quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Ilíada: Homero (Canto IX.b - Honra para Aquiles e Preces)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto IX - Honra para Aquiles e Preces
 
“Agamémnone forma um conselho e sugere, desesperado, o retorno à Grécia. Diomedes e Nestor o acusam de covardia e de injustiça com o melhor dos Gregos, Aquiles. Agamémnone concorda e resolve devolver Briseide a Aquiles junto com uma grande recompensa. É enviada uma comissão, composta por Odisseu, Ajaz e Fenice, a Aquiles. Odisseu e Fenice conversam com Aquiles, que se mostra inflexível. Diomedes reanima os Gregos.”

continuando...

Pede e deseja que a Aurora divina depressa apareça, 
e, ameaçador, já promete cortar os aplustres das naves, 
a estas destruir pelo fogo voraz, e os guerreiros Aquivos, 
pela fumaça estonteados, matar junto às naves simétricas. 
Grande receio de mim se apodera, que os deuses permitam 
que essas ameaças se cumpram, se acaso assentou o Destino 
que longe de Argos fecunda morramos, nos campos de Troia. 
Vamos, levanta-te, caso tenciones salvar os Aquivos, 
ainda que tarde, da grande pressão dos guerreiros Troianos. 
Grande aflição tu, também, hás de ter, que é impossível remédio

para a desgraça passada encontrar. Antes pensa no modo 
como se possam livrar os Acaios do dia funesto. 
Lembra-te, caro, de quanto te disse Peleu no momento 
em que de Ftia te enviou para o filho de Atreu, Agamémnone: 
‘Filho querido, Hera e Atena te deem força ingente, no caso 
de o desejarem; mas seja teu firme propósito o orgulho 
na alma refrear. É melhor que te mostres em tudo mais brando. 
A Ira, fautora de males, de ti sempre afasta que possam 
moços e velhos Aqueus conceder-te atenção respeitosa.’ 
Esse, o conselho do velho, de que te esqueceste. Refreia

a ira que tua alma consome. Agamémnone manda ofertar-te 
dons preciosíssimos, caso aplacares a cólera grande. 
Se te encontrares disposto a escutar-me, dir-te-ei tudo quanto 
ele, hoje mesmo, na tenda nos disse que havia de dar-te: 
   “Trípodes sete, sem uso de fogo, dez áureos talentos, 
vinte caldeiras brilhantes e doze cavalos robustos 
acostumados a prêmios ganhar, campeões de corrida. 
Fora impossível dizer que de campos aráveis carece, 
ou do ouro muito apreciado, o indivíduo que vier a possuí-los, 
tal a importância dos prêmios que os fortes corcéis lhe ganharam.

Dá-te, outrossim, sete escravas prendadas, trazidas de Lesbo, 
quando tu próprio aquela ilha arrasaste; ficaram para ele, 
por serem todas formosas acima das outras mulheres. 
Tuas serão; mais ainda: acrescenta a Briseide, formosa, 
que te tirara, fazendo, de grado, uma jura solene 
de nunca ter ao seu leito subido, nem com ela deitado, 
como é de costume, ó Pelida! varões a mulheres se unirem. 
Isso dar-te-á desde já; mas se os deuses eternos, um dia, 
nos permitirem tomar a cidade altanada de Príamo, 
hás de presente ficar quando a presa os Aqueus dividirmos,

e de ouro e bronze a mancheias prover teu navio bojudo. 
Vinte mulheres Troianas, também, ficarão à tua escolha, 
as mais formosas depois da mais bela de todas, Helena. 
Se para os campos ubérrimos de Argos de Acaia voltarmos, 
genro hás de ser-lhe; honrar-te-á, sem fazer distinção, como a Orestes, 
seu filho amado, que vive cercado de grande opulência. 
Três filhas tem em seu bem-construído palácio: Crisótemis, 
Ifianassa e Laódice. Aquela que for de teu gosto, 
sem que te vejas forçado a pagar dote algum, para casa 
podes levar de Peleu. Preciosíssimos dons te oferece

e em tanta cópia, tal como jamais alcançou filha alguma. 
Sete cidades também te dará, populosas e belas: 
Hira de prados ervosos, Enope e, também, Cardamila, 
Feras divina, a dos prados famosos e pingues, Anteia, 
Pédaso, célebre por suas vinhas, e Epeia risonha, 
todas marinhas, não longe da Pilo de solo arenoso. 
Muitos senhores de gado infinito e de armentos vistosos 
nelas demoram, que, certo, honrar-te-ão qual um deus do alto Olimpo, 
e que, ao teu cetro submissos, tributos dar-te-ão copiosíssimos. 
Tudo isso, disse, dar-te-á, se acalmares tua cólera grande,

mas, se no peito só abrigas rancor contra o Atrida Agamémnone 
e seus presentes, apiada-te ao menos da grande apertura 
de todo o exército. Qual um dos deuses serás venerado 
pelos Aqueus e hás de glória infinita alcançar entre todos. 
Ora te fora possível prender esse Heitor, que funesta 
raiva conduz para perto de ti e se diz, jactancioso, 
muito mais forte que quantos Aqueus nossas naus conduziram.”¹ 
   Disse-lhe Aquiles, de rápidos pés, em resposta, o seguinte: 
   “Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso, 
é necessário dizer-vos, agora, com toda a clareza,

meu pensamento e a intenção em que me acho de em prática pô-lo, 
para evitar que aturdir não me venham de todos os lados. 
Tal como do Hades as portas, repulsa me causa a pessoa 
que na alma esconde o que pensa e outra coisa na voz manifesta. 
Ora pretendo falar como julgo ser mais proveitoso. 
Nem Agamémnone, certo, nem outro qualquer dos Aquivos,
conseguirá convencer-me, pois graça nenhuma me veio 
de meu esforço incessante ao lutar contra os nossos imigos. 
Tanto ao ocioso, que ao mais esforçado, iguais prêmios são dados; 
as mesmas honras se outorgam ao fraco e ao herói mais galhardo.

Morre da mesma maneira o inativo e o esforçado guerreiro. 
Vede! Nenhuma vantagem me veio de tantos trabalhos, 
a pôr em risco a existência nos mais temerosos combates. 
Tal como aos filhos implumes costumava levar a avezinha 
grato alimento depois de o encontrar, sem que em si mesma pense: 
de igual maneira tenho eu muitas noites insones passado 
e dias cheios de sangue no horror dos combates, lutando 
contra inimigos, somente por causa de suas mulheres. 
Com minhas naus destruí doze grandes e fortes cidades, 
e onze por terra, asseguro-o, nos plainos fecundos de Troia

De todas elas voltei carregado de espólio magnífico, 
que, sempre, ao filho de Atreu, Agamémnone, era uso, levava, 
o qual soía ficar para trás, junto às céleres naves. 
Disso, bem pouco entre nós dividia; ficava com tudo, 
do que, depois, presenteava os heróis mais distintos e os chefes. 
Estes, ainda conservam seus prêmios; eu, só dos Aquivos 
fui despojado; tirou-me a querida consorte. Pois goze-a! 
durma com ela! Qual foi o motivo de Aqueus e Troianos 
digladiarem? Por que tanta gente reuniu Agamémnone 
e para cá transportou? Não por causa de Helena formosa?

