Mostrando postagens com marcador ##. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ##. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de julho de 2020

histórias de avoinha: O gato comeu a língua do Moringue?

mulheres descalças


O gato comeu a língua do Moringue?
Ensaio 128H – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar




as vontade das munta gente certinha qui diz sê dumais bão e méio feitio de gente civilizada da villa rezadêra e caridosa, e tumbém, usqui num se diz nada, gente qui só vive a vida qui foi deixada eles vivê – tem vida quius dono de terra e do céu apenas suporta qui possa vivê – e num qué confusão cusqui manda nas terra nas gente no céu da villa, esses tudo tava naquele alvoroço de caroço e ruindade vestida de magistratura da retidão, malvadeza pra fazê o justiçamento do cuspe e ódio em nome do siô dono de tudo – se engana quem acha qui as lei e uspulícia num tem dono, Êêê lambá querem me acabá no sumidô.

pra essa gente das gritaria odienta, e usqui só oiava das janela aquela decoração da praça dos despejo, o despacho tava feito

era só esperá pra executá

carregá o fujão inté o largo dos enforcado e pendurá, Não é preciso sujar a corda, pendura com a corrente, Cachorro e criolo comedor de ovelha não presta, É isso mesmo! Muito bem lembrado, só matando, E com as argolas da corrente para não deixar dúvidas que sofreu antes do abate, Um bom exemplo é o melhor aviso, Isso mesmo, um bom aviso ensina melhor que muita conversa fiada!

É um absurdo perder mais tempo com o criolo, preciso abrir as portas da botica.

Moringue! Enforca logo o criolo safado! Vamos economizar tempo e moedas.

Acabem logo com isso! E que a vida volte ao normal!

Criolo vagabundo que não quer trabalhar tem que morrer de um jeito ou outro, pode ser na forca. É para isso que temos uma forca, não é?

O trabalho salva!

Vamos logo com isso, precisamos cuidar das nossas vidas, Criolo muda de cor depois de morto?

Acho que fica caramelo e depois vira cinza... Esse não faz mais despacho nas encruzilhadas da Villa, Gente boa, a caçada já terminou. É hora de dar um fim nisso... Isso nunca vai terminar, Termina quando não tivermos na Villa mais nenhum criolo metido à besta!

Criolo bom é criolo morto!

Cuidado com as garras do bicho! Cuidem-se!

Moringue, arranque o mal pela cabeça!

e amanhã, eles jura em nome dusiô dono de tudo, dusiô acima de tudo quié gente, qui nunca foi bem assim iqui num disse uqui disse, Verdade seja dita, não lembro de nada, o dia vai amanhecê e o galo vai cantá junto com a nobre moderação prudência decência e as preocupação dos assunto das taxa, imposto e preço das mercadoria


e tumbém vai tê desassossego mais ameno, eles gosto de discutí tudo inté cumuqui uspretu andava trajado nas rua e nas casa, Não pode ser traje desonesto, aparecendo nú, como seda ou outro tecido fino, E quanto as joias, brocados e adereços, A minha negrada eu gosto bem vestida, faz bem para o dono cuidar da negrada, Pelo bem público, é preciso proibir que as negras cativas e forras, bem como, os negros e mulatos também usarem sedas e outros tecidos finos, Por quê, O excesso e luxo com que os negros e negras se vestem na Villa faz nascerem os roubos e insultos.

Esses negros vêm de tudo que é lugar ruim. Acham que bater no tambor, dançar e tocar viola é trabalho, E juram que têm o corpo fechado, Bruxaria isso sim, e fechado para não terem inteligência e decência, Não vejo a hora do juízo final, só para admirar o lugar mequetrefe deles entre os elementos da arraia miúda.

Acho que na senzala está bem que usem apenas uma camisa longa, calções ou ceroulas para cobrir o corpo. As negras podem usar saias e blusas muito largas, sempre de tecidos rústicos feito com fios crus, Eu discordo. A quem trabalha nas casas e nas ruas da Villa pode ser permitido usar um guarda-roupa um pouco mais completo. Os negros em favor da decência podem vestir calça e camisa de trama grosseira, claro. As mucamas podem usar saias, blusas leves e soltas, panos e xales nas costas, turbantes ou lenços na cabeça.

Os tecidos podem ser coloridos?

Podem, mas não concordo que andem de chinelas, Para mim, o mais importante é que usem os cabelos curtos ou raspados, Gosto das tranças coloridas.

milagres num dizia nada, num tinha uqui dizê, num movia os lábio, Nucuração contra o veneno, a proteção é São Bento Pequeno, o trato é num matá, é só tê proteção da cavalaria, escolta contra o regimento do fardamento brabo e violento, Aonde Milagres vai, Já respondo a purugunta aonde vô, Ayomide. 

deu dois passo pra tráis e jogô usóio pra cima e fungô, moveu a boca e voltô os passô inté ayomide, Iôvô navegá na volta, levo junto o miúdo, iôvô vê o dia fechá usóio, desembaraçando a vida desacostumada de saí livre da noite, solta à deriva na brisa da escuridão, iôvô sorrí na proteção dusespritu mais antigo.

O que acontece agora, baronesa?

Nada, Barão...

usóio do barão num encarava mais o moringue, tava todo na preta ayomide, Que cantoria é essa, baronesa?

Não sei, não estou escutando nada. Devem ser os seus ouvidos muito curiosos, falava a boca e uspé balançava

Yao ê,
Ererê ai ogum bê
Cum licença du Curiandamba
Cum licença du Curiacuca
Cum licença dusiô moço
Cum licença dusdono de terra

usóio do barão qui num tava mais no moringue dujeitu qui já teve procurava aonde qui tava aquela cantoria dusescravo

Muriquinhu piquininu
Parente di quiçamba na cacunda
Purugunta aonde vai
Ô parente, pru quilombo du dumbá

mirava a cambada duspretu em pé dotro lado da praça, uspretu tudo com as lança na mão, tudo pintado, Óia pru céu, muriquinhu, diabu ti enganô muriquinhu.

eles cantava e andava empé

Ê, chora, chora gongo, ê dévera,
chora congo, chora
Ê, chora. chora gongo, ê cambada
chora gongo, chora

milagres balançava o corpo e num dizia nada, num tinha uqui dizê diante daquele abecedário tão lógico do nojo e desprezo qui recusa uspretu pruqui se diz meió e maió qui uspretu, tanto ódio parece qui chegô antes do começo e aparenta qui num termina depois qui acabá, Num é um sonho ruim da cabeça nem invencionice das braba, é verdade, tácontecendo, repetia milagres, é o momento dusvivo e dusespritu falá cum curação, dizê qui num é assim, tá errado, exigí pra tudo sê diferente, lutá, sê forte, logo a escuridão fecha usóio na terra, ubreu da noite num vai meiôrá usóio dudiabu arrepiado, a praça vai tremê se eles qué o miúdo sacrificado.

foi então qui chegô correndo o abicu vento, depois dele veio a tempestade dusventu qui parecia querê arrasá tudo na praça

se fosse o causo de chegá algum estranhado da villa, naquela limpeza da conjura de tanto rancô, num iacreditá qui todaquela gente sendo varrida da praça é um povaréu bão de visitá prum bão e delicioso amargo chimarrão e mais munta prosa jogada fora nas conversa fiada, é tudo bão de rezá e pedí pra sê desobrigado duspecado, um coro arrependido dusacramento nas dominguêra

os camaradinhu dusatabaqui tava adiando o juízo do fim, atiçava uventu sem medo, as injustiça faz isso, junta as força injustiçada pra lutá inté qui aqueles qui sustenta a villa cuseu trabáio num tem mais uqui perdê

bondade e ruindade tá nas gente ditudo qui é lugá, mais é da praça pública qui vem usqui resisti ao povaréu qui afunda e pisa tudo, num ia adiantá enfiá esperança na canga – inté pode, veiz qui otra, andá pra tráis pelo alento egoístico qui tumbém sobe as bota e sapato na praça, num tem vacina pra ignorância e desdém –, usatabaqui das muié preta resistindo vai atiçá a tempestade

no mundo com dono... siocê desobedecê apanha, mais é preciso num tê medo e desobedecê das maldade, num tê medo da luta, quanto mais apanhá mais é preciso desobedecê

a ventania chegô depois qui mandô um ventinho dizê qui vinha, arrancô villêro pru lado, atráis, nas frente e pru cima, pendurado ou espreitando das janela enquanto usatabaqui chamava pra resistí lutando, as gente gritando pra num sê escutada pruqui grito duódio num é dado pra sê escutado, mais precisa sê varrido

os navio negrêro engravidado duspretu nagô angola congo rebolo mina angico benguela aruanda, num queria pará dichegá, inté qui um barûio gigante caiu rodopiando, parecia o fim de tudo na praça, uma ventania mais maió qui tudo já visto, como se tivesse juntado tudo qui era atabaqui e berimbau, vindo ditudo quié canto, os pandêro dus camaradinhu gritava as batida das lufada e sopro dusespritu enquanto paria mais vida africana das madêra-de-lei

os tirano qui atiçava e atacava, agora tomava suadôro dumedo do jogo dusventu, Viva São Bento Grande!

