quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Sarau... Bestiário (01) - (Julio Cortázar)

Bestiário




Julio Cortázar
(1914-1984)




Entre a última colherada de arroz doce - canela um pouco, uma pena - e os beijos antes de deitar, tocou a campainha da sala do telefone e Isabel demorou-se até que Inés veio atender e lhe disse alguma coisa ao ouvido. Eles se entreolharam e depois os dois se olharam para Isabel, que pensou na gaiola quebrada e nas contas a se dividir e um pouco na raiva de Misia Lucera por tocar a campainha depois da escola. Ela não estava tão inquieta, sua mãe e Inês olharam para além delas, quase tomando-a como pretexto; mas eles olharam para ela.

"Acredite em mim, não gosto que ela vá", disse Ines. Nem tanto para o tigre, afinal eles cuidam bem desse aspecto. Mas a casa tão triste, e aquele menino só pra brincar com ela ...

"Eu também não gosto", disse a mãe, e Isabel sabia por um slide que a mandariam para Funes passar o verão. Ele se jogou no noticiário, na grande onda verde, sobre Funes, sobre Funes, claro que mandaram. Eles não gostaram, mas era conveniente. Brônquios delicados, Mar del Plata caríssimo, difícil de lidar com uma menina mimada e boba, comportamento regular de como é boa dona Tânia, sono inquieto e brinquedos por toda parte, perguntas, botões, joelhos sujos. Sentia medo, alegria, cheiro de salgueiro e u de Funes se misturava ao arroz-doce, tão tarde e para dormir, agora mesmo na cama.

Deitada, sem luz, cheia de beijos e olhares tristes da Inés e da mãe, não muito decidida mas já totalmente decidida a mandá-la. Vivi antes da chegada no intervalo, o primeiro jejum, a alegria de Nino caçador de baratas, sapo Nino, peixe Nino (uma lembrança de três anos atrás, Nino mostrando-lhe algumas estatuetas postas com pasta em um álbum, e dizendo gravemente: “Este é um sapo e este é um peixe. -ca-do ”). Agora Nino no parque esperando por ela com a rede de borboletas, e as mãos macias de Rema - ela os viu emergindo da escuridão, ela estava com os olhos abertos e em vez do rosto de Nino, as mãos de Rema, o menor dos Funes. "Tia Rema me ama tanto", e os olhos de Nino ficaram grandes e úmidos, novamente ela viu Nino flutuar no ar confuso do quarto, olhando para ela feliz. Peixe Nino. Ele adormeceu querendo que a semana passasse naquela mesma noite, e as despedidas, a viagem de trem, a liga no intervalo, o portão, os eucaliptos na calçada. Antes de adormecer, teve um momento de horror quando pensou que poderia estar sonhando. Esticando-se de repente, bateu com os pés nas barras de bronze, doeram através das cobertas, e na grande sala de jantar ouvia a mãe e Inês conversando, bagagens, vendo o médico sobre as erupções, óleo de bacalhau e hamamélis virginica.

Não foi um sonho, não foi um sonho. Não foi um sonho. Eles a levaram para Constitución em uma manhã de ventos fortes, com bandeirinhas nas barracas de rua da praça, bolo no Trem Misto e uma grande entrada na plataforma. Número quatorze. Beijavam-se tanto entre Ines e sua mãe que seu rosto parecia um passeio, macio e cheirando a ruge e pó de Rachel de Coty, úmido na boca, um nojo que o vento arrebatou com uma bofetada. Ela não tinha medo de viajar sozinha porque era uma menina grande, com nada menos que vinte pesos na bolsa, a Compañía Sansinena de Carnes Congeladas entrando pela janela com um cheiro doce, o Fluxo Amarelo e Isabel já recuperados do choro forçado, feliz, morta de medo, ativa no exercício pleno de seu assento, de sua janela, uma viajante quase única em um pedaço de carro onde podia experimentar todos os lugares e se ver nos pequenos espelhos. Pensou uma ou duas vezes na mãe, na Inés - estariam já em 97, saindo de Constitución - leu proibido de fumar, proibido de cuspir, capacidade para 42 passageiros sentados, passavam por Banfield a toda velocidade, vuuuum! campo mais campo mais campo misturado com o sabor de milkibar e pílulas de mentol. Inés o havia aconselhado a ir tricotar a lã verde de manhã, então Isabel a carregou no lugar mais escondido de sua pasta, pobre Inês com todas as ideias tão baratas.

Na estação ela ficou um pouco assustada, porque se quebrou ... Mas ele tava lá, com Dom Nicanor florido e respeitoso, uma menina daqui e uma menina de lá, se a viagem foi boa, se Dona Elisa sempre foi linda , é claro que choveu - Oh, caminhe desde o intervalo , para frente e para trás, para trazer a ele o aquário inteiro de sua visita anterior a Los Horneros. Cada vez mais, mais vidro e rosa, sem o tigre então, com Don Nicanor menos cinza, há apenas três anos, Nino um sapo, Nino um peixe, e as mãos de Rema que o faziam querer chorar e senti-las eternamente contra sua cabeça, em uma carícia quase mortal e creme de baunilha, as duas melhores coisas da vida.



