segunda-feira, 8 de junho de 2026

Espumas Flutuantes - O hóspede

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

O HÓSPEDE
Choro por ver que os dias passam breves
E te esqueces de mim quando te fores;
Como as brisas que passam doudas, leves,
E não tornam atrás a ver as flores.
Teófilo Braga

I
“Onde vais estrangeiro! Por que deixas 
 O solitário albergue do deserto? 
 O que buscas além dos horizontes? 
 Por que transpor o píncaro dos montes, 
 Quando podes achar o amor tão perto?... 

 “Pálido moço! Um dia tu chegaste 
 De outros climas, de terras bem distantes... 
 Era noite!... A tormenta além rugia... 
Nos abetos da serra a ventania 
 Tinha gemidos longos, delirantes.

“Uma buzina restrugiu no vale 
 Junto aos barrancos onde geme o rio... 
 De teu cavalo o galopar soava, 
 E teu cão ululando replicava 
 Aos surdos roncos do trovão bravio.

“Entraste! A loura chama do brasido 
 Lambia um velho cedro crepitante. 
 Eras tão triste ao lume da fogueira... 
 Que eu derramei a lágrima primeira 
 Quando enxuguei teu manto gotejante! 

“Onde vais, estrangeiro? Por que deixas 
 Esta infeliz, misérrima cabana? 
 Inda as aves te afagam do arvoredo... 
 Se quiseres... as flores do silvedo 
 Verás inda nas tranças da serrana. 

“Queres voltar a este país maldito 
 Onde a alegria e o riso te deixaram? 
 Eu não sei tua história... mas que importa?... 
 ... Boia em teus olhos a esperança morta 
 Que as mulheres de lá te apunhalaram. 

“Não partas, não! Aqui todos te querem! 
 Minhas aves amigas te conhecem. 
 Quando à tardinha volves da colina 
 Sem receio da longa carabina 
 De lajedo em lajedo as corças descem! 

“Teu cavalo nitrindo na savana 
 Lambe as úmidas gramas em meus dedos. 
 Quando a fanfarra tocas na montanha, 
 A matilha dos ecos te acompanha 
 Ladrando pela ponta dos penedos.

“Onde vais, belo moço? Se partires 
 Quem será teu amigo, irmão e pajem? 
 E quando a negra insônia te devora, 
 Quem na guitarra que suspira e chora. 
Há de cantar-te seu amor selvagem? 

“A choça do desterro é nua e fria! 
 O caminho do exílio é só de abrolhos! 
 Que família melhor que meus desvelos?... 
 Que tenda mais sutil que meus cabelos  
Estrelados no pranto de teus olhos?... 

“Estranho moço! Eu vejo em tua fronte 
 Esta amargura atroz que não tem cura. 
 Acaso fulge ao sol de outros países, 
 Por entre as balsas de cheirosas lises, 
 A esposa que tua alma assim procura? 

“Talvez tenhas além servos e amantes, 
 Um palácio em lugar de uma choupana. 
 E aqui só tens uma guitarra e um beijo, 
 E o fogo ardente de ideal desejo 
 Nos seios virgens da infeliz serrana!...” 

No entanto Ele partiu!... Seu vulto ao longe 
 Escondeu-se onde a vista não alcança... 
 ... Mas não penseis que o triste forasteiro 
 Foi procurar nos lares do estrangeiro 
 O fantasma sequer de uma esperança!... 
 Curralinho, 29 de abril de 1870 

AS TREVAS
A meu amigo, o dr. Franco Meireles, inspirado 
 tradutor das Melodias Hebraicas 

 Traduzido de Lord Byron 

Tive um sonho que em tudo não foi sonho!... 

O sol brilhante se apagara: e os astros, 
 Do eterno espaço na penumbra escura, 
 Sem raios, e sem trilhos, vagueavam. 
 A terra fria balouçava cega 
 E tétrica no espaço ermo de lua. 
 A manhã ia, vinha... e regressava... 
 Mas não trazia o dia! Os homens pasmos 
 Esqueciam no horror dessas ruínas 
 Suas paixões. E as almas conglobadas 
 Gelavam-se num grito de egoísmo 
 Que demandava “luz”. Junto às fogueiras 
 Abrigavam-se... e os tronos e os palácios, 
 Os palácios dos reis, o albergue e a choça 
 Ardiam por fanais. Tinham nas chamas 
 As cidades morrido. Em torno às brasas 
 Dos seus lares os homens se grupavam, 
 Pra à vez extrema se fitarem juntos.
Feliz de quem vivia junto às lavas 
 Dos vulcões sob a tocha alcantilada! 