as balança das justiça tava equilibrada, a cavalaria dusventu naquele tempo das memória quase esquecida voltô pra contá as história qui precisa sê contada

usventu gelado e moiado cumseu sopro gigante fez as besta desconjuntá usgritu odientu, elas corria assustada pra longe da praça, moringue caiu rolando nas parede do chão com as pedra solta, a poerama levantada cegava as vista e o nariz, o gosto na boca era o gosto da terra revoltada

nunca mais se viu vestígio da milagres e do miúdo nos quatro canto da villa, uquié dito foi qui a ventania arrancô eles do chão e fez subí inté sumí

a moça ayomide e o siô barão foi visto voltando pra morada do morro enquanto a ventania descontrolada arrastô tudo qui encontrô, a cavalaria de guerra de São Bento Grande retomô a praça

depois de muntus dia a ventania acalmô, as mão qui segurava as corrente ficô vazia, o moringue perdeu o escravizado, num tinha ferido nem morto pra levá pru julgamento da justiça deprimente, quando levantô e ficô levantado era parte duma estranheza de procissão qui choramingava, tremia sem chicote e espingarda, um cavalêro luminoso num belo cavalo prateado se chegô na praça, carregava uma capa rubra nas costa e uma lança na mão, soprando fogo, Uqui ocê tá fazendo aqui?

Esperando um amigo, foi uqui brotô na boca do moringue, E essa corrente nas mão?

Agarrei-me nela para ficar no mesmo lugar, Então, ocê provô das corrente useu gosto mais amargo, trovejô o cavalêro da língua do fogo, e agora qui já provô vai querê qui uspretu continue no mesmo lugá?

o moringue se calô, num sabia uqui dizê, uma troada saiu prucima e baixo, O gato comeu a língua do Moringue?

quanto mais arregalava usóio mais cego ficava, espichô as perna e correu, sujô as calça e as botina tanto qui correu, as pulícia qui é covarde só tráis tragédia pruspretu





____________________

Leia também:


histórias de avoinha: um corpo febrento e para sempre culpada
Ensaio 127Bm – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: a dança dos dedo
Ensaio 127Bn – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: os pé e as bota de garrão 
Ensaio 128A – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: Oh!... prugunta pra todas criança
Ensaio 128B – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: boca fechada não erra
Ensaio 127Bo – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: o medo dos inferno 
Ensaio 128C – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: coisa num se governa, tem dono
Ensaio 128D – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: o merdêro
Ensaio 128E – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: Solta a voz do rapaz!
Ensaio 128F – 2ª edição 1ª reimpressão
Ensaio 128G – 2ª edição 1ª reimpressão



quarta-feira, 18 de março de 2020

histórias de avoinha: Corta a língua!

mulheres descalças


Corta a língua!
Ensaio 128G – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar




Nem pensar, foi a resposta do moringue

a praça tava cada veiz mais piquinina pra tanta gente qui se ajuntava e juntava do chão qui parecia afundá prum abismo dos inferno, nada aliviava o ódio daquela gentarada autoritária – civilizada pelo tronco macho das família – nem a brisa qui chegava das água conseguia aliviá o xexéu de tanta gente sem banho junta, a morrinha parecia fazê aumentá a repulsa com upretu rançoso de sangue, suô e tanto cuspe

Pois eu mesmo solto...

o barão deu dois passo na direção do aprisionado e desatô os nó atráis da cabeça dupretu, as tira do côro apertava com firmeza a mordaça, desagarrô aquela bola feita de pau na boca do rapaz, uma mordaça usada pra impedí upretu de falá, mais tumbém impedia dupretu comê ou bebê, num dava nem pra resmungá e chamá ajuda duspritu da mata, O que aconteceu, negrinho?

a respiração se soltô junto com a babação do sangue qui escorria da boca, um fio da tortura desumana gotejando pra gosto e repulsa da praça, a voz num saia, a garganta tava engasgada e num aparecia, parecia tê medo de se mostrá, Fui no mato...

o capitão-do-mato gritô pra praça toda ouví, sem arredá usóio nem a pressão das corrente agarrada no pescoço e nos punho dupretu, Escutaram? O negro queria fugir!

o barão qui num tinha parado sua atenção naquele pulícia levantô usóio e viu as duas cruiz qui ele carregava, uma toda de prata pendurada no pescoço na corrente grossa tumbém de prata, aquela corrente parecia sê um aviso de importância, a otra cruiz tava queimada no peito ...catá lenha!

É um bicho-do-mato, um grito de maldade chamava otro grito, O criolo vai morrer sabendo que vai morrer, qui animava otro, Antes, ele vai ter que colocar a coleira de ferro, quantas voz é preciso escutá pra sentí vontade de gritá seu ódio, Criolo rebelde precisa castigo exemplar!

o capião-do-mato da milícia do moringue é o capataz na fazenda da pulícia da escravatura; todo erro, piquinino ou crescido, é incumbência do capitão castigá com o devido corretivo e serví como ensinamento

tem pessoa qui nasceu pra ensiná assim, vigiando e punindo

e foi assim qui ele fez, chutô o depoente, Cala a boca, negrinho! A autoridade não perguntou nada pra ocê! Não tem que se atrever abrir o beiço pra dizer o que não foi autorizado!

o escravizado acuado caiu todo enrolado na terra civilizada da villa

a praça soltava os uivo da morte, Uma boa surra antes do castigo! Aqui, a polícia é a gente mesmo, num tinha preço pra gentarada reunida na praça vê um negro espancando upretu, Esse é um negro dos bons! Até pode ser criolo e feder como criolo, mas o coração é branco!

Ei, calma, gritô o barão pra fazê o capitão-do-mato desmontá de cima do aprisionado

o grito do siô barão num evitô otro chute e a gritaria com aprovação do respeitável público villêro, Não adianta prender, a maldade tava solta na cena triste daquela tragédia do castigo de cego, É só perder tempo e recurso com comida e gente para vigiar, Ninguém precisa perguntar nada! É só matar esse criolo fedido, uma enxurrada cheia de amargura, desencanto, ambição, maldade, xingamento, Não, não! Antes de acabar com a raça dele vamos dar uma boa surra! E depois, morte ao inimigo!

o moringue levantô a mão pra tê silêncio, num queria tê qui se alterá, esperô o silêncio, mais num precisô esperá muntu, os villêro é temente à deus e sente munta consideração pelo encarregado da ordem e segurança na villa, é só tá de uniforme pra eles babá na volta das botina

Eu sei, concordo com vosmecês. É só mais um criolo vagabundo se fingindo de coitado. É simples assim, mas a lei precisa ser cumprida. Esse criolo boçal vai ter o seu castigo exemplar e não vai continuar sua sanha de terror e mortes. Eu prometo, será assim, e pronto, tava dito e num ia sê desdito

Mas sinhô Moringue... o rapaz fez o quê?

o cortejo qui ainda tava parado com os grito escutô o eco da purugunta do barão, ele parecia querê demorá no assanhamento de sabê uqui upretu fez e num fez; o moringue, na sua veiz, parecia querê demorá nas resposta pra subí o susto, espaiá o medo com intenção de assombrá, pra depois ensiná os villêro qui a pulícia dele num ia sê dobradiça pra se dobrá pru medo e as lei feita errada, ele é a lei qui protege as pessoa boa duspretu danificado, defeituoso ou estragado

Vou repetir... já que parece ser essa a intenção do sinhô Barão, e fez o seu meió riso fingido, tava adorando aparentá qui tava aborrecido

o barão na sua veiz tava se inventando valentão e atrevido, aparecia como opositô aberto e escancarado pruqui isso precisava sê feito, Eu agradeço a paciência e os esclarecimentos do sinhô Moringue.

o anão fumaça puxô a ponta da casaca do barão inté ele se dobrá, Tenho recado da preta Liberata, Agora, não, respondeu o barão  impaciente, o anão deu otro puxão, A Liberata pediu pra lembrá qui o Moringue é capacho dos dono-de-tudo. E se tem coisa qui eles num gosta é perdê a mercadoria. É pra lembrá o tal Moringue qui upretu é mercadoria qui passô valê tanto quanto a prata e o ouro das mina. Então, é bão o siô usá essa porta de entrá e saí trancada com o cadeado da imbecilidade e da ganância estúpida, Está bem, está bem, entendi.

