sexta-feira, 5 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 1 (V. Os "Stártsi")

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO I
HISTÓRIA DE UMA FAMÍLIA
V
OS 'STÁRTSI"
    
     O leitor imaginará talvez que o meu herói fosse um indivíduo doentio e extático, um pálido sonhador, macilento, atacado de tuberculose. Pelo contrário, Aliócha, que tinha então dezenove anos, era um jovem bem feito, de faces vermelhas, de olhar límpido, transbordante de saúde. Era mesmo bastante belo, de talhe esbelto, cabelos castanhos, rosto regular, embora um pouco alongado, olhos dum cinzento-escuro, brilhantes, ras gados, pensativo e parecendo bastante calmo. Dir-se-á talvez que faces vermelhas não impedem de ser fanático ou místico; ora, parece-me que Aliócha era, mais que qualquer outra pessoa, realista. Oh! bem decerto, no convento cria perfeitamente nos milagres, mas, na minha opinião, os milagres jamais perturbarão o realista. Não são eles que o levam a crer. Um verdadeiro realista, se é incrédulo, encontra sempre em si a força e faculdade de não crer mesmo no milagre e, se este último se apresenta como um fato incontestável, duvidará de seus sentidos em vez mesmo de admitir o fato. Se o admitir, será como um fato natural, mas desconhecido dele até então. No realista, a fé não nasce do milagre, mas o milagre da fé. Se o realista adquire a fé, deve necessariamente, em virtude de seu realismo, admitir também o milagre. O apóstolo Tome declarou que não acreditaria enquanto não visse; em seguida, diz: "Meu Senhor e meu Deus!" Fora o milagre que o obrigara a crer? Muito provavelmente não, mas ele acreditava unicamente porque desejava crer; talvez tivesse já a fé inteira nas dobras ocultas de seu coração, mesmo quando declarava: "Só acreditarei depois que tiver visto.
     Dir-se-á talvez que Áliócha era obtuso, pouco desenvolvido, que não terminara seus estudos. Este último fato é exato, mas seria bastante injusto dizer que fosse ele obtuso ou estúpido. Repito o que já disse: escolhera aquela via unicamente porque somente ela o atraia então e representava a ascensão ideal para a luz de sua alma desprendida das trevas. Além disso, era aquele rapaz da época mais recente, isto é, leal, ávido de verdade, procurando-a cora fé, e, uma vez encontrada, querendo dela participar com toda a força de sua alma, querendo realizações imediatas e pronto a tudo sacrificar com este fim, até mesmo sua vida. Entretanto, esses rapazes não compreendem, desgraçadamente, que sacrificar sua vida é a coisa mais fácil em muitos casos, ao passo que consagrar, por exemplo, cinco ou seis anos de sua bela mocidade ao estudo e à ciência — não fosse senão para decuplicar suas forças, a fim de servir à verdade e atingir o fim proposto — é um sacrifício que os ultrapassa. Aliócha só fizera escolher a via oposta a todas as outras, mas com a mesma sede de realização imediata. Logo que se convenceu, após sérias reflexões, de que Deus e a imortalidade existem, disse a si mesmo, naturalmente: "Quero viver para a imortalidade, não admito compromissos'*. Igualmente, se tivesse concluído que não há nem Deus nem imortalidade, ter-se-ia tornado imediatamente ateu e socialista (porque o socialismo não é apenas a questão operária ou do quarto Estado, mas é sobretudo a questão do ateísmo, de sua encarnação contemporânea, a questão da torre de Babel, que se construiu sem Deus, não para atingir os céus da terra, mas para abaixar os céus até a terra). Parecia estranho e impossível a Aliócha viver como antes. Está dito: "Abandona tudo quanto tens e segue-me, se queres ser perfeito". Aliócha dizia a si mesmo: "Não posso dar um lugar de "tudo' 2 rublos e em lugar de 'segue-me' ir somente à missa". Entre as re cordações de sua tenra infância, lembrava-se talvez de nosso mosteiro, aonde sua mãe talvez o levara para assistir aos ofícios. Talvez tivesse ali sofrido a influência dos raios oblíquos do sol poente diante da imagem para a qual o voltava sua mãe, a endemoniada. Chegou entre nós pensativo, unicamente para ver se se tratava aqui de tudo ou somente de 2 rublos, e encontrou no convento aquele stáriets.
