Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Canto IX - Honra para Aquiles e Preces
“Agamémnone forma um conselho e sugere, desesperado, o retorno à Grécia. Diomedes e Nestor o acusam de covardia e de injustiça com o melhor dos Gregos, Aquiles. Agamémnone concorda e resolve devolver Briseide a Aquiles junto com uma grande recompensa. É enviada uma comissão, composta por Odisseu, Ajaz e Fenice, a Aquiles. Odisseu e Fenice conversam com Aquiles, que se mostra inflexível. Diomedes reanima os Gregos.”
continuando...
Pede e deseja que a Aurora divina depressa apareça,
e, ameaçador, já promete cortar os aplustres das naves,
a estas destruir pelo fogo voraz, e os guerreiros Aquivos,
pela fumaça estonteados, matar junto às naves simétricas.
Grande receio de mim se apodera, que os deuses permitam
que essas ameaças se cumpram, se acaso assentou o Destino
que longe de Argos fecunda morramos, nos campos de Troia.
Vamos, levanta-te, caso tenciones salvar os Aquivos,
ainda que tarde, da grande pressão dos guerreiros Troianos.
Grande aflição tu, também, hás de ter, que é impossível remédio
como se possam livrar os Acaios do dia funesto.
Lembra-te, caro, de quanto te disse Peleu no momento
em que de Ftia te enviou para o filho de Atreu, Agamémnone:
‘Filho querido, Hera e Atena te deem força ingente, no caso
de o desejarem; mas seja teu firme propósito o orgulho
na alma refrear. É melhor que te mostres em tudo mais brando.
A Ira, fautora de males, de ti sempre afasta que possam
moços e velhos Aqueus conceder-te atenção respeitosa.’
Esse, o conselho do velho, de que te esqueceste. Refreia
a ira que tua alma consome. Agamémnone manda ofertar-te
a ira que tua alma consome. Agamémnone manda ofertar-te
dons preciosíssimos, caso aplacares a cólera grande.
Se te encontrares disposto a escutar-me, dir-te-ei tudo quanto
ele, hoje mesmo, na tenda nos disse que havia de dar-te:
“Trípodes sete, sem uso de fogo, dez áureos talentos,
vinte caldeiras brilhantes e doze cavalos robustos
acostumados a prêmios ganhar, campeões de corrida.
Fora impossível dizer que de campos aráveis carece,
ou do ouro muito apreciado, o indivíduo que vier a possuí-los,
tal a importância dos prêmios que os fortes corcéis lhe ganharam.
Dá-te, outrossim, sete escravas prendadas, trazidas de Lesbo,
Dá-te, outrossim, sete escravas prendadas, trazidas de Lesbo,
quando tu próprio aquela ilha arrasaste; ficaram para ele,
por serem todas formosas acima das outras mulheres.
Tuas serão; mais ainda: acrescenta a Briseide, formosa,
que te tirara, fazendo, de grado, uma jura solene
de nunca ter ao seu leito subido, nem com ela deitado,
como é de costume, ó Pelida! varões a mulheres se unirem.
Isso dar-te-á desde já; mas se os deuses eternos, um dia,
nos permitirem tomar a cidade altanada de Príamo,
hás de presente ficar quando a presa os Aqueus dividirmos,
e de ouro e bronze a mancheias prover teu navio bojudo.
e de ouro e bronze a mancheias prover teu navio bojudo.
Vinte mulheres Troianas, também, ficarão à tua escolha,
as mais formosas depois da mais bela de todas, Helena.
Se para os campos ubérrimos de Argos de Acaia voltarmos,
genro hás de ser-lhe; honrar-te-á, sem fazer distinção, como a Orestes,
seu filho amado, que vive cercado de grande opulência.
Três filhas tem em seu bem-construído palácio: Crisótemis,
Ifianassa e Laódice. Aquela que for de teu gosto,
sem que te vejas forçado a pagar dote algum, para casa
podes levar de Peleu. Preciosíssimos dons te oferece
e em tanta cópia, tal como jamais alcançou filha alguma.
Sete cidades também te dará, populosas e belas:
Hira de prados ervosos, Enope e, também, Cardamila,
Feras divina, a dos prados famosos e pingues, Anteia,
Pédaso, célebre por suas vinhas, e Epeia risonha,
todas marinhas, não longe da Pilo de solo arenoso.
