quinta-feira, 4 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 1 (IV. O terceiro filho:Aliócha)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO I
HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA
IV
O TERCEIRO FILHO: ALIÓCHA
    
     Tinha vinte anos (seus irmãos, Ivã e Dimítri, estavam então, respectivamente, com 24 e 28 anos). Devo prevenir que esse jovem Aliócha não era absolutamente um fanático, nem mesmo, pelo que creio, um místico. Na minha opinião, era simplesmente um filantropo na dianteira do seu tempo, e, se escolhera a vida monástica, era porque então somente ela o atraía e representava para ele a ascensão ideal para o amor radioso de sua alma liberta das trevas e do ódio daqui embaixo. Atraía-o essa via unicamente porque havia nela encontrado um ser excepcional a seus olhos, o nosso famoso stáriets3 Zósima, ao qual se ligara com todo o fervor noviço de seu coração sedento. Convenho que era ele já bastante estranho, tendo isso começado desde o berço. Já contei que, tendo perdido sua mãe aos quatro anos, dela se lembrou toda a sua vida, de seu rosto, de suas carícias, "como se eu a visse viva". Semelhantes recordações podem persistir (cada qual o sabe), mesmo numa idade mais tenra, mas não permanecem como pontos luminosos nas trevas, como o fragmento de um imenso quadro que tivesse desaparecido. Era o caso para ele: lembrava-se duma suave noite de verão, da janela aberta aos raios oblíquos do sol poente; a um canto do quarto, uma imagem santa com a lâmpada acesa e, diante da imagem, sua mãe ajoelhada, soluçando como numa crise de nervos, lançando gemidos e exclamações. Ela o tomara em seus braços, apertando-o a ponto de sufocá-lo, e implorava por ele à Santa Virgem, afrouxando seu amplexo para empurrá-lo para a imagem como a pô-lo sob sua proteção... mas a ama acorre e arranca-o, apavorada, dos braços de sua mãe. Tal era a cena! Aliócha lembrava-se do rosto de sua mãe, exaltado, mas sublime, segundo suas recordações. Mas não gostava de falar disso. Na sua infância e na sua mocidade, era antes concentrado e até mesmo taciturno, não por timidez ou selvageria, pelo contrário, mas por uma espécie de preocupação interior tão profunda que o fazia esquecer-se dos que o cercavam. Mas gostava de seus semelhantes, toda a sua vida teve fé neles, sem passar jamais por simplório ou ingênuo. Algo nele revelava que não queria ser o juiz alheio, nem censurar as pessoas ou condená-las por preço algum. Parecia mesmo tudo admitir, sem reprovação, embora muitas vezes com profunda melancolia. Bem mais ainda, conseguira neste sentido ficar inacessível ao espanto e ao medo, desde sua primeira mocidade. Chegado aos vinte anos à casa de seu pai, num foco de baixo deboche, ele, casto e puro, retirava-se em silêncio, quando a vida se lhe tornava intolerável, mas sem testemunhar a ninguém reprovação alguma nem desprezo. Tendo seu pai sido outrora parasita e, por consequência, sutil e sensível às ofensas, acolheu-o a princípio de má vontade. "Ele se cala", dizia ele, "mas nem por isso deixa de pensar. " Entretanto, não tardou em beijá-lo, em acariciá-lo; eram, na verdade, lágrimas e um enternecimento de bêbedo, mas via-se que o amava com um amor sincero, profundo, que até então fora incapaz de sentir por quem quer que fosse... Sim, aquele adolescente era amado por todos, em toda parte aonde fosse, e isto desde sua infância. Na família de seu benfeitor, Iefim Pietróvitch Poliénov, tinham-se de tal modo ligado a ele que todos o consideravam como filho da casa. Ora, entrara em casa deles numa idade em que a criança é ainda incapaz de cálculo e de astúcia, em que ignora as intrigas que atraem o favor e a arte de se fazer amar. Esse dom de despertar a simpatia era por consequência nele natural, espontâneo, sem artifício. O mesmo ocorria na escola e, no entanto, as crianças como Aliócha atraem a desconfiança de seus camaradas, suas zombarias e, por vezes, o ódio. Desde a infância, gostava ele, por exemplo, de isolar-se para sonhar, para ler num canto; contudo, foi objeto de afeição geral durante sua permanência na escola. Não era brincalhão, nem mesmo alegre; observando-se, via-se depressa que não era melancolia, mas, pelo contrário, uma disposição igual e serena. Entre seus condiscípulos, jamais queria pôr-se à frente. Por esta razão, talvez, jamais temia alguém e os rapazes notavam que, longe de orgulhar-se disso, parecia ignorar sua ousadia, sua