Eles deram a ela um quarto no andar de cima, todo para ela, lindo. Um quarto para adultos (ideia do Nino, todos os cachos e olhos pretos, lindo no macacão azul; claro que o Luís fez ele se vestir muito bem à tarde, de cinza ardósia com gravata vermelha) e dentro de outro quartinho com um enorme e cardeal selvagem. O banheiro ficava a duas portas (mas interno, para que você pudesse passar sem primeiro saber onde estava o tigre), cheio de torneiras e de metal, embora Isabel não se enganasse facilmente e no banheiro já dava para ver o campo, as coisas não eram tão perfeitos como em um banheiro da cidade. Ele cheirava a velho, na segunda manhã ela encontrou um inseto úmido vagando ao redor da pia. Ela mal o tocou, enrolou-se em uma bola de medo, perdeu o equilíbrio e desceu pelo buraco gorgolejante.



Querida mãe, eu levei a caneta para - Eles comeram na sala de jantar de vidro, onde estava mais fresco. O Nenê reclamava a cada momento do calor, Luís não falava nada, mas aos poucos dava para ver a água jorrando na testa e na barba. Só Rema estava calma, ela passava os pratos devagar e sempre como se a refeição fosse de um aniversário, um pouco solene e emocionante. (Isabel aprendeu secretamente a sua maneira de esculpir, de dirigir os criados). Luis quase sempre lia, os punhos nas têmporas e o livro apoiado em um sifão. Rema tocava em seu braço antes de lhe entregar o prato, e às vezes Nene o interrompia e o chamava de filósofo. Isabel ficou magoada com o fato de Luís ser filósofo, não por causa disso, mas por causa do Nenê; porque então o Nenê teve uma desculpa para zombar e contar a ele.

Comiam assim: Luís na cabeça, Rema e Nino de um lado, Nenê e Isabel do outro, então tinha um grande em cima e um menino e um grande de cada lado. Quando Nino realmente queria dizer algo para ele, ele batia com o sapato na canela. Uma vez Isabel gritou e Nene ficou furiosa e a chamou de mimada. Rema a encarou, até que Isabel foi consolada por seu olhar e pela sopa juliana.

Mamita, antes de ir comer é como em todos os outros horários, você tem que verificar se - quase sempre era Rema que ia ver se você podia ir para a sala de jantar de vidro. No segundo dia, ele foi à grande sala de estar e disse-lhes que esperassem. Demorou até que um peão avisou que o tigre estava no jardim dos trevos, então Rema pegou os meninos pela mão e todos entraram para comer. Naquela manhã as batatas estavam secas, embora apenas Nenê e Nino protestassem.

Você me disse que eu não deveria sair perguntando - Porque Rema parecia parar, com sua gentileza suave, todas as perguntas. Era tão bom que não havia necessidade de se preocupar com as peças. Uma casa muito grande e, na pior das hipóteses, você não tinha que entrar em um cômodo; nunca mais do que um, então não importava. Dois dias depois, Isabel se acostumou, assim como Nino. Eles brincavam de manhã à noite no bosque de salgueiros, e se não fosse possível no bosque de salgueiros, tinha-se o jardim dos trevos, o parque das redes e a margem do riacho. Na casa era igual, tinham os quartos, o corredor do meio, a biblioteca no andar de baixo (exceto quinta-feira quando não era possível ir à biblioteca) e a sala de jantar envidraçada. Não iam ao estúdio do Luís porque o Luís lia o tempo todo, às vezes ligava para o filho e dava livros com fotos; mas Nino os tirava de lá, iam olhar para eles na sala ou no jardim da frente. Eles nunca entraram no escritório de Nene porque temiam sua raiva. Rema disse a eles que era melhor assim, disse-lhes como se os avisasse; já sabiam ler em seus silêncios.

