quarta-feira, 25 de outubro de 2023

Maninha

Chico Buarque e Mônica Salmaso


'Maninha'
- Chico Buarque e Mônica Salmaso ao vivo, em Porto Alegre - RS!





Primeira canção do bis após um emocionante show iniciado por Mônica e depois assumido por Chico (com vocais ocasionais da cantora). O clima era de alegria pelo novo tempo que inicia em 2023.
Auditório Araújo Vianna, Porto Alegre, 3 de novembro de 2022.


Vale a pena ler…
Texto do jornalista Luís Nassif:

Sobre a estreia do show de Chico Buarque em São Paulo, (consegui o vídeo e o áudio da música Maninha no show em Porto Alegre). 

"Foi o maior show de Chico Buarque que assisti, com a participação majestosa de Mônica Salmaso. Foi um reencontro amoroso com o Brasil, através da seleção de composições de várias fases de Chico, cada qual impregnando a história de um público sedento de Brasil, que lotou o teatro. Eram milhares de pessoas, órfãs não propriamente de Chico, mas de Brasil, que reagiam
entusiasticamente a cada música, como para espantar os demônios que já apossaram do país conspurcando o verde e amarelo com suas caras de zumbis abobados, saindo dos porões do inferno.

Passou pelo show grande parte do repertório intemporal de Chico. Mas o momento mais intenso foi quando Chico e Mônica interpretara “Maninha”, a música que melhor antecipou o que se passaria com o Brasil.

A letra narra a história de dois irmãos, após o abusador ter entrado em suas vidas, a saudade da vida perdida, a esperança de um dia ela ir embora.

Se lembra da fogueira
Se lembra dos balões
Se lembra dos luares dos sertões
A roupa no varal, feriado nacional
E as estrelas salpicadas nas canções

Se lembra quando toda modinha falava de amor
Pois nunca mais cantei, oh maninha
Depois que ele chegou

Se lembra da jaqueira
A fruta no capim
Dos sonhos que você contou pra mim

Os passos no porão, lembra da assombração
E das almas com perfume de jasmim

Se lembra do jardim, oh maninha
Coberto de flor
Pois hoje só dá erva daninha
No chão que ele pisou

Se lembra do futuro
Que a gente combinou
Eu era tão criança e ainda sou
Querendo acreditar que o dia vai raiar
Só porque uma cantiga anunciou

Mas não me deixe assim, tão sozinho
A me torturar
Que um dia ele vai embora, maninha
Pra nunca mais voltar

Estava ali, o Brasil que começou a ser ensaiado a partir do “mensalão”, que se consolidou com a Lava Jato, o país do ódio, da destruição do adversário, tratado como inimigo. Até que o abusador tomou conta de tudo, as milícias conquistaram o poder, exterminando doentes, índios e abandonando crianças, destruindo sistemas de ensino, redes de proteção social. 

A música aumentou em vários graus a emoção que já cobria a plateia. Não foi necessária nenhuma explicação, nenhum grito de guerra, mas apenas a solidariedade barulhenta de irmãos que se veem libertados do abusador. E, na saída, a dura realidade batendo de volta. 

Se um dia ele vai embora, pra nunca mais voltar, não será por agora. O abusador não é a figura caricata, pornográfica de Bolsonaro e seus filhos, da fada madrinha Michele, com suas maçãs envenenadas de manipulações religiosas, nem a bruxa Damares medindo o dedo de curumins enjaulados.

O abusador, agora, está em cada esquina, depois que uma campanha odiosa de mídia abriu as portas dos túmulos, permitindo que os zumbis escapassem das profundezas e invadissem definitivamente a vida brasileira.

É pior que nos tempos da ditadura. No início da ditadura você encontrava alguns delatores no seu entorno, mas era como se os porões fossem segregados da sociedade, permitindo a honestos pais de família fingir que não ouviam os gritos dos torturados pelos amigos próximos de Bolsonaro.

Agora, não. O espectro do abusador entrou na cabeça da velhinha rezadeira, do ruralista alucinado, normalizou a atuação dos assassinos reunidos em Clubes de Atiradores e Caçadores, transformou jornalistas em delatores – alguns deles, agora, tentando refazer o caminho de volta à civilização. Fez com que a sobrinha pia, que ia todos os domingos na missa, passasse a desejar a morte de esquerdistas, petistas, comunistas ou qualquer ista injetado em sua cabeça. Jogou no mesmo ambiente médicos imbecilizados, arruaceiros de periferia, vocações  assassinas esperando a primeira oportunidade para cumprir a sua sina.

Definitivamente, o abusador não foi embora. Será um árduo trabalho empurrá-los de volta ao túmulo, porque não tem cara, não tem RG, é um sentimento amargo, pútrido, plantado por anos na cabeça do país, como um ectoplasma de Freddy Krueger.