     Era o stáriets Zósima, como já o expliquei acima; seria preciso dizer algumas palavras a propósito dos stártsi nos nossos mosteiros e lamento não ter, neste domínio, toda a competência necessária. Tentarei, no entanto, fazê-lo a grandes traços. Os especialistas competentes asseguram que a instituição dos stártsi apareceu nos mosteiros russos em época recente, há menos de um século, quando, em todo o Oriente ortodoxo, sobretudo no Sinai e no Monte Atos, existe ela desde bem mais de mil anos. Pretende-se que os stártsi existiam na Rússia em tempos bastante antigos, ou que deveriam ter existido, mas que, em consequência das calamidades que sobrevieram, o jugo tártaro, as perturbações, a interrupção das antigas relações com o Oriente, após a queda de Constantinopla, essa instituição se perdeu entre nós e os stártsi desapareceram. Foi ressuscitada por um dos maiores ascetas, Paísi Vielitchkóvski, e por seus discípulos, mas até o presente, após um século, existe ela em muito poucos conventos e foi mesmo, ou pouco faltou, alvo de perseguições, como uma inovação desconhecida na Rússia. Florescia sobretudo no famoso Eremitério de Kózilhskaia Optínaia, Ignoro quando e por quem foi ela implantada em nosso mosteiro, mas já se haviam sucedido ali três stártsi, dos quais Zósima era o último. Estava quase a sucumbir à fraqueza e às doenças e não se sabia por quem substituí-lo. Para nosso mosteiro, era essa uma séria questão, porque, até o presente, nada o havia distinguido; não possuía nem relíquias santas nem ícones miraculosos, ligando-se as tradições gloriosas à nossa história. Faltavam lhe igualmente os altos fatos históricos e os serviços prestados à pátria. Tornara-se florescente e famoso em toda a Rússia, graças a seus stártsi, que os peregrinos vinham em multidão ver e ouvir de todos os pontos da Rússia, a milhares de verstas. Que é um stáriets? O stáriets é aquele que absorve vossa alma e vossa vontade nas suas. Tendo escolhido um stáriets, vós abdicais de vossa vontade e lha entregais com toda a obediência, com inteira resignação. O penitente submete-se voluntariamente a essa prova, a essa dura aprendizagem, na esperança de, após um longo estágio, vencer-se a si mesmo, dominar-se a ponto de atingir, afinal, depois de ter obedecido toda a sua vida, a liberdade perfeita, isto é, a liberdade para consigo mesmo, e evitar a sorte daqueles que viveram sem se encontrar a si mesmos. Esta invenção, isto é, a instituição dos stártsi, não é teórica, mas tirada, no Oriente, de uma prática milenar. As obrigações para com o stáriets são bem diversas da "obediência** habitual que sempre existiu igualmente nos mosteiros russos. Lá, a confissão de todos os militantes ao stáriets é perpétua, e o elo que liga o confessor ao confessado, indissolúvel. Conta-se que, nos tempos antigos do cristianismo, um noviço, depois de haver deixado de cumprir um dever prescrito pelo seu stáriets, abandonou o mosteiro para dirigir-se a outro país, da Síria ao Egito. Ali, praticou atos sublimes e foi por fim julgado digno de sofrer o martírio pela fé. Já a Igreja ia enterrá-lo, reverenciando-o como um santo, quando o diácono proferiu: "Que os catecúmenos saiam!*', o caixão que continha o corpo do mártir foi arrancado de seu lugar e projetado fora do templo três vezes em seguida. Soube-se por fim que aquele santo mártir havia infringido a obediência e abandonado o seu stáriets e que, por consequência, não podia ser perdoado sem o consentimento deste último, malgrado sua vida sublime. Mas quando o stáriets, chamado, o desligou da obediência, pôde-se enterrá-lo sem dificuldade. Sem dúvida, não passa isso de uma antiga lenda, mas eis um fato recente. Um religioso cuidava de sua salvação no Monte Atos, ao qual queria de toda a sua alma, como um santuário e um retiro tranquilo, quando seu stáriets lhe ordenou,, de repente, que partisse para ir primeiro a Jerusalém, visitar os Lugares Santos,, depois voltar ao norte, na Sibéria. "Lá é que é teu lugar e não aqui.'