intrepidez. Não era rancoroso. Uma hora após ter sido ofendido, respondia ao ofensor ou dirigia-lhe ele próprio a palavra, com um ar confiante, tranquilo, como se nada se tivesse passado entre eles. Não parecia então ter esquecido a ofensa, ou decidido perdoá-la, mas não se considerava ofendido e isto fazia com que conquistasse o coração dos meninos. Um só traço de seu caráter incitava frequentemente todos os seus camaradas a zombarem dele, não por maldade, mas por divertimento. Era dum pudor, duma castidade exaltada, feroz. Não podia suportar certas palavras e certas conversas a respeito de mulheres. Essas "certas" palavras e conversas são infelizmente tradicionais nas escolas. Jovens de alma e coração puros, quase crianças ainda, gostam muitas vezes de entre ter-se com cenas e imagens, a respeito das quais os próprios soldados nem sempre falam; aliás, estes últimos sabem menos a este respeito que os rapazes de nossa sociedade culta. Não há ainda aí, admito-o, corrupção moral, nem verdadeiro cinismo, mas a aparência disso; e isso passa frequentemente aos olhos deles como algo de delicado, de fino, digno de ser imitado. Vendo Aliócha Karamázov tapar rapidamente os ouvidos, quando se falava "daquilo", formavam por vezes círculos em redor dele, afastavam suas mãos à força e gritavam-lhe obscenidades. Alieksiéi debatia-se, deitava-se no chão, ocultando o rosto; suportava a ofensa em silêncio e sem se zangar. Por fim deixavam-no em repouso, cessavam de chamá-lo de "mocinha", sentiam mesmo compaixão por ele. Na classe, era um dos melhores alunos, mas nunca obteve o primeiro lugar.
     Após a morte de Iefim Pietróvitch, Aliócha passou ainda dois anos no ginásio. A viúva partiu em breve para uma longa viagem à Itália, com toda a sua família, que se compunha de mulheres. O rapaz foi morar em casa de parentes afastados do defunto, duas senhoras que ele jamais vira. Ignorava as condições; era aliás nele um traço bastante característico o jamais inquietar-se à custa de quem vivia. A este respeito, era totalmente o contrário de seu irmão mais velho, Ivã, que conhecera a pobreza nos seus dois primeiros anos de universidade, vivendo de seu trabalho, e que havia sofrido, desde sua infância, por ter de comer o pão de um benfeitor. Mas não se podia julgar severamente essa particularidade do caráter de Alieksiéi, porque bastava conhecê-lo um pouco para que se ficasse convencido de que era um desses inocentes capazes de dar todo o seu capital a uma boa obra, ou mesmo a um cavalheiro de indústria, se lho pedisse. Em geral ignorava o valor do dinheiro, em sentido figurado, entenda-se. Quando lhe davam dinheiro não sabia o que fazer dele durante semanas ou gastava-o num piscar de olhos. Piotr Alieksándrovitch Miúsov, bastante meticuloso no que se refere a dinheiro e honestidade burguesa, tendo tido mais tarde ocasião de observar Alieksiéi, caracterizou-o desta maneira: "Eis talvez o único homem no mundo que, se ficasse sem recursos numa grande cidade desconhecida, não morreria de fome, nem de frio, porque imediatamente o nutririam, viriam em seu auxílio, senão ele mesmo se livraria logo de apertos, sem trabalho, nem humilhação, e seria um prazer para os outros prestar-lhe serviços". 
     No ginásio, não terminou seus estudos: restava-lhe ainda um ano, quando declarou de repente àquelas senhoras que partia para a casa de seu pai por causa de um negócio que lhe viera à cabeça. As senhoras lamentaram-no muito; não queriam deixá-lo partir. A viagem custava muito pouco, e não deixaram elas que ele empenhasse o relógio que lhe tinha dado a família de seu benfeitor, antes de partir para o estrangeiro; foi abundantemente provido de dinheiro, bem como de roupa branca e vestes, mas ele devolveu-lhes a metade da soma declarando que fazia questão de viajar em terceira classe. Como seu pai lhe perguntasse por que viera antes de ter acabado seus estudos, não respondeu nada, mas mostrou-se mais pensativo que de costume. Em breve verificou-se que ele procurava o tumulo de sua mãe. Confessou mesmo não ter vindo senão para isso. Mas não era provavelmente a única causa de sua chegada. Sem dúvida, ignorava então que não teria podido explicar ele mesmo com certeza o que havia de súbito surgido em seu íntimo para arrastá-lo irresistivelmente a uma via nova, desconhecida. Fiódor Pávlovitch não pôde indicar-lhe o tumulo de sua mãe, porque ali jamais voltara e esquecera o lugar após tantos anos...  