Será uma dura caminhada, mas, pelo menos, sabemos o caminho. E as migalhas de pão jogadas pela estrada, para encontrar o caminho da volta, são as canções de Chico, Milton, Caetano, Nelson Cavaquinho, Zé Keti, Angelino de Oliveira, Adoniran.

Afinal, um país que construiu a mais bela música do planeta, haverá de encontrar forças para recuperar as lembranças da fogueiras, dos balões, dos luares dos sertões, e, em um ponto qualquer do futuro, voltar a ter orgulho de si". 

(Texto do jornalista Luis Nassif)


"Que tal um Samba" | Curitiba, 2022
CHICO BUARQUE E MÔNICA SALMASO




Chico Buarque e Miúcha
- Maninha




OS SERTÕES, Euclides da Cunha - Travessia do Cambaio: III - Primeiro recontro

OS SERTÕES 

Euclides da Cunha

Volume 1


Travessia do Cambaio


Primeiro recontro

O recontro fez-se em vozeira em quem, através dos costumeiros vivas ao “Bom Jesus” e ao “nosso Conselheiro”, rompiam brados escandalosos de linguagem solta, apóstrofes insolentes, e entre outras uma frase desafiadora que no decorrer da campanha soaria invariável como um estribilho irônico:

Avança! fraqueza do governo!” 

Houve uma vacilação em toda a linha. A vanguarda estacou e pareceu recuar. Conteve-a, porém, uma voz imperiosa. O major Febrônio rompeu pelas fileiras alarmadas e centralizou a resistência — em réplica fulminante e admirável, atentas às desvantajosas condições em que se realizou. Conteirados rapi- damente os canhões, bombardearam os matutos a queima-roupa, e estes, vendo pela primeira vez aquelas armas poderosas, que decuplavam o efeito despedaçando pedras, debandaram, tontos, numa dispersão instantânea. Aproveitando este refluxo foi feita a investida, iniciada de pronto, pelas cento e tantas praças do 33º de Infantaria. Tropeçando, escorregando nas lajens, contornando-as, ou transpondo-as aos saltos, insinuando-se pelos talhados, atirando a esmo para a frente, as praças arremeteram com as rampas; e logo depois a linha do assalto se estirou, tortuosa e ondulante, extremada à direita pelo 9º e à esquerda pelo 16º e a polícia baiana. 
O combate generalizou-se em minutos, e, como era de prever, as linhas romperam-se de encontro aos obstáculos do terreno. Foi um avançar em desordem. Fracionados, galgando penhascos a pulso, carabinas presas aos dentes pelas bandoleiras, ou abordoando-se às armas, os combatentes arremeteram em tumulto — sem o mínimo simulacro de formatura, confundidos batalhões e companhias — vagas humanas raivando contra os morros, num marulho de corpos, arrebentando em descargas, espadanando brilhos de aço, e estrugindo em estampidos sobre que passavam, estrídulas, as notas dos clarins soando a carga. 
Embaixo, na ladeira em que ficara a artilharia, os animais de tração e os cargueiros, espavoridos pelas balas, partindo os tirantes, sacudindo fora canastras bruacas, desapareciam a galope ou tombavam pelos taludes íngremes. Acompanhou-os o resto dos tropeiros, fugindo, surdos às intimativas feitas com revólveres engatilhados, e agravando o tumulto. 
No alto, mais longe, pelo teso da serra, reapareciam os sertanejos. Pareciam dispostos em duas sortes de lutadores: os que se agitavam, velozes, surgindo e desaparecendo, às carreiras, e os que permaneciam firmes nas posições alterosas. A cavaleiro do assalto, estes iludiam de modo engenhoso a carência de espingardas e o lento processo de carregamento das que possuíam. Para isto se dispunham em grupos de três ou quatro rodeando a um atirador único, pelas mãos do qual passavam, sucessivamente, as armas carregadas pelos companheiros invisíveis, sentados no fundo da trincheira. De sorte que se alguma bala fazia baquear o clavinoteiro, substituía-o logo qualquer dos outros. Os soldados viam tombar, mas ressurgir imediatamente, indistinto pelo fumo, o mesmo busto, apontando-lhes a espingarda. Alvejavam-no de novo. Viam-no outra vez cair, de bruços, baleado. Mas viam outra vez erguer-se, invulnerável, assombroso, terrível, abatendo-se e aprumando-se, o atirador fantástico.  


