo. Fiz todas as censuras possíveis à Bloch, dizendo-lhe que de maneira alguma o havia encarregado de semelhante missão, e que aliás o caso era falso. A partir daquele momento, Bloch não mais deixou de sorrir, menos, creio, de alegria que de constrangimento por me haver contrariado. Rindo, ele se surpreendia de causar semelhante raiva. Talvez dissesse isso para diminuir a meus olhos a importância de sua ação indiscreta, talvez porque era de natureza covarde, e vivia alegre e perigosamente nas mentiras, como as medusas à flor das águas, talvez porque, mesmo pertencendo a outra raça de homens, os outros, não podendo jamais colocar-se no mesmo ponto de vista que nós, não compreendem a importância do mal que suas palavras ditas ao acaso podem nos fazer. Acabava de acompanhá-lo até a porta, não encontrando nada que pudesse remediar o que ele fizera, quando tocaram de novo e Françoise me entregou uma intimação para comparecer à presença do chefe de polícia. Os pais da menina que eu trouxera para casa tinham apresentado uma queixa contra mim por corrupção de menor. Há momentos na vida em que uma espécie de beleza nasce da multiplicidade de aborrecimentos que nos assaltam, entrecruzados como motivos wagnerianos, e também da noção, que aí aparece, de que os acontecimentos não se situam no conjunto dos reflexos representados no pobre espelhinho que a inteligência leva à sua frente e a que denomina futuro, mas estão fora deles e surgem tão bruscamente como alguém que vai testemunhar o flagrante de um crime. Entregue a si mesmo, um acontecimento já se modifica, seja porque o fracasso o aumente a nossos olhos, seja porque a satisfação o reduza. Mas raramente ele está sozinho. Os sentimentos excitados por cada um deles se contradizem, e, em certa medida, como pude comprová-lo indo à delegacia de polícia, isso constitui, ao menos momentaneamente, um revulsivo tão eficaz contra as tristezas sentimentais quanto o medo. Na Polícia, encontrei os pais da menina, que me insultaram, e dizendo: 

- Não comemos desse pão -; devolveram-me os quinhentos francos (que eu não queria aceitar); o delegado, adotando como exemplo inimitável a facilidade de réplica dos juízes criminais, pegava uma palavra de cada frase que eu dizia e com ela formava uma resposta espirituosa e acabrunhadora. Nem sequer se cuidou de minha inocência no caso, pois foi a única hipótese que ninguém quis admitir um só momento. Não obstante, as dificuldades de incriminação fizeram com que me livrasse à custa de um sabão violentíssimo, na presença dos pais. Porém, logo que estes se retiraram, o delegado, que gostava de meninas, mudou de tom e me censurou como a um camarada: 

- De outra vez, precisa ser mais hábil. Droga, não se faz uma abordagem tão súbita, que estraga o negócio. Além do mais, o senhor pode encontrar em toda parte meninas melhores que esta, e bem mais baratas. O preço era loucamente exagerado... - 

Senti de maneira tão viva que ele não me entenderia, caso eu tentasse lhe explicar a verdade, que, sem dizer palavra, aproveitei a licença que me deu para me retirar. Até chegar em casa, todos os que passavam me pareceram inspetores encarregados de vigiar meus atos e meus gestos. Mas todos esses motivos, bem como o contra Bloch, extinguiram-se para deixar espaço unicamente ao de Albertine. Ora, este motivo retornara, mas de um modo quase alegre, partida de Saint-Loup. Desde que ele se encarregara de ir ver a Sra. Bontemps os sofrimentos se haviam dispersado. Eu achava que era pelo fato de ter agido de boa-fé, pois nunca sabemos o que se oculta em nossa alma. No que me fazia feliz não era, como pensava, o ter descarregado as minhas decisões sobre Saint-Loup; aliás, eu não me enganava absolutamente. O remédio para curar um acontecimento infeliz (três quartas partes dos acontecimentos é uma decisão; pois ela tem como efeito, devido a uma brusca reviravolta nossas idéias, interromper o fluxo das que provêm do acontecimento que prolongam sua vibração, de quebrá-lo por um fluxo inverso de idéias, vindo do futuro. Mas essas novas idéias são principalmente benéficas (e era o caso que me assaltavam naquele momento) quando, do cerne desse futuro, o que trazem é uma esperança. O que no fundo me tornava tão feliz era a certeza de que, não podendo fracassar a missão de Saint-Loup, Albertine não podia deixar de voltar. Compreendi-o, pois, não tendo recebido desde o primeiro dia nenhuma resposta de Saint-Loup, recomecei a sofrer. Minha decisão e a transferência de meus plenos poderes não eram então a causa de minha alegria, que assim mesmo, isso teria durado, mas "o êxito é garantido" que eu havia pensado quando: "Aconteça o que acontecer." E a idéia, sugerida pela sua demora, de que podia ocorrer coisa diversa do êxito, era-me tão odiosa que eu perdera a minha alegria. Na realidade, é a nossa previsão, nossa esperança de acontecimentos felizes, que nos enche de uma alegria que atribuímos à outras causas, e que cessa por nos deixar recair no desgosto, se já não temos tanta certeza de que se realize aquilo que desejamos. É sempre esta crença invisível que sustenta o edifício do nosso mundo sensitivo e sem a qual ele oscilaria. Já vimos que ela constituía a nós o valor ou a nulidade das criaturas, o entusiasmo ou o tédio de vê-las da mesma forma, dá-nos a possibilidade de suportar um desgosto que nos parece medíocre, sobretudo porque estamos convencidos de que vai findar; ou o brusco aumento, até que uma nova presença valha tanto quanto a nossa vida, e às vezes mais do que ela. De resto, uma coisa acabou tornando a dor de meu coração tão aguda como o fora no primeiro instante quando, é por força confessá-lo, já não o sentia mais. Aconteceu ao reler uma frase da carta de Albertine. Debalde amamos criaturas; quando, isolados, só nos defrontamos com o sofrimento de perdê-las; que o nosso espírito dá em certa medida a forma por ele desejada, tal sofrimento suportável e diverso daquele outro, menos humano, menos nosso, tão esquisito, inesperado como um acidente no mundo moral e na zona do coração que tem como causa menos diretamente as próprias criaturas do que a maneira como ficamos sabendo que não mais as veríamos. Albertine, eu podia pensar nela, chorando suavemente, aceitando não vê-la esta noite, como já não a vira ontem; porém reler minha decisão é irrevogável, era outra coisa. Era como tomar um remédio perigoso, que me provocaria uma crise cardíaca à qual não se pode sobreviver. Existe nas coisas, nos fatos, nas cartas de rompimento, um perigo particular que amplia e desnatura a própria dor que as pessoas podem nos causar. Mas esse sofrimento dura pouco. Apesar de tudo, sentia-se tão seguro do sucesso da habilidade de Saint-Loup, a volta de Albertine me parecia uma coisa tão certa, que me indaguei se tivera razão para desejá-la. Todavia, rejubilava-me por isso.

