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sábado, 15 de fevereiro de 2025

Marcel Proust - No Caminho de Swann (IV - nomes de terras: o nome, Mesmo aqueles que não a conheciam - e)

em busca do tempo perdido


volume I
No Caminho de Swann

ao senhor gaston calmette
como um testemunho de profundo e afetuoso reconhecimento
— marcel proust

nomes de terras: o nome

IV(e) 

continuando...

     Mesmo aqueles que não a conheciam eram advertidos por alguma coisa de singular e de excessivo — ou talvez por uma radiação telepática como as que desencadeiam aplausos na multidão ignorante nos momentos sublimes da Berma — de que devia ser alguma pessoa conhecida. Perguntavam-se: “Quem será?”, interrogavam às vezes um transeunte, ou decidiam guardar a toalete de memória como ponto de referência para amigos mais instruídos que lhes dessem informações. Outros passeantes, parando um pouco, diziam:

— Não sabe quem é? A senhora Swann! Não lhe diz nada esse nome? Odette de Crécy? 
— Odette de Crécy? Bem que eu dizia, aqueles olhos tristes… Mas saiba que ela já não deve estar na primeira mocidade! Lembro-me que dormi com ela no dia da demissão de Mac-Mahon.[1] 
— Faria bem em não lembrá-lo. Ela é agora a senhora Swann, esposa de um sócio do Jockey, amigo do príncipe de Gales. Ainda está soberba. 
— Mas se você a conhecesse naquele tempo… Como era bonita! Morava num apartamentozinho muito estranho, cheio de chinesices. Lembro-me que nos incomodavam muito os gritos dos vendedores de jornais, ela acabou por fazer-me levantar. 

     Sem ouvir as reflexões, eu percebia em torno dela o murmúrio indistinto da celebridade. Meu coração batia de impaciência quando eu pensava que ia ainda passar-se um momento antes que todas aquelas pessoas, entre as quais notava com desolação que não se achava um banqueiro mulato por quem me sentia desprezado, vissem o jovem desconhecido a quem não prestavam a mínima atenção saudar (na verdade sem a conhecer, mas a isso me julgava autorizado porque meus pais conheciam seu marido e eu era camarada de sua filha) aquela mulher cuja reputação de beleza, de leviandade e de elegância era universal. Mas eis que já estava bem perto da sra. Swann, erguia então o meu chapéu, num cumprimento tão rasgado, tão amplo, tão demorado, que ela não podia deixar de sorrir. Havia gente que ria. Quanto à sra. Swann, nunca me vira com Gilberte, não sabia meu nome, mas eu era para ela — como um dos guardas do Bois, ou o barqueiro, ou os patos do lago aos quais jogava migalhas de pão — uma das personagens secundárias, familiares, anônimas, tão destituídas de caracteres individuais como um “figurante de teatro”, dos seus passeios pelo bosque. Certos dias em que não a vira na alameda das Acácias,[2] sucedia-me encontrá-la na alameda da Rainha Margarida, aonde vão as mulheres que procuram estar sozinhas, ou que querem parecer que o estão; mas a sra. Swann não ficava por muito tempo sozinha, logo se reunia a ela algum amigo, muitas vezes com uma cartola cinzenta, a quem eu não conhecia e que conversava longamente com ela, enquanto seus dois carros os seguiam.
     Essa complexidade do Bois de Boulogne que o torna um lugar fictício e, no sentido zoológico ou mitológico do termo, um Jardim, encontrei-a este ano, quando o atravessava a caminho do Trianon, numa das primeiras manhãs deste mês de novembro, em que a proximidade e a privação do espetáculo do outono que finda tão depressa sem que as possamos ver nos dão, no interior das casas, em Paris, uma nostalgia, uma verdadeira febre de folhas mortas, que chega até nos tirar o sono. No meu quarto fechado, fazia um mês que elas se interpunham, evocadas pelo meu desejo de vê-las, entre o meu pensamento e qualquer coisa a que eu me aplicasse, como essas manchas amarelas que às vezes dançam diante de nossos olhos, seja o que for que estivermos olhando. E naquela manhã, já não ouvindo a chuva cair como nos dias anteriores, vendo sorrir o bom tempo nos cantos das cortinas descidas como nas comissuras de uma boca fechada que deixa escapar o segredo da sua felicidade, eu sentira que podia contemplar aquelas folhas amarelas varadas de luz, na sua beleza suprema; e não podendo deixar de ir ver as árvores, como não podia deixar outrora, quando o vento soprava muito forte na lareira, de partir para o litoral, saíra eu para ir ao Trianon, atravessando o Bois de Boulogne. Era a hora e a estação em que o Bois parece talvez mais múltiplo, não só porque está subdividido, mas ainda porque o está de outra maneira. Até nas partes descobertas de onde se abrange um grande espaço, aqui e ali, em face das sombrias massas longínquas de árvores sem folhas ou ainda com as suas folhas estivais, uma dupla fila de castanheiros de um tom laranja parecia, como num quadro recém-começado, a única coisa pintada pelo cenógrafo, que ainda não colorira o resto, e estendia a sua alameda, em plena luz, para o passeio episódico de personagens que só seriam acrescentadas mais tarde.
     Mais além, entre as árvores ainda cobertas de todas as suas folhas verdes, uma única, pequena, retaca, desramada e teimosa, sacudiu ao vento uma miserável cabeleira vermelha. Além ainda, era o primeiro despertar daquele mês de maio das folhas, e havia um mapa colorido maravilhoso e sorridente, como um espinheiro róseo de inverno, que florescera naquela manhã. E o Bois tinha o aspecto provisório e artificial de um viveiro ou de um parque onde, num interesse botânico ou para a preparação de uma festa, acabam de instalar, entre árvores comuns ainda não arrancadas, duas ou três espécies preciosas de folhagens fantásticas e que parecem fazer um vácuo em torno de si, abrir espaço, criar claridade. Era, assim, a estação em que o Bois de Boulogne deixa adivinhar as mais diversas essências e justapõe as partes mais diferentes num complexo conjunto. E era também a hora. Nos lugares onde ainda conservavam as folhas, as árvores pareciam sofrer uma alteração de sua matéria a partir do ponto em que eram tocadas pela luz do sol, quase horizontal pela manhã como o seria algumas horas mais tarde quando, ao começar o crepúsculo, se acende como uma lâmpada, projeta a distância sobre a folhagem um reflexo artificial e quente, e faz arder as folhas mais altas de uma árvore, que é como o candelabro incombustível e fosco de seu incendiado cimo. Aqui se tornava espessa como uma parede ladrilhada, e, tal uma construção persa, amarela e com desenhos azuis, cimentava toscamente contra o céu as folhas dos castanheiros; ali, ao contrário, os destacava do céu, para o qual eles crispavam os seus dedos de ouro. No meio de uma árvore vestida de vinha virgem, enxertava e fazia expandir-se, impossível de distinguir nitidamente na ofuscação, um imenso buquê como de flores vermelhas, talvez uma variedade de cravo. As diferentes partes do Bois, confundidas durante o verão no espessor e monotonia da verdura se encontravam agora discriminadas. Espaços mais claros entremostravam o limiar de quase todas, ou então uma folhagem suntuosa assinalava-a como uma auriflama. Distinguiam-se, como sobre um mapa colorido, Armenonville, o Prado Catalão, Madrid, o Campo de Corridas, as margens do Lago.[3] Por momentos aparecia uma construção inútil, uma falsa gruta, um moinho, a que as árvores davam lugar, afastando-se, ou que um gramado apresentava no seu macio tabuleiro. Sentia-se que o Bois não era apenas um bosque, que ele correspondia a uma destinação estranha à vida de suas árvores, e a exaltação que eu experimentava não era causada apenas pela admiração do outono, mas por um desejo. Manancial de uma alegria que a alma primeiro sente sem reconhecer-lhe a causa, sem compreender que nada de exterior a motiva. Assim olhava eu as árvores, com uma insatisfeita ternura que as ultrapassava e se expandia, sem que eu o soubesse, para essa maravilha das mulheres que passeavam e que elas todos os dias abrigavam por algumas horas. Dirigia-me para a alameda das Acácias. Atravessava maciços a que a luz matinal, impondo-lhes nova disposição, podava as árvores, reunia os diferentes ramos e compunha buquês. Ela atraía habilmente a si duas árvores; com as potentes tesouras do rio e da sombra, tirava a cada qual metade do tronco e dos galhos e, tramando as duas metades restantes, fazia um único pilar de sombra, delimitado pelo sol circundante, ou um único fantasma de claridade a que uma negra rede de sombra cingia o ilusório e trêmulo contorno. Quando um raio de sol dourava os mais altos ramos, pareciam, banhados numa fulgurante umidade, emergir sozinhos da atmosfera líquida e cor de esmeralda onde o maciço inteiro dir-se-ia mergulhado como no mar. Pois as árvores continuavam a viver sua vida própria e, quando não tinham mais folhas, essa vida melhor brilhava no forro de veludo verde que lhes envolvia os troncos ou no esmalte branco das esferas de agárico semeadas no cimo dos álamos, redondas como o sol e a lua na Criação de Michelangelo.[4] Mas forçadas há tantos anos a viver em comum com a mulher, elas evocavam-me a dríade, a bela mundana rápida e colorida a quem cobriam de passagem os seus ramos e a quem obrigavam a sentir como elas o poder da estação; lembravam-me a época feliz de minha confiante juventude, quando eu ia avidamente aos lugares onde as obras-primas da elegância feminina se patenteavam por alguns instantes entre as folhagens inconscientes e cúmplices. Mas a beleza que faziam desejar os pinheiros e acácias do Bois, mais perturbadores nesse ponto que os castanheiros e lilases do Trianon que eu ia ver, não estava fixada fora de mim nas recordações de uma época histórica, em obras de arte, num pequeno templo ao amor, ao pé do qual se amontoam as folhas chapeadas de ouro. Alcancei a margem do Lago, fui até ao Tiro aos Pombos. A ideia de perfeição que em mim levava, tinha-a emprestado então à altura de uma vitória, à esbeltez daqueles cavalos furiosos e leves como vespas, de olhos injetados de sangue como os cruéis cavalos de Diomedes,[5] e que agora, possuído do desejo de rever o que havia amado, tão ardente como o que me conduzia anos antes por aqueles mesmos caminhos, eu queria ter de novo ante os olhos, no momento em que o enorme cocheiro da sra. Swann, vigiado por um pequeno groom deste tamanhinho e tão infantil como são Jorge, tentava dominar as suas asas de aço que se debatiam espavoridas e palpitantes. Ai!, não havia mais que automóveis conduzidos por motoristas bigodudos, com grandes lacaios ao lado. Eu queria ter diante de meus olhos corporais, para saber se eram tão encantadores como os viam os olhos de minha memória, os pequenos chapéus de mulher tão baixos que pareciam uma simples coroa. Todos agora eram imensos, recobertos de frutos e flores e pássaros variados. Em vez dos belos vestidos nos quais a sra. Swann tinha o ar de uma rainha, túnicas greco-saxônicas realçavam, com as pregas das Tanagras, e algumas vezes no estilo Diretório, tecidos “liberty” semeados de flores como papéis pintados.[6] À cabeça dos senhores que pareciam ter passeado com a sra. Swann pela alameda da Rainha Margarida, eu não encontrava o chapéu cinzento de outrora, nem outro qualquer: saíam de cabeça descoberta. E todas aquelas partes novas do espetáculo, eu já não tinha crença que lhes introduzisse para insuflar-lhes a consistência, a unidade, a vida; passavam por mim esparsas, ao acaso, sem verdade, sem levar dentro de si nenhuma beleza que meus olhos pudessem trabalhar como outrora. Eram mulheres quaisquer, em cuja elegância eu não tinha fé alguma e cujas toaletes me pareciam sem importância. Mas quando uma crença desaparece, sobrevive-lhe — e cada vez mais vivo para mascarar a perda de nosso poder de dar realidade às coisas novas — um apego fetichista às coisas antigas que ela animara, como se fosse nelas e não em nós que residia o divino e como se a nossa incredulidade atual tivesse uma causa contingente, a morte dos deuses.
     Que horror!, pensava eu: como pode a gente achar esses automóveis tão elegantes como as antigas carruagens? Decerto já estou muito velho — mas não fui feito para um mundo onde as mulheres se entravam em vestidos que nem sequer são de fazenda. Para que vir aqui à sombra dessas árvores, se nada mais existe do que se reunia sob estas delicadas folhagens amarelas, se a vulgaridade e a loucura substituíram o que elas enquadravam de fineza? Que horror! Meu consolo é pensar nas mulheres que conheci, agora que não há mais elegância. Mas como é que essa gente que contempla essas horríveis criaturas com seus chapéus cobertos de um aviário ou de um pomar poderia sentir o encanto que havia em ver a sra. Swann com uma simples touca malva e um chapeuzinho de onde apenas emergia, reta, uma flor de íris? Poderia acaso fazer-lhes compreender a emoção que sentia nas manhãs de inverno, ao encontrar a sra. Swann a pé, de casaco de lontra e um simples gorro com duas lâminas de penas de perdiz, mas que evocava a artificiosa tepidez de seu apartamento apenas com o ramo de violetas preso ao colo, e cuja florescência viva e azul em face do céu gris, do ar gelado, das árvores desnudas, possuía o mesmo encanto (de não tomar a estação e o tempo senão como um quadro e de viver numa atmosfera humana, a atmosfera daquela mulher) que possuíam, nos vasos e jardineiras do seu salão, perto do fogo aceso, diante do canapé de seda, as flores que olhavam pelas vidraças fechadas o tombar da neve? Aliás, não me bastaria que as toaletes fossem as mesmas que naqueles anos. Devido à solidariedade que guardam entre si as diferentes partes de uma recordação e que a nossa memória mantém em equilíbrio num conjunto a que não é permitido tirar nem recusar coisa alguma, eu desejaria ir terminar o dia em casa de uma daquelas mulheres, diante de uma taça de chá, num apartamento de paredes de cor sombria, como ainda era o da sra. Swann (no ano seguinte àquele em que termina a primeira parte desta narrativa) e onde brilharia o fogo alaranjado, a rubra combustão, a flama rósea e branca dos crisântemos no crepúsculo de novembro, por uns instantes iguais àqueles em que eu (como se verá mais tarde) não soubera descobrir os prazeres que desejava. Mas agora, mesmo não me conduzindo a nada, aqueles instantes me pareciam ter tido em si mesmos um encanto considerável. Eu desejaria encontrá-los tais como os recordava. Ah!, mas só havia apartamentos Luís XVI inteiramente brancos, esmaltados de hortênsias azuis. Aliás, agora, só muito tarde se regressava a Paris. A sra. Swann ter-me-ia respondido, de um castelo, que só voltaria em fevereiro, muito depois do tempo dos crisântemos, caso lhe tivesse eu pedido que reconstituísse para mim os elementos daquela recordação que sentia ligada a um ano longínquo, a de milésimo ao qual não me era dado remontar, os elementos daquele desejo que por sua vez se tornara inacessível como o prazer que outrora perseguira em vão. E também seria preciso que fossem as mesmas mulheres, aquelas cujas toaletes me interessavam, porque, no tempo em que eu ainda tinha crença, minha imaginação as tinha individualizado e cercado de uma lenda. Ai!, na avenida das Acácias — a alameda dos Mirtos — tornei a ver algumas, velhas, que não eram mais do que as sombras terríveis do que tinham sido, errantes, a procurar desesperadamente não se sabia o quê, pelos bosques virgilianos. De há muito já haviam desaparecido e eu ainda a interrogar em vão os caminhos desertos. O sol se havia posto. A natureza recomeçava a reinar sobre o Bois, de onde se alara a ideia de que era o Jardim Elísio da Mulher; acima do moinho falso, o verdadeiro céu era cinzento;[7] o vento enrugava o Grande Lago em pequeninas vagas, como um lago; grandes pássaros cruzavam rapidamente o Bosque, como a um bosque, e, soltando gritos agudos, pousavam um após outro nos grandes carvalhos, que, sob a sua coroa druídica e com uma majestade dodônea,[8] pareciam proclamar o vazio inumano da floresta desapropriada, e me ajudavam a melhor compreender a contradição que existe em procurar na realidade os quadros da memória, aos quais faltaria sempre o encanto que lhes vem da própria memória e de não serem percebidos pelos sentidos. A realidade que eu conhecera não mais existia. Bastava que a sra. Swann não chegasse exatamente igual e no mesmo momento que antes, para que a avenida fosse outra. Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia no meio de impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante; e as casas, os caminhos, as avenidas são fugitivos, infelizmente, como os anos.[9]

