terça-feira, 30 de junho de 2026

Espumas Flutuantes - Canção do Boêmio

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

CANÇÃO DO BOÊMIO
Recitativo da “Meia Hora de Cinismo” 
 
COMÉDIA DE COSTUMES ACADÊMICOS
Música de Emílio do Lago 

Que noite fria! Na deserta rua 
 Tremem de medo os lampiões sombrios. 
 Densa garoa faz fumar a lua 
 Ladram de tédio vinte cães vadios.

Nini formosa! por que assim fugiste? 
 Embalde o tempo à tua espera conto. 
 Não vês, não vês?... Meu coração é triste 
 Como um calouro quando leva ponto

A passos largos eu percorro a sala 
 Fumo um cigarro, que filei na escola... 
 Tudo no quarto de Nini me fala 
 Embalde fumo... tudo aqui me amola

Diz-me o relógio cinicando a um canto 
 “Onde está ela que não veio ainda?” 
 Diz-me a poltrona “por que tardas tanto? 
 Quero aquecer-te, rapariga linda.” 

Em vão a luz da crepitante vela 
 De Hugo clareia uma canção ardente; 
 Tens um idílio — em tua fronte bela... 
 Um ditirambo — no teu seio quente...

Pego o compêndio... inspiração sublime 
 Pra adormecer... inquietações tamanhas... 
 Violei à noite o domicílio, ó crime! 
 Onde dormia uma nação... de aranhas... 

Morrer de frio quando o peito é brasa... 
 Quando a paixão no coração se aninha!?... 
 Vós todos, todos, que dormis em casa, 
 Dizei se há dor, que se compare à minha!...

Nini! o horror deste sofrer pungente 
 Só teu sorriso neste mundo acalma... 
 Vem aquecer-me em teu olhar ardente... 
 Nini! tu és o cache-nez dest’alma.  

Deus do Boêmio!... São da mesma raça 
 As andorinhas e o meu anjo louro... 
 Fogem de mim se a primavera passa 
 e já nos campos não há flores de ouro... 

E tu fugiste, pressentindo o inverno, 
 Mensal inverno do viver boêmio... 
 Sem te lembrar que por um riso terno 
 Mesmo eu tomara a primavera a prêmio... 

No entanto ainda do Xerez fogoso 
 Duas garrafas guardo ali... Que minas
 Além de um lado o violão saudoso  
Guarda no seio inspirações divinas... 

Se tu viesses... de meus lábios tristes 
 Rompera o canto... Que esperança inglória!... 
 Ela esqueceu o que jurar-lhe vistes 
 Ó Paulicéia, ó Ponte grande, ó Glória!... 

Batem!... Que vejo! Ei-la afinal comigo... 
 Foram-se as trevas... fabricou-se a luz... 
 Nini! pequei... dá-me exemplar castigo! 
 Sejam teus braços... do martírio a cruz! 
São Paulo, junho de 1868


É TARDE! 
Olha-me, ó virgem, a fronte 
 Olha-me os olhos sem luz 
 A palidez do infortúnio 
 Por minhas faces transluz; 
 Olha, ó virgem — não te iludas — 
 Eu só tenho a lira e a cruz. 
 Junqueira Freire 

 É tarde! É muito tarde! 
 Mont’Alverne 

É tarde! É muito tarde! O templo é negro... 
 O fogo-santo já no altar não arde. 
 Vestal! não venhas tropeçar nas piras... 
 É tarde! É muito tarde! 

Treda noite! E minh’alma era o sacrário, 
 A lâmpada do amor velava entanto, 
 Virgem flor enfeitava a borda virgem 
 Do vaso sacrossanto;

Quando Ela veio — a negra feiticeira — 
 A libertina, lúgubre bacante, 
 Lascivo olhar, a trança desgrenhada, 
 A roupa gotejante. 

Foi minha crença — o vinho dessa orgia, 
 Foi minha vida — a chama que apagou-se, 
 Foi minha mocidade — o toro lúbrico, 
 Minh’alma — o tredo alcouce.

E tu, visão do céu! Vens tateando  
O abismo onde uma luz sequer não arde? 
 Ai! não vás resvalar no chão lodoso... 
 É tarde! É muito tarde! 

Ai! não queiras os restos do banquete! 
 Não queiras esse leito conspurcado! 
 Sabes? meu beijo te manchara os lábios 
 Num beijo profanado. 

A flor do lírio de celeste alvura 
 Quer da lucíola o pudico afago... 
 O cisne branco no arrufar das plumas 
 Quer o aljôfar do lago. 

É tarde! A rola meiga do deserto 
 Faz o ninho na moita perfumada... 
 Rola de amor! não vás ferir as asas 
 Na ruína gretada. 

Como o templo, que o crime encheu de espanto, 
 Ermo e fechado ao fustigar do norte, 
 Nas ruínas d’esta alma a raiva geme... 
 E cresce o cardo — a morte —. 

Ciúme! dor! sarcasmo! — Aves da noite! 
 Vós povoais-me a solidão sombria, 
 Quando nas trevas a tormenta ulula 
 Um uivo de agonia!... 

Ciúme! dor! sarcasmo! — Aves da noite! 
 Vós povoais-me a solidão sombria, 
 Quando nas trevas a tormenta ulula 
 Um uivo de agonia!... 

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É tarde! Estrela-d’alva! o lago é turvo. 
 Dançam fogos no pântano sombrio. 
 Pede a Deus que dos céus as cataratas 
 Façam do brejo — um rio! 

 Mas não!... Somente as vagas do sepulcro 
 Hão de apagar o fogo que em mim arde... 
 Perdoa-me, Senhora!... eu sei que morro... 
 É tarde! É muito tarde!... 
 Rio de Janeiro, 3 de novembro de 1869

continua pag 81...
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Canção do Boêmio /                                 
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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