sábado, 21 de março de 2026

Edgar Allan Poe - Contos: O Escaravelho de Ouro¹

Edgar Allan Poe - Contos


O Escaravelho de Ouro
Título original: The Gold-Bug 
Publicado em 1842

      Há já alguns anos, liguei-me intimamente com um tal William Legrand. Pertencia a uma antiga família protestante e, em tempos, fora rico. Mas uma série de desgraças reduziram-no à miséria. Para evitar a humilhação dos seus desastres financeiros, deixou Nova Orleães, a cidade dos seus antepassados, e montou a sua casa na ilha de Sullivan, perto de Charleston, na Carolina do Sul.
     Esta ilha é das mais singulares, composta apenas de areia e mar e com cerca de três milhas de comprimento. De largura tem somente um quarto de milha.
     Está separada do continente por uma enseada que mal se vê, por onde a água se filtra através de uma massa de juncos e de lodo, ponto de reunião das galinhas d’água. A vegetação, como se poderá supor, é pobre, ou por assim dizer, rasteira.
     Não se encontram ali árvores de grande porte. Na extremidade ocidental, à direita, onde se erguem o forte de Moultrie e algumas miseráveis construções de madeira, habitadas durante o verão por pessoas que fogem das poeiras e das febres de Charleston, encontra-se, na verdade, a palmeira anã. Mas toda a ilha, com exceção deste ponto ocidental e de um espaço triste e esbranquiçado, que bordeja o mar, está coberta de espessas moitas de mirto odorífero, tão apreciado pelos horticultores ingleses.
     O arbusto cresce ali a uma altura de quinze ou vinte pés; forma um mato quase impenetrável, perfumando a atmosfera.
     No mais recôndito dessa mata, não longe da extremidade oriental da ilha, isto é, da mais afastada, Legrand construíra ele mesmo uma cabanazinha onde morava, quando pela primeira vez, e por acaso, o conheci. Este conhecimento transformou-se bem depressa em amizade, porque havia certamente, nesse recluso algo que despertava o interesse e a estima. Vi que ele recebera uma educação sólida, felizmente mantida pelas faculdades espirituais pouco comuns, mas que estava imbuído de misantropia e sujeito a penosas alternativas de entusiasmo e melancolia. Se bem que tivesse em casa muitos livros, lia-os raramente. As suas principais distrações consistiam em caçar, pescar ou passear ao acaso pela praia e através do mirto, à procura de marisco e de amostras entomológicas — a sua coleção teria podido causar inveja ao próprio Swammerdann. Nas suas excursões, acompanhava-o quase sempre um velho negro chamado Júpiter, que tinha sido libertado antes do revés da família, mas que não pôde nunca decidir-se, nem por ameaças nem por promessas, a deixar o seu massa Will; ele considerava como direito seu o de o seguir por toda a parte. É provável que os pais de Legrand, pensando que este estivesse um pouco desequilibrado, tivessem apoiado Júpiter na sua obstinação, com o fim de pôr uma espécie de guarda e de vigilante junto do fugitivo.
     Na latitude da ilha de Sullivan, os Invernos são raramente rigorosos e é um acontecimento quando, no declínio do ano, a fogueira se torna indispensável. Entretanto, em meados de outubro de 18..., houve um dia de frio intenso. Mesmo ao pôr do Sol, abri um caminho através da mata para a cabana do meu amigo, que não conseguia ver há já algumas semanas. Morava eu então em Charleston, a uma distância de nove milhas da ilha, e as facilidades para ir e voltar eram bem menores do que hoje. Ao chegar à cabana bati conforme o meu costume, e, como não recebesse resposta, procurei a chave onde sabia que estava escondida, abri a porta e entrei. Um belo lume crepitava na lareira. Era uma surpresa e certamente uma das mais agradáveis.
     Despi o casaco, arrastei uma poltrona para perto das achas incandescentes, e esperei pacientemente a chegada dos meus hospedeiros.
     Eles chegaram pouco depois do anoitecer e fizeram-me um acolhimento muitíssimo cordial. Júpiter ria-se escancarando a boca, enquanto trabalhava e preparava algumas galinhas d’água para a ceia.
     Legrand estava numa das suas « crises» de entusiasmo. Que outro nome lhe poderia dar? Porque tinha encontrado um bivalve de uma espécie desconhecida, e, ainda melhor, conseguira apanhar, com o auxílio de Júpiter, um escaravelho que julgava ser completamente novo e sobre o qual desejava ouvir a minha opinião no dia seguinte, de manhã. 

— E por que não esta noite? — perguntei-lhe esfregando as mãos diante do lume, e enviando em pensamento ao diabo toda a família dos escaravelhos. 
— Ah! Se eu soubesse que estava aqui! — disse-me Legrand. — Mas há tanto tempo que o não via! E como poderia eu adivinhar que me visitaria justamente esta noite? Ao voltar a casa encontrei o tenente G..., do forte, e impensadamente emprestei-lhe o escaravelho, de forma que será impossível que o veja antes de amanhã de manhã. Fique aqui esta noite, e enviarei Júpiter de madrugada para o trazer. É a coisa mais encantadora da criação. 
— O quê, a madrugada? 
— Oh!, não, que diabo! O escaravelho. É de uma cor de ouro brilhante, da grossura mais ou menos de uma noz, com duas manchas de um negro azeviche numa extremidade das costas, e uma terceira um pouco mais alongada, na outra. As antenas são de um estranho... 
— Não há absolutamente nada de estanho nele, massa Will, aposto consigo — interrompeu Júpiter. — O escaravelho é um escaravelho de ouro, e ouro maciço, de uma extremidade à outra, por dentro e por toda a parte, exceto as asas; nunca vi, na minha vida, um escaravelho que pesasse metade. 
— Pois bem, admitamos que tens razão, Júpiter — replicou Legrand um pouco mais depressa, segundo me pareceu, do que exigia a situação. — É razão para deixares queimar as galinhas? A cor do inseto — e virou-se para mim — bastaria na verdade para tornar verosímil a ideia de Júpiter. Nunca vi um brilho metálico mais intenso do que o dos seus élitros; mas não poderá apreciá-lo senão amanhã de manhã. Enquanto espera, tentarei dar-lhe uma ideia da sua forma. 

     Prosseguindo a conversa, sentou-se a uma mesinha na qual havia uma caneta e tinta, mas papel não. Procurou numa gaveta, mas não encontrou. 

— Não faz mal — disse por fim — isto bastará.

     E tirou da algibeira do colete qualquer coisa que me deu a impressão de um pedaço de velho pergaminho muitíssimo sujo, e traçou por cima dele um desenho com a pena. Entretanto, eu arranjava lugar ao pé do lume, porque continuava a ter muito frio. Quando acabou o desenho, passou-o sem se levantar. No momento em que o recebi das suas mãos ouviu-se um forte rosnar seguido de um arranhar à porta. Júpiter abriu, e um enorme terra-nova, que pertencia a Legrand, precipitou-se no quarto, pôs as patas nos meus ombros e encheu-me de festas, porque eu o tinha tratado muito bem nas outras visitas anteriores.
     Quando ele acabou, por fim com os saltos, olhei para o papel e, para dizer a verdade, fiquei um bocadinho intrigado com o desenho do meu amigo. 