Vejo que o sinhô Barão também tem um bichinho de estimação.

O quê, pruguntô o barão pra maldade dita sobre o anão, tem veiz qui o meió jeito é se fazê de tonto

Nada, Barão. Esqueça...

a praça continuava com aquele silêncio qui num leva pra paz, carregada com o nervosismo das mão qui acusa e das voz arrogante com a língua mentirosa e caluniadora, no lugá do curação só o rancô, tudo isso encorajado pela fidalguia ignorante, egoísta, devassa, preguiçosa e beata, gente do deus branco inventando e reinventado as escravidão pra modo de tê uma vida mais fácil, meió e confortável com as meió vestimenta, os meió alimento, as meió moradia, as escola prus fiu e o mais meió de tudo: tê tempo pra tempo

... o criolo é acusado de ter culpa por má vontade e sabotagem ao trabalho, tentativa de fuga para algum esconderijo com a intenção de atacar, matar e fugir de novo.

otro puxão na ponta da casaca qui ele num atendeu, num quis perdê as palavra qui já tinha preparada, tem distração na hora da discussão qui num ajuda e só atrapáia, mesmo querendo ajudá

O sinhô Moringue não acha que é muita intenção e confusão para se perder os dois braços fortes desse negrinho tão moço? Esse negrinho vale tanto quanto a prata ou o ouro das minas. Acho muito desperdício para quase nada que o moleque fez e é acusado.

a queda de braço parecia uma disputa de comando sobre o destino do escravizado, mais só aparentava qui o barão tinha obrigado seu oponente reconhecê qui mudá de opinião num é sê vencido, num é bão tê a cabeça de porongo

mais o problema ali ia ficá mais complicado, o moringue parecia tê uma cartada escondida, Qualquer uma das acusações já ia lhe dar um castigo bem dado, mas não foi só isso, tem mais...

o barão num fez otra prugunta, sabia qui o moringue ia terminá de anunciá as acusação, ele pruguntando ou num pruguntando

... esse criolo safado afogou o coitado do seu dono na bacia da merda! Não bastava ter afogado o pobre homem, foi preciso afogar na merda!

o cortejo voltô gritá e pulá no mesmo lugá, ninguém queria saí donde já tava prum lugá pió, aquilo tudo tava longe de acabá

A bacia estava cheia até a borda! Isso, por certo, vai lhe dar muitos castigos de ódio e uma corda bem apertada no pescoço! Até ficar bem esticadinho!

O patrão gritô pra despejá a bacia, desta veiz num ganhô nenhum chute, mais teve qui escutá calado os grito do moringue

Cala a boca, criolo safado! Poupe-nos de tanta boçalidade!

Calma, sinhô Moringue. O rapaz não é um negro boçal que só fala sua língua natal. Ele pode nos dar as respostas que estamos buscando. Estamos buscando, não é? Vosmecê já interrogou o rapaz?

junto com os grito de cala-boca pru escravizado, a praça tumbém calô, tem veiz qui na dúvida é meió bedecê e se fingí de morto ou enfrentá a colheita dos desaforo, no caso, foi só a praça qui acatô o freio – acho qui mais curiosidade qui susto ou inquietação –, o aprisionado depois do espanto continuô as palavra qui precisava soltá da cabeça, jogava elas pru barão, o único branco, ali na praça, querendo escutá ele, Mais num era essa a intenção d'eu... a bacia tava cheia inté quase derramá e precisava esvaziá.. sai debaixo da cama e dei a notícia qui ia esvaziá a bacia... ele falô qui isso podia esperá e qui era praeu chegá mais perto...

Por que estava dormindo embaixo da cama?

o muriquinhu tava espantado qui aquele branco tava querendo escutá em veiz de gritá, em meio da gritaria da praça, Eu sou o merdêro do siozinho, quando a claridade do dia aparece eu saio debaixo da cama pra despejá a bacia da noite...

Espera... espera... você dorme com essa bacia embaixo da cama?

Sim, siô. Eu durmo embaixo da cama junto com a bacia da soltura dos intestino do siozinho – tem andado com os intestino mais solto – e uma pedra polida pra limpeza, quando tem precisão de uso da bacia eu ajudo no uso, às veiz, é só baruio qui sai, mais tem saido munta merda.

Não acredito.

Pois acredite, siôzinho. Sou o merdêro do finado siô Abílio.

Chega dessa conversa fiada!

os grito voltô, uma gritaria qui rodava e agitava a praça pública, as pessoa queria matá e num tinha embaraço de tanta felicidade pelo sangue quia sê derramado

E o que o seu sinhô queria quando lhe chamou, pruguntô o barão oiando direto nas vista dupretu

Chega dessa conversa inútil, a força do divertimento com a atração pelo sofrimento duspretu é costume da villa qui vai durá muntu mais tempo, a disciplina e a vigilância pelos bão costume – assim como o uso das bombacha e do chimarrão – aceita o ódio qui lhe convém e zanga se algum desavisado anuncia essa repulsa com uspretu, Nunca teve um criolo que foi para o tronco sem ter merecido!

É a lei do merecimento!

em pouco lugá no mundo há tanta acusação sem prova como numa praça da villa querendo fazê linchamento dupretu, inté ninguém mais sabê duqui tá dizendo de ouví sê dito, mais o moringue sabe muntu bem uqui precisa sê dito

O criolo merece o castigo! Se não fez agora já fez antes, se não fez antes vai fazer depois! Se não cagou na entrada vai cagar na saída! É tão certo quanto existe o céu e o inferno!

a voz do moringue continua mostrando lealdade com a villa, o próprio espiritu da villa

O sinhô Moringue é a polícia, o juiz e a corda?

o barão sabia qui precisava segurá algumas palavra na boca – não todas, apenas as mais afiadas –, mas aquela queda de braço tava longe do fim, ele sabia qui devia deixá as barba de môio, as suas palavra tava num risco muntu perto

O Barão sabe, tanto ou mais, que não é possível deixar sem um castigo exemplar qualquer má conduta da criolada. As leis foram feitas para serem respeitadas.

a praça virô cama de gato e a gentarada virô uma só cabeça – sem calma e desgovergando –, virô o lugá qui as pessoa acusa pruqui ouviu dizê qui caso num julgá e executá a sentença agora, na praça, o pretu vai se safá e continuá vivendo pra amedrontá as pessoa de bem, as boa manêra das coisa da villa – qui sempre foi assim e precisa continuá – ouvia dizê sem embaraço ou vergonha, Ainda não é para acabar com o criolo! Primeiro, ele precisa sentir a dor do arrependimento!

Concordo, sinhô Moringue... mas as leis exigem que o acusado seja ouvido!

Isso é verdade, mas só no caso do réu ser uma pessoa de bem da Villa...

Desculpe, sinhô Moringue... mas na lei não está escrito nada sobre a cor do réu e os privilégios de um ou de outro.

o barão aproveitô a indecisão no linchamento pra subí mais a voz e pruguntá, Então, rapaz... o que aconteceu?

Cansei do siôzinho Abílio fazê uso do meu vaso trasêro...

o taludo capitão-do-mato chutô otras duas veiz upretu acorrentado e ajoêiado, as duas cruiz no peito pulava dum lado e otro, ele tava ali pra dá garantia do jeito branco dono-de-tudo fazê e usá as lei, e pronto, num ia tê discussão, tava fazendo a sua obrigação de defendê os dono-de-tudo

ele sabe bem uqui representa, O negro só fala se tem permissão da autoridade pra falar! Entendeu?

upretu e o negro se oiava, cadum procurava o seu jeito pra escapá da escravatura

Eu perguntei, gritô o barão, eu quero escutar dele, e apontô pru pretu caído no chão, entendeu?

o barão num oiava pru capataiz da pulícia, encarava usóio do moringue enquanto o escravizado caído com as costa no chão encarava o oiá de traimento do chefete menó daquele troço descarnado, ignorante e louco de escravizá hôme, muié e muquinhu, um brejo cruel com o gado estúpido fardado no meio do pasto debochando e maltratando

Capitão... calma...