* Consternado e desolado, o monge foi procurar o patriarca em Constantinopla e suplicou-lhe que o libertasse da obediência, mas o chefe da Igreja respondeu-lhe que não somente ele, patriarca, não podia desligá-lo, mas não havia nenhum poder no mundo capaz de fazê-lo, exceto o stáriets do qual ele dependia. Vê-se dessa forma que, em certos casos, os stártsi estão investidos duma autoridade sem limites e incompreensível. Eis por que, em muitos de nossos mosteiros, essa instituição foi a princípio quase perseguida. No entanto o povo testemunhou imediatamente grande veneração pelos stártsi. Por isso o povinho e as pessoas mais distintas vinham em multidão prosternar-se diante dos stártsi de nosso mosteiro e lhes confessavam suas dúvidas, seus pecados, seus sofrimentos, implorando conselhos e direções. Vendo o que, os adversários dos stártsi lhes censuravam, entre outras acusações, envilecerem arbitrariamente o sacramento da confissão, se bem que as confidencias ininterruptas do noviço ou dum leigo ao stáriets não tivessem de modo algum o caráter dum sacramento. Seja como for, a instituição dos stártsi manteve-se e implanta-se pouco a pouco nos mosteiros russos. É verdade que esse meio experimentado e já milenar de regeneração moral, que faz o homem passar da escravidão à liberdade, aperfeiçoando-o, pode também tornar-se uma arma de dois gumes: em lugar da humildade e do domínio de si mesmo, pode desenvolver um orgulho satânico e fazer um escravo em lugar de um homem livre.
     O stáriets Zósima tinha 65 anos; descendia duma família de proprietários; na sua mocidade servira no Exército como oficial, no Cáucaso. Sem dúvida, Aliócha ficou impressionado por certa qualidade especial da alma dele. Vivia na mesma cela do stáriets, que muito o amava e o mantinha a seu lado. Ê preciso notar que, vivendo no mosteiro, não estava Aliócha preso por nenhum laço; podia ir aonde bem quisesse, dias inteiros, e, se usava batina, era voluntariamente, para não se distinguir de ninguém no mosteiro. Talvez a imaginação juvenil de Aliócha tivesse sido muito impressionada pela força e pela glória que cercavam seu stáriets como uma auréola. A propósito do stáriets Zósima, muitos contavam que, à força de acolher, desde numerosos anos, todos aqueles que vinham expandir seu coração, ávidos de seus conselhos* e de suas consolações, havia, para o fim, adquirido grande perspicácia. Ao primeiro olhar lançado sobre um desconhecido, adivinhava o motivo de sua vinda, o que lhe era preciso e até mesmo o que lhe atormentava a consciência. O- penitente ficava espantado, confuso e por vezes mesmo apavorado por sentir-se penetrado, antes de ter proferido uma palavra. Aliócha notara que muitos daqueles que vinham pela primeira vez entreter-se em particular com o stáriets entravam em seu aposento com temor e inquietação; quase todos saíam radiantes e o rosto mais sombrio iluminava-se de satisfação. O que o surpreendia também é que o stáriets, longe de ser severo, parecia mesmo satisfeito. Os monges diziam dele que se ligava aos mais pecadores e os estimava na proporção de seus pecados. Mesmo para o fim de sua vida, contava o stáriets, entre os monges, inimigos e invejosos, mas seu numero diminuía, se bem que figurassem nele personalidades importantes do convento. Tal era um dos mais antigos religiosos, por demais taciturno e jejuador extraordinário. No entanto, a grande maioria era partidária do stáriets Zósima e muitos o amavam sinceramente, de todo o seu coração; alguns lhe eram mesmo ligados quase fanaticamente. Estes diziam, mas em voz baixa, que era um santo, decerto, e, prevendo seu fim próximo, aguardavam imediatos milagres que espalhariam grande glória sobre o mosteiro. Alieksiéi cria cegamente na força miraculosa do stáriets, da mesma maneira que acreditava no relato do caixão projetado fora da igreja. Entre as pessoas que levavam ao stáriets crianças ou parentes doentes, para que ele lhes impusesse as mãos ou rezasse uma oração em sua intenção, via Aliócha muitos voltarem em breve, por vezes no dia seguinte, para agradecer-lhe de joelhos o ter-lhes curado seus doentes. Havia cura ou somente melhoria natural do estado deles? Aliócha nem sequer fazia a si mesmo a pergunta, porque acreditava absolutamente na força espiritual de seu mestre e a glória dele era como o seu