Afinal, era uma vida triste. Isabel se perguntou uma noite por que os Funes a haviam convidado para passar o verão. Ela não tinha idade para entender que não era para ela, mas para Nino, um brinquedo de verão para alegrar Nino. A única coisa que a triste casa pôde notar, que Rema estava cansada, que quase não chovia e as coisas tinham, no entanto, algo úmido e abandonado. Depois de alguns dias ele se acostumou com a ordem da casa, com a disciplina não difícil daquele verão em Los Horneros. Nino começava a entender o microscópio que Luís lhe dera, passaram uma semana esplêndida criando insetos em uma panela com água estagnada e folhas de calla, colocando gotas na placa de vidro para observar os micróbios. “São larvas de mosquitos, com aquele microscópio não verão micróbios”, disse Luis com seu sorriso distante e ligeiramente queimado. Eles não podiam acreditar que esse horror furioso não era um micróbio. Rema trouxe para eles um caleidoscópio que guardava no armário, mas eles sempre gostaram de descobrir micróbios e numerar melhor suas pernas. Isabel mantinha um caderno com as anotações dos experimentos, combinava biologia com química e a preparação de um armário de remédios. Fizeram o armário de remédios do quarto de Nino, depois de vasculhar a casa para se abastecerem. Isabel disse a Luís: "Queremos tudo: coisas." Luis deu a eles comprimidos de Andreu, algodão rosa, um tubo de ensaio. El Nene, um saco de borracha e um frasco de comprimidos verdes com o rótulo raspado. Rema foi ver o armário de remédios, leu o inventário no caderno e disse que estavam aprendendo coisas úteis. Ela ou Nino (que estava sempre empolgado e queria se exibir na frente de Rema) teve a ideia de montar um herbário. Como naquela manhã dava para ir ao jardim dos trevos, eles circulavam colhendo amostras e à noite tinham o chão dos quartos cheio de folhas e flores no papel, quase não havia onde pisar. Antes de adormecer, Isabel notou: "Folha nº 74: verde, em forma de coração, com pequenas manchas marrons." A incomodava um pouco que a maioria das folhas eram verdes, a maioria lisas, a maioria lanceoladas.



No dia em que saíram para caçar as formigas, ele viu os trabalhadores rurais. Ele conhecia bem o capataz e o mordomo porque traziam a notícia para a casa. Mas esses outros peões mais jovens ficavam ao lado dos galpões com ar de cochilo, às vezes bocejando e vendo as crianças brincarem. Um deles disse a Nino: “Por que você vai catar esses insetos?” E acertou-o com dois dedos na cabeça, entre os rolos. Isabel queria que Nino ficasse zangado, para provar que era filho do patrão. Ele já estava com a garrafa de formigas fervendo e na margem do riacho encontraram uma mochila enorme e também o jogaram dentro para ver. A ideia do formicario havia sido retirada da Tesouraria da Juventude, e Luis emprestou-lhes um longo e profundo baú de cristal. Na saída, levando-o entre os dois, Isabel ouviu-o dizer a Rema: "É melhor você ficar em casa assim." Também lhe pareceu que Rema estava suspirando. Lembrou-se antes de adormecer, na hora dos rostos no escuro, viu o Nenê novamente saindo para fumar na varanda, magro e cantarolando, Rema que lhe trouxe o café e ele que pegou a xícara por engano, tão desajeitado que ele apertou os dedos de Rema enquanto ela pegava a xícara, Isabel vira da sala de jantar que Rema jogaria a mão para trás e o Bebê mal salvou a xícara de cair, e eles riram confusos. Melhores formigas pretas do que vermelhas: maiores, mais ferozes. Em seguida, solte muito vermelho, continue a guerra atrás do vidro, seguro. A menos que eles não lutassem. Dois formigueiros, um em cada canto da caixa de vidro. Eles se consolariam estudando os diferentes costumes, com um caderno especial para cada classe de formigas. Mas quase certamente eles lutariam, guerra sem quartel para olhar pelo vidro e um único caderno.



Rema não gostava de espioná-los, às vezes passava na frente dos quartos e os via com o formicario pela janela, apaixonado e importante. Nino foi especial ao apontar as novas galerias de uma vez, e Isabel ampliou o plano desenhado a tinta em uma página dupla. A conselho de Luís acabaram aceitando apenas formigas pretas, e o formicario já era enorme, as formigas pareciam furiosas e trabalharam até a noite, cavando e mexendo com mil ordens e evoluções, aconselhadas a esfregar antenas e pernas, explosões repentinas de fúria ou veemência, concentrações e dispersões sem causa visível. Isabel não sabia mais o que escrever, aos poucos foi baixando o caderno e eles passaram horas estudando e esquecendo suas descobertas. Nino começava a ter vontade de voltar ao jardim, fazia alusão às redes e aos petisos. Isabel o desprezou um pouco. O formicario valia mais que todos Los Horneros, e ela gostava de pensar que as formigas iam e vinham sem medo de nenhum tigre, às vezes imaginava um pequeno tigre como borracha, rondando as galerias do formicario; talvez seja por isso que as dispersões, as concentrações. E gostava de repetir o grande mundo no de vidro, agora que se sentia um pouco presa, agora que era proibido descer para a sala de jantar até que Rema contasse.

Aproximou o nariz de um dos copos, repentinamente atenta porque gostava de ser considerada; ela ouviu Rema parar na porta, calar a boca, olhar para ela. Essas coisas eu ouvi tão claramente quando era Rema.

"Porque tão sozinho?"

"Nino foi para as redes." Parece-me que esta deve ser uma rainha, ela é muito grande.

O avental de Rema refletiu-se no vidro. Isabel viu uma mão levemente levantada, com o reflexo no copo parecia que estava dentro do formicário, de repente ela pensou na mesma mão dando ao bebê a xícara de café, mas agora eram as formigas que passavam por entre seus dedos , as formigas em vez da xícara e a mão do bebê apertando os botões.

