quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Marcel Proust - No Caminho de Swann (III - um amor de swann, Seguiu do correio para casa - l)

em busca do tempo perdido


volume I
No Caminho de Swann

ao senhor gaston calmette
como um testemunho de profundo e afetuoso reconhecimento
— marcel proust

um amor de swann

III(l) 

     Seguiu do correio para casa, mas levava consigo a última carta. Acendeu uma vela e aproximou-lhe o envelope, que não se atrevera a abrir. A princípio não pôde ler nada, mas o envelope era fino e, apertando-o contra o cartão que estava dentro, conseguiu, através da sua transparência, distinguir as últimas palavras. Era uma fórmula final bastante fria. Se em vez de ser ele que estava examinando uma carta para Forcheville fosse Forcheville que estivesse a ler uma carta dirigida a Swann, veria expressões muito mais ternas. Manteve imóvel o cartão que dançava no envelope demasiado grande; depois, fazendo-o descer com o polegar, foi trazendo sucessivamente as diferentes linhas até a parte do envelope que não era forrada, a única através da qual se podia ler.
     Apesar disto, não distinguia direito. O que aliás não queria dizer nada, pois já vira o bastante para certificar-se de que se tratava de uma coisa sem importância e que nada tinha a ver com relações amorosas, qualquer coisa referente a um tio de Odette. Swann havia lido no começo da linha: “Fiz bem em”, mas não compreendia o que poderia ser, quando uma palavra que antes não pudera decifrar se revelou de súbito, esclarecendo a frase inteira: “Fiz bem em abrir, era o meu tio”. Fez bem em abrir! Então Forcheville lá se achava quando Swann tocara a campainha e ela o mandara embora; daí o ruído que ele ouvira.
     Leu então toda a carta; no fim Odette se desculpava por ter agido sem-cerimônia com Forcheville e dizia-lhe que esquecera os seus cigarros em casa dela, a mesma coisa que tinha escrito a Swann depois de uma das suas primeiras visitas. Mas para Swann acrescentara: “Que pena não haver esquecido também o seu coração, mas este eu não o devolveria”. Para Forcheville, nada disso, nenhuma alusão que desse a entender alguma intriga amorosa. A falar a verdade, o mais enganado naquilo tudo era Forcheville, pois Odette lhe escrevia para o persuadir de que o visitante era seu tio. Em suma, era ele, Swann, o homem a quem dava mais importância e por cuja causa havia despachado o outro. E no entanto, se nada havia entre Odette e Forcheville, por que não ter aberto imediatamente, por que dizer: “Fiz bem em abrir, era o meu tio”? E se Odette nada fazia de mal naquele momento, como é que o próprio Forcheville poderia explicar-se que ela não pudesse abrir-lhe a porta? Swann permanecia ali, desolado, confuso e no entanto feliz, diante daquele envelope que Odette lhe entregara sem receio, tão absoluta era a confiança que tinha na sua delicadeza, mas através de cuja transparente vidraça se lhe revelava, com o segredo de um incidente que jamais julgaria possível conhecer, um pouco da vida de Odette, como por uma estreita incisão luminosa aberta em pleno desconhecido. E depois, o seu ciúme se alegrava com aquilo, como se tivesse uma vitalidade independente, egoísta, faminto de tudo que o pudesse alimentar, embora à custa do próprio Swann. Agora aquele ciúme tinha um alimento, e Swann poderia começar a inquietar-se cada dia com as visitas que Odette recebera às cinco horas, a investigar onde se encontrava Forcheville a tal hora. Pois a ternura de Swann conservava o mesmo caráter que lhe imprimira desde o início tanto a ignorância em que se achava do emprego dos dias de Odette como a preguiça cerebral que o impedia de suprir a ignorância com a imaginação. No princípio não se sentiu enciumado de toda a vida de Odette, mas apenas dos momentos em que uma circunstância, talvez mal interpretada, o levara a supor que Odette pudesse tê-lo enganado. O seu ciúme, como um polvo que lança um primeiro, depois um segundo, depois um terceiro tentáculo, apegou-se solidamente àquele momento das cinco horas da tarde, depois a outro, a mais outro ainda. Mas Swann não sabia inventar seus sofrimentos. Estes não eram mais que a lembrança, que a perpetuação de um sofrimento vindo de fora.
     Mas tudo o que vinha de fora lhe trazia novos sofrimentos. Pretendeu afastar Odette de Forcheville, levá-la por alguns dias para o sul. Mas supunha que Odette era desejada por todos os homens que se achavam no hotel, e que ela própria os desejava. De modo que ele, que outrora em viagem procurava relações novas, reuniões numerosas, viam-no agora selvagem, a fugir da sociedade dos homens como se o ferisse cruelmente. E como não ser misantropo, quando em todo homem via um possível amante de Odette? E assim o ciúme, mais do que o fizera a voluptuosa e risonha inclinação que sentia a princípio por Odette, alterava o caráter de Swann e mudava completamente, aos olhos dos Outros, até os aspectos exteriores pelos quais se manifestava esse caráter.
     Um mês depois que lera a carta de Odette a Forcheville, Swann foi a uma ceia que os Verdurin ofereciam no Bois. Quando se preparavam para partir, notou conciliábulos entre a sra. Verdurin e vários convidados e julgou compreender que recomendavam ao pianista que não se esquecesse de uma reunião no dia seguinte em Chatou. Ora, ele, Swann, não fora convidado.
     Os Verdurin só haviam falado a meia-voz e em termos vagos, mas o pintor, de certo distraído, exclamou:

— Não será preciso nenhuma luz e que ele toque a Sonata ao luar no escuro, para melhor se esclarecerem as coisas.[1] 

     Vendo a sra. Verdurin que Swann se achava a dois passos dali, tomou essa expressão em que o desejo de fazer calar o interlocutor e de conservar um ar inocente aos olhos daquele que ouve é neutralizada por uma nulidade intensa do olhar, onde o imóvel sinal de inteligência do cúmplice se dissimula sob os sorrisos do ingênuo, e que enfim, comum a todos os que se apercebem de uma gafe, a revelam instantaneamente, se não àqueles que a cometem, pelo menos àquele que lhe serviu de objeto. Odette assumiu de súbito a expressão de uma desesperada que renuncia a lutar contra as esmagadoras dificuldades da vida, e Swann contava ansiosamente os minutos que o separavam do momento em que, depois de deixar aquele restaurante, durante o regresso de Odette, poderia pedir-lhe explicações, conseguir que ela não fosse no dia seguinte a Chatou, ou fizesse convidá-lo, e apaziguar em seus braços a angústia que sentia. Enfim chamaram os carros.

— Então, até breve, não é? — disse-lhe a sra. Verdurin, procurando impedir, com a amabilidade do olhar e a força do sorriso, que Swann notasse que ela não lhe dizia, como sempre fizera até então: “Amanhã em Chatou, depois de amanhã lá em casa”.

     O sr. e a sra. Verdurin fizeram Forcheville embarcar com eles. O carro de Swann achava-se atrás do carro do casal, cuja partida ele esperava para fazer Odette subir no seu.

 — Odette, venha conosco — disse a sra. Verdurin —, temos aqui um lugarzinho para você, ao lado do senhor de Forcheville.
— Pois não — respondeu Odette. 
— Como! Mas eu supunha que ia levá-la! — exclamou Swann, dizendo sem dissimulação as palavras necessárias, pois a portinhola estava aberta, os segundos eram contados, e ele não podia voltar sem ela no estado em que se achava. 
— Mas a senhora Verdurin me pediu. 
— Ora!, bem pode voltar sozinho, nós já a deixamos muitas vezes para o senhor — disse a sra. Verdurin. 
— Mas é que eu tinha uma coisa importante a dizer-lhe. 
— Então escreva-lhe depois. 
— Adeus — disse Odette, estendendo-lhe a mão.  

     Ele tentou sorrir, mas tinha um ar aterrado.

— Não se vê esse excomungado! — empregando sem saber, e talvez obedecendo à mesma obscura necessidade de justificar-se — como Françoise em Combray quando o frango não queria morrer —, as palavras que as últimas convulsões de um inofensivo animal agonizante arrancam ao camponês que o liquida.

