quinta-feira, 25 de junho de 2026

Dostoiévski - Os Irmãos Karamazov Livro 2 (VIII. Um escândalo)

Os Irmãos Karamazov

Fiódor Dostoiévski


PRIMEIRA PARTE
LIVRO II
UMA REUNIÃO INTEMPESTIVA
VII
UM ESCÂNDALO
    
     Quando Miúsov e Ivã Fiódorovitch iam entrar em casa do padre abade, produziu-se em Piotr Alieksándrovitch — que era um homem educado — uma reviravolta delicada. Teve vergonha de sua cólera. Sentia em seu íntimo que deveria estimar pelo seu justo valor o lamentável Fiódor Pávlovitch, conservar seu sangue-frio na cela do stáriets, e não perder a cabeça, como fora o caso. "Os monges não têm culpa nenhuma", decidiu ele de repente no patamar do abade. Ora, se há aqui pessoas decentes (o Padre Nikolai, o abade, é, parece, da nobreza), por que não me mostrar para com eles delicado, amável e polido? Não discutirei, farei mesmo coro, conquistarei a simpatia deles pela minha amabilidade e... por fim, provar-lhes-ei que não jogou o companheiro daquele Esopo, daquele palhaço, daquele saltimbanco, e que fui metido nisso com eles todos..." Resolveu ceder-lhes definitivamente os direitos de corte e pesca, de uma vez por todas, naquele dia mesmo — tanto mais que aquilo não tinha valor —, e de cessar os processos contra o mosteiro.
     Todas essas boas intenções afirmaram-se ainda, quando entraram na sala de jantar do padre abade. Não era na verdade uma, porque não havia senão duas peças, aliás muito mas espaçosas e mais cômodas que as do stáriets. Mas o mobiliário não brilhava pelo conforto: os móveis eram de acaju, recobertos de couro à antiga moda de 1820, e até mesmo os soalhos não eram pintados. Em compensação, tudo rebrilhava de limpeza, havendo nas janelas muitas flores caras; mas uma elegância principal residia naquele momento na mesa suntuosamente servida — relativamente, como era natural; a toalha era imaculada, a prataria cintilava; sobre a mesa três espécies de pão muito bem cozidos, duas garrafas de vinho, dois jarros de excelente hidromel do mosteiro e um garrafão cheio de kvas reputado das redondezas. Não havia vodca. Rakftin contou mais tarde que o jantar compreendia daquela vez cinco pratos: uma sopa de esturjão com bocados de peixe; depois um peixe cozido, preparado segundo uma receita especial e deliciosa; bolinhos de esturjão, gelados e compota, e por fim um prato de doce de batata fim estilo de manjar branco.
     Rakítin havia farejado tudo isto, e, incapaz de conter-se, lançou uma olhadela à cozinha do padre abade, onde tinha conhecidos. Tinha (...) por toda parte e ficava sabendo o que queria saber. Era um coração atormentado e invejoso. Tinha plena consciência de seus dons indiscutíveis; fazia mesmo deles, na sua presunção, uma ideia exagerada. Sabia-se destinado a desempenhar um papel, mas Aliócha, que lhe fora muito ligado, afligia-se por ver seu amigo desprovido de consciência e não se aperceber disso. Rakítin, pelo contrário, sabendo que jamais roubaria dinheiro a seu alcance, estimava-se por isto como homem de perfeita honorabilidade. A este respeito nem Aliócha nem ninguém podia influir sobre ele.
     Rakítin era uma personagem por demais mesquinha para figurar na refeição; em compensação o Padre Iósif e o Padre Paísi tinham sido envidados, bem como um outro religioso. Aguardavam eles já na ala de jantar, quando entraram Piotr Alieksándrovitch, Kolgánov e Ivã Fiódorovitch. O proprietário de terras Maksímov mantinha-se à parte. O padre abade avançou para o meio da sala para acolher seus Convidados. Era um velho grande e magro, mas ainda vigoroso, de cabelos negros já grisalhos, de rosto comprido, emaciado e grave. Cumprimentou seus hóspedes em silêncio e estes vieram por sua vez receber sua bênção. Miúsov tentou mesmo beijar-lhe a mão, mas o abade preveniu seu gesto, retirando-a. Ivã Fiódorovitch e Kolgánov foram até ao extremo, fazendo estalar os lábios à maneira da gente do povo.