"Estenda a mão, Rema", perguntou ele.

-A mão?

-Agora está bem. O reflexo assusta as formigas.

"Ah." Agora você pode descer para a sala de jantar.

-Depois. O bebê está bravo com você, Rema?

A mão passou pelo vidro como um pássaro por uma janela. Pareceu a Isabel que as formigas estavam realmente assustadas, fugiam por reflexo. Agora não havia nada para se ver, Rema havia partido, ele caminhava pelo corredor como se fugisse de alguma coisa. Isabel sentiu medo de sua pergunta, um medo embotado e sem sentido, talvez não da pergunta como de vê-la ir assim para Rema, do vidro novamente límpido por onde as galerias fluíam e se retorciam como dedos cerrados dentro da terra.





continua...

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Você também pode ler:

Sarau... Bestiário (01) - (Julio Cortázar)

Dom Casmurro: O Filho é a Cara do Pai

Machado de Assis


Dom Casmurro






Capítulo XCIX

O Filho é a Cara do Pai




Minha mãe, quando eu regressei bacharel quase estalou de felicidade. Ainda ouço a voz de José Dias, lembrando o evangelho de São João, e dizendo ao ver-nos abraçados:

– Mulher, eis aí o teu filho! Filho, eis aí a tua mãe!

Minha mãe, entre lágrimas:

– Mano Cosme, é a cara do pai, não é?

– Sim, tem alguma coisa, os olhos, a disposição do rosto. É o pai, um pouco mais moderno, concluiu por chalaça. E diga-me agora, mana Glória, não foi melhor que ele não teimasse em ser padre? Veja se este peralta daria um padre capaz.

– Como vai o meu substituto?

– Vai indo, ordena-se para o ano, respondeu tio Cosme. Hás de ir ver a ordenação; eu também se o meu senhor coração consentir. É bom que te sintas na alma do outro, como se recebesses em ti mesmo a sagração.

– Justamente! exclamou minha mãe. Mas veja bem, mano Cosme, veja se não é a figura do meu defunto. Olha, Bentinho, olha bem para mim. Sempre achei que te parecias com ele, agora é muito mais. O bigode é que desfaz um pouco...

– Sim, mana Glória, o bigode realmente... mas é muito parecido.

E minha mãe beijava-me com uma ternura que não sei escrever. Tio Cosme, para alegrá-la, chamava-me doutor, José Dias também, e todos em casa, a prima, os escravos, as visitas, Pádua, a filha, e ela mesma repetiam-me o título.


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Texto de referência:

Obras Completas de Machado de Assis, vol. I,
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994.

Publicado originalmente pela Editora Garnier, Rio de Janeiro, 1899.

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Leia também:

Capítulo XCIII / Um Amigo por um Defunto
Capítulo XCIX / O Filho é a Cara do Pai


Memórias Póstumas de Brás Cubas: Entre a boca e a testa

Machado de Assis






CAPÍTULO XCVII / Entre a boca e a testa




Sinto que o leitor estremeceu, — ou devia estremecer. Naturalmente a última palavra sugeriu-lhe três ou quatro reflexões. Veja bem o quadro: numa casinha da Gamboa, duas pessoas que se amam há muito tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a outra a recuar, como se sentisse o contato de uma boca de cadáver. Há aí, no breve intervalo, entre a boca e a testa antes do beijo e depois do beijo, há aí largo espaço para muita coisa, — a contração de um ressentimento —, a ruga da desconfiança — ou enfim o nariz pálido e sonolento da saciedade...


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Leia também:


Capítulo LXII / O travesseiro
Capítulo LXIII / Fujamos!
Capítulo: LXIV / A transação
Capítulo LXV / Olheiros e Escutas
Capítulo LXVI / As pernas
Capítulo LXVII / A casinha
Capítulo LXVIII / O vergalho
Capítulo LXIX / Um grão de sandice
Capítulo LXX / Dona Plácida
Capítulo LXXI / O senão do livro
Capítulo LXXII / O bibliômano
Capítulo LXXIII / O luncheon
Capítulo LXXIV / História de Dona Plácida
Capítulo LXXV / Comigo
Capítulo LXXVI / O estrume
Capítulo LXXVII / Entrevista
Capítulo LXXVIII / A presidência 
Capítulo LXXIX / Compromisso
Capítulo LXXX / De secretário
Capítulo LXXXI / A reconciliação
Capítulo LXXXII / Questão de botânica
Capítulo LXXXIII / 13
Capítulo LXXXIV / O conflito
Capítulo LXXXV / O cimo da montanha
Capítulo LXXXVI / O mistério
Capítulo LXXXVII / Geologia
Capítulo LXXXVIII / O enfermo
Capítulo LXXXIX / In extremis
Capítulo XC / O velho colóquio de Adão e Caim
Capítulo XCI / Uma carta extraordinária
Capítulo XCII / Um homem extraordinário
Capítulo XCVII / Entre a boca e a testa


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Pedagogia do Oprimido - 4. A teoria da ação antidialógica (g)

    Paulo Freire 




“educação como prática da liberdade”: 
alfabetizar é conscientizar 







AOS ESFARRAPADOS DO MUNDO 
E AOS QUE NELES SE 
DESCOBREM E, ASSIM 
DESCOBRINDO-SE, COM ELES 
SOFREM, MAS, SOBRETUDO, 
COM ELES LUTAM. 