— Sim! — disse-lhe depois de o ter contemplado alguns minutos. — É um estranho escaravelho, confesso. É novo para mim. Nunca vi coisa semelhante, a não ser um crânio ou uma caveira, ao qual se assemelha mais do que a nenhuma outra coisa que eu tenha examinado. 
— Uma caveira! — repetiu Legrand. — Ah!, sim, compreendo, há uma semelhança com isso no papel. As duas manchas pretas superiores são os olhos, e a mais comprida, que está mais abaixo, representa a boca, não é assim? Além disso a forma em geral é oval... 
— É talvez isso — disse — mas receio, Legrand, que não seja muito artista. Esperarei até que veja o próprio animal para fazer uma ideia do seu aspecto. 
— Muitíssimo bem! Não sei como isso aconteceu — respondeu um pouco amuado. — Eu desenho bastante bem, ou pelo menos deveria fazê-lo, porque tive bons mestres e gabo-me de não ser completamente idiota. 
— Nesse caso, meu amigo, este desenho é uma brincadeira? Isto é um crânio perfeito, segundo todas as ideias recebidas relativas a esta parte da osteologia, e o seu escaravelho seria o mais estranho de todos os do mundo se se assemelhasse a este. Poderíamos estabelecer acerca dele algumas suposições surpreendentes. Presumo que chamará ao seu inseto scarabaeus caput hominis, ou qualquer coisa parecida. Há nos livros de História Natural muitos nomes desse género. Mas onde estão as antenas de que falava? 
— As antenas! — respondeu Legrand que se exaltava inexplicavelmente. — Deve ver asi antenas, estou certo disso. Desenhei-as tão claramente como são no original, e presumo que isso é o suficiente. 
— Admitamos que as tivesse feito. No entanto, é verdade que as não vejo.

     Estendi-lhe o papel, sem fazer nenhuma observação, não querendo pressioná-lo mais, mas estava tão espantado pela reviravolta que o caso tinha dado, o seu mau humor intrigava-me, e quanto ao esboço do inseto, não tinha de certeza antenas visíveis, e o conjunto, sem equívocos, parecia-se com a imagem vulgar de uma caveira. Ele pegou de novo no papel com um modo desabrido e esteve quase a amarrotá-lo, sem dúvida para o deitar no lume, quando o seu olhar incidiu, por acaso, no desenho e toda a sua atenção pareceu estar presa nele. Durante alguns minutos, sem se mexer do lugar, continuou a examinar cuidadosamente o desenho.
     Passado um bocado, levantou-se, tirou uma vela da mesa e foi sentar-se em cima de um baú, na outra extremidade do quarto. Ali, recomeçou a examinar curiosamente o papel, virando-o em todos os sentidos. Contudo, não disse coisa alguma, e a sua conduta causou-me um espanto extraordinário, mas julguei prudente não exasperar com qualquer comentário o seu mau humor crescente. Tirou, por fim, da algibeira do casaco, uma carteira, guardou lá cuidadosamente o papel e colocou tudo numa secretária que fechou à chave. Ficou daí em diante com um aspeto mais calmo e o seu primeiro entusiasmo desapareceu totalmente. Tinha um ar mais de concentrado do que de amuado. A medida que decorria a noite, absorvia-se cada vez mais no seu sonho e nenhuma das minhas graças o conseguiu distrair. Primeiro, tivera a intenção de passar a noite na cabana, como já tinha feito mais de uma vez, mas, ao ver o humor do meu hospedeiro, julguei mais conveniente despedir-me. Ele não fez esforço algum para me reter, mas quando saí apertou-me a mão com uma cordialidade ainda mais viva do que de costume.
     Cerca de um mês depois desta aventura — e durante este intervalo, não ouvira mais falar de Legrand — recebi em Charleston uma visita do seu criado Júpiter. Nunca vira o bom velho negro tão completamente abatido e receei que tivesse acontecido ao meu amigo qualquer desgraça. 

— Pois bem, Jup, diz-me o que há de novo. Como está o teu patrão? 
— Ora essa! Para dizer a verdade, massa, não está tão bem como eu desejava. 
— Não está bem! Estou na verdade aflito por saber isso. Mas de que se queixa? 
— Ah! Esse é o mal! Nunca se queixa, mas apesar disso está muito doente. 
— Muito doente, Júpiter? Eh!, por que me não disseste logo? Está de cama? 
— Não, não está de cama. Não está bem em parte alguma e é justamente o que me aflige. Tenho o meu espírito inquieto a respeito do pobre massa Will. 
— Júpiter, gostava bem de compreender alguma coisa de tudo que me contaste. Dizes que o teu patrão está doente. Não te disse do que é que sofria? 
— Oh!, massa, é em vão que cansa a cabeça. Massa diz que não tem absolutamente nada; mas então por que é que ele anda de um lado para o outro, muito pensativo, a olhar para o chão, de cabeça baixa, de ombros descaídos e pálido como um ganso? E por que é que faz sempre e sempre algarismos? 
— Faz o quê, Júpiter? 
— Faz algarismos e sinais, numa ardósia — os sinais mais estranhos, como nunca vi. Começo a ter medo, apesar de tudo. É preciso que eu tenha o olhar posto nele, somente nele. Um dia destes, fugiu antes de amanhecer e andou por fora todo o santo dia. Cortara propositadamente um bom pau para lhe dar um corretivo, com os diabos!, quando ele voltasse; mas sou tão estúpido que não tive coragem; tinha um aspeto tão infeliz! 
— Ah!, creio que fizeste bem em ser indulgente para o pobre rapaz. Não é preciso chicoteá-lo, Júpiter, não está em estado de o suportar. Mas não podes fazer uma ideia do que provocou esta doença, ou por outra, esta modificação na sua conduta? Aconteceu-lhe alguma coisa triste desde que nos vimos? 
— Não, massa, não lhe aconteceu nada triste desde então, mas antes disso, sim, e tenho medo disso. Foi no próprio dia em que esteve lá. 
— Como? O que queres dizer? 
Massa, quero falar do escaravelho, eis tudo. 
— De quê? 
— Do escaravelho... Estou certo que massa Will foi mordido em qualquer lado da cabeça pelo escaravelho de ouro. 
— E que razão tens, Júpiter, para fazer semelhante suposição? 
— Tem bastantes pinças para isso, massa, e uma boca também. Nunca vi um escaravelho tão endiabrado: apanha e morde tudo o que se aproxima dele. Massa Will apanhou-o primeiro, mas depressa o soltou, asseguro-lhe; foi então, sem dúvida, que foi mordido. O aspecto desse escaravelho e a boca dele nunca me agradaram. Por isso não quis apanhá-lo com os meus dedos. Peguei num pedaço de papel e embrulhei-o, com um pedacinho de papel na boca — eis como procedi. 
— E tu pensas, portanto, que o teu patrão foi realmente mordido pelo escaravelho e que esta mordedura o deixou doente? 
— Não penso absolutamente nada; sei-o! Por que é que ele sonha sempre com ouro, senão por que foi mordido pelo escaravelho de ouro? Já ouvi falar desses escaravelhos de ouro. 
— Mas como sabes que ele sonha com ouro? 
— Como sei? Porque fala dele, mesmo quando dorme. É assim que sei. 
— Com efeito, Júpiter, talvez tenhas razão. Mas a que feliz circunstância devo hoje a honra da tua visita? 
— Que quer dizer, massa? 
— Trazes-me uma mensagem do teu patrão? 
— Não, massa, trago-lhe aqui uma carta. 

