segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

Victor Hugo - Os Miseráveis: Cosette, Livro Primeiro - Waterloo / XII — A guarda

Victor Hugo - Os Miseráveis


Segunda Parte - Cosette

Livro Primeiro — Waterloo

XII A guarda
     
     O resto sabe-se; a irrupção de um terceiro exército, a deslocação da batalha, oitenta e seis bocas de fogo troando de repente, a chegada súbita de Pirch 1.º com Bulow, a cavalaria de Zieten comandada por Blucher em pessoa, os franceses rechaçados, Marcognet varrido da azinhaga de Ohain, Durutte desalojado de Papelotte, retirada de Donzelot e Quiot, Lobau apanhado de lado, nova batalha travada com os nossos desmantelados regimentos ao cair da noite, a linha inglesa tomando toda outra vez a ofensiva e impelida para a frente, a rotura gigantesca feita no exército francês, a metralha inglesa e a metralha prussiana auxiliando-se mutuamente, o extermínio, a destruição pela frente e pelo lado, e a guarda a entrar em linha no meio deste destroço formidável.
     Ao conhecer que ia morrer, a guarda gritou: «Viva o imperador!» Não se encontra na história coisa mais patética do que esta agonia, rompendo em aclamações. 
     O céu, que todo o dia estivera encoberto, ficou limpo de súbito, exatamente naquela ocasião (eram oito horas da tarde), afastando-se as nuvens do horizonte para darem passagem à sinistra vermelhidão do sol poente por entre os olmos da estrada de Nivelles. Em Austerlitz viram-no os combatentes nascer.
     Naquele desenlace, cada batalhão era comandado por um general. Ali se acharam Friant, Michel, Roguet, Harllet, Mallet, Poret de Morvan. Quando as barretinas dos granadeiros da guarda com a sua larga chapa da águia apareceram no meio da neblina da refrega, simétricos, alinhados, tranquilos, o inimigo sentiu-se dominado de respeito pela França, julgando ver entrar no campo da batalha vinte vitórias de asas abertas, e os que eram vencedores recuaram, julgando-se vencidos. 
     Wellington, porém, gritou-lhes:

— A pé, guardas, e pontaria certa!

     O regimento vermelho dos guardas ingleses, deitado por trás das sebes, levantou-se, a bandeira tricolor, que tremulava em volta das nossas águias, foi crivada por uma nuvem de metralha, e os combatentes arrojaram-se uns contra os outros principiando então a suprema carnificina. 
     A guarda imperial sentiu nas sombras o exército a fugir, sentiu o vasto abalo da derrota, ouviu o «salve-se quem puder!» que substituíra o «viva o imperador!», mas se bem que todos fugissem, ela continuou a avançar, cada vez mais dizimada pela morte, a cada passo que dava. Não houve ali irresolutos nem tímidos. Naquele regimento, tão heroico era o soldado como o general.  
     Nem um só homem fugiu ao suicídio.
     Ney, no meio daquela tormenta, oferecia-se aos golpes de todos, desvairado e grande em toda a sua altura de homem que aceita voluntário a morte. Ali lhe mataram o quinto cavalo. A escorrer em suor, com a chama nos olhos, a escuma nos lábios, a farda desabotoada, uma das dragonas meia cortada por uma cutilada de um guarda a cavalo, a sua chapa com a grande águia amolgada por uma bala, banhado em sangue, cheio de lama, magnífico, com uma espada quebrada na mão, dizia:

— Vinde ver como um marechal de França morre no campo da batalha!

     Porém, foi debalde; ele não morreu. Ney andava desvairado e indignado, fazendo esta pergunta a Drouet de Erlon: 

— Então tu não encontras quem te mate? 

     E gritando no meio daquela artilharia a esmagar um punhado de homens: 

— Oh, quisera que todas estas balas inglesas me entrassem na barriga, mas para mim não há nada! 

     Estava reservado para as balas francesas, infeliz! 

continua na página 262...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Cosette, Livro Primeiro - XII — A guarda
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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