Ou, porventura, entre os homens, somente os Atridas demonstram 
ter às esposas afeto? Qualquer indivíduo de senso 
e bem-nascido, à consorte demonstra afeição, como o faço, 
que a minha muito adorava, apesar de ser presa de guerra. 
Ora que veio enganar-me, tirando-me o prêmio devido, 
não julgue nunca poder convencer-me, pois bem o conheço; 
mas, juntamente contigo, Odisseu, e os demais comandantes, 
pense no modo de as naves livrar da voragem do fogo. 
Sem meu auxílio já pôde fazer muitas coisas grandiosas; 
sim, conseguiu construir esse muro e, ainda mais, protegido

por fosso largo e profundo, provido de fortes estacas.
Mas nem assim pode a força deter desse Heitor homicida. 
Enquanto parte eu tomava nas lutas, ao lado dos outros, 
nunca ele quis combater muito longe dos muros de Troia. 
Té às Portas Ceias chegava e à figueira que perto lhe fica, 
onde, uma vez, me esperou; por bem pouco escapou de meu ímpeto. 
Ora que nada me induz a lutar contra Heitor, o divino, 
cedo, amanhã sacrifícios farei a Zeus grande e aos eternos, 
e deitarei meus navios nas ondas, depois de providos. 
Tu próprio, certo, hás de ver, se o quiseres e se isso te importa

pelo Helesponto piscoso, bem cedo, eles todos partirem 
e, neles, homens alegres, à força de remo impelindo-os. 
E se Posido, que a terra sacode, nos der ventos prósperos, 
no solo fértil de Ftia estaremos no dia terceiro. 
Quando, por minha desgraça, parti, lá deixei bens inúmeros, 
que aumentarei com o que levo, muito ouro e, também, bronze rubro, 
ferro brilhante e formosas escravas de bela cintura, 
quanto ganhei nas partilhas. O que ele, o possante Agamémnone, 
me tinha dado, valendo-se agora da força, tomou-me. 
Publicamente lhe faze um relato completo de tudo

quanto te disse, porque outros Acaios, também, se revoltem, 
caso ele tenha intenção de enganar mais alguém entre os Dânaos, 
com sua usual imprudência. Contudo, não teve coragem, 
esse cachorro, de olhar-me, apesar de despido de brio. 
Cooperação é impossível haver, por palavras ou obras, 
pois me enganou e ofendeu. Não me venha enganar novamente 
com seus discursos inúteis. Já basta! Sozinho, acompanhe 
o seu destino funesto; do senso o privou Zeus potente. 
São-me seus brindes odiosos e abaixo do mínimo preço. 
Ainda que o décuplo viesse ofertar-me e até mesmo outro tanto,

quanto possui no presente e o que possa ganhar em futuro, 
as coisas todas que afluem para Orcómeno ou para a famosa 
Tebas Egípcia, onde as casas pejadas de bens sempre se acham, 
e que cem portas ostenta, cada uma das quais dá passagem 
a combatentes duzentos, seus carros de guerra e cavalos; 
ainda que mais me ofertasse que a poeira ou que a areia das praias, 
nem mesmo assim poderia a vontade dobrar-me, Agamémnone, 
sem que, primeiro, té o fim, tal ofensa pesada me pague. 
Com a donzela do Atrida jamais firmarei sacras núpcias, 
mesmo que fosse dotada de encantos, como a áurea Afrodite,

e à de olhos glaucos, Atena, igualar-se em trabalhos de preço 
não a quisera esposar. Entre os moços Acaios deve ele 
genro escolher que lhe seja condigno e de igual importância. 
Se eu conseguir, com a ajuda dos deuses, voltar para a pátria, 
há de Peleu, por sem dúvida, esposa saber escolher-me. 
Muitas donzelas Acaias em Ftia se encontram, e na Hélade, 
filhas de grandes heróis, defensores de nossas cidades. 
Da que me for mais do agrado, farei minha fiel companheira. 
O coração generoso já mostra desejos, há muito, 
de que legítima esposa, afinal, a escolher me resolva,

para gozar das riquezas que o velho Peleu tem em casa. 
A minha vida, sem dúvida, vale bem mais do que quanto 
dizem que Troia possuía, a cidade de belo traçado, 
antes, em tempo de paz, sem que houvessem chegado os Aquivos 
e dos tesouros que dentro se encontram da pétrea soleira 
de Febo Apolo, o frecheiro esplendente, na rocha de Pito. 
Arrebanhar bois tardonhos e ovelhas vistosas é fácil, 
trípodes belas comprar ou cabeças de louros ginetes;
mas a alma humana, uma vez escapada do encerro dos dentes, 
não mais se deixa prender, sem podermos, de novo, ganhá-la.

Tétis, a deusa dos pés argentinos, de quem fui nascido, 
já me falou sobre o dúplice Fado que à Morte há de dar-me; 
se continuar a lutar ao redor da cidade de Troia, 
não voltarei mais à pátria, mas glória hei de ter sempiterna; 
se para casa voltar, para o grato torrão de nascença, 
da fama excelsa hei de ver-me privado, mas vida mui longa 
conseguirei, sem que o temor da Morte mui cedo me alcance. 
A todos vós quero dar o conselho, também, de embarcardes 
e para a pátria seguirdes; jamais podereis ver o termo 
de Ílio escarpada, que a mão protetora sobre ela Zeus grande,

de voz potente, estendeu, reforçando a coragem do povo. 
Ide, entretanto, anunciar aos mais nobres guerreiros Aquivos 
minha resposta — que é esse o dever dos anciões do conselho —, 
para que possam pensar noutro plano de mais eficiência, 
que lhes permita salvar os navios e os homens que se acham 
junto das naves recurvas, que o que eles, agora, tentaram, 
é impraticável; não tenho intenção de afrouxar do propósito.
Deixe-se, entanto, Fenice ficar entre nós esta noite, 
para que possa, amanhã, retornar para a pátria, se acaso 
for do seu gosto; a ninguém levarei contra a própria vontade.”

Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram, 
estupefatos perante a violência de sua resposta, 
té que, chorando, a falar começou o ginete Fenice, 
pois tinha muito receio que às naus algum mal sucedesse: 
   “Se, nobre Aquiles, de fato, pretendes voltar para a pátria, 
e te recusas, de todo, a livrar os navios Acaios 
do voraz fogo, uma vez que ainda a cólera o peito te inflama, 
como é possível, meu filho, pensares que eu possa ter vida 
longe de ti? Por Peleu fui mandado seguir-te, no dia 
em que de Ftia te enviou para o filho de Atreu, Agamémnone,

ainda na infância, igualmente inexperto nas guerras penosas 
e nos discursos das ágoras, onde os heróis se enaltecem. 
Sua intenção foi que viesse contido, porque te ensinasse 
como dizer bons discursos e grandes ações pôr em prática. 
Por isso tudo, meu filho, sem ti continuar não desejo, 
ainda que um deus, em pessoa, me viesse fazer a promessa 
de me tirar a velhice e, de novo, o vigor restituir-me 
da mocidade que na Hélade tinha, de belas mulheres, 
quando fugi, por brigar com meu pai, filho de Ormeno, Amíntor, 
que ódio me tinha por causa da amante de belos cabelos.

A essa, afeição dedicava, esquecendo a consorte legítima, 
que me era mãe e vivia a pedir-me, abraçando-me os joelhos, 
que à bela escrava eu me unisse, porque esta voltasse ódio ao velho. 
Obedeci-lhe, alcançando o almejado. Meu pai, quando o soube, 
amaldiçoou-me, e chamou contra mim as odiosas Erínias, 
para que nunca tivesse nos joelhos um neto a brincar-lhe, 
de mim nascido; atenderam-lhe a súplica os deuses eternos, 
Hades, o deus subterrâneo, e Perséfone, deusa terrível. 
Tive o desígnio de a vida tirar-lhe com bronze afiado; 
mas a ira um deus me acalmou, dando-me azo, a que, então, refletisse

na triste fama com que passaria a viver entre o povo, 
se ‘parricida’ ao meu nome juntasse entre os homens da Acaia. 
O coração, no imo peito, não quis que, por tempo mais longo, 
me demorasse na casa em que odioso ao meu pai me tornara, 
ainda que muitos parentes e primos assaz se esforçassem 
à minha volta, com o fim de evitar que deixasse o palácio. 
Muitas ovelhas vistosas e bois que se arrastam tardonhos 
sacrificaram, e infindos cevados de flórido lardo, 
que, para assarem, passavam por cima da chama de Hefesto. 
Quantos pichéis de bom vinho do velho infeliz não beberam?