     E Júpiter estendeu-me um papel no qual li:

     Meu caro,
     Por que não o vejo há já tanto tempo? Espero que não seja tão acriançado para amuar com uma brusquidão da minha parte. Não, duvido muito disso.
     Desde que o vi, tive um motivo de grande inquietação. Tenho uma coisa para lhe dizer, mas dificilmente saberei fazê-lo. Poderei mesmo dizer-lhe?
     Não tenho estado completamente bem há já alguns dias e o pobre velho Júpiter aborrece-me insuportavelmente com todas as suas atenções.
     Acredita? Ele tinha preparado um dia destes um grande pau com o fim de me castigar, por lhe ter fugido e ter passado o dia só, no meio das colinas, no continente. Creio, realmente, que o meu mau parecer me livrou da pancada.
     Não aumentei nada à minha coleção desde que nos vimos. Volte com o Júpiter se não tiver alguma coisa importante para fazer. “Venha, venha.” Desejo vê-lo esta noite por causa de um assunto grave. Garanto-lhe que é da mais alta importância.
     O seu muito dedicado,
                                          William Legrand.

continua na página 415...
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Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
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Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.

Tratado Geral sobre a Fofoca³

José Angelo Gaiarsa


     Gaiarsa, José Angelo, 1920 - 2010
     Tratado geral sobre a fofoca : uma análise da desconfiança humana / José Angelo Gaiarsa. - 15. ed. - São Paulo : Ágora, 2015


O OUTRO NÃO PODE MUDAR PORQUE ISSO ME PERTURBA.


Em vez de dizer assim, tento convencer a mim mesmo, e aos demais, que o estabelecido ou o costume é sagrado, são leis naturais ou divinas imutáveis. Portanto,

morte ao herético!


O exato seria dizer que existe o meu mundo e o seu mundo, que você se move em um e eu no outro.
Eles podem coexistir, mas é preciso muita maturidade pessoal para aceitar que é assim.


A MAIOR VANTAGEM do cidadão NORMAL, que cumpre todas as suas obrigações, é a IRRESPONSABILIDADE. (pag 31)

O conservador é como o holandês: passa a vida construindo diques para que o mar não invada a terra. Vivendo para se confundir com os demais, controlando-se para se manter sempre o mesmo, o cidadão normal teme tudo que é novo - mesmo que se sinta fascinado pela novidade.

Como um pelotão de soldados uniformizados.

O conservador faz fofoca sobre os divergentes porque estes comprometem todo o seu sistema de segurança. 
A maior arma do conservador é a fofoca.

E é bom não ser ingênuo dentro dessa rede diabólica. Também os quadrados fazem fofoca contra os quadrados - porque eles são iguais. E também os marginais se criticam asperamente.

VIVA A HUMANIDADE!



"É de pequenino que se começa a MUMIFICAR as crianças."




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sobre a fofoca / angustia e respiração / o outro não pode mudar / 

Moby Dick: 54 - A História do Town-ho(c)

Moby Dick

Herman Melville

54 - A História do Town-ho (Tal como foi contada na Estalagem Dourada)
 
continuando...