Muitos senhores de gado infinito e de armentos vistosos
nelas demoram, que, certo, honrar-te-ão qual um deus do alto Olimpo,
e que, ao teu cetro submissos, tributos dar-te-ão copiosíssimos.
Tudo isso, disse, dar-te-á, se acalmares tua cólera grande,
mas, se no peito só abrigas rancor contra o Atrida Agamémnone
mas, se no peito só abrigas rancor contra o Atrida Agamémnone
e seus presentes, apiada-te ao menos da grande apertura
de todo o exército. Qual um dos deuses serás venerado
pelos Aqueus e hás de glória infinita alcançar entre todos.
Ora te fora possível prender esse Heitor, que funesta
raiva conduz para perto de ti e se diz, jactancioso,
muito mais forte que quantos Aqueus nossas naus conduziram.”¹
Disse-lhe Aquiles, de rápidos pés, em resposta, o seguinte:
“Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso,
é necessário dizer-vos, agora, com toda a clareza,
meu pensamento e a intenção em que me acho de em prática pô-lo,
para evitar que aturdir não me venham de todos os lados.
Tal como do Hades as portas, repulsa me causa a pessoa
que na alma esconde o que pensa e outra coisa na voz manifesta.
Ora pretendo falar como julgo ser mais proveitoso.
Nem Agamémnone, certo, nem outro qualquer dos Aquivos,
conseguirá convencer-me, pois graça nenhuma me veio
de meu esforço incessante ao lutar contra os nossos imigos.
Tanto ao ocioso, que ao mais esforçado, iguais prêmios são dados;
as mesmas honras se outorgam ao fraco e ao herói mais galhardo.
Morre da mesma maneira o inativo e o esforçado guerreiro.
Vede! Nenhuma vantagem me veio de tantos trabalhos,
a pôr em risco a existência nos mais temerosos combates.
Tal como aos filhos implumes costumava levar a avezinha
grato alimento depois de o encontrar, sem que em si mesma pense:
de igual maneira tenho eu muitas noites insones passado
e dias cheios de sangue no horror dos combates, lutando
contra inimigos, somente por causa de suas mulheres.
Com minhas naus destruí doze grandes e fortes cidades,
e onze por terra, asseguro-o, nos plainos fecundos de Troia
De todas elas voltei carregado de espólio magnífico,
que, sempre, ao filho de Atreu, Agamémnone, era uso, levava,
o qual soía ficar para trás, junto às céleres naves.
Disso, bem pouco entre nós dividia; ficava com tudo,
do que, depois, presenteava os heróis mais distintos e os chefes.
Estes, ainda conservam seus prêmios; eu, só dos Aquivos
fui despojado; tirou-me a querida consorte. Pois goze-a!
durma com ela! Qual foi o motivo de Aqueus e Troianos
digladiarem? Por que tanta gente reuniu Agamémnone
e para cá transportou? Não por causa de Helena formosa?
Ou, porventura, entre os homens, somente os Atridas demonstram
ter às esposas afeto? Qualquer indivíduo de senso
e bem-nascido, à consorte demonstra afeição, como o faço,
que a minha muito adorava, apesar de ser presa de guerra.
Ora que veio enganar-me, tirando-me o prêmio devido,
não julgue nunca poder convencer-me, pois bem o conheço;
mas, juntamente contigo, Odisseu, e os demais comandantes,
pense no modo de as naves livrar da voragem do fogo.
Sem meu auxílio já pôde fazer muitas coisas grandiosas;
sim, conseguiu construir esse muro e, ainda mais, protegido
por fosso largo e profundo, provido de fortes estacas.
por fosso largo e profundo, provido de fortes estacas.
Mas nem assim pode a força deter desse Heitor homicida.
Enquanto parte eu tomava nas lutas, ao lado dos outros,
nunca ele quis combater muito longe dos muros de Troia.
Té às Portas Ceias chegava e à figueira que perto lhe fica,
onde, uma vez, me esperou; por bem pouco escapou de meu ímpeto.
Ora que nada me induz a lutar contra Heitor, o divino,
cedo, amanhã sacrifícios farei a Zeus grande e aos eternos,
e deitarei meus navios nas ondas, depois de providos.
