terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Victor Hugo - Os Miseráveis: Cosette, Livro Primeiro - Waterloo / XIII — A catástrofe

Victor Hugo - Os Miseráveis


Segunda Parte - Cosette

Livro Primeiro — Waterloo

XIII A catástrofe
     
     Lúgubre foi a derrota na retaguarda daqueles intrépidos soldados. O exército retrocedeu rapidamente de todos os lados ao mesmo tempo, de Hougomont, de Haie-Sainte, de Papelotte, de Plancenoit, e ao grito de: «Traição!» seguiu-se o grito: «Salve-se quem puder!» Um exército em debandada é um degelo. Tudo se curva, se abre, estala, flutua, rola, cai, choca, apressa e precipita. Desagregação inaudita. Ney pede um cavalo emprestado, monta e vai colocar-se no meio da estrada de Bruxelas para fazer parar ingleses e franceses, sem chapéu, nem gravata, nem espada,— tentando reter o exército, chamando-o, insultando-o, agarrando-se a tudo no meio daquela derrota, transbordando: os soldados, porém, fogem-lhe, gritando:

— Viva o marechal Ney!

     Dois regimentos de Durutte vão e vêm como uma péla, entre os sabres dos ulanos e a mosquetaria das brigadas de Kempt, de Best, Pack e de Rylandt; a pior das refregas é a derrota; matam-se mutuamente os amigos para fugir; dispersam-se e quebram-se uns contra os outros os esquadrões e os batalhões; é a espuma enorme de uma batalha rugindo e refervendo. Lobau numa extremidade, Reille na outra foram arrebatados pela vaga. Debalde, Napoleão faz muralhas com o que lhe resta da guarda; debalde empenha num último esforço os esquadrões às suas ordens. Quiot retira diante de Vivian, Kellermann diante de Vandeleur, Lobau diante de Bulow, Morand diante de Pirch, Domon e Subervic diante do príncipe Guilherme da Prussia Guyot, que comandou na carga os esquadrões do imperador, cai aos pés dos dragões ingleses.
     Napoleão corre a galope por entre os fugitivos, fala-lhes, insta-os, ameaça, suplica.
     Porém, todas as bocas que pela manhã gritavam «viva o imperador!» ficam abertas; mal o conhecem. A cavalaria prussiana, vinda do fresco, precipita-se, voa, acutila, corta, despedaça, mata, extermina. As peças fogem; os cavalos que as puxam atropelam-se; os soldados do trem desatrelam as caixas e deitam mão dos cavalos para fugir; as carretas quebram-se e ficam voltadas para o ar, embaraçando a estrada e dando ocasião a maior carnificina. Esmagam-se uns aos outros, rechaçam-se, caminham por cima dos mortos e por cima dos vivos. Os braços sentem-se cansados. Enche as estradas uma multidão vertiginosa, que se espalha nos carreiros, nas pontes, nas planícies, nas colinas, nos vales, nos bosques, atulhados pela evasão de quarenta mil homens. Gritos de desespero, sacos e espingardas atirados para o meio das searas, passagens abertas a golpes de espada, nem camaradas, nem oficiais, nem generais; um horror inexprimível!
     Zieten acutilando a França à sua vontade. Os leões tornados cabritos. Tal foi aquela debandada.
     Em Genappe houve a tentativa de voltar-se, fazer frente, travar a roda. Lobau reuniu trezentos homens, que se entrincheiraram à entrada da aldeia, porém, à primeira descarga da metralha prussiana, deitou tudo a fugir e Lobau ficou prisioneiro. Ainda hoje se vê o sinal daquela descarga de metralha na empena arruinada de uma casinhola, que fica à direita da estrada, alguns passos para cá de Genappe. Os prussianos arremessaram-se para o lado de Genappe, furiosos decerto por serem tão pouco vencedores. Foi monstruosa aquela avançada no encalço dos inimigos. Blucher ordena o extermínio, porque Roguet dera o lúgubre exemplo de ameaçar com a morte todo o granadeiro francês que lhe trouxesse um prisioneiro prussiano. Blucher excedeu Roguet. Duhesme, general da guarda nova, encurralado numa estalagem de Genappe, entregou a espada a um hussardo da morte, que pegou na espada e matou o prisioneiro. A vitória acabou pelo assassínio dos vencidos. Punamos nós, que somos a história: o velho Blucher desonrou-se. Aquela ferocidade pôs o cúmulo ao desbarate. A derrota atravessou, desesperada, Genappe, Quatre-Bras, Grosselies, Frasnes, Thuin, Charleroi, parando só na fronteira. Oh, Deus! E quem é que assim fugia? O grande exército! Acaso não teria um motivo aquela vertigem, aquele terror, a queda em ruínas daquela bravura, a mais elevada que em tempo algum tenha feito o espanto da história? Teve. Projeta-se sobre Waterloo a sombra de uma reta enorme. Foi o dia do destino. A força que domina o homem foi a que deu aquele dia. Daí a ruga do pavor desenhada nas testas; daí a entrega das espadas por todas essas grandes almas.
     Ficaram derrubados na luta os que haviam vencido a Europa, sem ter que dizer nem que fazer mais nada, porque conheciam na sombra uma presença terrível. Hoc erat in fatis. Aquele dia mudou a perspectiva do gênero humano. Waterloo foi o gonzo do século dezenove. Era necessária a desaparição do grande homem para a chegada do grande século, e dela se encarregou alguém a quem se não replica. O pânico dos heróis explica-se. A batalha de Waterloo foi mais do que uma nuvem, foi um meteoro. 
     Foi a passagem de Deus. 
     Ao cair da noite, Bernard e Bertrand, num campo das imediações de Genape, fizeram parar, agarrando-o por uma aba do casacão, um homem desvairado, pensativo, sinistro, que, arrastado até àquele lugar pela torrente da derrota, acabava de se apear do seu cavalo e que, depois de enfiar o braço pela rédea, voltava só para Waterloo, com olhar espantado. Era Napoleão, sonâmbulo imenso daquele sonho desfeito, tentando ainda romper para a frente.

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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Cosette, Livro Primeiro - XIII — A catástrofe
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira 

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