Graciliano Ramos
Volume I
Editora Record
PRIMEIRA PARTE
VIAGENS
20
IGNORO onde me escondi para mudar a roupa. Na véspera, dentro da escuridão leitosa, ter-me-ia podido arranjar facilmente. Fugindo às luzes do centro, buscando as margens obscuras onde fervilhavam sombras vivas, teria conseguido meio de arrancar do corpo os medonhos constrangimentos de lã, insuportáveis naquela temperatura. Com o dia, a vista habituando-se na indecisa claridade que vinha das aberturas superiores e laterais, todos os recantos se devassavam. Pouco a pouco me livrei das peças incômodas, tirei a gravata, o colarinho, o paletó, enquanto prosseguia a conversa com Miguel Bezerra, iniciada à noite, interrompida muitas vezes. Certamente pude expressar-me direito, pois o moço não pareceu descobrir nas minhas palavras nenhum desconchavo; de fato não me inteirava do assunto, as ideias baralhavam-se de maneira lastimosa. O que retive bem naquela manhã foi a causa do desassossego do meu novo camarada ao avistar-me: supusera-me funcionário da polícia..
Agora a suspeita se desfazia. Sebastião Hora parolava com José
Macedo e Lauro Lago a respeito da Aliança Nacional Libertadora, a
princípio sufocada, afinal posta no xadrez; os meus companheiros de
Alagoas, apenas entrevistos no quartel, mal examinados nos sacolejos do
caminhão, desconhecidos quase todos, começavam a entender-se com a
gente do Rio Grande; e, sem chapéu, sem valise, exibindo-me em
camisa, despojava-me da feição policial. Naquele momento o meu desejo
era evitar a presença de Leonila e Maria Joana, livrar-me dos restos do
vestuário pesado. Em tal situação, o recurso melhor seria pedir aos
passageiros machos que formassem diante de mim uma espécie de cerca
humana e, protegido por ela, despir-me, arranjar-me convenientemente.
Devo ter feito isso, não me lembro. Sei que me achei metido no pijama.
Dobrei cuidadosamente a calça e o paletó, arrumei-os sobre a maleta e conservei os meus troços à vista, pois eram
tudo quanto eu possuía e ali dentro começavam a representar enorme
valor.
Alguém me preveniu de que viajavam conosco vagabundos e
ladrões. Retirei da carteira as cédulas, dobrei-as, ocultei-as num
compartimento do porta-moedas, guardei a pequena fortuna no bolso do
pijama, debaixo do lenço. Ali estava em segurança. Mas não queria
desviar-me dos outros bens: de quando em quando precisava certificar-me de que existiam os blocos de papel, os lápis, as cuecas, as meias, as
camisas. Tentava-me o desejo de recomeçar as notas interrompidas no
quartel, jogar na folha as últimas impressões, atabalhoadas,
continuamente dissolvidas. Como era impossível o trabalho, servia-me
desses instantes para tirar o frasco e a tesourinha, curar o dedo ferido, pôr
no abscesso uma gota de iodo.
Afastava-me, acercava-me dos grupos, imiscuía-me neles:
esforçava-me por decifrar certas particularidades de linguagem e em vão
buscara reter as fisionomias, sempre renovadas. Não havia jeito de casar
às figuras incompletas os nomes que me chegavam aos ouvidos. João
Anastácio. Bem. Esse conseguiu fixar-se. Anteriormente fundia-se com
Miguel Bezerra, mas agora se distanciava, e não sei como baralhei
pessoas tão diversas. Julgo que me surgiram simultaneamente na
atrapalhação da chegada, falaram as duas ao mesmo tempo, quando não.
me era possível estabelecer a distinção: olhos vivos, modos inquietos,
rosto fino como um focinho de rato; pele macerada, feições imóveis de
múmia cabocla. Tipos inconfundíveis, caracteres diferentes. Miguel
Bezerra tinha um modo escorregadio de negar, de justificar-se; o outro
afirmava, lento e seguro, como se batesse em pregos: nunca vi homem
tão afirmativo.