Tu próprio, certo, hás de ver, se o quiseres e se isso te importa
pelo Helesponto piscoso, bem cedo, eles todos partirem
e, neles, homens alegres, à força de remo impelindo-os.
E se Posido, que a terra sacode, nos der ventos prósperos,
no solo fértil de Ftia estaremos no dia terceiro.
Quando, por minha desgraça, parti, lá deixei bens inúmeros,
que aumentarei com o que levo, muito ouro e, também, bronze rubro,
ferro brilhante e formosas escravas de bela cintura,
quanto ganhei nas partilhas. O que ele, o possante Agamémnone,
me tinha dado, valendo-se agora da força, tomou-me.
Publicamente lhe faze um relato completo de tudo
quanto te disse, porque outros Acaios, também, se revoltem,
caso ele tenha intenção de enganar mais alguém entre os Dânaos,
com sua usual imprudência. Contudo, não teve coragem,
esse cachorro, de olhar-me, apesar de despido de brio.
Cooperação é impossível haver, por palavras ou obras,
pois me enganou e ofendeu. Não me venha enganar novamente
com seus discursos inúteis. Já basta! Sozinho, acompanhe
o seu destino funesto; do senso o privou Zeus potente.
São-me seus brindes odiosos e abaixo do mínimo preço.
Ainda que o décuplo viesse ofertar-me e até mesmo outro tanto,
quanto possui no presente e o que possa ganhar em futuro,
as coisas todas que afluem para Orcómeno ou para a famosa
Tebas Egípcia, onde as casas pejadas de bens sempre se acham,
e que cem portas ostenta, cada uma das quais dá passagem
a combatentes duzentos, seus carros de guerra e cavalos;
ainda que mais me ofertasse que a poeira ou que a areia das praias,
nem mesmo assim poderia a vontade dobrar-me, Agamémnone,
sem que, primeiro, té o fim, tal ofensa pesada me pague.
Com a donzela do Atrida jamais firmarei sacras núpcias,
mesmo que fosse dotada de encantos, como a áurea Afrodite,
e à de olhos glaucos, Atena, igualar-se em trabalhos de preço
não a quisera esposar. Entre os moços Acaios deve ele
genro escolher que lhe seja condigno e de igual importância.
Se eu conseguir, com a ajuda dos deuses, voltar para a pátria,
há de Peleu, por sem dúvida, esposa saber escolher-me.
Muitas donzelas Acaias em Ftia se encontram, e na Hélade,
filhas de grandes heróis, defensores de nossas cidades.
Da que me for mais do agrado, farei minha fiel companheira.
O coração generoso já mostra desejos, há muito,
de que legítima esposa, afinal, a escolher me resolva,
para gozar das riquezas que o velho Peleu tem em casa.
A minha vida, sem dúvida, vale bem mais do que quanto
dizem que Troia possuía, a cidade de belo traçado,
antes, em tempo de paz, sem que houvessem chegado os Aquivos
e dos tesouros que dentro se encontram da pétrea soleira
de Febo Apolo, o frecheiro esplendente, na rocha de Pito.
Arrebanhar bois tardonhos e ovelhas vistosas é fácil,
trípodes belas comprar ou cabeças de louros ginetes;
mas a alma humana, uma vez escapada do encerro dos dentes,
não mais se deixa prender, sem podermos, de novo, ganhá-la.
Tétis, a deusa dos pés argentinos, de quem fui nascido,
já me falou sobre o dúplice Fado que à Morte há de dar-me;
se continuar a lutar ao redor da cidade de Troia,
não voltarei mais à pátria, mas glória hei de ter sempiterna;
se para casa voltar, para o grato torrão de nascença,
da fama excelsa hei de ver-me privado, mas vida mui longa
conseguirei, sem que o temor da Morte mui cedo me alcance.
A todos vós quero dar o conselho, também, de embarcardes
e para a pátria seguirdes; jamais podereis ver o termo
de Ílio escarpada, que a mão protetora sobre ela Zeus grande,
de voz potente, estendeu, reforçando a coragem do povo.