João Grande 

Este ardil foi logo descoberto pelas diminutas frações atacantes que se avantajaram até às canhoneiras mais altas. Chegaram ali esparsas. A fugacidade do inimigo e o terreno davam por si mesmos à tropa a distribuição tática mais própria, circunstância que, aliada ao pequeno alcance das armas daquele, tornara a expedição quase indene. Os únicos tropreços à escalada eram as asperezas do solo. As cargas amorteciam-se nas escarpas. Não as esperavam os jagunços. Certos da inferioridade de seu armamento bruto, pareciam desejar apenas que ali ficassem, como ficaram, a maior parte das balas destinadas a Canudos. E falseavam a peleja franca. Via-se entre eles, sopesando o clavinote curto, um negro corpulento e ágil. Era o chefe, João Grande. Desencadeava as manobras, estadeando ardilezas de facínora provecto nas correrias do sertão. Imitavam-lhe os movimentos, as carreiras, os saltos, as figurações selvagens, os sertanejos amotinados — num vaivém de avançadas e recuos, ora dispersos, ora agrupados, ou desfilando em fileiras sucessivas, ou repartindo-se extremamente rarefeitos; e a rojões, rolantes pelos pendores, subindo, descendo, atacando, fugindo, baqueando trespassados de balas, muitos; malferidos, outros, em plena descida, e rolando até ao meio das praças, que os acabavam a couce de armas.
Desapareciam inteiramente, às vezes.
Os projetis das Mannlichers estralavam à toa na ossamenta rígida da serra. As seções avançadas ascendiam, porém, mais rápidas, pelas barrancas, conquistando o terreno, até que outra irrupção repentina do adversário lhes tomasse a frente, ou as aferrasse de soslaio. Algumas, então, paravam. Algumas recuavam mesmo, tolhidas de espanto, sem que as animassem oficiais acobardados, cujos nomes pouparam as partes oficiais, mas não os comentários acerbos dos companheiros. A maior parte reagia. Rompia o espingardeamento a queima-roupa sobre os fanáticos dizimando-os, espalhando-os, em grandes correrias pelos cerros.
Por fim o rude cabecilha predispô-los, ao que se figura, a recontro decisivo, braço a braço. O seu perfil de gorila destacou-se, temerariamente, à frente de um bando de súbito congregado. Num belo movimento heróico avançou sobre a artilharia. Cortou-lhe, porém, o passo a explosão de uma lanterneta estraçoando-o e aos caudatários mais próximos, enquanto os demais fugiam para as posições primitivas de envolta, agora, com as avançadas da tropa. Contingentes misturados de todos os corpos saltavam afinal dentro das últimas trincheiras à direita, perdendo o oficial que até lá os levara, Venceslau Leal. 
Estava conquistada a montanha após três horas de conflito. A vitória, porém, resultava da coragem cega junta à mais completa indisciplina de fogo — e compreende-se que mais tarde a ordem do dia relativa ao feito desse preeminente lugar às praças graduadas. Os seus cabos-de-guerra foram os cabos-de-esquadra. Sobre os jagunços em fuga confluíram cargas em desordem: soldados em grupos, turbas sem comando disparando à toa as carabinas, num fanfarrear irritante e numa alacridade feroz de monteiros no último lance de uma batida a javardos. 
Os jagunços escapavam-se-lhes adiante. Perseguiram-nos. 
A artilharia, embaixo, começou a rodar, puxada a pulso, pelas ladeiras acima. 
Realizara-se a travessia; e, tirante o dispêndio de munições, eram poucas as perdas — quatro mortos e vinte e tantos feridos. Em troca os sertanejos deixavam cento e quinze cadáveres, contados rigorosamente. 


Episódio trágico

Fora uma hecatombe. Cumulou-a um episódio trágico.
A algara tumultuária teve um desfecho teatral. 
Foi no volver das últimas bicadas da serra... 
Ali sobre barranca agreste, avergoada de algares, se alteava, oblíqua e mal tocando por um dos extremos o solo, imensa lajem presa entre duas outras que a sustinham pelo atrito, semelhando um dólmen abatido. Este abrigo coberto tinha, na frente, a barbacã de um muro de rocha viva. Nele se acoutaram muitos sertanejos — cerca de quarenta, segundo um espectador do quadro1 — provavelmente os que possuíam as derradeiras cargas dos trabucos. 
A terra protetora dava aos vencidos o último reduto. 
Aproveitaram-no. Abriram sobre os perseguidores um tiroteio escasso, e fizeram-nos estacar um momento, fazendo parar, mais longe, a artilharia que se aprestou a bombardear o pequeno grupo de temerários.
O bombardeio reduziu-se a um tiro. A granada partiu levemente desviada do alvo, e foi arrebentar numa das junturas em que se engastava a pedra. Dilatou-a. Abriu-a, de alto a baixo. 
E o bloco despregado desceu pesadamente, em baque surdo, sobre os infelizes, sepultando-os... 
Reatou-se a marcha. Adiante, numa exaustão crescente, percebida no rarear dos tiros, os últimos defensores do Cambaio tocavam para Canudos. Desapareceram, por fim.  
 
continua 114...
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Leia também:

OS SERTÕES - A Terra: I Preliminares
OS SERTÕES - A Terra: II Do alto de Monte Santo
OS SERTÕES - A Terra: III O clima
OS SERTÕES - A Terra: IV As secas
OS SERTÕES - A Terra: V Uma categoria geográfica que Hegel não citou
OS SERTÕES - O Homem: I Complexidade do problema etnológico no Brasil
OS SERTÕES - O Homem: II ... A gênese do jagunço
OS SERTÕES - O Homem: II ... Um parêntese irritante
OS SERTÕES - O Homem: III ... O sertanejo é, antes de tudo, um forte
OS SERTÕES - O Homem: IV ... Antônio Conselheiro, documento vivo
OS SERTÕES - O Homem: IV ... Como se faz um monstro ...
OS SERTÕES - O Homem: V... Canudos antecedentes
OS SERTÕES - O Homem: V   Polícia de bandidos
OS SERTÕES - O Homem: V... Agrupamento bizarro 
OS SERTÕES - O Homem: V  Uma missão abortada 
OS SERTÕES - Travessia do Cambaio: III - Primeiro recontro
OS SERTÕES - Travessia do Cambaio: IV - Nos tabuleirinhos 
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Os Sertões, de Euclides da Cunha

Fonte: CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Três, 1984 (Biblioteca do Estudante).

Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Stendhal - O Vermelho e o Negro: O Tédio (XXIX)

Livro II 


Ela não é galante,
não usa ruge algum.

Sainte-Beuve

Capítulo XXIX

O TÉDIO


Sacrificar-se por suas paixões, isso passa; mas por paixões que não se tem! 
Ó triste século XIX!

GIRODET


DEPOIS DE TER LIDO SEM PRAZER, a princípio, as longas cartas de Julien, a sra. de Fervaques começava a interessar-se por elas; mas uma coisa a desolava: Que pena que o sr. Sorel não seja decididamente padre! Ela poderia admiti-lo a uma espécie de intimidade; mas, com aquela medalha e o traje quase burguês, havia o risco de expor-se a perguntas cruéis, e que responder? Ela não concluía o pensamento: alguma amiga maligna pode supor e mesmo espalhar que ele é um primo subalterno, parente de meu pai, algum comerciante condecorado pela guarda nacional.
Até o momento de conhecer Julien, o maior prazer da sra. de Fervaques fora escrever a palavra marechala ao lado de seu nome. Depois, uma vaidade doentia de quem subiu na vida e ofende-se com tudo, combateu um começo de interesse.
Seria tão fácil para mim, dizia-se a marechala, fazer dele um grande vigário em alguma diocese vizinha de Paris! Mas o sr. Sorel, desse jeito, e ainda por cima secretário do sr. de La Mole, é desolador! 
Pela primeira vez, essa alma que temia tudo era agitada por um interesse alheio a suas pretensões de classe e de superioridade social. Seu velho porteiro notou que, quando trazia uma carta daquele belo jovem de aspecto tão triste, era certo ver desaparecer o ar distraído e descontente que a marechala sempre tinha o cuidado de exibir à chegada de um dos criados.
O tédio de um modo de vida muito preocupado com o efeito sobre o público, sem que houvesse no fundo do coração prazer real por esse tipo de sucesso, tornara-se tão intolerável depois que pensava em Julien que, para que as camareiras não fossem maltratadas durante o dia, era suficiente que, na noite da véspera, ela tivesse passado uma hora com esse jovem singular. Seu crédito nascente resistiu a cartas anônimas, muito bem produzidas. Em vão o pequeno Tanbeau forneceu aos srs. de Luz, de Croisenois, de Caylus, duas ou três calúnias muito hábeis e que esses senhores comprazeram-se em divulgar sem verificar a veracidade das acusações. A marechala, cujo espírito não era feito para resistir a esses meios vulgares, contava suas dúvidas a Mathilde, e sempre era consolada. 
Um dia, após ter perguntado três vezes se havia cartas, a sra. de Fervaques decidiu subitamente responder a Julien. Foi uma vitória sobre o tédio. Na segunda carta, a marechala foi quase detida pela inconveniência de escrever, de próprio punho, um endereço tão vulgar: Ao sr. Sorel, na casa do sr. marquês de La Mole.

– É preciso, disse ela à noite a Julien, de um modo muito seco, que o senhor me traga envelopes nos quais constará seu endereço.

Eis-me transformado em amante-criado, pensou Julien, e ele inclinou-se com prazer imitando Arsène, o velho mordomo do marquês.
Nessa mesma noite entregou envelopes e, no dia seguinte bem cedo, recebeu uma terceira carta: leu cinco ou seis linhas no começo e duas ou três no final. Eram quatro páginas escritas em letra miúda. 
Aos poucos ela adquiriu o doce hábito de escrever quase diariamente. Julien respondia com cópias fiéis das cartas russas e – tal é a vantagem do estilo enfático – a sra. de Fervaques de modo nenhum se surpreendia com a pouca relação das respostas com suas cartas.
Qual não teria sido a irritação de seu orgulho se o pequeno Tanbeau, que se constituíra espião voluntário dos passos de Julien, tivesse podido informar-lhe que todas essas cartas eram jogadas ao acaso, ainda fechadas, na gaveta de Julien. 
Certa manhã, o porteiro levava-lhe à biblioteca uma carta da marechala; Mathilde encontrou esse homem, viu a carta e o endereço com a letra de Julien. Ela entrou na biblioteca quando o porteiro saía; a carta ainda estava na borda da mesa; Julien, muito ocupado em escrever, não a pusera na gaveta. 
 