Essas duas figuras me ficaram gravadas profundamente na
lembrança, não por haverem exercido qualquer influência na minha
esquisita aventura, mas porque avultaram no rebanho indistinto, durante
algumas horas. Depois se afastaram, se diluíram: os hábitos de classe me
aproximaram do sujeito gordo e louro que fumava cachimbo, sentado na
rede, a sorrir, do rapaz estrábico, de óculos. Importantes, um secretário
da Fazenda, outro secretário do Interior, no governo revolucionário de Natal. Propriamente não fora governo, fora doidice:
nisto, embrulhados, concordavam todos. Estavam ali dois figurões, dois
responsáveis, dois criminosos, porque tinham sido pegados com o rabo
na ratoeira. Não me arriscaria a dizer como se chamavam. Macedo e
Lauro Lago. Isso, repetido com frequência, me permanecia na memória,
mas, se me dirigisse a qualquer deles, trocaria as designações. Falavam-me também num terceiro chefe da sedição, o mais importante,
conservado em Natal por não se poder ainda locomover: seviciado em
demasia, aguentara pancadas no rim e, meses depois da prisão, mijava
sangue. Arrepiava-me pensando nisso. Achava-me ali diante de criaturas
supliciadas e, consequentemente, envilecidas. A minha educação
estúpida não admitia que um ser humano fosse batido e pudesse
conservar qualquer vestígio de dignidade. Tiros, punhaladas, bem: se a
vítima conseguia restabelecer-se, era razoável andar de cabeça erguida e
até afetar certo orgulho: o perigo vencido, o médico, a farmácia, as
vigílias de algum modo a nobilitavam. Mas surra – santo Deus! – era a
degradação irremediável. Lembrava
o eito, a senzala, o tronco, o feitor, o capitão-de-mato. O relho, a palmatória, sibilando, estalando no silêncio da meia-noite, chumaço de pano sujo na boca de um infeliz, cortando-lhe a
respiração. E nenhuma defesa: um infortúnio sucumbido, de músculos
relaxados, a vontade suspensa, miserável trapo. Em seguida o
aviltamento. É assim na minha terra, especialmente no sertão. Vivente
espancado resiste: em falta de armas, utiliza unhas e dentes, abrevia o
suplício e morre logo, pois, se sobreviver, estará perdido. Nunca mais o
tomarão a sério. É possível que ele esqueça o chicote, precisa esquecer:
cá fora tenta reaver os seus insignificantes direitos de cidadão comum.
Os outros não esquecem. Aquilo é estigma indelével, tatuagem na alma.
Quando estiver desprecatado, julgando-se normal e medíocre, um riso,
um gesto, um olhar venenoso o chamarão à realidade, avivarão a
lembrança do pelourinho, do rosto cuspido, das costas retalhadas. Afinal
aquele tratamento não foi infligido senão para isso. Indispensável
aniquilar um inimigo da sociedade. Quem é ele? O assassino?
Evidentemente não. Na minha terra uma vida representa escasso valor. A
população cresce demais, a agricultura definha na terra magra. Eliminar
um cristão significa afastar um concorrente aos produtos minguados, em duros casos serve para
restabelecer o equilíbrio necessário. Enfim, cedo ou tarde, a morte se
daria; em última análise o matador foi instrumento da Providência. Por
isso ela é tabu. Na cadeia da roça não o maltratam, e o júri sem
dificuldade o absolve. O que passou passou, a condenação não ressuscita
ninguém. O delito máximo é o que lesa a propriedade. Nesse ponto o
fatalismo caboclo desaparece: não foi certamente Deus que mandou
furtar, o ladrão é responsável. Está visto que não se punem os grandes
atentados, mais ou menos legais, origem das fortunas indispensáveis à
ordem, mas os pequenos delinquentes sangram nos interrogatórios
bárbaros e nunca mais se reabilitam. Não me ocorrera a ideia de que
prisioneiros políticos fossem tratados da mesma forma: a palavra oficial
dizia o contrário, referia-se a doçura, e não me achava longe de admitir
pelo menos parte disso. Um jornalista famoso asseverava que os homens
detidos no Pedro 1 bebiam champanhe. Com certeza na doçura e no
champanhe havia exagero; não me viera, contudo, a suspeita de que a
imprensa e o governo mentissem descaradamente quando isto não era preciso. Provavelmente existia nas prisões certa humanidade, relativa
humanidade. Capacitara-me disso, por não me parecer que os atos
ferozes fossem úteis. Talvez não estivesse aí o motivo da minha
credulidade. Habituara-me de fato, desde a infância, a presenciar
violências, mas invariavelmente elas recaíam em sujeitos da classe baixa.
Não se concebia que negociantes e funcionários recebessem os tratos
dispensados antigamente aos escravos e agora aos patifes miúdos. E
estávamos ali, encurralados naquela imundície, tipos da pequena
burguesia, operários, de mistura com vagabundos e escroques. E um dos
chefes da sedição apanhara tanto que lá ficara em Natal, desconjuntado,
urinando sangue.
Não me abalancei a indiscrições relativamente aos outros – evitei
melindrá-los. Teriam pudor, certamente, calar-se-iam se possuíssem as
terríveis chagas incuráveis. Meias-palavras, referências vagas,
ambiguidades trouxeram-me a convicção de que todos ali, ou quase
todos, haviam sido torturados e não conservavam disso nenhuma
vergonha. Espantei-me no começo, depois busquei uma explicação.