Sim, sinhô!

O que foi isso?

Sinhô, esse negro continua se fazendo de coitado e falando quando bem quer...

O quê o capitão sugere?

a praça explodiu aos grito, Corta a língua do criolo!

o enxame do ódio desenfreado, cisma, desconfiança, intolerância, toda tristeza secreta do desprezo e da repulsa juntada dia-a-dia, tava solto

Calma, gente! Precisamos ser caridosos, somos uma Villa civilizada, as palavra do moringue num foi pra acalmá a praça, caridade é consciência culpada, num queria sê acusado ditê perdido a mercadoria, Que pena, ele pensava, não poder colocar um fim nisso tudo, torceu o nariz como se estivesse incomodado com os som de porco se agitando na praça

Moringue! Cala a boca suja do criolo!

Corta a língua!




____________________

Leia também:


histórias de avoinha: um corpo febrento e para sempre culpada
Ensaio 127Bm – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: a dança dos dedo
Ensaio 127Bn – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: os pé e as bota de garrão 
Ensaio 128A – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: Oh!... prugunta pra todas criança
Ensaio 128B – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: boca fechada não erra
Ensaio 127Bo – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: o medo dos inferno 
Ensaio 128C – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: coisa num se governa, tem dono
Ensaio 128D – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: o merdêro
Ensaio 128E – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: Solta a voz do rapaz!
Ensaio 128F – 2ª edição 1ª reimpressão
Ensaio 128H – 2ª edição 1ª reimpressão


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

histórias de avoinha: Solta a voz do rapaz!

mulheres descalças


Solta a voz do rapaz! 
Ensaio 128F – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar




quando um fanático – ou cínico-patife – sequestra os pensamento das pessoa na villa prometendo o céu na terra e o inferno no céu, ninguém mais se importa com a verdade, é quando a verdade passa a sê só a verdade do fanático e do cínico-patife – a gentarada da villa passa num tê mais curiosidade, afeição ou compaixão pela vida qui num seja a sua própria vida –, e a morte dum otro qualqué é o benefício qui num alivia o medo do desamô prudentru de si mesma

e assim, pru medo de perdê a vida qui tem os civilizado trata de cuidá duseu negócio qui mata, despreza e ignora, mais num esquece da caridade qui eles jura qui salva o desamô pudrento de si mesmo

um desses negócio é podê dá início ao fim planejado de acabá com os indígena e a vida da natureza qui eles tem – lógica, regulá, espontânea qui eles vive desde o nascimento – e qui se nega tê uma vida postiça, lisa e sem distinção como a vida dos villêro aplainado, igrejêro, xucro e estúpido 
  
villêro qui jura inocência, mais é bem capaz de matá em nome do seu modo de vivê escravizando, Esses índios vagabundos e indolentes – na sua maioria sem uso para as comodidades da Villa – não se sujeitam ao trabalho. É tudo bicho sem serventia, degolando ou queimando um, dois, ou muitos, não vai ter diferença!

otro desses negócio é corrigí o desacerto qui foi trazê os pretu sem serenidade nas escôia pra sê escravizado, Esses criolos que estão sempre fugindo não têm nobreza nem gratidão. São almas pequenas – se é que existe alma em algum deles – ávidas para mostrarem toda sua ingratidão com bruxarias na mata. Esses é preciso dobrar para não se perder o investimento ou acabar com o problema para não infectarem o restante da tropa de criolos. É calcular o custo e o benefício e não ter medo de agir. Comigo não tem conversa, criolo teimoso eu faço comer merda na frente dos outros. Assim, eles aprendem pelo exemplo que o melhor a fazer é obedecerem.
a praça tava em grito pra impô a própria vontade, a própria justiça diante duqui o pretu fez e ela imagina qui ele fez

Sinhô Moringue, o que há por trás do império do chimarrão e da bombacha? Por que tanto medo?

o barão num parecia desistí daquele duelo nem deixá as coisa sê resolvida pela morte do pretu pendurado na praça sem tê a voz escutada

E eu lá sou homem de ter medo? A qual medo o Barão se refere?

parecia num adiantá todo esforço do barão, as pessoa na praça acuava o pretu por hábito, burrice, maldade e ignorância, gente mergulhada na rotina do tédio, hipnotizadas pela hipocrisia e sonâmbulos da certeza qui a caridade salva

Eu apenas perguntei... por que o rapaz está sendo caçado? E o sinhô Moringue respondeu que o acusado está sendo preso porque é merdeiro e parece ser um negro perigoso...

o moringue ergueu levemente a mão dos anel, inté o tamanho dos ombro do barão, pedia um breve aparte nas palavra dotro, É mais grave que isso, sinhô Barão.

o barão num parô nem pareceu dá importância pra precipitação inventada do moringue

... E depois emendou que se os nativos não se sujeitam ao trabalho, muito menos, ao trabalho voluntário, não farão falta se o fio da navalha rasgar o pescoço dos indolentes.

agora, é as duas mão do moringue erguida

Barão, não foi nada tão dramático, eis o talento do moringue pra conversá e desconversá, dispondo o otro pra lá e cá, é só o sinhô fazer um levantamento da opinião dos villêros. O Barão vai perceber que ninguém – ou quase ninguém – liga se esses vagabundos são eliminados.

Na verdade, sinhô Moringue muitos sabem e se alegram, outros enxergam e fingem ignorar, e muitos outros reparam, mas sem compreender o que acontece.

o moringue desceu as mão e subiu o barulho das palavra

Chega de criolos e selvagens com casco de cuia se matando ou bebendo até a inconsciência! O fedor na senzala é muito desagradável.

os corpo faminto segue existindo e fedendo nas imundície da escravidão

Isso parece uma tocaia de extermínio, o barão denunciô a intenção e o desdém pras palavra do barão

O criolo não é prisioneiro de guerra porque não estamos em guerra, sinhô Barão. Os criolos estão bem alimentados, chegam a ter duas rações diárias, mas se cansam de repetir que a Villa é um lugar horrível para eles e que precisam fugir. A Villa não é um lugar de atrocidades. É? Mas quais atrocidades? É muito nhenehnehe...

é espantoso, mais a gentarada boa da villa se anuncia civilizada e culta, mesmo infligindo essas maldade toda nos pretu e nos nativo de antes da villa existí, usqui sempre foi daqui

tudo gente bem-intencionada  

as boa intenção sempre foi clara: caridade, mais pra quem num merece recebê caridade: solidão prus nativo vagabundo e aniquilação prus pretu rebelde qui sabe o seu lugá de serví o serviço, mais num qué serví e tem o defeito da balda

intenção infame

pra muntu dos pretu a liberdade vai chegá tarde demais, e prus nativo nem esse tempo vai chegá

nada disso choca o mundo da villa, o mundo dos civilizado só qué sabê do proveito e da economia qui pode tê no uso da carne humana preta, ninguém além dos pretu e dos nativo rejeita essas boa intenção pruqui sabe qui num existi boa intenção, é o faz de conta da usura

enquanto tem bão uso tem utilidade, mais precisa mostrá amabilidade, servidão e sê um bão bajuladô; pretu birrento, malmandado e turrão é ensinado no tronco qui o alívio chega com a obediência

Então, o sinhô Moringue está dizendo que esse espetáculo na praça é para servir de exemplo?

Dizendo assim, o sinhô Barão faz parecer que as correntes são indevidas e que esse criolo merece sentar à mesa com qualquer um aqui da praça.

os grito indignado na praça subiu inté abafá as palavra dos dois, Criolo não senta, come em pé, Falando assim, até parece que negro é gente, Tem é que comer merda na frente dos outros criolos, Mercadoria estragada não tem mais jeito, só com chicotada, chute e paulada, Chamem o sinhô Padre, Bobagem! Não chamem nada, nem convertendo pra Deus consegue se salvar, Mas é bom marcar com a marca da cruz do ferro em brasa, a praça tava piquinina pra tanto ódio, dava pra sentí qui nem o deus dos branco passava ali perto, a cruz em brasa reluzia e encantava com o aborrecimento, a repugnância, a antipatia, a raiva e o ódio secreto qui se afogava no silêncio comedido e ensinado ficá escondido

quando as violência e as maldade se mistura com a ironia tudo se torna ferramenta qui desperta os mau intento qui tudo qui é gente tem guardado, mais precisa querê se fazê ignorante pra se soltá das boa manêra de vivê, e quanto mais ignorante se faz mais admiradô e devoto-cego fica do chefe capitão-do-mato

Mas se é só isso que vosmecê tem para acusar o rapaz... é uma acusação fraca, quase arranjada, cheia de idas e vindas, e sem testemunhas. É uma acusação simbólica!

a praça parô os grito das palavra do ódio mau humorado, sem gracejo, num queria se aliviá da vontade de pensá no pretu como uma coisa e num como gente quié, então, soltô os grito sem palavra, apupô as palavra do barão

o moringue se aproveitô dos grito pra se mostrá inda mais pru barão

subiu a mão dos anel e sem um suspiro de palavra a praça bedeceu e se calô

Simbólico? Ouça, Barão... ninguém é preso sem ter culpa. E o criolo correndo é um prato cheio de culpa!

