domingo, 19 de janeiro de 2025

Victor Hugo - Os Miseráveis: Cosette, Livro Primeiro - Waterloo / VIII — O imperador faz uma pergunta ao guia Lacoste

Victor Hugo - Os Miseráveis


Segunda Parte - Cosette

Livro Primeiro — Waterloo

VIII — O imperador faz uma pergunta ao guia Lacoste
     
     Napoleão, estava, pois, alegre naquela manhã de Waterloo, e tinha razão para o estar. 
     O plano de batalha concebido por ele era, com efeito, admirável.
     Uma vez travada a batalha, nem as suas variadíssimas peripécias, nem a resistência de Hougomont, nem a tenacidade de Haie-Sainte, nem a morte de Bauduin, nem Foy posto fora do combate, nem a inesperada muralha, de encontro à qual foi destruída a brigada de Soye, nem o fatal atabalhoamento de Guilleminot, que não tinha balas, nem cartuchos, nem as baterias atoladas, nem as quinze peças sem escolta, destruídas por Uxbridge, numa azinhaga, nem o pouco efeito das bombas, que caíam nas linhas inglesas e que se enterravam no chão amolecido pela água da chuva, sem outro efeito mais do que levantar vulcões de lama, de modo que a metralha tornava-se em salpicos, nem a inutilidade da demonstração de Pire contra Braine-l’Alleud, nem a cavalaria, que se compunha de quinze esquadrões, reduzida quase toda a nada, nem a ala direita do exército inglês, mal atacada, nem a ala esquerda, mal combatida, nem o estranho equívoco de Ney, agrupando, em vez de destacar, as quatro divisões do primeiro corpo espessuras de vinte e sete fileiras e vanguardas de duzentos homens, entregues daquele modo à metralha, nem a destruição das balas naquelas massas, as colunas de ataque desunidas, a bateria do flanco descoberta subitamente, nem Bourgeois, Donzelot, Durutte em perigo e Quiot repelido, nem o tenente Vieux, esse Hércules saído da escola politécnica, ferido na ocasião em que arrombava, a golpes de machado, a porta de Haie-Sainte, debaixo do fogo que lhe faziam de cima da trincheira inglesa, que tapava a volta da estrada de Genappe a Bruxelas, nem a divisão de Marcognet, apanhada entre a infantaria e a cavalaria, espingardeada à queima-roupa, no meio das searas de trigo, por Best e Pack, e acutilada por Ponsonby, nem a sua bateria de sete peças encravadas, nem a resistência do príncipe de Saxe-Weimar contra o conde de Erlon, Frischemont e Smohain, para guardar a bandeira que havia tomado ao regimento 105.º, nem a bandeira do regimento 45.º, também tomada, nem o hussardo negro prussiano, feito prisioneiro pelos batedores da coluna volante de trezentos caçadores, que batiam a estrada entre Wavre e Plancenoit, nem as assustadoras notícias dadas pelo prisioneiro, nem a demora de Grouchy, nem os mil e quinhentos homens prostrados por terra em menos tempo ainda, em volta de Haie-Sainte; nenhum destes incidentes tempestuosos, passando por diante de Napoleão, como as nuvens de fumo de batalha, lhe perturbaram o olhar ou fizeram ensombrar aquela face imperial do homem seguro de si. Napoleão estava acostumado a olhar a guerra de frente, sem fazer a soma pungente das circunstâncias, algarismo por algarismo; importavam-lhe pouco os algarismos, contanto que eles dessem esta soma: Vitória; nem se assustava que as coisas não corressem bem ao princípio, pois julgava-se senhor e possuidor do fim delas; sabia esperar, supondo «que ninguém lhe podia pedir contas do que fazia, e tratando o destino como de igual para igual. Parecia que dizia à sorte: «Não és capaz».
     Napoleão, meio sombra, meio luz, sentia-se protegido no bem e tolerado no mal. 
     Dava-se, ou julgava que se dava com ele, uma convivência, ou quase diríamos uma cumplicidade dos acontecimentos, equivalente à invulnerabilidade antiga. 
     Parece, todavia, que quem tinha no seu passado Beresina, Leipsick e Fontainebleau podia desconfiar de Waterloo. Na amplidão do céu torna-se visível qualquer misterioso franzir de sobrancelhas.
     Napoleão estremeceu quando Wellington recuou. 
     Ao ver subitamente desguarnecido o alto do Mont-Saint-Jean e desaparecer a vanguarda do exército inglês, que se escondia, embora para se reunir de novo, ergueu-se nos estribos e pelos olhos passou-lhe o relampejar da vitória. 
     Wellington, encurralado na floresta de Soignes, era a Inglaterra definitivamente derribada pela França; era a vingança de Crecy, Poitiers, Malplaquet e Ramillies. Era o homem de Marengo passando um traço negro por cima de Azincourt.
     O imperador, a quem a sua guarda, colocada por trás dele com as armas em descanso, observava com uma espécie de religião, ao lembrar-se então da terrível peripécia, deitou o óculo pela última vez para todos os pontos da batalha e pôs-se a meditar, a examinar as confluências dos montes, a notar os declives, a perscrutar as moitas de árvores, a amplidão das searas, os meandros dos carreiros; parecia contar cada espinheiro das sarças. Contemplou com certa fixidez as trincheiras inglesas das duas estradas, formadas de grandes juncadas de árvores, a saber: a da estrada de Genappe acima de Haie-Sainte, guarnecida de duas peças, as únicas do exército que podiam fazer fogo para o fundo do campo de batalha, e a da estrada de Nivelles, onde se viam brilhar as baionetas holandesas de Chassé.
     Notando então ao pé desta trincheira a capela de S. Nicolau, caiada de branco, a qual fica na volta do atalho que vai para Braine-l’Alleud, curvou-se e falou a meia-voz ao guia Lacoste, que fez um sinal de cabeça negativo, decerto pérfido. 
     Depois endireitou-se e tornou a embrenhar-se nas suas cogitações. 
     Wellington tinha recuado. Restava, pois, acabar aquele retrocesso por uma derrota completa.
     De súbito, Napoleão voltou-se e expediu para Paris um correio a toda a brida, encarregado de anunciar que estava ganha a vitória. 
    Napoleão, que era um desses gênios de que sai o trovão, acabava de encontrar o seu raio, dando ordem aos couraceiros de Milhaud para tomar o alto do Mont-SaintJean.

continua na página 252...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Cosette, Livro Primeiro - VIII — O imperador faz uma pergunta ao guia Lacoste
Os Miseráveis: Cosette, Livro Primeiro - IX — O imprevisto
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Victor Hugo

OS MISERÁVEIS 

Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

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