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Leia também:

Volume 1
No Caminho de Swann (IV - nomes de terras: o nome, Mesmo aqueles que não a conheciam - e)
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7
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[1] Demissão ocorrida no dia 30 de janeiro de 1879. [n. e.]
[2] Alameda do Bois de Boulogne, que permanece até os anos de 1920 como lugar de passeio elegante. [n. e.]
[3] O pavilhão de Armenonville, o Prado Catalão e Madrid são restaurantes do Bois de Boulogne. [n. e.]
[4] Alusão à Criação dos astros, um dos cinco afrescos pintados por Michelangelo no teto da Capela Sistina. [n. e.]
[5] De acordo com a lenda, Diomedes alimentava seus cavalos com carne humana e estes exalavam línguas de fogo. Ele acaba sendo vencido por Hércules, que o faz ser devorado por seus cavalos. [n. e.]
[6] As “pregas das Tanagras” referem-se às estatuetas datadas do quarto século antes de Cristo, descobertas nos anos 1870, cuja indumentária, espécie de túnica, passa a ditar a moda parisiense. Já o termo “liberty” refere-se a uma loja londrina especializada em produtos orientais, que, originariamente, vendia tecidos em seda, com pequenos motivos florais. [n. e.]
[7] O moinho de vento da antiga abadia de Longchamp havia sido destruído durante a Revolução Francesa e substituído por uma cópia quando da reforma do Bois de Boulogne. [n. e.]
[8] O adjetivo refere-se à cidade grega de Dodona, onde havia um santuário de Zeus e onde os oráculos advinham do barulho do vento nas folhagens de carvalhos sagrados que circundavam o templo. [n. e.]
[9] Proust comentava essa conclusão do livro como o “contrário”, apenas “uma etapa” de conclusões sobre a natureza do Tempo que ainda estariam por vir. [n. e.]

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Marcel Proust - No Caminho de Swann (IV - nomes de terras: o nome, Dizia enfim - d)

em busca do tempo perdido


volume I
No Caminho de Swann

ao senhor gaston calmette
como um testemunho de profundo e afetuoso reconhecimento
— marcel proust

nomes de terras: o nome

IV(d) 

continuando...

     Dizia enfim, a ordem nova traçada pela invisível obreira, que se podemos desejar que as ações de uma pessoa que até agora nos penalizou tenham sido sinceras, há na sua sequência uma clareza contra a qual nada pode o nosso desejo e à qual devemos indagar, antes que a este último, quais serão as suas ações de amanhã.
     Essas palavras novas, o meu amor as ouvia; persuadiam-no de que o dia seguinte não seria diferente do que tinham sido todos os outros dias; que o sentimento que tinha Gilberte por mim, já muito antigo para que pudesse mudar, era tão só indiferença; que na minha amizade com Gilberte, era só eu quem amava. “É verdade”, respondia o meu amor, “não há nada que fazer dessa amizade, ela não mudará.” E então no dia seguinte (ou aguardando um dia de festa, quando havia um próximo, um aniversário, o Ano-Novo talvez, um desses dias que não são iguais aos outros, em que o tempo inteiramente recomeça, rejeitando a herança do passado, desdenhando o legado das suas tristezas) eu pedia a Gilberte que renunciássemos à nossa amizade antiga, lançando as bases de uma nova amizade.
     Tinha eu sempre à mão um mapa de Paris que, como ali se podia distinguir a rua onde morava a família Swann, me parecia conter um tesouro. E por prazer, por uma espécie de cavalheiresca fidelidade também, a propósito de qualquer coisa eu dizia o nome dessa rua, tanto assim que meu pai, que não estava a par de meu amor, como minha mãe e minha avó, acabava dizendo:

— Mas por que levas todo o tempo a falar dessa rua? Ela não tem nada de extraordinário, é muito agradável de morar porque fica a dois passos do Bois, mas há uma dúzia de outras no mesmo caso.

     Na conversa sempre achava um meio de fazer com que meus pais pronunciassem o nome de Swann: era verdade que o repetia mentalmente sem cessar: mas tinha necessidade também de ouvir a sua deliciosa sonoridade e de fazer-me executar aquela música cuja muda leitura não me bastava. Aliás esse nome de Swann, que de há tanto eu conhecia, era agora para mim um nome novo, como acontece com certos afásicos em relação às palavras mais usuais. Estava sempre presente ao meu pensamento, e todavia este não podia habituar-se a ele. Decompunha-o, soletrava-o, sua ortografia era para mim uma surpresa. E ao mesmo tempo que deixara de me ser familiar, deixara de parecer-me inocente. Tão culpáveis julgara as alegrias que sentia ao ouvi-lo que me parecia que adivinhavam o meu pensamento e mudavam a conversação quando eu procurava trazê-lo à baila. Insistia nos assuntos que ainda se referiam a Gilberte, moía sem fim as mesmas palavras, e embora soubesse que não eram mais que palavras — palavras pronunciadas longe dela, que ela não ouvia, palavras sem virtude que repetiam o que era, mas não podiam modificá-lo —, parecia-me no entanto que à força de manejar, de carrear, assim, tudo que se aproximava de Gilberte, talvez conseguisse tirar dali alguma chispa de felicidade. Redizia a meus pais que Gilberte estimava muito a governanta, como se essa proposição, enunciada pela centésima vez, fosse causar enfim o súbito aparecimento de Gilberte, que viria morar para sempre conosco. Retomava o elogio da velha dama que lia os Débats (insinuara a meus pais que era uma embaixatriz ou talvez uma alteza) e continuei a celebrar-lhe a beleza, a magnificência, a fidalguia, até o dia em que disse que, segundo o nome pronunciado por Gilberte, devia chamar-se sra. Blatin.

— Oh!, mas já sei quem é! — exclamou minha mãe, enquanto eu me sentia enrubescer de vergonha. — Alerta! Alerta!, como diria o teu pobre avô. E é ela que tu achas bonita?! Mas é horrível e sempre o foi. É viúva de um chefe de portaria. Não te lembras, quando eras criança, das manobras que eu fazia para livrar-me dela na lição de ginástica, quando ela queria falar comigo sem me conhecer, sob o pretexto de dizer-me que tu eras “muito bonito para um menino”. Sempre teve a mania de travar relações, e deve ser mesmo uma espécie de louca, como eu sempre pensei, se conhece verdadeiramente a senhora Swann. Pois se vem de um meio muito medíocre, pelo menos nunca houve nada a dizer contra ela, que eu saiba. Ah!, mas sempre tem de fazer relações. É horrível, terrivelmente vulgar e sempre a causar embaraços.

     Quanto a Swann, procurando parecer-me com ele, passava eu todo o tempo em que estava à mesa a puxar o nariz e a esfregar os olhos. Dizia meu pai: “Mas é idiota, esse menino. Vai ficar horrendo”. Desejaria, principalmente, ser tão calvo como Swann. Parecia-me um ser tão extraordinário que achava maravilhoso que pessoas que eu frequentava também o conhecessem e que nos acasos de um dia qualquer pudéssemos ser levados a encontrá-lo. E uma noite em que mamãe nos contava ao jantar, como de costume, o que fizera de tarde ao sair, bastou-lhe dizer: “A propósito, adivinhem a quem encontrei no Trois Quartiers, na seção dos guarda-chuvas: Swann”,[1] para que brotasse no meio da sua narrativa, muito árida para mim, uma flor misteriosa. Que melancólica volúpia saber que naquela tarde, delineando na multidão a sua forma sobrenatural, fora Swann comprar um guarda-chuva! Em meio dos acontecimentos grandes e mínimos, igualmente indiferentes, esse despertava em mim essas vibrações particulares de que era perpetuamente agitado o meu amor por Gilberte. Dizia meu pai que eu não me interessava por coisa alguma porque não escutava quando falavam das consequências políticas que poderia ter a visita do rei Teodósio, naquele momento hóspede da França e, dizia-se, seu aliado. Mas, em compensação, que vontade tinha eu de saber se Swann havia saído com a sua pelerina!

— E não se cumprimentaram? — perguntei. 
— Mas naturalmente — respondeu minha mãe, que sempre parecia temer que, se confessasse a frieza de nossas relações com Swann, haviam de querer aproximá-los mais do que ela desejava, isso por causa da sra. Swann, a quem não queria conhecer. — Foi ele quem veio cumprimentar-me, eu não o tinha visto. 
— Quer dizer que não estão brigados? 
— Brigados? Mas por que queres tu que estejamos brigados? — respondeu ela vivamente, como se eu houvesse descoberto a ficção de suas boas relações com Swann e procurasse uma “aproximação”. 
— Ele poderia ficar sentido por não o convidares mais. 
— Não se é obrigado a convidar todo mundo. Acaso ele me convida? Eu não conheço a sua mulher. 
— Mas em Combray ele ia à nossa casa. 
— Isso mesmo! Em Combray! Mas em Paris ele tem outras coisas que fazer, eu também. Mas asseguro-te que não parecíamos absolutamente duas pessoas brigadas. Ficamos um momento juntos porque não lhe traziam o pacote. Pediu-me notícias tuas, disse-me que brincavas com a filha dele — acrescentou minha mãe, maravilhando-me com o prodígio de que eu existisse no espírito de Swann e, o que era mais, de modo tão completo que, quando eu tremia de amor diante dele nos Campos Elísios, soubesse ele o meu nome, quem era a minha mãe, e pudesse amalgamar em torno de minha qualidade de camarada da sua filha alguns dados sobre meus avós, sua família, o lugar que habitávamos, certas particularidades de nossa vida de outrora, talvez até desconhecidas de mim. Mas minha mãe não parecia ter achado um particular encanto naquela seção do Trois Quartiers, onde representara para Swann, no momento em que a vira, uma pessoa definida com quem ele tinha recordações em comum que lhe haviam inspirado o impulso de aproximar-se dela e o gesto de saudá-la.