Ide, entretanto, anunciar aos mais nobres guerreiros Aquivos
minha resposta — que é esse o dever dos anciões do conselho —,
para que possam pensar noutro plano de mais eficiência,
que lhes permita salvar os navios e os homens que se acham
junto das naves recurvas, que o que eles, agora, tentaram,
é impraticável; não tenho intenção de afrouxar do propósito.
Deixe-se, entanto, Fenice ficar entre nós esta noite,
para que possa, amanhã, retornar para a pátria, se acaso
for do seu gosto; a ninguém levarei contra a própria vontade.”
Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram,
estupefatos perante a violência de sua resposta,
té que, chorando, a falar começou o ginete Fenice,
pois tinha muito receio que às naus algum mal sucedesse:
“Se, nobre Aquiles, de fato, pretendes voltar para a pátria,
e te recusas, de todo, a livrar os navios Acaios
do voraz fogo, uma vez que ainda a cólera o peito te inflama,
como é possível, meu filho, pensares que eu possa ter vida
longe de ti? Por Peleu fui mandado seguir-te, no dia
em que de Ftia te enviou para o filho de Atreu, Agamémnone,
ainda na infância, igualmente inexperto nas guerras penosas
e nos discursos das ágoras, onde os heróis se enaltecem.
Sua intenção foi que viesse contido, porque te ensinasse
como dizer bons discursos e grandes ações pôr em prática.
Por isso tudo, meu filho, sem ti continuar não desejo,
ainda que um deus, em pessoa, me viesse fazer a promessa
de me tirar a velhice e, de novo, o vigor restituir-me
da mocidade que na Hélade tinha, de belas mulheres,
quando fugi, por brigar com meu pai, filho de Ormeno, Amíntor,
que ódio me tinha por causa da amante de belos cabelos.
A essa, afeição dedicava, esquecendo a consorte legítima,
A essa, afeição dedicava, esquecendo a consorte legítima,
que me era mãe e vivia a pedir-me, abraçando-me os joelhos,
que à bela escrava eu me unisse, porque esta voltasse ódio ao velho.
Obedeci-lhe, alcançando o almejado. Meu pai, quando o soube,
amaldiçoou-me, e chamou contra mim as odiosas Erínias,
para que nunca tivesse nos joelhos um neto a brincar-lhe,
de mim nascido; atenderam-lhe a súplica os deuses eternos,
Hades, o deus subterrâneo, e Perséfone, deusa terrível.
Tive o desígnio de a vida tirar-lhe com bronze afiado;
mas a ira um deus me acalmou, dando-me azo, a que, então, refletisse
na triste fama com que passaria a viver entre o povo,
se ‘parricida’ ao meu nome juntasse entre os homens da Acaia.
O coração, no imo peito, não quis que, por tempo mais longo,
me demorasse na casa em que odioso ao meu pai me tornara,
ainda que muitos parentes e primos assaz se esforçassem
à minha volta, com o fim de evitar que deixasse o palácio.
Muitas ovelhas vistosas e bois que se arrastam tardonhos
sacrificaram, e infindos cevados de flórido lardo,
que, para assarem, passavam por cima da chama de Hefesto.
Quantos pichéis de bom vinho do velho infeliz não beberam?
Por nove noites seguidas dormiram alguns ao meu lado,
a se alternarem na guarda e mantendo dois fogos constantes,
um, junto ao pórtico, dentro do pátio de cerca bem-feita,
e no vestíb’lo, o segundo, defronte da porta do quarto.
Mas, quando a décima noite, afinal, tenebrosa nos chega,
uma das sólidas portas do quarto arrombar, enfim, pude,
e do aposento esgueirar-me, saltando o cercado do pátio,
sem que o advertissem os guardas nem mesmo as serventes da casa.
Daí, fugitivo, percorro toda a Hélade de amplas estradas,
té dar no solo fecundo de Ftia, nutriz de rebanhos,²
[1] Trata-se do discurso de Odisseu (Ulisses) quando este, liderando a embaixada enviada por Agamémnone, tenta convencer Aquiles (o Pelida) a depor sua ira (mênis), aceitar os ricos presentes de reconciliação e retornar ao combate para salvar os aqueus (gregos) que sofrem grandes perdas nas mãos de Heitor e dos troianos.