4. A teoria da ação antidialógica



A TEORIA DA AÇÃO ANTIDIALÓGICA E SUAS
CARACTERÍSTICAS: A CONQUISTA, DIVIDIR
PARA MANTER A OPRESSÃO, A
MANIPULAÇÃO E A INVASÃO CULTURAL


INVASÃO CULTURAL


Finalmente, surpreendemos na teoria da ação anti-dialógica, uma outra característica fundamental, – a invasão cultural que, como as duas anteriores, serve à conquista.

Desrespeitando as potencialidades do ser a que condiciona, a invasão cultural é a penetração que fazem os invasores no contexto cultural dos invadidos, impondo a estes sua visão do mundo, enquanto lhes freiam a criatividade, ao inibirem sua expansão.

Neste sentido, a invasão cultural, indiscutivelmente alienante, realizada maciamente ou não, é sempre uma violência ao ser da cultura invadida, que perde sua originalidade ou se vê ameaçado de perdê-la.

Por isto é que, na invasão cultural, como de resto em todas as modalidades da ação antidialógica, os invasores são os autores e os atores do processo, seu sujeito; os invadidos, seus objetos. Os invasores modelam; os invadidos são modelados. Os invasores optam; os invadidos seguem sua opção. Pelo menos é esta a expectativa daqueles. Os invasores atuam; os invadidos têm a ilusão de que atuam, na atuação dos invasores.

A invasão cultural tem uma dupla face. De um lado, é já dominação; de outro, é tática de dominação.

Na verdade, toda dominação implica numa invasão, não apenas física, visível, mas às vezes camuflada, em que o invasor se apresenta como se fosse o amigo que ajuda. No fundo, a invasão é uma forma de dominar econômica e culturalmente ao invadido.

Invasão realizada por uma sociedade matriz, metropolitana, numa sociedade dependente, ou invasão implícita na dominação de uma classe sobre a outra, numa mesma sociedade.

Como manifestação da conquista, a invasão cultural conduz à inautenticidade do ser dos invadidos. O seu programa responde ao quadro valorativo de seus atores. A seus padrões, a suas finalidades.

Daí que a invasão cultural, coerente com sua matriz antidialógica e ideológica, jamais possa ser feita através da problematização da realidade e dos próprios conteúdos programáticos dos invadidos.

Aos invasores, na sua ânsia de dominar, de amoldar os invadidos a seus padrões, a seus modos de vida, só interessa saber como pensam os invadidos seu próprio mundo para dominá-los mais.
[1]

[1] Para este fim, os invasores se servem, cada vez mais, das ciências sociais e da tecnologia, como já agora das naturais.
É que a invasão, na medida em que é aço cultural, cujo caráter induzido permanece como sua conotação essencial, não pode prescindir do auxilio das ciências e da tecnologia com que os invasores melhor atuam. Para eles se faz indispensável o conhecimento do passado e do presente dos invadidos, através do qual possam determinar as alternativas de seu futuro e, assim, tentar a sua condução no sentido de seus interesses.

É importante, na invasão cultural, que os invadidos vejam a sua realidade com a ótica dos invasores e não com a sua. Quanto mais mimetizados fiquem os invadidos, melhor para a estabilidade dos invasores.

Uma condição básica ao êxito da invasão cultural é o conhecimento por parte dos invadidos de sua inferioridade intrínseca. Como não há nada que não tenha seu contrário, na medida em que os invadidos vão reconhecendo- se “inferiores”, necessariamente irão reconhecendo a “superioridade” dos invasores. Os valores destes passam a ser a pauta dos invadidos. Quanto mais se acentua a invasão, alienando o ser da cultura e o ser dos invadidos, mais estes quererão parecer com aqueles: andar como aqueles, vestir à sua maneira, falar a seu modo.

O eu social dos invadidos, que, como todo eu social, se constitui nas relações socioculturais que se dão na estrutura, é tão dual quanto o ser da cultura invadida.

É esta dualidade, já várias vezes referida, a que explica os invadidos e dominados, em certo momento de sua experiência existencial, como um eu quase “aderido" ao tu opressor.

É preciso que o eu oprimido rompa esta quase “aderência” ao tu opressor, dele “afastando-se”, para objetivá-lo, somente quando se reconhece criticamente em contradição com aquele.

Esta mudança qualitativa da percepção do mundo, que não se realiza fora da práxis, não pode jamais ser estimulada pelos opressores, como um objetivo de sua teoria da ação.