“Quando o sol raiou, ele convocou todos os marinheiros; e, separando os rebeldes dos que não tomaram parte no motim, disse aos primeiros que tinha a intenção de açoitá-los – que, pensando bem, assim faria –, teria de fazê-lo – que a justiça assim exigia que fosse; mas agora, levando em consideração a sua oportuna rendição, ele os deixaria ir com uma reprimenda, a qual apropriadamente administrou no vernáculo.
“‘Mas quanto a vocês, seus patifes moribundos’, virando-se para os três homens no cordame – ‘penso em picá-los para a fornalha’; e, pegando uma corda, aplicou-a com toda a força nas costas dos dois traidores, até que parassem de gritar e pendessem as cabeças sem vida para o lado, como a ilustração dos dois ladrões crucificados.
“‘Fizeram-me torcer o pulso!’, gritou, finalmente, ‘mas ainda tenho corda suficiente para você, meu galinho de briga, que não quis desistir. Tirem a mordaça da boca dele e vamos ouvir o que ele tem a dizer a seu favor.’
“Por um momento o exausto amotinado moveu a mandíbula trêmula, depois, virando penosamente a cabeça, disse numa espécie de sussurro: ‘O que eu quero dizer é o seguinte – preste bem atenção –, se me açoitar, eu te mato!’.
“‘Ah, é? Pois veja como me assusta’, e o Capitão afastou a corda para bater.
“‘É melhor não’, sussurrou o lacustre.
“‘Mas eu devo’, e a corda foi novamente puxada para o golpe. 
“Nesse momento, Steelkilt sussurrou algo inaudível para todos, menos para o Capitão, que, para o espanto de todos, recuou, deu dois ou três passos pelo convés, e, atirando subitamente a corda, disse: ‘Não vou fazer isso – soltem-no –, desçam-no daí: ouviram?’. 
“Mas, quando os novatos correram para executar a ordem, um homem pálido, com a cabeça enfaixada, os deteve – Radney, o imediato. Desde o soco, ficara estendido no beliche; mas naquela manhã, ao escutar o tumulto no convés, arrastara-se para fora e até ali assistira a toda a cena. Tal era o estado de sua boca, que ele mal podia falar; mas murmurou algo sobre ele querer e ser capaz de fazer o que o Capitão não ousara tentar; pegou a corda e avançou na direção do seu inimigo atado.
“‘Seu covarde!’, sussurrou o lacustre. 
“‘Sou mesmo, mas tome isto.’ O imediato estava na posição de açoitá-lo, quando um outro sussurro deteve o seu braço erguido. Fez uma pausa: e então, sem pausa alguma, fez valer sua palavra, apesar da ameaça de Steelkilt, qualquer que tenha sido. Os três homens foram soltos, todos voltaram ao trabalho, e, fastidiosamente acionadas pelos tristes marinheiros, as bombas de ferro troaram como antes.
“Logo depois que escureceu aquele dia, após a troca de turno da vigia, ouviu-se um clamor no castelo de proa; e os dois trêmulos traidores, correndo para cima, pararam diante da porta da cabine, dizendo que não se atreviam a juntar-se à tripulação. Súplicas, bofetões ou pontapés, nada os levaria de volta, por isso, atendendo a seu pedido, foram colocados na popa do navio onde ficariam a salvo. E assim não voltou a haver nenhum sinal de motim entre os outros. Pelo contrário, parecia que, principalmente por instigação de Steelkilt, eles haviam resolvido manter a mais perfeita paz, obedecer a todas as ordens, e, quando o navio chegasse ao porto, desertar em massa. Mas para assegurar o fim mais rápido para a viagem todos concordaram com mais uma coisa – a saber, não anunciar caso encontrassem uma baleia. Pois, apesar do vazamento, apesar de todos os outros perigos, o Town-Ho continuava com os seus mastros erguidos, e seu Capitão ainda queria descer, como no primeiro dia em que a embarcação saiu para a pesca; e o imediato Radney da mesma forma estava pronto para trocar o seu beliche por um bote, e, mesmo com sua boca enfaixada, tentar amordaçar até a morte a vigorosa mandíbula da baleia.
“Mas, embora o lacustre tivesse induzido os marinheiros a adotar essa espécie de passividade na conduta, ele mantivera em segredo (ao menos até que tudo tivesse terminado) a sua vingança particular e condizente contra o homem que o ferira nos ventrículos do coração. Ele estava no turno de vigia do imediato Radney; e como se o ensandecido corresse em busca de seu destino, após a cena do cordame, ele insistiu, contrariando o conselho do capitão, em reassumir a liderança da vigília à noite. Com isso, mais uma ou duas outras circunstâncias, Steelkilt sistematicamente construiu o plano de sua vingança.
“Durante a noite, Radney costumava sentar-se, de um modo estranho aos marinheiros, na amurada do tombadilho, encostando o braço na borda de um bote que ficava pendurado, um pouco acima da lateral do navio. Nesta posição, como era sabido por todos, ele às vezes cochilava. Havia um espaço considerável entre o bote e o navio, e lá embaixo disto tudo era o mar. Steelkilt calculou o tempo e viu que o seu próximo turno no leme seria às duas horas, na manhã do terceiro dia após o dia em que fora traído. Calmamente, usou os seus intervalos para tecer algo com muito cuidado, nos quartos embaixo.
“‘O que você está fazendo aí?’, perguntou um companheiro de bordo. 
“‘O que você acha? O que parece?’ 
“‘Parece um riz para o ilhó da sua sacola, mas me parece meio esquisito.’ 
“‘É mesmo, é um pouco esquisito’, disse o lacustre, estendendo-o diante de si, ‘mas acho que vai resolver. Marujo, não tenho mais cordão – você não teria um pouco?’ 
“Mas não tinha mais no castelo de proa. 
“‘Bem, vou ver se consigo algum com o velho Rad’, e levantou-se para ir à popa. 
“‘Você não está pensando em pedir bem para ele!’, disse um marinheiro. 
“‘Por que não? Acha que ele não me fará um favor se é para ajudá-lo no final, companheiro?’
“E aproximando-se do imediato olhou para ele com tranquilidade e pediu-lhe um pouco de cordão para consertar a sua rede. Deu-lhe – nem cordão e nem cabo foram jamais vistos outra vez; mas na noite seguinte uma bola de ferro, presa numa rede, escorregou parcialmente do bolso do casaco de marinheiro de Steelkilt, quando este o dobrava para usar de travesseiro em sua rede. Vinte e quatro horas mais tarde, fazendo o seu turno no leme silencioso – perto do homem que conseguia dormir sobre o túmulo sempre pronto para o marinheiro–, o momento fatal se aproximava; e, para um espírito predisposto como o de Steelkilt, o imediato já estava completamente estirado como um cadáver, com a testa esfacelada.
“Mas, senhores, um tolo salvou o futuro assassino da ação sanguinária que ele planejara. Assim ele foi totalmente vingado, sem ser o vingador. Pois que por uma fatalidade misteriosa o próprio céu pareceu interferir ao tomar em suas mãos e tirando das dele o ato condenável que teria praticado. 
“Foi entre a madrugada e o nascer do sol da manhã do segundo dia, quando estavam lavando o convés, que um estúpido homem de Tenerife, tirando água da mesa da enxárcia, começou a gritar de repente: ‘Lá vem ela! Lá vem ela! Meu Deus, uma baleia!’. Era Moby Dick.”
“‘Moby Dick!’, exclamou Don Sebastian. “Por São Domingos! Senhor marinheiro, as baleias têm nome próprio? A quem o senhor trata de Moby Dick?” 
“Um monstro muito branco, famoso e imortal, Don; – mas essa é uma história muito comprida.” 
“Como assim? Como assim?”, suplicaram todos os jovens espanhóis, aglomerando-se. 
“Não, senhores, senhores – não e não! Não posso contá-la agora. Deixe-me tomar um pouco de ar.” 
“A chicha! A chicha!”, pediu Don Pedro, “o nosso amigo vigoroso parece fraco;– encham o copo dele.”
“Não é necessário, senhores, um momento e já posso continuar. Ora, senhores, assim que avistou a nívea baleia a umas cinquenta jardas do navio – esquecendo se do pacto combinado pela tripulação –, na excitação do momento, o homem de Tenerife, instintiva e involuntariamente, ergueu a voz para o monstro, que pouco tempo antes fora avistado nos três taciturnos topos de mastro. Tudo era agora frenesi. ‘A Baleia Branca! – A Baleia Branca!’ era o grito do capitão, dos pilotos e arpoadores, que, inadvertidos dos horrendos rumores, estavam todos ansiosos para capturar o tão famoso e precioso peixe; enquanto a tripulação desconfiada olhava de soslaio e amaldiçoava a espantosa beleza da vasta massa láctea, que iluminada por um sol luzindo do horizonte se movia e brilhava como uma opala viva no oceano azul da manhã. Senhores, uma fatalidade estranha permeia todo o percurso destes eventos, como que mapeada antes de o próprio mundo ser cartografado. O amotinado era o remador do imediato, e quando arpoavam um peixe era seu dever sentar-se ao seu lado, enquanto Radney ficava em pé com a sua lança na proa, e puxar ou soltar a ostaxa conforme o comando. Além disso, quando os quatro botes foram baixados, o imediato assumiu a dianteira; ninguém gritou mais ferozmente de prazer que Steelkilt, ao fazer força com seu remo. Após uma forte arrancada, o arpoador foi rápido, e com o arpão na mão Radney pulou para a proa. Ele estava sempre furioso, ao que parecia, dentro de um barco. Agora seu grito enfaixado era para que o desembarcassem no alto do dorso da baleia. De bom grado, seus remadores empurraram-no para cima, através de uma neblina cegante que mesclava duas brancuras; até que, de repente, o bote se chocou como que contra um rochedo submerso, e tombou, derrubando o imediato que estava de pé. Naquele instante, quando caiu no dorso escorregadio da baleia, o bote se endireitou e foi arremessado por uma ondulação, enquanto Radney era jogado ao mar, do outro lado da baleia. Ele se bateu por entre os borrifos, e, por um instante, foi visto difusamente, através daquele véu, desesperadamente buscando afastar-se do olho de Moby Dick. Mas a baleia arremeteu de volta num súbito redemoinho; prendeu o nadador entre as maxilas; e erguendo-se com ele bem alto mergulhou de cabeça outra vez, e afundou.
“Entrementes, no primeiro toque do fundo do bote, o lacustre soltara a ostaxa, para que caísse atrás do sorvedouro; olhando tudo calmamente, pensou com os seus botões. Mas um solavanco brusco, terrível e para baixo no bote de repente levou sua faca para a ostaxa. Ele a cortou; e a baleia estava livre. Mas, a uma certa distância, Moby Dick emergiu outra vez, com alguns retalhos da blusa de lã vermelha de Radney presos nos dentes que o haviam destruído. Os quatro botes retornaram à caça; mas a baleia os evitou e finalmente desapareceu por completo. 
“Em boa hora, o Town-Ho chegou a seu porto – um lugar selvagem, solitário –, onde não vivia nenhuma criatura civilizada. Ali, conduzidos pelo lacustre, todos, exceto uns cinco ou seis dos homens do mastro de proa, desertaram deliberadamente por entre as palmeiras; por fim, conforme se viu, tomando uma grande canoa de guerra dupla dos selvagens e velejando para um outro porto.
“Estando a tripulação do navio reduzida apenas a um punhado de homens, o capitão pediu aos ilhéus que o ajudassem na laboriosa tarefa de erguer o navio para consertar o vazamento. Mas tal foi a vigilância desses aliados perigosos exigida do pequeno grupo de brancos, tanto de dia quanto de noite, e o trabalho tão extremamente pesado por que passaram, tão incessante, que quando a embarcação ficou novamente pronta para voltar ao mar, eles estavam tão fracos que o capitão não se atreveu a sair ao mar com eles numa embarcação tão pesada. Depois de se aconselhar com os seus oficiais, ancorou o navio o mais longe possível da costa, carregou as canhoneiras dos dois canhões da proa; ensarilhou os mosquetes no tombadilho; e, avisando os ilhéus para não se aproximarem do navio, pelo perigo que corriam, levou consigo um homem, e, desfraldando a vela do seu melhor bote, rumou de vento em popa para o Taiti, a quinhentas milhas dali, para conseguir reforços para a sua tripulação. 
“No quarto dia de viagem, uma grande canoa foi avistada, que parecia ter feito escala numa ilha pequena de corais. Ele se desviou dela, mas a embarcação selvagem os perseguiu; e logo a voz de Steelkilt disse-lhe que parasse, ou ele os derrubaria dentro d’água. O capitão sacou uma arma. Com um pé em cada proa das canoas de guerra conjugadas, o lacustre riu com desdém; assegurando-lhe que, se a arma fizesse um simples clique, ele o sepultaria em bolhas e espuma.
“‘O que você quer de mim?’, indagou o capitão. 
“‘Para onde você vai? E por que vai?’, perguntou Steelkilt. ‘Não minta.’ 
“‘Vou ao Taiti buscar mais homens.’ 
“‘Ótimo. Deixe-me subir a bordo por um instante; – venho em boa paz.’ E assim ele saltou da canoa, nadou para o bote; e subindo na amurada ficou frente a frente com o capitão. 
“‘Cruze os braços, senhor, coloque a cabeça para trás. Agora repita depois de mim: ‘assim que Steelkilt me deixar, juro que levarei este bote para a praia daquela ilha, e lá permanecerei por seis dias. Que os raios me fulminem se eu não o fizer!’ 
“‘Que aluno aplicado!’, riu o lacustre. ‘Adiós, Señor!’, e, pulando no mar, nadou de volta para os seus companheiros.
“Observando o bote até que desembarcasse na praia, perto das raízes dos coqueiros, Steelkilt zarpou outra vez, e no tempo devido chegou ao Taiti, que era seu próprio destino. Ali, a sorte lhe sorriu: dois navios estavam zarpando para a França e necessitavam providencialmente do número exato de homens que o marinheiro liderava. Embarcaram; abrindo assim uma distância definitiva de seu antigo capitão, caso estivesse em seus planos uma retaliação legal contra eles. 
“Uns dez dias depois que os navios franceses partiram, o bote baleeiro chegou, e o capitão foi forçado a arregimentar alguns taitianos entre os mais civilizados, que de alguma maneira estivessem acostumados ao mar. Fretando uma pequena escuna nativa, ele voltou com eles à sua embarcação; e, encontrando ali tudo em ordem, seguiu viagem. 
“Onde Steelkilt está agora, senhores, ninguém sabe; mas na ilha de Nantucket, a viúva de Radney ainda olha para o mar, que se recusa a entregar seu morto; ainda vê em sonhos a terrível baleia branca que o destruiu.”