próprio triunfo. Batia-lhe o coração e ficava radiante, sobretudo quando o stáriets saía a ter com a multidão dos peregrinos que o esperavam nas portas do eremitério, pessoas do povo vindas de todos os pontos da Rússia pura vê-lo e receber sua bênção. Prosternavam-se diante dele, choravam, beijavam seus pés e o lugar onde ele se achava, lançando gritos; as mulheres estendiam para ele seus filhos; traziam possessos. O stáriets falava-lhes, fazia uma curta oração, dava-lhes sua bênção, depois mandava-os embora. Nos derradeiros tempos, a doença havia-o de tal modo enfraquecido que mal podia ele deixar sua cela e os peregrinos aguar-» davam sua saída para o mosteiro, por vezes dias inteiros. Aliócha não perguntava a si mesmo absolutamente por que eles o amavam tanto, por que se prosternavam diante dele com lágrimas de enternecimento, vendo seu rosto. Oh! Compreendia perfeitamente que para a alma resignada do simples povo russo, vergado sob o trabalho e o pesar, mas sobretudo sob a injustiça e o pecado contínuos — o seu e o do mundo — não há maior necessidade e consolo do que encontrar um santuário ou um santo, cair de joelhos, adorá-lo: "Se o pecado, a mentira, a tentação são nossa partilha, há no entanto em alguma parte do mundo um ser santo e sublime; possui a verdade, conhece-a; portanto, ela descerá um dia até nós e reinará sobre a terra inteira, como foi pro* metido". Aliócha sabia que é assim que o povo sente e até mesmo raciocina; compreendia isto, mas que o stáriets fosse precisamente esse santo, esse depositário da verdade divina aos olhos do povo, estava disso persuadido tanto quanto aqueles mujiques e aquelas mulheres doentes que lhe estendiam seus filhos. A convicção de que o stáriets, após sua morte, atrairia uma glória extraordinária para o mosteiro reinava na sua alma mais forte talvez do que entre os monges. Desde algum tempo, seu coração aquecia-se sempre mais à labareda dum profundo entusiasmo interior. Não o perturbava absolutamente nada ver no stáriets um indivíduo isolado: "Dá no mesmo, há no seu coração o mistério da renovação para todos, esse poder que instaurará por fim a verdade na terra e todos serão santos, amar-se-ão uns aos outros; não haverá mais nem ricos nem pobres, nem elevados nem humilhados; todos serão como os filhos de Deus e será isto o advento do reino do Cristo". Eis com que sonhava o coração de Aliócha.  
     Parece que impressionou fortemente a Aliócha a chegada de seus dois irmãos, que ele não conhecia absolutamente até então. Ligara-se mais a Dimítri, se bem que este tivesse chegado mais tarde. Quanto a Ivã, interessava-se muito por ele, mas os dois jovens permaneciam estranhos um ao outro e, no entanto, dois meses se haviam passado durante os quais viam-se bastante frequentemente. Aliócha era taciturno; além disso, parecia esperar não se sabia o que, ter vergonha de alguma coisa; muito embora tivesse notado no começo os olhares curiosos que lhe lançava seu irmão, cessou Ivã em breve de prestar-lhe atenção. Aliócha sentiu por isso alguma confusão. Atribuiu a indiferença de seu irmão à desigualdade de sua idade e de sua instrução. Mas tinha uma grande ideia. O pouco interesse que lhe testemunhava Ivã podia provir de uma causa que ele ignorava. Parecia este absorvido por algo de importante, como se visasse um alvo muito difícil, o que teria explicado sua distração a respeito dele. Alieksiéi perguntou igualmente a si mesmo senão havia naquilo o desprezo de um ateu sábio por um pobre noviço. Não podia sentir-se ofendido com tal desprezo, se é que ele existia, mas aguardava com um vago alarma, que ele próprio não explicava a si mesmo, no momento em que seu irmão queria aproximar-se dele. Seu irmão Dimítri falava de Ivã com o mais profundo respeito, num tom circunspecto. Contou a Aliócha os detalhes do importante negócio que havia aproximado estreitamente os dois mais velhos. O entusiasmo com que Dimítri falava de Ivã impressionava tanto mais Aliócha quanto, comparado a seu irmão, Dimítri era quase um ignorante; o contraste da personalidade deles e de seus caracteres era tão vivo que se teria dificilmente imaginado dois seres tão diferentes.
