segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

Victor Hugo - Os Miseráveis: Cosette, Livro Primeiro - Waterloo / IX — O imprevisto

Victor Hugo - Os Miseráveis


Segunda Parte - Cosette

Livro Primeiro — Waterloo

IX O imprevisto
     
     Eram três mil e quinhentos gigantes montados em cavalos colossos, que, formados em linha, ocupavam um quarto de légua de terreno; eram vinte e seis esquadrões, protegidos pela retaguarda, pela divisão de Lefebvre-Desnouettes; cento e seis gendarmes escolhidos, mil cento e oitenta e sete caçadores e oitocentos e oitenta lanceiros. Traziam capacetes sem penacho e couraças de ferro batido, com pistolas de arção nos coldres e o comprido sabre-espada. 
     Às nove horas da manhã, admirou-os todo o exército, quando no meio do clangor das trombetas e das harmonias das músicas que cantavam: 

— Velemos pela salvação do império.

     Vieram em coluna cerrada e com uma das baterias ao lado e a outra no centro, formar-se em duas filas, entre as estradas de Genappe e a de Frischemont, e tomar o seu lugar para a batalha nessa valente segunda linha, tão sabiamente composta por Napoleão, a qual, para assim dizer, tinha duas alas de ferro, porque na extremidade esquerda ficavam-lhe os couraceiros de Kellermann e na extremidade direita os couraceiros de Milhaud. 
     Recebida a ordem do imperador, que lhes foi levada pelo ajudante de campo Bernard, Ney desembainhou a espada e pôs-se à frente dos enormes esquadrões, que levantaram campo.
     Toda aquela cavalaria, de sabres em punho, estandartes e trombetas ao vento, formada em duas colunas, desceu com movimento uniforme, parecendo um só homem, e com a exatidão de um aríete aferindo uma brecha, a colina de Belle Alliance, entranhou-se no terrível vale, onde já tantos homens haviam caído, e desapareceu por entre o fumo, saindo em seguida daquela sombra para reaparecer do outro lado, ainda cerrada e compacta, subindo a galope, por entre um chuveiro de granadas, que lhe rebentavam por cima, a medonha rampa de lama, que conduzia ao alto do Mont-SaintJean. Eles subiam, graves, ameaçadores, imperturbáveis; nos intervalos da mosquetaria e da artilharia, ouvia-se aquele mover de pé~colossal. Eram duas divisões, formando duas colunas, à direita, a divisão de Wathier, à esquerda; a divisão de Delord. Quem via de longe, pareciam-lhe duas imensas cobras de aço, estendendo-se para o alto do Mont-SaintJean. Aqueles homens atravessaram o campo de batalha como um prodígio.
     Desde a tomada do grande reduto de Moskowa pela grossa cavalaria, não se tornara a ver coisa semelhante; faltava ali Murat, mas estava Ney. Parecia que aquela massa se tinha convertido num monstro com uma só alma. Por entre uma nuvem de fumo, rasgada aqui e além, viam-se os esquadrões estendendo-se, ondulando, como os anéis de um pólipo. Era uma confusão de capacetes, gritos e sabres, de saltos impetuosos dos cavalos, jogando de garupa, ao estrondo do canhão e ao tanger das trombetas, um tumulto disciplinado, mas terrível, e por cima de tudo isto as couraças, como as escamas sobre a hidra.
     Parece um conto de outros tempos isto que narramos. Só nas antigas epopeias órficas, em que se descrevem os homens-cavalos, os antigos hipantropos, titãs com rosto humano e peitos de cavalo, que escalaram o Olimpo, horríveis, invulneráveis, sublimes; deuses e animais; só nas antigas epopeias órficas, dizemos, é que aparecem coisas semelhantes a esta visão.
     Estranha coincidência numérica! Aqueles vinte e seis esquadrões iam ser recebidos por vinte e seis batalhões. Por trás do alto da planura, esperava-os muda, imóvel protegida pela bateria oculta a infantaria inglesa, formada em treze quadrados, a dois batalhões cada um, e em duas linhas, sete na primeira, seis na segunda, de coronhas fincadas ao ombro, fazendo pontaria para o que vinha. Os soldados ingleses, porém, não viam os couraceiros, nem os couraceiros viam os soldados ingleses. Estes ouviam subir aquela maré de homens; ouviam cada vez mais distinto o ruído de três mil cavalos a trote largo, o bater alternado e simétrico das ferraduras nas pedras da estrada, o atrito das couraças, o tinir dos sabres e um como hálito feroz. Após uma pausa terrível, em que tudo era silêncio, apareceu subitamente em cima da esplanada uma comprida fileira de braços erguidos brandindo sabres, uma multidão de capacetes, trombetas e estandartes, e três mil cabeças de homens de bigode russo, gritando:

— Viva o imperador!