     E quando o carro da sra. Verdurin partiu e o de Swann avançou, o cocheiro, olhando-o, perguntou-lhe se ele não estava doente ou se lhe acontecera alguma coisa.
     Swann despachou-o, queria caminhar, e voltar a pé, pelo Bois. Falava sozinho, em voz alta, e no mesmo tom um tanto artificial que adotara até então quando especificava os encantos do núcleo e exalçava a magnanimidade dos Verdurin. Mas da mesma forma que as palavras, os sorrisos, os beijos de Odette se lhe tornavam tão odientos quão deliciosos os achara, quando dirigidos a outros que não a ele, assim o salão dos Verdurin, que ainda há pouco lhe parecia divertido, a respirar um verdadeiro gosto pela arte e até mesmo uma espécie de nobreza moral, agora que era um outro, a quem Odette ia ali encontrar e amar livremente, lhe patenteava todos os seus ridículos, a sua estultice, a sua ignomínia.
     Imaginava com desgosto a reunião da noite seguinte em Chatou. “E ainda mais essa ideia de ir a Chatou! Como lojistas que acabam de fechar o estabelecimento! Na verdade, essa gente é sublime de burguesia. Não devem existir realmente, com certeza saíram do teatro de Labiche!”
     Estariam lá os Cottard, talvez Brichot. “Que coisa mais grotesca essa vida de indivíduos insignificantes que não podem viver uns sem os outros, que se julgariam perdidos, palavra, se não se encontrassem todos amanhã no Chatou!” Ah!, lá estaria também o pintor, o pintor que gostava de “fazer casamentos”, que convidaria Forcheville para visitar com Odette o seu ateliê. Via Odette com um vestido muito luxuoso para uma reunião campesina, “pois ela é tão vulgar, a pobre pequena, e, antes de tudo, tão tola!!!”.
     Ouvia os gracejos que fazia a sra. Verdurin após a ceia, os gracejos que, quaisquer que fossem os “maçantes” que lhe serviam de alvo, sempre o haviam divertido porque via Odette rir-se, rir-se com ele, quase dentro dele. Agora sentia que era talvez dele que iam fazer rir a Odette. “Que alegria asquerosa!”, dizia ele, dando à sua boca tão forte expressão de asco que ele próprio sentia a sensação muscular de seu ricto até no pescoço contorcido contra o colarinho. E como é que uma criatura cuja face é feita à imagem de Deus pode achar matéria para riso naqueles gracejos nauseabundos? Toda narina um pouco delicada se desviaria com horror para livrar-se de tais emanações. É verdadeiramente incrível pensar que uma criatura humana não possa compreender que, permitindo-se sorrir de um semelhante que lhe estendeu lealmente a mão, desce até um lamaçal de onde a melhor boa vontade do mundo jamais conseguirá reerguê-la. “Habito a muitos milhares de metros acima dos pântanos onde grulham e gralham essas misérias, para que possa ser salpicado pelas troças de uma Verdurin”, exclamou, erguendo a cabeça e empertigando altivamente o busto. “Deus me é testemunha de como quis sinceramente retirar Odette de lá, e alçá-la a uma atmosfera mais nobre e mais pura. Mas a paciência humana tem limites, e a minha chegou ao fim”, disse, como se aquela missão de arrancar Odette a uma atmosfera de sarcasmos datasse mais que de alguns minutos, e como se não se houvera imposto essa tarefa somente quando lhe ocorreu que poderia ser ele próprio o alvo de tais sarcasmos, que tinham por fim afastar Odette da sua intimidade.
     Já via o pianista prestes a tocar a Sonata ao luar e os trejeitos da sra. Verdurin, assustada com o mal que a música de Beethoven ia causar a seus nervos; “Idiota, farsante!”, exclamou ele. “E essa mulher julga amar a Arte.” Ela diria a Odette, depois de lhe haver habilmente insinuado algumas louvaminhas a Forcheville, como tantas vezes fizera com ele: “Você vai reservar um lugarzinho a seu lado para o senhor de Forcheville”. “E no escuro!, intrometida, alcoviteira!” “Alcoviteira” era o nome que dava também à música que os convidaria a se calarem, a sonhar juntos, a olharem-se, a entrelaçar as mãos. E dava razão à severidade contra as artes que demonstravam Platão, Bossuet, e a velha educação francesa.
     Em suma, a vida que levavam nos Verdurin, e a que tantas vezes chamara “a verdadeira vida”, lhe parecia a pior de todas e o seu pequeno núcleo o último dos ambientes. “É na verdade”, dizia, “o que há de mais baixo na escala social, o último círculo de Dante. Não há dúvida de que o texto augusto não se refere aos Verdurin! No fundo, que grande sabedoria demonstram os aristocratas, dos quais se pode dizer muita coisa, mas que se recusam a conhecê-los, até mesmo a sujar com eles a ponta dos dedos! Que senso divinatório nesse Noli me tangere do bairro de Saint-Germain!”[2] Fazia tempo que deixara as alamedas do Bois, estava quase em casa, e, ainda acometido pela dor e a efusão de insinceridade, cuja embriaguez era abundantemente renovada a cada momento pelas entonações mentirosas e a sonoridade artificial da sua própria voz, continuava ele a perorar no silêncio da noite: “A gente da aristocracia tem os seus defeitos que ninguém reconhece melhor do que eu, mas afinal se trata de pessoas com quem são impossíveis certas coisas. Certa elegante que eu conheci estava longe de ser perfeita, mas ainda assim havia nela um fundo de delicadeza, uma lealdade de atitudes que a tornavam incapaz de uma felonia, acontecesse o que acontecesse, o que bastaria para colocar abismos entre ela e uma megera como a Verdurin. Verdurin! Que nome! Ah!, pode-se dizer que são completos, que são perfeitos no seu gênero! Graças a Deus, já era tempo de acabar com a minha condescendência em viver na promiscuidade de tais infâmias e baixezas”.
     Mas, assim como as virtudes que pouco antes atribuía aos Verdurin não bastariam, mesmo que verdadeiramente as possuíssem, sem a proteção e favor que eles prestavam a seus amores com Odette, para provocar em Swann aquela embriaguez em que se enternecia quanto à magnanimidade do casal, e que, embora propagada através de outras pessoas, só podia provir de Odette — a imoralidade, ainda que fosse real, que hoje encontrava nos Verdurin, seria impotente, se não tivessem convidado a Odette com Forcheville e sem ele, para desencadear a indignação de Swann e levá-lo a vergastar “aquela infâmia”. E sem dúvida a sua voz era mais clarividente que ele próprio, quando se recusava a pronunciar aquelas palavras cheias de nojo pelo círculo dos Verdurin e da alegria de ter rompido com aquilo, a não ser num tom artificial e como se fossem escolhidas mais para aplacar a sua cólera que para expressar seu pensamento. Este, com efeito, enquanto Swann se entregava àquelas invectivas, estava provavelmente, sem que ele o notasse, ocupado com um objeto completamente diverso, pois, Swann, apenas chegou em casa, e logo que fechou o portão, bateu de súbito na testa e saiu de novo, exclamando desta vez com voz natural: “Parece que achei o meio de ser convidado amanhã para a reunião de Chatou!”. Mas esse meio não devia ser bom, porque não o convidaram: o dr. Cottard que, chamado do interior para um caso urgente, passara vários dias sem ver os Verdurin e não pudera ir a Chatou, disse no dia seguinte ao daquela reunião, ao sentar-se à mesa com eles:

— Mas será que não veremos o senhor Swann esta noite? Ele é bem o que se chama um amigo pessoal do…
— Espero que não! — exclamou a sra. Verdurin. — Deus nos livre, ele é maçante, tolo e mal-educado.

     Ante essas palavras, Cottard manifestou ao mesmo tempo o seu espanto e a sua submissão, como ante uma verdade contrária a tudo quanto acreditara até aquele instante, mas de uma evidência irresistível; e, baixando o nariz sobre o prato, com um ar emocionado e medroso, contentou-se em responder: “Ahah!-ah!-ah!-ah!”, atravessando às arrecuas, numa retirada em boa ordem até o fundo de si mesmo, ao longo de uma escala descendente, todo o registro da sua voz. E nunca mais se falou de Swann na casa dos Verdurin.
     E então aquele salão que reunira Odette e Swann se tornou um obstáculo a seus encontros. Ela já não lhe dizia como nos primeiros tempos de seus amores: “Em todo caso nos veremos amanhã à noite, há uma ceia nos Verdurin”. Mas sim: “Não poderemos ver-nos amanhã à noite, há uma ceia nos Verdurin”. Ou então os Verdurin deveriam levá-la à Ópera Cômica para ver Uma noite de Cleópatra e Swann lia nos olhos de Odette aquele medo de que lhe pedisse para não ir, que outrora ele não se conteria de beijar de passagem no rosto de sua amante e que agora o exasperava.[3] “No entanto”, dizia para si mesmo, “não é cólera que eu experimento ao ver a vontade que ela tem de ir ciscar naquela música estercorária. E pesar, não por mim, mas por ela; pesar de ver que, depois de ter vivido mais de seis meses em contato cotidiano comigo, não pôde ela modificar-se o bastante para eliminar espontaneamente a Victor Massé! E sobretudo porque não chegou a compreender que há noites em que uma criatura de essência um tanto delicada deve saber renunciar a um prazer, quando lho pedem. Deveria saber dizer ‘não vou’, ao menos por inteligência, pois é pela sua resposta que se classificará, de uma vez por todas, a qualidade da sua alma”. E persuadindo-se a si mesmo que era apenas para formar um juízo mais favorável sobre o valor espiritual de Odette que desejava que ela ficasse em sua companhia naquela noite, em vez de ir à Ópera Cômica, ele lhe expunha o mesmo raciocínio, talvez com o mesmo grau de insinceridade que a si mesmo, e até num grau a mais, pois então também obedecia ao desejo de colhê-la pelo amor-próprio.