— Devemos apresentar-vos todas as nossas desculpas, meu reverendo padre — começou Piotr Alieksándrovitch, com um gracioso sorriso, mas num tom grave e respeitoso —, porque chegamos sozinhos, sem nosso companheiro Fiódor Pávlovitch, que convidastes; teve de renunciar a acompanhar-nos e não sem motivo. Na cela do reverendo Padre Zósima, arrebatado por sua infeliz querela com seu filho, pronunciou algumas palavras bastante fora de propósito... em suma, bastante inconvenientes... do que vossa reverendíssima deve ter tido já conhecimento (olhou para os religiosos). Assim, cônscio de sua falta e deplorando-a sinceramente, experimentou ele uma vergonha invencível e nos rogou, a seu filho Ivã e a mim, que vos exprimíssemos seu sincero pesar, sua contrição e seu arrependimento... Em suma, espera e quer tudo reparar mais tarde, e agora, pedindo vossa bênção, roga-vos que esqueçais o que se passou...
     Miúsov calou-se. Tendo chegado ao fim de sua tirada, ficou perfeitamente satisfeito consigo mesmo, a ponto de esquecer completamente sua recente irritação. Experimentava de novo sincero e vivo amor pela humanidade. O padre abade, que o tinha escutado gravemente, inclinou a cabeça e respondeu:  

— Lamento vivamente sua ausência. Participando desta refeição, talvez tivesse tomado afeição por nós, o mesmo acontecendo de nossa parte. Senhores, queiram tomar lugares.

     Colocou-se diante da imagem e começou uma oração. Todos inclinaram-se respeitosamente e o proprietário Maksímov colocou-se mesmo na frente de mãos juntas, em sinal de particular veneração.  
     E foi então que Fiódor Pávlovitch fez mais uma das suas. Deve-se notar que tivera ele verdadeiramente a intenção de partir e compreendera a impossibilidade, depois de seu vergonhoso procedimento em casa do stáriets, de ir jantar em casa do padre abade, como se nada tivesse acontecido. Não que se sentisse tão envergonhado assim e fizesse censuras a si mesmo; talvez mesmo muito pelo contrário; no entanto, sentia a inconveniência de ir jantar. Mas assim que a caleça de molas gementes chegou ao patamar da hospedaria, parou ele antes de nela subir. Lembrou-se de suas próprias palavras em casa do stáriets. "Parece-me sempre, ao entrar em alguma parte, que sou mais vil que todos e que todos me tomam por um palhaço. Então digo a mim mesmo: sejamos verdadeiramente o palhaço, porque todos, até o derradeiro de vós, sois mais estúpidos e mais vis do que eu." Queria vingar-se em todo mundo de suas próprias vilanias. Lembrou-se, de repente, a esse propósito, de como outrora lhe haviam perguntado uma vez: "Por que detesta tanto tal pessoa?" E respondera então, num acesso de bufonesco descaramento: "Ela não me fez nada, e verdade, mas eu lhe preguei uma má peça e logo depois comecei a detestá-la". A esta lembrança, sorriu maldosa e silenciosamente numa hesitação de um minuto. Seus olhos cintilaram e seus lábios tremeram. "Já que comecei, é preciso ir até o fim", decidiu ele, bruscamente. Naquele instante, ter-se-ia podido exprimir assim seu sentimento mais íntimo: "É agora impossível reabilitar-me, então zombemos deles até a impudência: não tenho vergonha diante de vós, e eis tudo!" Ordenou ao cocheiro que esperasse e voltou a grandes passadas para o mosteiro, diretamente para a casa do padre abade. Não sabia ainda o que faria, mas sabia que não mais se dominava, que o menor impulso o impeliria aos derradeiros limites de alguma indignidade, mas somente unia indignidade, e não algum delito ou algum ataque tal que o levasse perante a justiça. Neste último caso, sabia sempre conter-se e se admirava mesmo disso por vezes. Apareceu na sala de jantar do abade, quando todos iam sentar-se à mesa depois da oração. Parou na soleira, examinou as pessoas presentes, fitando-as diretamente no rosto, e explodiu numa risada prolongada e impudente.

— Pensavam que eu tinha partido e eis-me aqui! — gritou ele com voz retumbante.

     Os presentes olharam-no um instante em silêncio e de súbito todos sentiram que iria passar-se uma cena repugnante e que um escândalo era inevitável. Piotr Alieksándrovitch passou bruscamente da quietude ao pior mau humor. Sua cólera extinta reacendeu-se, sua indignação acalmada trovejou de repente. 

— Não! Não posso suportar isso! — berrou. — Não sou capaz, não sou absolutamente capaz!  