Por nove noites seguidas dormiram alguns ao meu lado, 
a se alternarem na guarda e mantendo dois fogos constantes, 
um, junto ao pórtico, dentro do pátio de cerca bem-feita, 
e no vestíb’lo, o segundo, defronte da porta do quarto. 
Mas, quando a décima noite, afinal, tenebrosa nos chega, 
uma das sólidas portas do quarto arrombar, enfim, pude, 
e do aposento esgueirar-me, saltando o cercado do pátio, 
sem que o advertissem os guardas nem mesmo as serventes da casa. 
Daí, fugitivo, percorro toda a Hélade de amplas estradas, 
té dar no solo fecundo de Ftia, nutriz de rebanhos,²
continua página 250...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto VIII.a / Canto VIII.b / Canto VIII.c / Canto IX.a / Canto IX.b / Canto IX.c /                                       
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] Trata-se do discurso de Odisseu (Ulisses) quando este, liderando a embaixada enviada por Agamémnone, tenta convencer Aquiles (o Pelida) a depor sua ira (mênis), aceitar os ricos presentes de reconciliação e retornar ao combate para salvar os aqueus (gregos) que sofrem grandes perdas nas mãos de Heitor e dos troianos.
   A Embaixada a Aquiles: O texto reproduz as palavras exatas que Agamémnone prometera dar a Aquiles para aplacar seu orgulho ferido — uma compensação monumental que incluía:
- Riquezas materiais: Trípodes, talentos de ouro, caldeiras e doze cavalos corredores vitoriosos.
- Espólios e prisioneiros: Sete escravas de Lesbo e a própria Briseide (com o solene juramento de que Aquiles jamais havia tocado nela).
- Futuras riquezas em Troia: A promessa de uma parte avantajada do tesouro quando a cidade de Príamo finalmente caísse, incluindo vinte mulheres troianas à sua escolha.
- Aliança familiar e terras: A mão de uma das filhas de Agamémnone (Crisótemis, Ifianassa ou Laódice) em casamento, sem exigência de dote, além da posse de sete cidades costeiras ricas e populosas próximas a Pilos.
   O Apelo Final: O mensageiro apela ao brio e à compaixão de Aquiles pelos companheiros gregos sitiados, lembrando-lhe também a glória imorredoura que ganharia se derrotasse o herói troiano Heitor.
   Para compreender a profundidade deste discurso, vale a pena analisar o seu contexto, o significado dos presentes e a dimensão trágica da recusa de Aquiles.
* O Contexto Dramático
- A Crise dos Aqueus: O exército grego está à beira da ruína. Sem Aquiles em campo — que se retirara ofendido e furioso após Agamémnone lhe ter tomado a cativa Briseide no Canto I —, os troianos, liderados por Heitor, romperam as fortificações e ameaçam incendiar os navios gregos.
- A Desesperação de Agamémnone: Vendo a iminência de uma derrota catastrófica, Agamémnone reconhece finalmente o seu erro (a até, a cegueira ou loucura temporária enviada pelos deuses) e concorda em ceder, enviando uma embaixada composta por Odisseu, Fénix e Ájax para oferecer uma reparação monumental a Aquiles.
* A Oferta Exorbitante
   A lista de bens lida por Odisseu (que reproduz as palavras de Agamémnone) é expressivamente exagerada para os padrões da Idade do Bronze ou mesmo da época homérica. Ela simboliza não só a riqueza material, mas a honra (timé) que Agamémnone tenta devolver a Aquiles:
- Riquezas imediatas: Os tripodes, os talentos de ouro e as caldeiras eram os tesouros de prestígio da aristocracia heroica. Os cavalos rápidos (campeões de corrida) eram particularmente valiosos para heróis que combatiam em carros de guerra.
- A devolução de Briseide: O juramento solene de que Briseide nunca fora tocada por Agamémnone serve para restaurar a integridade física e simbólica de Aquiles, cuja honra fora maculada publicamente.
- A promessa do futuro e o poder político: Oferecer uma filha em casamento sem dote, ligando Aquiles à família real de Micenas, e doar sete cidades costeiras ricas equivalia a transformá-lo num rei com domínios vastos e vassalos próprios.
* O Dilema de Aquiles e a Rejeição
   Apesar da grandeza espantosa da oferta, a resposta imediata de Aquiles no Canto IX é de recusa implacável.
   O Choque de Valores: Aquiles percebe que nenhum tesouro material pode compensar a humilhação pública que sofreu nem o tempo de vida que perderá. Ele vive o famoso dilema do geras (a honra expressa em espólios) e o seu destino profetizado:
- Se ficar em Troia a combater, ganhará glória imortal (kleos asthiton), mas morrerá jovem.
- Se regressar a casa para a Fítia, terá uma vida longa e pacífica, mas o seu nome cairá no esquecimento.
   A Irreversibilidade da Ira: Para Aquiles, as palavras de Agamémnone chegam tarde demais. A sua cólera (mênis) transcende a política ou a ganância; tornou-se uma questão existencial de princípio e de revolta contra a injustiça do próprio comando aqueu.

[2] Este belíssimo trecho dá continuidade ao Canto IX da Ilíada, mudando o foco para o discurso de Fénix, o velho mestre, aia e figura paterna de Aquiles. Enquanto Odisseu apelou à razão e às vantagens materiais da oferta de Agamémnone, Fénix recorre à emoção, à culpa e à biografia pessoal, tentando dobrar o coração irredutível do herói através da força do afeto.
   Principais Aspetos do Discurso de Fénix:
* O Vínculo Afetivo e o Dever Moral: Fénix lembra a Aquiles que foi encarregado por Peleu (pai de Aquiles) de o acompanhar a Troia ainda em criança, para o ensinar a ser um orador de excelência e um homem de ação. Por esse motivo, Fénix afirma categoricamente que não conseguiria viver sem Aquiles, recusando-se a abandoná-lo, mesmo que os deuses lhe rejuvenescessem e lhe devolvessem a mocidade.
* A História Pessoal de Fénix (O Exílio): Para ilustrar a profundidade da lealdade e a gravidade de uma ofensa familiar, Fénix revela a sua própria tragédia:
- Conta como brigou com o seu pai, Amíntor, por causa da concubina deste (a pedido da própria mãe de Fénix, que desejava afastar a rival).
- Devido a isso, foi amaldiçoado pelo pai e votado a nunca ter descendência ("nunca tivesse nos joelhos um neto a brincar-lhe").
- Este paralelo é subtil e poderoso: Fénix, que foi rejeitado e exilado pelo próprio pai, encontrou em Aquiles o filho que nunca pôde criar, tornando-se o seu verdadeiro pai adotivo.
* A Fuga e o Refúgio em Fítia: O relato detalha a sua fuga dramática de casa, a resistência dos familiares para o impedir de partir, e como acabou por chegar ao reino de Peleu, onde foi acolhido de braços abertos.
   A confissão de Fénix é uma das passagens mais humanas de toda a Ilíada. Mostra que a guerra de Troia não é apenas feita de ferro, sangue e glória, mas também de laços de profunda dependência afetiva.
   Apesar de toda esta carga emocional e da confissão de amor paternal, Aquiles continuará, para já, irredutível na sua decisão de não voltar ao combate imediato, demonstrando a dimensão absoluta e trágica da sua cólera.


Ilíada: Homero (Canto IX.a - Honra para Aquiles e Preces)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto IX - Honra para Aquiles e Preces
 
“Agamémnone forma um conselho e sugere, desesperado, o retorno à Grécia. Diomedes e Nestor o acusam de covardia e de injustiça com o melhor dos Gregos, Aquiles. Agamémnone concorda e resolve devolver Briseide a Aquiles junto com uma grande recompensa. É enviada uma comissão, composta por Odisseu, Ajaz e Fenice, a Aquiles. Odisseu e Fenice conversam com Aquiles, que se mostra inflexível. Diomedes reanima os Gregos.”