Culpado! O criolo é culpado, Criolo correndo tá fugindo, e assim a praça ia morrendo de ódio

Então, leve o rapaz para o juiz e que lá se faça o julgamento. Aqui na praça é só linchamento!
dava pra sentí a vontade do moringue oiá em volta, só pra confirmá qui tudo na praça tava oiando pra ele – e a gentarada oiava atentamente pra ele – confiante, zangado, mau humorado, pronto pra falá sem se apoiá apenas nas palavra, mais colocando nas palavra uqui tava vendo nas cara, nos jeito e nos grito da praça

Estava guardando a cereja do bolo para o ajuizamento, mas se o sinhô Barão pede... o criolinho é acusado de tentativa de fuga e afogar o dono dele num penico cheio de merda!

os murmúrio de nojo e medo na praça subiu aos céus, foi quando a religiosidade se mudô do céu pra terra, e a praça se adonô das vontade do deus, Meu Deus! Não pode escapar do castigo, Um castigo exemplar, Criolo do demônio, Tem que pendurar e arrancar o couro, A forca é pouco sofrimento!

a praça virô o centro da ceguêra na villa, um lugá de perigo pra quem se atrevê discordá, mais o barão num podia mais recuá – ele inté qui podia, mais num queria, escôieu o lado qui queria ficá –, ele subiu a voz pra cima da gritaria

Então, que o sinhô Moringue solte a voz do rapaz!





____________________

Leia também:


histórias de avoinha: um corpo febrento e para sempre culpada
Ensaio 127Bm – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: a dança dos dedo
Ensaio 127Bn – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: os pé e as bota de garrão 
Ensaio 128A – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: Oh!... prugunta pra todas criança
Ensaio 128B – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: boca fechada não erra
Ensaio 127Bo – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: o medo dos inferno 
Ensaio 128C – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: coisa num se governa, tem dono
Ensaio 128D – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: o merdêro
Ensaio 128E – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: Corta a língua!
Ensaio 128G – 2ª edição 1ª reimpressão



quarta-feira, 28 de agosto de 2019

histórias de avoinha: o merdêro

mulheres descalças


o merdêro 
Ensaio 128E – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar




os grito na praça subiu o ódio, junto tumbém subia os assubiu da encantação com o sofrimento do pretu – num ia tê tanto grito, tanta provocação se o acorrentado fosse branco, num é? – na calunga pública dos enforcado, o anoitecê da escuridão tráis junto o perigo do linchamento e morte com munta dô e sofrimento pru acorrentado

ali, tava eles tudo na encruzilhada da praça, os abicu tumbém tava ali, eles sempre tá, é bão tá se acostumando com eles nas fresta, agarrado nas mandinga daquele tempo desencarnado da vida com poesia pra todas vida

enquanto isso o barão esperava os grito se acalmá, num aceitô as provocação do moringue, sentia usóio da preta ayomide nas suas costa qui lhe empurrava, Ah, baronesa Maria Clara, vosmecê me coloca numa esquina perigosa. Faço tudo para não perder vossos encantos do amor, dormir no seu colo, gostoso demais ser o seu brinquedo. A baronesa não me deixa curvar, inté qui respirô fundo e continuô a mesma toada

Mas afinal, Moringue... qual é a acusação?

o julgamento público quias gente tanto queria tava começado, bem ali, na encruzilhada da calunga pública, e pelo qui podia parecê, só tinha juiz acusadô medíocre e repugnante, tudo com opinião, juízo e sentença pronta – o ódio vadiando e esculhambando a justiça –, eles nem se incomodava de cuidá das aparência daquela violência qui faz tê mais injustiça e desarmonia

as gente de bem, demente à deus, num queria qui aquele linchamento fosse chamado linchamento, mais linchamento é uqui era, tudo ali, na praça pública, tava feito pra destroçá qualqué encantamento com as justiça igual pra tudo, um ajuntamento pra destruí a vida

e num é cisma, é só querê vê

o pretu acuado, sem podê dizê ou gritá da confusão toda – a bola de pau enfiada na boca tapava inté a vontade de respirá, uma máscara mordaça qui foi atada atráis do pescoço –, sem podê esquivá ou corrê ou mesmo se frouxá nas perna sem caí na terra, tava com todo fardo da canga apoiado nos dois pé descalço

os pé fincava as perna do corpo pretu no chão adentro, o curação apavorado com o pavô daquele emaranhado de gente gritando com as mão carregada das pedra pra sê atirada

ele sabe qui no fim do caminho vaisê amarrado no tronco, marcado com as pedra, pau, as tira do açoite, depois vai ficá esticado na árvore dos enforcado inté secá e sê esquecido – ah, o esquecimento é o tarado da maldade e da mentira, o desvio da vida, o abismo entre a verdade e a justiça dos branco qui qué dobrá a morte como uma dô qui se cura no esquecimento e jura qui num aconteceu nada demais; assim, eles aperta o gargalo da boca, num tolera as palavra encantada qui inventa otro mundo –, sabe qui no fim do caminho vai sê amarrado no tronco inté sê esquecido no pó do tempo

uns fica nervoso pruqui num tem uqui comê e cospe nele, otros fica impaciente de tanto querê matá e grita nele, mais só ele num dorme e num esquece

a praça perdeu o sabô do lugá das provocação, virô calunga, o cemitério dos morto, onde os costume da tradição grita com toda força, Enforca! Enforca!

o moringue apreciava tudo aquilo

É tanta acusação, sinhô Barão, o barão firmô bem as vista no moringue, antes de provocá as palavra da mentira

nas fresta da praça, os caramadinhu adiava o juízo do fim com seu riso e as batida das palavra no vento


tutu tutu tu tutu tutu tu
ê ei ei ê ê ei ei ê
lê lele lê lele
mara mara maracatu
eu vô dizê pra teresa
eu vô dizê pra teresa
qui eu quero vê
a vida vivê

caxixi baião alfaia panderão xequerê maringá reco-reco ganza atabaqui berimbau surdo marimba

o moringue num deu suspiro, só colocô as vista fincada no barão, tava deliciado de sê o meio de tudo na praça

Pois comece por alguma acusação..., atiçô o barão

os dois ficô tão perto qui a sombra dum virô a sombra dotro

Injúria, má vontade, sabotagem ao trabalho, parô as palavra própria pra escutá a influência no ânimo e desassossego da gentarada na praça, ficô satisfeito com a agitação, os grito e os assubiu, sabia uqui aquelas arraia-miúda quiria escutá, o sorriso maldoso mostrava uqui ele pensava, num precisava nem dizê, era só pensá, Cuidado, Barão... esse é o meu chão do conhecimento, aqui não conta a verdade; muito menos, a justiça. Eu sou a verdade e a justiça. Esse ódio todo em estado puro só diminui com sangue derramado, a lógica é essa mesma. E eu sou quem vai lhes oferecer a carne preta em ofertório. Não acho conveniente vosmecê virar valente. Ainda mais, que a sua companhia na cama é essa negrinha. Vosmecê corre muito risco. Usar e abusar das negrinhas é uma coisa, mas fazer da negrinha sua baronesa é pura ilusão que as vibrações na Villa serão boas, e não para por aí...

E qual seria o trabalho do negrinho, tornô prugunta o barão

o moringue ergueu os ombro e a torcida parô a respiração

Pode ter certeza que coisa pouca não é...

Então, continue...

Esse negrinho criminoso, parô as palavra pra dá cisma de curiosidade e deu dois passo pra tráis, subiu as palavra pra anunciá em todo estádio, vestido de trapos, pode não parecer, mas é o pior de todos, se vosmecê ou qualquer um aqui, na Villa, não tomar as precauções necessárias, ele corta a garganta de um lado ao outro!

Então ele cortou a garganta de alguém?

Não...

Não entendi...

Não cortou, mas pode cortar!