Pelo contrário, a manutenção do states quo é o que lhes interessa, na medida em que a mudança na percepção do mundo, que implica, neste caso, na inserção critica na realidade, os ameaça. Daí, a invasão cultural como característica da aço antidialógica.

Há, contudo, um aspecto que nos parece importante salientar na análise que estamos fazendo da ação anti-dialógica. É que esta, enquanto modalidade de aço cultural de caráter dominador, nem sempre é exercida deliberadamente. Em verdade, muitas vezes os seus agentes são igualmente homens dominados; “sobredeterminados” pela própria cultura da opressão .
[2]

[2] A propósito de dialética da sobredeterminação, ver Louis Althusser, Pour Marx, Paris, Maspero, 1967

Com efeito, na medida em que uma estrutura social se denota como estrutura rígida, de feição dominadora, as instituições formadoras que nela se constituem estarão, necessariamente, marcadas por seu clima, veiculando seus mitos e orientando sua aço no estilo próprio da estrutura.

Os lares e as escolas, primárias, médias e universitárias, que não existem no ar, mas no tempo e no espaço, não podem escapar às influências das condições objetivas estruturais.

As relações pais -filhos, nos lares, refletem, de modo geral, as condições objetivo- culturais da totalidade de que participam. E, se estas são condições autoritárias, rígidas, dominadoras, penetram nos lares que incrementam o clima da opressão.
[3]

[3] O autoritarismo dos pais e dos mestres se desvela cada vez mais aos jovens como antagonismo à sua liberdade. Cada vez mais, por isto mesmo, a juventude vem se opondo às formas de ação que minimizam sua expressividade e obstaculizam sua afirmação. Esta, que, é uma das manifestações positivas que observamos hoje, não existe por acaso. No fundo, é um sintoma daquele clima histórico ao qual fizemos referência no primeiro capítulo deste ensaio, como caracterizador de nossa época, como uma época antropológica. Por isto é que a reação da juventude não pode ser vista a não ser interessadamente, como simples indício das divergências geracionais que em todas as épocas houve e há. Na verdade, há algo mais profundo. Na sua rebelião, o que a juventude denuncia e condena é o modelo injusto da sociedade dominadora. Esta rebelião, contudo, com o caráter que tem, é muito recente. O caráter autoritário perdura.

Quanto mais se desenvolvem estas relações de feição autoritária entre pais e filhos, tanto mais vão os filhos, na sua infância, introjetando a autoridade paterna.

Discutindo, com a clareza que o caracteriza, o problema da necrofilia e da biofilia, Fromm analisa as condições objetivas que geram uma e outra, quer nos lares, nas relações pais-filhos, no clima desamoroso e opressor, como amoroso e livre, quer no contexto sociocultural.

Crianças deformadas num ambiente de desamor, opressivo, frustradas na sua potência, como diria Fromm, se não conseguem, na juventude, endereçar-se no sentido da rebelião autêntica, ou se acomodam numa demissão total do seu querer, alienados à autoridade e aos mitos de que lança mão esta autoridade para formá-las, ou poderão vir a assumir formas de ação destrutiva.

Esta influência do lar se alonga na experiência da escola. Nela, os educandos cedo descobrem que, como ao lar, para conquistar alguma satisfação, têm de adaptar-se aos preceitos verticalmente estabelecidos. E um destes preceitos é não pensar.

Introjetando a autoridade paterna através de um tipo rígido de relações, que a escola enfatiza, sua tendência, quando se fazem profissionais, pelo próprio medo da liberdade que neles se instala, é seguir os padrões rígidos em que se deformaram.

Isto, associado à sua posição classista, talvez explique a adesão de grande número de profissionais a uma ação antidialógica.
[4]

[4] Talvez explique também a antidialogicidade daqueles que, embora convencidos de sua opção revolucionária, continuam, contudo, descrentes do povo, temendo a comunhão com ele. É que, sem o perceber, mantêm dentro de si ainda, o opressor. Na verdade, temem a liberdade, na medida em que hospedam o “senhor”.

Qualquer que seja a especialidade que tenham e que os ponha em relação com o povo, sua convicção quase inabalável é a de que lhes cabe “transferir” ou “levar”, ou “entregar” ao povo os seus conhecimentos, as suas técnicas.

Veem-se, a si mesmos, como os promotores do povo. Os programas da sua ação, como qualquer bom teórico da ação opressora indicaria, involucram as suas finalidades, as suas convicções, os seus anseios.

Não há que ouvir o povo para nada, pois que, “incapaz e inculto, precisa ser educado por eles para sair da indolência que provoca o subdesenvolvimento”.

Para eles, a “incultura do povo é tal ‘que lhes’ parece um absurdo falar da necessidade de respeitar a “visão do mundo” que ele esteja tendo. Visão do mundo têm apenas os profissionais”...

