sexta-feira, 26 de junho de 2026

Espumas Flutuantes - Immensis Orbibus Anguis

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

IMMENSIS ORBIBUS ANGUIS

Sibila lambebant linguis vibrantibus ora
 Virgílio
 
I
Resvala em fogo o sol dos montes sobre a espalda, 
 E lustra o dorso nu da índia americana... 
 Na selva zumbe entanto o inseto de esmeralda, 
 E pousa o colibri nas flores da liana. 

Ali — a luz cruel, a calmaria intensa! 
 Aqui — a sombra, a paz, os ventos, a cascata... 
 E a pluma dos bambus a tremular imensa... 
 E o canto de aves mil... e a solidão ... e a mata...

E a hora em que, fugindo aos raios da esplanada, 
 A indígena, a gentil matrona do deserto 
 Amarra aos palmeirasis a rede mosqueada, 
 Que, leve como um berço, embala o vento incerto... 

Então ela abandona-lhe ao beijo apaixonado 
 A perna a mais formosa — o corpo o mais macio, 
 E, as pálpebras cerrando, ao filho bronzeado 
 Entrega um seio nu, moreno, luzidio.

Porém dentre os espatos esguios do coqueiro, 
 Do verde gravatá nos cachos reluzentes, 
 Enrosca-se e desliza um corpo sorrateiro 
 E desce devagar pelos cipós pendentes.

E desce... e desce mais... à rede já se chega... 
 Da índia nos cabelos a longa cauda some... 
 Horror! aquele horror ao peito eis que se apega! 
 A baba — quer o leite! — A chaga — sente fome! 

O veneno — quer mel! — A escama quer a pele! 
 Quer o almíscar — perfume! — O imundo quer — o belo! 
 A língua do réptil — lambendo o seio imbele!... 
 Uma cobra — por filho... Horrível pesadelo!...

II
Assim, minh’alma, assim um dia adormeceste 
 Na floresta ideal da ardente mocidade... 
 Abria a fantasia — a pétala celeste... 
 Zumbia o sonho d‘ouro em doce obscuridade... 

Assim, minh’alma deste o seio (ó dor imensa!) 
 Onde a paixão corria indômita e fremente! 
 Assim bebeu-te a vida, a mocidade e a crença 
 Não boca de mulher... mas de fatal serpente!... 
 Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1869  


A UMA ATRIZ
No seu benefício 

Branco cisne, que vogavas 
 Das harmonias no mar, 
 Pomba errante de outros climas, 
 Vieste aos cerros pousar. Inda bem. 
Sob os palmares 
 Na voz do condor, dos mares, 
 Das serranias, dos céus... 
 Sente o homem, — que é poeta. 
 Sente o vate — que é profeta. 
 Sente o profeta — que é Deus.

Há alguma cousa de grande 
 Deste mundo na amplidão, 
 Como que a face do Eterno 
 Palpita na criação... 
 E o homem que olha o deserto, 
 Diz consigo: “Deus stá perto 
 Que a grandeza é o Criador.” 
 E, sob as paternas vistas, 
 Larga rédeas às conquistas, 
 Pede as asas ao condor. 

Inda bem. A glória é isto... 
 É ser tudo... é ser qual Deus... 
 Agitar as selvas d’alma 
 Ao sopro dos lábios teus... 
 Dizer ao peito — suspira! 
 Dizer à mente — delira! 
 A glória inda é mais: É ver 
 Homens, que tremem — se tremes! 
 Homens, que gemem — se gemes!  
Que morrem — se vais morrer! 

A glória é ter com o tridente 
 Refreada a multidão, 
 — Oceano de pensamentos 
 Que tu agitas co’a mão! 
 — Montanha feita de ideias, 
 Que sustenta as epopeias 
 Que é do gênio pedestal! 
 — Harpa imensa feita de almas, 
 Que rompe em hinos e palmas, 
 Ao teu toque divinal. 

Mas esqueceste... Não basta 
 “Chegar, olhar e vencer” 
 Do gênio a maior grandeza 
 O ser divino é sofrer. 
 Diz!... Quando ouves a torrente 
 Do entusiasmo na enchente 
 Vir espumar-te lauréis; 
 Nest’hora grande não sentes 
 Longe os silvos das serpentes, 
 Que tentam morder-te os pés? 
 Inda é a glória — rainha  

Que jamais caminha só. 
 Ai! Quem sobe ao Capitólio 
 Vai precedido de pó. 
 Porém tu zombas da inveja... 
 Se à noite o raio lampeja 
 Tu fazes dele um clarão! 
 Pela tormenta embalada 
 Ao som da orquestra arroubada 
 Vais te perder n’amplidão. 
 Recife, 27 de setembro de 1866 

continua pag 78...
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Canção do Boêmio /                                 
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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