E está acorrentado porque poderia ter feito, mas não fez? Entendo... e ele não sabe falar?

Para quê? Desde quando é preciso ouvir um negro para aplicar um corretivo?

Mas...

Não sei se sabe falar! E se sabe, o que adianta? Não se diferencia do bugre mais selvagem. Não são gente, barão! Não têm alma, os murmúrio na alcateia fechava mais o cerco

os caramadinhu com seu riso e as batida das palavra no vento abria o cerco

na praça do pelôrinho o bão convivi com o mau, mais num deve dá medo de entrá no lugá ah bati marimba camará

Sim... mas o que seria o uso do negrinho?

essa prugunta provocô tanto riso qui chacoaiô a encruzilhada da calunga

Era o merdeiro...




____________________

Leia também:

histórias de avoinha: dono de gente
Ensaio 127Be – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: ele abre as portas do céu
Ensaio 127Bf – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: rainha silenciosa do lar
Ensaio 127Bg – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: um novo refúgio
Ensaio 127Bh – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: a dô dotro pode sê esquecida?
Ensaio 127Bi – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: Toque, minha filha.
Ensaio 127Bj – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: Onde está a gaiola do Venuto?
Ensaio 127Bk – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: Deus te abençoe, minha filha
Ensaio 127Bl – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: um corpo febrento e para sempre culpada
Ensaio 127Bm – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: a dança dos dedo
Ensaio 127Bn – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: os pé e as bota de garrão 
Ensaio 128A – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: Oh!... prugunta pra todas criança
Ensaio 128B – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: boca fechada não erra
Ensaio 127Bo – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: o medo dos inferno 
Ensaio 128C – 2ª edição 1ª reimpressão
histórias de avoinha: coisa num se governa, tem dono
Ensaio 128D – 2ª edição 1ª reimpressão
Ensaio 128F – 2ª edição 1ª reimpressão

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

histórias de avoinha: coisa num se governa, tem dono

mulheres descalças


coisa não se governa, tem dono 
Ensaio 128D – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar




as palavra pode trazê mais confusão qui aclaração das informação?

é verdade verdadêra, mais é meió quitê a boca com as mordaça do amendrontamento, a focinhêra dos pensamento quitem medo das palavra qui pensa, as palavra e a boca é coisa diferente - a boca num pensa -, as palavra é feita na cabeça inté qui nasce quando sai da boca, elas fica viva, num adianta escondê as palavra pruqui elas num acaba

Mais, Avoinha... as palavra da ruindade num devia tá solta, fazendo ruindade, grosseria e maldade.

E lá vem ôceis de novo, a tentação de proibí as coisa boa em nome de controlá as coisa ruim. É bão elas se mostrá, uqui num é bão é ôceis deixá elas mandá, tem muntu santo e muié santinha qui morre com as vontade mais secreta escondida. E adianta tê elas escondida prudentu? Num é meió fazê o maldoso se mostrá fingido de bondade quié?

os abicu oiava um protro sem respondê pra autoridade da avoinha, pensá ou dizê qui pensô as maldade num é bão, mais num é o mesmo qui fazê as maldade nem é bão tê a boca com as mordaça do medo pra num soltá as palavra  

Num é bão vivê angustiado pruqui osotro vigia e persegue as palavra entrevada nos pensamento qui num nasce?

Uqui ôceis acha?

Os muriquinhu num sabe, Avoinha...

penso dizê qui as palavra da confusão pode sê tão malvada e estragada como as palavra da ruindade – elas existe, num dá pra negá –, a garganta só pode soltá as palavra depois de feita na cabeça, elas vai escorrendo pelos vazinho inté desembocá no gargalo, é bão podê dizê as palavra bombeada pelas vontade, num é bão deixá elas guardada pruqui pode acumulá na cabeça inté sê chupada pelo corpo todo e provocá marca com cicatriz, já vi muntu amordaçado doecê

o silenciado precisa sê tratado, mais uqui fazê com as palavra ruim

o ajuntamento descabido das palavra guardada faz crescê a gordura nos pensamento, O gargalo da garganta pode soltá as palavra quiqué, anunciá qui o desamô tumbém pode sê amô, pode querê explicá a buniteza, mais a buniteza num é a mesma pru jeito de vê de cadum, a buniteza num precisa explicação; elas pode negá as vontade repetindo qui num é isso ou aquilo. Os muriquinhu entendeu?

os muriquinhu da roda se oiô e respondeu qui num tinha entendido muntu bem das palavra dessa avoinha

sorri sem mostrá as gengiva vermêia

Muntu bão, é isso mesmo, as palavra da confusão parece dizê uqui sabe e fazê ôceis achá qui entendeu, qui ôceis tumbém sabe, mais é só mais confusão.

escondê ou escoiê as palavra ajuda num se mostrá nesse tempo de escravidão insana e desmedida, é fácil sê julgado e amaldiçoado pelas palavra qui foi solta a deus dará, é preciso mais qui dizê, é preciso sê as palavra qui foi dita, é bão quando é assim; mais tem veiz, quase sempre, qui caluniá e desanimá osotro é a intenção, e isso num é bão, retirá as esperança da vida é como despintá o azul ducéu

E tem como sabê, Avoinha?

gosto das prugunta dos muriquinhu, eles reaviva os pensamento dessa avoinha, num tem coisa mais dura qui pensamento qui num muda, o abicu tinha acabado de subí da villa e havia de pruguntá muntu

Uqui ôce qué sabê?

o abicu recém-chegado continuô com a mão alevantada pra se explicá meió

E dá pra sabê das intenção das palavra dita?

levei o dedo esticado inté a boca e pedi prus muriquinhu guardá as palavra, Psiu, apontei as vista pra villa, os muriquinhu tudo merguiô os óio na praça e viu quando o barão deu os passo qui era preciso pra se mostrá, Sinhô Moringue, já vi que vosmecê fez uma boa caçada.

os dois tava sitiado pelo cortejo, eles reluzia brancura no centro da praça, os punho sem os babado e os rococó qui eles usava pra enfeitá os aviso qui anunciava: os dois era da nobreza qui fala bunito, e na villa, pra num perdê as regalia prus óio do imperadô, era bão ficá esperto com o feitio de aparentá as riqueza da boa linhagem e passá prus fiu as posição da sua classe de gente: dona de tudo da justiça, dos imposto, das arma e do sangue derramado

os dono de tudo manda em quem usa as arma

o barão com sangue nobre tinha desobrigação com as lei qui mandava nas gente da villa sem a boa linhagem, ele tumbém tinha dispensa dos imposto, mais num mandava no moringue qui obedecia o dono das arma

é preciso aprendê escutá, Os muriquinhu tá escutando e aprendendo...

A negrada não aprende, Barão, o moringue respondeu o cumprimento do siô barão com zombaria, ele é o pulícia da villa e a pulícia da villa só responde assim quando é os pretu, os mestiço e os branco minguado sem linhagem alguma qui eles agarra, as justiça só se mexe pra valê quando sai pra caçá os pretu, num gosta de sê metê com os branco acumulado das regalia da fortuna, faz vista grossa inté mesmo prus branco sem linhagem

mais gente branca com regalia é diferente do povo da villa

as palavra sozinha num ensina ninguém vivê com bondade, educação e hospitalidade se o costume e a prática é sê grossêro em nome da valentia, estúpido em nome das façanha, num existi valentia nem façanha quando a bondade, educação e hospitalidade vira a cara pru lado, faz qui num vê o sofrimento desafortunado dos pretu escravizado

Mas então, Moringue, o que fez o negrinho?

o moringue deu o seu sorriso tolerante mais maldoso antes de respondê, sabia uqui o cortejo queria vê, ele sabia uqui dizê pru rebanho qui babava ódio, O sinhô Barão está cansado de saber: negro e índio não é gente... é mercadoria. E coisa não se governa, tem dono!