   Por esse modo os Troianos velavam. No entanto, os Aquivos 
pensam na Fuga, somente, comparsa do Medo gelado. 
Té mesmo os mais destemidos guerreiros a dor os abate. 
Como o oceano piscoso batido por ventos furiosos, 
Zéfiro e Bóreas, no tempo em que sopram do lado da Trácia, 
subitamente, fazendo que as ondas escuras se empolem, 
acavaladas, e de algas a areia da praia revestem: 
o coração dos Acaios, assim, se encontrava agitado. 
   O grande filho de Atreu, cujo peito a aflição consumia,

foi procurar os arautos de voz harmoniosa e lhes disse 
que, pelos nomes, chamassem para a ágora os fortes guerreiros, 
mas sem gritar. Dava exemplo ele próprio, também, esforçando-se. 
Cheios de mágoa, assentaram-se. O Atrida levanta-se logo, 
a derramar muitas lágrimas, como de fonte profunda 
se precipita água escura de cima de penha altanada. 
Vira-se para os Aqueus, a gemer fundamente, e lhes fala: 
   “Vós, conselheiros e guias dos homens Argivos, ouvi-me! 
O grande Crônida, Zeus, em desgraça terrível me enleia, 
ele, o maldoso, que havia asselado, antes disto, a promessa

de eu retornar para a pátria, depois de destruir Ílio forte. 
Presentemente resolve enganar-me, ordenando que volte 
sem glória alguma, para Argos, depois de perder tanta gente. 
Isso, por certo, há de ser agradável a Zeus poderoso, 
que já destruiu muitos muros e grandes e fortes cidades, 
e há de arrasar muitas mais, pois imenso é o poder de seu braço. 
Ora façamos conforme o aconselho; obedeçam-me todos: 
para o torrão de nascença fujamos nas céleres naves, 
pois é impossível tomar a cidade espaçosa dos Teucros.”
   Isso disse ele; calados e quedos os outros ficaram.

Por muito tempo em silêncio mantêm-se os turvados Aquivos, 
é que, por fim, fala o grande Diomedes, de voz poderosa: 
   “Do meu direito valendo-me, Atrida, começo insurgindo-me 
contra tua ideia insensata, sem que isso provoque tua cólera. 
Foste o primeiro a acoimar-me de fraco, na frente dos Dânaos, 
de ser imbele e de pouco valor. Mas, sobre isso, os Argivos, 
tanto os anciões como os moços, já têm uma ideia formada. 
Zeus poderoso, nascido de Crono, negou-te uma dádiva: 
deu-te, sem dúvida, um cetro, o mais alto penhor do comando, 
mas não te deu a coragem, sem dúvida a força mais nobre.

Pensas, então, infeliz, que os Aqueus sejam tão destituídos 
de varonil decisão para vires propor tal medida? 
Se o coração te concita, realmente, a viajar de tornada, 
parte: o caminho está franco; na beira da praia os navios 
que de Micenas trouxeste, incontáveis, a jeito se encontram. 
Outros Acaios aqui ficarão, de cabelos cacheados, 
para que os muros de Troia arrasemos; mas mesmo que todos 
queiram voltar para a pátria querida nas céleres naves, 
nós, a saber, eu e Esténelo, a luta levar haveremos 
té que Ílio santa destruamos, que um deus favorável nos trouxe.”

Isso disse ele; os Aqueus prorromperam em grita estrondosa, 
de assentimento às palavras do forte guerreiro Diomedes.¹
No meio deles, então, se levanta Nestor e assim fala: 
   “Nobre Tidida, na guerra és, sem dúvida alguma, o mais forte, 
e nos conselhos excedes a quantos equevos te sejam. 
Não poderá, dos Acaios presentes, nenhum censurar-te 
por teu discurso, nem mesmo objetar-te; mas foste incompleto. 
E que ainda tens pouca idade; podias, até, ser meu filho, 
sim, o mais moço de todos. Contudo, falaste com senso. 
Quanto disseste aos guerreiros Argivos foi muito oportuno.

Cabe-me, pois tenho orgulho de ser o mais velho de todos, 
ora expor tudo com mais suficiência. Ninguém menospreze 
minhas palavras, nem inda Agamémnone, o rei poderoso. 
Sem ligações de família, ou de tribo, sem lei, sobretudo, 
vive quem folga com as lutas terríveis que o povo atormenta. 
À negra Noite, no entanto, convém demonstrar obediência. 
A refeição preparemos; depois, sentinelas se postem 
junto dos fossos abertos do lado de fora dos muros. 
Isso aos mais moços inculco; o restante, Agamémnone, arranja 
como te for mais do agrado, por seres o chefe supremo.

Ceia aos anciões oferece; isso te orna; não te é vergonhoso. 
Cheias as tendas te vejo de vinho, que as naus dos Acaios 
dia por dia, através do mar vasto, da Trácia transportam. 
Sobram-te dons hospedais, porque em muitos o mando exercitas. 
Segue, depois de reunires um número grande de chefes, 
o parecer mais prudente, que assaz os Aqueus necessitam 
de quem lhes dê bons conselhos, pois junto das naus os imigos 
muitas fogueiras mantêm. A quem pode alegrar este quadro? 
Ou salvação ou extermínio esta noite trará para o exército.” 
   Isso disse ele; os presentes, de pronto ao conselho obedecem.

Saem depressa, depois de se armarem, os homens da guarda, 
sob o comando do grande Nestórida, o herói Trasimedes, 
de Iálmeno, o forte, também, e de Ascálafo, de Ares discípulos, 
de Licomedes divino, nascido do forte Creonte, 
e dos guerreiros Deípiro, o nobre Afareu e Meríones. 
Cada um dos sete guerreiros da guarda cem homens comanda, 
todos em fila, munidos de lanças de sombra comprida. 
Postam-se todos no espaço que fica entre os muros e o fosso, 
e, tendo fogo acendido, cada um o repasto prepara. 
   Em sua tenda, Agamémnone reúne os anciões do conselho,

aos quais se esmera em servir copioso e variado banquete. 
Todos as mãos estendiam, visando a alcançar as viandas. 
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado, 
foi o primeiro a tecer argumentos Nestor de Gerena, 
cuja opinião, desde muito, era sempre julgada a mais certa. 
Cheio de bons pensamentos, lhes diz, arengando, o seguinte:
    “Filho glorioso de Atreu, Agamémnone, rei poderoso, 
em ti termino; visando-te, vou dar princípio ao discurso, 
por comandares a tantos Aquivos e teres do Crônida 
o cetro e as leis recebido e o dever de aplicá-las com senso.

Cumpre-te, pois, não somente falar, mas saber dar ouvidos, 
sim, conceder atenção, quando alguém for levado a propor-te 
algo razoável. Depende de ti pôr em prática a ideia. 
Ora pretendo falar como julgo ser mais proveitoso. 
Mais salutar opinião não presumo que alguém apresente, 
que a defendida por mim, não de agora, somente, de muito, 
desde o momento em que tu, nobre garfo de Zeus, foste à tenda 
do estomagado Pelida e lhe a jovem de Brisa tiraste, 
contra a opinião de nós todos. Ao menos, no que me respeita, 
dissuadir-te tentei; mas, levado por teu alto espírito,

o prestantíssimo herói, que até os deuses honrar têm por hábito, 
menosprezaste, tomando-lhe o prêmio, que ainda conservas. 
Excogitemos, agora, no modo de o herói aplacarmos: 
ou com palavras afáveis, ou com valiosos presentes.” 
Disse-lhe, então, em resposta, Agamémnone, rei poderoso    
“Nessa censura aos meus erros, ó velho! não vejo exagero! 
A minha falta foi grande, não posso negá-lo. Por muitos 
vale o guerreiro a quem Zeus poderoso dedica alto afeto, 
tal como agora o distingue, destruindo as fileiras Aquivas. 
Mas, se errei tanto, levado por meu pensamento funesto

quero aplacar o guerreiro com ricos e infindos presentes. 
Diante de todos farei relação dessas dádivas grandes: 
trípodes sete, sem uso de fogo, dez áureos talentos, 
vinte caldeiras brilhantes e doze cavalos robustos, 
acostumados a prêmio ganhar, campeões de corrida. 
Fora impossível dizer que de campos aráveis carece, 
ou do ouro muito apreciado, o indivíduo que vier a possuí-los, 
tal a importância dos prêmios que os fortes corcéis me ganharam. 
Dou-lhe, outrossim, sete escravas prendadas, trazidas de Lesbo, 
quando ele próprio aquela ilha arrasou, e que a mim reservara

por serem todas formosas acima das outras mulheres. 
Dou-lhas; mas, a estas, a filha de Crises, ainda, acrescento, 
que lhe tirara, fazendo, aqui mesmo, uma jura solene, 
de nunca ter ao seu leito subido, nem com ela deitado, 
como é costume entre os homens, varões a mulheres se unindo. 
Isso darei desde já; mas se os deuses eternos um dia
me permitirem tomar a cidade altanada de Príamo, 
entre ele os muros, também, quando a presa os Aqueus dividirmos,
 e de ouro e bronze a mancheias seu barco bojudo carregue. 
Vinte mulheres Troianas, pode ele apartar, além disso,

as mais formosas depois da mais bela de todas, Helena. 
Se para os campos ubérrimos de Argos de Acaia voltarmos, 
seja meu genro; honrá-lo-ei, sem fazer distinção, como a Orestes, 
meu filho amado, que vive cercado de grande opulência. 
Três filhas tenho em meu bem-construído palácio: Crisótemis, 
Ifinassa e Laódice. Aquela que for do seu gosto, 
sem que se veja obrigado a pagar dote algum, para casa 
leve ao velho Peleu. Preciosíssimos dons lhe acrescento, 
em tanta cópia, tal como jamais alcançou filha alguma. 
Sete cidades também lhe darei, populosas e belas:

Hira de prados ervosos, Enope e, também, Cardamila, 
Feras divina, a dos prados famosos e pingues; Anteia, 
Pédaso, célebre por suas vinhas, e Epeia risonha, 
todas marinhas, não longe da Pilo de solo arenoso. 
Muitos senhores de gado infinito e de armentos vistosos 
nelas demoram, que, certo, o honrarão qual a um deus do alto Olimpo, 
e que, ao seu cetro submissos, tributos dar-lhe-ão copiosíssimos. 
Tudo isso dele será, se quiser dominar sua cólera. 
Deixe-se, pois, convencer que, por ser implacável e duro, 
Hades é o deus mais odiado por todos os homens terrenos.

Ceda, submeta-se a mim, pois que sou mais potente do que ele, 
sobre orgulhar-me, também, da vantagem de ser mais idoso.” 
   Disse-lhe, então, o Gerênio Nestor, condutor de cavalos: 
“Filho glorioso de Atreu, Agamémnone, rei poderoso, 
o que ofereces a Aquiles, de fato, não é despiciendo. 
Ora, sem perda de tempo, emissários a jeito escolhamos, 
para os enviar com recados à tenda de Aquiles Peleio. 
Deixa que eu próprio os nomeie; ninguém objeções anteponha. 
A direção tome o herói predileto dos deuses, Fenice; 
o grande Ajaz, depois, venha, e Odisseu, o divino guerreiro.

Sigam, também, como arautos, Odio e o impecável Euríbates. 
As mãos lavemos; observe-se em tudo completo silêncio, 
quando imploramos a Zeus que há de ter de nós todos piedade.” 
   Foi o discurso do velho Nestor agradável a todos. 
Fazem vir água, e os arautos por cima das mãos a despejam. 
Té pelas bordas escravos as taças encheram de vinho. 
Distribuindo por todos os copos as sacras primícias. 
Logo que todos haviam comido e bebido à vontade, 
os emissários deixaram a tenda do Atrida Agamémnone. 
Observações a eles todos o velho Nestor faz ainda,

acompanhadas de olhar expressivo, a Odisseu com mais ênfase, 
sobre a maneira melhor de suadir o divino Pelida. 
   Ambos, então, pela praia do mar ressoante se foram, 
preces alçando a Posido, que os muros da terra sacode, 
para que fosse possível dobrar o Pelida altanado. 
Quando chegaram às tendas e naves dos fortes Mirmídones, 
aí enlevado o encontraram tangendo uma lira sonora 
de cavalete de prata, toda ela de bela feitura, 
que ele do espólio do burgo de Eecião para si separara. 
O coração deleitava, façanhas de heróis decantando.

Em frente dele, somente, calado, encontrava-se Pátroclo, 
pacientemente a esperar que o Pelida concluísse o seu canto. 
Ambos, então, avançaram; servia Odisseu como guia. 
Param defronte do herói. Espantado de vê-los, Aquiles, 
sem que o instrumento soltasse, a cadeira, de um salto, abandona. 
O mesmo Pátroclo fez, ao notar a presença de estranhos. 
A ambos, Aquiles veloz cumprimenta, dizendo o seguinte: 
   “Salve! Bem grave é, sem dúvida, a causa de aqui terdes vindo. 
Ainda que muito agastado, sois ambos os que eu mais distingo.” 
Tendo isso dito, o divino Pelida os convida a assentar-se

em escabelos forrados com belos tapetes de púrpura. 
E, para o herói que se achava ao seu lado, virando-se, fala: 
   “Pátroclo, põe sobre a mesa uma grande cratera e prepara 
vinho bem forte; depois uma taça a cada um oferece. 
Sob meu teto ora se acham varões a quem muito distingo.” 
   Obedeceu, logo, Pátroclo às ordens do amigo dileto. 
E, junto ao lar, colocando uma grande e vistosa travessa, 
lombos põe nela de cabra e de ovelha de velo nitente, 
e o dorso inteiro de um porco selvagem, com muita gordura. 
Automedonte o auxiliava; ele próprio as porções determina.

Logo os pedaços retalha e nas postas espetos enfia. 
Pátroclo, igual a um dos deuses, prepara uma grande fogueira; 
e, quando a lenha ficou toda gasta e o braseiro apagado, 
a cinza quente espalhando, assadores sobre ela coloca. 
O nobre Aquiles, depois, espalhou sal divino na carne. 
Quando toda ela ficou bem assada, nos pratos a deita. 
Pão alvo, então, trouxe Pátroclo, em cestas de bela feitura, 
que sobre a mesa coloca; o Pelida reparte os assados, 
indo sentar-se, a seguir, encostado, no muro do fundo, 
em frente ao divo Odisseu. As primícias, então, manda Pátroclo,

seu companheiro, que aos deuses oferte; este, ao fogo as atira. 
Todos, as mãos estendiam, visando a alcançar as viandas. 
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado, 
ao forte Ajaz fez Fenice um sinal: Odisseu compreendeu-o; 
cheio de vinho um dos copos, a Aquiles, desta arte, saúda: 
   “Salve, Pelida! De lautos banquetes, de fato, não temos 
tido carência. Tal como os do filho de Atreu, Agamémnone, 
este que agora nos dás é notável, à vista da grande 
variedade de assados. Contudo, em festins não pensamos. 
Na expectativa de enormes desgraças, ó aluno de Zeus!