– Isso eu não posso tolerar, exclamou Mathilde, apoderando-se da carta; você me esquece completamente, a mim que sou sua esposa. Sua conduta é detestável, senhor.

A essas palavras, seu orgulho, espantado com a terrível inconveniência de sua atitude, a sufocou; ela desatou a chorar e logo pareceu a Julien perder o fôlego.
Surpreso, confundido, Julien não distinguia claramente tudo o que essa cena tinha de admirável e de feliz para ele. Ajudou Mathilde a sentar-se; ela quase abandonava-se em seus braços.
O primeiro instante em que percebeu esse movimento foi de extrema alegria. O segundo foi um pensamento para Korasoff: posso perder tudo com uma única palavra.
Seus braços enrijeceram, tamanha era a dificuldade do esforço imposto pela política. Não devo sequer permitir-me pressionar contra o coração esse corpo macio e encantador, ou ela me despreza e me maltrata. Que caráter medonho!
E, ao maldizer o caráter de Mathilde, ele a amava cem vezes mais; parecia-lhe ter nos braços uma rainha.
A impassível frieza de Julien redobrou o orgulho ferido que dilacerava a alma da srta. de La Mole. Ela estava longe ter o sangue-frio necessário para buscar adivinhar em seus olhos o que ele sentia por ela nesse instante. Não pôde decidir-se a olhá-lo: temia deparar com a expressão do desprezo.
Sentada no divã da biblioteca, imóvel e com a cabeça virada para o lado oposto de Julien, ela estava exposta aos mais vivos sofrimentos que o orgulho e o amor podem causar a uma alma humana. Em que situação cruel fora cair!
Estava-me reservado, infeliz que sou, ver repelidas as iniciativas mais indecentes! E repelidas por quem? acrescentava seu orgulho enlouquecido de dor. Repelidas por um criado de meu pai.

– É o que não vou mais tolerar, disse ela em voz alta.

E, levantando-se com furor, abriu a gaveta da mesa de Julien, a dois passos diante dela. Ficou como transida de horror ao ver ali oito ou dez cartas ainda não abertas, semelhantes àquela que o porteiro acabara de trazer. Em todos os endereços, reconhecia a letra de Julien, mais ou menos dissimulada.

– Então não apenas está com ela, exclamou fora de si, como também a despreza. Você, um homem insignificante, desprezar a marechala de Fervaques! 

Ah!, perdão, meu amigo, ela acrescentou jogando-se a seus joelhos, despreza-me se queres, mas me ama, não posso mais viver privada de teu amor. E caiu completamente desfalecida.
Eis aí, enfim, essa orgulhosa a meus pés!, pensou Julien.  

continua página 291...

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ADVERTÊNCIA DO EDITOR

Esta obra estava prestes a ser publicada quando os grandes acontecimentos de julho [de 1830] vieram dar a todos os espíritos uma direção pouco favorável aos jogos da imaginação. Temos motivos para acreditar que as páginas seguintes foram escritas em 1827.