Da mesma forma, absurda lhes parece a afirmação de que é indispensável ouvir o povo para a organização do conteúdo programático da ação educativa. É que, para eles, “a ignorância absoluta” do povo não lhe permite outra coisa senão receber os seus ensinamentos.




continua página 089...

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PAULO FREIRE

PEDAGOGIA DO OPRIMIDO

23ª Reimpressão

PAZ E TERRA


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Pedagogia do Oprimido -  4. A teoria da ação antidialógica  (d)
Pedagogia do Oprimido -  4. A teoria da ação antidialógica  (e)
Pedagogia do Oprimido -  4. A teoria da ação antidialógica  (f)
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Pedagogia do Oprimido -  4. A teoria da ação antidialógica  (h)
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© Paulo Freire, 1970
Capa
Isabel Carballo
Revisão
Maria Luiza Simões e Jonas Pereira dos Santos
(Preparação pelo Centro de Catalogação -na-fonte do
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ)


Freire, Paulo
F934p Pedagogia do oprimido, 17ª. ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987
(O mundo, hoje, v.21)


1. Alfabetização – Métodos 2. Alfabetização – Teoria I. Título II. Série
CDD-374.012
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Antonio Candido
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(licenciado)
1994

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Educação como Prática da Liberdade. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967; e Pedagogia do Oprimido



"Quem atua sobre os homens para, doutrinando-os, adaptá-los cada vez mais à realidade que deve permanecer intocada, são os dominadores." 


Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Quinto - A Descida — VI

 Victor Hugo - Os Miseráveis



Primeira Parte - Fantine

Livro Quinto — A Descida



VI — Fauchelevent


O senhor Madelaine, certa manhã, indo a passar por uma viela de Montreuil-sur-mer, ouviu barulho, olhou e, vendo um grupo de gente a alguma distância, dirigiu-se para ali. A causa daquele ajuntamento era um velho chamado Fauchelevent ter caído, ficando debaixo das rodas do carro que guiava, acidente devido ao cavalo que o puxava ter tropeçado e caído também.

Este Fauchelevent era um dos raros inimigos que o senhor Madelaine tinha ainda naquela época. Quando Madelaine veio estabelecer-se na terra, Fauchelevent, antigo tabelião e aldeão quase letrado, negociava, mas o seu negócio principiava a correr mal. Fauchelevent viu enriquecer aquele simples operário, enquanto que ele, sendo patrão, se arruinava, e isto acometeu-o de inveja, de maneira que daí em diante não perdeu uma só ocasião de prejudicar Madelaine no que podia. Viera, porém, a quebrar, e vendo-se velho, sem família e sem filhos, sem ter de seu mais que um carro e um cavalo, fez-se carroceiro para ganhar a vida.

O cavalo tinha as duas pernas quebradas, não podendo por isso levantar-se, e o velho estava entalado entre as duas rodas. A queda fora de tal modo desastrosa, que todo o peso da carroça, demasiado carregada, lhe oprimia o peito. O pobre velho soltava os mais dolorosos gemidos, devido às dores que sentia. Haviam tentado tirá-lo dali, mas em vão. Qualquer esforço mal aplicado, qualquer ajuda pouco jeitosa, podia matá-lo. Era impossível livrá-lo de tão terrível posição, senão levantando a carroça por baixo. Javert, que apareceu ali no momento do desastre, mandou imediatamente buscar um macaco para levantar o carro.

Foi nesta ocasião que chegou o senhor Madelaine e todos se afastaram respeitosamente.

— Quem me acode! — gritava Fauchelevent. — Não há aí uma alma caridosa que acuda ao pobre velho?

O senhor Madelaine voltou-se para os assistentes.

— Não há por aí um macaco?

— Foram já arranjá-lo — respondeu um aldeão.

— Quanto tempo levará a chegar?

— Mandou-se aonde era mais perto, ao lugar de Flachot, onde há um ferrador, mas mesmo assim não gastará menos dum quarto de hora para chegar aqui.

— Um quarto de hora! — exclamou Madelaine.

Como tinha chovido na véspera, o terreno estava encharcado, de maneira que o carro se enterrava cada vez mais, oprimindo cada vez mais o peito do desventurado velho. Era evidente que antes de cinco minutos estaria com as costelas quebradas.

— É impossível esperar um quarto de hora — disse Madelaine para os que o rodeavam.

— Pois não há outro remédio!

— Mas então já será tarde! Não veem como a carroça se vai enterrando?

— Valha-nos Deus!

— Escutem — tornou Madelaine — debaixo da carroça há ainda bastante espaço para que ali se meta um homem e a levante com as costas. Bastará erguê-la por meio minuto, para que se possa tirar o pobre homem. Se houver aqui alguém que tenha força e bom coração, ganhará por isso cinco luíses de oiro!

Nem um só se mexeu no meio do grupo.

— Dez luíses! — disse Madelaine.

Todos os presentes baixaram os olhos e um deles murmurou:

— Era preciso ser de ferro... E depois pode-se ficar esmagado.