A Embaixada a Aquiles: O texto reproduz as palavras exatas que Agamémnone prometera dar a Aquiles para aplacar seu orgulho ferido — uma compensação monumental que incluía:
- Riquezas materiais: Trípodes, talentos de ouro, caldeiras e doze cavalos corredores vitoriosos.
- Espólios e prisioneiros: Sete escravas de Lesbo e a própria Briseide (com o solene juramento de que Aquiles jamais havia tocado nela).
- Futuras riquezas em Troia: A promessa de uma parte avantajada do tesouro quando a cidade de Príamo finalmente caísse, incluindo vinte mulheres troianas à sua escolha.
- Aliança familiar e terras: A mão de uma das filhas de Agamémnone (Crisótemis, Ifianassa ou Laódice) em casamento, sem exigência de dote, além da posse de sete cidades costeiras ricas e populosas próximas a Pilos.
O Apelo Final: O mensageiro apela ao brio e à compaixão de Aquiles pelos companheiros gregos sitiados, lembrando-lhe também a glória imorredoura que ganharia se derrotasse o herói troiano Heitor.
Para compreender a profundidade deste discurso, vale a pena analisar o seu contexto, o significado dos presentes e a dimensão trágica da recusa de Aquiles.
* O Contexto Dramático
- A Crise dos Aqueus: O exército grego está à beira da ruína. Sem Aquiles em campo — que se retirara ofendido e furioso após Agamémnone lhe ter tomado a cativa Briseide no Canto I —, os troianos, liderados por Heitor, romperam as fortificações e ameaçam incendiar os navios gregos.
- A Desesperação de Agamémnone: Vendo a iminência de uma derrota catastrófica, Agamémnone reconhece finalmente o seu erro (a até, a cegueira ou loucura temporária enviada pelos deuses) e concorda em ceder, enviando uma embaixada composta por Odisseu, Fénix e Ájax para oferecer uma reparação monumental a Aquiles.
* A Oferta Exorbitante
A lista de bens lida por Odisseu (que reproduz as palavras de Agamémnone) é expressivamente exagerada para os padrões da Idade do Bronze ou mesmo da época homérica. Ela simboliza não só a riqueza material, mas a honra (timé) que Agamémnone tenta devolver a Aquiles:
- Riquezas imediatas: Os tripodes, os talentos de ouro e as caldeiras eram os tesouros de prestígio da aristocracia heroica. Os cavalos rápidos (campeões de corrida) eram particularmente valiosos para heróis que combatiam em carros de guerra.
- A devolução de Briseide: O juramento solene de que Briseide nunca fora tocada por Agamémnone serve para restaurar a integridade física e simbólica de Aquiles, cuja honra fora maculada publicamente.
continua página 250...
_________________
A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a / Canto II.b / Canto II.c / Canto II.d /
Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c /
Canto VI.a / Canto VI.b /
Canto VIII.a / Canto VIII.b / Canto VIII.c / Canto IX.a / Canto IX.b / Canto IX.c /
_________________
A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
________________[1] Trata-se do discurso de Odisseu (Ulisses) quando este, liderando a embaixada enviada por Agamémnone, tenta convencer Aquiles (o Pelida) a depor sua ira (mênis), aceitar os ricos presentes de reconciliação e retornar ao combate para salvar os aqueus (gregos) que sofrem grandes perdas nas mãos de Heitor e dos troianos.
A Embaixada a Aquiles: O texto reproduz as palavras exatas que Agamémnone prometera dar a Aquiles para aplacar seu orgulho ferido — uma compensação monumental que incluía:
- Riquezas materiais: Trípodes, talentos de ouro, caldeiras e doze cavalos corredores vitoriosos.
- Espólios e prisioneiros: Sete escravas de Lesbo e a própria Briseide (com o solene juramento de que Aquiles jamais havia tocado nela).
- Futuras riquezas em Troia: A promessa de uma parte avantajada do tesouro quando a cidade de Príamo finalmente caísse, incluindo vinte mulheres troianas à sua escolha.
- Aliança familiar e terras: A mão de uma das filhas de Agamémnone (Crisótemis, Ifianassa ou Laódice) em casamento, sem exigência de dote, além da posse de sete cidades costeiras ricas e populosas próximas a Pilos.