     Falemos de Fiódor Pávlovitch. Ficara muito tempo ausente de nossa cidade. Três ou quatro anos após a morte de sua segunda mulher, partiu para o sul da Rússia e chegou por fim a Odessa, onde passou vários anos. Travou conhecimento, segundo suas próprias palavras, com "muitos judeus, judias e judotes de toda laia", e acabou por ser recebido "não só em casa dos judeus, mas também em casa dos israelitas". É preciso crer que, durante esse período, aperfeiçoara a arte de juntar e de subtrair dinheiro. Reapareceu em nossa cidade três anos somente antes da chegada de Aliócha. Seus antigos conhecidos acharam-no bastante envelhecido, se bem que não fosse muito idoso. Mostrou-se mais descarado do que nunca: o antigo bufão experimentava agora a necessidade de rir à custa dos outros. Gostava de frequentar os bordéis duma maneira mais repugnante do que outrora e, graças a ele, novos cabarés abriram-se em nosso distrito. Atribuíam-lhe um capital de 100 000 rublos ou quase, e dentro em breve muitas pessoas tornaram-se seus devedores, em troca de sólidas garantias. Nos últimos tempos, ficara enrugado, começava a perder o equilíbrio temperamental e o controle de si mesmo; caiu numa espécie de idiotismo, começando por uma coisa e acabando por outra, incapaz de concentrar-se e embriagando-se cada vez mais. Sem aquele mesmo criado, Gregório, que havia também envelhecido muito e o vigiava por vezes como um guia. a existência de Fiódor Pávlovitch teria sido eriçada de dificuldades. A chegada de Aliócha influiu sobre ele do ponto de vista moral, e recordações, que dormiam desde muito tempo, despertaram-se na alma daquele velho prematuro. "Sabes", repetia ele a seu filho, observando-o, "que te pareces com a endemoniada?" Era assim que chamava sua segunda mulher. Foi o criado Gregório quem indicou a Aliócha o tumulo da "endemoniada". Conduziu-o ao cemitério, mostrou-lhe num canto afastado uma placa de ferro fundido, modesta mas decente, em que estavam gravados o nome, a condição, a idade da defunta, com a data de sua morte: embaixo figurava uma quadra, como se lê frequentemente sobre o tumulo das pessoas da classe média. Coisa de espantar: aquela laje era obra de Gregório. Fora ele que a colocara, às suas custas, sobre o tumulo da pobre - "endemoniada", depois de ter muitas vezes importunado seu patrão com suas alusões; este partira afinal para Odessa, dando de ombros a respeito de túmulos e de todas as suas recordações. Aliócha não mostrou nenhuma emoção especial diante do tumulo de sua mãe; prestou atenção ao relato grave que lhe fez Gregório a respeito da colocação da laje, permaneceu curvado e retirou-se sem ter pronunciado uma palavra. Depois, não voltou mais ao cemitério, talvez por um ano inteiro. Mas esse episódio produziu em Fiódor Pávlovitch um efeito bastante original. Pegou 1000 rublos e levou-os ao nosso mosteiro para o repouso da alma de sua mulher, não a segunda, a "endemoniada", mas a primeira, aquela que lhe batia. Na mesma noite, embriagou-se e falou mal dos monges na presença de Aliócha. Ele próprio estava longe de ter sentimentos religiosos; talvez jamais tivesse posto uma vela de 5 copeques diante de uma imagem. Os sentimentos e o pensamento de semelhantes indivíduos têm por vezes impulsos tão bruscos quanto estranhos.
     Já disse que ele havia ficado bastante enrugado. Sua fisionomia trazia então os traços reveladores da existência que levara. Às pequenas bolsas que pendiam sob seus olhinhos sempre descarados, desconfiados, maliciosos, às rugas profundas que sulcavam sua cara gorda vinha juntar se, sob seu queixo pontudo, um gordo pomo-de-adão, carnudo, que lhe dava o ar de um luxurioso repelente. Juntai a isto uma larga boca de carniceiro, de lábios intumescidos, em que apareciam os cacos enegrecidos de seus dentes apodrecidos. Espalhava saliva toda vez que falava. De resto, gostava de zombar de sua figura, se bem que ela lhe agradasse, sobretudo seu nariz, não muito grande, mas bastante reduzido e curvo. "Um verdadeiro nariz romano'*, dizia ele. "Com meu pomo-de-adão, dir-se-ia um perfeito patrício da decadência. '* Orgulhava-se disso.