____________________

Leia também:

histórias de avoinha: dono de gente
Ensaio 127Be – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: ele abre as portas do céu
Ensaio 127Bf – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: rainha silenciosa do lar
Ensaio 127Bg – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: um novo refúgio
Ensaio 127Bh – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: a dô dotro pode sê esquecida?
Ensaio 127Bi – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: Toque, minha filha.
Ensaio 127Bj – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: Onde está a gaiola do Venuto?
Ensaio 127Bk – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: Deus te abençoe, minha filha
Ensaio 127Bl – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: um corpo febrento e para sempre culpada
Ensaio 127Bm – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: a dança dos dedo
Ensaio 127Bn – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: os pé e as bota de garrão 
Ensaio 128A – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: Oh!... prugunta pra todas criança
Ensaio 128B – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: boca fechada não erra
Ensaio 127Bo – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: o medo dos inferno 
Ensaio 128C – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: o merdêro
Ensaio 128E – 2ª edição 1ª reimpressão


domingo, 4 de agosto de 2019

histórias de avoinha: o medo dos inferno

mulheres descalças


o medo dos inferno  
Ensaio 128C – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar




oiava prus muriquinhu sentado em roda na volta da villa, um qui otro vagando, correndo pra lá e cá, jeito de sê dos muriquinhu: descalço e sem cuidado com a vida, destemido, sem medo de sê arrancado de lá pra cá, sem medo de sê acorrentado

num pode morrê quem nunca nasceu

mudei minhas atenção pra praça, cada veiz qui oiava tava mais e mais recheada dos villêro curioso, derramava eles pelas bêrada daquele prato frio de maldade e ignorância, ia demorá pra consertá tanta injustiça e ruindade, parecia tudo feito urubu espreitando o gosto da carne preta nos dente

Muriquinhus...

num foi intenção dessa avoinha fazê um chamado solene, mais é certo qui foi um apelo amargo e áspero, era preciso escorrê a dureza da voz em silêncio pra continuá

... ainda bem...

parei de novo as palavra, a voz num tava no feitio qui precisava tá pra conversá com os muriquinhu, num queria derramá nas vista deles a dô qui tava

... qui essa caçada triste e maldita num é com dia de muntu calô...

a roda dos muriquinhu se desajeitô e oiô abismada pra essa avoinha, sorrí sem mostrá a gengiva do sangue, foi só um piquinino tremô carnudo, se a tristeza pode tê sorriso foi assim qui se inventô

eles vê uqui qué vê na avoinha: a esperança do aconchego, a ilusão da proteção e a confiança no carinho

pensei em anunciá prus muriquinhu, Lá embaixo, na Villa, a realidade é muntu amarga prus pretu e vai sê desse jeito muntu e muntu tempo, mais num disse assim, eles já sabe, num precisa escutá de novo, na verdade verdadêra, avoinha tava cansando de parecê essa estrela tranquila qui tá sempre brilhando, eita tristeza da escravidão qui parece num tê fim feito as história da avoinha, os pretu trabáia todo dia do ano pra se acabá no fim acorrentado na senzala, eita tristeza da escravidão qui num tem fim

acomodei os lamento pudrento da avoinha antes de soltá de novo as palavra

Vô explicá meió, e ôceis trata de prestá bem atenção pruqui pra aprendê ou contá algum ensinamento tem qui fazê silêncio com carinho, é preciso acomodá com aconchego as palavra e os pensamento.

só as palavra dessa avoinha tava se mexendo na roda... os muriquinhu tava em silêncio

Acontece qui as pessoa, lá embaixo, na Villa, parece qui fica entendiada e enfezada com as quentura do tempo, deve sê as lembrança do lugá qui o padinhu faz questão de enfiá nos curação dos villêro durante as manhã dominguêra: o medo dos inferno - parei as palavra, tinha tanto pra dizê, mais quem num para de falá num consegue escutá -, uma pena qui o padinhu num coloca na conta dos inferno a escravidão

Avoinha...

era a veiz da avoinha escutá e foi uqui fiz


... os muriquinhu sabe qui a vida tem muntu qui caminhá pra frente e voltá, subí e descê, morrê e nascê. Avoinha já explicô isso tudo...

continuei com as palavra acomodada no silêncio e na alegria de escutá

... mais pru qui eles reza tando se depois faz tanta maldade? Avoinha pode respondê?

queria escutá e foi uqui fiz, num respondi


Ôceis num vê qui é medo?

Quem tem medo dos inferno é pruqui carrega as maldade escondida...

as prugunta, os murmúrio, a algazarra tava solta

E quem faz maldade e num tem medo de fazê? Faz pruqui gosta de fazê...

Algum de ôceis sabe explicá uqui é maldade?

Isso é fácil... maldade é fazê as pessoa dividí o pão com os rato e anunciá, bem alto, pra quem quisé escutá, qui a culpa é das pessoa qui gosta da vida com os rato.

a roda dos muriquinhu tava um redemoinho de prugunta e suspiro

Avoinha...

virei as vista na direção do chamado, vi uma mão qui subiu encabulada, era uma das muriquinha abicu recém-chegada

... acho qui as muriquinha entendeu pruqui é bão num tá calô - num fiz comentário, esperei e continuei calada, os muquinhu tudo parô junto -, mais podia sê meió.

Podia sê meió, pruguntei de volta, surpresa com a minha impaciência pra sabê a continuação daqueles pensamento, os muriquinhu continuô quieto, nenhum queria desacomodá o silêncio na roda ou se metê nas palavra da abicu recém-chegada

Avoinha, qui é bão num tá calô os muriquinhu já concordô, mais podia sê meió se tivesse amanhecido chovendo, num ia tê nada disso, chuva e vento tem mais força pra enfraquecê qualqué revolta de ódio dessa gente do bem qui os grito do intendente tem pra amedrontá.

os muriquinhu riu sem mostrá os dente, e avoinha entendeu: é preciso desaprendê a tristeza, é preciso relembrá das alegria pra desintristecê os pensamento e as palavra; num é coisa fácil dividí o pão com os rato e as doçura com as barata, num tê instrução, num tê profissão, num tê moradia, num tê comida, um tiquinho de arroz, otro tantinho de feijão, pão véio e mofado, água quente com os osso das sobra do mercadinho das carne, num é coisa fácil desintristecê

os muriquinhu sem tê nascido sabia mais da vida qui os nascido, qui sina essa de num dá importância pra vida qui tem sem precisá pisoteá nas otra vida, num é fácil tê alegria no meio de tanta maldade com a vida dos pretu e índio, num é simples ficá facêra e descomplicada cercada de tanto egoísmo e burrice, num é bão vê as pessoa qui se gosta tolerá as injustiça, isso faz doecê

num consigo creditá qui tem pretu qui vira capitão-do-mato só pra sê mais um negro com importância prus dono de tudo... eu sei qui pode tê, num quero creditá pra num entristecê

retomei as palavra satisfeita com os muriquinhu, As pessoa qui credita nas bondade pruqui qué se salvá do fogo dos inferno é as mesma qui faz caridade pra pagá as maldade qui pensa ou sente, diz ou tolera, o perigo com essas pessoa caridosa e rezadêra, só interessada em salvá elas mesma, é qui chega o dia qui elas credita qui é as maldade qui salva.

na roda dos muriquinhu uns credita qui a fome logo vai fazê desmanchá o cortejo, otros duvida, É só vê qui uma e otra muié do bem, com toda boa vontade e aparência do luto, abre as porta com um jarro derramando limonada ou chalêra pru chimarrão qui os acompanhante do cortejo da morte agradece com toda educação

no modo de vê das pessoa do bem, esse é o menó dos fingimento qui podia sê feito para gradecê qui a villa tava voltando pru lugá certo de sê: hospitalêra, recatada e do lar, um lugá silencioso e seguro pra sempre, sem pesadelo e sem as briga dos pretu, é isso, gente do bem da villa tá sempre pensando qui tá com fome e com medo de perdê uqui tem

as palavra qui as pessoa gosta qui é dita e repetida pelos quatro vento da villa: ali, é lugá da instrução, treinamento, hospitalidade e gentileza

as palavra pode dizê uqui qué, dizê num é sê nem é prová

a roda dos muriquinhu aceitô com entendimento as palavra da avoinha, ôiei pra villa e num pude escondê a tristeza duqui vi, Uma praça tão simpática com lambança de tanta ruidade e maldade. Dá dó vê tanta babação do ódio e festa na volta, vai sê muntu difícil a praça voltá se animá com alegria.