temos receio; é fatal o dilema: ou salvamos as naves, 
ou as perdemos, se não te vestires de toda a tua força.
Junto das naves, bem junto, e dos muros, o campo assentaram 
os orgulhosos Troianos e aliados de fama excelente. 
Por todo o exército queimam fogueiras sem conta. Mais ainda: 
dizem que nada os impede de ir ter aos navios escuros. 
Zeus poderoso lhes manda sinais favoráveis, fazendo 
que lhes troveje à direita. Ensoberba-se Heitor sem medida,
por sua grande bravura; confiando em Zeus forte, não teme 
deuses nem homens; terrível furor dele, agora, se apossa.² 
continua página 242...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto VIII.a / Canto VIII.b / Canto VIII.c / Canto IX.a / Canto IX .b /                                    
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] Este belo trecho da Ilíada (tradicionalmente situado no Canto IX, no qual os aqueus enfrentam um momento de profunda desesperança após reveses na guerra) apresenta um dos momentos mais dramáticos e reveladores da relação entre líderes, deuses e guerreiros na épica homérica.
* O Desespero dos Aqueus e a Comparação Homérica
A passagem começa contrapondo a vigília dos troianos ao pânico que consome os gregos (aqui chamados de Aquivos ou Acaios).
- O símile do oceano agitado: Para descrever a agitação no coração dos gregos, Homero recorre a uma de suas comparações mais expressivas da natureza. Os ventos violentos (Zéfiro e Bóreas) que agitam o mar piscoso e empurram as ondas e as algas espelham perfeitamente a mente coletiva dos aqueus: desordenada, revolta e instigada por forças externas maiores (neste caso, a pressão da derrota e a vontade divina).
- A vulnerabilidade dos heróis: É marcante ver que "até mesmo os mais destemidos guerreiros a dor os abate" e que o poderoso Agamenon (o filho de Atreu / o Atrida) chora copiosamente, comparado a uma "fonte profunda" de água escura que despenca de um penhasco. Na epopeia, o pranto dos reis não é sinal de fraqueza vergonhosa, mas a expressão legítima de uma dor trágica diante de um fardo intransponível.
* A Culpa Divina e a Proposta de Fuga de Agamenon
Agamenon encarna o peso da responsabilidade e a angústia da liderança sob o desígnio dos deuses:
- A ilusão do favor divino: O rei culpa Zeus (o grande Crônida), acusando-o de trair sua promessa de glória e retorno vitorioso após a queda de Troia (Ílio).
- O teste ou o desespero real: Agamenon propõe abertamente a retirada geral ("para o torrão de nascença fujamos nas céleres naves"). Embora por vezes se discuta se essa rendição inicial é um teste retórico para medir o ânimo das tropas, o texto transmite uma atmosfera de genuína prostração e exaustão física e mental após anos de cerco infrutífero.
* A Coragem e a Oposição de Diomedes
O silêncio mortal que se segue ao discurso de Agamenon é quebrado pela voz firme de Diomedes (filho de Tideu), um dos maiores heróis aqueus, cuja intervenção marca uma reviravolta moral no trecho:
- Franqueza e autoridade: Diomedes desafia a ordem estabelecida com ousadia, relembrando Agamenon de que, embora tenha recebido de Zeus o cetro do comando supremo, faltou-lhe a virtude mais essencial de um líder em tempos de crise: a coragem (alkē).
- A defesa do Kleos (Glória): Diomedes rejeita categoricamente a covardia e o retorno sem honra. Ele desafia Agamenon a ir embora se quiser, afirmando que ele e Esténelo (seu aliado) permanecerão lutando até destruir Troia, mesmo que todos os outros fujam.
- A reação do exército: A resposta de Diomedes funciona como um catalisador psicológico. A "grita estrondosa" de assentimento dos Aqueus mostra que o exército precisava resgatar sua dignidade guerreira, trocando o desespero paralisante pelo brio heroico.
   Este trecho ilustra magistralmente a tensão central da Ilíada: a fragilidade humana diante do destino e da vontade dos deuses, contraposta à ética inflexível da honra heroica. Enquanto Agamenon cede ao peso das circunstâncias e pensa na desistência, Diomedes ergue-se como o baluarte da resistência, reafirmando que o verdadeiro guerreiro homérico prefere perecer a aceitar uma vida sem glória.

[2] Este trecho complementa perfeitamente a leitura do Canto IX da Ilíada, transportando-nos para uma das cenas mais famosas e humanas da epopeia: a Embaixada a Aquiles.
   Enquanto a primeira passagem mostrava o pânico e o desespero do exército grego, este trecho revela a intimidade, a hospitalidade e a gravidade diplomática que ocorrem na tenda de Aquiles (o divino Pelida). A análise desta passagem desdobra-se nos seguintes aspectos fundamentais:
* O Banquete Heroico e a Hospitalidade (Xenia)
Antes que qualquer palavra sobre guerra e política seja trocada, Homero segue rigorosamente o código arcaico da hospitalidade (xenia): os hóspedes devem ser recebidos, alimentados e purificados antes de apresentarem suas demandas.
- O papel de Pátroclo: A figura de Pátroclo é central aqui. Ele atua como o braço direito leal, executando as ordens de Aquiles com presteza ("obedecendo ao amigo dileto"). A descrição minuciosa do abate, do corte das carnes (lombos de cabra, ovelha e o dorso de porco selvagem) e do preparo do fogo nos oferece um vislumbre fascinante dos rituais culinários da nobreza micênica.
- O Sagrado e o Profano: O ato de espalhar "sal divino" e de Pátroclo lançar as primícias ao fogo como oferenda aos deuses lembra que o banquete é também um ato religioso. A ordem social é mantida através do compartilhamento da comida e da bebida (cratera de vinho forte).
* A Quebra do Silêncio e a Retórica de Odisseu
Com o apetite saciado, o tom muda. Há um sinal sutil entre Fenice e Ajaz, e Odisseu (o divo Odisseu), conhecido por sua astúcia e eloqüência, toma a palavra para cumprir a missão mais difícil de sua vida: convencer Aquiles a retornar à batalha.
- Diplomacia e bajulação refinada: Odisseu começa reconhecendo a generosidade da mesa de Aquiles ("De lautos banquetes, de fato, não temos tido carência"), criando um ambiente de cortesia antes de expor a verdadeira urgência.
- O senso de iminência do perigo: Odisseu expõe a vulnerabilidade extrema dos aqueus. Os troianos avançaram, acamparam perto dos navios, queimam fogueiras e contam com o favor direto de Zeus (manifestado pelos trovões à direita).
- O apelo à responsabilidade de Aquiles: A fala de Odisseu prepara o terreno para o alerta definitivo: se Aquiles não vestir sua armadura e não usar sua força, a frota grega será destruída, selando o fracasso total da expedição.
   Enquanto no primeiro trecho Agamenon chorava e queria fugir, e Diomedes exigia bravura solitária, aqui percebe-se o momento de virada diplomática. Os líderes gregos engolem o orgulho e vão até a tenda daquele que haviam ofendido (Aquiles), implorando por sua ajuda. Este trecho é a calmaria tensa que antecede a famosa e intransigente recusa de Aquiles, marcando o ápice do conflito psicológico e do orgulho ferido que movem a tragédia homérica.


terça-feira, 27 de outubro de 2026

MPB: É preciso dar um jeito, meu amigo

Erasmo Carlos


Eu cheguei de muito longe
E a viagem foi tão longa
E na minha caminhada
Obstáculos na estrada
Mas enfim aqui estou

Mas estou envergonhado
Com as coisas que eu vi
Mas não vou ficar calado
No conforto, acomodado
Como tantos por aí

É preciso dar um jeito, meu amigo
É preciso dar um jeito, meu amigo
Descansar não adianta
Quando a gente se levanta
Quanta coisa aconteceu

As crianças são levadas
Pela mão de gente grande
Quem me trouxe até agora
Me deixou e foi embora
Como tantos por aí

É preciso dar um jeito, meu amigo
É preciso dar um jeito, meu amigo
Descansar não adianta
Quando a gente se levanta
Quanta coisa aconteceu

É preciso dar um jeito, meu amigo
É preciso dar um jeito, meu amigo
É preciso, sim
É preciso, sim
É preciso dar um jeito
É preciso dar um jeito, meu amigo
É preciso, sim
É preciso dar um jeito, meu amigo
É preciso, sim
É preciso, sim
É preciso, sim
É preciso dar um jeito, meu amigo, é preciso
É preciso, sim
É preciso, sim
É preciso dar um jeito
É preciso, sim

Meu amigo, meu amigo, é preciso dar um jeito
É preciso dar um jeito, meu amigo










"É PRECISO DAR UM JEITO, MEU AMIGO": 
eles ACORDARAM para realidade do Brasil (Roberto Carlos/Erasmo)




É preciso dar um jeito - Timbres, acordes e história!

Pessoal, o filme “Ainda estou aqui” tá estourado e no seu rastro de sucesso (e debates) está também de volta as paradas a música “É preciso dar um jeito meu amigo” do Erasmo que estes na trilha, e por conta disso, muitos pedidos me chagaram pra falar dos timbres e acordes dela, então tá aqui pra vocês!