O Apelo Final: O mensageiro apela ao brio e à compaixão de Aquiles pelos companheiros gregos sitiados, lembrando-lhe também a glória imorredoura que ganharia se derrotasse o herói troiano Heitor.
Para compreender a profundidade deste discurso, vale a pena analisar o seu contexto, o significado dos presentes e a dimensão trágica da recusa de Aquiles.
* O Contexto Dramático
- A Crise dos Aqueus: O exército grego está à beira da ruína. Sem Aquiles em campo — que se retirara ofendido e furioso após Agamémnone lhe ter tomado a cativa Briseide no Canto I —, os troianos, liderados por Heitor, romperam as fortificações e ameaçam incendiar os navios gregos.
- A Desesperação de Agamémnone: Vendo a iminência de uma derrota catastrófica, Agamémnone reconhece finalmente o seu erro (a até, a cegueira ou loucura temporária enviada pelos deuses) e concorda em ceder, enviando uma embaixada composta por Odisseu, Fénix e Ájax para oferecer uma reparação monumental a Aquiles.
* A Oferta Exorbitante
A lista de bens lida por Odisseu (que reproduz as palavras de Agamémnone) é expressivamente exagerada para os padrões da Idade do Bronze ou mesmo da época homérica. Ela simboliza não só a riqueza material, mas a honra (timé) que Agamémnone tenta devolver a Aquiles:
- Riquezas imediatas: Os tripodes, os talentos de ouro e as caldeiras eram os tesouros de prestígio da aristocracia heroica. Os cavalos rápidos (campeões de corrida) eram particularmente valiosos para heróis que combatiam em carros de guerra.
- A devolução de Briseide: O juramento solene de que Briseide nunca fora tocada por Agamémnone serve para restaurar a integridade física e simbólica de Aquiles, cuja honra fora maculada publicamente.
- A promessa do futuro e o poder político: Oferecer uma filha em casamento sem dote, ligando Aquiles à família real de Micenas, e doar sete cidades costeiras ricas equivalia a transformá-lo num rei com domínios vastos e vassalos próprios.
* O Dilema de Aquiles e a Rejeição
Apesar da grandeza espantosa da oferta, a resposta imediata de Aquiles no Canto IX é de recusa implacável.
O Choque de Valores: Aquiles percebe que nenhum tesouro material pode compensar a humilhação pública que sofreu nem o tempo de vida que perderá. Ele vive o famoso dilema do geras (a honra expressa em espólios) e o seu destino profetizado:
- Se ficar em Troia a combater, ganhará glória imortal (kleos asthiton), mas morrerá jovem.
- Se regressar a casa para a Fítia, terá uma vida longa e pacífica, mas o seu nome cairá no esquecimento.
A Irreversibilidade da Ira: Para Aquiles, as palavras de Agamémnone chegam tarde demais. A sua cólera (mênis) transcende a política ou a ganância; tornou-se uma questão existencial de princípio e de revolta contra a injustiça do próprio comando aqueu.
[2] Este belíssimo trecho dá continuidade ao Canto IX da Ilíada, mudando o foco para o discurso de Fénix, o velho mestre, aia e figura paterna de Aquiles. Enquanto Odisseu apelou à razão e às vantagens materiais da oferta de Agamémnone, Fénix recorre à emoção, à culpa e à biografia pessoal, tentando dobrar o coração irredutível do herói através da força do afeto.
Principais Aspetos do Discurso de Fénix:
* O Vínculo Afetivo e o Dever Moral: Fénix lembra a Aquiles que foi encarregado por Peleu (pai de Aquiles) de o acompanhar a Troia ainda em criança, para o ensinar a ser um orador de excelência e um homem de ação. Por esse motivo, Fénix afirma categoricamente que não conseguiria viver sem Aquiles, recusando-se a abandoná-lo, mesmo que os deuses lhe rejuvenescessem e lhe devolvessem a mocidade.
* A História Pessoal de Fénix (O Exílio): Para ilustrar a profundidade da lealdade e a gravidade de uma ofensa familiar, Fénix revela a sua própria tragédia:
- Conta como brigou com o seu pai, Amíntor, por causa da concubina deste (a pedido da própria mãe de Fénix, que desejava afastar a rival).