     Aliás, nem ela nem meu pai pareciam achar um prazer que ultrapassasse aos demais em falar dos avós de Swann e do título de corretor honorário. Minha imaginação isolara e consagrara na Paris social certa família, como fizera na Paris de pedra com certa casa, cuja porta de entrada esculpira e a que ornamentara as janelas. Mas esses adornos, era eu o único que os via. Da mesma forma que meus pais achavam a casa de Swann igual às outras construídas ao mesmo tempo no quarteirão do Bois, a família de Swann lhes parecia do mesmo gênero que muitas outras famílias de corretores. Julgavam-na mais ou menos favoravelmente segundo o grau em que participava dos méritos comuns ao resto do universo e não lhe achavam nada de único. Ao contrário, o que nela apreciavam, encontravam-no alhures, em grau idêntico ou superior. Assim, depois de achar a casa bem situada, falavam de outra que tinha melhor localização, mas que nada tinha a ver com Gilberte, ou de financistas de mais categoria que seu avô; e se por um momento pareciam compartilhar da minha opinião, era por um mal-entendido que não tardava a dissipar-se. É que, para perceber em tudo quanto cercava Gilberte, uma qualidade desconhecida, análoga do mundo das emoções ao que pode ser no das cores o infravermelho, meus pais eram desprovidos daquele sentido suplementar e momentâneo de que me dotara o amor.
     Nos dias em que Gilberte me anunciava que não iria aos Campos Elísios, tratava de dar passeios que dela me aproximassem um pouco. Às vezes levava Françoise em peregrinação até a frente da casa onde moravam os Swann. Fazia-a repetir sem fim o que soubera da governanta a respeito da sra. Swann. “Parece que tem muita fé em medalhas. Nunca viaja quando ouve piar uma coruja, ou quando lhe parece que ouviu assim como um tique-taque de relógio na parede, ou quando vê um gato à meia-noite, ou quando estala um móvel. Ah!, é uma pessoa muito crente!” Estava tão enamorado de Gilberte que, se avistava no caminho o seu velho mordomo levando a passear um cachorro, a emoção me obrigava a parar e eu lançava às suas suíças brancas olhares cheios de paixão. Françoise me dizia:

— Que tem você? 

     Depois prosseguíamos até a porta de entrada onde um porteiro diferente de qualquer outro porteiro, e penetrando até os galões da libré do mesmo encanto doloroso que eu sentira no nome de Gilberte, tinha o ar de saber que eu era daqueles a quem uma indignidade original proibiria para sempre penetrar na vida misteriosa que ele estava encarregado de guardar e sobre a qual as janelas do entressolo pareciam conscientes de estar fechadas, assemelhando-se, entre a nobre queda de suas cortinas de musselina, muito menos a quaisquer outras janelas do que aos olhares de Gilberte. Outras vezes íamos aos bulevares, e eu me postava à entrada da rua Duphot; tinham-me dito que muitas vezes ali se podia ver Swann passar a caminho do dentista; e minha imaginação de tal modo diferenciava o pai de Gilberte do resto da humanidade, tal maravilha introduzia a sua presença no meio do mundo real que, antes mesmo de chegar à Madeleine, emocionava-me ao pensamento de me aproximar de uma rua onde poderia dar-se de súbito a sobrenatural aparição.
     Mas com mais frequência — quando não devia ver Gilberte — como soubera que a sra. Swann costumava passar diariamente pela alameda das Acácias, em torno do grande lago, e pela alameda da Rainha Margarida — eu encaminhava Françoise para o Bois de Boulogne.[2] Era para mim como um desses jardins zoológicos onde se veem reunidas floras diversas e paisagens opostas; onde, após uma colina encontra-se uma gruta, um prado, rochedos, um arroio, um fosso, uma colina, um charco, mas que se sabe que ali só estão para fornecer à atividade do hipopótamo, das zebras, dos crocodilos, dos coelhos russos, dos ursos e da garça real um meio apropriado ou um quadro pitoresco; o Bois, igualmente complexo, reunindo pequenos mundos diversos e fechados — fazendo suceder alguma granja plantada de árvores vermelhas, de carvalhos da América, como um estabelecimento agrícola na Virgínia, a um pinheiral à beira do lago, ou a um maciço de onde assoma de súbito, em suas finas peles, com uns belos olhos de animal, alguma passeante rápida —, o Bois era o jardim das mulheres; e — como a alameda dos Mirtos da Eneida[3] — plantada para elas de árvores de uma só essência, a alameda das Acácias era frequentada pelas Belezas célebres. Como, de longe, o alto de um rochedo de onde ela se lança à água, transporta de alegria as crianças que sabem que vão ver a otária, muito antes de chegar à alameda das Acácias, o seu perfume, irradiando-se, fazia sentir de longe a vizinhança e a singularidade de uma possante e branda individualidade vegetal; depois, ao aproximar-me, o cimo entrevisto da sua fronde leve e travessa, de uma elegância fácil, de corte coquete e de um fino tecido, sobre a qual se haviam abatido centenas de flores como colônias aladas e vibráteis de preciosos parasitas; enfim, até o seu nome feminino, ocioso e suave, me fazia bater o coração, mas de um desejo mundano, como essas valsas que apenas nos evocam o nome das belas convidadas que o porteiro anuncia à entrada de um baile. Haviam-me dito que eu veria na alameda certas elegantes que, embora não tivessem todas casado, eram de ordinário nomeadas junto com a sra. Swann, mas em geral sob o seu nome de guerra: o novo nome, quando havia, não era mais que uma espécie de incógnito que aqueles que queriam referir-se a elas tinham o cuidado de desvelar para fazer-se compreender. Pensando que o Belo — na ordem das elegâncias femininas — regia-se por leis ocultas em cujo conhecimento elas haviam sido iniciadas e que tinham o poder de realizar, eu aceitava previamente, como uma revelação, o aparecimento de suas toaletes, de suas carruagens, de mil detalhes, em cujo seio punha toda a minha fé, como uma alma interior que dava àquele móvel e efêmero conjunto a coesão de uma obra-prima. Mas era a sra. Swann que eu queria ver, e esperava a sua passagem, emocionado como se se tratasse de Gilberte, cujos pais, impregnados, como tudo o que a cercava, do seu encanto, provocavam em mim tanto amor quanto ela, e até uma excitação mais dolorosa (pois seu ponto de contato era aquela parte secreta de sua vida que me era interdita), enfim (pois logo soube, como se verá, que não gostavam que eu brincasse com ela), esse sentimento de veneração que sempre votamos àqueles que exercem sem freio o poder de fazer-nos mal.
     Na ordem dos méritos estéticos e das grandezas mundanas, dava eu o primeiro lugar à simplicidade quando avistava a sra. Swann a pé, com uma polonesa de lã, um gorro adornado de uma asa de lofóforo, um ramo de violeta no seio, atravessando apressada a alameda das Acácias, como se fosse apenas o caminho mais curto para regressar a casa, respondendo com um olhar aos senhores de carruagem que, ao reconhecer de longe o seu vulto, a saudavam, dizendo que ninguém era tão chique. Mas, em vez da simplicidade, era o fausto que eu colocava no lugar mais alto, se, depois de forçar Françoise, que não podia mais e se queixava de que suas pernas “entravam para dentro”, a andar de um lado para outro durante uma hora, afinal avistava, emergindo da alameda que vem da ponte Dauphine — imagem para mim de um prestígio real, de uma chegada de rainha, como nenhuma rainha de verdade me deu depois a impressão, porque eu tinha de seu poder uma imagem menos vaga e mais experimental — arrebatada pelo voo de dois fogosos cavalos, delgados e de um acentuado perfil como os que se veem nos desenhos de Constantin Guys,[4] e levando à boleia um enorme cocheiro abrigado como um cossaco, ao lado de um minúsculo groom que lembrava o “tigre” do “falecido Baudenord”,[5] eu avistava — ou antes, sentia sua forma imprimir-se em meu coração numa incisiva e esgotante ferida — uma incomparável vitória, propositadamente um pouco alta e deixando transparecer as formas antigas através do seu luxo dernier cri, em cujo fundo reclinava-se languidamente a sra. Swann, os cabelos agora loiros com uma única mecha cinzenta, cingidos de uma fina guirlanda de flores, de onde pendiam longos véus, na mão uma sombrinha malva, nos lábios um sorriso ambíguo em que eu não via mais que a benevolência de uma Majestade e em que sobretudo havia a provocação da cocote e que ela inclinava docemente para as pessoas que a saudavam. Aquele sorriso, na realidade, dizia a uns: “Bem me lembro, foi delicioso!”; “Eu teria gostado… foi má sorte!”; a outros: “Como queira! Vou seguir por um momento a fila e, logo que puder, cortarei”. Quando passavam desconhecidos, deixava errar nos lábios um sorriso ocioso, como que voltado para a espera ou a recordação de um amigo e que fazia dizer: “Como é linda!”. E somente para certos homens tinha um sorriso azedo, constrangido, tímido e frio e que significava: “Sim, animal, sei que tens uma língua de víbora, que não podes deixar de falar!”. Passava Coquelin, discorrendo no meio de amigos atentos, e fazia com a mão, para as pessoas de carro, uma larga saudação de teatro. Mas eu só pensava na sra. Swann e fingia não tê-la visto, pois sabia que, chegando à altura do Tiro aos Pombos, mandaria o cocheiro cortar a fila e parar para que ela descesse a alameda a pé.[6] E nos dias em que me sentia com coragem de passar a seu lado, arrastava Françoise para aquela direção. Em dado momento, com efeito, era na alameda dos pedestres, marchando ao nosso encontro, que eu avistava a sra. Swann, ostentando a longa cauda de seu vestido malva, trajada, como o povo imagina as rainhas, de tecidos e ricos atavios que as outras mulheres não usavam, às vezes baixando o olhar para o cabo da sombrinha, desatenta às pessoas que passavam, como se a sua ocupação capital e seu fim fosse fazer exercício, sem pensar que era vista e que todas as cabeças estavam voltadas para ela. Às vezes, no entanto, quando se voltava para chamar o seu galgo, lançava imperceptivelmente um olhar circular em torno de si.

continua na página 269...
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Leia também:

Volume 1
No Caminho de Swann (IV - nomes de terras: o nome, Dizia enfim - d)
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7
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[1] Trois Quartiers, loja fundada em 1829 na esquina da rua Duphot com o bulevar da Madeleine. [n. e.]
[2] A alameda das Acácias (atual alameda de Longchamp) e a alameda da Rainha Margarida eram locais de passeio elegante no início do século. [n. e.]
[3] Alameda do Inferno, em que Eneida encontra toda uma série de mulheres vítimas do amor (livro v da Eneida, de Virgílio). [n. e.] 
[4] Característica da pintura de Guys descrita antes por Baudelaire no capítulo “Carros” (“Voitures”) de seu célebre texto sobre “O pintor da vida moderna”. [n. e.]
[5] Alusão ao termo empregado por Balzac em dois de seus romances, La maison de Nucingen e Les secrets et les misères de la princesse de Cadignan, que evocam a história de Baudenord e de seu “tigre”. [n. e.]
[6] O Tiro aos Pombos era um clube esportivo situado entre a alameda das Acácias e a Porta de Madri. [n. e.]

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Marcel Proust - No Caminho de Swann (IV - nomes de terras: o nome, Também houve um dia - c)

em busca do tempo perdido


volume I
No Caminho de Swann

ao senhor gaston calmette
como um testemunho de profundo e afetuoso reconhecimento
— marcel proust

nomes de terras: o nome

IV(c) 

continuando...