*   *   *   *   *   *
     
     “Terminou?”, disse Don Sebastian, com calma.
     “Sim, Don.”
     “Suplico-lhe então que me diga, a bem de suas próprias convicções, se a sua história é realmente verdadeira? É mais que maravilhosa! Soube-a de fonte segura? Tenha paciência comigo se parece que faço pressão.”
     “Também lhe pedimos paciência conosco, senhor marinheiro; pois todos queremos fazer o mesmo pedido de Don Sebastian”, exclamou o grupo, com grande interesse.
     “Há um exemplar dos Sagrados Evangelhos na Estalagem Dourada, senhores?”
     “Não”, disse Don Sebastian, “mas conheço um padre muito ilustre aqui perto, que poderia facilmente conseguir um para mim. Vou tratar disso; mas pensou bem? Isto pode se tornar uma coisa séria demais.”
     “Você poderia trazer o padre também, Don?”
     “Embora já não haja autos-de-fé em Lima”, disse um do grupo para o outro, “receio que o nosso amigo marinheiro corra perigo com o arcebispado. Afastemo-nos um pouco da luz da lua. Não vejo a necessidade disto.”
     “Desculpe importuná-lo, Don Sebastian, mas posso pedir-lhe também que procure os maiores Evangelhos que encontrar?”

     “Aqui está o padre, e traz consigo os Evangelhos”, disse Don Sebastian, grave, voltando com uma pessoa alta e solene.
     “Vou tirar o chapéu. Bem, venerável sacerdote, um pouco mais para a luz, e segure o Livro Sagrado diante de mim, para que eu possa tocá-lo.
     “Que o céu me proteja! Palavra de honra que a história que lhes contei, senhores, é verídica na sua essência e nos assuntos principais. Sei que é verídica; que aconteceu neste mundo; estive no navio; conheci a tripulação; vi Steelkilt e conversei com ele, depois da morte de Radney.”

Continua na página 252...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
53 - O Gam / 54 - A História do Town-ho(a) / 54 - A História do Town-ho(b) / 54 - A História do Town-ho(c) /      
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

Você sabia... Pontuação²

Por que a vírgula é a pontuação mais controversa?


"Minhas vírgulas estavam deixando o texto lindo e compreensível ou estavam irritando quem fosse ler e pior, demonstrando minha ignorância e presunção?" @tsz5868





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Vírgula não é necessariamente pausa
Por que a vírgula é a pontuação mais controversa?

sexta-feira, 20 de março de 2026

Bom tarde, Outono... Autumn Leaves

Folhas de outono


"No silêncio de minha alma, repassando os momentos maravilhosos, me restou baixar a cabeça e chorar. A saudade é o amor que nunca morre!"


Les Feuilles Mortes_
Yves Montand - ele sempre se recusou a cantar Les Feuilles Mortes em inglês.
Olympia



"Raízes Francesas: A canção "Autumn Leaves" é a adaptação em inglês da canção francesa "Les Feuilles mortes", composta por Joseph Kosma em 1945. A poesia original foi escrita por Jacques Prévert. A letra em inglês foi posteriormente escrita por Johnny Mercer em 1947, tornando-a acessível a um público mais amplo."