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Henri-Marie Beylemais conhecido como Stendhal (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 — Paris, 23 de março de 1842) foi um escritor francês reputado pela fineza na análise dos sentimentos de seus personagens e por seu estilo deliberadamente seco.
Órfão de mãe desde 1789, criou-se entre seu pai e sua tia. Rejeitou as virtudes monárquicas e religiosas que lhe inculcaram e expressou cedo a vontade de fugir de sua cidade natal. Abertamente republicano, acolheu com entusiasmo a execução do rei e celebrou inclusive a breve detenção de seu pai. A partir de 1796 foi aluno da Escola central de Grenoble e em 1799 conseguiu o primeiro prêmio de matemática. Viajou a Paris para ingressar na Escola Politécnica, mas adoeceu e não pôde se apresentar à prova de acesso. Graças a Pierre Daru, um parente longínquo que se converteria em seu protetor, começou a trabalhar no ministério de Guerra.
Enviado pelo exército como ajudante do general Michaud, em 1800 descobriu a Itália, país que tomou como sua pátria de escolha. Desenganado da vida militar, abandonou o exército em 1801. Entre os salões e teatros parisienses, sempre apaixonado de uma mulher diferente, começou (sem sucesso) a cultivar ambições literárias. Em precária situação econômica, Daru lhe conseguiu um novo posto como intendente militar em Brunswick, destino em que permaneceu entre 1806 e 1808. Admirador incondicional de Napoleão, exerceu diversos cargos oficiais e participou nas campanhas imperiais. Em 1814, após queda do corso, se exilou na Itália, fixou sua residência em Milão e efetuou várias viagens pela península italiana. Publicou seus primeiros livros de crítica de arte sob o pseudônimo de L. A. C. Bombet, e em 1817 apareceu Roma, Nápoles e Florença, um ensaio mais original, onde mistura a crítica com recordações pessoais, no que utilizou por primeira vez o pseudônimo de Stendhal. O governo austríaco lhe acusou de apoiar o movimento independentista italiano, pelo que abandonou Milão em 1821, passou por Londres e se instalou de novo em Paris, quando terminou a perseguição aos aliados de Napoleão.
"Dandy" afamado, frequentava os salões de maneira assídua, enquanto sobrevivia com os rendimentos obtidos com as suas colaborações em algumas revistas literárias inglesas. Em 1822 publicou Sobre o amor, ensaio baseado em boa parte nas suas próprias experiências e no qual exprimia ideias bastante avançadas; destaca a sua teoria da cristalização, processo pelo que o espírito, adaptando a realidade aos seus desejos, cobre de perfeições o objeto do desejo.
Estabeleceu o seu renome de escritor graças à Vida de Rossini e às duas partes de seu Racine e Shakespeare, autêntico manifesto do romantismo. Depois de uma relação sentimental com a atriz Clémentine Curial, que durou até 1826, empreendeu novas viagens ao Reino Unido e Itália e redigiu a sua primeira novela, Armance. Em 1828, sem dinheiro nem sucesso literário, solicitou um posto na Biblioteca Real, que não lhe foi concedido; afundado numa péssima situação económica, a morte do conde de Daru, no ano seguinte, afetou-o particularmente. Superou este período difícil graças aos cargos de cônsul que obteve primeiro em Trieste e mais tarde em Civitavecchia, enquanto se entregava sem reservas à literatura.
Em 1830 aparece sua primeira obra-prima: O Vermelho e o Negro, uma crónica analítica da sociedade francesa na época da Restauração, na qual Stendhal representou as ambições da sua época e as contradições da emergente sociedade de classes, destacando sobretudo a análise psicológica das personagens e o estilo direto e objetivo da narração. Em 1839 publicou A Cartuxa de Parma, muito mais novelesca do que a sua obra anterior, que escreveu em apenas dois meses e que por sua espontaneidade constitui uma confissão poética extraordinariamente sincera, ainda que só tivesse recebido o elogio de Honoré de Balzac.
Ambas são novelas de aprendizagem e partilham rasgos românticos e realistas; nelas aparece um novo tipo de herói, tipicamente moderno, caracterizado pelo seu isolamento da sociedade e o seu confronto com as suas convenções e ideais, no que muito possivelmente se reflete em parte a personalidade do próprio Stendhal.
Outra importante obra de Stendhal é Napoleão, na qual o escritor narra momentos importantes da vida do grande general Bonaparte. Como o próprio Stendhal descreve no início deste livro, havia na época (1837) uma carência de registos referentes ao período da carreira militar de Napoleão, sobretudo a sua atuação nas várias batalhas na Itália. Dessa forma, e também porque Stendhal era um admirador incondicional do corso, a obra prioriza a emergência de Bonaparte no cenário militar, entre os anos de 1796 e 1797 nas batalhas italianas. Declarou, certa vez, que não considerava morrer na rua algo indigno e, curiosamente, faleceu de um ataque de apoplexia, na rua, sem concluir a sua última obra, Lamiel, que foi publicada muito depois da sua morte.
O reconhecimento da obra de Stendhal, como ele mesmo previu, só se iniciou cerca de cinquenta anos após sua morte, ocorrida em 1842, na cidade de Paris.

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Leia também:

O Vermelho e o Negro: Uma Hora da Madrugada (XVI)
O Vermelho e o Negro: Uma Velha Espada (XVII)
O Vermelho e o Negro: O Tédio (XXIX)

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (53)