     Foi então que teve lugar a entrevista, ou antes, a reunião, na cela do stariets, de todos os membros daquela família mal harmonizada, reunião que exerceu influência extraordinária sobre Aliócha. O pretexto que a motivou era na realidade mentiroso. O desacordo entre Dimítri e seu pai, a respeito da herança de sua mãe e das contas da propriedade, atingia então seu auge. As relações tinham-se envenenado a ponto de tornar-se insuportáveis. Foi Fiódor Pávlovitch quem sugeriu, por brincadeira, que se reunissem todos na cela do stariets Zósima; sem recorrer à sua intervenção, poderiam eles entender-se mais decentemente, sendo capazes a dignidade e a pessoa do stariets de impor a reconciliação. Dimítri, que jamais estivera em casa dele e jamais o vira, pensou que quisessem amedrontá-lo daquela maneira; mas, como ele próprio se censurava secretamente de muitas explosões bastante bruscas em sua querela com seu pai, aceitou o desafio. É preciso notar que não residia, como Ivã, em casa de seu pai, mas na outra extremidade da cidade. Piotr Alieksándrovitch Miúsov, que morava então em nossa cidade, agarrou-se a essa ideia. Liberal dos anos 40 e 50, livre-pensador e ateu, tomou neste caso uma parte extraordinária, por tédio, talvez, ou para se divertir. Tomou-o subitamente a fantasia de ver o mosteiro e o "santo". Como seu antigo processo contra o mosteiro durasse ainda — o litígio tinha por objeto a delimitação de suas terras e certos direitos de pesca e de corte —, apressou-se em aproveitar essa ocasião, sob o pretexto de entender-se com o padre abade, a fim de dar por terminado aquele negócio amigavelmente. Um visitante animado de tão boas intenções podia ser recebido no mosteiro com mais atenções que um simples curioso. Estas considerações fizeram com que se insistisse junto ao stariets, o qual, desde algum tempo, não deixava mais sua cela e recusava mesmo, por causa de sua doença, receber os simples visitantes. Deu seu consentimento e foi marcado o dia. "Quem me encarregou de decidir entre eles?*', declarou ele somente a Aliócha, com um sorriso. 
     Ao saber dessa reunião, ficou Aliócha muito perturbado. Se algum dos adversários em luta podia tomar aquela entrevista a sério, era seguramente seu irmão Dimítri, e somente ele; os outros iriam com intenções frívolas e talvez ofensivas para o stariets. Aliócha o compreendia bem. Seu irmão Ivã e Miúsov para ali se dirigiam levados pela curiosidade e seu pai para fazer o papel de palhaço, se bem que guardando silêncio. Conhecia-o a fundo. Repito-o, aquele rapaz não era tão ingênuo como todos o acreditavam. Aguardava com ansiedade o dia marcado. Sem dúvida levava muito em questão ver cessar por fim o desacordo na sua família. Mas preocupava-se sobretudo com o stariets; tremia por ele, pela sua glória, temendo as ofensas, particularmente as finas zombarias de Miúsov e as reticências do erudito Ivã. Queria mesmo tentar prevenir o stariets, falar-lhe a respeito daqueles visitantes eventuais, mas refletiu e calou-se. Na véspera do dia marcado, mandou dizer a Dimítri que o amava muito e esperava dele o cumprimento de sua promessa. Dimítri, que procurou em vão lembrar-se de ter prometido alguma coisa, respondeu-lhe por carta que faria tudo para evitar uma baixeza. Embora cheio de respeito pelo stariets e por Ivã, via naquilo uma armadilha ou uma comédia indigna. "Entretanto, preferirei engolir minha língua a faltar ao respeito ao santo homem que veneras", dizia Dimítri, terminando sua carta. Aliócha nem por isso ficou reconfortado.
 
continua na página 29...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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