Hórrida esp'rança acalentava o mundo! 
 As florestas ardiam!... de hora em hora 
 Caindo se apagavam; crepitando, 
 Lascado o trono desabava em cinzas. 
 E tudo... tudo as trevas envolviam. 
 As frontes ao clarão da luz doente 
 Tinham do inferno o aspecto... quando às vezes 
 As faíscas das chamas borrifavam-nas. 
 Uns, de bruços no chão, tapando os olhos 
 Choravam. Sobre as mãos cruzadas — outros — 
 Firmando a barba, desvairados riam. 
 Outros correndo à toa procuravam 
 O ardente pasto pra funéreas piras. 
 Inquietos, no esgar do desvario, 
 Os olhos levantavam pra o céu torvo, 
 Vasto sudário do universo — espectro —, 
 E após em terra se atirando em raivas, 
 Rangendo os dentes, blasfemos, uivavam!

Lúgubre grito os pássaros selvagens 
 Soltavam, revoando espavoridos 
 Num voo tonto co’as inúteis asas! 
 As feras ’stavam mansas e medrosas! 
 As víboras rojando s’enroscavam 
 Pelos membros dos homens, sibilantes, 
 Mas sem veneno... a fome lhes matavam! 
 E a guerra, que um momento s’extinguira, 
 De novo se fartava. Só com sangue 
 Comprava-se o alimento, e após à parte 
 Cada um se sentava taciturno, 
 Pra fartar-se nas trevas infinitas! 
 Já não havia amor!... O mundo inteiro 
 Era um só pensamento, e o pensamento 
 Era a morte sem glória e sem detença! 
 O estertor da fome apascentava-se 
 Nas entranhas... Ossada ou carne pútrida 
 Ressupino, insepulto era o cadáver. 

Mordiam-se entre si os moribundos: 
 Mesmo os cães se atiravam sobre os donos, 
 Todo exceto um só... que defendia 
 O cadáver do seu, contra os ataques 
 Dos pássaros, das feras e dos homens, 
 Até que a fome os extinguisse, ou fossem 
 Os dentes frouxos saciar algures! 
 Ele mesmo alimento não buscava...  
Mas, gemendo num uivo longo e triste 
 Morreu lambendo a mão, que inanimada 
 Já não podia lhe pagar o afeto. 

Faminta a multidão morrera aos poucos. 
 Escaparam dous homens tão-somente 
 De uma grande cidade. E se odiavam. 
 ... Foi junto dos tições quase apagados 
 De um altar, sobre o qual se amontoaram 
 Sacros objetos pra um profano uso, 
 Que encontraram-se os dous... e, as cinzas mornas 
 Reunindo nas mãos frias dos espectros, 
 De seus sopros exaustos ao bafejo 
 Uma chama irrisória produziram!... 
 Ao clarão que tremia sobre as cinzas 
 Olharam-se e morreram dando um grito. 
 Mesmo da própria hediondez morreram, 
 Desconhecendo aquele em cuja fronte 
 Traçara a fome o nome de Duende! 

O mundo fez-se um vácuo. A terra esplêndida, 
 Populosa tornou-se numa massa 
 Sem estações, sem árvores, sem erva, 
 Sem verdura, sem homens e sem vida, 
 Caos de morte, inanimada argila! 
 Calaram-se o oceano, o rio, os lagos! 
 Nada turbava a solidão profunda! 
 Os navios no mar apodreciam 
 Sem marujo
s! os mastros desabando 
 Dormiam sobre o abismo, sem que ao menos 
 Uma vaga na queda alevantassem. 
 Tinham morrido as vagas! e jaziam 
 As marés no seu túmulo... antes delas 
 A lua que as guiava era já morta! 
 No estagnado céu murchara o vento; 
 Esvaíram-se as nuvens. E nas trevas 
 Era só trevas o universo inteiro. 
 Bahia, 23 de dezembro 

continua pag 71...

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A Luís / As duas ilhas / Os Anjos da Meia-Noite / O hóspede /                           
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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