As folhas que caem voam através da janela
As folhas do outono, vermelhas e douradas
Eu vejo seus lábios, os beijos de verão
As mãos queimadas de Sol que eu costumava segurar

Desde que você foi embora os dias ficaram longos
E em breve eu ouvirei velhas canções de inverno
Mas eu sinto mais saudade de você, minha querida
Quando as folhas de outono começam a cair

Desde que você foi embora os dias ficaram longos
E em breve eu ouvirei velhas canções de inverno
Mas eu sinto mais saudade de você, minha querida
Quando as folhas de outono começam a cair



Chet Baker and Ruth Young 
Autumn Leaves




The falling leaves drift by the window
The autumn leaves of red and gold
I see your lips, the summer kisses
The Sun-burned hands I used to hold

Since you went away the days grow long
And soon I'll hear old winters song
But I miss you most of all my darling
When autumn leaves start to fall

Since you went away the days grow long
And soon I'll hear old winters song
But I miss you most of all my darling
When autumn leaves start to fall

Composição: Joseph Kosma, Jacques Prévert, Johnny Mercer.


"Desde o seu lançamento, "Autumn Leaves" tornou-se uma das canções mais gravadas na história do jazz, com mais de mil gravações comerciais por diversos artistas, incluindo Nat King Cole, Frank Sinatra e Edith Piaf. É frequentemente celebrada por sua melodia comovente e profundidade emocional."


Nat King Cole 
- Autumn Leaves 
-1955




"A viúva do compositor, Lily Kosma, doou os direitos da canção para a cidade de Nice, sob a condição de que uma rua da cidade fosse nomeada em homenagem a Joseph Kosma. Uma pequena rua no distrito dos músicos leva o nome do compositor."


Autumn Leaves 
| Full Steam Jazzband | 2013





Hermeto Pascoal e Nelson Faria 
| Autumn Leaves



UM CAFÉ LÁ EM CASA


"Essa canção "Les Feuilles Mortes" foi escrita pelo poeta francês surrealista Jacques Prévert em 1945. A música foi criada antes por Joseph Kosma para o ballet "le rendez vous" em 1945 e Prévert escreveu depois a letra para o filme "Les portes de la nuit" (um filme de Marcel Carné - 1946), em 1945."


Les Feuilles Mortes 
- Poésie 
- Jacques Prévert



Les portes de la nuit
de Marcel Carné - 1946
Les Feuilles Mortes 
Nota¹ - Yves Montand sentado à mesa escrevendo
Nota² - não esqueça de exibir as legendas



"Jean Gabin e Marlene Dietrich iriam fazer os papéis principais, mas acabaram recusando em virtude do filme abordar questões da ocupação da França e que os dois tinham se envolvido profundamente. Um jovem cantor francês apresentado por Edith Piaf, Yves Montand, fez esse filme e cantou 'Les feuilles mortes'. O poema completo foi publicado, depois da morte de Jacques Prévert, no livro 'Sol da Noite' em 1980."
História com gosto


Oh! eu queria tanto que você se lembrasse
Dos dias felizes quando éramos amigos
Nesse tempo lá a vida era mais bela
E o sol mais forte do que hoje

As folhas mortas são recolhidas à pá
Você vê, eu não me esqueci
As folhas mortas são recolhidas à pá
Lembranças e remorsos também

E o vento norte as leva
Na noite fria do esquecimento
Você vê, eu não esqueci
A música que você cantou para mim

É uma canção que se assemelha a nós
Você, você me amou e eu te amei
E nós vivemos os dois juntos;
Você que me amava, Eu que te amava;

Mas a vida separa aqueles que se amam
Gentilmente, sem fazer barulho
E o mar apaga na areia
Os passos dos amantes separados

O Sol é para todos: 2ª Parte (31)

Harper Lee

O Sol é para todos

Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB

SEGUNDA PARTE

31

     Quando Boo Radley se levantou, a luz que vinha das janelas da sala brilharam na testa dele. Todos os seus movimentos eram inseguros, como se ele não tivesse certeza de que as mãos e os pés podiam fazer contato com as coisas que tocavam. Tossiu a sua horrível tosse seca e ficou tão abalado que precisou sentar-se de novo. Enfiou a mão no bolso da calça e pegou um lenço. Tossiu nele e secou a testa.
     Eu estava tão acostumada com a ausência dele que achei incrível que estivesse sentado ao meu lado o tempo todo, presente. Em absoluto silêncio.
     Ele se levantou de novo. Virou-se para mim e fez sinal com a cabeça indicando a porta. 

— Quer se despedir de Jem, não é, sr. Arthur? Venha.

     Fui andando com ele pelo corredor. Tia Alexandra estava sentada ao lado da cama de Jem. 

— Entre, Arthur — ela convidou. — Jem ainda está dormindo. O dr. Reynolds deu um sedativo forte para ele. Jean Louise, seu pai está na sala? 
— Acho que sim, senhora. 
— Vou falar com ele um instante. O dr. Reynolds deixou algumas… — a voz dela desapareceu na distância.

     Boo tinha se esgueirado para um canto do quarto e estava com o queixo levantado, olhando Jem de longe. Peguei a mão dele, que era muito quente, apesar de tão branca. Puxei-a de leve e ele deixou que o levasse até a cama de Jem.
     O dr. Reynolds tinha feito uma espécie de armação no braço de Jem para que ficasse isolado, acho. Boo se debruçou sobre a armação e olhou; em seu rosto havia uma curiosidade tímida, como se ele nunca tivesse visto um menino. Abriu de leve a boca e olhou Jem dos pés à cabeça. Levantou a mão, mas deixou-a cair ao lado do corpo. 

— Pode fazer carinho nele, sr. Arthur, ele está dormindo. Se estivesse acordado, ele não deixaria… Vá em frente — expliquei.

     A mão de Boo pairou sobre a cabeça de Jem. 

— Vá em frente, ele está dormindo.

     Eu estava começando a entender a linguagem corporal dele. Ele apertou a minha mão, o que significava que queria ir embora.
     Levei-o até a varanda da frente, onde seus passos inseguros pararam. Continuava segurando a minha mão e parecia que não ia soltar. 

— Pode me levar em casa?

     Ele praticamente sussurrou, com a voz de uma criança com medo do escuro.
     Pisei no primeiro degrau da escada e parei. Eu podia conduzi-lo pela nossa casa, mas não podia conduzi-lo até a casa dele. 

— Sr. Arthur, dobre o braço assim. Isso, muito bem.