     Algum tempo depois da descoberta do tumulo de sua mãe, declarou-lhe Aliócha, inesperadamente, que queria entrar para o convento onde os monges estavam dispostos a admiti-lo como noviço. Acrescentou que era seu mais caro desejo e que lhe implorava o consentimento paterno. O velho já sabia que o stáríets Zósima produzira sobre seu "manso rapaz" uma impressão particular.

— Esse stáríets é seguramente entre eles o monge mais honesto — declarou, depois de ter ouvido Aliócha, num silêncio pensativo, mas sem se espantar com o pedido dele. — Hum! Eis aonde queres ir, meu manso rapaz! — Estava meio bêbedo. Abria-se no seu rosto um sorriso de ébrio, marcado de astúcia e finura. — Hum! Previa que irias chegar a isso, imagina tu! Era bem isto que tinhas em visita. Pois bem, seja! Tens 2 000 rublos, será teu dote; quanto a mim, meu anjo, não te abandonarei nunca e pagarei por ti o que for preciso, se o pedirem. Senão, de que serve tomarmos compromisso, não é verdade? Precisas de tanto dinheiro quanto de alpiste um canário... Hum! Sabes? Há um convento, com um lugarejo, nos arredores da cidade, habitado, como ninguém o ignora, pelas "esposas dos monges", é assim que as chamam. São umas trinta, creio... Visitei-o. Ê interessante, no seu gênero. Interrompe a monotonia. Por desgraça, só se encontram ali russas, nem uma francesa. Poder-se-ia tê-las, não faltam fundos para isso. Quando o souberem, virão. Aqui, não há mulheres, mas duzentos monges. Jejuam conscientemente. Convenho... Hum! Com que então, queres fazer-te monge? Causas-me dó, Aliócha; na verdade, tinha-te criado afeição... Aliás, eis uma boa ocasião: reza por nós, pecadores de consciência sobrecarregada. Tenho muitas vezes perguntado a mim mesmo: quem rezará um dia por mim? Meu querido rapaz, sou totalmente ignorante a este respeito, talvez o saibas, não? Totalmente. Mas vês, malgrado minha estupidez, reflito por vezes; penso que os diabos me arrastarão com toda a certeza com seus ganchos, após a minha morte. E digo a mim mesmo: donde vêm esses ganchos? De que são? De ferro? Onde os forjam? Será que eles possuem uma fábrica? Os religiosos, por exemplo, estão convencidos de que o inferno tem teto. Ora, tenho muita vontade de acreditar no inferno, mas sem teto, é mais delicado, mais iluminado, como entre os luteranos. No fundo, não será a mesma coisa, com ou sem teto? Eis a dificuldade! Ora, se não há teto, então não há ganchos. Mas seria incrível: quem me arrastaria então, com ganchos? Porque, se não me arrastarem, onde estaria a justiça neste mundo? Seria preciso inventar esses ganchos, especialmente para mim, para mim só. Se soubesses, Aliócha, que descarado sou eu!...
— Não há ganchos lá — declarou Aliócha, em voz baixa, olhando seriamente para seu pai.
— Ah! só há sombras de ganchos. Sei, sei. Era assim que um francês descrevia o inferno. Vai vu Vombre d'un cocher qui, avec Vombre d*une brosse, frottait Vombre d'un carrosse. Donde sabes tu, meu caro, que não há ganchos? Uma vez entre os monges, mudaras de tom. Mas, afinal, parte, vai destrinçar a verdade e vem informar-me. Será mais fácil ir para o outro mundo sabendo o que lá se passa. Será mais conveniente para ti estar entre os monges do que em minha casa, velho bêbedo, com mulheres... se bem que estejas, como um anjo, acima de tudo isso. Talvez o mesmo aconteça lá e, se te deixo ir, é que conto com isso. Não és tolo. Teu ardor se extinguira e voltarás curado. Quanto a mim, esperar-te-ei, porque sinto que és o único neste mundo que não me censurou, meu querido rapaz, não posso deixar de senti-lo!...  

     E pôs-se a choramingar. Estava sentimental. Sim, era mau e sentimental.

continua na página 21...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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