     O sangue subia-lhe à cabeça. Atrapalhava-se, mas não se tratava de fazer estilo e pegou seu chapéu. 

— De que não é ele capaz? — exclamou Fiódor Pávlovitch. — Devo entrar ou não, pergunto a vossa reverendíssima? Aceita-me como convidado? 
— Rogamos-lhe de todo o coração — respondeu o padre abade. — Senhores! Permito-me — acrescentou ele — rogar-vos instantemente que deixeis em repouso vossas querelas fortuitas, que vos reunais no amor e na união fraternal, implorando ao Senhor, no nosso pacífico jantar... 
— Não, não, é impossível — gritou Piotr Alieksándrovitch, fora de si. 
— Ora, se é impossível a Piotr Alieksándrovitch, também o é a mim, e não ficarei. Por isso é que vim. Estarei agora em toda parte com o senhor, Piotr Alieksándrovitch: o senhor ir-se-á embora e eu também; o senhor ficará e eu também ficarei. O senhor feriu-o acima de tudo ao falar em união fraternal, padre abade; ele não quer confessar-se meu parente. Não é, Von Sohn? Ei-lo aqui, Von Sohn. Bom dia, Von Sohn. 
— Ê a mim que... ? — murmurou estupefato o proprietário Maksímov. 
— Naturalmente, a ti. Sabe vossa reverendíssima quem é Von Sohn? Foi caso num processo criminal: mataram-no num lupanar — é assim que chamais, creio, esses lugares —, mataram-no e despojaram-no e, malgrado sua idade respeitável, meteram-no num caixote e expediram-no de Petersburgo para Moscou, no furgão das bagagens, com uma etiqueta. E durante a operação, as mulheres do bordel cantavam canções e tocavam harpa, isto é, piano. Pois aí têm os senhores, essa personagem é Von Sohn. Ressuscitou dentre os mortos, não é, Von Sohn? 
— Que é isso? Como? — ressoaram vozes no grupo dos religiosos. 
— Partamos! — gritou Piotr Alieksándrovitch, dirigindo-se a Kolgánov. 
— Não, com licença! — atalhou Fiódor Pávlovitch, dando mais um passo para dentro da sala. — Deixem-me acabar. Lá, na cela do stariets, os senhores me censuraram por haver, supostamente faltado ao respeito falando dos cadozes. Piotr Alieksándrovitch Miúsov, meu parente, gosta de que haja no discurso plus de noblesse que de sin-cérité; eu, pelo contrário, gosto de que meu discurso tenha plus de sincérité que de noblesse e tanto pior para a noblesse. Não é, Von Sohn? Permita-me, padre abade, se bem que seja eu um palhaço e mantenha esse papel, sou um cavalheiro de honra e quero demonstrá-lo. Sim, sou um cavalheiro de honra, ao passo que Piotr Alieksándrovitch só tem... um arraigado amor-próprio e nada mais. Vim aqui talvez, ainda há pouco, para ver e explicar-me. Meu filho Alieksiéi procura aqui sua salvação; sou pai, preocupo-me com sua sorte e é isto o meu dever. Enquanto me oferecia em espetáculo, escutava tudo, olhava tudo sem ter ar de o fazer, e agora quero oferecer-lhes o derradeiro ato da representação. Que se passa entre nós? Entre nós, o que cai fica estendido. Uma vez caído, caído fica por todos os séculos. É verdade! Mas não, eu quero reerguer-me. Santos padres, estou indignado pela vossa maneira de agir. A confissão é um grande sacramento que eu venero e diante do qual estou pronto a prosternar-me; ora, lá, na cela, todos se ajoelham e se confessam em voz alta. Ê permitido confessar-se em voz alta? Os santos padres instituíram a confissão auricular; neste caso, somente, é a confissão um sacramento e isto desde toda a antiguidade. Ora, como explicaria eu, diante de toda gente, que eu, por exemplo, eu... isto e aquilo, enfim, os senhores compreendem, não é? Por vezes é indecente falar. Não é um escândalo? Não, meus padres, convosco pode-se ser arrastado para a seita dos khristi... Na primeira ocasião, escreverei ao Sínodo e retirarei meu filho de vossa casa.