Links de referência:
Meus Lados “B”: • Erasmo Carlos - Gente Aberta
“É preciso dar um jeito”: • É preciso dar um jeito meu amigo - Erasmo...
“Meus lados B - Pedais & Efeitos”: • Meus Lados B - Pedais & Efeitos
JHS “Colour Box”: • JHS Colour Box - Ep. 1
“Cachalote Audio “Console Preamp”: • Cachalote - Console Preamp
Modos Gregos: • Modos Gregos - Parte 1

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É preciso dar um jeito, meu amigo /     

Dante: A Divina Comédia - Canto V

Dante Alighieri

A Divina Comédia

Tradução do italiano, apresentação e notas de Eugênio Vinci de Moraes

INFERNO

Canto V (Prosa)

Dante passa do primeiro para o segundo círculo. Ali encontra o primeiro dos seres infernais: Minós, o demônio que julga as almas que chegam ao Inferno e indica em que círculo devem ser atiradas. No segundo círculo estão os condenados pelo pecado da luxúria. Seu castigo é serem açoitados por uma tempestade perpétua. Dante pergunta a Virgílio se pode conversar com alguma daquelas almas. Autorizado, ouve Francesca da Rimini, que gira pela tempestade agarrada a seu amante, Paolo Malatesta, contar a dolorosa história de sua culpa. Depois de ouvi-la, desmaia de compaixão.
     
     [1] Desci então do primeiro ao segundo círculo, onde o espaço se estreita, a dor se amplia e nos machucam os lamentos que ouvimos. Ali estava o horripilante Minós, que examina a culpa das almas que chegam e, rosnando, as julga e as envia para as fossas infernais. Quando a alma condenada surge diante dele, ela confessa todos seus pecados.¹ Ao conhecer a culpa de cada uma delas, Minós determina onde a alma deve ficar no Inferno. Ele faz isso enrolando a horrenda cauda até chegar ao número do círculo em que a alma deve ser atirada. Diante dele sempre há uma multidão de sombras, que, uma após a outra, confessam e ouvem a sentença depois da qual são jogadas no fosso. 
(1) “Dico, che quando l’anima mal nata...”, verso ligeiramente modificado por Machado de Assis, que o usou como epígrafe do romance Esaú e Jacó (1904).

     [16] – Ó tu que vens ao doloroso asilo – disse Minós, quando me viu, deixando de lado seu trabalho –, olha o que fazes e aquele em que te fias; não deixes a porta enorme pela qual entraste te enganar!
     E meu guia a ele:

– Por que gritas assim? Isso não impedirá que ele entre, pois quis assim quem está onde se pode fazer tudo que se deseja, e mais não digas.

     [25] Então comecei a ouvir os dolorosos gemidos. Estava no ponto onde a força do pranto tocava duro em minha alma. Era o lugar onde a luz cala e um mugido perene ressoa, tal como faz o mar durante a tempestade quando os ventos se combatem. O ventarrão infernal¹ que nunca cessa de carregar os espíritos em seu redemoinho e ainda os verga e os golpeia, molestando os. Quando chegam à beira do precipício, soltam gritos, gemidos e lamentos, e blasfemam contra a virtude divina. Compreendi então que essa era a forma do castigo destinado aos pecadores da carne, que submetem a razão ao desejo. Como as andorinhas que no inverno voam em bandos, formando fileiras largas e densas, assim iam aquelas almas más, jogadas para lá e para cá, para cima e para baixo, à força do sopro do redemoinho infernal. Nenhuma esperança as conforta, nem de pousar, nem de obter uma pena menor. Como os grous que ao mesmo tempo voam e cantam seus ais, traçando no ar uma longa linha, assim eu as vi, lamentando-se, enquanto eram levadas pela tempestade. Por isso, eu disse:
(1) Tradução de Mario de Andrade para “bufera infernale”.

– Mestre, quem é essa gente que o ar negro tanto castiga?
– A primeira entre elas – disse-me por partes – foi imperatriz de muitas estirpes. O vício da luxúria a deixou tão sem freios que, para remover qualquer culpa de seus atos, fez da libido lei. É Semíramis, de quem lemos ter sido esposa de Nino, a quem sucedeu para governar a Assíria, que hoje o Sultão governa. A outra ali é Dido, que se enamorou depois de viúva traindo as cinzas de Siqueu. A outra ali é a luxuriosa Cleópatra; e vê Helena, pela qual tantos reis brigaram, e também o grande Aquiles, que fez seu último combate apaixonado. Veja Páris, Tristão – e mais de mil sombras me mostrou e apontou-me com o dedo, sombras que desta vida partiram à força do amor.

     [70] Depois que ouvi o meu doutor nomear as damas e os cavalheiros da Antiguidade, fiquei comovido e quase sucumbi. Então comecei:

– Poeta, gostaria muito de falar com aqueles dois que vão abraçados parecendo mais leves e rápidos que os demais.

     Ele a mim:

– Presta a atenção à hora em que eles estiverem mais perto de nós e pede a eles pelo amor que os une, que eles te atenderão.

     Assim que o vento os aproximou de nós, falei-lhes:

– Ó almas fatigadas, vinde falar conosco, se nada vos impede!     

     Como pombas que voltam ao ninho, com as asas elevadas e firmes, guiadas pela vontade, voaram até nós saindo do grupo em que estava Dido. Tão forte e afetuoso foi nosso apelo que vieram pelo ar imundo.¹
(1) “[...] chegando ambos a nós pelo ar imundo”, tradução de Jorge Vanderley (2004, p. 107).

     [88] – Ó animal gracioso e benevolente que visita o ar fosco, nós que tingimos o mundo de sangue, se fôssemos amigos do rei do universo, pediríamos para ele a paz que desejas, pois tu te apiedas do nosso perverso mal. O que quiseres ouvir e falar nós falaremos e ouviremos enquanto o vento continuar assim, estático. Nasci na terra onde o rio Pó deságua para encontrar sossego junto com seus afluentes. Amor, que tão rápido toma o coração gentil, prendeu-me a esta bela pessoa que foi arrancada de mim; e o modo como isso aconteceu ainda me ofende. Amor, que a amado algum amar desobriga, me prendeu a ele com desejo tão forte que, como vês, ainda não me abandona. 13 O amor nos levou a uma mesma morte. A Caína, o nono círculo, espera aquele que apagou a chama de nossa vida – com estas palavras, narrou sua história.
     [109] Quando entendi o que aquelas almas suportavam, baixei a cabeça e assim a mantive até o poeta dirigir-se a mim:

– Em que pensas?

     Respondi:

– Ó dor, quantos pensamentos doces, quanto desejo levou os dois a dar esse doloroso passo!

     Em seguida, me voltei na direção deles e comecei:

– Francesca, teu martírio me deixa triste e penalizado. Mas diz-me: no tempo dos doces suspiros, a quem e como concedeste teu amor, quando conheceste os desejos duvidosos?

     E ela a mim:

– Nada dói mais do que recordar-se, na miséria, dos tempos felizes; e isso o teu doutor sabe muito bem. Mas se tens tanta vontade de conhecer a origem do nosso amor, eu te direi tudo, chorando e falando ao mesmo tempo. [124] Um dia líamos por deleite a história de Lancelote, de como o amor o coagia. Estávamos sozinhos, sem nada recear. Por várias vezes erguemos os olhos do livro e face a face nos encarávamos, até que uma hora fomos vencidos por isso. Enquanto líamos a cena em que a desejada boca de Guinevere era beijada por seu amante, Paolo, que nunca mais será separado de mim, beijou-me a boca todo trêmulo. O livro fez a nós o que Galeotto fez no romance, e daquele dia em diante não lemos nunca mais.¹
(1) Em Lancelote, romance anônimo do século XIII, Galeotto induz Guinevere a beijar Lancelote.

     [139] Enquanto uma alma nos contava, a outra chorava. E isso me fez sentir a morte por dentro. E caí como corpo morto cai.¹
(1) Versão do poeta Augusto de Campos (Invenção. São Paulo: Cia das Letras, 1986, p. 35) para o original “E caddi come corpo morto cade”.

continua na página....43

Canto V (Poesia)
Tradução Xavier Pinheiro

No ingresso do segundo círculo está Minos, que julga as almas e designa-lhes a pena. No repleno desse círculo estão os luxuriosos, que são continuamente arrebatados e atormentados por um horrível turbilhão. Aqui Dante encontra Francisca de Rimini, que lhe narra a história do seu amor infeliz.