     Também houve um dia em que ela me disse: “Sabe? Pode chamar-me de Gilberte; eu, pelo menos, vou chamá-lo pelo primeiro nome. É mais cômodo”. Contudo, continuou por uns momentos a dizer-me simplesmente “você” e, como eu lhe observasse, ela sorriu e, compondo, construindo uma frase como essas que nas gramáticas estrangeiras não têm outro fim senão fazer-nos empregar uma palavra nova, rematou-a com o meu primeiro nome. E recordando-me mais tarde do que então sentira, discerni a impressão de ter eu próprio estado em sua boca por um instante, desnudo, sem mais nenhuma das modalidades sociais que também pertenciam a outros camaradas seus ou a meus pais quando ela dizia o meu nome de família, e de que seus lábios — no esforço que ela fazia, um pouco como o pai, para articular as palavras que queria pôr em evidência — pareciam despojar-me, despir-me, como se descasca um fruto de que só se pode saborear a polpa, enquanto o seu olhar, pondo-se no mesmo nível de intimidade que tomava a sua voz, me atingia também mais diretamente, não sem testemunhar a consciência, o prazer e até a alegria que então experimentava, fazendo-se acompanhar de um sorriso. 
     Mas não me era dado, no momento mesmo, apreciar o valor daqueles prazeres novos. Não eram dados, pela menina que eu amava, ao “eu” que a amava, mas pela outra, por aquela com quem eu brincava, àquele outro eu que não possuía nem a lembrança da verdadeira Gilberte, nem o coração indisponível que, só ele, poderia avaliar uma aventura, porque só ele a havia desejado. Nem mesmo depois de ter entrado em casa eu saboreava aqueles prazeres, pois a necessidade que me fazia esperar que no dia seguinte eu teria a contemplação exata, calma e feliz de Gilberte, e que ela me confessaria enfim o seu amor, explicando-me as razões que tivera para ocultá-lo até então, essa mesma necessidade forçava-me a ter o passado como inexistente, a só olhar para diante, a considerar as pequenas vantagens que ela me concedera não em si mesmas e como se se bastassem, mas como novos degraus onde pousar o pé, que me permitiriam dar um passo avante e atingir a felicidade que ainda não encontrara.
     Se algumas vezes me dava mostras de amizade, outras fazia-me penar, pois parecia que não lhe agradava ver-me: e isto muitas vezes ocorria exatamente nos dias com que eu mais contava para realizar as minhas esperanças. Estava certo de que Gilberte viria aos Campos Elísios, e experimentava uma alegria que me parecia apenas a vaga antecipação de uma grande felicidade quando — entrando de manhã na sala para beijar mamãe já pronta, com a torre de seus cabelos negros inteiramente construída, e suas belas mãos brancas e torneadas ainda cheirando a sabonete — soubera, ao ver uma coluna de poeira erguida acima do piano, e ao ouvir um realejo tocar Voltando da parada debaixo da janela, que o inverno recebia até a noite a visita inopinada e radiosa de um dia de primavera.[1] Enquanto almoçávamos, a vizinha de frente, abrindo a janela, fizera fugir bruscamente de junto a minha cadeira — riscando num único salto toda a largura da nossa sala de jantar — um raio de sol que ali começara a sua sesta e logo depois voltava para continuá-la. No colégio, na aula da uma hora, o sol me fazia morrer de impaciência e tédio, deixando arrastar-se um dourado clarão até minha carteira, como um convite à festa aonde eu não poderia chegar antes das três horas, quando Françoise viesse buscar-me à saída e nos encaminhássemos para os Campos Elísios, pelas ruas decoradas de luz, atopetadas de povo, e onde as sacadas vaporosas, varadas pelo sol, flutuavam diante das casas como nuvens de ouro. Mas, ai!, nos Campos Elísios eu não encontrava Gilberte, ela ainda não havia chegado. Imóvel sobre a grama que o sol invisível animava, fazendo fulgurar aqui e ali a ponta de uma relva, e onde os pombos ali pousados pareciam esculturas antigas que a enxada do jardineiro trouxera à superfície de um solo augusto, eu permanecia de olhos fixos no horizonte, esperando a todo momento ver surgir a imagem de Gilberte com a governanta, por detrás da estátua que parecia estender à bênção do sol a criança que carregava, toda escorrendo luz. A velha leitora dos Débats, sentada no lugar de sempre, interpelava um guarda, a quem fazia um aceno amigável, gritando-lhe: “Que lindo tempo!”. E vindo a encarregada das cadeiras efetuar a cobrança, fazia ela mil denguices ao meter o talão de recibo dos dez cêntimos na abertura da luva, como se fosse um buquê, para o qual procurava, por amabilidade para com o doador, o lugar mais lisonjeiro possível. E depois de alojado o recibo, a dama imprimia ao pescoço uma evolução circular, endireitava o boá, e lançava à mulher das cadeiras, mostrando a ponta de papel amarelo que lhe assomava ao punho, o belo sorriso com que uma mulher, indicando o seu corpete a um jovem, lhe diz: “E então? Não está reconhecendo as suas rosas?!”
     Eu levava Françoise ao encontro de Gilberte até o Arco do Triunfo, não a encontrávamos, e voltava para o gramado persuadido de que ela não viria mais, quando, diante do carrossel, a menina de voz breve se precipitava sobre mim: “Depressa, depressa, já faz um quarto de hora que Gilberte chegou. Vai partir daqui a pouco. Estão a sua espera para uma partida de barras”. Enquanto eu subia a avenida dos Campos Elísios, Gilberte viera pela rua Boissy-d’Anglas, pois a demoiselle aproveitara o bom tempo para fazer compras; e o sr. Swann viria buscar a filha. A culpa era minha, pois não deveria afastar-me do gramado, já que nunca se sabia ao certo de que lado nem a que horas viria Gilberte, e essa expectativa acabava por tornar muito mais emocionantes, não só os Campos Elísios inteiros e toda a duração da tarde, como uma imensa extensão de espaço e de tempo em cada um de cujos pontos e momentos era possível que aparecesse a imagem de Gilberte, mas ainda essa própria imagem, porque atrás dessa imagem eu sentia ocultar-se o motivo pelo qual me fora ela desfechada em pleno coração às quatro horas em vez de às duas e meia, com um chapéu de visitas em vez de boina de jogo, diante do Ambassadeurs e não entre os dois teatros de fantoches,[2] eu adivinhava uma dessas ocupações em que não poderia acompanhar Gilberte e que a forçavam a sair ou a ficar em casa, e assim me punha em contato com a sua existência desconhecida. Era também esse mesmo mistério que me perturbava quando, correndo por ordem da menina de voz breve para começar em seguida a nossa partida de barras, eu avistava Gilberte, tão vivaz e brusca conosco, fazendo uma reverência à dama dos Débats (que lhe dizia: “Que belo sol, parece fogo”), falando-lhe com um sorriso tímido, um ar comedido, que me evocava a menina diferente que devia ser Gilberte em casa de seus pais, com os amigos de seus pais, em visita, em toda a sua outra vida que me escapava. Mas dessa existência, ninguém me dava impressão mais nítida do que o sr. Swann, que chegava um pouco depois, em busca da filha. É que ele e a sra. Swann — porque sua filha morava em casa deles, porque seus estudos, seus divertimentos, suas amizades, deles dependiam — possuíam para mim, como Gilberte, talvez mais do que Gilberte, um mistério inacessível, um doloroso encanto, que provinha desse mesmo poder que tinham sobre ela. Tudo quanto lhes dizia respeito era de minha parte objeto de preocupação tão constante que nos dias em que o sr. Swann (o qual tantas vezes eu já vira, quando se dava com meus pais, sem que me excitasse maior curiosidade) vinha buscar Gilberte nos Campos Elísios, uma vez acalmadas as palpitações que me provocava o aparecimento de seu chapéu gris e da sua pelerina, o seu aspecto ainda me impressionava como o de uma personagem histórica a cujo respeito acabamos de ler uma série de obras e cujas menores particularidades nos apaixonam. Suas relações com o conde de Paris, que me eram indiferentes quando ouvia falar nelas em Combray, assumiam agora para mim alguma coisa de maravilhoso, como se nenhuma outra pessoa tivesse jamais conhecido os Orléans; faziam-no destacar-se vivamente sobre o fundo vulgar dos transeuntes de diferentes classes que enchiam aquela alameda dos Campos Elísios, e admirava-me de que ele consentisse em figurar entre eles sem lhes reclamar atenções especiais, que ninguém aliás pensava em prestar-lhe, tão profundo era o incógnito em que se envolvia.
     Respondia polidamente às saudações das camaradas de Gilberte, até a minha, embora estivesse estremecido com minha família, mas sem dar mostras de me conhecer. (Lembrou-me isso que no entanto ele já me vira muitas vezes no campo; lembrança que eu conservara, mas na sombra, porque desde que tornara a ver Gilberte, Swann para mim era antes de tudo o seu pai, e não mais o Swann de Combray; como as ideias em que eu enxertava agora o seu nome eram diferentes das ideias em cuja trama estava incluído outrora, e que eu jamais utilizava quando pensava nele. Swann tornara-se para mim uma personagem nova; liguei-o no entanto, por uma linha artificial, transversal e secundária, ao nosso antigo convidado; e como nada tinha valor para mim senão na medida em que o meu amor lhe pudesse tirar proveito, foi com um sentimento de vergonha e o pesar de não poder apagá-los que tornei a encontrar os anos em que, para o mesmo Swann que estava naquele momento diante de mim nos Campos Elísios e a quem felizmente talvez Gilberte não houvesse dito o meu nome, eu tantas vezes parecera ridículo quando mandava pedir a mamãe que subisse a meu quarto para me dar boa-noite, enquanto ela tomava café com ele, meu pai e meus avós na mesinha do jardim.) Dizia a Gilberte que lhe permitia uma partida, que podia esperar um quarto de hora e, sentando-se como todo mundo numa cadeira de ferro, pagava o seu bilhete com aquela mão que Filipe VII tantas vezes apertara na sua, enquanto começávamos a jogar na grama, fazendo debandar os pombos, cujos belos corpos irisados têm a forma de um coração e são como os lilases do reino dos pássaros, e que iam refugiar-se, como num asilo, este no grande vaso de pedra a que ele, mergulhando o bico em seu interior, dava o aspecto e a destinação de lhe oferecer com abundância os frutos ou grãos que ali parecia estar comendo, aquele sobre a fronte da estátua, como que a coroá-la de um desses objetos de esmalte, cuja policromia vem quebrar, em certas obras antigas, a monotonia da pedra, e de um atributo que quando a deusa o traz lhe vale um epíteto particular e a transforma, como para uma simples mortal um prenome diferente, em uma divindade nova.
     Num daqueles dias de sol em que não se realizaram minhas esperanças, não tive forças para ocultar a Gilberte a minha decepção. 

— Justamente hoje tinha muitas coisas que lhe perguntar — disse-lhe eu. — Julgava que este dia iria influir muito na nossa amizade. E mal você chega, já vai partir! Trate de vir amanhã bem cedo, para que eu possa afinal falar-lhe.

     Seu rosto resplandeceu, e foi saltando de alegria que ela me contestou: 

— Amanhã? Pode ficar esperando, meu amiguinho, que eu não virei! Tenho uma festa; depois de amanhã tampouco: vou assistir, da janela de uma amiga, a chegada do rei Teodósio, será soberbo, e ainda no outro dia vou ao Miguel Strogof , e depois, aí vêm o Natal e as férias do Ano-Novo.[3] Talvez me levem ao Sul. Isto sim, que será chique!, embora me faça perder uma árvore de Natal; em todo caso, se ficar em Paris, não virei aqui, pois vou fazer visitas com mamãe. Adeus, papai está chamando.

     Voltei com Françoise pelas ruas ainda empavesadas de sol, como depois de finda uma festa. Mal podia arrastar as pernas. 

— Não é de espantar — disse Françoise —, este tempo está fora de estação, faz calor demais! Ai, meu Deus! Deve haver muitas criaturas doentes; lá em cima, também, parece que tudo está em desarranjo.