     Enfiei minha mão na dobra do braço dele.
     Ele teve de curvar-se um pouco para me dar o braço, mas se a srta. Stephanie Crawford estivesse olhando da janela dela, veria Arthur Radley me acompanhando pela calçada, como qualquer cavalheiro faria.
      Chegamos ao poste da esquina e pensei em quantas vezes Dill tinha ficado ali agarrado naquele mastro gordo, olhando, esperando, imaginando. E quantas vezes Jem e eu tínhamos feito aquele caminho, mas era a segunda vez na vida que eu entrava no portão dos Radley. Boo e eu subimos a escada da varanda. Ele segurou na maçaneta. Soltou minha mão delicadamente, abriu a porta, entrou e fechou a porta. Nunca mais o vi.
     As pessoas levam flores quando alguém morre e comida quando alguém adoece, e pequenos presentes em outras ocasiões. Boo era nosso vizinho. Ele nos deu dois bonecos esculpidos em sabão, um relógio quebrado com a corrente, duas moedas da sorte e nossas vidas. Mas os vizinhos retribuem. Nós nunca colocamos de volta na árvore o que tínhamos tirado de lá: não demos nada para ele em troca, e isso me entristecia.
     Virei-me para fazer o caminho de volta. Os postes piscavam na rua até a cidade. Eu nunca tinha visto o nosso bairro por aquele ângulo. Ali estavam a casa da srta. Maudie, a da srta. Stephanie... a nossa casa. Vi o balanço da varanda, a casa da srta. Rachel depois da nossa, perfeitamente visível. Dava para ver até a casa da sra. Dubose. Olhei para trás. À esquerda da porta marrom havia uma janela comprida, com venezianas. Fui até lá, fiquei na frente dela e me virei. De dia, pensei, dava para ver a esquina do correio.
      De dia… na minha cabeça, a noite desapareceu. Era dia e o bairro estava movimentado. A srta. Stephanie atravessava a rua para contar as últimas novidades para a srta. Rachel. A srta. Maudie estava debruçada sobre suas azáleas. Era verão e duas crianças iam pela calçada ao encontro de um homem. O homem acenou e as crianças correram até ele.
     Ainda era verão e as crianças se aproximaram. Um menino veio pela calçada equilibrando uma vara de pescar no ombro. Um homem ficou olhando, com as mãos na cintura. Verão, e os filhos dele brincavam no jardim com um amigo, encenando uma estranha peça que tinham inventado.
     Era outono e os filhos brigavam na calçada na frente da casa da sra. Dubose. O menino ajudou a irmã a se levantar e foram para casa. Outono, e os filhos iam e voltavam pela esquina, no rosto as derrotas e as vitórias do dia. Pararam num carvalho, encantados, confusos, apreensivos.
     Inverno, e os filhos dele tremiam de frio no portão da frente, as silhuetas recortadas contra uma casa consumida pelas chamas. Inverno e um homem veio andando pela rua, tirou os óculos e atirou num cachorro.
     Verão, e ele viu os filhos ficarem de coração partido. Outono de novo, e as crianças de Boo precisavam dele.
     Atticus tinha razão. Uma vez ele disse que a gente só conhece uma pessoa de verdade quando se coloca no lugar dela e fica lá um tempo. Ficar parada na varanda dos Radley foi o suficiente.
     A luz dos postes estava difusa sob a chuva fina que caía. Enquanto ia para casa, me senti muito velha, então olhei para a ponta do meu nariz e vi gotas minúsculas, mas fiquei tonta e parei com aquilo. Enquanto ia para casa, pensei em todas as coisas que tinha para contar a Jem no dia seguinte. Ele ia ficar com tanta raiva de ter perdido tudo que ia passar dias sem falar comigo. Enquanto ia para casa, pensei que Jem e eu íamos crescer mas não tínhamos mais muita coisa para aprender, a não ser, talvez, álgebra.
     Subi a escada correndo e entrei em casa. Tia Alexandra tinha ido dormir e o quarto de Atticus estava escuro. Fui ver se Jem tinha acordado. Atticus estava lá, sentado na cama de Jem. Estava lendo um livro. 

— Jem ainda não acordou? 
— Está dormindo tranquilo. Só vai acordar de manhã. 
— Ah. Você vai ficar aí com ele? 
— Só por uma hora, mais ou menos. Vá dormir, Scout. O dia foi longo. 
— Acho que vou ficar um pouco com você. 
— Como quiser — disse Atticus. Devia ser mais de meia-noite, e fiquei surpresa por ele ter concordado. Mas ele era mais esperto que eu: mal me sentei e comecei a ficar com sono. 
— O que você está lendo? — perguntei.

     Atticus me mostrou a capa do livro. 

— Um livro de Jem. Chama-se O fantasma cinzento.

     De repente, despertei. 

— Por que escolheu esse? 
— Querida, não sei. Só peguei. É um dos poucos livros que ainda não li — ele disse, direto. 
— Por favor, leia alto, Atticus. Esse livro dá muito medo. 
— Não, você já levou muito susto. O livro é bem… 
— Atticus, eu não tive medo.

     Ele franziu o cenho e eu protestei: 

— Só tive medo quando comecei a contar tudo para o sr. Tate. Jem não teve medo. Perguntei e ele respondeu que não estava com medo. Além do mais, só nos livros é que as coisas são assustadoras de verdade.

     Atticus abriu a boca para dizer alguma coisa, mas fechou de novo. Desmarcou a página que estava segurando com o dedo e voltou para a primeira página. Encostei a cabeça no joelho dele. 

— Hum, vejamos: O fantasma cinzento, de Seckatary Hawkins, Capítulo Um…

     Fiz um esforço para ficar acordada, mas a chuva estava tão fina, o quarto tão acolhedor, a voz dele tão agradável e o joelho tão confortável que adormeci.
     Segundos depois, ou pelo menos foi o que me pareceu, o sapato dele tocou de leve nas minhas costelas. Ele me levantou e me levou para o meu quarto. 

— Ouvi tudo o que você leu… não estava dormindo… é a história de um navio, Fred Três Dedos e o menino Stoner… — eu disse.

     Ele desabotoou o meu macacão, me encostou nele e tirou-o. Me segurou com uma das mãos e pegou o meu pijama com a outra. 

— E todos pensavam que era o menino Stoner que fazia bagunça no clube deles e jogava tinta por toda parte e…

     Ele me levou até a cama e me fez sentar. Levantou minhas pernas e me colocou embaixo das cobertas. 

— Eles o perseguiram, mas nunca conseguiam pegá-lo porque não sabiam como ele era e depois, Atticus, quando finalmente o encontraram viram que ele não tinha feito nada daquilo… Atticus, ele era muito bom…

     As mãos dele estavam embaixo do meu queixo, puxando as cobertas e ajeitando-as em volta de mim. 

— A maioria das pessoas é, Scout, quando enfim as conhecemos.

     Ele apagou a luz e foi para o quarto de Jem. Ele ia ficar lá a noite toda, e estaria lá quando Jem acordasse de manhã.

***

Leia também:

O Sol é para todos: 2ª Parte (31).   
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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

quinta-feira, 19 de março de 2026

Você sabia... Pontuação¹

Vírgula NÃO é necessariamente pausa!


Domine a pontuação e escreva com clareza e precisão.


Os 5 erros de vírgula que todo mundo comete sem perceber.




__________________

Vírgula não é necessariamente pausa
Por que a vírgula é a pontuação mais controversa?

Espumas Flutuantes - Poesia e Mendicidade

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

POESIA E MENDICIDADE
No álbum da Ex.ma Sr.a d. Maria Justina 
 Proença Pereira Peixoto 
 
I

Senhora! A poesia outrora era a Estrangeira, 
 Pálida, aventureira, errante a viajar, 
 Batendo em duas portas — ao grito das procelas — 
 Ao céu — pedindo estrelas, à terra — um pobre lar! 

Visão — de áureos lauréis — porém de manto esquálido, 
 Mulher — de lábio pálido — e olhar — cheio de luz. 
 Seus passos nos espinhos em sangue se assinalam... 
 E os astros lhe resvalam — à flor dos ombros nus...

II

Olhai! O sol descamba... A tarde harmoniosa 
 Envolve luminosa a Grécia em frouxo véu. 
 Na estrada ao som da vaga, ao suspirar do vento, 
 De um marco poeirento um velho então se ergueu. 