     Desci desta arte ao círculo segundo, 
Que o espaço menos largo compreendia, 
3        Onde o pungir da dor é mais profundo. 
     Lá ‘stava Minos e feroz rangia: 
Examinava as culpas desde a entrada, 
6        Dava a sentença como ilhais cingia 
     Ante ele quando uma alma desditada 
Vem, seus crimes confessa-lhe em chegando, 
9        Com perícia em pecados consumada. 
     Lugar no inferno, Minos, lhe adaptando, 
Do abismo o circ’lo arbitra, a que pertença, 
12      Pelas voltas da cauda graduando. 
     Sempre muitas se lhe acham na presença; 
Cada qual tem sua vez de ser julgada, 
15      Diz, ouve, cai, se some sem detença. 
     Minos, logo me vendo, iroso brada, 
Do grave ofício no ato sobrestando: 
18      — “Ó tu, que vens das dores à morada; 
     “Olha como entras e em quem’stás fiando: 
Não te engane do entrar tanta largueza!” 
21      — “Por que falar” — meu guia diz — “gritando?” 
     “Vedar não tentes a fatal empresa: 
Assim se quer lá onde o que se ordena 
24      Se cumpre. Assaz te seja esta certeza!” 
     Eis já começo da infernal geena 
A ouvir os lamentos: sou chegado 
27      Onde intenso carpir me aviva a pena. 
     Em lugar de luz mudo tenho entrado: 
Rugia, como faz mar combatido 
30      Dos ventos, pelo ímpeto encontrado. 
     Da tormenta o furor, nunca abatido, 
Perpetuamente as almas torce, agita, 
33      Molesta, em seus embates recrescido. 
     Quando à borda do abismo as precipita, 
Ais, soluços, lamentos vão rompendo. 
36      Blasfema a Deus a multidão maldita. 
     Ouvi que estão no padecer horrendo 
Os que aos vícios da carne se entregavam, 
39      Razão aos apetites submetendo. 
     Quais estorninhos, que a voar se travam 
Em densos bandos na estação já fria, 
42      Em rodopio as almas volteavam, 
     Ao capricho do vento, que as trazia. 
De pausa não, de menos dor a esp’rança 
45      Conforto lhes não dá nessa agonia. 
     Como nos ares longa série avança 
De grous, que vão cantado o seu grasnido, 
48      Assim no gemer seu, que não descansa, 
     Traz o tufão as sombras desabrido. 
— “Mestre” — disse eu — “quais almas são aquelas 
51      Que o vendaval fustiga denegrido?” 
     — “A primeira — tornou Virgílio — “entre elas 
De quem notícias ter desejarias, 
54      Regeu nações, diversas nas loquelas. 
     “De luxúria fez tantas demasias 
Que em lei dispôs ser lícito e agradável 
57      Para desculpa às torpes fantasias. 
     “Semíramis chamou-se: o trono estável 
Herdou de Nino e foi a sua esposa. 
60      Do Soldão teve a terra memorável. 
     “A morte deu-se a outra, de amorosa, 
Às cinzas de Siqueu traidora e infida; 
63      Cleópatra após vem luxuriosa”. 
     Helena vi, a causa fementida 
De tanto mal, e Aquiles celebrado 
66      Que teve por amor a extrema lida. 
     Páris, Tristão e um bando assinalado 
De sombras me indicou, nomes dizendo, 
69      Que à sepultura amor tinha arrojado. 
     A compaixão me estava confrangendo, 
Dessas damas e antigos cavaleiros 
72      Nomes ouvindo e mágoas conhecendo. 
     Então disse eu: — “Poeta, aos companheiros 
Dois, que ali vêm, falar muito desejo: 
75      Ao vento ser parecem tão ligeiros!” 
     “Hás de ter” — me tornou — “azado ensejo, 
Quando forem mais perto; então lhes pede 
78      Pelo amor que nos uniu: virão sem pejo”. — 
     Quando acercar-se o vento lhes concede 
A voz alcei: — “Ó! vinde, almas aflitas, 
81      Falar-nos, se alta lei não vo-lo impede”. — 
     Quais pombas, que saudosas de asas fitas, 
Ao doce ninho, em voo despedido, 
84      Vão pelo ar, aos desejos seus adstritas: 
     Tais saíram da turba, em que era Dido, 
A nós as duas sombras se inclinando, 
87      Tanto as moveu da voz o tom sentido! 
     — “Entre beni’no, compassivo e brando, 
Que nos vem visitar por este ar perso, 
90      Tendo nós dado o sangue ao mundo infando, 
     “Seu amigo o Senhor fosse do universo, 
Da paz aos rogos nossos, gozarias, 
93      Pois te enternece o nosso mal perverso. 
     “Enquanto o vento é quedo, o que dirias 
Havemos nós de ouvir atentamente; 
96      Diremos quanto ouvir desejarias
     “Onde, a paz desejando, o Pado ingente 
Com seus vassalos para o mar descende, 
99      A terra, em que hei nascido, está jacente. 
     “Amor, que os corações súbito prende, 
Este inflamou por minha formosura, 
102    Que roubaram-me: o modo inda me ofende. 
     “Amor, em paga exige igual ternura, 
Tomou por ele em tal prazer meu peito, 
105    Que, bem o vês, eterno me perdura. 
     “Amor nos igualou da morte o efeito: 
A quem no-la causou, Caína, esperas”. 
108    Após tais vozes foi silêncio feito. 
     Daquelas almas as angústias feras 
Em meditar amargo a fronte inclino 
111    Té que o Mestre exclamou: “Que consideras?” 
     Quando pude, falei: “Cruel destino! 
Que doce cogitar! Que meigo encanto, 
114    Precederam do par o fim maligno!” — 
     Aos dois voltei-me e disse-lhes, entanto: 
“Teus martírios, Francesca, me angustiam, 
117    Movem-me o triste, compassivo pranto. 
     “Quando os doces suspiros só se ouviam, 
Como, em que Amor mostrar-vos há querido 
120    Os desejos, que ainda se escondiam?” — 
     — “Não há” — disse — “tormento mais dorido 
Que recordar o tempo venturoso 
123    Na desgraça. Teu Mestre o tem sentido. 
     “Mas porque de saber és desejoso, 
Como nasceu a flor do nosso afeto, 
126    Direi chorando o lance lastimoso. 
     “Por passatempo eu lia e o meu dileto 
De Lanceloto extremos namorados; 
129    Éramos sós, de coração quieto. 
     “Nossos olhos, por vezes encontrados, 
Cessam de ler; ao gesto a cor mudara. 
132    Um ponto só deu causa aos nossos fados. 
     “Ao lermos que nos lábios osculara 
O desejado riso, o heroico amante, 
135    Este, que mais de mim se não separa, 
     “A boca me beijou todo tremante, 
De Galeotto fez o autor e o escrito. 
138    Em ler não fomos nesse dia avante”. 
Enquanto a história triste um tinha dito,
Tanto carpia o outro, que eu, absorto 
Em piedade, senti letal conflito, 
142    E tombei, como tomba corpo morto.

continua na página... 52
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— 4. Minos, rei de Creta e que na mitologia pagã era juiz do Inferno. 
— 58. Semíramis, rainha de Babilônia, viúva do rei Nino. 
— 61. Dido, rainha de Cartago, que amou a Eneias. 
— 63. Cleópatra, rainha do Egito. 
— 64. Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta que causou a guerra de Troia. 
— 67. Páris e Tristão, cavaleiros dos romances medievais. 
— 73. Companheiros dois, Francisca de Rimini e Paulo Malatesta, que foram mortos por Gianciotto Malatesta, marido de Francisca e irmão de Paulo, por eles terem ficado apaixonados um pelo outro.  
— 89. Que nos vem visitar por este ar perso, A expressão "ar perso" merece atenção. O adjetivo italiano original é perso, que significa algo como escuro, sombrio, de cor azul-escura ou cinzenta. Nos tradutores clássicos do português, costuma ser mantido como "perso" para preservar o sabor poético do texto. Portanto, "por este ar perso" significa aproximadamente: "por este ar escuro", "por esta atmosfera sombria", "por este ambiente tenebroso". Francesca está se admirando de que um homem vivo, bondoso e compassivo, tenha descido até aquele lugar sombrio do Inferno para visitar os condenados.
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A Divina Comédia
Inferno
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