     Uma explicação se faz precisa. Fiódor Pávlovitch ouvira cantar o galo, mas não sabia onde. Haviam corrido outrora boatos malévolos que chegaram aos ouvidos do bispo (não somente a propósito de nosso mosteiro, mas de outros), segundo os quais prestava-se aos stártsi um respeito exagerado, em prejuízo da dignidade do abade, abusando-se, entre outras coisas, do sacramento da confissão, etc. Acusações ineptas, que caíram por si mesmas, a seu tempo, entre nós e por toda parte. Mas o demônio, que se havia apoderado de Fiódor Pávlovitch e o arrebatava mais longe a um abismo de vergonha, soprara-lhe essa acusação, da qual ele próprio não compreendia a primeira palavra. Aliás, não soubera formulá-la convenientemente, tanto mais que desta vez, na cela do stáriets, ninguém se havia ajoelhado nem se confessado em voz alta. Fiódor Pávlovitch não pudera pois ver nada de semelhante e baseava-se unicamente nos antigos boatos e comadrices de que se lembrava mais ou menos. Mas, tendo lançado essa tolice, sentiu-lhe o absurdo e quis logo provar a seus auditores, e sobretudo a si mesmo, que nada havia dito de absurdo. E, muito embora soubesse perfeitamente que tudo quanto diria não faria senão agravar aquele absurdo, não pôde conter-se e escorregou como sobre uma ladeira. 

— Que baixeza! — gritou Piotr Alieksándrovitch. 
— Desculpe — disse de repente o padre abade. — Foi dito outrora: "Começaram a falar muito de mim e mesmo a falar mal. Depois de ter escutado tudo, digo a mim mesmo: é um remédio enviado por Jesus para curar minha alma vaidosa". Deste modo nós lhe agradecemos humildemente, caríssimo hóspede.

     E fez uma profunda saudação a Fiódor Pávlovitch.
     Ora, ora, ora. Beatice tudo isso. Velhas frases e velhos gestos.
     Velhas mentiras e formalismo das saudações até o chão! Nós conhecemos essas saudações! "Um beijo nos lábios e um punhal no coração", como em Os Bandidos, de Schiller. Não gosto da falsidade, meus padres, quero a verdade. Mas a verdade não está nos cadozes e eu a proclamei! Monges, por que jejuais? Porque esperais uma recompensa nos céus! Então, para tal recompensa, também eu irei jejuar! Não, santo monge, sê virtuoso na vida, serve a sociedade sem encerrar-te num mosteiro, onde és custeado de tudo e sem esperar recompensa lá em cima. Eis o que será mais difícil. Sei também fazer frases, padre abade. Que prepararam eles? — continuou ele aproximando-se da mesa. — Vinho velho do Porto, Médoc, da casa dos irmãos Elissiéievi. Ah! Meus padres, isto já não se parece com os cadozes. Vejam-se essas garrafas, ah! ah! Mas quem vos arranjou tudo isto? É o mujique russo, o trabalhador que vos traz sua oferta ganha com suas mãos calosas, arrebatada à sua família e às necessidades do Estado! Reverendos padres, vós explorais o povo! 

— É na verdade indigno de sua parte — proferiu o Padre Iósif. O Padre Paísi mantinha um silêncio obstinado. Miúsov lançou-se para fora da sala acompanhado por Kolgánov. 
— Pois bem, meus padres, eu sigo Piotr Alieksándrovitch! Não voltarei mais, ainda que me pedísseis de joelhos, nunca mais. Enviei-vos 1000 rublos e vós arregalastes os olhos, ah! ah! Mas não acrescentarei nada. Vingo minha juventude passada e as humilhações sofridas. — Deu um murro sobre a mesa, num acesso de indignação fingida. — Este mosteiro desempenhou um grande papel na minha vida! Quantas lágrimas amargas verti por causa dele! Vós virastes contra mim minha mulher, a endemoniada. Cumulastes-me de maldições, desacreditastes-me na vizinhança! É demais, meus padres, nós vivemos numa época liberal, no século dos barcos a vapor e dos caminhos de ferro. Vós não tereis nada de mim, nem 1000 rublos, nem 100, nem 1.

     Explico de novo. Jamais o nosso mosteiro tivera tal lugar na vida dele e não o fizera verter lágrimas amargas, mas ele se havia de tal modo deixado levar por essas lágrimas imaginárias que esteve um momento quase a ponto de acreditar nelas; teria chorado de enternecimento, mas sentiu logo que era tempo de dar marcha à ré. Diante de sua odiosa mentira, o padre abade inclinou a cabeça e declarou de novo num tom grave: 

— Está de novo escrito: "Suporta pacientemente a calúnia de que és vítima e não te perturbes, nem aborreças aquele que é o autor dela". Agiremos de conformidade com isto. 
— Ora, ora, ora, o belo palavreado! Continuai, meus padres, eu vou me embora. Retomarei definitivamente meu filho Alieksiéi, em virtude de minha autoridade paterna; Ivã Fiódorovitch, meu respeitosíssimo filho, permita-me que lhe ordene que me siga! Von Sohn, de que serve ficar aqui! Vem à minha casa, na cidade. Ninguém se aborrece em minha casa. Fica a 1 versta daqui, quando muito; em lugar de óleo de linhaça, darei um leitão recheado de trigo mourisco; jantaremos, oferecerei conhaque, depois licores, há uma bonita mulher... Ah! Von Sohn, não deixes passar tua felicidade!