Ergueu-se tateando... é cego... o cego anseia... 
 Porém o que tateia aquela augusta mão?... 
 Talvez busca pegar o sol, que lento expira!... 
 Fado cruel..., mentira!... Homero pede pão! 

III

Mas ai! volvei, Senhora, os vossos belos olhos 
 Daquele mar de abrolhos, a um novo quadro! olhai! 
 Do vasto salão gótico eu ergo o reposteiro... 
 O lar é hospitaleiro... Entrai, Senhora, entrai!  

Estamos na média idade. Arnês, gládio, armadura 
 Servem de compostura à sala vasta e chã. 
 A um lado um galgo esvelto ameiga e acaricia 
 A mão suave, esguia — a loura castelã. 

Vai o banquete em meio... O bardo se alevanta 
 Pega da lira... canta... uma canção de amor... 
 Ouvi-o! Para ouvi-lo a estrela pensativa 
 Alonga pela ogiva um raio de langor! 

Dos ramos do carvalho a brisa se debruça... 
 Na sala alguém soluça... (amor, ou languidez?) 
 Súbito a nota extrema anseia, treme, rola... 
 Alguém pede uma esmola... Senhora, não olheis!... 

Assim nos tempos idos a musa canta e pede... 
 Gênio e mendigo... vede!... o abismo de irrisões! 
 Tasso implora um olhar! Vai Ossian mendicante... 
 Caminha roto o Dante! e pede pão Camões.

IV

Bem sei, Senhora, que ao talento agora 
 Surgiu a aurora de uma luz amena. 
 Hoje há salário pra qualquer trabalho, 
 Cinzel, ou malho, ferramenta ou pena! 

 Melhor que o Rei sabe pagar o pobre 
 Melhor que o nobre — protetor verdugo —! 
 Foi surdo um trono... à maior glória vossa... 
 Abre-se a choça aos “Miseráveis” de Hugo. 

 Porém não sei se é por costume antigo, 
 Que inda é mendigo do cantor o gênio. 
 Mudem-se os panos do cenário a esmo 
 O vulto é o mesmo... num melhor proscênio... 

V

Hoje o Poeta — caminheiro errante, 
 Que tem saudades de um país melhor. 
 Pede uma pérola — à maré montante, 
 Do seio às vagas — pede — um outro amor. 

 Alma sedenta de ideal na terra 
 Busca apagar aquela sede atroz! 
 Pede a harmonia divinal, que encerra 
 Do ninho o chilro... da tormenta a voz! 

 E o rir da folha, o sussurrar da fala,  
Trenos da estrela no amoroso estio, 
 Voz que dos poros o Universo exala 
 Do céu, da gruta, do alcantil, do rio!

Pede aos pequenos, desde o verme ao tojo, 
 Ao fraco, ao forte... — preces, gritos, uivos... 
 Pede das águias o possante arrojo, 
 Para encontrar os meteoros ruivos. 

 Pede à mulher que seja boa e linda 
 — Vestal de um tipo que o ideal revela... 
 Pois ser formosa é ser melhor ainda... S
e és boa — és luz... mas se és formosa — estrela... 

 E pede à sombra, pra aljôfar de orvalhos 
 A fronte azul da solidão noturna, 
 E pede às auras, pra afagar os galhos. 
 E pede ao lírio, pra enfeitar a furna. 

 Pede ao olhar a maciez suave 
 Que tem o arminho e o edredom macio, 
 O aveludado da penugem d’ave, 
 Que afaga as plumas no palmar sombrio. 

...................................................................................

E quando encontra sobre a terra ingrata 
 Um reverbero do clarão celeste, 
 — Alma formada de uma essência grata, 
 Que a lua — doura, e que um perfume veste; 

 Um rir, que nasce como o broto em maio, 
 Mostrando seivas de bondade infinda, 
 Fronte que guarda — a claridade e o raio, 
 — Virtude e graça — o ser bondosa e linda... 

 Então, Senhora, sob tanto encanto 
 Pede o Poeta (que não tem renome) 
 — Versos — à brisa pra vos dar um canto... 
 Raios ao sol — pra vos traçar o nome!... 

 Bahia, 26 de janeiro de 1870


HINO AO SONO

Ó sono! ó noivo pálido 
 Das noites perfumosas,  
Que um chão de nebulosas 
 Trilhas pela amplidão! 
 Em vez de verdes pâmpanos, 
 Na branca fronte enrolas 
 As lânguidas papoulas, 
 Que agita a viração. 

Nas horas solitárias, 
 Em que vagueia a lua, 
 E lava a planta nua 
 Na onda azul do mar, 
 Com um dedo sobre os lábios 
 No voo silencioso, 
 Vejo-te cauteloso 
 No espaço viajar! 

Deus do infeliz, do mísero! 
 Consolação do aflito! 
 Descanso do precito, 
 Que sonha a vida em ti! 
 Quando a cidade tétrica 
 De angústias e dor não geme... 
 É tua mão que espreme 
 A dormideira ali. 

Em tua branca túnica 
 Envolves meio mundo... 
 É teu seio fecundo. 
 De sonhos e visões, 
 Dos templos aos prostíbulos, 
 Desde o tugúrio ao Paço, 
 Tu lanças lá do espaço 
 Punhados de ilusões!... 

Da vida o sumo rúbido, 
 Do hatchiz a essência 
 O ópio, que a indolência 
 Derrama em nosso ser, 
 Não valem, gênio mágico, 
 Teu seio, onde repousa 
 A placidez da lousa 
 E o gozo do viver... 

Ó sono! Unge-me as pálpebras... 
 Entorna o esquecimento 
 Na luz do pensamento, 
 Que abrasa o crânio meu. 
 Como o pastor da Arcádia, 
 Que uma ave errante aninha...
Minh’alma é uma andorinha... 
 Abre-lhe o seio teu. 

Tu, que fechaste as pétalas 
 Do lírio, que pendia, 
 Chorando a luz do dia 
 E os raios do arrebol, 
 Também fecha-me as pálpebras... 
 Sem Ela o que é a vida?... 
 Eu sou a flor pendida 
 Que espera a luz do sol.

O leite das eufórbias 
 Pra mim não é veneno... 
 Ouve-me, ó Deus sereno! 
 Ó Deus consolador! 
 Com teu divino bálsamo 
 Cala-me a ansiedade! 
 Mata-me esta saudade. 
 Apaga-me esta dor. 

Mas quando, ao brilho rútilo 
 Do dia deslumbrante, 
 Vires a minha amante 
 Que volve para mim, 
 Então ergue-me súbito... 
 É minha aurora linda... 
 Meu anjo... mais ainda... 
 É minha amante enfim! 

Ó sono! Ó Deus noctívago! 
 Doce influência amiga! 
 Gênio que a Grécia antiga 
 Chamava de Morfeu 
 Ouve!... E se minha súplicas 
 Em breve realizares... 
 Voto nos teus altares 
 Minha lira de Orfeu!... 

 São Paulo, 12 de julho de 1868

continua pag 42...
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O “Adeus” de Teresa / A Maciel Pinheiro / Pedro Ivo / Oitavas de Napoleão / Adormecida / Poesia e Mendicidade /     
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.