     Abafando os soluços, repetia comigo as palavras com que Gilberte desafogara a sua alegria por não ter de ir durante muito tempo aos Campos Elísios. Mas já o encanto de que, por seu simples funcionamento, se enchia o meu espírito logo que pensava nela, a posição particular, única — por aflitiva que fosse —, em que me colocava perante Gilberte, a coação interna de um hábito mental, haviam começado a acrescentar, mesmo àquela demonstração de indiferença, algo de romanesco, e no meio de minhas lágrimas se formava um sorriso que não era senão o tímido esboço de um beijo. E, quando chegou a hora do correio, pensei, como das outras vezes: Vou receber uma carta de Gilberte, ela enfim me vai dizer que nunca cessou de amar-me e me explicará a misteriosa razão por que se viu forçada a ocultá-lo até agora, a fingir que poderia ser feliz sem ver-me, a razão por que tomou a aparência da Gilberte simples camarada.
     Todas as noites comprazia-me em imaginar aquela carta, julgava lê-la, recitava comigo cada frase. De súbito parava, alarmado. Compreendia que, se devesse receber uma carta de Gilberte, em todo caso não poderia ser aquela, visto que era eu quem acabava de compô-la. E desde então, esforçava-me por desviar o pensamento das palavras que gostaria que ela me escrevesse, com receio de excluir exatamente essas do campo das realizações possíveis — as mais caras, as mais desejadas — pelo simples ato de enunciá-las. Mesmo que, por uma inverossímil coincidência, fosse precisamente a carta que eu tinha inventado a que Gilberte me enviaria, eu, reconhecendo nela a minha obra, não teria a impressão de receber alguma coisa que não proviesse de mim, alguma coisa de real, de novo, uma felicidade exterior a meu espírito, independente de minha vontade, verdadeiramente concedida pelo amor.
     Enquanto esperava, relia uma página que não me escrevera Gilberte, mas que pelo menos me vinha dela, aquela página de Bergotte sobre a beleza dos velhos mitos em que se inspirara Racine, e que eu sempre conservava junto de mim, ao lado da bolinha de ágata. Enternecia-me a bondade de minha amiga, que a mandara procurar para mim; e como cada qual necessita encontrar razões para sua paixão até ter a alegria de reconhecer, na criatura amada, qualidades que a leitura ou a conversação lhe indicaram como dignas de provocar amor, até assimilá-las por imitação e delas fazer novas razões de amar, por mais opostas que sejam essas qualidades àquelas que esse amor teria buscado quando espontâneo — como acontecia outrora com Swann quanto ao caráter estético da beleza de Odette —, eu, que a princípio, em Combray, amara Gilberte por tudo quanto havia de desconhecido na sua vida, na qual desejaria precipitar-me, encarnar-me, largando a minha, que não valia mais nada, pensava agora, como numa inestimável vantagem, que Gilberte poderia chegar a ser um dia a humilde serva, a cômoda e prestimosa colaboradora daquela minha vida tão desdenhada e tão conhecida, e que, ajudando-me à noite em meus trabalhos, colecionaria brochuras para mim. Quanto a Bergotte, esse velho infinitamente sábio e quase divino, por causa de quem eu a princípio amara Gilberte, mesmo antes de a ter visto, agora eu o amava principalmente por causa de Gilberte. Com tanto prazer como as páginas que ele escrevera sobre Racine, eu contemplava o papel com grandes sinetes de lacre branco e fitas de cor malva no qual ela mas enviara. Beijei a bolinha de ágata que era a melhor parte do coração de minha amiga, a parte que não era frívola, mas fiel e que, embora impregnada do encanto misterioso da vida de Gilberte, permanecia perto de mim, morava no meu quarto, deitava no meu leito. Mas tanto a beleza da pedra como a beleza das páginas de Bergotte, que me comprazia em associar à ideia de meu amor a Gilberte, como se dessem a este uma espécie de consistência nos momentos em que já não me parecia coisa nenhuma, eu reconhecia que eram anteriores a esse amor, que não se lhe assemelhavam, que seus elementos haviam sido fixados pela inteligência ou as leis mineralógicas antes que Gilberte me tivesse conhecido, que nada no livro nem na pedra seria diverso se Gilberte não me houvesse amado, e que nada por conseguinte me autorizava a ler neles uma mensagem de felicidade. E enquanto o meu amor, incessantemente esperando no dia seguinte a confissão do de Gilberte, anulava e desfazia todas as noites o trabalho malfeito do dia, na sombra de mim mesmo uma desconhecida operária não deixava que se desperdiçassem os fios arrancados e dispunha-os, sem preocupar-se de me agradar ou trabalhar por minha felicidade, em uma ordem diferente, que costumava dar a todas as suas obras. Não tendo nenhum interesse particular por meu amor, não começando por decidir que eu era amado, recolhia as ações de Gilberte que me haviam parecido inexplicáveis e as suas faltas que eu escusara. Umas e outras então tomavam um sentido. Parecia dizer, essa ordem nova, que ao ver Gilberte ir a uma festa ou fazer compras com a governanta, em vez de vir aos Campos Elísios, e preparar-se para uma ausência durante as festas do Ano-Novo, fazia eu mal em pensar e dizer comigo: “É que ela é frívola ou obediente”. Pois deixaria de ser uma coisa ou outra se me amasse, e, se fosse obrigada a obedecer, fá-lo-ia com desespero igual ao meu nos dias em que não a avistava. Dizia mais, essa ordem nova, que eu devia no entanto saber o que era amar, visto que amava Gilberte; observava-me o perpétuo cuidado que eu tinha de fazer-me valer a seus olhos, tentando persuadir a minha mãe que comprasse para Françoise um impermeável e um chapéu de pluma azul, ou então que não me enviasse aos Campos Elísios com aquela criada que me envergonhava (ao que minha mãe respondia ser eu injusto para com Françoise, que era uma boa mulher muito devotada a nós), e também o meu desejo exclusivo de ver Gilberte, que fazia com que meses antes eu só pensasse em informar-me em que época deixaria ela Paris e aonde iria, e achando o sítio mais delicioso um local de exílio se ela ali não devesse estar e não desejando deixar Paris enquanto pudesse vê-la nos Campos Elísios; e não tinha dificuldade em demonstrar-me que nem aquele cuidado, nem esta necessidade, eu os encontraria na atitude de Gilberte. Ela, pelo contrário, apreciava a sua governanta, sem se preocupar com o que eu pensasse a seu respeito. Achava natural não vir aos Campos Elísios, se era para ir fazer compras com Mademoiselle, e agradável se era para sair com sua mãe. E supondo até que me permitisse passar as férias no mesmo lugar que ela, na escolha desse lugar influiriam as intenções de seus pais, mil divertimentos de que lhe haviam falado, e de modo nenhum que fosse o local a que minha família pretendia enviar-me. Quando assegurava que me amava menos que a algum de seus amigos, menos do que na véspera porque eu a fizera perder a partida por uma negligência, eu lhe pedia perdão, perguntava-lhe o que devia fazer para que ela me quisesse tanto como antes, para que ela me quisesse mais que aos outros; queria que ela dissesse que já estava tudo feito, suplicava-lhe, como se ela pudesse modificar sua afeição conforme sua vontade, ou a minha, para me dar prazer, segundo a minha boa ou má conduta, só pelas palavras que dissesse. Não sabia eu então que o que sentia por ela não dependia nem dos seus atos nem da minha vontade?

continua na página 265...
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Leia também:

Volume 1
No Caminho de Swann (IV - nomes de terras: o nome, Também houve um dia - c)
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7
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[1] “Voltando da parada” (“En revenant de la revue”) era canção militar criada por Paulus no dia 14 de julho de 1886 e que voltaria à moda durante o “Caso Dreyfus”, do qual muito se falará ao longo do livro. [n. e.]
[2] O teatro dos Ambassadeurs ficava na avenida Gabriel, nos jardins dos Campos Elísios. [n. e.]
[3] Peça adaptada do romance homônimo de Júlio Verne, pelo próprio autor e por Adolphe d’Ennery, criada em 1880 e depois retomada com grande sucesso no já mencionado teatro do Châtelet. O “rei Teodósio” é personagem fictícia provavelmente inspirada no czar Nicolau ii, que visitou Paris no mês de outubro de 1896. [n. e.]

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Marcel Proust - No Caminho de Swann (IV - nomes de terras: o nome, E, ai de mim, proibiu - b)

em busca do tempo perdido


volume I
No Caminho de Swann

ao senhor gaston calmette
como um testemunho de profundo e afetuoso reconhecimento
— marcel proust

nomes de terras: o nome

IV(b) 

continuando...

