sábado, 25 de abril de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(c)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu
 
continuando...

          No reino de Uganda, encontrou-se uma maneira de manter na terra, junto de seus devotados súditos, o espírito do rei morto. Ele não podia perecer; não era mandado embora: ele tinha de permanecer neste mundo. Após a sua morte, nomeava-se um médium — um “mandwa” — no qual o espírito do rei se instalava. O médium, cuja função era a de um sacerdote, tinha de parecer-se com o rei e comportar-se exatamente como ele. Imitava-lhe as peculiaridades da fala e, em se tratando de um rei de tempos remotos, valia-se da língua arcaica de trezentos anos antes, conforme se atestou com segurança em um caso. E isso porque, quando o médium morria, o espírito do rei passava-se para um outro membro do mesmo clã. Assim, um “mandwa” herdava de outro o seu posto, e o espírito do rei tinha sempre uma morada. Podia, pois, ocorrer de um médium utilizar palavras que ninguém mais entendia, nem mesmo seus colegas.
     Não se deve, porém, imaginar que o médium representava continuamente o papel do rei. De tempos em tempos, “o rei tomava conta de sua cabeça”, como se dizia. O médium mergulhava num estado de possessão e incorporava o morto em todos os seus detalhes. Nos clãs responsáveis pelo provimento dos médiuns, as peculiaridades do rei à época de sua morte eram transmitidas por meio da palavra e da imitação. O rei Kigala morrera em idade bastante avançada; seu médium era um homem muito jovem. Quando, porém, o rei “tomava conta de sua cabeça”, o jovem transformava-se num velho: seu rosto se enrugava, a saliva escorara-lhe pela boca e ele mancava.
     Tais acessos eram encarados com o maior respeito. Tinha-se por uma honra presenciá-los; estava-se na presença do rei morto e se reconhecia esse rei. O próprio rei, por sua vez, podendo manifestar-se à vontade no corpo de um homem cuja função era essa e que servia unicamente a esse propósito, decerto não sentia o rancor do “sobrevivido” na mesma medida em que o sentem outros, banidos completamente de nosso mundo.
     Extremamente rico em consequências faz-se o desenvolvimento do culto aos antepassados entre os chineses. A m de se compreender o que representa para eles um antepassado, é necessário examinar em maior detalhe suas concepções da alma.
     Os chineses acreditavam que todo homem possui duas almas. A primeira, po, originando-se do esperma e existente, portanto, desde o momento da concepção; a ela atribuía-se a memória. A outra alma, hun, originando-se do ar aspirado após o nascimento e constituindo-se, então, pouco a pouco. Esta última possuía a forma do corpo que animava, mas era invisível. A inteligência, a seu cargo, crescia juntamente com ela, que constituía a alma superior.
     Após a morte, essa alma da respiração subia ao céu, ao passo que a alma do esperma permanecia junto do corpo na cova. Era essa alma, a inferior, a que mais se temia. Ela era malvada, invejosa e buscava arrastar os vivos consigo para a morte. À medida que o corpo se decompunha, também a alma do esperma dissolvia-se gradualmente, perdendo, por fim, o poder de causar dano.
     A alma superior da respiração, ao contrário, seguia existindo. Ela precisava de alimento, pois seu caminho rumo ao mundo dos mortos era longo. Se seus descendentes não lhe ofereciam comida alguma, ela sofria terrivelmente. Não logrando encontrar o caminho, fficava infeliz, tornando-se, então, tão perigosa quanto a alma do esperma.
     Os ritos fúnebres tinham um duplo objetivo: pretendiam proteger os vivos da ação dos mortos e, ao mesmo tempo, assegurar às almas destes últimos a sobrevivência. E isso porque, partindo dos mortos a iniciativa, a conexão com seu mundo era perigosa. Propícia, porém, era essa conexão quando se manifestava sob a forma do culto aos antepassados, organizado em conformidade com o prescrito pela tradição e cumprido nas épocas adequadas.
     A sobrevivência da alma dependia da força física e moral que ela adquirira ao longo da vida. Adquiria-se essa força por meio da alimentação e do estudo. Particularmente importante era a diferença entre a alma do senhor de terra, que havia sido um “comedor de carne” e se alimentara bem durante toda a vida, e aquela do camponês comum, pouco e mal nutrido. Granet afirma:

   Somente os senhores de terra possuem uma alma, no verdadeiro sentido da palavra. Mesmo a idade não desgasta essa alma, mas enriquece-a. O senhor prepara-se para a morte fartando-se de requintadas comidas e de bebidas que o animam. No decorrer de sua vida, ele incorporou um sem-número de essências, numa quantidade proporcional à vastidão e à opulência de seus domínios. Ele multiplicou ainda mais a rica substância de seus antepassados, também estes plenamente saciados de carne e de caça. Ao morrer, sua alma não se dispersou feito uma alma comum, mas partiu-lhe do corpo cheia de energia.
   Se o senhor levou sua vida em consonância com as regras de sua posição, sua alma — ainda mais enobrecida e purificada pelos ritos fúnebres — possui, após a morte, um poder sublime e luminoso. Dispõe, assim, da força benfazeja de um espírito protetor, preservando simultaneamente todas as características de uma personalidade duradoura e santa. Transformou-se numa alma ancestral.