- Devido a isso, foi amaldiçoado pelo pai e votado a nunca ter descendência ("nunca tivesse nos joelhos um neto a brincar-lhe").
- Este paralelo é subtil e poderoso: Fénix, que foi rejeitado e exilado pelo próprio pai, encontrou em Aquiles o filho que nunca pôde criar, tornando-se o seu verdadeiro pai adotivo.
* A Fuga e o Refúgio em Fítia: O relato detalha a sua fuga dramática de casa, a resistência dos familiares para o impedir de partir, e como acabou por chegar ao reino de Peleu, onde foi acolhido de braços abertos.
A confissão de Fénix é uma das passagens mais humanas de toda a Ilíada. Mostra que a guerra de Troia não é apenas feita de ferro, sangue e glória, mas também de laços de profunda dependência afetiva.
Apesar de toda esta carga emocional e da confissão de amor paternal, Aquiles continuará, para já, irredutível na sua decisão de não voltar ao combate imediato, demonstrando a dimensão absoluta e trágica da sua cólera.
* O Dilema de Aquiles e a Rejeição
Apesar da grandeza espantosa da oferta, a resposta imediata de Aquiles no Canto IX é de recusa implacável.
O Choque de Valores: Aquiles percebe que nenhum tesouro material pode compensar a humilhação pública que sofreu nem o tempo de vida que perderá. Ele vive o famoso dilema do geras (a honra expressa em espólios) e o seu destino profetizado:
- Se ficar em Troia a combater, ganhará glória imortal (kleos asthiton), mas morrerá jovem.
- Se regressar a casa para a Fítia, terá uma vida longa e pacífica, mas o seu nome cairá no esquecimento.
A Irreversibilidade da Ira: Para Aquiles, as palavras de Agamémnone chegam tarde demais. A sua cólera (mênis) transcende a política ou a ganância; tornou-se uma questão existencial de princípio e de revolta contra a injustiça do próprio comando aqueu.
[2] Este belíssimo trecho dá continuidade ao Canto IX da Ilíada, mudando o foco para o discurso de Fénix, o velho mestre, aia e figura paterna de Aquiles. Enquanto Odisseu apelou à razão e às vantagens materiais da oferta de Agamémnone, Fénix recorre à emoção, à culpa e à biografia pessoal, tentando dobrar o coração irredutível do herói através da força do afeto.
Principais Aspetos do Discurso de Fénix:
* O Vínculo Afetivo e o Dever Moral: Fénix lembra a Aquiles que foi encarregado por Peleu (pai de Aquiles) de o acompanhar a Troia ainda em criança, para o ensinar a ser um orador de excelência e um homem de ação. Por esse motivo, Fénix afirma categoricamente que não conseguiria viver sem Aquiles, recusando-se a abandoná-lo, mesmo que os deuses lhe rejuvenescessem e lhe devolvessem a mocidade.
* A História Pessoal de Fénix (O Exílio): Para ilustrar a profundidade da lealdade e a gravidade de uma ofensa familiar, Fénix revela a sua própria tragédia:
- Conta como brigou com o seu pai, Amíntor, por causa da concubina deste (a pedido da própria mãe de Fénix, que desejava afastar a rival).
- Devido a isso, foi amaldiçoado pelo pai e votado a nunca ter descendência ("nunca tivesse nos joelhos um neto a brincar-lhe").
- Este paralelo é subtil e poderoso: Fénix, que foi rejeitado e exilado pelo próprio pai, encontrou em Aquiles o filho que nunca pôde criar, tornando-se o seu verdadeiro pai adotivo.
* A Fuga e o Refúgio em Fítia: O relato detalha a sua fuga dramática de casa, a resistência dos familiares para o impedir de partir, e como acabou por chegar ao reino de Peleu, onde foi acolhido de braços abertos.
A confissão de Fénix é uma das passagens mais humanas de toda a Ilíada. Mostra que a guerra de Troia não é apenas feita de ferro, sangue e glória, mas também de laços de profunda dependência afetiva.
Apesar de toda esta carga emocional e da confissão de amor paternal, Aquiles continuará, para já, irredutível na sua decisão de não voltar ao combate imediato, demonstrando a dimensão absoluta e trágica da sua cólera.