     E, ai de mim, proibiu também de modo absoluto, que me deixassem ir ao teatro ouvir a Berma; a artista sublime, em quem Bergotte achava gênio, fazendo-me conhecer alguma coisa que era talvez tão importante e tão belo, ter-me-ia consolado de não haver ido a Florença e a Veneza, de não ir a Balbec. Deviam contentar-se em enviar-me todos os dias aos Campos Elísios, sob a vigilância de uma pessoa que me impedisse de fatigar-me, e que no caso foi Françoise, que entrara a nosso serviço desde a morte de tia Léonie. Isso de ir aos Campos Elísios foi-me uma coisa insuportável. Se ao menos Bergotte os tivesse descrito nalgum de seus livros, por certo eu desejaria conhecê-los, como todas as coisas cujo “duplo” tinham começado por introduzir-me na imaginação. Ela as aquecia, fazia-as viver, lhes dava uma personalidade, e eu desejava reencontrá-las no mundo real; mas, naquele jardim público, nada se ligava a meus sonhos.
     Um dia, como me aborrecesse em nosso costumeiro lugar junto ao carrossel, Françoise levara-me em excursão — além da fronteira que guardam a intervalos iguais os pequenos bastiões das vendedoras de balas — naquelas regiões vizinhas mas estrangeiras, onde as caras são desconhecidas, por onde passa o carro das cabras; depois voltara para apanhar as suas coisas da cadeira junto ao maciço de loureiros; enquanto ela não vinha, eu explorava o vasto campo definhado e raso, amarelecido pelo sol, e em cujo fundo há uma fonte dominada por uma estátua, quando, da alameda, dirigindo-se a uma menina de cabelos ruivos que jogava peteca diante da fonte, uma outra, que punha o chapéu e guardava a raqueta, gritou-lhe com voz breve: “Adeus, Gilberte, vou-me embora; não te esqueças de que esta noite iremos à tua casa depois do jantar”. Esse nome de Gilberte passou por mim, evocando tanto mais a existência daquela a quem designava, visto que não a nomeava apenas como a um ausente de quem se fala, mas interpelava-a; também passou por mim em ação, por assim dizer, com uma força acrescida pela curva da sua trajetória e a proximidade de seu objetivo — transportando consigo, eu o sentia, o conhecimento, as noções que tinha daquela a quem era dirigido não eu, mas a amiga que a chamava, tudo o que, enquanto o pronunciava, ela revia, ou pelo menos possuía na memória, da sua intimidade cotidiana, das visitas que trocavam, de todo aquele desconhecido ainda mais inacessível e doloroso para mim por ser tão familiar e manejável para aquela feliz criatura, que com ele me tocava sem que eu lhe pudesse penetrar e que o lançava em pleno ar, num grito —, deixando já flutuar no espaço a emanação deliciosa (que fizera desprender-se, tocando-os com precisão, de alguns pontos invisíveis da vida da filha de Swann), da próxima noite, tal como seria, após o jantar, em casa dela, formando, passageiro celeste no meio das crianças e das criadas, uma nuvenzinha de uma cor preciosa, igual à que, arqueada acima de um belo jardim de Poussin, reflete minuciosamente como uma nuvem de ópera, cheia de cavalos e de carros, alguma aparição da vida dos deuses — lançando enfim, sobre aquele gramado ralo, no sítio em que ele era ao mesmo tempo um trecho de relva crestada e um momento da tarde da ruiva jogadora de peteca (que não cessou de arremessá-la e apará-la até que a chamasse uma governanta de pluma azul no chapéu), uma pequena faixa maravilhosa e cor de heliotrópio, impalpável como um reflexo e superposta como um tapete, sobre o qual não me cansava de passear meus passos demorados, nostálgicos e profanadores, enquanto Françoise me gritava: “Vamos! Abotoe o casaco e raspemo-nos”, quando pela primeira vez notei com irritação que a sua linguagem era vulgar e ela não tinha — que tristeza! — pluma azul no chapéu.
     Ao menos voltaria ela aos Campos Elísios? No dia imediato não estava; mas a vi nos dias seguintes; rondava todo o tempo pelo local onde ela brincava com as amigas, de sorte que uma vez em que não tinham número suficiente para uma partida de barras, ela mandou perguntar se eu queria completar o seu bando, e desde então brinquei com Gilberte sempre que ela estava presente. Mas não era todos os dias: às vezes não podia vir por causa dos estudos, do catecismo, de uma merenda, de toda aquela vida separada da minha que por duas vezes, condensada no nome de Gilberte, sentira passar tão dolorosamente por mim, na ladeira de Combray e no gramado dos Campos Elísios. Naqueles dias, avisava de antemão que não a veriam; se era por causa dos estudos dizia: “Que maçada! Não poderei vir amanhã, vocês todos vão divertir-se sem mim”, com um ar pesaroso que me consolava um pouco; mas, por outro lado, se era convidada para alguma festa e eu, ignorando-o, lhe perguntava se não viria brincar, ela respondia: “Espero que não! Creio que mamãe me deixará ir à festa de minha amiga”. Pelo menos naqueles dias, eu sabia que não a veria, mas outras vezes sua mãe a levava de improviso a fazer compras, e no dia seguinte ela dizia: “Ah!, sim, saí com mamãe”, como uma coisa muito natural e que não fosse para alguém a maior desgraça possível. Havia também os dias de mau tempo, em que a sua governanta, que temia a chuva, não queria levá-la aos Campos Elísios.
     Assim, quando o céu se apresentava duvidoso, eu desde a manhã não cessava de interrogá-lo e levava em conta os mínimos detalhes. Se via a senhora que morava em frente pôr o seu chapéu junto à janela, dizia comigo: “Aquela senhora vai sair; portanto, está fazendo um tempo em que se pode sair; por que Gilberte não poderá fazer como essa senhora?”. Mas o tempo ensombrecia, dizia minha mãe que ainda podia melhorar, que bastava para isso um raio de sol, mas que mais provavelmente choveria; e se chovesse, para que ir aos Campos Elísios? Assim, depois do almoço, os meus olhares ansiosos não mais deixavam o céu incerto e nublado. Ele permanecia sombrio. Diante da janela a sacada era cinzenta. De súbito, sobre o seu tristonho pavimento de pedra, eu não via uma cor menos baça, mas sentia como que um esforço para uma cor menos baça, a pulsação de um raio hesitante que quisesse libertar a sua luz. Um instante após, a sacada estava pálida e luminosa como uma água matinal, e mil reflexos dos ferros de suas grades tinham vindo pousar ali. Um sopro de vento os dispersava, a pedra se ensombrecera de novo, mas, como que domesticados, eles voltavam; a pedra recomeçava imperceptivelmente a clarear e, por um desses crescendos contínuos como os que, em música, no fim de uma abertura, levam uma única nota até o fortíssimo supremo, fazendo-a passar rapidamente por todos os graus intermediários, eu a via alcançar esse ouro inalterável e fixo dos belos dias, sobre o qual as recortadas sombras dos lavores de ferro se destacavam em negro como uma vegetação caprichosa, como uma tenuidade no delineamento dos menores detalhes que parecia trair uma consciência aplicada, uma satisfação de artista, e com tal relevo, tal aveludado no repouso de suas massas sombrias e felizes que na verdade aqueles reflexos largos e folhudos que repousavam naquele lago de sol pareciam saber que eram penhores de calma e de ventura.
     Hera instantânea, flora parietária e fugitiva! A mais incolor, a mais triste, pensam muitos, das que podem trepar pelo muro ou decorar a janela; mas, para mim, de todas a mais cara, desde o dia em que aparecera em nosso balcão, como a própria sombra da presença de Gilberte, que já estava talvez nos Campos Elísios e, logo que eu chegasse, me diria: “Vamos começar em seguida o jogo de barras, você está do meu lado”; hera frágil, que um sopro arrebatava, mas também em relação tão íntima não com a estação, mas com o minuto; promessa da felicidade imediata que o dia nega ou concede, e portanto da felicidade imediata por excelência, a felicidade do amor; mais suave, mais quente sobre a pedra, do que o próprio musgo; tão vivaz que lhe basta um raio para nascer, fazendo brotar a alegria, mesmo no coração do inverno.
     E até nesses dias em que desaparece qualquer outra vegetação, em que o belo ouro verde que envolve o tronco das velhas árvores fica oculto sob a neve, quando esta parava, mas o tempo continuava muito sombrio para eu esperar que Gilberte saísse, eis que de súbito, fazendo minha mãe dizer: “Olha! Acaba de clarear; quem sabe se vocês não poderiam ir mesmo aos Campos Elísios”, o sol recém-surgido, sobre o manto de neve que cobria a sacada, entrelaçava fios de ouro e bordava reflexos negros. Naquele dia não encontrávamos ninguém, ou só alguma das meninas prestes a partir, que me afiançava que Gilberte não viria. As cadeiras, abandonadas pela assembleia majestosa mas friorenta das governantas, estavam vazias. Apenas, perto do gramado, achava-se sentada uma senhora de certa idade, que vinha por qualquer tempo que fizesse sempre trajada do mesmo modo magnífico e sombrio, e a quem naquela época, se o trato fosse possível, eu teria sacrificado as maiores vantagens de minha vida futura, só para travarmos relações pessoais. Pois Gilberte ia todos os dias cumprimentá-la; ela pedia a Gilberte notícias de “seu amor de mamãe”; e parecia-me que, se a conhecesse, eu seria para Gilberte alguém muito diferente, alguém que conhecia as relações de seus pais. Enquanto os netos brincavam mais além, ela lia os Débats, a que chamava “os meus velhos Débats”[1] e, por estilo aristocrático, dizia, referindo-se ao guarda ou à alugadora de cadeiras: “Meu velho amigo o guarda”, “a alugadora de cadeiras e eu, que somos velhas amigas”. Françoise sentia muito frio para poder ficar parada, e fomos até a ponte da Concórdia ver o Sena congelado, do qual todos e até as crianças se aproximavam sem medo como de uma imensa baleia encalhada e indefesa, que fossem esquartejar. Voltávamos aos Campos Elísios; eu me consumia de dor entre os imóveis cavalos de pau e o relvado todo branco, preso na rede negra dos caminhos que haviam limpado da neve e onde a estátua agora tinha na mão uma vara adicional de gelo que parecia explicar o seu gesto. Por sua vez a velha senhora dobrou os Débats, perguntou as horas a uma ama que passava e a quem agradeceu, dizendo-lhe: “É muito amável da sua parte”; depois, pedindo ao zelador que fosse dizer a seus netos que voltassem, que ela estava com frio, acrescentou: “Será muita bondade sua. Creia que me sinto confusa”. De súbito, o ar rasgou-se: entre o teatro de fantoches e o circo, no horizonte embelecido, sobre o céu entreaberto, eu acabava de avistar, como um signo fabuloso, a pluma azul de Mademoiselle. E Gilberte já vinha correndo em disparada na minha direção, radiante e afogueada, com seu gorro de peles, animada pelo frio, a demora e o desejo do jogo; um pouco antes de alcançar-me, deixou-se deslizar sobre o gelo e, ou para conservar melhor o equilíbrio, ou porque achasse mais gracioso, ou para afetar a atitude de uma patinadora, foi de braços abertos que avançou sorrindo, como se quisesse receber-me entre eles. “Bravo! Bravo! Isso é que está bem, isso é que eu diria, como vocês, que é chique, que é fibra, se não fosse de uma outra época, do Antigo Regime”, exclamou a velha dama, tomando a palavra em nome dos Campos Elísios silenciosos, para agradecer a Gilberte por ter vindo sem deixar-se intimidar com o tempo. “Você é como eu, fiel apesar de tudo aos nossos Campos Elísios; nós somos duas valentes. Se eu dissesse que gosto dos Campos Elísios, mesmo assim? Essa neve, você vai rir de mim, essa neve me faz pensar em arminho!” E a velha dama se pôs a rir.
     O primeiro daqueles dias — aos quais a neve, imagem das potências que podiam privar-me de ver Gilberte, dava a tristeza de um dia de separação e até o aspecto de um dia de partida, porque mudava a face e quase impedia a utilização do lugar habitual de nossos únicos encontros, agora transformado, todo envolto em capas — aquele dia, no entanto, fez progredir o meu amor, pois foi como um primeiro pesar que ela houvesse partilhado comigo. Do nosso bando, só havia nós dois, e ser assim o único que estava com ela constituía não só um começo de intimidade, mas também da sua parte — como se Gilberte tivesse vindo unicamente por minha causa por um tempo daqueles — tal coisa me parecia tão comovente como se, nos dias em que fosse convidada para uma festa, tivesse renunciado a ela para vir encontrar-me nos Campos Elísios; eu adquiria mais confiança na vitalidade e futuro de nosso afeto, que permanecia vivaz no meio do entorpecimento, da solidão e da ruína das coisas ambientes; e enquanto Gilberte me metia bolas de neve no pescoço, eu sorria com ternura à sua ideia de vir, que ao mesmo tempo me parecia um sinal de predileção, ao tolerar-me como companheiro de viagem naquele país hibernal e novo, e uma espécie de fidelidade que ela me guardava no meio da desgraça. Em breve, uma após outra, como pardais hesitantes, foram chegando as suas amigas, vultos escuros contra a neve branca. Começamos a brincar e, como aquele dia tão tristemente iniciado devia acabar em alegria, quando me aproximava, antes do jogo de barras, da amiga de voz breve que eu ouvira gritar por Gilberte no primeiro dia, ela me disse: “Não, não, é sabido que você gosta mais de jogar do lado de Gilberte, e além disso ela já lhe está fazendo sinais”. Chamava-me, com efeito, para que eu fosse para a pista de neve, para o seu campo, a que o sol, emprestando-lhe os reflexos róseos, o metálico desgaste dos brocados antigos, transformava no campo do lençol de ouro.[2]
     Aquele dia que eu tanto temera foi pelo contrário um dos poucos em que não me senti muito infeliz. 
     Pois, para mim, que só pensava em nunca passar um dia sem ver Gilberte (tanto que, uma vez que a minha avó ainda não tinha regressado à hora do jantar, não pude impedir-me de refletir que, se algum carro a tivesse esmagado, eu não poderia ir por algum tempo aos Campos Elísios; não se ama a ninguém mais quando se ama), não eram, contudo, nada felizes aqueles momentos em que me achava junto dela e que desde a véspera tão impacientemente esperara, pelos quais tremera, pelos quais teria sacrificado todo o resto; e eu bem o sabia, pois eram os únicos momentos de minha vida sobre os quais concentrava uma atenção meticulosa, encarniçada, que não descobria neles um átomo de prazer.
     Todo o tempo em que me achava longe de Gilberte, tinha necessidade de a ver, porque, procurando incessantemente representar-me a sua imagem, acabava por não mais consegui-lo e por não mais saber exatamente a que correspondia o meu amor. E depois, ela nunca me havia dito que me amava. Pelo contrário, dera muitas vezes a entender que tinha amigos que preferia a mim, que eu era um bom camarada com quem brincava de bom grado, embora muito distraído e pouco aplicado ao jogo; enfim, dera-me muitas vezes demonstrações de frieza que poderiam abalar minha crença de que eu era para ela um ser diferente dos outros, se tal crença se originasse num possível amor de Gilberte por mim e não, como acontecia, no meu amor por ela, com o que se tornava muito mais resistente, pois que isso a fazia depender da própria maneira como eu era obrigado, por uma necessidade interior, a pensar em Gilberte. Mas os sentimentos que por ela experimentava, eu próprio não lhes havia ainda declarado. É verdade que em todas as páginas de meus cadernos escrevia indefinidamente o seu nome e o seu endereço, mas, à vista daquelas vagas linhas que eu traçava sem que ela por isso pensasse em mim, que a faziam ocupar em redor de mim tanto espaço aparente sem que por isso ficasse mais ligada à minha vida, sentia-me desanimado, porque não me falavam de Gilberte, que nem sequer as veria, mas de meu próprio desejo, que pareciam apresentar-me como algo de puramente pessoal, de irreal, de fastidioso e de impotente. O mais urgente era que Gilberte e eu nos víssemos e pudéssemos fazer a confissão recíproca de nosso amor, que até esse momento não teria por assim dizer começado. As diversas razões que me tornavam tão impaciente de a ver seriam menos imperiosas, sem dúvida, para um homem maduro. Acontece mais tarde que, tornando-nos peritos no cultivo de nossos prazeres, nos contentemos com aquele que sentimos ao pensar numa mulher como eu pensava em Gilberte, sem nos inquietarmos por saber se essa imagem corresponde à realidade, e também com o prazer de amar sem ter necessidade da certeza de que ela nos ama; pode ainda suceder que renunciemos ao prazer de lhe confessar nossa inclinação por ela, a fim de manter mais vívida a inclinação que ela tem por nós, imitando esses jardineiros japoneses que, para obter uma flor mais bela, lhe sacrificam várias outras. Mas no tempo em que eu amava Gilberte, julgava ainda que o amor existia realmente fora de nós; que, permitindo, quando muito, que afastássemos os obstáculos, oferecia as suas venturas numa ordem à qual não se era livre de mudar coisa alguma; parecia-me que se eu, por conta própria, houvesse substituído a doçura da confissão pelo dissimulo da indiferença, ter-me-ia privado de uma das alegrias com que mais sonhara e também fabricado, à minha guisa, um amor fictício e sem valor, sem comunicação com o verdadeiro, renunciando assim a seguir-lhe os caminhos misteriosos e preexistentes.
     Mas quando chegava aos Campos Elísios — e logo iria confrontar meu amor, para lhe fazer as necessárias retificações, com a sua causa viva, independente de mim —, desde que me via na presença daquela Gilberte Swann com quem contara para refrescar as imagens que minha memória fatigada não mais encontrava, daquela Gilberte Swann com quem ontem brincara, e que um instinto cego acabava de fazer-me saudar e reconhecer, um instinto como esse que, na marcha, nos põe um pé diante do outro antes que tenhamos tempo de pensar, logo tudo se passava como se ela e a menina que era objeto de meus sonhos fossem duas criaturas diferentes. Por exemplo, se desde a véspera trazia eu na memória dois olhos vivos em faces cheias e brilhantes, o rosto de Gilberte me oferecia agora com insistência alguma coisa de que precisamente não me havia lembrado, certo afilamento do nariz que, associando-se instantaneamente a outros traços, tomava a importância desses caracteres que em história natural definem uma espécie, e transmutava-a numa menina do gênero das de focinho pontudo. Enquanto me dispunha a aproveitar aquele almejado instante para entregar-me, sobre a imagem de Gilberte que eu preparara antes de vir e que não encontrava mais em minha cabeça, à revisão que me permitiria, nas longas horas de solidão, ter certeza de que era mesmo Gilberte que eu recordava, de que era mesmo o meu amor por Gilberte que eu aumentava pouco a pouco como uma obra em composição, ela me jogava uma bola; e como o filósofo idealista cujo corpo se dá conta do mundo exterior em cuja realidade sua inteligência não acredita, o mesmo eu que me fizera cumprimentá-la antes de a ter identificado, apressava-se em fazer-me apanhar a bola que ela me passava (como se ela fosse uma camarada com quem viera jogar, e não uma alma irmã a quem viera reunir-me), fazia-me dizer-lhe por educação, até a hora da despedida, mil frases amáveis e insignificantes, impedindo-me assim de guardar o silêncio durante o qual poderia tocar na imagem urgente e extraviada ou de lhe dizer as palavras que imprimiriam a nosso amor o progresso decisivo e que eu sempre me via obrigado a adiar para a tarde seguinte. No entanto, ainda havia algum progresso. Um dia em que fôramos com Gilberte até a tenda de nossa vendedora, sempre muito amável conosco — pois era dela que o sr. Swann comprava o seu pão de especiarias, o qual consumia em grande quantidade, como regime, por sofrer de um eczema étnico e da prisão de ventre dos Profetas —, Gilberte mostrava-me, a rir, dois meninos que eram como o pequeno colorista e o pequeno naturalista dos livros infantis. Pois um não queria saber de um pirulito vermelho porque preferia o violeta, e o outro, com lágrimas nos olhos, recusava a ameixa que a criada queria comprar, porque, acabou por dizer num tom apaixonado: “Gosto mais da outra ameixa, porque tem um bicho!”. Comprei duas bolitas de um sou. E contemplava com admiração, luminosas e cativas numa vasilha isolada, as bolitas de ágata que me pareciam uma preciosidade, porque eram sorridentes e loiras como as raparigas e porque custavam cinquenta cêntimos cada uma. Gilberte, a quem davam muito mais dinheiro que a mim, perguntou-me qual delas eu achava mais bonita. Tinham a transparência e o matiz da vida. Não desejaria o sacrifício de nenhuma. Gostaria que ela pudesse comprá-las, libertá-las todas. No entanto, designei-lhe uma que tinha a cor de seus olhos. Gilberte a apanhou, procurou-lhe o raio dourado, acariciou-a, pagou o seu resgate, mas em seguida entregou-me a sua cativa, dizendo: “Tome, é sua, guarde-a como lembrança minha”.
     De outra feita, sempre preocupado com o desejo de ouvir a Berma numa peça clássica, perguntei-lhe se ela não possuía uma brochura em que Bergotte falava de Racine, e que já não se encontrava nas livrarias. Pediu-me que lhe lembrasse o título exato, e na mesma noite lhe dirigi um telegrama, escrevendo no envelope aquele nome de Gilberte Swann que tantas vezes traçara em meus cadernos. No dia seguinte ela me trouxe, num pacote atado com fitas cor de malva e selado a lacre branco, a brochura que mandara procurar. “Veja bem que é mesmo o que me pediu”, disse ela, tirando do regalo o telegrama que eu lhe mandara. Mas no endereço daquele pneumático — que ainda ontem não era nada mais que um bilhete expresso que eu lhe escrevera, e que, depois que um mensageiro o entregara ao porteiro de Gilberte e um criado o levara até seu quarto, se havia tornado essa coisa sem preço, um dos expressos que ela recebera naquele dia — tive dificuldade em reconhecer as linhas vagas e solitárias de minha letra sob os círculos impressos que lhe apusera o correio, sob as inscrições que acrescentara a lápis um dos carteiros, signos de realização efetiva, selos do mundo exterior, roxos anéis simbólicos da vida, que pela primeira vez vinham esposar, manter, reanimar, alegrar meu sonho.