Infelizmente para mim, que julgava terminado o incidente com a Polícia, Françoise me informou que um inspetor viera saber se eu tinha o hábito de receber moças em casa, e que o porteiro, pensando que ele se referia à Albertine, dissera que sim; e que, a partir desse momento, a casa parecia estar sendo vigiada. Desde então, seria para sempre impossível mandar vir uma menina para me consolar dos meus desgostos, sem me arriscar a sofrer o vexame, diante dela, que um inspetor aparecesse, e ela me tomasse por um malfeitor. E ao mesmo tempo, compreendi como vivemos mais em função de certos sonhos do que imaginamos, pois essa impossibilidade de embalar jamais uma criança me pareceu tirar todo o valor da vida; mas percebi também o quanto é compreensível que as pessoas facilmente recusem a fortuna e se arrisquem à morte, ainda que imaginemos que o interesse e o medo de morrer dominem o mundo. Pois, se eu tivesse imaginado que até uma menina desconhecida pudesse formar, por causa da chegada de um policial, uma idéia vergonhosa de mim, como seria preferível que me matasse! Nem sequer havia ponto de comparação possível entre os dois sofrimentos. Ora, na vida, as pessoas nunca refletem que aqueles a quem dão dinheiro, ou ameaçam de morte, podem ter uma amante, ou até simplesmente um companheiro, a cuja estima dão grande valor, mesmo quando não se estimam a si próprios. Mas, de repente, devido a uma confusão de que não me dei conta (de fato, não pensei que Albertine, sendo maior, poderia morar em minha casa e até ser minha amante), pareceu-me que a corrupção de menores podia também se aplicar à Albertine. Então a vida se me afigurou cerceada por todos os lados. E, pensando que não vivera castamente com ela, encontrei na punição que me era infligida por ter acalentado uma menina ignorada, essa relação que existe quase sempre nos castigos humanos; e que faz com que não haja quase nunca, nem condenação justa, nem erro judiciário, mas uma espécie de harmonia entre a idéia falsa que o juiz forma acerca de um ato inocente e os fatos culposos que ignorou. Mas então, pensando que o regresso de Albertine podia me acarretar uma condenação infame que me degradaria a seus olhos, e talvez causasse a ela mesma um prejuízo de que jamais me perdoaria, deixei de desejar esse regresso, que me apavorava. Gostaria de lhe telegrafar para que não voltasse. E imediatamente, sufocando tudo o mais, invadiu-me o desejo apaixonado de que ela regressasse. Ao mesmo tempo que, tendo considerado por um instante a possibilidade de lhe dizer que não voltasse e de viver sem ela, vi-me de súbito, pelo contrário, prestes à todos os prazeres, todas as viagens, todos os trabalhos, para que Albertine regressasse!

Ah, como o meu amor por Albertine, cujo destino eu achava quase prever conforme o amor que tivera por Gilberte, desenvolvera-se em perfeito contraste com este último! A que ponto era-me impossível ficar sem vê-la! E como um ato, por mínimo que fosse, porém antes envolto na feliz atmosfera da presença de Albertine, era-me preciso, de cada vez, com novos esforços, com a mesma, recomeçar a aprendizagem da separação. Depois, a concorrência das outras vidas devolvia à sombra essa nova dor, e, durante esses dias, os primeiros da primavera, cheguei até, enquanto esperava que Saint-Loup visse a Sra. Bontemps, ao imaginar Veneza e belas mulheres desconhecidas, a passar alguns momentos de calma agradável. Logo que percebi isso, senti um terror de pânico. Este que eu acabara de desfrutar era a primeira aparição daquela grande força inteiramente, que ia lutar em mim contra a dor, contra o amor, e acabaria por triunfar sobre àquilo de que eu acabava de ter o ante o gosto; e de conhecer o presságio era, por instante apenas, o que mais tarde seria em mim um estado permanente, uma decisão em que eu não poderia mais sofrer por Albertine, em que já não a amaria. É o amor, que acabava de reconhecer o único inimigo pelo qual poderia ser derrotado. O esquecimento, pôs-se a tremer, como um leão que, na jaula onde o trancaram a vista de súbito da serpente píton que há de devorá-lo.