Honoré de Balzac - A Comédia Humana / Vol 1

1
Estudos de Costumes 
- Cenas da Vida Privada



Memórias de duas jovens esposas


SEGUNDA PARTE

LIII – A CONDESSA DE L’ESTORADE À SRA. GASTÃO

Querida Luísa, li e reli tua carta e quanto mais a aprofundei mais vi em ti uma criança do que uma mulher; não mudaste, esqueces o que te disse mil vezes: o Amor é um roubo feito pelo estado social ao estado natural; ele é tão passageiro na natureza que os recursos da sociedade não lhe podem mudar as condições primitivas: por isso, todas as almas nobres tentam fazer um homem dessa criança; mas então o amor, segundo tu mesma, torna-se uma monstruosidade. A sociedade, querida, quis ser fecunda. Ao substituir a fugitiva loucura da natureza por sentimentos duradouros, ela criou a maior instituição humana: a Família, base eterna das Sociedades. Sacrificou tanto o homem quanto a mulher à sua bela obra; pois, não nos iludamos, o pai de família dá a sua atividade, as suas forças, todas as suas fortunas à esposa. Não é a mulher quem goza de todos os sacrifícios? O luxo, a riqueza, não lhe toca quase tudo a ela? Para ela a glória e a elegância, a doçura e a flor da casa. Ó, meu anjo, mais uma vez encaras mal a vida. Ser adorada é um tema para moças, bom para algumas primaveras, mas que não poderia ser o de uma mulher, esposa e mãe. Bastará, talvez, para a vaidade da mulher saber que se pode fazer adorar. Se queres ser esposa e mãe, volta a Paris. Deixa-me repetir-te que te perderás pela felicidade como outros se perdem pela desventura. As coisas que não nos cansam, o silêncio, o pão, o ar são irrepreensíveis por não terem sabor; ao passo que as coisas que o têm e irritam os nossos desejos acabam por saciá-los. Ouve-me, filha! Agora, mesmo que eu pudesse ser amada por um homem pelo qual eu sentisse nascer em mim o amor que tributas a Gastão, eu saberia manter-me fiel aos meus caros deveres e à minha querida família. A maternidade, meu anjo, é para o coração da mulher uma dessas coisas simples, naturais, férteis e inesgotáveis, como as que são os elementos da vida. Lembro-me de ter um dia, breve fará catorze anos, adotado o devotamento como um náufrago se agarra ao mastro de seu navio, por desespero; hoje, entretanto, quando evoco pela imaginação toda a minha vida, eu escolheria ainda esse sentimento como o princípio de minha existência, por ser ele o mais seguro e mais fecundo de todos. O exemplo da tua vida, baseada num egoísmo feroz, conquanto mascarado pela poesia do coração, fortificou a minha resolução. Nunca mais te direi essas coisas, mas precisava dizê-las uma última vez ainda, ao saber que tua felicidade resiste à mais terrível das provas.
Tua vida no campo, objeto de minhas meditações, sugeriu-me esta outra observação que devia comunicar-te. Nossa vida, tanto para o corpo, como para o coração, é composta de certos movimentos regulares. Todo excesso, trazido a esse mecanismo, é uma causa de prazer ou de dor; ora, o prazer ou a dor são uma febre da alma, essencialmente passageira, porque não pode ser suportada muito tempo. Fazer do excesso a própria vida, não é isso viver doente? Vives doente, por manteres no estado de paixão um sentimento que, no matrimônio, deve tornar-se uma força uniforme e pura. Sim, meu anjo, reconheço hoje: a dignidade do lar está justamente nessa calma, nesse profundo conhecimento mútuo, nessa troca de bens e de males, que os gracejos vulgares lhe censuram. Oh! Como é grande aquele dito da duquesa de Sully, a mulher do grande Sully,[1] a quem diziam que o marido, por mais grave que parecesse, não tinha escrúpulos em ter uma amante: “É muito simples”, respondeu ela, “eu sou a honra da casa, e ficaria muito triste de representar nela o papel de uma cortesã”. Mais voluptuosa do que terna, queres ser a esposa e a amante. Com a alma de Heloísa e os sentidos de Santa Teresa,[2] entregas-te a desvios sancionados pelas leis; numa palavra, depravas a instituição do casamento. Sim, tu que me julgavas tão severamente, quando eu parecia imoral aceitando, desde a véspera do meu casamento, os meios da felicidade, dobrando tudo ao teu ponto de vista, hoje mereces as censuras que me dirigias. Como! Queres submeter natureza e sociedade ao teu capricho? Permaneces tu mesma, não te transformas no que uma mulher deve ser; conservas as vontades, as exigências de donzela, e empregas na tua paixão os cálculos mais exatos e mais mercantis! Não estás vendendo por preço exorbitante os teus adornos? Acho-te muito desconfiada, com todas essas precauções. Oh! Querida Luísa, se pudesses conhecer as doçuras do trabalho que as mães têm consigo mesmas, para serem boas e ternas com toda a família! A independência e a altivez de meu caráter fundiram-se numa doce melancolia, que os prazeres maternais dissiparam recompensando-a. Se a manhã foi difícil, a tarde será pura e serena. Tenho receios de que em tua vida se dê exatamente o contrário.
Ao terminar tua carta, supliquei a Deus que te fizesse passar um dia entre nós para te converter à família, a essas alegrias indizíveis, constantes, eternas, porque são verdadeiras, simples e naturais. Mas ai de mim! Que pode a minha razão contra uma falta que te faz feliz? Ao te escrever estas palavras, tenho lágrimas nos olhos. Acreditei francamente que vários meses concedidos a esse amor conjugal te devolveriam à razão pela saciedade; mas vejo-te insaciável e, depois de teres matado um amante, chegarás a matar o amor. Adeus, querida transviada, desespero, porque a carta pela qual eu esperava restituir-te à vida social pela descrição da minha felicidade não serviu senão para a glorificação do teu egoísmo. Sim, só tu existes no teu amor, e amas Gastão muito mais por ti do que por ele mesmo.