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[1] O Journal des Débats politiques et littéraires foi fundado em 1789. Jornal republicano conservador, moderado e respeitável, ele se torna “republicano e liberal” em 1895 e desaparece em 1944. [n. e.]
[2] Referência ao Camp du Drap d’Or, lugar de um célebre encontro entre o rei francês Francisco I e o rei inglês Henrique III, que tentavam consolidar uma aliança contra Carlos V. Lembre-se que o tema dessa rivalidade está presente no primeiro parágrafo do livro. [n. e.]


sábado, 1 de fevereiro de 2025

Marcel Proust - No Caminho de Swann (IV - nomes de terras: o nome, Dentre os quartos - a)

em busca do tempo perdido


volume I
No Caminho de Swann

ao senhor gaston calmette
como um testemunho de profundo e afetuoso reconhecimento
— marcel proust

nomes de terras: o nome

IV(a) 

     Dentre os quartos cuja imagem eu mais seguidamente evocava em minhas noites de insônia, nenhum se parecia menos com os quartos de Combray, polvilhados de uma atmosfera granulosa, polinizada, comestível e devota, do que o do Grande Hotel da Praia, em Balbec, cujas paredes esmaltadas continham, como as de uma piscina onde a água azuleja, um ar puro, azul e salino.[1] O tapeceiro bávaro encarregado do arranjo daquele hotel tinha variado a decoração das peças e, naquela que eu habitava, estendera ao longo de três paredes umas estantes baixas, com vidraças, nas quais, segundo o lugar que ocupavam, e por um efeito que ele não previra, vinha refletir-se tal ou tal parte do cenário mutável do mar, desenrolando assim um friso de claras marinhas, apenas interrompido pela armação de acaju. Tanto assim que toda a peça tinha o aspecto de um desses dormitórios modelos que se apresentam nas exposições de móveis modern style, ornados com obras de arte que se supõe alegrarão os olhos de quem ali dormir e cujos motivos são adequados ao local onde deve encontrar-se a habitação.
     Mas também nada se assemelhava menos ao Balbec real do que aquele com que eu tantas vezes sonhara, nos dias de tempestade, quando o vento era tão forte que Françoise, levando-me aos Campos Elísios, me recomendava não andasse muito perto das paredes para que não me caísse uma telha na cabeça e falava lamuriosamente dos grandes sinistros e naufrágios que vinham nos jornais. O meu maior desejo era ver uma tempestade no mar, não tanto como um belo espetáculo, mas como a revelação de um instante da verdadeira vida da natureza; ou antes, para mim só eram belos os espetáculos que eu sabia não terem sido artificialmente arranjados para me agradar, mas que eram necessários e imutáveis — a beleza das paisagens ou das grandes obras de arte. Apenas tinha curiosidade e avidez daquilo que julgava mais verdadeiro que o meu próprio ser, aquilo que tinha para mim o valor de me mostrar um pouco do pensamento de um grande gênio, ou da força ou graça da natureza, tal qual se manifesta quando entregue a si mesma sem intervenção humana. Assim como o lindo som de uma voz, isoladamente reproduzido pelo fonógrafo, não nos consolaria da perda de nossa mãe, uma tempestade mecanicamente imitada me deixaria tão indiferente como as fontes luminosas da Exposição.[2] Desejaria também, para que a tempestade fosse absolutamente verdadeira, que a própria costa fosse uma costa natural, e não um dique recentemente criado por alguma municipalidade. Aliás, a natureza, por todos os sentimentos que despertava em mim, me parecia o que havia de mais oposto às produções mecânicas dos homens. Quanto menos trazia a sua marca, mais espaço oferecia à expansão de minha alma. E sucedia que eu conservava o nome de Balbec, que nos citara Legrandin, como o de uma praia muito próxima daquelas “costas fúnebres, famosas por tantos naufrágios, envoltas durante seis meses do ano pela mortalha das brumas e a espuma das vagas”.[3]

“Ainda sentimos sob os pés”, dizia ele, “muito mais que no próprio Finisterra (e ainda mesmo que os hotéis ali se superponham agora, sem poder modificar a mais antiga ossatura da terra), ali sentimos o verdadeiro fim da terra francesa, europeia, da Terra antiga. E é o último acampamento de pescadores, semelhantes a todos os pescadores que viveram desde o começo do mundo, em face do reino eterno das névoas e das sombras”.