— Vamos! — tornou Madelaine. — Vinte luíses!

O mesmo silêncio.

— Não é boa vontade o que lhes falta! — disse uma voz. Madelaine voltou-se e reconheceu Javert, em quem não tinha reparado quando ali chegara. Javert continuou:

— O que lhes falta é força. Seria preciso um homem muito possante para levantar com os ombros um carro destes.

Depois, olhando fixamente para Madelaine, prosseguiu, acentuando cada uma das palavras que pronunciava:

— Senhor Madelaine, ainda não conheci senão um homem que fosse capaz de fazer o que o senhor quer.

Madelaine estremeceu.

Javert acrescentou com ar de indiferença, mas sem despregar os olhos de Madelaine:

— Era um forçado.

— Ah! — exclamou Madelaine.

— Que estava nas galés de Toulon.

Madelaine empalideceu.

Entretanto, a carroça continuava a enterrar-se vagarosamente. Fauchelevent gemia e gritava:

— Acudam-me, senão morro aqui esmagado!

Madelaine tornou a olhar em volta de si.

— Então não há ninguém que queira ganhar vinte luíses, salvando a vida a este pobre homem?

Como da primeira vez, ninguém se mexeu. Javert repetiu:

— Ainda não conheci senão um homem que fosse capaz de o fazer, era o tal forçado.

— Ai que eu morro! — gritava o velho.

Madelaine ergueu a cabeça, encontrou o olhar de falcão de Javert, sempre fixo nele, olhou para os circunstantes imóveis e sorriu com tristeza. Depois, sem dizer uma palavra, deitou-se de joelhos e antes mesmo que a multidão tivesse tempo de soltar um grito, estava debaixo do carro.

Seguiu-se um terrível momento de silenciosa expectativa.

Todos viram Madelaine quase de bruços, sob aquele enorme peso, tentar em vão duas vezes aproximar os cotovelos dos joelhos e gritaram-lhe:

— Saia daí, senhor Madelaine!

O próprio Fauchelevent disse-lhe:

— Olhe que se arrisca a ser esmagado como eu, senhor Madelaine! Bem vê que não me pode salvar, tenho por força de morrer!

Madelaine não lhe respondeu.

Todos os presentes estavam arquejantes de ansiedade. As rodas tinham continuado a enterrar-se e era já quase impossível que Madelaine pudesse sair debaixo do carro.

De repente, todos viram mover-se a enorme massa, o carro erguia-se lentamente, as rodas apareciam já meio desenterradas, ao mesmo tempo que se ouvia uma voz, gritando:

— Ajudem-me, depressa!

Era Madelaine que acabara de fazer um derradeiro esforço.

Precipitaram-se todos. A dedicação de um só dera força e coragem aos outros. A carroça foi levantada por vinte braços e o velho Fauchelevent foi salvo.

Madelaine ergueu-se. Estava pálido, conquanto escorrendo suor, e tinha o fato todo rasgado e coberto de lama. Todos choravam de prazer, e o pobre velho abraçava-o pelos joelhos, chamando-lhe o seu redentor. Quanto a ele, tinha no rosto como que uma expressão de sofrimento feliz e celeste, e fixava o seu olhar sereno em Javert, que continuava a encará-lo do mesmo modo.


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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.


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Leia também:

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Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine II — O abade Myriel torna-se Monsenhor Bem-vindo
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine III — A bom bispo, mau bispado
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Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine IX — O caráter do irmão descrito pela irmã
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Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine X — O bispo em presença de uma luz desconhecida 2
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Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine XII — Solidão de Monsenhor Bemvindo
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine XIII — Quais eram as crenças do bispo
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine XIV — O modo de pensar de Monsenhor Bemvindo
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda I — No fim de um dia de marcha
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda I — No fim de um dia de marcha (2)
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda II — A prudência aconselha a sabedoria
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda III — Heroísmo da obediência passiva
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, IV — Pormenores sobre as queijeiras de Pontarlier
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, V — Tranquilidade
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, VI — Jean Valjean
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, VII — O interior do desespero
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, VIII — A onda e a sombra
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, IX — Novos agravos
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, X — O hóspede acordado
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, XI — O que ele faz
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, XII — O bispo trabalha
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Segundo - A Queda, XIII — O pequeno Gervásio
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, I — O ano de 1817
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, II — Quatro pares
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, III — A quatro e quatro
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, IV — A alegria de Tholomyés é tão grande que até canta uma canção espanhola
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, V — Em casa de Bombarda
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, VI — Capítulo consagrado ao amor
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, VII — Prudência de Tholomyés
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, VIII — Morte dum cavalo
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Terceiro - Em 1817, IX — Alegre fim de festa
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Quarto - Confiar é por vezes abandonar  — I
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Quarto - Confiar é por vezes abandonar  — II
Victor Hugo - Os Miseráveis: Fantine, Livro Quinto - A Descida  — VI

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Victor Hugo

OS MISERÁVEIS

Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira (1851-1888)