     Saiu gritando e gesticulando. Foi nesse momento que Rakítin o avistou e apontou-o a Aliócha. 

— Alieksiéi — gritou-lhe seu pai, de longe —, vem hoje instalar-te em minha casa definitivamente, pega teu travesseiro, teu colchão e que nada teu fique aqui.

     Aliócha parou como que petrificado, observando atentamente aquela cena, sem dizer uma palavra. Fiodor Pávlovitch subiu à caleça, seguido de Ivã Fiódorovitch, silencioso e sombrio, que nem mesmo se voltou para cumprimentar Aliócha. Mas passou-se então uma cena de saltimbanco, quase inverossímil, para coroamento de tudo. De repente, apareceu perto do estribo o proprietário rural Maksímov. Corria sem fôlego, para chegar a tempo. Tal era sua pressa que, na sua impaciência, colocou uma perna no estribo onde se encontrava ainda a de Ivã Fiódorovitch e, agarrando-se ao assento, tentou subir. 

— Eu também o sigo! — gritou ele, saltitando, com um riso alegre, um ar de beatitude e pronto a tudo. — Leve-me com o senhor!
— Pois é, não dizia eu que era Von Sohn? — exclamou Fiódor Pávlovitch, encantado. — O verdadeiro Von Sohn ressuscitado dentre os mortos! Como saíste de lá? Que é que fabricavas lá e como pudeste renunciar ao jantar? Porque é preciso ter testa de bronze! Eu tenho uma testa assim, mas a tua me causa admiração, camarada. Salta, salta mais depressa. Deixa-o subir, Vânia, a gente se divertirá. Que se estenda aí, a nossos pés, ouviu, Von Sohn? Ou então vamos instalá-lo na boleia com o cocheiro! Salta na boleia, Von Sohn. 

     Mas Ivã Fiódorovitch, que já tomara lugar, sem dizer palavra, repeliu, com um forte empurrão no peito, Maksímov, que recuou uns 2 metros. Se não caiu, foi mero acaso. 

— A caminho! — gritou, com raiva, ao cocheiro, Ivã Fiódorovitch. 
— Como! Que fazes, que fazes? Por que tratá-lo assim? — objetou Fiódor Pávlovitch, mas a caleça já havia partido. Ivã Fiódorovitch não respondeu nada. 
— Só se vendo como és! — continuou Fiódor Pávlovitch, após um silêncio de dois minutos, olhando seu filho de través. — Porque foste tu que imaginaste essa visita ao mosteiro, que a provocaste e aprovaste. Por que te zangas agora? 
— Basta de dizer estupidezas! Repouse um pouco pelo menos, agora — replicou num tom rude Ivã Fiódorovitch. Fiódor Pávlovitch calou-se ainda dois minutos. 
— Seria bom agora beber conhaque — observou ele, sentenciosa mente. Mas Ivã Fiódorovitch nada respondeu. 
— Quando chegarmos, beberás também?

     Ivã Fiódorovitch não pronunciava uma palavra sequer. Fiódor Pávlovitch esperou ainda dois minutos. 

— No entanto, retirarei Aliócha do mosteiro, se bem que isto lhe seja bastante desagradável, respeitoso "Karl von Moor".

     Ivã Fiódorovitch ergueu desdenhosamente os ombros, voltou-se e pôs-se a olhar a estrada. Não trocaram mais uma palavra até a casa.

continua na página 95...
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Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, nascido em Moscou, 11 de novembro de 1821 — falecido em São Petersburgo, 9 de fevereiro de 1881, foi um escritor, filósofo e jornalista russo. É considerado por muitos um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores «psicólogos» que já existiu, ao considerar a designação e etimologia mais ampla do termo, como investigador da psique.
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879, uma das mais importantes obras das literaturas russa e mundial, ou, conforme afirmou Freud: "a maior obra da história". Freud considera esse romance, juntamente com Édipo Rei e Hamlet, três importantes livros a respeito do embate pai e filho, e retratam o complexo de Édipo.

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