     A essa alma dedica-se, então, num templo especial, um culto próprio. Ela participa das cerimônias relativas às estações do ano da vida da natureza e da vida da terra. Quando a caça é abundante ela é bem alimentada. E jejua quando a colheita é ruim. A alma ancestral alimenta-se de grãos, carne e da caça nos domínios senhoriais, que são o seu lar. Contudo, por mais rica que seja a personalidade de uma tal alma ancestral e por mais que ela siga vivendo com toda a sua energia reunida em si, também para ela chegará o momento da dispersão e da extinção. Após quatro ou cinco gerações, a tábua de ancestrais à qual a vinculavam certos ritos perde o seu direito a um santuário especial. Ela é depositada num cofre de pedra, juntando-se às tábuas de todos os antepassados mais antigos, cuja memória pessoal já se perdeu. O antepassado que ela representava e do qual carregava o nome não é mais reverenciado como um senhor. Sua vigorosa individualidade, que tão nítida e longamente se destacou, desaparece. Sua carreira terminou, e seu papel como antepassado já foi cumprido. Graças ao culto de que foi objeto, escapou por longos anos do destino dos mortos comuns. Agora, retorna à massa de todos os demais mortos e torna-se tão anônima quanto estes.
     Nem todos os antepassados sobrevivem por quatro ou cinco gerações. Se sua tábua será mantida ou não por muito tempo, se se invoca ou não a alma, rogando-lhe que aceite o alimento, isso depende da posição hierárquica particular do antepassado. Algumas são já removidas após uma única geração. Durem, porém, o tempo que for, o fato de simplesmente existirem altera em muitos aspectos o caráter da sobrevivência.
     Para o filho, já não mais se trata de modo algum de um triunfo secreto o fato de ele estar vivo e o pai não. Afinal, na qualidade de antepassado, o pai permanece presente; o filho agradece-lhe por tudo o que tem e precisa preservar-lhe a disposição favorável. Mesmo estando o pai morto, ele tem de alimentá-lo, e certamente evitará ser arrogante para com ele. De todo modo, enquanto o filho viver, também a alma ancestral do pai estará presente, e, como se viu aqui, ela conserva todos os traços de uma determinada pessoa à qual se pode reconhecer. Ao pai, porém, importa muito ser respeitado e alimentado. É fundamental para sua nova existência como antepassado que seu filho esteja vivo: não tivesse ele descendentes, não haveria ninguém para reverenciá-lo. É seu desejo que o filho e outras gerações sobrevivam a ele. Deseja, ademais, que estejam passando bem, pois de sua prosperidade depende sua própria existência como antepassado. Enquanto estiverem dispostos a lembrá-lo, o pai demanda que vivam. Nasce aí uma conexão íntima e feliz entre a forma moderada de sobrevivência que os antepassados obtêm e o orgulho dos descendentes, que existem para propiciar-lhes aquela sobrevivência. 
      É igualmente importante que os antepassados permaneçam individualizados por algumas gerações. É como indivíduos que são conhecidos, e é também como tal que são reverenciados; somente os de um passado mais distante confluem para formar uma massa. O descendente, vivendo no presente, encontra-se apartado da massa de seus antepassados, e graças justamente a todos aqueles que, como indivíduos isolados e bem delimitados — como o pai e o avô, por exemplo —, interpõem-se entre ele e aquela massa. Se uma satisfação pelo fato de estar vivo influi na veneração do filho, sua natureza é branda e moderada. Em função da própria natureza da relação, ela não será capaz de estimulá-lo a multiplicar o número dos mortos. Ele próprio é quem irá aumentar em uma unidade esse número, e seu desejo é que isso demore a acontecer. A situação da sobrevivência despe-se assim de todo e qualquer traço aparentado à massa. Como paixão, ela seria paradoxal e incompreensível; a sobrevivência perdeu todos os seus traços assassinos. A memória e a dignidade pessoal selaram uma aliança. Uma influenciou a outra, mas o melhor de ambas preservou-se.
     Quem contempla a figura do detentor de poder ideal, conforme ela se desenvolveu na história e no pensamento dos chineses, sente-se afetado por sua humanidade. É de se supor que a ausência de violência desse quadro se deva a essa espécie particular de veneração dos antepassados.

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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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