____________________

Leia também:

histórias de avoinha: praça pública é lugar de vagabundo!
Ensaio 127B – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: praça pública é lugar de vagabundo!!
Ensaio 127Bb – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: praça pública é lugar de vagabundo!!!
Ensaio 127Bc – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: praça pública é lugar de assombração!
Ensaio 127Bd – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: dono de gente
Ensaio 127Be – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: ele abre as portas do céu
Ensaio 127Bf – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: rainha silenciosa do lar
Ensaio 127Bg – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: um novo refúgio
Ensaio 127Bh – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: a dô dotro pode sê esquecida?
Ensaio 127Bi – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: Toque, minha filha.
Ensaio 127Bj – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: Onde está a gaiola do Venuto?
Ensaio 127Bk – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: Deus te abençoe, minha filha
Ensaio 127Bl – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: um corpo febrento e para sempre culpada
Ensaio 127Bm – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: a dança dos dedo
Ensaio 127Bn – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: os pé e as bota de garrão 
Ensaio 128A – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: Oh!... prugunta pra todas criança
Ensaio 128B – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: boca fechada não erra
Ensaio 127Bo – 2ª edição 1ª reimpressão

histórias de avoinha: coisa num se governa, tem dono
Ensaio 128D – 2ª edição 1ª reimpressão



sábado, 6 de julho de 2019

histórias de avoinha: Oh!... prugunta pra todas criança

mulheres descalças


Oh!... prugunta pra todas criança 
Ensaio 128B – 2ª edição 1ª reimpressão



baitasar





o povaréu qui ficava na volta da praça pública recuava ou avançava pra cada passo dos guardião das lei – servente usado na serventia de protegê as pessoa com balda ditê tudo no seu gosto –, bem assim, eles é os capanga qui cuida de fazê cumprí o manejo e o controle do pretu escravizado, e tumbém das pessoa qui tem os próprio escravizado na sua posse, mais num é aceito na confraria da fidalguia pruqui é das classe inferiô

o pretu enfiado na canga era próprio do seu dono, muntu antes de sê muriquinhu já era próprio pra sê usado do feitio e vontade do dono – era uqui dizia e segue dizendo as lei pra proteção da fidalguia, tudo na villa é feito pra num incomodá as balda da fidalguia 

na canga – ou liberto da canga – o pretu precisa esperá pra sabê se avança ou recua, assim tá sempre enfiado na canga das lei

Ei, tu! Enfiado na canga... tá pru céu qui é puro terra. 

Mais ando em pé!

oiô pru chão, seu céu de terra, e respondeu pras pegada no chão, Uqui tem eu, esperô a resposta qui demorava chegá inté qui virô o nariz pru lado, avistô o abicu curioso qui tava numa das ponta da canga, e tu, bem meió ia fazê qui sentá nessa desgraça de canga... 

Uqui bem meió ia eu fazê?

Bem meió, era ocê num fazê peso!

Bobice, eu num tô pesando. Nem nascido fui, mais posso lhe ajudá saí dessa gritaria. Fazê ela saí daí... de dentro de tu.

Como pode sê?

o abicu levantô e ficô em pé na canga, pulô dum lado pru outro –pulo num pé só – antes de respondê

Escuta uqui vem acima de tudo e mais forte qui a gritaria, parô de pulá, colocô uma das mão acima das vista, tava trazendo as vista dos sonho de longe pra perto, e o alento chegô acima de tudo e toda gente, os atabaque crescendo a cada canto sagrado curimba


Constrói meu caminho de paz, 
Ogum; 
Destrói o ódio e rancor 
Ogum; 
Desfaz todo mal sobre mim 
Ogum; 
Eu te peço agô 
Ogum

no largo do pelôrinho, muriquinhu, tem o bem e o mal, gente de tudo qui é lugá: campo, água, cidade

os camaradinhu dos atabaqui adiando o juízo do fim

os dono de tudo insistindo com os navio negrêro engravidado dos pretu de angola

benguela 

aruanda

sem medo de quem ataca e atiça

sem medo das injustiça

sem medo de desobedecê

quanto mais apanha menos vai obedecê pruqui o mundo num tem dono e sê num tem dono num tem licença pra batê e matá
escuta, muriquinhu, presta atenção: as história existi pra sê contada e cantada, num esquece as história qui veio de longe

Mezu, menianur, memvéie menianur mezê meniamurgê, assim começava avoinha betsi dizê quando é chamada pra falá do começo de muntu longe da sua raça, e como grande viajante dava curioso detalhamento, Os abicu tá escutando, pruguntô avoinha betsi prus qui num nasceu, se num tá escutando para e escuta, se tá escutando chama outro abicu pra chamá outra qui vai avisá outro e outra, inté completá a roda do umbigo do mundo. Usqui num tá aqui é pruqui tá lá, e apontô prus rumo da villa, os abicu e as abicu da roda desviô a cabeça do prumo e oiô sobre a villa

a contação das história é o caldo refogado da vida prus abicu, depois da contação eles vai embrincando com usóio redondo e pretu bem arregalado, as boca aberta de tanta facerice, as maçã do rosto saliente, os cabelo duro e espetado esparramando abayomi e cantigas da roda, as canela fina e preta indo e vindo, cada história do umbigo do mundo continua nos abicu pretu e preta

Isso é bão! Isso é bão!

Conta... conta... as aventura duspretu e das preta muriquinha qui num veio pru mundo!

Ocêis tem a mania de escutá... eu tenho o gosto de soltá as palavra qui contagia de vida uqui tem vida, mais esqueceu da vida ou a vida se esqueceu.

Solta as palavra, avoinha...

os abicu na volta de avoinha num recuava nem avançava pra cada palavra qui se soltava da guardiã das vida das história contada, nehum deles, nehuma delas sabia dizê do prazê ditá ali, uns sentado, otras agachada, mais cadum qui tava num queria saí nem perdê nenhum suspiro ou gemido da contação de avoinha

contá as história num é só contá: primêro é preciso sonhá, depois é preciso respirá no balanço da batida dos sonho, vivê cada palavra qui se solta pra dançá nos vento da respiração qui sai das boca qui num se fecha

Então, se prepara com usóio bem aberto, a escutação bem atenta e a boca respirando: “Um hôme sensato num pode falá as coisa séria pra outro, deve se aconsêiá com as criança...”

Já começô as história?

Avoinha, chamô a abicu qui tava dotro lado da roda, seu totem é o mais forte de todos?

Oh!, muriquinha, ela começô respondê, os protetô num luta uns contra osotro: assim o totem Mvul (o antílope) é tão forte quanto o totem Nzox (o elefante).

Mais avoinha, eles dá proteção igual? Eles é tudo convidativo e forte?

Oh!, isso num é assim. O painho de toda raça, ocêis entende, protege bem mais, ele é o maió zelo com usfiu e asfia tudo.

E quem é esse painho da raça, quis sabê o abicu do cabelo raspado

Oh!, ocêis sabe muntu bem, vamô... é o mais véio de tudo!

E quem é esse mais véio de tudo, pruguntô a muriquinha qui num sentava nem agachava

Oh!, pru qui ocêis qué enganá avoinha? Os muriquinhu e as muriquinha, bem sabe, qui o mais véio de tudo é o painho crocodilo, Ngan.

Uau!

Ngan é – desde muntu tempo do início de tudo – o mais véio protetô da tribo. Ngan poderia comê todos outro.

E pru qui todas tribo num tem esse mesmo protetô, as palavra dos muriquinhu se juntô na mesma prugunta, Isso mesmo, avoinha... assim, todos seria muntu mais unido!

Oh!, isso num dá. Tudo qui é abicu tem a mesma cabeça, os mesmo pensamento? E uqui dá pra dizê das inteligência dos abicu? E as árvore das floresta é tudo do mesmo feitio? Tem as árvores com fruto bão de saboreá, otras num tem fruto de comê, mais é tudo árvore! Assim é os protetô das tribo, mais o da raça, aquele qui vem antes dusotro tudo, o Grande Painho, aquele qui é o mais zeloso com suas criança, o antepassado de tudo, o mais próximo de cadum, esse é... esse é...

Avoinha, quem é esse?

a prugunta feita pra avoinha era a mesma qui cada abicu tinha nos pensamento

Oh!, é Osusu, o Ngan-Esa.

Ele deixa rastro, Avoinha?

junto com cada Oh!, avoinha soltava o suspiro da paciência – aquela qui sabe, qui ensina sê cuidadosa com usqui qué sabê – ela aprendeu nas oficina da vida amansá a mania de querê contá mais qui a abelhudice

Uqui qué dizê Osusu?

Oh!, prugunta pras criança, abicu.

E onde tá... Ngan-Esa?

Oh!, prugunta pras criança. Vamô, pra todas criança. Elas gosta tanto de brincá... prugunta.





____________________

Leia também:

Ensaio 127B – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 127Bb – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 127Bc – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 127Bd – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 127Be – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 127Bf – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 127Bg – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 127Bh – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 127Bi – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 127Bj – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 127Bk – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 127Bl – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 127Bm – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 127Bn – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 128A – 2ª edição 1ª reimpressão

Ensaio 127Bo – 2ª edição 1ª reimpressão