— Juro-te — dizia Swann, momentos antes que ela partisse para o teatro — que, ao pedir-te para não saíres, todos os meus votos, se eu fosse egoísta, seriam para que te recusasses, pois tenho mil coisas a fazer esta noite, e cairei eu próprio na armadilha e me aborrecerei se responderes, contra toda expectativa, que não irás ao teatro. Mas as minhas ocupações, os meus prazeres, não são tudo, eu devo pensar em ti. Pode chegar um dia em que, vendo-me para sempre desligado de ti, terás o direito de censurar-me por não te haver avisado nos momentos decisivos em que sentia que ia fazer a teu respeito um desses juízos severos a que o amor não resiste por muito tempo. Vês? Uma noite de Cléopatra (que título!) em nada concorre para a atual circunstância. O que importa saber é se és essa criatura que se acha no último degrau do espírito, e mesmo do encanto, a desprezível criatura que não é capaz de renunciar a um prazer. Então, se fores isso, como será possível amar-te, pois não és nem mesmo uma pessoa, um ser definido, imperfeito, mas ao menos perfectível? És uma água informe que corre segundo a vertente que lhe oferecem, um peixe sem memória e sem reflexão que, enquanto viver só no aquário, se chocará cem vezes por dia contra o vidro, que ele continuará a julgar que é água. Compreendes que a tua resposta, não digo que tenha por efeito que eu te deixe de amar imediatamente, está visto, mas te tornará menos sedutora a meus olhos quando eu tiver compreendido que não és uma pessoa, que estás abaixo de todas as coisas e não sabes colocar-te acima de nenhuma? Evidentemente, eu preferiria pedir-te como uma coisa sem importância que desistisses de Uma noite de Cleópatra (já que me obrigas a sujar os lábios com esse nome abjeto) embora esperando que fosses. Mas, resolvido a passar tudo a limpo, a tirar certas consequências da tua resposta, achei mais leal prevenir-te. 

     Fazia um momento que Odette dava mostras de emoção e incerteza. Se não compreendia o sentido daquele discurso, via que podia ser qualificado no gênero comum das lenga-lengas e cenas de reproches ou súplicas, e a experiência que tinha dos homens lhe permitia deduzir, sem atentar no detalhe das palavras, que não as diriam se não estivessem enamorados e, desde o momento em que estavam enamorados, era inútil obedecer-lhes, e ainda ficariam mais enamorados depois. E teria escutado Swann com a maior calma se não visse que passava a hora e que, por pouco que ele falasse ainda algum tempo, ela iria, como lhe disse com um sorriso terno, obstinado e confuso, “acabar perdendo a abertura!”.

continua na página 192...
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Leia também:

Volume 1
No Caminho de Swann (III - um amor de swann, Seguiu do correio para casa - l)
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7
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[1] Sonata no 2, opus 27, de Beethoven. [n. e.]
[2] “Não me toque”, palavras do Cristo ressuscitado a Maria Madalena. [n. e.]
[3] Peça de Victor Massé, encenada no teatro da Ópera Cômica a partir de 1885. Odette deve estar provavelmente interessada em ir ver a peça porque ela passa a ser encenada após a morte do compositor. [n. e.]

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