Provavelmente a autoridade considerava os meus novos companheiros pouco mais ou menos iguais aos ladrões. Queriam
eliminar os ricos, suprimir a exploração do homem na lavoura e na
fábrica. Certo não alcançariam esse objetivo, por enquanto desejavam
apenas a distribuição razoável da terra, melhores condições de vida para
o trabalhador. Um roubo. E, pegados com armas na mão, nivelavam-se
aos bandidos e recebiam suplícios infamantes. Não se julgavam, contudo,
humilhados. Porquê? Talvez não supusessem completamente
desarrazoada essa justiça bruta e sumária. Eles, como os escravos
indolentes e os salteadores, minavam a fortuna, pelo menos pretendiam
miná-la. Natural que os proprietários, senhores do Estado, os
estigmatizassem, cobrissem de ignomínia. Não lhes feriam somente
o corpo tentavam, encharcando-os na lama, no opróbrio, embotar-lhes os
espíritos, paralisar-lhes a vontade. Conhecida, porém, essa intenção,
muito se reduzia o efeito dela. Realmente havia as dores físicas. E findas
as torturas, os corações se desoprimiam.
Os meus amigos do porão falavam dessas coisas como de fatos
normais, distantes, relativos a outras pessoas: de nenhum modo pareciam atingidos por elas. Na verdade, para que o rebaixamento moral se
realizasse, deveriam aplicar os castigos a um número pequeno de
indivíduos. Alcançando a maioria ou a totalidade,
o labéu se atenuava, perdia enfim a consistência. Reportavam-se àquilo
como se narrassem um desastre de automóvel, uma operação cirúrgica,
sucessos que não poderiam desonrá-los.
Graciliano Ramos de Oliveira (Quebrangulo, 27 de outubro de 1892 – Rio de Janeiro, 20 de março de 1953) foi um romancista, cronista, contista, jornalista, político e memorialista brasileiro do século XX, mais conhecido por sua obra Vidas Secas (1938).
Em setembro de 1915, motivado pela morte dos irmãos Otacília, Leonor e Clodoaldo e do sobrinho Heleno, vitimados pela epidemia de peste bubônica, volta para o Nordeste, fixando-se junto ao pai, que era comerciante em Palmeira dos Índios, Alagoas. Neste mesmo ano casou-se com Maria Augusta de Barros, que morreu em 1920, deixando-lhe quatro filhos.
Foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios em 1927, tomando posse no ano seguinte. Apoiado pelo governador do estado e impulsionado por ser um nome de fora da política, foi eleito em um pleito de uma candidatura só. Ficou no cargo por dois anos, renunciando a 10 de abril de 1930. Segundo uma das autodescrições, "Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas." Os relatórios da prefeitura que escreveu nesse período chamaram a atenção de Augusto Frederico Schmidt, editor carioca que o animou a publicar Caetés (1933).
Entre 1930 e 1936. viveu em Maceió, trabalhando como diretor da Imprensa Oficial, professor e diretor da Instrução Pública do estado. Em 1934, havia publicado São Bernardo, e quando se preparava para publicar o próximo livro, foi preso após a Intentona Comunista de 1935. Foi levado para o Rio de Janeiro e ficou preso por onze meses, sendo liberado sem ter sido acusado de nada ou julgado. Em Memórias do Cárcere recorda a prisão que sofrera seis anos antes.
continua página 93....
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Leia também:
Memórias do Cárcere - Viagens 20
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Em setembro de 1915, motivado pela morte dos irmãos Otacília, Leonor e Clodoaldo e do sobrinho Heleno, vitimados pela epidemia de peste bubônica, volta para o Nordeste, fixando-se junto ao pai, que era comerciante em Palmeira dos Índios, Alagoas. Neste mesmo ano casou-se com Maria Augusta de Barros, que morreu em 1920, deixando-lhe quatro filhos.
Foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios em 1927, tomando posse no ano seguinte. Apoiado pelo governador do estado e impulsionado por ser um nome de fora da política, foi eleito em um pleito de uma candidatura só. Ficou no cargo por dois anos, renunciando a 10 de abril de 1930. Segundo uma das autodescrições, "Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas." Os relatórios da prefeitura que escreveu nesse período chamaram a atenção de Augusto Frederico Schmidt, editor carioca que o animou a publicar Caetés (1933).
Entre 1930 e 1936. viveu em Maceió, trabalhando como diretor da Imprensa Oficial, professor e diretor da Instrução Pública do estado. Em 1934, havia publicado São Bernardo, e quando se preparava para publicar o próximo livro, foi preso após a Intentona Comunista de 1935. Foi levado para o Rio de Janeiro e ficou preso por onze meses, sendo liberado sem ter sido acusado de nada ou julgado. Em Memórias do Cárcere recorda a prisão que sofrera seis anos antes.
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