     Parecia que tremia a terra, ao desembocar na planície toda aquela cavalaria. 
     De súbito — trágico sucesso! — do meio da vanguarda da coluna dos couraceiros levantou-se um clamor terrível. Ao chegarem ao alto da encosta, tinham dado de chofre com um fosso, uma vala que se estendia entre eles e os ingleses. Era a azinhaga de Ohain.  
     Foi medonho aquele momento, quando repentina, inesperadamente, lhes surgiu diante aquele barranco, que se abria a prumo a uma profundidade de duas toesas debaixo dos pés dos cavalos; estes empinavam-se, atiravam-se para trás, levantavam as patas no ar e caíam de costas, pisando e ferindo os cavaleiros, que não tinham meio de recuar, porque a primeira fileira impelia a segunda, a segunda a terceira. A coluna tornou-se um projétil; a força adquirida para esmagar os ingleses esmagou os franceses. Cavalos e cavaleiros, tudo caiu de roldão naquele barranco inexorável, que para se transpor era necessário que estivesse entulhado, esmagando-se uns aos outros, fazendo uma só carne, naquele sorvedouro. Cheia a cova, o resto passou, caminhando por cima dos que tinham caído. Ali ficou quase um terço da brigada de Dubois, e este desastre foi o princípio da perda da batalha.
     Diz uma tradição local, evidentemente exagerada, que dois mil cavalos e mil e quinhentos homens ficaram sepultados na azinhaga de Ohain. Esta cifra, porém, a que se faz subir o número dos mortos, compreende, provavelmente, todos os outros cadáveres que no dia do combate foram lançados àquele barranco.
     Napoleão observara o terreno antes de ordenar a carga dos couraceiros de Milhaud, porém, não pôde ver a azinhaga, que não formava sequer uma ruga na superfície do terreno. Avisado, porém, e como que despertado pela capelinha branca que marca a volta da estrada de Nivelles, fez, talvez receoso da eventualidade de qualquer obstáculo, alguma pergunta ao guia Lacoste. O guia respondeu que não.
     Quase diríamos, pois, que desse aceno de cabeça de um aldeão é que brotou a catástrofe de Napoleão. 
     Outras fatalidades, porém, tinham de surgir. Era possível que Napoleão ganhasse esta batalha? Respondemos que não. Porquê? Por causa de Wellington? Por causa de Blucher? Não. Por causa de Deus.
     A lei do século XIX não concedia a Bonaparte a vitória de Waterloo. Preparava-se outra série de fatos, em que Napoleão já não tinha lugar. Havia muito que a má vontade dos acontecimentos se tinha declarado. 
     Era chegado o tempo de tão grande homem cair.
     A sua excessiva gravidade nos destinos humanos perturbava o equilíbrio. Este indivíduo, só por si, pesava mais do que o grupo universal. Seriam mortais para a civilização, se durassem, estas pletoras da vitalidade humana concentrada toda numa só cabeça, o mundo junto no cérebro de um só homem. Chegara o momento em que a incorruptível equidade suprema reconsiderava. Naturalmente tinham feito ouvir as suas queixas os princípios e elementos, de que dependem as gravitações regulares, tanto na ordem moral como na ordem material. O sangue ainda fumegante, o atulhamento dos cemitérios, as lágrimas das mães, são arrazoados temíveis. Quando a terra sofre com a demasia do peso que a sobrecarrega, há gemidos misteriosos na sombra, que são ouvidos pelo abismo.
     Napoleão fora denunciado no infinito, e a sua queda estava decidida. 
     Incomodava Deus. 
     Waterloo não é uma batalha; é a mudança de aspecto do Universo.

continua na página 254...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Cosette, Livro Primeiro - IX — O imprevisto
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Victor Hugo

OS MISERÁVEIS 

Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

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