     Um dia, em Combray, quando eu falava diante do sr. Swann naquela praia de Balbec, a fim de saber dele se era o lugar mais adequado para assistir às tempestades mais violentas, ele respondeu: “Creio que conheço Balbec! A igreja de Balbec, dos séculos XII e XIII, ainda metade romana, é talvez a mais curiosa amostra do gótico normando, e tão singular… dir-se-ia arte persa”. E aqueles lugares que até então me haviam parecido natureza imemorial, ainda contemporânea dos grandes fenômenos geológicos — e tão fora da história humana como o Oceano ou a Ursa Maior, com aqueles selvagens pescadores, para quem, tanto como para as baleias, não existira Idade Média —, foi para mim um grande encanto vê-los entrar de súbito na série dos séculos, tendo conhecido a época romana, e saber que o trevo gótico viera nervurar aqueles rochedos selvagens na hora devida, como essas plantas franzinas mas vivazes que, ao chegar a primavera, quebram aqui e ali a neve polar. E se o gótico trazia àqueles lugares e àqueles homens certa fixação que lhes faltava eles também lhe conferiam outra em retorno. Eu procurava imaginar como tinham vivido aqueles pescadores, o tímido e insuspeitado ensaio de relações sociais que ali haviam tentado, durante a Idade Média, amontoados num ponto das costas do Inferno, ao pé dos penhascos da morte; e mais vivo me parecia o gótico, agora que, separado das cidades onde até então o imaginara, eu podia ver como, num caso particular, sobre selvagens rochedos, havia germinado e florescido num fino campanário. Levaram-me a ver reproduções das mais famosas estátuas de Balbec, os apóstolos de cabelo crespo e nariz curto, a Virgem do pórtico, e, de pura alegria, parava-me a respiração no peito quando eu pensava que poderia vê-los modelarem-se em relevo sobre o fundo da bruma eterna e salgada. Então, pelas noites tempestuosas e frescas de fevereiro, o vento — soprando em meu coração, a que não fazia estremecer menos que a lareira de meu quarto, o projeto de uma viagem a Balbec — mesclava em mim o desejo da arquitetura gótica como o de uma tempestade no mar.
     Desejaria tomar logo no dia seguinte o belo e generoso trem da uma e vinte e dois, cujo horário de partida eu não podia ler nos prospectos das companhias ferroviárias sem que o meu coração palpitasse: essa hora parecia abrir num ponto preciso da tarde uma saborosa incisão, um signo misterioso a partir do qual as horas desviadas, embora conduzissem à noite e à manhã seguintes, já não transcorreriam em Paris, mas sim numa das cidades por onde o trem passa e entre as quais ele nos permitia fazer uma escolha; pois parava em Bayeux, Coutances, Vitré, Questambert, Pontorson, Balbec, Lannion, Lamballe, Benodet, Pont-Aven, Quimperlé, e avançava magnificamente sobrecarregado de nomes que me oferecia e entre os quais eu não sabia qual escolher, na impossibilidade de sacrificar um só que fosse.[4] Mas, mesmo sem esperá-lo, poderia, vestindo-me às pressas, partir pelo noturno, se meus pais deixassem, e chegar a Balbec quando a madrugada se erguesse sobre o mar furioso, de cuja espuma arrebatada eu me iria refugiar na igreja de estilo persa. Mas a aproximação das férias da Páscoa, que meus pais me prometeram fazer passar uma vez no Norte da Itália, eis que a esses sonhos de tempestade, que inteiramente me haviam enchido a alma, só desejosa de não ver mais que vagas acorrendo de todos os pontos, cada vez mais alto, sobre a costa mais selvagem, perto de igrejas escarpadas e rugosas como rochedos, em cujas torres gritassem os pássaros marinhos, eis que de súbito, apagando-os, tirando-lhes todo encanto, excluindo-os porque lhe eram opostos e só poderiam enfraquecê-los, vinha substituí-los o sonho contrário da mais irisada primavera, não a primavera de Combray, ainda acremente picada de todas as agulhas da geada, mas aquela que já cobria de lírios e anêmonas os campos de Fiesola e ofuscava Florença com fundos de ouro como os de Fra Angelico.[5] Desde então, só me pareciam ter algum valor os raios de luz, os perfumes, as cores; pois a alternância das imagens produzira em mim uma mudança de face do desejo e — tão brusca como as que às vezes há em música — uma completa mudança de tom em minha sensibilidade. Depois acontecia que uma simples variação atmosférica rica bastasse para provocar em mim essa modulação sem que houvesse necessidade de aguardar o retorno de uma estação do ano. Pois muitas vezes encontramos perdido em uma delas um dia de outra estação, à qual nos transporta e cujos prazeres particulares nos evoca e faz desejar, e nos vem interromper os sonhos que formávamos, colocando, aquém ou além do seu lugar, no calendário interpolado da Felicidade, essa folha arrancada de um outro capítulo. Mas em breve, como esses fenômenos naturais de que só podemos tirar um proveito acidental e assaz minguado para a nossa saúde ou conforto até o dia em que a ciência deles se apodera e, produzindo-os à vontade, coloca em nossas mãos a possibilidade do seu aparecimento, enfim subtraído à tutela e capricho do acaso, assim a produção daqueles sonhos de Atlântico e de Itália deixou de estar unicamente submetida às mudanças das estações e do tempo. Para fazê-los renascer, bastava-me pronunciar estes nomes: Balbec, Veneza, Florença, no interior dos quais acabara por se acumular o desejo que me haviam inspirado os lugares que eles designavam. Mesmo na primavera, encontrar nalgum livro o nome de Balbec era o suficiente para me despertar o desejo das tempestades e do gótico normando; mesmo num dia de tempestade, o nome de Florença ou de Veneza me dava o desejo do sol, dos lírios, do palácio dos Doges e de Santa Maria das Flores.
     Mas se esses nomes absorveram para sempre a imagem que eu formava dessas cidades, assim o fizeram transformando-as e submetendo às suas próprias leis o seu reaparecimento em mim; tiveram por consequência tornar essa imagem mais bela, mas também mais diferente daquilo que as cidades da Normandia e da Toscana podiam ser na realidade, e agravar a futura decepção de minhas viagens com o incremento que davam às alegrias arbitrárias de minha imaginação. Exalçavam a ideia que eu fazia de certos lugares da Terra, tornando-os mais particulares e por conseguinte mais reais. Não imaginava então as cidades, as paisagens, os monumentos, como quadros mais ou menos agradáveis, recortados aqui e ali numa mesma matéria, mas cada um deles como um desconhecido, essencialmente diferente dos outros, por que minha alma ansiava e que lhe seria proveitoso conhecer. E quanto não adquiriam de mais individual ainda, por serem designados por nomes, nomes que eram só para eles, nomes como os têm as pessoas! O que as palavras nos apresentam das coisas é uma imagem clara e usual como essas que se dependuram nas paredes das escolas para dar às crianças o exemplo do que é um banco, um pássaro, um formigueiro, coisas tidas como semelhantes a todas as do mesmo gênero. Mas os nomes apresentam das pessoas — e das cidades que nos habituam a julgar individuais e únicas como pessoas — uma imagem confusa que extrai deles, da sua sonoridade deslumbrante ou sombria, a cor com que vem uniformemente pintada, como nesses cartazes, inteiramente azuis ou inteiramente vermelhos, em que, devido aos limites do processo empregado ou a um capricho do cenógrafo, são azuis ou vermelhos, não somente o céu e o mar, mas os barcos, a igreja, os transeuntes. Como o nome de Parma, uma das cidades aonde eu mais desejava ir desde que lera La Chartreuse, me aparecia compacto, liso, malva e suave, quando me falavam de uma casa qualquer de Parma onde eu seria hospedado, davam-me o prazer de pensar que habitaria uma casa lisa, compacta, malva e suave, que nada tinha de comum com as moradias de nenhuma cidade da Itália, pois a imaginava somente com o auxílio dessa pesada sílaba do nome de Parma, onde não circula nenhum ar, e de tudo o que eu lhe fizera absorver de doçura stendhaliana e do reflexo das violetas. E quando pensava em Florença, era como numa cidade miraculosamente perfumada e semelhante a uma corola, porque se chamava a cidade dos lírios, e sua catedral, Santa Maria das Flores. Quanto a Balbec, era um desses nomes em que ainda se viam pintar, como sobre uma velha cerâmica normanda que conserva a cor da terra de que foi tirada, a representação de algum costume abolido, algum direito feudal, o antigo aspecto de um lugar, uma pronúncia obsoleta, causada por suas sílabas heteróclitas e que eu não duvidava encontrar até no estalajadeiro que me serviria café com leite à minha chegada e me levaria a ver o mar encapelado à frente da igreja e a quem eu emprestava o aspecto disputador, solene e medieval de uma personagem de fabliau.
     Se minha saúde se firmasse e meus pais me permitissem, se não uma estada em Balbec, ao menos, a fim de conhecer a arquitetura e as paisagens da Normandia ou da Bretanha, que tomasse uma vez aquele trem da uma e vinte e dois, no qual tantas vezes já embarcara em imaginação, eu desejaria de preferência parar nas cidades mais belas; mas, por mais que as comparasse, como escolher, tal como entre indivíduos que nos é impossível trocar um por outro, como escolher entre Bayeux, tão alta nas suas nobres rendas de tom vermelho e cujo cimo era iluminado pelo ouro velho da sua última sílaba; Vitré, cujo acento agudo losangava de madeira negra a antiga vidraria; a suave Lamballe, que, no seu branco, vai do amarelo casca de ovo ao gris-pérola; Coutances, catedral normanda, a que o ditongo final, gorduroso e amarelo, coroava de uma torre de manteiga; Lannion, com o rumor, em seu silêncio aldeão, do coche seguido pela mosca; Questambert, Pontorson, risíveis e ingênuas, penas brancas e bicos amarelos espalhados pela estrada daqueles lugares fluviais e poéticos; Benodet, nome quase sem amarras, que o rio parece querer arrastar para o meio de suas algas; Pont-Aven, voo branco e róseo da asa de uma leve touca que tremulamente se reflete numa água esverdinhada de canal; Quimperlé, este mais preso, e desde a Idade Média, entre os arroios com que murmura e se emperla numa grisalha igual à que desenham, através das teias de aranha de um vitral, os raios de sol transformados em desgastadas pontas de prata brunida?
     Essas imagens eram falsas ainda por outro motivo; é que eram forçosamente muito simplificadas; sem dúvida, aquilo a que minha imaginação aspirava e que meus sentidos só percebiam no presente de modo incompleto e sem prazer nenhum, eu o havia encerrado no refúgio dos nomes; e como eu ali acumulara sonho, esses nomes imantavam agora os meus desejos; mas os nomes não são muito vastos; quando muito, podia introduzir neles duas ou três das “curiosidades” principais da cidade, onde elas se justapunham sem nada de permeio; no nome de Balbec, como no vidro de aumento das canetas que a gente compra de lembrança nas praias, eu percebia vagas alvorotadas em torno de uma igreja de estilo persa. Pode ser até que a simplificação dessas imagens fosse uma das causas do domínio que tomaram sobre mim. Quando meu pai resolveu, um ano, que fôssemos passar as férias da Páscoa em Florença e em Veneza, não tendo como fazer entrar no nome de Florença os elementos que habitualmente compõem as cidades, fui obrigado a tirar uma cidade sobrenatural da fecundação, por certos aromas primaveris, do que eu supunha constituir, em essência, o gênio de Giotto. Em suma — e visto que não se pode fazer com que caiba em um nome muito mais duração que espaço —, como em certos quadros de Giotto que apresentam em dois momentos diversos da ação uma mesma personagem, aqui deitada no leito, ali preparando-se para montar a cavalo, o nome de Florença achava-se dividido em dois compartimentos. Num deles, sob um dossel arquitetônico, eu contemplava um afresco a que estava parcialmente superposta uma faixa de sol matinal, poeirenta, oblíqua e progressiva; no outro (pois não considerando os nomes como um ideal inacessível e sim como uma ambiência real em que iria mergulhar, a vida ainda não vivida, a vida intata e pura que eu neles encerrava dava aos prazeres mais materiais, às cenas mais simples, essa atração que têm nas obras dos primitivos) atravessava eu rapidamente — para acorrer mais depressa ao almoço que me esperava com frutas e vinho de Chianti, a Ponte Vecchio entulhada de junquilhos, narcisos e anêmonas. Era isso (embora me achasse em Paris) o que eu via, e não o que estava em redor de mim. Mesmo sob um simples ponto de vista realista, as terras que desejamos ocupam a cada momento muito mais espaço em nossa vida verdadeira do que a terra onde efetivamente nos achamos. Se eu mesmo tivesse prestado mais atenção, naquela época, ao que havia em meu pensamento quando pronunciava as palavras “ir a Florença, a Parma, a Pisa, a Veneza”, por certo me daria conta de que aquilo que eu via não era absolutamente uma cidade, mas alguma coisa de tão diferente de tudo quanto conhecia, de tão delicioso, como o poderia ser para uma humanidade cuja vida sempre houvesse decorrido em fins de tardes de inverno esta maravilha desconhecida: uma manhã de primavera. Aquelas imagens irreais, fixas, sempre iguais, enchendo-me as noites e os dias, diferenciaram aquela época de minha vida das que a precederam (e que poderiam confundir-se com ela aos olhos de um observador que só vê as coisas de fora, isto é, que não vê nada), como um motivo melódico introduz numa ópera uma novidade que a gente não poderia suspeitar se se limitasse a ler o libreto, e menos ainda se ficasse fora do teatro a contar os quartos de hora que passavam. E ainda, mesmo do ponto de vista puramente quantitativo, em nossa vida os dias não são iguais. Para percorrer os dias, as naturezas um pouco nervosas, como era a minha, dispõem, como os automóveis, de “velocidades” diferentes. Há dias montuosos e difíceis, que se leva um tempo infinito a subir, e dias em declive, que se deixam descer num ímpeto, cantando. Durante aquele mês — em que eu repassava como uma melodia, sem poder saciar-me, aquelas imagens de Florença, de Veneza e de Pisa, e em que o desejo que despertavam em mim tinha alguma coisa de tão profundamente individual como se se tratasse de um amor, um amor por uma pessoa — não deixei de acreditar que correspondiam a uma realidade independente de mim, e deram-me a conhecer uma esperança tão bela como a que poderia alimentar um cristão dos primeiros tempos na véspera de entrar no paraíso. Assim, sem me importar com a contradição que havia em querer olhar e tocar, com os órgãos dos sentidos, o que fora elaborado pelo sonho e não percebido por eles — e tanto mais tentador para os sentidos por ser diferente de tudo o que eles conheciam —, era isso mesmo que me lembrava a realidade daquelas imagens e que mais me inflamava o desejo, porque era como uma promessa que seria cumprida. E embora a minha exaltação tivesse por motivo um desejo de gozo artístico, os guias o alimentavam ainda mais que os livros de estética e, mais que os guias, os indicadores das estradas de ferro. O que me comovia era pensar que aquela Florença que eu via próxima mas inacessível, em minha imaginação, se o trajeto que a separava de mim, em mim mesmo, não era viável, eu poderia atingi-la por um atalho, por um desvio, tomando o “caminho de terra”. Por certo, quando me repetia, dando assim tanto valor ao que ia ver, que Veneza era “a escola de Giorgione, a morada de Ticiano, o mais completo museu de arquitetura doméstica da Idade Média”,[6] sentia-me feliz. Era-o no entanto ainda mais quando, saindo para uma caminhada, e andando depressa por causa do tempo que, depois de alguns dias de primavera, se tornara de novo um tempo de inverno (como o que encontrávamos habitualmente em Combray na Semana Santa) — ao ver nos bulevares os castanheiros que, mergulhados num ar glacial e líquido como água, nem por isso deixavam, convidados pontuais, já preparados, a quem nada desanima, de ir arredondando e cinzelando em seus blocos congelados a irresistível verdura cujo progressivo ímpeto o poder abortivo do frio contrariava mas não conseguia refrear —, eu pensava que já a Ponte Vecchio estava juncada de jacintos e anêmonas e que o sol da primavera já tingia as ondas do Grande Canal de um azul tão sombrio e tão nobres esmeraldas que, vindo quebrar-se ao pé das pinturas de Ticiano, podiam com elas rivalizar em riqueza de colorido. Não mais pude conter a alegria quando meu pai, consultando o barômetro e deplorando o frio, começou a procurar quais seriam os melhores trens, e quando compreendi que, penetrando após o almoço no laboratório fumoso, na sala mágica que se encarregava de operar a transmutação em redor de si, poderia a gente acordar no dia seguinte na cidade de mármore e ouro “recamada de jaspe e calçada de esmeraldas”.[7] Assim, ela e a cidade dos lírios não eram apenas quadros fictícios que a gente pusesse à vontade diante da imaginação, mas existiam a certa distância de Paris que urgia absolutamente franquear se quiséssemos vê-las, em certo lugar determinado da terra, e em nenhum outro, numa palavra, eram bem reais. E ainda mais reais se tornaram para mim quando meu pai, ao dizer-nos: “Em suma, podem ficar em Veneza de 20 a 29 de abril e chegar a Florença na manhã de Páscoa”, fê-las sair a ambas, não só do Espaço abstrato, mas desse tempo imaginário onde situamos não uma única viagem de cada vez, mas outras, simultâneas e sem grande emoção, por serem apenas possíveis — esse Tempo que tão bem se refabrica que o podemos passar numa cidade depois de o ter passado em outra — e consagrou a elas esses dias particulares que são o significado de autenticidade dos objetos nos quais os empregamos, pois esses dias únicos se gastam com o uso, já não podemos vivê-los aqui depois de os ter vivido acolá; senti que era para a semana a iniciar-se na segunda em que a lavadeira devia trazer o colete branco que eu manchara de tinta, que se dirigiam, a fim de ali se absorverem, ao sair do tempo ideal onde ainda não existiam, aquelas duas Cidades Rainhas cujos domos e torres eu ia inscrever, na mais emocionante das geometrias, dentro do plano da minha própria vida. Mas ainda me achava a caminho do auge da alegria; atingi-o afinal (pois só nesse momento tive a revelação de que, pelas ruas marulhosas, avermelhadas pelo reflexo dos afrescos de Giorgione, não eram, como eu continuara a imaginar apesar de tantas advertências, os homens majestosos e terríveis como o mar, trazendo, sob as dobras do manto sangrento, a sua armadura de reflexos de bronze” que passeariam em Veneza na semana próxima, às vésperas da Páscoa, mas de que poderia ser eu a minúscula personagem que, numa grande reprodução de São Marcos que me haviam emprestado, o ilustrador representara de chapéu-coco, diante dos pórticos), quando ouvi meu pai dizer-me: “Ainda deve fazer frio no Grande Canal; farias bem em pôr na mala, para o que der e vier, o teu sobretudo e o teu casaco grosso”. A estas palavras, elevei-me a uma espécie de êxtase; e, o que até então julgara impossível, senti que verdadeiramente penetrava entre aqueles “rochedos de ametista semelhantes a um recife do mar das Índias”; numa ginástica suprema e acima de minhas forças, despindo-me, como de uma carapaça sem utilidade, do ar de meu quarto que me cercava, substituí-o por partes iguais de ar veneziano, aquela atmosfera marinha, indizível e particular como a dos sonhos que minha imaginação encerrara no nome de Veneza; senti operar-se em mim uma miraculosa desencarnação; veio juntar-se-lhe em seguida essa vaga ânsia de vômito que se sente ao apanhar uma forte dor de garganta, e tiveram de meter-me no leito com uma febre tão tenaz, que o doutor declarou que era preciso renunciar, não só a deixar-me partir agora para Florença e Veneza, mas, mesmo quando estivesse inteiramente restabelecido, evitar-me, pelo menos durante um ano, qualquer projeto de viagem e qualquer causa de agitação.
 
continua na página 255...
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Leia também:

Volume 1
No Caminho de Swann (IV - nomes de terras: o nome, Dentre os quartos - a)
Volume 2
Volume 3
Volume 4
Volume 5
Volume 6
Volume 7
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[1] A menção à futura viagem à praia de Balbec, presente nos diálogos do pai do herói com Legrandin em “Combray”, aparece aqui sob a forma da antecipação do quarto que muito mais tarde o herói encontrará naquele hotel. [n. e.]
[2] Referência às fontes instaladas no Campo de Marte por Bechmann para a Exposição Universal de Paris, no ano de 1889. [n. e.]
[3] Citação quase literal das palavras de Legrandin, retomando uma referência do livro Pierre Nozière, de Anatole France, e do livro Souvenirs d’enfance et de jeunesse, de Renan. [n. e.]
[4] A enumeração de nomes de cidades da região da Normandia e da Bretanha contém o nome “Balbec”, cidade fictícia a que o herói vai ainda duas vezes. Além disso, nenhuma linha de trem conseguiria passar pela sequência de todas as cidades enumeradas. [n. e.] 
[5] Guido di Fra Angelico (1400?-55), célebre por seus “fundos de ouro”, decorou o convento de San Marco, em Florença. [n. e.] 
[6] Citação quase literal de passagens dos livros Modern painters e Stones of Venice, do crítico inglês John Ruskin. Este último, traduzido para o francês por Mathilde Crémieux, recebeu resenha feita por Proust. [n. e.]
[7] Novo empréstimo a Ruskin, em Stones of Venice. A passagem está semeada de referências à obra daquele que mobilizou grande parte do interesse artístico de Proust sobre arquitetura e pintura e de quem ele traduziu e publicou duas obras em parceria com sua mãe e com sua amiga Marie Nordingler. [n. e.]