segunda-feira, 15 de junho de 2026

Espumas Flutuantes - Aves de arribação

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

AVES DE ARRIBAÇÃO

Pensava em ti nas horas de tristeza 
 Quando estes versos pálidos compus. 
 Cercavam-me planícies sem beleza, 
 Pesava-me na fronte um céu sem luz.

Ergue este ramo solto no caminho.
Sei que em teu seio asilo encontrará. 
 Só tu conheces o secreto espinho 
 Que dentro d’alma me pungindo está!  
Fagundes Varela

Aves, é primavera! à rosa! à rosa! 
 Tomás Ribeiro

 
I
Era o tempo em que as ágeis andorinhas 
 Consultam-se na beira dos telhados, 
 E inquietas conversam, perscrutando 
 Os pardos horizontes carregados...  

Em que as rolas e os verdes periquitos 
 Do fundo do sertão descem cantando... 
 Em que a tribo das aves peregrinas 
 Os Zíngaros do céu formam-se em bando!

Viajar! viajar! A brisa morna 
 Traz de outro clima os cheiros provocantes. 
 A primavera desafia as asas, 
 Voam os passarinhos e os amantes!... 

II
Um dia Eles chegaram. Sobre a estrada 
 Abriram à tardinha as persianas; 
 E mais festiva a habitação sorria 
 Sob os festões das trêmulas lianas.  

Quem eram? Donde vinham? — Pouco importa 
 Quem fossem da casinha os habitantes. 
 — São noivos —: as mulheres murmuravam! 
 E os pássaros diziam: — São amantes — !

Eram vozes — que uniam-se co’as brisas! 
 Eram risos — que abriam-se co’as flores! 
 Eram mais dous clarões — na primavera! 
 Na festa universal — mais dous amores!

Astros! Falai daqueles olhos brandos. 
 Trepadeiras! Falai-lhe dos cabelos! 
 Ninhos d’aves! dizei, naquele seio, 
 Como era doce um pipilar d’anelos. 

Sei que ali se ocultava a mocidade... 
 Que o idílio cantava noite e dia... 
 E a casa branca à beira do caminho 
 Era o asilo do amor e da poesia.  

Quando a noite enrolava os descampados, 
 O monte, a selva, a choça do serrano, 
 Ouviam-se, alongando a paz dos ermos, 
 Os sons doces, plangentes de um piano.

Depois suave, plena, harmoniosa 
 Uma voz de mulher se alevantava... 
 E o pássaro inclinava-se das ramas 
 E a estrela do infinito se inclinava. 

E a voz cantava o tremolo medroso 
 De uma ideal sentida barcarola... 
 Ou nos ombros na noite desfolhava 
 As notas petulantes da Espanhola! 

III
Às vezes, quando o sol nas matas virgens 
 A fogueira das tardes acendia, 
 E como a ave ferida ensanguentava 
 Os píncaros da longa serrania, 

Um grupo destacava-se amoroso, 
 Tendo por tela a opala do infinito, 
 Dupla estátua do amor e mocidade 
 Num pedestal de musgos e granito. 

E embaixo o vale a descantar saudoso 
 Na cantiga das moças lavadeiras!... 
 E o riacho a sonhar nas canas bravas, 
 E o vento a s’embalar nas trepadeiras. 

Ó crepúsculos mortos! Voz dos ermos! 
 Montes azuis! Sussurros da floresta! 
 Quando mais vós tereis tantos afetos 
 Vicejando convosco em vossa festa?...

E o sol poente inda lançava um raio 
 Do caçador na longa carabina... 
 E sobre a fronte d’Ela por diadema 
 Nascia ao longe a estrela vespertina.

IV
É noite! Treme a lâmpada medrosa 
 Velando a longa noite do poeta... 
 Além, sob as cortinas transparentes 
 Ela dorme... formosa Julieta! 

Entram pela janela quase aberta
  Da meia-noite os preguiçosos ventos 
 E a lua beija o seio alvinitente 
 — Flor que abrira das noites aos relentos.

O Poeta trabalha!... A fronte pálida 
 Guarda talvez fatídica tristeza... 
 Que importa? A inspiração lhe acende o verso 
 Tendo por musa — o amor e a natureza! 

E como o cacto desabrocha a medo 
 Das noites tropicais na mansa calma, 
 A estrofe entreabre a pétala mimosa 
 Perfumada da essência de sua alma. 

No entanto Ela desperta... num sorriso 
 Ensaia um beijo que perfuma a brisa... 
 ... A Casta-diva apaga-se nos montes... 
 Luar de amor! acorda-te, Adalgisa! 

V
Hoje a casinha já não abre à tarde 
 Sobre a estrada as alegres persianas. 
 Os ninhos desabaram... no abandono 
 Murcharam-se as grinaldas de lianas. 

Que é feito do viver daqueles tempos! 
 Onde estão da casinha os habitantes? 
 ... A primavera, que arrebata as asas..., 
 Levou-lhe os passarinhos e os amantes!... 
Curralinho, 1870 


OS PERFUMES
A L.
O sândalo é o perfume das mulheres 
 de Istambul, e das huris do profeta; como 
 as borboletas, que se alimentam do 
 mel, a mulher do Oriente vive com as 
 gotas dessa essência divina. 
José de Alencar

O perfume é o invólucro invisível, 
 Que encerra as formas da mulher bonita. 
 Bem como a salamandra em chamas vive, 
 Entre perfumes a sultana habita.

Escrínio aveludado onde se guarda
— Colar de pedras — a beleza esquiva, 
 Espécie de crisálida, onde mora 
 A borboleta dos salões — a Diva.  

Alma das flores — quando as flores morrem, 
 Os perfumes emigram para as belas, 
 Trocam lábios de virgens — por boninas, 
 Trocam lírios — por seios de donzelas! 

E ali — silfos travessos, traiçoeiros 
 Voam cantando em lânguido compasso 
 Ocultos nesses cálices macios 
 Das covinhas de um rosto ou dum regaço. 

Vós, que não entendeis a lenda oculta, 
 A linguagem mimosa dos aromas, 
 De Madalena a urna olhais apenas 
 Como um primor de orientais redomas 

E não vedes que ali na mirra e nardo 
 Vai toda a crença da Judia loura... 
 E que o óleo, que lava os pés do Cristo, 
 É uma reza também da pecadora. 

Por mim eu sei que há confidências ternas, 
 Um poema saudoso, angustiado, 
 Se uma rosa de há muito emurchecida, 
 Rola acaso de um livro abandonado.

O espírito talvez dos tempos idos 
 Desperta ali como invisível nume... 
 E o poeta murmura suspirando: 
 “Bem me lembro... era este o seu perfume!”

E que segredo não revela acaso 
 De uma mulher a predileta essência? 
 Ora o cheiro é lascivo e provocante! 
 Ora casto, infantil, como a inocência! 

Ora propala os sensuais anseios 
 D’alcova de Ninon ou Margarida, 
 Ora o mistério divinal do leito, 
 Onde sonha Cecília adormecida. 

Aqui, na magnólia de Celuta 
 Lambe a solta madeixa, que se estira. 
 Unge o bronze do dorso da caboc’la, 
 E o mármore do corpo da Hetaira. 

É que o perfume denuncia o espírito 
 Que sob as formas feminis palpita... 
 Pois como a salamandra em chamas vive, 
 Entre perfumes a mulher habita. 
 Curralinho, 21 de junho de 1870  

continua pag 76...
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A Luís / As duas ilhas / Os Anjos da Meia-Noite / O hóspede / Aves de arribação /                             
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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