continua pág 371...
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[1] O grande Sully: Maximilien de Béthune, duque de Sully, estadista, amigo de Henrique iv; famoso por sua boa atuação nas pastas da Fazenda e da Agricultura.
[2] A alma de Heloísa e os sentidos de Santa Teresa: estes dois nomes são aqui sinônimos, respectivamente, de “uma amante apaixonada” e de “uma mística”.
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Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 de agosto de 1850) foi um produtivo escritor francês, notável por suas agudas observações psicológicas. É considerado o fundador do Realismo na literatura moderna.[1][2] Sua magnum opus, A Comédia Humana, consiste de 95 romances, novelas e contos que procuram retratar todos os níveis da sociedade francesa da época, em particular a florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte em 1815.
Entre seus romances mais famosos destacam-se A Mulher de Trinta Anos (1831-32), Eugènie Grandet (1833), O Pai Goriot (1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans (1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou ou abordou os problemas do dinheiro, da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França liberal burguesa e, ainda que o meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844. Além de romances, escreveu também "estudos filosóficos" (como A Procura do Absoluto, 1834) e estudos analíticos (como a Fisiologia do Casamento, que causou escândalo ao ser publicado em 1829).
Balzac tinha uma enorme capacidade de trabalho, usada sobretudo para cobrir as dívidas que acumulava. De certo modo, suas despesas foram a razão pela qual, desde 1832 até sua morte, se dedicou incansavelmente à literatura. Sua extensa obra influenciou nomes como Proust, Zola, Dickens, Dostoyevsky, Flaubert, Henry James, Machado de Assis, Castelo Branco e Ítalo Calvino, e é constantemente adaptada para o cinema. Participante da vida mundana parisiense, teve vários relacionamentos, entre eles um célebre caso amoroso, desde 1832, com a polonesa Ewelina Hańska, com quem veio a se casar pouco antes de morrer.

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
(Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil)

Balzac, Honoré de, 1799-1850.
A comédia humana: estudos de costumes: cenas da vida privada / Honoré de Balzac; orientação, introduções e notas de Paulo Rónai; tradução de Vidal de Oliveira; 3. ed. – São Paulo: Globo, 2012.

(A comédia humana; v. 1) Título original: La comédie humaine ISBN 978-85-250-5333-1 0.000 kb; ePUB
1. Romance francês i. Rónai, Paulo. ii. Título. iii. Série.
12-13086 cdd-843
Índices para catálogo sistemático:
1. Romances: Literatura francesa 843

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Leia também:

A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada - Ao "Chat-Qui-Pelote" (1)
A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: O Baile de Sceaux (01)
A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: O Baile de Sceaux (07)
Primeira Parte: Memórias de duas jovens esposas...
A Comédia Humana / Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (1)
Segunda Parte: Memórias de duas jovens esposas...
A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (42a)
A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (48)
A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (49)
A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (50)
A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (51)
A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (52)
A Comédia Humana/Cenas da Vida Privada: Memórias de duas jovens esposas (53)

sábado, 21 de outubro de 2023

O xote das meninas

Marisa Monte


"O xote das meninas” é um xote de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, gravado originalmente primeiro em disco RCA Victor, em 5 de fevereiro de 1953.






Mandacaru quando fulora na seca
É o sinal que a chuva chega no sertão
Toda menina que enjoa da boneca
É sinal que o amor já chegou no coração...

Meia comprida não quer mais sapato baixo
Vestido bem cintado não quer mais vestir timão...

Ela só quer
Só pensa em namorar
Ela só quer
Só pensa em namorar...

De manhã cedo já tá pintada
Só vive suspirando sonhando acordada
O pai leva ao dotô a filha adoentada
Não come, nem estuda
Não dorme, e nem quer nada...

Ela só quer
Só pensa em namorar
Ela só quer
Só pensa em namorar...

Mas o doutor nem examina
Chamando o pai de lado lhe diz logo em surdina
Que o mal é da idade e que prá tal menina
Não há um só remédio em toda medicina...

Ela só quer
Só pensa em namorar
Ela só quer
Só pensa em namorar...

Ela só quer
Só pensa em namorar
Ela só quer
Só pensa em namorar...


Luiz Gonzaga e Carmélia Alves




Luiz Gonzaga 
- Asa Branca 
- Clipe Oficial





Luiz Gonzaga 
O xote das meninas
1953