À memória de Meu Pai,
de Minha Mãe
e de Meu Irmão
O. D. C.
IMMENSIS ORBIBUS ANGUIS
Sibila lambebant linguis vibrantibus ora.
Virgílio
I
Resvala em fogo o sol dos montes sobre a espalda,
E lustra o dorso nu da índia americana...
Na selva zumbe entanto o inseto de esmeralda,
E pousa o colibri nas flores da liana.
Ali — a luz cruel, a calmaria intensa!
Aqui — a sombra, a paz, os ventos, a cascata...
E a pluma dos bambus a tremular imensa...
E o canto de aves mil... e a solidão ... e a mata...
E a hora em que, fugindo aos raios da esplanada,
A indígena, a gentil matrona do deserto
Amarra aos palmeirasis a rede mosqueada,
Que, leve como um berço, embala o vento incerto...
Então ela abandona-lhe ao beijo apaixonado
A perna a mais formosa — o corpo o mais macio,
E, as pálpebras cerrando, ao filho bronzeado
Entrega um seio nu, moreno, luzidio.
Porém dentre os espatos esguios do coqueiro,
Do verde gravatá nos cachos reluzentes,
Enrosca-se e desliza um corpo sorrateiro
E desce devagar pelos cipós pendentes.
E desce... e desce mais... à rede já se chega...
Da índia nos cabelos a longa cauda some...
Horror! aquele horror ao peito eis que se apega!
A baba — quer o leite! — A chaga — sente fome!
O veneno — quer mel! — A escama quer a pele!
Quer o almíscar — perfume! — O imundo quer — o belo!
A língua do réptil — lambendo o seio imbele!...
Uma cobra — por filho... Horrível pesadelo!...
II
Assim, minh’alma, assim um dia adormeceste
Na floresta ideal da ardente mocidade...
Abria a fantasia — a pétala celeste...
Zumbia o sonho d‘ouro em doce obscuridade...
Assim, minh’alma deste o seio (ó dor imensa!)
Onde a paixão corria indômita e fremente!
Assim bebeu-te a vida, a mocidade e a crença
Não boca de mulher... mas de fatal serpente!...
Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1869
A UMA ATRIZ
No seu benefício
Branco cisne, que vogavas
Das harmonias no mar,
Pomba errante de outros climas,
Vieste aos cerros pousar.
Inda bem.
Sob os palmares
Na voz do condor, dos mares,
Das serranias, dos céus...
Sente o homem, — que é poeta.
Sente o vate — que é profeta.
Sente o profeta — que é Deus.
Há alguma cousa de grande
Deste mundo na amplidão,
Como que a face do Eterno
Palpita na criação...
E o homem que olha o deserto,
Diz consigo: “Deus stá perto
Que a grandeza é o Criador.”
E, sob as paternas vistas,
Larga rédeas às conquistas,
Pede as asas ao condor.
Inda bem. A glória é isto...
É ser tudo... é ser qual Deus...
Agitar as selvas d’alma
Ao sopro dos lábios teus...
Dizer ao peito — suspira!
Dizer à mente — delira!
A glória inda é mais: É ver
Homens, que tremem — se tremes!
Homens, que gemem — se gemes!
Que morrem — se vais morrer!
A glória é ter com o tridente
Refreada a multidão,
— Oceano de pensamentos
Que tu agitas co’a mão!
— Montanha feita de ideias,
Que sustenta as epopeias
Que é do gênio pedestal!
— Harpa imensa feita de almas,
Que rompe em hinos e palmas,
Ao teu toque divinal.
Mas esqueceste... Não basta
“Chegar, olhar e vencer”
Do gênio a maior grandeza
O ser divino é sofrer.
Diz!... Quando ouves a torrente
Do entusiasmo na enchente
Vir espumar-te lauréis;
Nest’hora grande não sentes
Longe os silvos das serpentes,
Que tentam morder-te os pés?
Inda é a glória — rainha
Que jamais caminha só.
Ai! Quem sobe ao Capitólio
Vai precedido de pó.
Porém tu zombas da inveja...
Se à noite o raio lampeja
Tu fazes dele um clarão!
Pela tormenta embalada
Ao som da orquestra arroubada
Vais te perder n’amplidão.
Recife, 27 de setembro de 1866
continua pag 78...
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Prólogo / Hebreia / Laço de fita / Mocidade e Morte / Os três amores / O Gondoleiro do Amor / As Três Irmãs do Poeta /
O “Adeus” de Teresa / A Maciel Pinheiro / Pedro Ivo / Oitavas de Napoleão / Adormecida / Poesia e Mendicidade /
No álbum do artista Luís C. Amoêdo / Onde estás? / A uma estrangeira / O coração / Pelas sombras / A Duas Flores /
A Luís / As duas ilhas / Os Anjos da Meia-Noite / O hóspede / Aves de arribação / Immensis Orbibus Anguis /
________________Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia.
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo,
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP)
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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